terça-feira, 26 de junho de 2012

O gene altruísta

Interessante artigo sobre a possibilidade de seleção de grupos (em vez da seleção natural darwiniana e o "gene egoísta" de Richard Dawkins) e a evolução da ética, publicado na Folha de S. Paulo do último domingo, 24/06/12:

Guerra acadêmica sobre a evolução da ética

REINALDO JOSÉ LOPES 
EDITOR DE "CIÊNCIA E SAÚDE"

Edward Osborne Wilson, 82, nunca foi um sujeito modesto, embora quase todos os que o conhecem façam questão de louvar a gentileza um tanto antiquada do biólogo, um dos derradeiros exemplares de "cavalheiro do Sul" dos EUA (ele nasceu no Alabama).

Em livro que acaba de ser lançado, o pesquisador da Universidade Harvard --uma das maiores autoridades mundiais em formigas e "bicampeão" do Prêmio Pulitzer-- decidiu revisar sua própria (e grandiosa) explicação sobre as raízes da natureza humana.

Em obras como "Sociobiology: The New Synthesis", de 1975, Wilson já explorava o foco da discórdia atual: por que, afinal, somos (ao menos de vez em quando) altruístas? Para ele, a explicação mais correta está na "seleção de grupo", ideia com fedor de heresia para uma parcela importante dos teóricos da evolução.

Seus adversários enxergam a evolução como um jogo cujos protagonistas são indivíduos ou genes --jamais grupos. Essa também era a opinião dele em "Sociobiology". Agora, no entanto, Wilson discorda.

"Indivíduos egoístas se saem melhor do que indivíduos altruístas. Mas grupos de altruístas vencem grupos de egoístas. Todo o resto é comentário", resume ele no recém-lançado "The Social Conquest of Earth" ["A Conquista Social da Terra", ed. Liveright, 297 págs.].

De leitura agradável e clara, o livro foi escrito para divulgar as novas ideias do cientista para o grande público. A edição brasileira está prevista para o segundo semestre, pela Companhia das Letras, que ainda lançará, no ano que vem, "O Superorganismo - A Beleza, a Elegância e a Esquisitice das Sociedades dos Insetos".

PARENTESCO

Wilson ainda faz questão de cutucar outro vespeiro caro aos biólogos evolutivos: o conceito de seleção de parentesco.

Grosso modo, ele pode ser descrito como a versão evolutiva do nepotismo. Ajuda a expressar como sacrifícios feitos em favor de parentes podem ser uma estratégia vencedora no jogo da evolução, mesmo quando o indivíduo que arrisca a sua vida nem chega a deixar descendentes diretos.

Bobagem, diz Wilson: tanto comportamentos observados na natureza quanto modelos matemáticos --que supostamente mostrariam a importância da seleção de parentesco-- podem ser explicados de outras maneiras. Por exemplo, pelo conceito de seleção de grupo.

A seleção de parentesco, escreve ele, é "uma construção matemática fantasma, impossível de ser expressa de maneira que faça algum sentido biológico realista."

Para alguns, a briga põe mais coisas em jogo do que a ortodoxia da teoria evolutiva. Decidir a disputa também ajudaria a determinar se, afinal, o altruísmo puro, desinteressado, faz parte da nossa herança genética, ou não passa de um belo manto para o mais rasteiro favorecimento de parentes.

"Isso é ciência com altas implicações existenciais", escreveu o neurocientista e divulgador científico Jonah Lehrer na revista americana "New Yorker".

Dois anos atrás, ao apresentar uma prévia de suas teses em artigo publicado na revista científica "Nature", Wilson despertou tamanha ira que 130 dos mais renomados biólogos do mundo mandaram uma carta tentando refutá-lo. O debate continuou, com réplica e tréplica na "Nature" e na internet, e ainda não amainou de todo.

"O Ed sempre teve um viés favorável à seleção de grupo, embora trate o tema de forma extremamente confusa. Nada mudou [na pesquisa sobre evolução] para justificar a ênfase que ele vem dando à ideia agora", diz Robert Trivers, pesquisador da Universidade Rutgers (EUA), um dos críticos mais ferrenhos da guinada.

Outros, porém, saem em defesa de Wilson. "O que a gente está vendo é pura resistência paradigmática. Thomas Kuhn ia adorar presenciar isso", diz Charbel Niño El-Hani, do Laboratório de Ensino, Filosofia e História da Biologia da Universidade Federal da Bahia.

Historiador da ciência americano, morto em 1996, Kuhn postulou que as grandes mudanças na ciência só acontecem aos trancos e barrancos, quando uma antiga visão de mundo (o tal paradigma) é suplantada por outro paradigma, inconciliável com o anterior.

Para El-Hani, muitos dos que se opõem a reconhecer um possível papel relevante da seleção de grupo o fazem por mero conservadorismo: "Muita gente veio com a conversa de que o Wilson endoidou ou está gagá. São os filhos se sentindo traídos pelo Grande Pai".

HAMILTON

Expressão matemática bastante simples, a regra de Hamilton é considerada a base do pensamento quantitativo sobre seleção de parentesco. A álgebra é do britânico William Donald Hamilton (1936-2000), antigo aliado de Wilson e um dos biólogos evolutivos mais admirados do século 20.

A expressão, C < r x B, diz que um comportamento altruísta valerá a pena desde que seu custo (C) seja menor que o benefício (B) multiplicado pelo grau de parentesco (r, do inglês "relatedness") entre os indivíduos envolvidos no ato altruísta.

Se a conta parece um pouco abstrusa, podemos compreendê-la a partir de uma anedota, anterior ao trabalho de Hamilton e que acabou por inspirá-lo. Certa vez perguntaram ao também britânico John Burdon Sanderson (conhecido como "JBS") Haldane (1892-1964), outro gigante da biologia evolutiva, se ele seria capaz de dar a vida para salvar um irmão. Ele fez uma conta rápida e respondeu que seria capaz de se sacrificar alegremente não por um, mas por dois irmãos. Ou por oito primos, tanto fazia.

Por trás da piada está o fato de que criaturas que se reproduzem por meio do sexo, como nós e a vasta maioria dos reinos animal e vegetal, possuem "fatias" genéticas de si mesmas espalhadas pelo genoma de seus parentes.

Lembre-se de que seres humanos normais, por exemplo, possuem 23 pares (a palavra-chave aqui é "pares") de cromossomos, as estruturas enoveladas que abrigam o DNA. Um dos membros de cada par é legado pelo pai; o outro vem do genoma materno.

