sábado, 10 de janeiro de 2015

Roberto Carlos e a construção de um mito


A polêmica da vez na MPB, na brilhante análise de Ricardo Alexandre em seu blog:

Roberto Carlos está só começando a pagar por seu desprezo pelo jornalismo e pela história


O assunto musical dos últimos dias tem sido o docudrama Tim Maia: Vale O Que Vier, produzido pela Rede Globo, misturando trechos do filme Tim Maia de Mauro Lima, reconstituições inéditas e depoimentos exclusivos. Apesar da boa audiência (24 pontos, 51% de participação em São Paulo), o especial corre o risco de ser lembrado como uma “falsificação da biografia de Tim Maia” (segundo o DCM) que “limpou a barra de Roberto Carlos” (como definiu a Veja), que “protege Roberto Carlos e corta desprezo por Tim Maia” (UOL), que “mutilou e contradisse Tim Maia” (Pipoca Moderna).

O ponto principal da polêmica é o papel de Roberto Carlos na(s) trama(s). Em Tim Maia, o filme, o cantor capixaba é uma espécie de “inimigo favorito” de Tim desde os tempos de adolescência. Um pupilo ingrato, a quem o Síndico teria ensinado boa parte de seus truques, mas que, com o cetro e a coroa de Rei, teria sido incapaz de ajudar o amigo em dificuldades. Na “recriação do filme” da Globo, Roberto, Erasmo e o personagem narrador (Tim Maia, interpretado pelo mesmo ator Babu Santana do cinema) garantem, em resumo, que o Brasa foi tão generoso quanto possível em relação a Tim e que, literalmente, “lançou o gordinho mais querido do Brasil” ao gravar “Não Vou Ficar” em 1969.

Bem, não vou entrar nessa discussão. Você pode acreditar em quem quiser. Se na versão de Roberto Bonzinho da Globo ou na versão Roberto Malvado dos cinemas (que, na realidade, tem raízes no livro Roberto Carlos em Detalhes de Paulo César Araújo, que publicou pela primeira vez a cena forte de Roberto ordenando para alguém de seu staff que jogasse “um dinheiro aí pro Tião”). Até porque Tim Maia não está aí para ser confrontado nem ouvido, assim como Nice Rossi, que de acordo com os adeptos da corrente do Roberto Malvado, teria sido a verdadeira responsável pela primeira chance de Tim numa gravadora.

Acredite em quem você quiser. Eu tenho pesquisado profundamente o período 1968-1972 da música pop brasileira, do qual tanto um quanto outro são personagens fundamentais, para o meu próximo livro e, depois de entrevistar gente o suficiente e pesquisar em fontes suficientes, tenho uma versão muito mais segura, saborosa e diferente das versões dicotômicas na mesa. Mas não é este meu assunto hoje. Meu assunto é que Roberto Carlos está apenas começando a pagar pelo seu desprezo histórico pelo jornalismo, pelo tanto que esnobou a história e o registro de sua própria figura como parte da cultura popular brasileira.

Quando surgiu como ídolo popular, em meados dos anos 1960, Roberto colaborava com a imprensa de celebridades. Sabemos tudo sobre sua vida íntima, seus amores, suas excentricidades, seus carros, suas casas, seus casamentos. Sobre quando cultivou bigode, sobre onde comprava suas roupas psicodélicas e como cortava seu cabelo. Sobre o sapo que atropelou ou sobre como fala com as plantas. Sabemos dos disfarces que usava para sair à rua e sobre seus pratos favoritos. Mas você nunca viu o Roberto falando sobre música, sobre suas influências, sobre os discos que ouvia ou os músicos com os quais trabalhou. Tim Maia, você já viu falando sobre isso. Já leu, já ouviu.

Roberto entende de jornalismo de celebridades. Para você ter uma ideia, quando ele se tornou ídolo em São Paulo, trouxe do Rio um secretário particular, Nichollas Mariano, a quem convenceu a que se apresentasse como “mordomo” justamente para reforçar para os jornalistas que acampavam na porta de seu apartamento a imagem de nobreza que seu epíteto de “Rei” inspirava. Foi só quando começou a trabalhar com o empresário Marcos Lázaro, em 1967, que este o convenceu a abrir o castelo para a imprensa cultural que surgia, levando jornalistas a turnês pelo Brasil e negociando entrevistas exclusivas. É desta curta fase o pouco de relevante que se publicou sobre Roberto na imprensa brasileira, n’O Pasquim, n’O Bondinho, na revista Realidade e na Intervalo.

Entretanto, a medida que os anos 1970 avançavam, Roberto descobriu um jeito muito mais simples de lidar com a imprensa escrita: negociando exclusivas com a maior revista semanal da época, a Manchete, em troca de cobertura desbragadamente favorável de sua vida e carreira (é da revista a inacreditável manchete a respeito da separação de Roberto e Nice: “nossa separação foi um ato de amor”). E descobriu uma maneira ainda mais simples e prática de lidar com a imprensa eletrônica: dando as sempre patéticas entrevistas anuais ao jornalismo da TV Globo, emissora da qual é contratado – uma vergonha para o jornalismo da Globo, claro, mas cujas consequências para a própria carreira Roberto é incapaz de perceber.

Fora disso, Roberto tornou-se especialista em falar sem dizer nada (nas minhas pesquisas, encontrei uma entrevista sensacional do cantor a favor e contra a censura ao mesmo tempo, no início dos anos 1970) e a pintar qualquer assunto daquela mesma cor azul-espírita indefinida que adorna sua comunicação visual há décadas.

O mais irônico (e triste) é que a carreira de Roberto Carlos ascendeu precisamente junto com a ascensão da cultura pop e do jornalismo de rock. Foi aí que a cobertura de música popular deixou os cadernos de celebridade e passou a ser vista como um fenômeno ao mesmo tempo artístico e comportamental. A Rolling Stone, o Jornal da Tarde, o Luiz Carlos Maciel, a Ilustrada, a Pop, o Sábado Som de Nelson Motta, a Bizz e a MTV, as listas de melhores de todos os tempos, as biografias e as reedições comemorativas são frutos dessa cultura.

