quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O cantor que transforma música gospel em canto de umbanda


A matéria foi publicada no Extra em 27/01/17:

Ògúntúndéléwa, um talento afro gospel

O alagoano Mario Ferreira é desde criança encantado pela música e pela cultura afro. Aos 18 anos, foi iniciado no Candomblé pelo Babalorixá José Roberto de Òsun, mas completou suas obrigações religiosas com o Babalorixá Altair T’Ògún, que deu-lhe o título de Ògúntúndéléwa (Ògún retornou para casa).

Com Pai T’Ògún aprendeu yorùbá (língua de origem nigeriana, usada na comunicação do Candomblé Kétu). Com o aprendizado do idioma yorùbá, Ògúntúndéléwa passou a interpretar os cânticos para os Orixás, e por sugestão de um amigo, chamado Hunvá, decidiu fazer uma versão em yorùbá da canção gospel lançada em 2008 por Régis Danese, ‘Faz Um Milagre em Mim’. Em 2009, esta canção atingiu recorde de execuções, tornando-se um hit popular em todo o país. Ela foi regravada por vários grupos musicais, como Pique Novo, e cantores como Gusttavo Lima. A cantora evangélica Aline Barros e o Padre Marcelo Rossi também cantaram a canção.

Ainda no ano de 2009, Ògúntúndéléwa foi convidado a cantar sua versão na 3ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, em Copacabana. A apresentação foi um sucesso e lhe rendeu um convite feito pelo Babalorixá Jair de Ògún para cantar em um evento na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Ògúntúndéléwa diz que uma de suas propostas musicais é transformar louvores gospel na língua dos Orixás, demonstrando assim respeito por evangélicos e católicos. “A vida é curta demais para se ocupar com diferenças e preconceito. A música unifica os povos, por isso desejo promover a paz através da canção!”

Canção: Faz Um Milagre Em Mim

De: Regis Danese

Como Zaqueu eu quero subir
O mais alto que eu puder
Só pra Te ver, olhar para Ti
E chamar sua atenção para mim
Eu preciso de Ti Senhor
Eu preciso de Ti o pai
Sou pequeno demais
Me dá a Tua paz
Largo tudo pra Te seguir

Refrão: Entra na minha casa, entra na minha vida
Mexe com minha estrutura, sara todas as feridas
Me ensina a ter santidade
Quero amar somente a Ti
Porque o Senhor é meu bem maior
Faz um milagre em mim!

Versão na língua yorùbá da canção: Faz Um Milagre em Mim

Por: Mario Ferreira - Bàbá Ògúntúndéléwa

Título: Sé isé-amí tikalami

Bási òòsà èmi fé gókè
Sókèsókè nón ki èmi lé
Òkúrú sí ojú, ojú sí ènyin
Npè rè àfiyèsí fún mi
Èmi lè ti ènyin Olúwa
Èmi lè ti ènyin Bàbá
Kékéré rè kéré
Fún mi àlàáfíá
Sé gbogbo sí lówó-ehin
Kósínú ilé mí, kósínú ayé mi
Sodi pèlú mi ènìòn, wòsàn won gbogbo ogbé
Èkó fún mi ní Òrìsà, èmi fé ìfé ènyin
Olódùmare ní dára fírí mi
Sé isé-amí tikalami
Lààyè orin! (Viva a música!)
Axé!



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Judeus cedem sinagoga para muçulmanos que tiveram mesquita incendiada nos EUA


Ainda há gestos de bondade e boa-vontade entre as religiões, segundo noticia a Marie Claire:

Judeus cedem sinagoga para muçulmanos que perderam mesquita em incêndio

Ato de solidariedade em pequena cidade dos Estados Unidos ganhou a atenção na imprensa americana por ir de encontro às políticas anti-imigração de Donald Trump

No último sábado pela manhã, membros do Victoria Islamic Center foram notificados de que sua mesquita no Texas, EUA, foi destruída por um incêndio durante a noite. O incidente ocorreu horas após Donald Trump assinar a ordem executiva que impede cidadãos de sete países com maioria islâmica de entrar em território americano. Agora, num ato de solidariedade que vai de encontro às políticas anti-imigração do presidente americano, líderes religiosos da pequena cidade de Victoria, de 62 mil moradores, se mobilizaram para apoiar a comunidade muçulmana afetada pelo desastre.

Os judeus da região foram os primeiros a dar o exemplo de respeito às diferenças. Seus líderes entregaram a chave da sinagoga local para líderes muçulmanos realizarem cerimônias religiosas. "Ficamos muito felizes em fazer isto", disse Melvin Lack, tesoureiro da sinagoga, ao "USA Today".

Logo em seguida, uma página de arrecadação online foi criada para arrecadar fundos para a reconstrução da mesquita. Em poucos dias, mais de R$ 3 milhões foram doados, superando a meta de R$ 2,6 milhões.

"Nossos corações estão cheios de gratidão pelo tremendo apoio que recebemos", disse o oganizador da arrecadação Omar Rachid. "A efusão de amor, palavras gentis, abraços, mãos amigas e contribuições financeiras são o exemplo do verdadeiro espírito americano e da humanidade em seu auge".



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O pai solteiro mórmon que adotou 8 meninos

Éderson segura o bebê na foto acima, em que estão 6 dos seus 8 filhos adotivos.

A matéria foi publicada no UOL Estilo em 03/02/17:

"Desejo de ser pai me levou a adotar 8 meninos, mesmo sendo solteiro"

Melissa Diniz

No coração do jornalista e microempresário Éderson Flávio Ribeiro, 43 anos, de Taubaté (SP), parece sempre haver espaço para mais um filho. Ao longo de sete anos, ele adotou oito meninos, alguns deles com histórias de vida tristes e que tinham sido devolvidos aos abrigos, após tentativas frustradas de adoção. Além disso, acolheu mais um, que não tinha para onde ir, até ele encontrar um emprego e conseguir se sustentar. Hoje, apesar de solteiro, Éderson tem uma família grande e feliz.