Isso significa que, a cada geração, quando óvulos e espermatozoides são produzidos, ocorre uma nova divisão, meio a meio, do material genético que será passado para os filhos. Grosso modo, uma menina carrega 50% do genoma de sua mãe (a conta é a mesma para irmãos, desde que sejam filhos do mesmo pai e da mesma mãe), enquanto uma neta tem 25% do DNA de sua avó. Primos em primeiro grau compartilham entre si 12,5% de seu material genético, e por aí vai.

Portanto --e adicionando uma dose de dramalhão mexicano à brincadeira de JBS--, só fará sentido usar o seu corpo como escudo para proteger o seu irmão dos disparos de um bandido caso você saiba de antemão que seu irmão terá, no futuro, quatro filhos ou mais. Isso porque "quatro sobrinhos" (25%+25%+25%+25%) = 100% "você".

O DNA que caracteriza o seu organismo, em outras palavras, será mantido no grande caldeirão genético da nossa espécie graças ao seu ato heroico, ainda que você pereça sem deixar descendentes.

Claro que esse é o cenário extremo, hollywoodiano, em que a seleção de parentesco poderia favorecer comportamentos altruístas. Nesses casos, o B (de "benefício") da regra de Hamilton é simples: garantir a sobrevivência de membros da família.

Mas mesmo ações bem mais modestas, como tomar conta de um neto ou sobrinho quando a filha ou a irmã precisam ir para o trabalho, podem trazer uma contribuição pequena, mas não desprezível, para a aptidão geral da família """aptidão" entendida como a capacidade de sobreviver e deixar descendentes viáveis, a medida primordial do sucesso evolutivo.

A formulação da regra de Hamilton, originalmente publicada em artigos no periódico científico "Journal of Theoretical Biology", em 1964, a princípio quase caiu no vazio. Wilson foi um dos poucos partidários de primeira hora.

Em seu último livro, ele conta ter defendido Hamilton "diante de uma plateia em grande parte hostil", num encontro da Real Sociedade Entomológica de Londres, em 1965. A seleção de parentesco é uma das estrelas de um dos livros do biólogo a receber o Pulitzer, "On Human Nature" ("Sobre a Natureza Humana"), de 1979.

Defender esse tipo de ideia nos anos 1970 não era exatamente um passeio no parque. Acusado de achar que os genes controlavam o comportamento humano como se as pessoas fossem robôs e de até de apoiar o racismo e a extrema direita, Wilson chegou a ser atacado durante uma conferência científica - ativistas derramaram um jarro de água gelada na cabeça dele.

O biólogo Nelio Bizzo, hoje professor de ensino de ciências na USP, estudante de pós-graduação no começo dos anos 1980, lembra como as implicações políticas da obra de Wilson geravam polêmica.

"Cursei a disciplina de sociobiologia durante o mestrado e, no trabalho final, levantei a conjectura de que, se as ideias de Wilson estivessem corretas, o editor do livro deveria ser parente dele. Quase fui reprovado", conta.

"Acho que a carga ideológica da seleção de parentesco era evidentemente muito grande, pois era uma justificativa muito forte para uma série de práticas sociais moralmente inaceitáveis, como o racismo e a xenofobia", diz Bizzo. "Talvez o Wilson seja descendente de uma família que possui um gene que faz as pessoas pensarem que tudo é genético", ironiza.

Apesar do debate político, para muitos a regra de Hamilton parecia unir e explicar, num único conjunto conceitual e com economia, uma série de fenômenos biológicos aparentemente disparatados.

EUSSOCIALIDADE

O caso mais importante tinha a ver com o estilo de vida bizarro de certos insetos, como formigas, abelhas e vespas, todos membros da ordem dos himenópteros. Muitos desses animais adotaram a eussocialidade (do grego "eu", "verdadeiro", ou "sociedades verdadeiras", cuja complexidade pouco deve à da sociedade humana).

A praxe nos grupos de insetos eussociais é que a reprodução seja monopólio de uma única rainha, enquanto as demais fêmeas do grupo, divididas em castas de operárias, soldadas etc., nunca deixam descendentes diretos --e são em certa medida descartáveis.

Para Hamilton e companhia, uma pista crucial para entender a estrutura social desses insetos está no sistema que usam para determinar o sexo dos indivíduos, conhecido como haplodiploide.

Começando pelo fim: "diploides" são os organismos com dois conjuntos de cromossomos, como os humanos, as abelhas rainhas e as abelhas operárias. Criaturas haploides têm um só conjunto de cromossomos ""é o caso dos zangões.

Rainhas e operárias nascem da união entre fêmeas e machos, tal como nós. Já os zangões são fruto da partenogênese (literalmente, "nascimento virgem"), vindo ao mundo a partir de óvulos não fertilizados, botados pelas rainhas.

Essa "esquisitice" teria uma consequência intrigante para a regra de Hamilton. Por terem só uma cópia de cada cromossomo, os zangões legam sempre os mesmos genes para suas filhas, a não ser que ocorram mutações (se o genoma deles fosse como o nosso, duas filhas poderiam herdar, cada uma, um cromossomo diferente).

Por isso, duas abelhas filhas do mesmo pai e da mesma mãe estão geneticamente muito mais próximas uma da outra do que irmãos mamíferos: compartilham 75% de seus genes. No entanto, o grau de compartilhamento entre essas fêmeas e suas mães ou filhas ainda é o tradicional: 50%. Quanto aos zangões, justamente pela presença de um único conjunto de cromossomos no genoma deles, o compartilhamento cai para 25%.

Esses fatos simples, vistos pelo prisma da seleção de parentesco, pareciam explicar o porquê da rainha solitária, destinada a trazer ao mundo uma multidão de operárias depois de um único voo nupcial com zangões. A monarca não passaria de uma máquina de fazer súditas, as quais teriam muito mais "interesse" em produzir irmãs geneticamente muito parecidas com elas mesmas do que em criar suas próprias filhas e filhos.

BRECHAS

O poder explicativo da seleção de parentesco teria ajudado, portanto, a resolver o enigma da origem de alguns dos animais mais bem-sucedidos da história da Terra. Afinal, embora formigas, abelhas e vespas eussociais correspondam a apenas dezenas de milhares entre cerca de 1 milhão de espécies de insetos conhecidas, esses bichos não têm rival em número de indivíduos. Apenas as formigas correspondem a um quarto do total da biomassa (o "peso" somado dos seres vivos) de animais.

No entanto, uma praga devoradora de celulose sempre rondou essa ortodoxia: o cupim. Mais aparentados às baratas, esses animais são diploides, tal e qual mamíferos como nós, e mesmo assim são adeptos refinados da eussocialidade. Em seu novo livro, Wilson mapeia o avanço da pesquisa nas últimas décadas, revelando, em várias espécies, clara adoção da vida eussocial sem o arranjo genético peculiar de abelhas e formigas.