Roberto não só não entende essa cultura como a despreza. Nega entrevistas a jornalistas musicais sérios, mas não recusa receber Gloria Maria para que ela trate seu TOC como mais uma excentricidade, como fez em 2002 em rede nacional. Manda recolher a única tentativa de tratar sua carreira com seriedade acadêmica, Roberto Carlos em Detalhes, porque ele quer a reserva de mercado em publicar sua autobiografia: “Eu estou escrevendo a minha história e informando muito mais as pessoas sobre a minha vida e sobre as minhas coisas do que qualquer outra fonte”, disse ao Fantástico em 2013.

Com todo respeito às suas dores, Roberto, ninguém está nem aí para a sua vida e suas coisas. Mas estamos há 50 anos querendo saber o que você ouvia, em como moldou sua música, como gravou seus clássicos, como concebeu seus shows no Canecão, em como recebeu os arranjadores e produtores de seus álbuns, em como Tim Maia te ensinou a tocar, como ele influenciou na sua “fase soul” e como decidiu gravar “Não Vou Ficar”.

Hoje Roberto é visto como um artista violento que usa de seu poder para processar professores, embargar obras e censurar artistas. Um compositor que não compõe, um cantor que se contenta em reempacotar gravações velhas com capas novas e horríveis. O garoto-propaganda que a Friboi demitiu, o desafeto de Tim Maia que precisou da Globo para mentir a seu favor.

O que há de justo e injusto nisso tudo? Como saber?


Paul McCartney dá entrevistas, curtas e longas, para revistas e para documentários, consulta colecionadores, escreve livros e deixa que escrevam livros. Mick Jagger dá entrevistas, Keith Richards dá entrevistas. Roberto processa biógrafos e acha que basta que saibamos que sua sobremesa favorita é sorvete. Nós sabemos como Paul McCartney, Mick Jagger, Keith Richards e Tim Maia desenvolveram sua obra. De Roberto, não sabemos nada que importa.

Com a obsessão da cultura pop por seu passado, Roberto está começando a pagar por sua própria visão utilitarista do jornalismo e da história. E vai pagar cada vez mais caro, especialmente quando não estiver mais aqui para dar a versão que passou a vida se negando a dar.



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O futuro incerto da religião


Depois do atentado islâmico à revista francesa Charlie Hebdo, é tempo de reler e debater a matéria abaixo, publicada na BBC Brasil em 31/12/14, e se questionar:

As religiões vão desaparecer no futuro?


Rachel Nuwer

Um número cada vez maior de pessoas – milhões delas, em todo o mundo – diz acreditar que a vida definitivamente acaba depois da morte e que não existe Deus nem um plano divino. Esse movimento parece estar ganhando força. Aliás, em alguns países, o ateísmo assumido nunca foi tão popular.

"Há muito mais ateus no mundo hoje do que jamais houve, tanto em números absolutos quanto em porcentagem da humanidade", diz Phil Zuckerman, professor de sociologia e estudos seculares no Pitzer College, na Califórnia, e autor de Living the Secular Life ("Vivendo uma vida secular", em tradução livre).

Segundo uma pesquisa do instituto Gallup International, que entrevistou mais de 50 mil pessoas em 57 países, o número de indivíduos que se dizem religiosos caiu de 77% para 68% entre 2005 e 2011, enquanto aqueles que se identificaram como ateus subiram 3%, elevando a 13% a proporção dessa parcela.

Acadêmicos ainda estão tentando destrinchar os fatores complexos que levam um indivíduo ou uma nação ao ateísmo, mas existem alguns pontos em comum. Parte do apelo das religiões está na segurança que ela oferece em um mundo de incertezas.

Por isso, não por acaso, nações que registram maiores taxas de ateísmo tendem a ser aquelas que oferecem a seus cidadãos uma estabilidade econômica, política e existencial relativamente alta. Para Zuckerman, o capitalismo e o acesso à tecnologia e à educação também parecem ter relação com o declínio da religiosidade em algumas populações.

Sentido ao sofrimento


Japão, Grã-Bretanha, Canadá, Coreia do Sul, Holanda, República Tcheca, Estônia, Alemanha, França e Uruguai (onde a maioria dos cidadãos tem raízes europeias) são países onde a religião era importante há apenas um século, mas que agora mostram os menores índices de crença religiosa no mundo.

Mesmo assim, o declínio da fé parece ser global, inclusive em países que ainda são fortemente religiosos, como o Brasil, a Jamaica e a Irlanda.

Já os Estados Unidos estão entre os países mais ricos do mundo, mas também apresentam altas taxas de religiosidade. (Ainda assim, uma pesquisa recente da Pew revelou que, entre 2007 e 2012, o número de americanos que se declararam ateus subiu de 1,6% para 2,4%.)

"Declínio, no entanto, não quer dizer desaparecimento", argumenta Ara Norenzayan, psicólogo social da Universidade da Columbia Britânica em Vancouver, no Canadá, e autor de Big Gods ("Grandes Deuses", em tradução livre).

Para ele, a segurança existencial é mais vulnerável do que parece. E conforme as mudanças climáticas trouxerem destruição e os recursos naturais forem escasseando, o sofrimento e as dificuldades podem inflamar a religiosidade. "Por alguma razão, a religião parece dar um sentido ao sofrimento, muito mais do que qualquer ideal secular", diz o especialista.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Elvis Presley faria 80 anos hoje


Elvis Presley, o rei do rock, o homem que revolucionou a música popular moderna, se vivo fosse, completaria 80 anos de idade hoje, 8 de janeiro de 2015.

Pena que ele tenha nos deixado em 16 de agosto de 1977, quando tinha apenas 42 anos de idade.

Em homenagem ao maior de todos, dedicamos o vídeo abaixo, em que ele canta "Always on My Mind":




A incrível história do rapaz gay ex-muçulmano, hoje cristão, que mudou seu nome para João Calvino


John Calvin, atual nome do rapaz da foto acima, tem origem palestina, nascido numa família muçulmana de sobrenome Bilal e ligada ao Hamas. 

Homossexual desde que se entende por gente (segundo ele diz), se converteu ao cristianismo em 2010, o que lhe causou ser ameaçado de morte pelo pai e expulso de casa.

Hoje John Calvin busca refúgio no Canadá, que lhe foi negado (por enquanto).