Leia o depoimento que ele deu ao UOL.

"Homem também tem instinto paterno"

Muitas pessoas pensam que somente as mulheres desejam ter filhos. Mas homem também tem instinto paterno. Eu sempre quis ser pai, tanto que adorava ninar os filhos dos meus amigos e participava com frequência de campanhas de doação de brinquedos para crianças carentes. Acho que grande parte desse desejo veio do fato de meu pai ter se separado da minha mãe quando eu tinha 13 anos e de me lembrar da falta que ele fez e de como sua ausência doeu nas formaturas, Dia dos Pais, Natais e outras datas importantes.

Então, em 2002, comecei a ter sonhos recorrentes nos quais eu via um menino. Na época, eu namorava uma moça de 17 anos, a Carol, e até brinquei com ela que, se nos casássemos, queria ter no mínimo quatro filhos. Nós ficamos dois anos juntos, mas acabamos nos separando. Nesse meio-tempo, os sonhos continuaram acontecendo e duraram quatro anos. Aquilo realmente chamou minha atenção, pois eram bastante repetitivos. Sou mórmon e, em minha religião, sonhos são compreendidos como revelações e senti que precisava fazer algo a respeito.

"Diziam que seria impossível eu adotar"

Foi aí que comecei a visitar abrigos de crianças, em uma tentativa de encontrar e adotar aquele menino, porém, muitas portas se fecharam na minha cara. As pessoas diziam que seria impossível um homem solteiro ser pai adotivo. Primeiro eu teria que me casar, orientavam. Não que a lei não permitisse, mas o preconceito ainda era grande e os juízes não aprovavam.

Tive um problema sério de saúde, precisei mudar de cidade, mas, apesar das dificuldades, não desisti de adotar aquele menino. Acabei descobrindo que muitos adolescentes iam parar nas ruas porque, assim que completavam 18 anos, eram expulsos dos abrigos. Então, uma amiga me contou sobre o Anderson, um rapaz que estava desesperado, pois passava exatamente por essa situação e logo não teria onde ficar. Ele não queria ser adotado, mas decidi acolhê-lo por um tempo.

"Reconheci o menino dos meus sonhos"

Quando cheguei ao abrigo para conhecer o Anderson, senti algo muito forte. Enquanto conversávamos, outro menino começou a correr perto de nós. Ao olhar para trás, o reconheci. Era o garoto que sempre via nos sonhos. Seu nome era Eduardo e tinha 13 anos.

Curioso, fui conversar com o psicólogo do abrigo para saber se ele poderia ser adotado. Foi aí que soube que ele estava lá desde os seis anos de idade e havia sido devolvido três vezes. Nas duas primeiras, as mães conseguiram engravidar e desistiram da adoção. Na terceira, o marido era alcoólatra e o conselho tutelar pediu que a mãe adotiva escolhesse entre ele e a criança, mas ela preferiu ficar com o marido.

Levou três meses para que a adoção se concretizasse e ele se tornou meu filho em 2007. Antes, eu precisei passar por uma avaliação psicológica, além de comprovar que não tinha antecedentes criminais, como é praxe no processo.

Nós três nos tornamos uma família e, claro, passamos por uma fase de adaptação no começo. Fiquei sabendo, depois, que quando uma criança ou adolescente é adotado vive um período de regressão, isto é, começa a se comportar como se fosse mais novo. É normal. Até mesmo o Anderson, que também considero como filho, apesar de ter 18 anos na época, às vezes agia de maneira imatura, mas nada que a paciência e diálogo não pudessem resolver.

"Perguntaram se eu queria adotar mais um"

Tornei-me colaborador daquele abrigo de onde os meninos vieram. Fazia visitas e doação de brinquedos. Passados três meses da adoção, os funcionários me ligaram para falar sobre o Jean, um menino de quatro anos que estava sofrendo bullying das outras crianças por ser muito bonzinho. Perguntaram se eu estaria interessado em adotá-lo também, pois ninguém estava. Não resisti.

Passados três meses, Jean vinha se juntar aos irmãos adotivos para iluminar a casa. Anderson e Eduardo o acolheram com muito carinho. Mas Jean tinha irmãos biológicos e eu não fazia ideia de que eles estavam naquele mesmo abrigo. Então, um tempo depois, os funcionários me ligaram novamente para falar sobre o Bruno, na época com 11 anos, e Rafael, que tinha 13. Não preciso dizer que ambos vieram fazer parte da família também e lá estava eu com cinco filhos.

"Abracei a causa da adoção tardia"

Por minha própria experiência e por ver tantas crianças e adolescentes totalmente esquecidos nos abrigos, abracei a causa da adoção tardia e me tornei palestrante em grupos de apoio à adoção. Certa vez, fui participar de um evento em São Paulo e fiquei sabendo de dois irmãos que estavam em Guarapuava, no Paraná, Luiz Fernando, 18, e Rodrigo, 14. Eles também haviam passado por experiências dolorosas e tinham sido devolvidos. Senti que precisava fazer algo a respeito e perguntei aos meus filhos o que eles achavam. Eles disseram: ‘ah, pai, onde cabem cinco cabem sete’. Lá fui eu para Guarapuava em uma viagem que durou 15 horas. Entrei com o pedido de guarda e levou seis meses para a adoção sair. Agora tinha sete filhos.