São seres como besouros, camarões e até roedores que habitam o subsolo africano, entre eles o rato-toupeira-pelado (Heterocephalus glaber). Mesmo no caso de abelhas e formigas, o mais comum é que a rainha se acasale com múltiplos machos, anulando o efeito de proximidade genética entre irmãs que poderia ser gerado pela haplodiploidia "de um marido só".

O resultado desse novo conjunto de dados, argumenta Wilson, é que a associação entre haplodiploidia e vida eussocial "deixou de ter significância estatística".

SELEÇÃO DE GRUPO

Para Wilson, é muito mais simples pensar em termos de seleção de grupo. Examinando o que há de comum entre os vários tipos de espécies eussociais, ele afirma que esse estilo de vida depende de vários pré-requisitos para emergir.

Um deles é a existência de um ninho "fortificado", facilmente defensável --um protótipo de colmeia ou formigueiro, digamos.

Outro passo crucial é quando modificações comportamentais, provavelmente ligadas a mutações, levam os filhotes, ao se tornarem adultos, a deixar de se dispersar e criar seus próprios ninhos, permanecendo com a família e cuidando dos irmãos que vão nascendo. Dados experimentais mostram que, nesses casos, estabelece-se uma divisão de trabalho natural dentro da colônia, com o aparecimento de formas rudimentares de rainhas e operárias.

Nesse contexto, afirma o biólogo, ganha a corrida evolutiva o ninho que funcionar como a unidade reprodutiva mais azeitada --e a divisão de trabalho e coesão proporcionadas pela vida eussocial representariam enorme vantagem para os grupos altruístas, diz ele.

O argumento já seria suficientemente ambicioso se a proposta fosse explicar apenas os insetos sociais, que são a especialidade de Wilson. Mas ele também classifica os seres humanos como mamíferos eussociais, ainda que de natureza bem distinta da dos ratos-toupeira-pelados.

Apoiando-se em dados arqueológicos e paleoantropológicos, ele vê os hominídeos (ancestrais do homem) passando pelo processo de criação de "ninhos" defensáveis ao adotarem o hábito de montar acampamentos de caçadores-coletores. Assim como nas espécies eussociais, os acampamentos abrigavam múltiplas gerações de indivíduos aparentados e lançavam mão da divisão de trabalho para obter alimentos, defender-se de grupos vizinhos e atacá-los.

"Invenções" tipicamente humanas, como a linguagem complexa, a arte e a religião, seriam meios refinados para maximizar a coesão interna dos grupos e prepará-los para o confronto com os demais.

"A questão é que os seres humanos não apresentam a divisão reprodutiva de trabalho que vemos nos insetos", ressalva Klaus Hartfelder, biólogo da USP de Ribeirão Preto que estuda o genoma das abelhas.

Para Wilson, as tendências altruístas humanas no interior dos grupos são contrabalançadas pela seleção natural agindo nos indivíduos, com cada um tentando maximizar seu próprio potencial reprodutivo à custa dos demais.

O resultado é uma visão decididamente dualista da natureza humana: a seleção de grupo é a mãe do que chamamos de virtudes, diz Wilson; a seleção natural "individual", a fonte de todos os vícios. Ser humano significa estar dilacerado por essas tendências opostas a cada momento da vida.

RENASCIMENTO

Uma coisa é certa: os últimos anos viram um renascimento dos estudos sobre seleção de grupo, embora a maioria dos biólogos ainda relute em aceitá-la.

"Vinte anos atrás, a crítica à seleção de grupo era feroz. Era considerado 'naïf' [ingênuo] ter ideias desse campo", conta Diogo Meyer, biólogo evolutivo da USP. "O campo amadureceu, deixou de ser anátema. Mas demonstrações teóricas e empíricas fortes a favor da seleção de grupo ainda são modestas".

Uma objeção tradicionalmente levantada pelos que duvidam da seleção de grupo tem a ver com a relativa vulnerabilidade das sociedades de altruístas ao chamado "mutante egoísta". Num grupo em que predominam altruístas, um sujeito desse tipo teria uma grande vantagem reprodutiva em relação aos demais, e aquela população logo seria "invadida" e dominada por descendentes dele.

Desde o fim dos anos 1990, no entanto, trabalhos de pessoas como David Sloan Wilson (não é parente do outro Wilson) usaram modelos matemáticos para mostrar que, em determinadas condições, a seleção de grupo pode ocorrer. "Pode ser um evento raro", diz Gustavo Caponi, professor de filosofia e história da ciência da Universidade Federal de Santa Catarina. "Mas a evolução tem tempo de sobra para eventos raros acontecerem."

Tais condições envolveriam, por exemplo, grupos relativamente bem separados e homogêneos, de modo que a diversidade de comportamento fosse menor no interior dos grupos do que entre um grupo e outro.

Para Charbel El-Hani, esse tipo de contexto pode favorecer a aplicação que Wilson faz da seleção de grupo à evolução humana. "As culturas humanas conseguem criar esse cenário", diz ele, ressaltando, no entanto, que outros fatores igualmente importantes devem ter influenciado a trajetória evolutiva de nossa espécie.

El-Hani lembra que até a avicultura fornece indícios em favor da seleção de grupo: "Descobriu-se que, depois de um certo limiar, era muito difícil aumentar a produção de ovos de galinha. É que, quando os criadores selecionavam individualmente as galinhas mais produtivas, essas acabam sendo também as 'nasty chickens' [galinhas malvadas], que destruíam os ovos das outras." Quando a seleção passou a ser feita pelos grupos que mais botavam ovos, a produtividade voltou a subir.

Apesar da crescente adesão à ideia de seleção de grupo, Wilson parece pisar em terreno mais pantanoso quando diz que a seleção de parentesco inexiste ou é desimportante.

Mesmo entre os supostamente harmoniosos himenópteros, conflitos de interesse genético ocorrem com frequência, lembra Klaus Hartfelder, referindo-se ao seu campo de especialidade, as abelhas domésticas. As operárias, célebres por sua esterilidade, ainda assim são capazes de produzir ovos por partenogênese, e uma rainha pode se acasalar com 20 machos diferentes antes de "constituir família". "O que acontece é que as operárias tendem a destruir os ovos botados por outras operárias cujo pai não é o mesmo que o delas", conta Hartfelder. Coisas parecidas também se dão com formigas.