Essa incrível história de vida é real e foi publicada na Folha de S. Paulo de 07/01/2015:

Minha História: gay e cristão, jovem foge de família ligada ao Hamas

DEPOIMENTO A
DIOGO BERCITO
EM ROMA

RESUMO
John Calvin, 24, nasceu na cidade palestina de Nablus em uma família de líderes do Hamas. Gay e cristão convertido, enfrentou desde jovem a autoridade de seus pais. Em 2010, fugiu para o Canadá, onde adotou o nome do teólogo cristão João Calvino. Hoje, ele luta para não ser deportado –o que, segundo ele, significaria a sua morte.

Venho de uma família influente em Nablus (Cisjordânia). Meu avô, Said Bilal, foi um dos fundadores da Irmandade Muçulmana na Palestina e na Jordânia. Cresci chamando Abd al-Fattah Dukhan, um dos fundadores do Hamas, de "avô".

Todos os meus tios são parte da liderança do Hamas. Dois deles estão na prisão, sentenciados a mais de uma vida detidos. Meu pai não esteve tão envolvido quanto eles no terrorismo.

Crescer foi horrível. Minha família sempre tinha alguém na cadeia, fazendo coisas ruins. Não temos uma refeição de família com todos em liberdade desde 1992. Soldados entravam e saíam o tempo todo das nossas casas.

Havia uma vantagem, que era ser tratado de maneira especial devido ao sobrenome do meu avô. Sou o primogênito da família, e havia grandes expectativas sobre mim.

Estudei doutrina islâmica e acumulei bastante conhecimento sobre o Alcorão, o livro sagrado do islã. Mas, aos 14 anos, desenvolvi meu próprio sentido de lógica, e as coisas pareciam contraditórias. Questionei minha família e, aos 16, parei de ser muçulmano. Vivia num limbo.

Foi uma grande decepção para a minha família. Briguei com o meu pai por isso, em 2006, e fugi para Israel, onde ele não poderia me encontrar.

Eu não tinha permissão para cruzar a fronteira. Fiquei uma semana em Tel Aviv, nas ruas, até me pegarem.

Como já tinham me detido três vezes, me mantiveram por alguns meses, mesmo sendo menor de idade.

Fiquei alguns meses detido em uma prisão especial. Havia um outro jovem de Nablus, e ele me estuprou.

AJUDA


A coisa que me surpreendeu foi como fui tratado pelos funcionários israelenses após ser estuprado. Parecia que todo mundo se dedicava a me ajudar. Contrataram um psiquiatra, pago pelo contribuinte israelense. Eles mostraram compaixão.

"Judeus dedicam a vida toda a destruir muçulmanos", me ensinaram. Eu vi que isso não era verdade.

Em Nablus, ninguém me ajudava. Eu não tinha amigos. Os funcionários do serviço social de Israel me ligavam discretamente.

Tentaram falar com minha mãe sobre o estupro, mas ela não quis ouvi-los. Preferiu fingir que não sabia falar inglês com eles.

Me converti ao cristianismo em 2010. Eu já não me considerava muçulmano desde os 16 anos. Li a Bíblia e fez mais sentido do que tudo o que eu tinha conhecido durante toda a minha vida.

Minha mãe me ouviu ao telefone pedindo a um padre para ser batizado. Meu pai brigou comigo. Foi a primeira vez em que ele tentou me matar. Ele tentou me esfaquear. Fugi e passei um tempo na igreja.

Fui detido por apostasia [quando alguém renuncia a uma religião] –em Nablus, eles chamaram isso de "perturbar a ordem", em termos oficiais.

Quando fui solto, minha mãe me disse que meu pai planejava me matar. Ela pediu para eu sair do país. Tive duas horas para fugir.

Graças a Deus, não tive problemas na fronteira, apesar de meu nome estar numa lista de pessoas procuradas. Havia um erro de digitação no passaporte.

REFÚGIO


Era 2010. Fui à Jordânia e, depois, recebi uma bolsa de estudos no Canadá. Pedi asilo, mas o governo canadense diz que não posso entrar com o pedido, porque fui membro de uma organização terrorista [o Hamas].

Eu disse, por outro lado, que meu envolvimento com a minha família não pode ser considerado como participar de um grupo terrorista.

Agora no Ano-Novo, me avisaram que tenho até 30 dias para pedir a revisão dessa decisão.

Um amigo começou uma petição on-line e uma arrecadação de fundos para pagar os custos legais e advogado. Não quero ir para outro lugar. O Canadá é o meu lar.

Ser deportado não é uma opção. Isso não pode acontecer. Mas estou otimista. O melhor cenário é conseguir um segundo julgamento. Voltar a Nablus significaria a morte, para mim, por apostasia e porque eu sou gay.

Eu sempre soube que era homossexual, mas não aceitava. Tinha necessidades e interações sexuais, por volta dos 15 anos, mas não tinha namorados. Só comecei a aceitar em 2012, no Canadá.

Não é possível ser gay em Nablus. Isso não é nem discutido. Só usamos essa palavra em xingamentos.

Quando contei à minha mãe, por telefone, ela me disse: "Eu não esperava que você pudesse me dar um desgosto pior do que ter se convertido. Há alguma coisa de ruim que você não é?"



quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

12 mortos em ataque de terroristas islâmicos a revista francesa

terror attack paris

O rescaldo do terrível evento ainda está em andamento e as informações por ora são desencontradas, mas dão conta de que pelo menos 12 pessoas morreram num ataque terrorista contra a revista "Charlie Hebdo", ocorrido hoje às 11h30 de Paris (8h30 de Brasília).

Neste momento, 11h de Brasília, autoridades policiais francesas confirmam que, além dos 12 mortos, há 4 pessoas feridas gravemente, enquanto 40 outros funcionários da revista estão a salvo.

O ATAQUE TERRORISTA


Segundo o que se apurou até agora, três atiradores encapuzados invadiram a sede da revista empunhando fuzis Kalashnikov e passaram a atirar indiscriminadamente matando quem estivesse à sua frente.

O diretor da publicação, Stéphanne Charbonnier, mais conhecido pelo apelido "Charb", além de três desenhistas (Jean Cabut, Tignous e Georges Wolinski, este último com 80 anos de idade), estariam entre os mortos segundo fontes oficiais.