Quando o Rodrigo fez 18 anos, eu o levei de volta a Guarapuava para visitar os amigos e as tias do abrigo. Ao chegar lá, um rapazinho me chamou para conversar e disse que queria muito ser adotado. Falou que comia pouco e que dormiria no sofá. Não tinha ido lá para adotar ninguém, mas ele estava pedindo socorro. Mantivemos contato por um tempo, conversei novamente com meus filhos e decidimos que sim. Brinco que Kelvin, que na época estava com 15 anos, é ‘o último dos moicanos’, meu oitavo filho. Pelo menos, por enquanto.

"As pessoas achavam que eu era louco"

Nunca pensei nas dificuldades que enfrentaria ao fazer as adoções. Pensava que tinha condições de trabalhar e de sustentar a casa, então não havia motivo para não fazer. As pessoas achavam que eu era louco, por isso sempre tomei as decisões sem ficar falando para ninguém. Já ouvi piadas de mau gosto, comentários negativos a meu respeito e até duvidaram do meu caráter, mas não me importo, meus filhos sabem quem eu sou e isso basta. Sempre os orientei sobre o preconceito da sociedade e ensinei que deveriam estar preparados para lidar com a maldade dos outros.

Houve momentos que eles foram questionados sobre não terem o nome da mãe na carteira de identidade. Uma mulher certa vez perguntou: ‘Vocês nasceram do vento?’. Olhou para mim e disse que havia algo errado. Nisso, um dos meus filhos respondeu: ‘A única coisa errada aqui é a postura da senhora.’ Isso me dá orgulho, pois eles sabem se defender.

Durante esse tempo todo, tive apenas relacionamentos curtos, assim que as namoradas descobriam quantos filhos eu tinha, sumiam. Perdi a conta de quantas esposas quiseram me arrumar, mas a minha prioridade são meus filhos e trazer uma mulher para casa tiraria a liberdade deles.

"Perdi três empregos para não perder a guarda"

Cada vez que um filho era adotado, começava a vigilância da assistência social que durava de um ano a um ano e meio. Eles faziam visitas-surpresa na minha casa para saber se estava tudo bem, ligavam na escola para saber se os meninos estavam estudando e queriam saber se eu tinha condições de sustentá-los. Não foi fácil.

Perdi três empregos por isso, pois, quando me ligavam, diziam que estavam na porta de minha casa e tinha que largar tudo para ir atendê-los. Sem contar as idas ao médico e ao fórum, onde os meninos ficaram cansados de ter que reafirmar que queriam permanecer comigo. Apesar dos contratempos, são medidas necessárias para a segurança das crianças. Infelizmente, há muitos casos de abuso e maus-tratos.

Já fui garçom, faxineiro, entregador de panfletos e já fiz muita permuta para que os meninos pudessem estudar. Houve momentos em que precisei conciliar três empregos. Se o curso não era gratuito, faxinava a escola em troca das aulas e assim eles puderam fazer informática, por exemplo.

Meus filhos cresceram, uns já se formaram, outros ainda estudam e alguns trabalham para me ajudar. Ainda moram comigo o Jean, hoje com 13 anos, Rafael, 20, Eduardo, 22, e Bruno, 18. Hoje eu tenho uma microempresa de eventos e meu escritório é em casa. Faço festas, casamentos e formaturas e espero fazer minha empresa crescer mais. Meu sonho é que o Luciano Huck venha me ajudar a ter um espaço bom para trabalhar. Mas, o principal é que nada falte aos meus filhos."



domingo, 5 de fevereiro de 2017

Condenados 4 linchadores de mulher inocente no Guarujá (SP)

Fabiane Maria de Jesus,
vítima da "gente de bem".
Nesses tempos bicudos em que vivemos, em que não só a verdade morreu, mas foi acompanhada pela mentira, trituradas que foram ambas pela "pós-verdade" e pelos "fatos alternativos", ainda há uma réstia de esperança quando se pune indivíduos que agem impensadamente com base apenas nos boatos maldosamente espalhados pelas redes sociais.

Claro que muitos mais deviam ter sido processados e condenados nesse triste episódio do linchamento da inocente dona de casa, mas num país em que os programas policiais comandados por apresentadores fascistas e demagogos continuam incentivando julgamentos definitivos e apressados na televisão todo fim de tarde, talvez já seja um começo para deter esses canalhas e covardes, que - não raro - se autointitulam "gente de bem" e compartilham mensagens religiosas em seus grupos cibernéticos.

Hipócritas!!!

A notícia é do G1 Santos e Região:

Acusados de linchar dona de casa após boato na web são condenados

Três homens foram condenados a 40 anos de reclusão, e outro a 26.
Crime ocorreu em maio de 2014. Vídeo mostra momento de agressão.

Três acusados de terem participado da morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus foram condenados a 40 anos de prisão, e outro a 26 anos de reclusão, nesta sexta-feira (27). O julgamento foi realizado no Fórum de Santos, no litoral de São Paulo. A vítima foi linchada no dia 3 de maio de 2014 e morreu dois dias depois. O caso ocorreu no bairro Morrinhos III, em Guarujá. A defesa do grupo irá recorrer da decisão.

O crime aconteceu após uma foto ter sido divulgada, junto com um boato nas redes sociais, de que uma mulher parecida com Fabiane sequestrava crianças e as utilizava em rituais de magia negra.

Em outubro de 2016, Lucas Rogério Fabrício Lopes, de 21 anos, já havia sido condenado a 30 anos de cadeia por participação no crime. Nesta sexta-feira, o juiz Edmundo Lellis Filho condenou Abel Vieira Batalha Júnior, de 21 anos, Carlos Alex Oliveira de Jesus, de 27, e Jair Batista dos Santos, de 38, a 40 anos de prisão em regime fechado. Valmir Dias Barbosa, de 51, foi condenado a 26 anos de detenção. Sua pena foi menor porque ele confessou participação no linchamento.