A acidez do debate está longe de amainar, mas o biólogo da USP vê com tranquilidade a briga. "Essas posições fortes são importantes, é assim que a ciência avança." E, se Wilson estiver certo, talvez esse seja mais um resultado dos profundos instintos tribais que a evolução inscreveu certa vez nos corações de um punhado de primatas bípedes.



segunda-feira, 25 de junho de 2012

Funeral do maridão roncador



O vídeo "Amor com os defeitos" já é um viral na internet, e mostra de maneira ao mesmo tempo emocionante e bem humorada, como são os pequenos detalhes (muitas vezes não tão agradáveis) que fazem a vida valer a pena ser vivida (inclusive - quem sabe - entre os nobres).





domingo, 24 de junho de 2012

Tinha uma árvore no meio do caminho


Mais uma ótima meditação do meu querido amigo e irmão Almir Albuquerque, sobre a importância de se viver a vida cristã na íntegra, e não somente na fachada:





sábado, 23 de junho de 2012

Crônica de um golpe anunciado

Implicações religiosas também atuaram no "golpe branco" contra o presidente paraguaio, o ex-bispo católico Fernando Lugo, segundo artigo do Brasil 247:

Como elite, mídia e Igreja católica jantaram Lugo

Leonardo Attuch _247Ainda que a constituição paraguaia permita o juízo político de seus governantes, um processo de impeachment que se desenrola em apenas dois dias só pode ser definido com uma única palavra: golpe. Foi isso o que aconteceu no Paraguai, por mais que vozes conservadoras, daqui e de lá, defendam a legalidade do processo. Ponto.

Até aí, não há muita surpresa, uma vez que a história paraguaia é marcada por golpes, ditaduras e quarteladas. A diferença, desta vez, foi a sutileza de um “golpe parlamentar”, um “golpe democrático”. Em resumo, um golpe branco, imposto pela elite oligárquica do país.

Surpresa em si foi a reação do presidente Fernando Lugo, que não opôs resistência alguma e se ofereceu passivamente ao martírio. A que se deve essa atitude? Talvez seja fruto da sua formação católica. Ex-padre, e achincalhado por muitos pelas dezenas de filhos que fez, Lugo tem alma cristã. Ao deixar o poder, ele ofereceu a outra face. “Saio pela porta maior, a do coração”, disse o ex-presidente. Lugo ainda tentará – em vão – recuperar seus direitos políticos, mas essa é uma batalha perdida.

No Paraguai, tudo parece estar dominado: Congresso, meios de comunicação e a própria Igreja Católica. Nos jornais paraguaios de hoje, não se encontrará uma única referência ao golpe. Periódicos como "ABC Color" e "Cronica" tratam a deposição de um presidente eleito como um fato corriqueiro, tal qual uma partida de futebol do Cerro Porteño. O ABC, por sinal, trouxe a seguinte manchete no dia de ontem, que já antecipava a decisão do Congresso: "Se não renunciar, Lugo será cassado".

Assim como os meios de comunicação, a Igreja Católica paraguaia também se uniu à elite conservadora na trama do golpe de Estado. Horas antes do “juízo político”, Lugo recebeu, na residência oficial do país, um grupo de bispos da Conferência Episcopal, que equivale à CNBB no Brasil. Um deles, Claudio Giménez saiu afirmando à imprensa que os padres pediram a Lugo que renunciasse para “evitar enfrentamentos”.

Passivo, Lugo assim resumiu sua queda: “Não é Lugo o destituído, é a história paraguaia”. Errado. A história paraguaia não foi destituída. Ela foi restituída.




Corrobora a versão acima noticiada a informação do Ultima Hora de que o núncio apostólico (embaixador do Vaticano) em Asunción, D. Eliseo Ariotti, foi a primeira autoridade diplomática a reconhecer o novo governo paraguaio.

Alegando que "me agrada muito que o povo simples e todas as autoridades tenham pensado no bem do país", o núncio apostólico se apressou em ter uma reunião com Federico Franco, o novo presidente do país.

Como não bastasse o apoio eufórico do Vaticano ao golpe parlamentar, D. Ariotti ainda convocou uma missa para as 4 da tarde de hoje, a pretexto de "rezar pela paz no Paraguai".



Maçãs envenenadas

Se hoje você lê o que eu escrevo aqui no blog, devemos esta interação em grande parte ao matemático britânico Alan Turing, cujo centenário de nascimento comemoramos hoje, 23 de junho de 2012.

Cedo na vida ele já se destacava por fazer certas coisas, digamos, "fora do padrão".

Quando tinha 14 anos de idade, Turing se preparava para o seu primeiro dia de aula na Escola Sherborn em Dorset, mas o Reino Unido enfrentava uma greve geral, pelo que não teve dúvida: pedalou 100 km na sua bicicleta desde Southampton até o colégio, façanha que foi publicada no jornal local.

Em 1931, Alan Turing entrou para o King’s College da Universidade de Cambridge, onde enfrentou a questão da indecidibilidade - os teoremas da incompletude propostos pelo lógico austríaco-americano Kurg Friedrich Gödel, que demonstrou que algumas questões matemáticas estariam além do alcance da lógica.

De certa forma, Turing terminaria concordando com Gödel, mas limitaria ainda mais as questões indecidíveis, ao propor uma máquina (naquele tempo) imaginária, que seria capaz de cumprir o que faz aquilo que hoje chamamos de “programa” (ou “software”, se preferir), seguindo um algoritmo.

Essa verdadeira ficção científica da época, que ficou conhecida como a “máquina de Turing”, foi a antevisão daquilo que hoje chamamos de “computador”, que fez com que ele fosse reconhecido posteriormente como o Pai da Ciência da Computação.

Entretanto, se você pensa que Turing ficou só na imaginação de sua máquina, está muito enganado. Um protótipo dela, exótico e rudimentar para os dias atuais, surgiria na Segunda Guerra Mundial e seria decisiva para a vitória aliada contra os nazistas.

Agora, perdoe-nos uma pausa que se faz necessária até o desfecho dessa história: antes do estouro da guerra, em 1938, ele assistiu o desenho animado “Branca de Neve e os Sete Anões”, em que a bruxa malvada mergulha uma maçã no veneno. Seus colegas de trabalho diziam que ele cantava constantemente a música tema do filme: “Mergulhe a maçã no caldo, e deixe a morte sonolenta penetrar”.

Em 4 de setembro de 1939, um dia depois do Reino Unido declarar guerra à Alemanha, Alan Turing deixou Cambridge para se instalar em Shenley Brook End, de onde pedalava por 5 km até Bletchley Park, sede do ultrassecreto serviço de quebra de códigos alemães.