Surpreendentemente, os terroristas conseguiram fugir, trocando tiros com policiais que chegavam à sede da revista, localizada no 11º distrito ("arrondissement") de Paris. Já há vídeos circulando na internet sobre o ataque e a fuga.

O presidente francês, François Hollande, se dirigiu imediatamente ao local e declarou que se trata de um ataque terrorista, elevando o alerta do país contra atos dessa natureza, lembrando que a polícia havia evitado vários outros atentados nos últimos tempos.

RETALIAÇÃO


O ataque terrorista desta manhã na capital francesa, ao que tudo indica, está relacionado com o fato da "Charlie Hebdo" publicar seguidamente caricaturas sobre líderes muçulmanos, ironizando o profeta Maomé.

A revista já havia sido atacada em 2011, quando um incêndio criminoso foi visto como uma retaliação islâmica contra as charges que ela havia publicado satirizando o profeta do Islã.

Testemunhas já ouvidas no local dizem que os terroristas teriam dito a frase "vamos vingar o profeta" enquanto executavam as vítimas de seu ato.

Ainda não há registro de que os atiradores tenham sido localizados ou presos, até porque muita coisa ainda vai acontecer na terrível tarde parisiense.



Atualização das 13:00 h de 07/01/2015: neste momento as agências de notícia informam que um carro explodiu em frente a uma sinagoga de Sarcelles, na região metropolitana de Paris.


map


sarcelles paris charlie hebdo




terça-feira, 6 de janeiro de 2015

STF não deixou João Paulo Cunha fazer curso sobre "iniciação cristã"


Notícia curiosa publicada no Estadão de 03/01/15:

STF não autoriza pedido de João Paulo Cunha para fazer curso


ISADORA PERON

Como o pedido não tem caráter de urgência, ele será analisado apenas após o recesso do STF, quando o curso já terá terminado


BRASÍLIA - O ex-deputado João Paulo Cunha (PT-SP), condenado no julgamento do processo do mensalão, não recebeu autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para deixar a prisão e fazer um curso na próxima semana. Intitulado "Iniciação Cristã - Aspectos Teológicos e Patrísticos", o curso é do tipo "intensivo de verão" e será oferecido pela Faculdade de Teologia da Arquidiocese de Brasília entre os dias 5 a 9 de janeiro.

Segundo a assessoria do STF, o pedido de Cunha não foi negado, mas como a Corte trabalha em regime de plantão, o presidente do Supremo, ministro Ricardo Lewandowski, declarou em seu despacho publicado na última sexta-feira que o pedido não tinha caráter de urgência e, por isso, só seria apreciado na volta do recesso do Judiciário, o que, na prática, inviabiliza que o ex-deputado compareça às aulas.

O curso tem um custo de R$ 300 (se for parcelado em duas vezes o valor sobe para R$ 320) e será dado pelo Monsenhor Antônio Luiz Catelan Ferreira, que foi nomeado no ano passado pelo Papa Francisco para fazer parte da Comissão Teológica Internacional, um grupo de teólogos responsável por discutir as doutrinas da igreja. No mês passado, o STF negou um outro pedido de Cunha, para que ele começasse a cumprir a pena no regime aberto. Ele, no entanto, foi autorizado a passar o fim de ano com familiares em São Paulo. O ex-deputado foi condenado a seis anos e quatro meses no semiaberto.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

França quer abolir notas de avaliação na escola

school failure
A Europa passa por profundas mudanças na área da educação infantil. Depois da Finlândia ter anunciado que escrita manual não será mais ensinada em suas escolas, o governo francês agora quer abolir o tradicional sistema de avaliação por notas, segundo informa a Rádio França Internacional na sua versão em português:

França debate a abolição das notas nas escolas


Daniella Franco

As notas estão com os dias contados nas escolas francesas. O Conselho Superior dos Programas, órgão do Ministério da Educação francês, elaborou uma proposta para abolir o sistema de avaliação através das notas, que na França vão de zero até 20, e substituí-las por uma análise mais geral das competências dos alunos. O projeto será discutido em uma conferência nacional nesta quinta e sexta-feira (11 e 12), em Paris.

Se o projeto for aprovado, caberá ao professor avaliar as capacidades de cada estudante através de conceitos e pareceres individuais. O docente utilizará critérios como o domínio da língua francesa, a capacidade de comunicação, formas e métodos de aprendizado, a postura dos estudantes como cidadãos, sua compreensão e observação do mundo, entre outros.

O objetivo, segundo o Conselho Superior dos Programas, é diminuir as desigualdades, a concorrência, a pressão e estimular os alunos a evoluir nas áreas onde encontram dificuldades. O próprio presidente francês, François Hollande, chegou a classificar o sistema de notas das escolas nacionais como “um castigo” e não como uma forma de avaliar a capacidade dos estudantes.

Para a presidente do Conselho de Avaliação do Sistema Escolar, Nathalie Mons, o sistema atual de avaliação não é justo. “Em algumas escolas, tirar uma nota 12, que está muito próxima da média, não é um bom resultado. Já em estabelecimentos mais exigentes, obter um 12 pode ser considerado ótimo. Ou seja, percebemos que ainda há muita desigualdade nas instituições de ensino”, considera.

Atraso nas reformas


Sistemas similares sem as tradicionais notas já vêm sendo utilizados há muitos anos por países europeus onde a educação é considerada de alto nível, como Suécia, Dinamarca e Alemanha. Na França, se for aprovado, o novo sistema pode começar a ser testado em 2015.

Para Denis Adam, secretário nacional do setor de educação da União dos Sindicatos Autônomos franceses (Unsa) ainda há muita resistência para implementar reformas nas escolas francesas. “Temos um discurso paradoxal sobre isso. Os pais esperam que seus filhos sejam avaliados como quando eles eram estudantes, com a consciência do trauma que isso gerou neles quando recebiam notas ruins”, diz.

Nathalie Mons lembra que não é só a França que é inflexível a mudanças na educação. “Em todos os países que mudaram seu sistema de avaliação foi extremamente complicado realizar um debate na sociedade civil”, ressalta.

O motivo, segundo ela, é que para os pais, a vantagem das notas é que elas mostram objetivamente o desempenho de seus filhos. “Ou seja, se os resultados estão acima de 10, eles estão tranquilos, mas, se as notas estão abaixo da média, há algo de errado. Mas essa clareza é falsa”, garante.