Imagens

Um vídeo divulgado na época do crime mostra Fabiane sendo carregada por diversos moradores do bairro Morrinhos III, logo após ela ter sido agredida. Convencidos de que ela seria a sequestradora de crianças cuja foto circulava por uma página do Facebook, alguns dos agressores amarraram os pulsos da mulher, que foi agredida repetidamente até a chegada da polícia.

Durante as investigações, cinco pessoas foram presas por terem participado do linchamento de Fabiane. Abel Vieira Batalha Júnior teria participado da agressão amarrando os pulsos da vítima e a arrastando pelo chão. Jair Batista dos Santos é acusado de agredir Fabiane, mas nega sua participação no linchamento. Lucas Rogério Fabrício Lopes teria passado por cima da dona de casa com uma bicicleta. Já Valmir Dias Barbosa foi reconhecido nas imagens do linchamento. Ele alegou ter filhos e que participou da ação por acreditar que as acusações à vítima eram verdadeiras. Carlos Alex Oliveira de Jesus aparece no vídeo segurando Fabiane pelos cabelos. Ele disse que não chegou a golpear a vítima, porque foi contido por duas primas.

Agressão

Fabiane Maria de Jesus tinha 33 anos, era casada e tinha duas filhas, uma de um ano e outra de 12. Ela tinha transtorno bipolar mas, segundo os familiares, não era uma pessoa agressiva.

Fabiane saiu de casa de bicicleta e foi até a igreja buscar uma bíblia que tinha esquecido no local. Depois, segundo a família, ela iria para a casa de uma prima, em Morrinhos III. De acordo com a polícia, ela foi abordada no caminho por um grupo de pessoas. Elas agarraram Fabiane, amarraram as mãos dela e a espancaram. O corpo dela foi arrastado até uma passarela. Ela foi encontrada por policiais militares em estado de saúde grave.

As cenas foram gravadas por um celular e mostram dezenas de pessoas ao redor de Fabiane. Algumas teriam visto, na página Guarujá Alerta, hospedada no Facebook, o retrato falado de uma mulher que estaria sequestrando crianças em Guarujá, e pensaram que se tratava de Fabiane.

Confusão

De acordo com o inquérito, o retrato falado atribuído a Fabiane havia sido feito por policiais do Rio de Janeiro, da 21ª DP (Bonsucesso), em agosto de 2012. Na ocasião, uma mulher foi acusada de tentar roubar um bebê do colo da mãe em uma rua de Ramos, na Zona Norte da cidade.

Imagens de câmeras de segurança divulgadas na época mostraram uma mulher passando com a filha de 15 dias no colo e sendo seguida pela suspeita. A vítima estava levando o bebê para fazer o teste do pezinho em um posto de saúde. Ao sair da unidade, foi surpreendida pela mulher.



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Guia para terminar uma amizade ruim


Artigo interessante publicado na VICE Brasil:

Como terminar uma amizade ruim

SIERRA BEIN

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá.

A primeira vez que terminei uma amizade foi na primeira série. Percebi que minha melhor amiga pedia mais de mim do que dava; ela também me julgava muito. Mesmo tendo só uns sete anos, eu sabia que ela tinha que ir. Naquela idade parecia fácil cortar pessoas da minha vida. Hoje, 15 anos depois, percebo como é difícil terminar com um melhor amigo. Agora, no meu último ano de faculdade, terminei como outra amiga. Ainda fico triste pensando como a gente era próxima. Terminar uma amizade é especialmente doloroso.

Seu namorado pode não saber o número real de pessoas com quem você transou — mas sua amiga sabe. Amigos são especiais, e eu diria que terminar com um amigo é tão traumático quanto terminar um relacionamento romântico. Términos de amizade modernos tendem a separar grupos de amigos; você ainda precisa lidar com a falta que a pessoa faz na sua vida; você a bloqueia nas redes sociais ou fica stalkeando na esperança de que dê merda na vida dela (geralmente não dá); e agora também tem que evitar os lugares que vocês frequentavam. As coisas podem dar errado muito fácil. Então falei com alguns terapeutas de relacionamento, para entender se existe um jeito de, sem drama, terminar com um BFF.

Passo 1: Reconheça que tem algo errado

Dá pra perceber quando é uma boa hora de acabar uma amizade. Talvez vocês não se falem tanto ou você se vê procurando desculpas para encontrar a pessoa no bar. Mas os sinais são bastante universais.

"Acho que um dos fatores mais comuns é uma falta de conexão, em qualquer nível. Pode ser sobre valores, prioridades, objetivos ou interesses", me disse Jenny Glozman, uma terapeuta de Toronto. Mas além disso, ela diz que expectativas diferentes, falta de confiança e falta de comunicação são razões que ela geralmente vê para amizades terminarem, incluindo um sentimento de que você está dando mais que recebe. ("Quantas rodadas você me deve mesmo?")

Allan Studd, outro terapeuta de Ottawa Valley, descobriu que saúde mental individual pode afetar amizades. "Coisas como depressão podem facilmente entrar em jogo", ele diz. "Depressão, estresse, ansiedade, todas essas coisas afetam um relacionamento e colocam pressão sobre a relação."

Quando chegamos à faixa dos 20 anos, mudamos e aprendemos mais sobre nós mesmos. Acontece tipo uma crise de um quarto de idade, você começa uma carreira, entra num relacionamento sério (ou não), então acaba tendo que matar amizades ruins pelo caminho.