Foi ali que Turing desenvolveu um método revolucionário para quebrar a poderosíssima criptografia do aparelho nazista chamado Enigma, liderando uma equipe que montou as estranhas máquinas, com significativa contribuição do matemático Gordon Welchman, que ficaram conhecidas como as “bombas de Turing-Welchman”, precursoras rústicas dos atuais computadores.

A quebra dos códigos alemães se revelou decisiva na derrota de Hitler. Tampouco as criptografias italiana e japonesa passaram no crivo da "bomba". No mínimo, encurtou o desfecho da guerra. Alguns estudiosos estimam que, não tivesse o trabalho de Bletchley Park sido tão importante, o combate só terminaria em 1948 e não em 1945.

Com o fim do conflito e a Guerra Fria que se seguiu, tudo que foi feito lá passou a ser segredo de Estado, bem como a contribuição de Turing e seus companheiros de trabalho não pôde ser reconhecida. E isto terminaria muito mal.

É que Alan Turing era homossexual, comportamento tolerado no meio universitário mas tipificado como crime numa sociedade vitoriana como era a britânica de meados do século XX. 

Em 1952, ele deu queixa de um furto de que havia sido vítima, cometido por um homem que ele confessou ingenuamente que era seu parceiro sexual.

Foi o seu fim. Veio o julgamento acompanhado de toda a humilhação pública a que foi submetido, além da obrigatoriedade de consultar um psiquiatra, tendo-lhe sido imposta uma castração química com hormônios femininos que o deixaram obeso e impotente.

Turing ainda resistiu à violência física e emocional por dois anos, mas diante da indiferença do governo do país que ajudara a salvar, a depressão o arrastou por um caminho perverso até voltar ao desenho animado da Branca de Neve que ele assistira em 1938.

No dia 7 de junho de 1954, Alan Turing se recolheu ao seu quarto, levando uma jarra com uma solução de cianeto e uma maçã. Mergulhou-a no cianeto e comeu alguns pedaços.

Apesar da óbvia relação com o logotipo da Apple, Steve Jobs negou que tenha sido o suicídio de Turing a sua inspiração, embora lamentasse que não houvesse essa homenagem a ele na marca que se tornou um ícone da era digital.

Pouco antes de completar 42 anos de idade, morria um dos gênios que – o mundo ainda não sabia – seria um dos maiores responsáveis por toda a revolução tecnológica que as novas gerações já encontram pronta ao nascer. 

Algo que não existia nem em sonho exatos 100 anos atrás.


As notas biográficas aqui recolhidas provêm do capítulo 4, "Decifrando a Enigma", do excelente "O Livro dos Códigos", de Simon Singh (Ed. Record, 2003). Mesmo quem não gosta de matemática, como eu, apreciará muito a leitura. #ficadica 


sexta-feira, 22 de junho de 2012

5 mitos sobre a perseguição anticristã

Artigo publicado no IHU em janeiro deste ano e que continua tristemente atual:

Cinco mitos sobre a perseguição anticristã

Em seu discurso anual aos diplomatas do dia 9 de janeiro, o Papa Bento XVI destacou a liberdade religiosa com ênfase nos cristãos perseguidos em todo o mundo. "Em muitos países, os cristãos estão privados dos direitos fundamentais e marginalizados da vida pública", disse ele. "Em outros países, eles suportam ataques violentos contra suas igrejas e seus lares".

A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 13-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nesta semana, uma delegação de bispos católicos da Europa e dos EUA tentaram chamar a atenção para um pequeno capítulo dessa história global: a Faixa de Gaza, onde 2.500 cristãos vivem em meio a uma população esmagadoramente muçulmana de 1,5 milhão de pessoas. Eles se encontram presos em um torno formado pela militância islâmica, de um lado, e por um bloqueio imposto pelos israelenses e pelos egípcios, de outro.

O bispo inglês William Kenney disse aos cristãos de Gaza, "Você não estão esquecidos".

É um sentimento adorável, e os bispos da Coordenação para a Terra Santa, que inclui o bispo de Tucson, Gerald Kicanas, como o representante norte-americano, merecem crédito pelos seus esforços. No entanto, ficamos pensando quanta realidade existe por trás da afirmação de Kenney.

O intelectual francês Régis Debray, esquerdista veterano que lutou ao lado de Che Guevara na Bolívia, observou que a perseguição anticristã se desdobra diretamente no ponto cego político do Ocidente – as vítimas são geralmente "muito cristãs" para estimular a esquerda e "muito estrangeiras" para o interesse da direita.

Como contribuição para apagar esse ponto cego, vamos desmascarar cinco mitos comuns sobre a perseguição anticristã.

Mito nº 1: Os cristãos são vulneráveis apenas quando são minoria

Acima de tudo, mesmo que isso fosse verdade, dificilmente diminuiria a seriedade da questão. De acordo com uma recente análise do Pew Forum, 10% dos cristãos vivem em sociedades em que são uma minoria. Dado que existem 2,18 bilhões de cristãos no planeta, isso se traduz em mais de 200 milhões de pessoas, muitas delas enfrentando ameaças, como as da Faixa de Gaza.

Qualquer flagelo que põe 200 milhões de pessoas em perigo, seja qual for a causa, mereceria preocupação.

No entanto, é palpavelmente falso que a perseguição ocorre apenas onde os cristãos são uma minoria. Segundo dados de outubro de 2010 do Pew Forum, os cristãos enfrentam ataques em um impressionante total de 133 países, o que representa mais de dois terços de todas as nações da terra, incluindo muitas onde os cristãos são uma forte maioria.

Um olhar sobre uma recente lista reunida pela Agência Fides, a agência de notícias missionária do Vaticano, de agentes de pastoral católicos mortos durante o ano passado, ilustra esse ponto.

Dos 26 que perderam suas vidas em 2011, apenas um morreu em um país onde os cristãos são uma minoria: o padre salesiano Marek Rybinski, morto na Tunísia, em fevereiro. Todos os demais morreram em países onde os cristãos são maioria, incluindo várias nações majoritariamente católicas, como Colômbia, México, Burundi, Sudão do Sul e Filipinas.

A Colômbia, o sexto maior país católico do planeta, também foi lugar mais perigoso do mundo para ser um agente de pastoral católico em 2011. Seis padres e um leigo morreram, somando-se a uma sangrenta contagem de 70 padres, dois bispos, oito religiosos e três seminaristas mortos na Colômbia desde 1984.