Falta de esclarecimentos


O engenheiro português Pedro David é pai de dois meninos que estudam em escolas francesas. Ele reclama da falta de esclarecimentos sobre o funcionamento do sistema que pretende abolir as notas. “Ainda não entendi muito bem como eles querem aplicar essa reforma. Se for feita uma correspondência exata entre duas escalas de avaliação, não vai servir para nada. Além disso, não acredito que a sociedade francesa vá se adaptar facilmente a esse novo sistema”, confessa.

Nathalie Mons compreende a dificuldade dos pais em relação às mudanças. Para ela, é necessário que a comunicação sobre essas reformas na educação também seja aprimorada. “Se aplicarmos outros tipos de avaliação, é preciso que eles sejam facilmente interpretados pelas famílias. E que algo mais seja feito em termos de informação aos pais sobre a aprendizagem de seus filhos”, estima.



domingo, 4 de janeiro de 2015

Resgatando prostitutas na Índia


Matéria interessante publicada no Brasil Post:

Encontrando amor na zona de prostituição de Nova Déli


Anna da Costa

"Quando descobri o que tinha que fazer, senti como se estivesse me matando, ou matando outra pessoa", disse Salva*. Ela se concentrou na máquina de costura à sua frente e começou a girar a roda mecânica. Logo se ouvia um som de cliques rítmicos, com a agulha se movendo rapidamente para cima e para baixo, o salwar (roupa típica indiana) de um profundo lilás sob ela prestes a ser finalizado.

"Como você descobriu?", perguntei. O som dos cliques foi suspenso por um momento quando ela parou para responder.

"Eles colocaram muita maquiagem em mim. Roupas curtas também. Eu nunca usaria esse tipo de coisa antes e não queria", disse Salva.

"Os clientes chegavam e se sentavam. Sempre que se aproximavam e tentavam algo comigo, eu batia muito neles. Como poderia saber por que estavam ali? Mas claro que depois os pobres caras reclamavam porque tinham gastado dinheiro, e depois eu pagaria por aquilo. Apanhava muito."

Estávamos sentadas no chão de uma sala com poucos móveis, pálidos raios da manhã projetando longas sombras contra paredes amarelas descascadas. Não pude deixar de notar a profunda cicatriz em forma de U que marcava a parte de cima de seu ombro esquerdo. "Você chegou a tentar escapar alguma vez?".

"Muitas vezes", respondeu. "Sempre que recebia uma pequena gorjeta de um cliente, eu a escondia em qualquer lugar secreto pequeno que achava no kotha [bordel], mas nunca conseguia fugir. Eles nos espancavam terrivelmente se tentássemos. Muitas garotas morreram dessa forma na GB Road."

Como muitas das 3,5 mil mulheres que moram e trabalham na maior zona de prostituição de Nova Déli, a GB Road, um agente havia atraído Salva para o local com a promessa de um salário mais de quatro vezes superior ao melhor que poderia encontrar em Kolkata. Apenas quando chegou em Nova Déli que descobriu que não desempenharia tarefas domésticas.

Se passaram 15 anos e, apesar do fato de que Salva agora é livre para deixar a GB Road se quiser, ela, até recentemente, não tinha nem os meios nem confiança para fazê-lo. Seis meses atrás encontrou a Kat Katha, uma comunidade de jovens voluntários cuja missão é capacitar mulheres e crianças da GB Road. Desde então, sua perspectiva começou a mudar.

Classes de costura são uma das muitas formas pelas quais -- por meio da Kat Katha -- mulheres como Salva estão começando a aprender novas habilidades e criar oportunidades para deixar a zona caso queiram.

"As garotas começam nesse tipo de trabalho bem jovens, com 12 ou 13 anos", disse a fundadora da organização Gitanjali Babbar, de 28 anos. "Elas são trancadas nesses lugares e, mesmo se lutam no começo, depois de alguns anos muitas aceitam aquilo como seu destino. Elas acham que não há alternativas."

O espaço alugado pela Kat Katha próximo à GB Road, simples mas adoravelmente decorado, onde estamos sentados com Salva, também se tornou uma escola para 16 das crianças que vivem nos bordéis, onde frequentam as aulas seis, e às vezes sete dias por semana.

Muitas mulheres estão conectadas à "Kat Family"-- como elas se autodenominam -- por meio de suas repetidas visitas aos bordéis onde não apenas frequentam as classes, mas também estão desenvolvendo uma série de programas adicionais para fornecer serviços de saúde e educação sobre direitos constitucionais para as mulheres.

"Queremos que cada mulher e criança nesse caminho não viva uma vida de marionete, mas que tenham uma vida que eles próprios escolheram", disse Babbar, explicando sua escolha pelo nome "Kat Katha', que significa "A História das Marionetes".

Um mundo paralelo


A GB (Garstin Bastion) Road está localizada no coração de Nova Déli, conectando estações de trem novas e antigas com suas longas e empoeiradas vias. Um mundo paralelo se esconde nas ruínas de edifícios de três e quatro andares. Invisível para a maioria, esse mundo se reflete nos rostos abatidos e maquiados de mulheres que já passaram da sua melhor fase, que se sentam na ponta de escadas escuras chamando os clientes. Também dá pistas nos olhares de homens, velhos e novos, em direção às mulheres de lábios vermelhos que acenam de janelas com grades.

Foi no começo de 2011, enquanto trabalhava para a Organização Nacional de Controle da Aids da Índia (NACO, na sigla em inglês), que Babbar visitou a GB Road pela primeira vez. "Sabia que existia, mas nunca poderia imaginar que fosse tão ruim", disse. "Quando você vê seres humanos vivendo dessa maneira, começa a questionar tudo."

Os 70 bordéis da área são muito apertados e imundos. À medida que subimos as escadas escuras, quartos com bancos forrados se espalham à esquerda e à direita, grupos de mulheres vestidas em uma variedade de salwars e saris surrados, ou roupas ocidentais apertadas. Às vezes, são chocantemente jovens. Nos kothas mais populares, como o 'número 64'-- conhecido por suas lindas garotas do Nepal -- homens, jovens e velhos, se movimentam pelos vários andares em filas quase contínuas. Alguns vêm sozinhos, outros em grupos barulhentos. São frequentemente altos, às vezes violentos; às vezes descarados, outras envergonhados.