Passo 2: Saiba quando acabou




Todo mundo que já assistiu algum tipo de comédia/drama adolescente sabe do poder das últimas palavras. Na verdade, quando está no ensino médio a maioria simplesmente manda uma mensagem abrupta e quando entra na universidade já deu um perdido completo. Quando quero terminar com amigos, quero sempre aquele término perfeitamente claro, mas aparentemente essa é uma das piores maneiras de terminar, segundo os terapeutas.

"Quando você apenas não fala com a pessoa e tenta tirar ela da sua cabeça, muitas vezes isso cria esse laço negativo contínuo entre vocês", diz Glozman. "Você vai se apegar a essa raiva e ressentimento, e isso nunca vai desaparecer." "Sugiro terminar sempre cara a cara e da maneira mais honesta possível", diz Studd. "O que significa dizer para a pessoa 'isso não está dando certo para mim' ou 'parece que não temos mais tanto em comum'."

Outro jeito menos dramático de terminar uma amizade é quando vocês se distanciam. Essa é uma separação mais neutra e ambas as partes tendem a ter responsabilidade: mudança de interesses, mudança de cidade, etc. "Quando mais próxima a amizade, mais esforço você deve colocar nela (desde que seja seguro fazer isso)", disse Ellis Nicolson, um psicoterapeuta de casais e famílias. "Ser transparente provavelmente não vai magoar a outra pessoa."

Então mesmo que você esteja inclinado a simplesmente sumir, considere o fato de que os especialistas dizem que é mais saudável fazer o oposto.

Passo 3: Beba, chore, sofra




Vinho vagabundo, sexo equivocado e um novo corte de cabelo geralmente são as opções preferidas dos jovens adultos depois de um término normal. Mas quando uma amizade acaba, você pensa em todas as conversas sérias que vocês tiveram, histórias vergonhosas e fotos constrangedoras que a outra pessoa ainda tem, sem falar nas piadas internas que você não pode mais usar. O pior é pensar nos amigos em comum. Você fica sem saber o que fazer e pensa: "Meus outros amigos estão do lado dela ou será que acham tudo isso bobagem?" Para entender os efeitos pós-emocionais de uma amizade que acaba, os especialistas fizeram referência aos cinco estágios da perda: negação, barganha, tristeza/depressão, raiva e aceitação.

"Vejo esses passou como uma espiral, você pula de um sentimento ao outro até completar o círculo, e com o tempo começa a experimentar o estágio da aceitação mais e mais", diz Glozman.

É nesses primeiros estágios que você começa a sentir todo tipo de emoção negativa contra a pessoa. É nessa época que começamos a culpar o outro por todo tipo de coisa imaginável. "Ela fez aquilo comigo. Eu nunca fiz nada de errado, como ela ousou?" E mesmo que pensar essas coisas (eu mesma tenho que admitir) seja satisfatório em algum grau, Glozman lembra que é importante pensar no seu papel no término.

"É nessa parte que você realmente aprende. Essa é a parte que você pode controlar para seguir adiante", ela diz.

"É uma rua de mão dupla. Sempre digo aos casais com quem trabalho que uma relação é meio a meio... Que cada parceiro tem 100% de responsabilidade na sua parte do relacionamento", diz Studd. "Em termos de terapia, eu cuidaria de uma amizade do mesmo jeito que cuidaria de um casal."

Em outras palavras, eu e você erramos em algum ponto do caminho, e não devemos ficar tristes o tempo todo.

Passo 4: Ver a pessoa de novo




Agora vem a parte desconfortável: vocês vão se encontrar de novo em algum momento. Pode ser numa festa, na escola ou no trabalho — pode ser na padaria, tanto faz, você entendeu onde quero chegar. Vai parecer que a pessoa está em todo lugar em certos momentos.

"Você precisa agir de um jeito que honre vocês duas, seja do jeito que for. Para alguns é ser superior, para outros pode ser uma tentativa de resolver questões que ficaram para trás, para outros é a distância", disse Nicolson.

Dito isso, meu melhor conselho é parar de desperdiçar tempo planejando o que você vai dizer, estilo série adolescente. Essa é sua chance de mostrar que você está bem! Você quase não reconheceu a pessoa! Você não perdeu o sono pensando nela, ouvindo suas músicas favoritas e chorando! Se a pessoa perguntar daquela camiseta que deixou com você, diga que doou por acidente — você se tornou uma pessoa muito melhor sem ela. Mas os terapeutas provavelmente vão discordar de mim nessa.

"Qual o propósito do plano? Qual o objetivo disso? Esse tipo de 'esquema de vingança', se você preferir — isso provavelmente é mais prejudicial do que basicamente ter um plano de segurança", diz Glozman. "Acho que é importante ter um plano de segurança na cabeça, porque isso faz você não ter medo da interação."

Passo 5: Superar




Consertar relacionamentos nunca foi uma prioridade para mim, mas todos os terapeutas com quem falei disseram que isso quase sempre é possível.

"Você pode lidar com muitas coisas no contexto de um relacionamento", diz Glozman. "Há meios de cura, só que dão trabalho. Temos que ter muita disposição para sentar com os sentimentos de outra pessoa e... nem sempre estamos dispostos a fazer isso."

"Seja claro sobre suas necessidades. Se a outra pessoa não responder a elas, então é hora de deixá-la para trás", acrescentou Nicolson.

Mais importante, os terapeutas aconselharam falar com alguém, ou procurar um terapeuta (humm, $$$) se você realmente precisar se abrir. "As pessoas sempre acham que tem que ser algo muito severo ou extremo para procurar ajuda psiquiátrica, e acho que, culturalmente falando, não contextualizamos o fim de uma amizade nesse nível. Mas você está certa, pode ser tão traumático quanto qualquer final de relacionamento, é só que não falarmos sobre isso dessa maneira, e portanto desencorajamos as pessoas a procurar ajuda."