Um dos mais angustiantes e novos martirológios de 2011 veio do México, onde 92% da população é católica. Mary Elizabeth Macías Castro, líder do Movimento Leigo Scalabriniano e blogueira, foi decapitada por expor as atividades de um cartel de drogas. De acordo com a Comissão para a Proteção dos Jornalistas norte-americana, ela foi a primeira jornalista do mundo morta devido ao uso de mídias sociais.

Em qualquer lugar em que os cristãos professam a sua fé abertamente, tomam posições contra a injustiça ou se colocam em perigo por causa do Evangelho, eles estão em risco – seja qual for a demografia religiosa do lugar.

Mito nº 2: Tudo tem a ver com o Islã

Uma parcela desproporcional de perseguições anticristãs é, na verdade, alimentada pelo Islã radical. Open Doors, um grupo evangélico, colocou nove Estados muçulmanos em sua lista "Top 10" de 2011 dos lugares mais perigosos para os cristãos, incluindo Afeganistão, Arábia Saudita, Somália e Irã.

No entanto, simplesmente identificar a perseguição anticristã com o Islã é enganoso. Há exemplos convincentes de colaboração entre cristãos e muçulmanos em várias partes do mundo, e essa é a base da visão do Papa Bento XVI de uma "Aliança de Civilizações" (um dos principais partidos políticos das Filipinas, por exemplo, é o Democratas Muçulmanos Cristãos). Também não se deveria esquecer que as vítimas mais numerosas do extremismo muçulmano são, de fato, outros muçulmanos.

Além disso, o Islã radical dificilmente é a única fonte de animosidade anticristã. Os cristãos sofrem de uma série de outras forças, incluindo:

- O ultranacionalismo (como na Turquia, onde nacionalistas extremistas tendem a ser uma ameaça maior do que os islamistas);

- Estados totalitários, especialmente do âmbito comunista (China, Coreia do Norte);

- O radicalismo hindu (a agressão anticristã se tornou rotineira em algumas regiões da Índia. Nesta semana, radicais hindus armados com paus e barras de ferro atacaram 20 cristãos pentecostais em uma casa particular perto de Bangalore, um ataque que deixou o pastor sem um dedo de sua mão esquerda. Quando os cristãos denunciaram agressões semelhantes há duas semanas, um membro da comissão oficial do Estado para as minorias, que está sob o controle de um partido nacionalista hindu, deu de ombros: "Se realmente conhecessem os ensinamentos de Jesus, os cristãos não deveriam estar reclamando", ele teria dito);

- O radicalismo budista (como no Sri Lanka, onde, ao contrário dos estereótipos de tolerância budista, manifestações lideradas por monges budistas atacaram igrejas cristãs e outros alvos em todo o país em 2009);

- Interesses corporativos (como na região amazônica do Brasil, onde ativistas cristãos foram mortos por protestar contra injustiças dos conglomerados do agronegócio);

- O crime organizado, narcotraficantes e bandidos menores (por exemplo, o assassinato, em 1993, do cardeal mexicano Juan Jesús Posadas Ocampo, alvejado 14 vezes no aeroporto de Guadalajara por homens armados ligados a um cartel de drogas, ou o assassinato no mesmo ano do padre italiano Giuseppe Puglisi, um crítico feroz da máfia siciliana);

- Políticas de segurança impostas pelo Estado (como em Israel, onde postos de controle, requisitos de visto e outras restrições dividem as famílias cristãs entre a Jerusalém Oriental e a Cisjordânia e tornam praticamente impossível que os cristãos de um local prestem culto em outro);

- E até mesmo, acredite ou não, o radicalismo cristão.

Se esse último dado parece ser contraintuitivo, considere-se o que aconteceu no vilarejo de San Rafael Tlanalapan, no estado mexicano de Puebla, em setembro passado. Setenta protestantes locais foram forçados a fugir depois que um grupo de católicos tradicionalistas emitiram um ultimato assustador: saiam imediatamente ou serão "crucificados ou linchados".

A questão é que o extremismo e a intolerância de qualquer tipo, não o Islã, são a ameaça.

Mito nº 3: Ninguém a viu chegar

Quando os cristãos são alvejados, os políticos e a polícia muitas vezes desempenham o papel de capitão Louis Renault, em Casablanca, que professa seu choque com o que aconteceu, mas sugerindo que a violência foi uma calamidade imprevisível, em vez de uma falha de vigilância. No entanto, em um número perturbador de casos, os sinais de advertência foram muito claros.

A Turquia é um exemplo. No dia 3 de junho de 2010, o bispo Luigi Padovese, um capuchinho italiano e vigário apostólico de Anatólia, foi assassinado pelo seu motorista, que alegou ter tido uma revelação privada identificando Padovese como o anti-Cristo. Como o motorista estava recebendo tratamento psiquiátrico, as autoridades turcas anunciaram que não houve "motivo político" e declararam o caso encerrado.

O que não se reconheceu foi o clima geral em que um louco pôde ter tido a ideia de que um bispo católico era a encarnação do mal.

Pouco depois que Padovese chegou em 2004, começaram as negociações para a adesão da Turquia à União Europeia, inflamando ressentimentos nacionalistas. Entre esse ponto e a morte Padovese em 2010, um claro padrão de ameaça surgiu para a pequena minoria cristã (150 mil de 72 milhões):

- Em 2005, polêmicos minidramas sobre as Cruzadas foram ao ar na televisão turca, o que fez com que pedras começassem a ser atiradas contra as janelas de igrejas cristãs, lixo fosse deixado na porta das igrejas e abusos verbais fossem proferidos contra o clero cristão pelas ruas;

- Também em 2005, um livro sensacionalista foi publicado por um turco chamado Ilker Cinar, que alegava ser um ex-protestante que havia retornado ao Islã, intitulado Eu fui um missionário. O Código está decodificado. Ele afirmava que os cristãos estavam trabalhando com os separatistas curdos e queria, destruir a nação.

- No dia 8 de janeiro de 2006, um líder da Igreja Protestante de Adana foi espancado por cinco homens jovens;

- No dia 5 de fevereiro de 2006, um missionário católico italiano chamado Pe. Andrea Santoro foi assassinado a tiros na cidade de Trabzon por um jovem de 16 anos que gritava Allahu Akhbar (Padovese celebrou a missa fúnebre);

- Nas semanas seguintes ao assassinato de Santoro, o padre esloveno Martin Kmetec foi jogado em um jardim e ameaçado de morte na cidade portuária de Izmir, enquanto o padre francês Pierre Brunissen foi esfaqueado no porto de Samsun, no Mar Negro;

- No dia 19 de janeiro de 2007, um proeminente cristão turco de origem armênia, Hrant Dink, foi assassinado em Istambul;

- No dia 18 de abril de 2007, três missionários cristãos que dirigiam uma pequena editora foram assassinados em Malatya;

- Em 2009, a imprensa turca publicou notícias sobre o "Plano Cage", um esquema preparado por ultranacionalistas em conjunto com membros das Forças Armadas para desestabilizar o Estado por meio de ataques contra cristãos, armênios, curdos, judeus e alevitas.