"Algumas atendem até 40 clientes por dia, todos nestas incrivelmente pequenas e sujas cabines", disse Babbar. "Você sente que vai pegar uma infecção só de olhar para elas; são muito ruins".

A taxa de HIV na área, de 8%, supera em 26 vezes a média nacional. E as mulheres sofrem de uma série de outras doenças, como infecções da pele, problemas de pulmão, desnutrição e outras doenças sexualmente transmissíveis. A maioria desses problemas não é tratada -- as mulheres não querem sair dos bordéis ou não podem arcar com o tratamento médico.

Não é apenas a saúde física das mulheres que é impactada pela vida na GB Road.

"Depois de viverem aqui por anos, muitas estão sofrendo distúrbios mentais", disse Babbar. "Depressão, ansiedade e insônia são muito comuns."

Fatima, agora com 38 anos, mora em uma sacada minúscula que se amontoa sobre um dos vales atrás da GB Road. Exposta aos piores elementos da cidade, ela divide uma cama de solteiro de vime e um cobertor com seu filho de 11 anos, Atif. Suas roupas são penduradas com alguns pregos enferrujados que foram martelados na parede. Fatima foi contrabandeada para um dos khotas vinda de um pequeno vilarejo perto de Bangalore, quando tinha 13 anos. Hoje precisa ser medicada diariamente para controlar seu temperamento, que pode mudar de forma repentina.

"Quando minha mãe fica brava, eu corro e me escondo", disse Atif, que foi uma das primeiras crianças a frequentar a Kat Katha. "Vou para qualquer lugar até ela se acalmar."

Em setembro de 2011, Babbar deixou seu emprego na NACO. Apesar de não precisar continuar indo à GB Road, suas visitas continuaram quase que incessantemente. "Só sabia que queria entender melhor a situação", disse. Mesmo quando mudou para Agra, uma cidade a duas horas e meia de distância, ela voltava todos os fins de semana para visitar os bordéis, onde se sentava para "apenas conversar" com as mulheres.

Em uma visita em particular, a dona de um bordel, que pensava que ela ainda trabalhava para a NACO, gritou com raiva: "Por que você continua vindo aqui? A única coisa que vocês falam com a gente é sobre preservativos e sexo. Vocês nunca perguntam quais são nossos sonhos, ou se queremos fazer alguma coisa diferente com nossas vidas."

Chocada por essas palavras, Babbar começou a refletir sobre elas. Quando retornou à GB Road dias depois, perguntou à Asha, uma profissional do sexo da qual havia se aproximado, o que ela mais queria. Sua resposta imediata foi: "Quero estudar".

Em pouco tempo, Babbar estava dando classes em bordéis e envolvendo um grupo de amigos para ajudá-la.

Construindo uma família


Salva é uma das 40 mulheres que iniciaram algum tipo de treinamento de habilidades com a Kat Katha desde aquela época, e está entre as três, incluindo Asha, que deixaram totalmente a prostituição. De quatro a cinco vezes por semana, Salva aprende técnicas de costura durante algumas horas pela manhã.

"Eu não confiava neles no começo", confessa, enquanto continua a girar a roda de sua máquina de costura. "Eu costumava pensar 'o que faria se eu fosse para a escola. Poderia ficar aqui em vez disso e ganhar algum dinheiro'. Mas agora sinto que pelo menos posso aprender alguma coisa, e me tornar alguma coisa."

Embora Salva tenha sido atraída pela oportunidade de se especializar, há algo mais sobre a Kat Katha, diz, que realmente valoriza. "Em outros lugares, as pessoas pediriam dinheiro antes de ensinar qualquer coisa, mas a coisa boa sobre esse lugar é que não fazem isso."

"Nos ensinam outras coisas boas também. Eles nos orientam. Pude conhecer muitas pessoas ótimas aqui. Quando cheguei aqui descobri tudo isso -- não sabia antes. Embora sejamos tão inferiores, eles ainda nos cumprimentam com as mãos dobradas. Isso diz algo sobre o [lado] humano deles. Eles demonstram muito respeito", acrescentou.

Para Ritumoni Das, de 28 anos, outra fundadora da Kat Katha, a diferença é simples. "Estamos criando uma família, não executando um projeto."

A importância de criar relacionamentos próximos é essencial para quebrar o estigma que essas mulheres e crianças sentem, diz. "Você não consegue simplesmente tirar uma garota de um bordel. Elas têm essa crença em suas mentes e corações de que pertencem a uma comunidade que não é aceitável. Até que consigam superar essa crença, será muito difícil para elas deixar esse mundo, mesmo se elas tiverem dinheiro ou qualificações."

De fato, é provável encontrar voluntários visitando suas didis (irmãs) nos bordéis, comendo e conversando com elas e comemorando aniversários e festivais, como também dando classes.

"Agora sinto que pelo menos posso aprender alguma coisa e me tornar alguma coisa"

Neste Diwali, a festa religiosa hindu, com a chegada da noite e luzes começando a brilhar em toda a cidade, me juntei às crianças e a um grande grupo de voluntários para acender velas pelos bordéis da área, e comemorar o festival das luzes em tempos sombrios da Índia. Em meio a um grande fluxo de clientes, distribuímos doces e abraçamos cada uma das mulheres, uma por uma.

"Ninguém da Kat Katha me pergunta de onde sou, nada. Sou tratada pelo que sou. Quando os voluntários comem conosco, compartilham nossos pratos. Nos tratam como irmãs", disse Maya, de 26 anos, que recentemente começou a frequentar classes de hindi na escola.

"Somos tratadas como pessoas reais: um ser humano com coração e alma. Não nos rotulam como profissionais do sexo ou filhos de profissionais do sexo", acrescentou Rekha, cujo filho de oito anos tem ido às aulas da Kat Katha no último ano.

Muitas das crianças que frequentam as classes também estão começando a notar as mudanças dentro de si mesmas, desde que passaram a fazer parte da 'Kat Family'. "Me sinto feliz quando venho aqui", disse Varun, um inteligente e generoso garoto de 14 anos que foi um dos primeiros alunos. "É um lugar agradável e aqui encontramos amor. Pensei que não seria nada e nunca conseguiria muita coisa, mas agora quero ser fotógrafo."