Se a coisa for impossível de salvar mesmo, pelo menos faça algumas das coisas que faria no caso de qualquer perda na sua vida — tome sorvete, durma um monte, assista séries, tente fazer exercícios ou algo produtivo. Seja um pouco egoísta e faça algo por você.





sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

É de uma muçulmana o rosto dos protestos anti-Trump nos EUA


O artigo foi traduzido e publicado no UOL Notícias:

Conheça Munira, a muçulmana cujo rosto se tornou um símbolo da resistência a Trump

Christina Cauterucci, para o Slate

Além das imitações de Donald Trump feitas com pães de queijo, Munira Ahmed talvez tenha sido o rosto mais visível nos protestos durante a posse no último fim de semana e na Marcha das Mulheres em Washington. Uma foto de Ahmed, uma muçulmana de 32 anos e intérprete autônoma que vive no bairro de Queens, em Nova York, serviu de inspiração para uma das imagens mais populares da resistência a Trump: uma mulher usando uma bandeira americana como "hijab", o lenço de cabeça usado por algumas muçulmanas.

Shepard Fairey, o artista que criou a imagem icônica "Esperança", da candidatura de Barack Obama, transformou a foto de Ahmed feita por Ridwan Adhami em um retrato da resiliência muçulmana e da contestação feminina, interpretadas em vermelho, branco e azul. Fairey faz parte do conselho consultivo da Fundação Amplifier, um grupo de artistas-ativistas que ofereceu várias imagens dele e de outros de graça para download e impressão nas semanas que antecederam a posse de Trump. A imagem de Ahmed foi um dos cartazes mais comumente vistos nos protestos e na marcha.

Ahmed participou dos protestos na McPherson Square, em Washington, no dia da posse, e esteve na Marcha das Mulheres no National Mall no dia seguinte. Ela falou comigo por telefone sobre o significado da imagem original, o que significou posar com um hijab, sendo que normalmente ela não usa o lenço, e como se sentiu ao ver seu rosto como símbolo da resistência à agenda de Trump. (Nossa conversa foi condensada e editada para ficar mais clara.)

Slate: Quando foi tirada a foto original em que você usa o hijab de bandeira?

Munira Ahmed: Foi tirada em 2007, durante uma sessão de fotos para a revista "Illume". Na época, era uma pequena publicação voltada para questões muçulmano-americanas, e as capas eram muito atraentes. [O fotógrafo Ridwan Adhami] teve a ideia de tirar a foto na frente do prédio da Bolsa de Nova York --na época havia uma grande bandeira americana pendurada na fachada. A proximidade do Ponto Zero [do atentado de 11 de Setembro] lhe dava um significado impactante. Desde então ela foi usada várias vezes em artigos e editoriais online. Com frequência sou assinalada em comentários no Facebook que dizem "Ei, é você, não é?". Certa vez, quando minha amiga me marcou e disse: "Quero que você saiba que sionistas pró-Israel que estão online usam essa imagem e fizeram uma espécie de editorial sobre os muçulmanos que são americanos, dizendo que são lobos em pele de cordeiro e não são confiáveis". Essa foi a imagem que usaram. Eu disse: "Puxa, que maravilha". [Risos]

Slate: Você esperava que a foto durasse tanto?

Ahmed: Eu sabia que ela tinha um aspecto atemporal, mas não esperava que tivesse tanta repercussão. Sei que é uma linda foto, tecnicamente bem iluminada, mas não sabia quanta gente diria "Seu olhar naquela foto, meu Deus!" Eu apenas pensava, honestamente, que pareceria qualquer mulher muçulmana usando uma bandeira no estilo de um hijab. Eu realmente não via o aspecto de eu estar lá. Tenho parentes, nenhum dos quais é meu amigo no Facebook, que me perguntam até hoje: "Então, qual é a história daquela foto sua usando uma bandeira como hijab? É uma linda foto, mas nunca ouvi você falar sobre isso".

Slate: O que passou pela sua cabeça quando Ridwan tirou a foto perto do Ponto Zero?

Ahmed: Havia muitas emoções misturadas. Eu nasci em Nova York, e vi o segundo avião [do 11 de Setembro] da janela da minha classe quando eu estava no colegial. Meu colégio era o Brooklyn Tech. Eu não sabia até aquele dia, para ser muito franca, que o centro do Brooklyn era tão próximo geograficamente do centro de Manhattan. Eu era uma garota de Queens que pegava o trem G, evitava Manhattan para chegar à escola. Por isso não fazia sentido para mim quando o céu se encheu de fumaça preta. Pensamos que fosse um incêndio em uma casa ou um prédio. Estávamos no quinto ou sexto andar do prédio. Houve um aviso pelo alto-falante alguns minutos depois, dizendo o que estava acontecendo, então olhamos pela janela e todos diziam "Oh, meu Deus, é isso, bem ali, o World Trade Center". E literalmente vimos o segundo avião chegar.

Todos ficaram arrasados naquele dia. Durante anos depois disso, quando eu pensava a respeito, tinha de parar o que estivesse fazendo, sentar-me e chorar. E [a foto do hijab] foi em 2007, acho. Então foi seis anos depois, e foi naquele lugar, e [eu estava pensando] aqui é tão escuro. Estar realmente perto daquele ataque como uma nova-iorquina.

Eu sabia que havia muita coisa acontecendo que fazia os muçulmanos serem acusados. Mesmo nós, que éramos pessoas comuns, ouvíamos: "Você não se manifesta o suficiente. Você não fala contra esses terroristas". E eles não têm ideia de que estamos constantemente fazendo isso --dizendo que eles não são como nós, que são pessoas que cometem pecados contra o islã. Quando dizemos essas coisas, os EUA não escutam. Houve muitas emoções de simplesmente me sentir cansada, mas também realmente dominada pela emoção de onde eu estava.