Nesse contexto, realmente faz sentido definir o assassinato de Padovese como um ato isolado? Ou seria mais correto dizer que, mesmo que ninguém pudesse prever o momento e o alvo precisos do próximo ataque, a Turquia havia permitido um clima perigoso se exasperasse?

Para ser justo, as autoridades turcas deram passos depois de 2007 para suavizar as polêmicas anticristãs na mídia e, segundo a Associação das Igrejas Protestantes da Turquia, a violência diminuiu. Seu relatório anual listou 19 ataques anticristãos em 2007 e 14 em 2008, mas apenas dois em 2009. O assassinato de Padovese, no entanto, sugere que a mudança do clima continua sendo um trabalho em andamento.

(Como nota de rodapé, o maior jornal de fala inglesa da Turquia, Today's Zaman, publicou uma fascinante coluna em meados de dezembro comparando a tépida resposta do Vaticano aos assassinatos de Santoro e Padovese com a agressiva abordagem protestante nos casos Dink e Malatya. Os protestantes reuniram uma altamente poderosa equipe de advogados para pressionar por uma investigação séria e trabalharam duro para manter o interesse da mídia. De acordo com o colunista Orhan Kemal Cengiz, houve, por contraste, "uma absoluta falta de pressão por parte do Vaticano". Ele atribui isso a um diagnóstico errado em Roma de que muita pressão poderia inflamar as tensões cristão-muçulmanas. Na verdade, diz Cengiz, os culpados são nacionalistas turcos extremistas).

Mito nº 4: Só é perseguição se os motivos forem religiosos

Analisando a lista da Fides de agentes de pastoral mortos em 2011, é tentador concluir que grande parte dessa violência realmente não é anticristã. Em muitos casos, parece ser mais uma questão de estar no lugar errado na hora errada.

Um padre colombiano, por exemplo, foi esfaqueado até a morte por um ladrão que tentou roubar seu celular; outro foi baleado por bandidos que estavam atrás de sua motocicleta. O mesmo pode ser dito sobre a Ir. Lukrecija Mamica, uma membro croata das Irmãs da Caridade, e do leigo voluntário italiano Francesco Bazzani, ambos assassinados no Burundi em novembro. Mamica foi morta durante um assalto à residência das irmãs. Os ladrões então sequestraram Bazzani e o mataram quando um impasse com a polícia deu errado.

Ou consideremos o que aconteceu no dia 11 de janeiro em Kirkuk, no Iraque, onde homens armados abriram fogo contra o palácio do arcebispo caldeu. A polícia sugeriu que foi um erro, e que os terroristas tinham a intenção de atacar a casa próxima de um membro turcomeno do Parlamento iraquiano. Felizmente, ninguém ficou ferido no interior da residência do arcebispo, mas, supondo-se que alguém tivesse sido, isso seria contado como violência anticristã?

Certamente, nenhum desses casos se encaixa na definição tradicional de martírio, que requer que alguém seja morto in odium fidei – por ódio à fé. Mesmo esse padrão, no entanto, está sendo estendido nos dias de hoje. O Papa João Paulo II acrescentou mártires mortos in odium ecclesiae – por ódio à Igreja –, e muitos teólogos acreditam que o martírio deveria incluir não apenas as mortes por ódio à fé, mas também o ódio a virtudes essenciais para a fé.

Em todo caso, os riscos atuais dificilmente se limitam aos clássicos casos de martírio, mas sim a uma grande variedade de circunstâncias em que os cristãos estão em perigo. Mesmo que não sejam atacados por motivos religiosos, as suas razões para estarem naquele lugar geralmente estão enraizadas em sua fé.

No Burundi, por exemplo, Mamica e Bazzani quase certamente não foram alvejados por serem cristãos. Com toda a probabilidade, seus assassinos simplesmente pensavam que uma residência de freiras tinha coisas que valiam a pena roubar e não estariam fortemente guardadas. Ainda assim, uma religiosa e um leigo voluntário da Europa obviamente sabiam que havia lugares muito mais seguros para estar do que no noroeste do Burundi, um epicentro do genocídio de 1994. Eles escolheram estar lá porque suas crenças religiosas os levaram a ir ao encontro das pessoas esquecidas e vulneráveis.

Da mesma forma, até agora, o arcebispo Louis Sako e os outros caldeus em Kirkuk, ambos clérigos e leigos, facilmente poderiam ter ingressado no êxodo dos cristãos do Iraque. Eles preferiram ficar, muito provavelmente porque acreditam na importância de um testemunho cristão, ou simplesmente porque não querem ver a sua Igreja extinta depois de 2.000 anos de história.

Na identificação de cristãos que precisam de ajuda, a única coisa que deveria importar é que eles estão na linha de fogo – e não o que está na cabeça de quem quer que seja que puxe o gatilho.

Mito nº 5: A perseguição anticristã é uma questão da direita

Dos cinco mitos aqui considerados, esse é sem dúvida o mais pernicioso. Se pudermos concordar sobre qualquer coisa neste mundo polarizado, essa coisa deveria ser que a perseguição de pessoas com base em suas crenças – quaisquer que sejam essas crenças – é intolerável.

A partir disso, a perseguição anticristã foi colocada pela primeira vez no mapa político norte-americano em meados da década de 1990 por uma constelação de ativistas e intelectuais conservadores, como Michael Horowitz, Nina Shea e Paul Marshall. Na The New York Times Magazine, em 1997, Jeffrey Goldberg chamou a recente preocupação com os cristãos perseguidos de "uma questão fabricada na região de Washington que produz a mais valiosa das commodities política: a questão polêmica".

Goldberg descreveu como a cruzada para defender os cristãos perseguidos coloca diversos grupos políticos locais importantes uns contra os outros.

- Grupos religiosos centrais versus católicos evangélicos e conservadores (o então secretário-geral do Conselho Nacional de Igrejas, Joan Brown Campbell, queixou-se em 1997 que o movimento sugeria um "cristianismo excessivamente poderoso");

- Conservadores sociais versus pró-grupos de negócios e pró-sistema dominante de política externa (a China tende a ser o ponto focal. Impomos sanções por causa do histórico da China em termos de liberdade religiosa ou não?);

- Grupo de direitos humanos tradicionais (Human Rights Watch, a ACLU [American Civil Liberties Union]) versus movimento baseados na fé.