Os esforços da Kat Katha na GB Road não ficaram livres dos desafios. Nos últimos dois anos, tiveram que mudar de endereço seis vezes. A razão é quase sempre a mesma. As crianças não são um problema. Mas o proprietário e vizinhos simplesmente não querem profissionais do sexo nas redondezas.

"Não quero que minha filha saiba o que faço, nem que seja afetada pelo meu passado"

Os voluntários também receberam ameaças de donos de bordéis, partidos políticos, cafetões e mesmo da polícia por causa do envolvimento da organização com as mulheres. Mas, com o tempo, mesmo essas ameaças começaram a diminuir à medida que a presença da ONG se tornou cada vez mais aceita.

"Todo mundo precisa de alguém para conversar", explicou Das em tom sincero, atribuindo essa mudança à abordagem inclusiva e sem confronto.

Até agora os voluntários -- que já chegaram a somar mais de 150 -- estabeleceram vínculos com mais de 48 bordéis da estrada e mais de mil mulheres. Com o contínuo crescimento, estão cientes de que precisarão de mais estrutura em relação à sua forma bastante fluída até agora.

"Temos sido bastante descoordenados, apenas respondendo às necessidades que surgem. Agora estamos tentando formalizar as coisas", disse Das. Isso inclui aumentar o número de cursos disponíveis para as mulheres, organizar melhor o crescente grupo de voluntários e construir um albergue para as crianças fora da área. Também envolve encontrar uma fonte mais confiável de financiamento.

"Queremos alcançar cada mulher e cada criança nessa estrada", disse Babbar.

Apesar do longo caminho pela frente, Babbar está satisfeita com os esforços iniciais. "Não estamos alcançando todas as mulheres mas, nos últimos dois anos, fomos capazes de ir a muitos bordéis e estabelecer conexões; indo com um sentimento de família."

Para Salva, seu encontro com a Kat Family foi um ponto de virada. Quando se levantou para ir embora, o seu telefone tocando com mais frequência com os clientes começando a ficar impacientes, dobrou o salwar lilás que estava costurando em um embrulho bem-feito.

"Desta vez, quando voltar para Bengal, nunca mais retornarei à GB Road. Vou trabalhar em casa, abrir uma pequena alfaiataria, pagar os estudos da minha filha e ficar com ela", disse. "Talvez ganhe apenas 50 rúpias por dia (cerca de 2 reais), mas pelo menos posso comprar meus mantimentos com isso. Quero viver com sabedoria agora. Não quero que minha filha saiba o que faço, nem que seja afetada pelo meu passado."

Ao ver sua silhueta robusta e curvilínea deslizar pelas escadas íngremes e pelo vale por trás da GB Road, me dei conta que, além das classes, o espaço seguro, os serviços de saúde e tudo o que a Kat Katha começa a oferecer aqui, talvez uma das coisas mais valiosas seja simplesmente a oferta de amor.

* Os nomes de todas as mulheres e crianças nesta reportagem foram mudados para proteger suas identidades.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Índia e traduzido do inglês.



sábado, 3 de janeiro de 2015

Azar é a principal causa do câncer

O título parece (e é) estranho, mas convenhamos que se pode chegar a essa conclusão pela leitura do artigo abaixo, publicado n'O Globo de 02/01/15:

Sorte é fator crucial na maior parte dos cânceres, diz estudo


Pesquisadores concluem que dois terços dos tumores se devem ao acaso

BALTIMORE, EUA - A sorte tem um grande papel na roleta russa que determina quais indivíduos desenvolverão um câncer ao longo da vida, segundo um estudo publicado na edição desta semana da revista “Science”. A pesquisa, conduzida na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, afirma que a “má sorte” é a explicação para nada menos do que dois terços dos tumores, enquanto variáveis genéticas e condições do ambiente (incluindo causas ligadas a estilo de vida e má alimentação, por exemplo) explicam o terço restante.

Esse “azar” seria consequência de mutações aleatórias que ocorrem durante a divisão normal das células-tronco no nosso corpo, propõe um dos autores do estudo, o estatístico e matemático Cristian Tomasetti, da universidade que fica no estado americano de Maryland. Cada vez que uma célula se divide para gerar outra, seu DNA é copiado, mas, algumas vezes, durante o processo, ocorrem erros que, acumulados, propiciam o desenvolvimento dos tumores.

ESTILO DE VIDA NÃO PODE SER IGNORADO


O pesquisador ressalta que esta é a primeira vez que a contribuição do acaso é medida, mas que os resultados do estudo não anulam o que já era sabido sobre os fatores que aumentam a propensão de uma pessoa a desenvolver um câncer — como estilo de vida ou fatores genéticos e ambientais.

O estudo explica por que alguns tecidos do corpo humano têm probabilidade “milhões de vezes maior” do que outros de desenvolverem um tumor. Massas nos pulmões são mais comuns, mesmo em pacientes não fumantes, do que nos ossos, por exemplo. E fatores externos ou genéticos não podiam explicar o motivo dessa diferença.

Junto com o premiado oncologista Bert Vogelstein, Tomasetti calculou quantas divisões celulares são feitas nos 31 tecidos do corpo humano ao longo de toda uma vida, conseguindo provar, então, que esse número está fortemente ligado ao risco do crescimento de tumores. Quanto maior o número de divisões no tecido, maior o risco. Os dados compilados chegaram ao espantoso total de 65% dos tumores se devendo ao fator sorte.

No caso do intestino grosso, por exemplo, ocorrem 150 vezes mais divisões de células-tronco do que no duodeno — primeira seção do intestino delgado —, o que explicaria por que, no cólon, os tumores são 30 vezes mais frequentes.