Slate: Como a foto acabou chegando a Shepard Fairey para o cartaz de resistência?

Ahmed: Pelo que eu sei, [a Fundação Amplifier] tinha imagens em mente para recriar para essa campanha. E Mark Gonzales, seu diretor de parcerias estratégicas, disse que apresentou essa imagem dizendo que devia ser considerada. Shepard me disse que lhe apresentaram muitas imagem de mulheres usando uma bandeira americana como hijab. Ele falou: "Munira, não sei se você sabe disso, mas há muitas fotos que têm uma mulher muçulmana usando uma bandeira como hijab". E: "Quando eu vi a sua, decidi na hora". E ele fez um comentário sobre a resiliência em meus olhos ou algo assim. E apenas disse: "Parece que você é uma pessoa normal --muitas outras fotos parecem modelos posando, e a sua foto fala sobre o que estava acontecendo muito mais que as outras".

Slate: Você sabia antes que a foto fosse escolhida que poderia ser o centro de uma enorme campanha?

Ahmed: Não! Eu não sabia de nada até que o fotógrafo me procurou, há cerca de um mês, e me disse: "É isso que vamos fazer, e eu quero que você seja a primeira a saber... e preciso da sua aprovação e autorização para fazer isso".

Slate: Você hesitou antes de aceitar?

Ahmed: Sim. Eu sou dessas pessoas que precisam saber de todos os detalhes possíveis antes de seguir em frente com qualquer coisa. Eu sempre estou meio na retaguarda desse jeito. Precisava ter mais consciência do que realmente ia acontecer com essa foto. Quando eu recebi mais informação foi quando troquei e-mails com Mark Gonzales. Então comecei a me sentir mais à vontade e embarquei.

Slate: O que a imagem simboliza para você? E o que você acha que as pessoas sentem quando a veem em um cartaz?

Ahmed: O que é mais aparente e simbólico na imagem, não importa quem esteja olhando, é que é uma mulher muçulmana e americana, e ela é as duas coisas e não está fazendo um compromisso.

Slate: Como essa intersecção de identidades ocorre na sua vida?

Ahmed: Sou uma mulher muçulmana --fui muçulmana toda a minha vida, e também sou americana desde que nasci. Por isso não posso separar as duas coisas. Não poderia nem que quisesse. Mesmo que um dia eu pensasse em deixar minha religião --o que não vou fazer--, ser muçulmana está entranhado em quem eu sou.

Já tive alguns choques racistas, mesmo com desconhecidos. Houve um em particular --eu estava sentada em um ônibus e uma mulher começou a falar alto e deixar claro que falava sobre mim, e dizia para sua amiga: "Esta aqui, não sei de que maldito lugar ela vem". E as pessoas ignoravam o que estava acontecendo, ou apontavam e riam, divertindo-se com a cena. Quando eu percebi o que estava acontecendo, eu disse: "Desculpe-se", para que ela soubesse que eu estava escutando. E ela disse: "Volte para o seu maldito país". E eu: "Eu nasci aqui, sua cadela", porque não consegui segurar a raiva que senti. Não acho apropriado chamar alguém que você não conhece de cadela, mas também acho que eu não devia deixar de me defender. Realmente me fez sentir que não sou deste país porque não sou parecida com você.

Slate: Eu li que você normalmente não usa hijab. O que você pensou ao fazer essa foto e se tornar um símbolo da mulher com hijab?

Ahmed: Quando Ridwan me apresentou o conceito, lembro que pensei: "É apropriado alguém que não usa hijab posar com um hijab?" Porque eu não vejo isso como uma simples roupa. Sei que é um símbolo de muito mais. Mas também sei que sou tão muçulmana quanto uma mulher com hijab. E quero que elas saibam que respeito sua escolha. É bonito. Muitas mulheres realmente se tornam mais poderosas e radiantes quando o usam, ao contrário do que as pessoas pensam, que é oprimida ou vítima patriarcal.

O que me fez achar que devia fazer isso foi quando naquela época li algo que disse que David Chapelle era muçulmano. E quando alguém lhe perguntou sobre sua identidade islâmica, ele disse: "Eu realmente não quero falar sobre isso, porque não quero que alguém associe as coisas ruins que há em mim com algo que é tão bonito". E quando eu li isso pensei: "Puxa, não seria bacana se ele não se importasse e simplesmente fosse muçulmano, e todo mundo neste país saberia que uma das figuras mais populares da cultura deste país é muçulmano, que isso fosse sabido por todos?" Eu queria que as pessoas vissem que você pode ser alguém que não é perfeito, tem vícios, talvez fale palavrões, talvez estrele um filme chamado 'Pra Lá de Bagdá', e ainda pode ser um muçulmano. Não somos caricaturas, somos pessoas reais.

Slate: Como foi ver seu rosto em toda parte nos protestos da posse e na Marcha das Mulheres?

Ahmed: Foi realmente surreal. Eu não sabia que ia estar em todo lugar daquele jeito. Sabia que muita gente baixou a foto no site da Amplifier. Só não sabia se seria principalmente nas cidades onde há sedes da Amplifier, ou em Nova York. Não sabia que na própria Washington estaria em todo lugar, na marcha principal. Foi incrível! Só digo isso, foi incrível. Mas o interessante é que ninguém me reconheceu nela. Não é uma cópia exata da foto. É como uma versão de quadrinhos de super-herói daquela foto, o que foi legal, porque eu pude me aproximar das pessoas que seguravam a foto e dizer: "Oi, posso tirar uma foto sua com esse cartaz?" Havia uma mulher que a usava como um broche. Eu apontei e disse: "Oi, gostei do seu broche", só para ser simpática. E ela: "Este broche? Este?", e eu disse: "Bacana". Só queria ver o que ela diria, por que ela gostava da imagem. E afinal ela tirou o broche e o deu para mim. Foi quando percebi que ela era surda. Quando tentei devolver, ela insistiu que eu o guardasse e indicou que tinha muitos outros iguais.