Até certo ponto, essas divisões ainda existem. Pode-se acrescentar que, na era pós-11 de setembro, a violência anticristã por parte dos muçulmanos é um terrível grito de guerra para os falcões da direita norte-americana, o que pode ajudar a explicar por que alguns liberais continuam ariscos.

Tudo isso, no entanto, diz muito mais sobre a política norte-americana do que sobre a natureza da perseguição anticristã. Infelizmente, desenvolvemos uma cultura política que poderia transformar a figura da mãe e a torta de maçã em questões polêmicas também.

A verdade é que a perseguição contra os cristãos, ideologicamente falando, é uma iniciativa de oportunidades iguais.

Pensemos, por exemplo, nos famosos mártires do movimento da teologia da libertação, como o arcebispo Óscar Romero, ou nos seis jesuítas e duas mulheres assassinados em El Salvador em 1989. Há também o bispo guatemalteco Juan José Gerardi, espancado até a morte, em 1998, dois dias depois de divulgar um relatório sobre a guerra civil do seu país, que criticava fortemente o Exército e grupos paramilitares de direita. Mais recentemente, a irmã norte-americana Dorothy Stang, assassinada no Brasil em 2005 por defender os amazonenses pobres e indígenas; ou a irmã indiana Valsha John, morta no ano passado por defender os membros da subclasse tribal contra a expropriação de suas terras por empresas de mineração de carvão.

Defender os cristãos perseguidos, em outras palavras, dificilmente é um esforço que deve preocupar apenas a direita política e teológica. Delinear a perseguição anticristã como um jogo político não é apenas uma obscenidade, mas também factualmente impreciso.



quinta-feira, 21 de junho de 2012

Teologia na lanhouse

Interessante artigo publicado no IHU sobre a teologia em tempos de internet:

Quando a teologia se torna rede

"É a busca inesgotável de sentido que me fez entender o valor do cabo USB que eu tenho na minha mão. E eu sei que o meu iPad tem a ver com o meu inextinguível desejo de conhecer o mundo, enquanto o meu Galaxy Note me diz (mesmo quando está em silêncio) que eu sou feito para não estar sozinho. Mas é a poesia de Whitman que me dá o gosto do progresso. E é Eliot que me deixa atento para não cair nas suas ciladas. Mas também é Flannery O'Connor me me faz entender que 'a graça vive no mesmo território do diabo' e, pouco a pouco, o invade".

A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 13-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quem escreve estas intensas linhas poderiam ser um jovem literato apaixonado por tecnologia. Ou um poeta capaz de confiar nos instrumentos mais modernos da escrita. Ou ainda um filósofo capaz de se deslindar tanto na espiritualidade quanto nas fronteiras mais avançadas da inovação digital.

É, ao contrário, um padre. Um jovem, sim, mas já afirmado sacerdote ou, melhor, um teólogo, que provavelmente como muitos outros colegas seus é capaz de unir a sua pesquisa – e o ensino religioso – servindo-se das formas mais recentes que a rede oferece. Como demonstração, mais uma vez, de que a Igreja, das mais remotas paróquias de periferia até os austeros Sagrados Palácios do Vaticano, está adotando uma revolução que está transformando a sua abordagem e a sua linguagem.

Pioneiro desse desenvolvimento é certamente o padre Antonio Spadaro. Um jesuíta de Messina, de olhar atento, há poucos meses diretor de uma revista quinzenal prestigiosa como a La Civiltà Cattolica que é publicada com o imprimatur da Secretaria de Estado vaticana, e pessoa cujos interesses vão justamente da literatura à poesia, da pintura à música. E que encontra uma síntese fundamental dos seus próprios horizontes na religião explicada também através do uso da tecnologia.

O Vaticano, no mais alto nível, se deu conta desse professor de 45 anos da Pontifícia Universidade Gregoriana. O o próprio Papa Bento XVI recentemente o nomeou consultor em dois dicastérios-chave, o da Cultura, confiado às capacidades multiforme do cardeal Gianfranco Ravasi, e o das Comunicações Sociais, confiado às sábias mãos de Dom Claudio Celli.

Foi Spadaro, ainda em 2006, que se dedicou aos novos fenômenos da interatividade livros como Connessioni. Nuove forme della cultura al tempo di Internet e, há dois anos o inovador Web 2.0. Reti di relazione.

Muito ativo no âmbito das redes sociais online, fundou em 1998, um dos primeiros sites de escrita criativa, o Bombacarta.it. No ano passado, ele também inaugurou o blog Cyberteologia.it, abrindo enfim uma página no Facebook, uma conta no Twitter e, por último, um jornal online.

Portanto, um veterano. E este seu novo livro, Cyberteologia. Pensare il Cristianesimo al tempo della rete (Ed. Vita e Pensiero, 148 páginas), não é de fato uma coleção de mensagens, mas, sim, uma reflexão argumentada sobre a questão de se a revolução digital em curso no mundo contemporâneo também toca, de alguma forma, hoje, a esfera da fé.

E a resposta que o teólogo e diretor da Civiltà Cattolica dá de um modo nada assertivo, mas problemático, é que agora talvez chegou o momento de considerar a possibilidade de uma "ciberteologia", vista como "inteligência da fé no momento da rede". Porque a lógica das redes oferece intuições inesperadas para a possibilidade de abordar temas como a transcendência, a comunhão, o dom. E, em tudo isso, a teologia pode ajudar o ser humano a encontrar caminhos novos e mais apropriados.

Mas Spadaro, com a sua paixão pelas artes e o seu indiscutível background tecnológico, admite que "hic sunt leones", isto é, trata-se de um território ainda inexplorado, selvagem, pouco frequentado. Diante do qual ele mesmo, no início, se sentiu desconfortável, na tentativa de explicar, diante da tela branca do seu computador.

Depois, ele resolveu o impasse. E a leitura vale o tempo empregado, até as últimas páginas, tecidas a partir da junção de grandes pensadores, alguns já com a mente estendida às mudanças de hoje: "Foi o poeta Gerard Manley Hopkins que me ajudou a entender o papel da inovação tecnológica, foi o jazz que me fez entender o papel das redes sociais, são os teólogos – de Tomás de Aquino a Teilhard de Chardin – que me iluminaram sobre as forças que tornam o ser humano ativo no mundo, participando da Criação, e que elevam o ser humano a uma meta que o supera, muito além de qualquer excedente cognitivo".



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