Até agora, dizia-se que uma pessoa que não tem câncer, apesar de exposta a fatores cancerígenos, como o fumo de tabaco ou a radiação, seria abençoada com “uma boa genética”. Segundo os autores do estudo, na maior parte dos cacos, essas pessoas são só sortudas. Eles também afirmam que “mudar maus hábitos é uma grande ajuda para prevenir alguns tipos de câncer, mas pode não ser tão eficaz para outros”. Por isso, sugerem que sejam empreendidos mais esforços e recursos para desenvolver métodos de detecção desses outros tipos de câncer nos estágios iniciais, quando ainda são curáveis. O estudo, no entanto, está suscitando polêmica entre os especialistas da área, que temem que a população tome menos cuidado com a saúde por acreditar que o estilo de vida influencia pouco no aparecimento de tumores.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Crianças finlandeses não aprenderão escrita manual a partir de 2016


Essa é uma daquelas notícias que assustam à primeira vista (ou lida), mas merecem uma reflexão muito mais abrangente sobre os rumos que a sociedade moderna está tomando.

O artigo abaixo foi escrito por Pedro Zambarda de Araujo e publicado no Diário do Centro do Mundo:

Por que a Finlândia está correta ao trocar a escrita à mão pela digitação — uma experiência pessoal


Há dois anos, eu tive a oportunidade de conhecer um das seis regiões da Escandinávia. Viajei para o antigo “patinho feio” dos países nórdicos, a gelada Finlândia. Era final de outono e começo de inverno, por isso tive que encarar um frio que pode queimar sua pele de menos 17 graus Celsius.

Viajei por três cidades: a capital Helsinque, berço de bandas de heavy metal e dona de uma infraestrutura invejável; Oulu, uma cidade que abarca a universidade com a melhor internet do mundo; e Rovaniemi, terra do “Papai Noel” e do museu de pesquisas próximo ao Círculo Polar Ártico.

A educação finlandesa normalmente é eleita como a melhor do mundo segundo várias instituições, incluindo a revista The Economist. Tive a oportunidade de entrar na sala de aula no país, dentro da Universidade de Oulu – Oulun Yliopisto, em seu nome original em finlandês.

Vi com bons olhos a determinação do Conselho Nacional de Educação finlandês que solicita às escolas infantis a troca da escrita à mão pela digitalização.


Para muitos professores e educadores, a medida parece estimular muito o uso de computador, smartphone e tablet, deixando de lado as atividades manuais. Isso é falso, especialmente se o uso dos acessórios digitais for corretamente introduzido às atividades das crianças.

Se você for a qualquer universidade finlandesa, as aulas são ministradas todas, sem exceção, com auxilio de notebook e celulares. Na Universidade de Oulu, assisti uma aula de “interação homem e máquina” ministrada com computadores, e o professor disponibilizou todo o material via email.

Vídeos de YouTube de experiências feitas com todas as teorias de interface despertavam o interesse dos alunos. Nenhum deles era proibido de buscar coisas na internet ou mesmo se distrair. Vi um dos alunos no Facebook durante a aula, inclusive.

Mas o respeito ao professor era muito presente.

Vi, em informações do Museu Nacional de Helsinque, que as crianças recebem educação de tutores na Finlândia em suas casas desde pelo menos os anos 60. Isso causou uma revolução no ensino básico. Os meninos e as meninas chegam nas primeiras séries das escolas já orientados para praticar uma variedade de atividades, além de saberem respeitar os ensinamentos dos mais velhos.

Entre os anos 1970 e os anos 1980, para conter o avanço da União Soviética que é sua vizinha ao leste, a Finlândia promoveu uma ampla reforma tecnológica e industrial que disseminou o uso do computador pelo país todo, bem como a penetração da internet através da banda larga que se tornou pública.

O país chegou a abrigar a Nokia, que foi a maior fabricante de celulares dos anos 90 e só caiu após a revolução dos smartphones, que resultou em sua venda para a Microsoft. Entre os finlandeses, trabalhar em uma empresa como a Nokia é motivo de orgulho e sucesso.

Na Antiguidade até a Idade Média, o país foi escravizado e explorado pelo Reino da Suécia. Os suecos queriam a produção de carvão e de recursos naturais finlandeses. Seu poder político só caiu após o avanço do cristianismo e das navegações.

Durante a formação da União Soviética no começo do século 20, o país foi invadido pelos russos, que só foram expulsos pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. O problema para os finlandeses é que os supostos salvadores nazistas promoveram um genocídio que massacrou cidades inteiras.

O país nas últimas décadas teve que se fortalecer através do conjunto de esforços de seu povo junto com seu governo, para transformar uma sociedade reprimida ao longo de sua história em um exemplo de igualdade de oportunidades. Metade do PIB finlandês é composto de impostos que garantem seu Estado de Bem-Estar Social. Cerca de 5,4 milhões de pessoas constituem a população local, muito inferior aos 200 mi no Brasil.

Mesmo assim, os brasileiros podem tirar lições dos avanços educacionais e tecnológicos na Finlândia.

De acordo com a pesquisa TIC Educação 2013, do CETIC.br, 99% dos professores da rede pública já sabem utilizar a internet, mas somente 21% deles utilizam suas conexões para disseminar conteúdo online para seus alunos. Além disso, 52% das escolas públicas possuem ainda conexões de velocidade de 2 Mbps.

A Finlândia possui conexões públicas de fibra ótica com velocidades que oscilam entre 10 Mbps e 100 Mbps. Há pontos de Wi-Fi gratuitos em todas as praças.

O grande problema do uso de computador nas escolas brasileiras é a falta de infraestrutura da internet, tanto 3G quanto roteada, e a falta de preparo dos educadores com novas tecnologias.

Os finlandeses são educados desde o berço. Se eles sentirem vontade de escrever a mão, terão professores de caligrafia que podem ensiná-los, além de bolsas de pesquisa para compreender os benefícios da caligrafia.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Mensagem do papa Francisco ao Rio de Janeiro


O papa Francisco gravou mensagem que foi exibida antes dos fogos de artifício que marcam a passagem de ano (o tradicional reveillon) em Copacabana na última noite, em que ele celebra os 450 anos do Rio de Janeiro, a serem comemorados em 2015, e estende sua saudação ao povo brasileiro como um todo.

MAIS ÁGUA NO FEIJÃO


Além do 450º aniversário da Cidade Maravilhosa, o papa também relembrou o 50º aniversário da iluminação da estátua do Cristo Redentor no Corcovado, inaugurada pelo então papa Paulo VI em 1º de janeiro de 1965.

A expressão "mais água no feijão" está inserida na crítica que o papa faz contra as diferenças sociais e a violência, conforme você pode ver no vídeo abaixo:




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