Foi um lindo dia. Sinceramente, acho que o que fizemos foi algo que realmente entrará na história. Todas as marchas de irmãs em todo o mundo fizeram-me sentir que eu faço parte de uma coisa obviamente muito maior que eu, mas que também me inclui.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

9 anos de blog



Foi no distante dia 2 de fevereiro de 2008 que nos arriscamos a começar com este blog.

A sensação de que o mundo piorou muito nesses 9 anos e que o Brasil sofre de uma desesperança crônica não nos desanima a seguir adiante.

Felizmente foram poucas, mas não nos faltaram razões para desestimular a sua continuidade, todas elas vencidas com perseverança e o apoio sempre presente dos muitos amigos que fizemos nessa caminhada: vocês, estimados leitores!

Dessa maneira, conseguimos nos manter fiéis ao nosso propósito inicial, o de compartilhar informação necessária e conteúdo de qualidade, com pitadas de descontração aqui e ali, sem nenhum interesse lucrativo, apenas pelo amor ao debate e ao aprendizado coletivo e solidário.

Agradecemos, portanto, a vocês, queridos parceiros de jornada, pela companhia e pela torcida que nunca nos faltaram, mesmo nos momentos mais difíceis.

Ao chegar o nosso nono aniversário, contatamos que resta apenas um ano para completarmos uma década juntos, e que nunca nos falte vigor e cumplicidade para seguir além, e mais além, enquanto pudermos.

Obrigado!



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Católico conservador cotado para o STF já nomeou padre como ouvidor do TST

A informação é do portal Justificando:

Em setembro, Gandra Filho substituiu servidora de carreira por padre em ouvidoria do TST

No dia primeiro de setembro de 2016 o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Ives Gandra Filho, exonerou a servidora pública Jumara Cristina Cerqueira Borges, funcionária de carreira no TST desde 91, para nomear o padre Placimário de Sousa Leite Ferreira para exercer o cargo em comissão de Ouvidor Auxiliar. A nomeação foi publicada no Diário Oficial da União e está dentro das atribuições legais e regimentais do ministro.

A indicação de um padre pode indicar a tendência do atual presidente do TST e candidato ao Supremo Tribunal Federal (STF) de misturar a religião com o direito. Gandra Filho, membro da Opus Dei, corrente católica ultra conservadora, esteve no centro do debate em razão de ter afirmado em 2012, quando publicou artigo acadêmico que as mulheres devem submissão aos maridos; que casamento deve ser indissociável e deve apenas acontecer entre o homem e a mulher. Além disso, ainda comparou uniões homoafetivas ao bestialismo, usando como exemplo uma mulher casada com um cavalo, como revelou a matéria do Justificando.

Em sua defesa, Ives soltou uma nota à imprensa, dizendo que suas falas foram descontextualizadas. Disse que “as pessoas homossexuais devem ser respeitadas em sua orientação e ter seus direitos garantidos, ainda que não sob a moralidade de matrimônio para sua união”. Além disso, o ministro afirmou que fez “referência apenas, de passagem, (sic) ao princípio da autoridade como incito (sic) a qualquer comunidade humana, com os filhos obedecendo aos pais e a mulher ao marido no âmbito familiar”.

Como prova de que não seria machista, Ives ressaltou a decisão de sua relatoria que teria “garantido às mulheres o direito ao intervalo de 15 minutos antes de qualquer sobrejornada de trabalho, decisão referendada pela Suprema Corte”.

Conforme revelou o Justificando, essa decisão citou no acórdão Edith Stein, canonizada como Santa Teresa Benedita da Cruz, uma teóloga nascida judia que se converteu ao catolicismo e tornou-se freira carmelita descalça. Nas palavras de Stein, reproduzidas por Ives no julgamento: “cada um dos sexos teria sua vocação primária e secundária, em que, nesta segunda, seria colaborador do outro: a vocação primária do homem seria o domínio sobre a terra e a da mulher a geração e educação dos filhos (A primeira vocação profissional da mulher é a construção da família)”.

O Justificando questionou a assessoria de comunicação do TST sobre o porquê da nomeação de um padre para o cargo e quais as qualificações do Padre Placimário. A comunicação interna do TST afirmou que dentro da política de reestruturação que ocorre a cada gestão, foram aprovadas, em 2016, diversas medidas voltadas para a ampliação e fusão de vários setores.

“Dessa forma cabe esclarecer que todas as mudanças se deram dentro dos princípios da legalidade, e sem que houvesse qualquer afronta ao Regimento Interno do TST, que prevê, dentro das competências da presidência, “nomear os servidores para os cargos em comissão e designar os servidores para o exercício de funções comissionadas nos Gabinetes de Ministros” (artigo 35, inciso XIX)”, diz a nota de esclarecimento.

O que é a ouvidoria

A ouvidoria é um canal para que os usuários possam reclamar do que não está satisfatório nos procedimentos do TST, por exemplo, um processo que não é movimento há muito tempo, ou alguma decisão que pode ser compreendida como erro do juiz. Basicamente, a ouvidoria recebe reclamações e verifica o que está acontecendo, tendo de informar sempre ao presidente. Ou seja, um cargo de extrema importância.



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