quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A pedra de toque

Peço desculpas de antemão por ter que recorrer a este espetáculo grotesco, das "instruções" de Edir Macedo aos seus discípulos sobre como ganhar dinheiro com as coisas sagradas, que foi amplamente divulgado pelo Jornal Nacional da Globo, e se encontra no Youtube (ver abaixo). É claro que a matéria é requentada e que a Globo quer que a Record e o Edir, digamos, explodam, mas por mais que a família Marinho não seja exatamente "sagrada", os fatos falam por si mesmos e eu queria me limitar a uma das "lições" bíblicas com que o Edir Macedo nos "agracia" no vídeo em questão. Em determinado momento ele se refere ao conhecido episódio em que Moisés, depois de atravessar o Mar Vermelho, já no deserto do Sinai, fere a rocha para fazer com que ela mine água:

Números 20

7 E o Senhor disse a Moisés:
8 Toma a vara, e ajunta a congregação, tu e Arão, teu irmão, e falai à rocha perante os seus olhos, que ela dê as suas águas. Assim lhes tirarás água da rocha, e darás a beber à congregação e aos seus animais.
9 Moisés, pois, tomou a vara de diante do senhor, como este lhe ordenou.
10 Moisés e Arão reuniram a assembléia diante da rocha, e Moisés disse-lhes: Ouvi agora, rebeldes! Porventura tiraremos água desta rocha para vós?
11 Então Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e saiu água copiosamente, e a congregação bebeu, e os seus animais.

Na "lição", Edir diz que "tocar a rocha com o cajado", como Moisés fez, é uma demonstração de fé, de força, de poder, de determinação, que todo pastor da Universal deve dar perante os fiéis. Entretanto, pode até passar desapercebido pela maioria dos crentes, mas, longe de ser um exemplo de fé, este foi um episódio de desobediência de Moisés, com graves consequências, conforme o versículo seguinte deixa claro:

12 Pelo que o Senhor disse a Moisés e a Arão: Porquanto não me crestes a mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes dei.

Deus tinha dito a Moisés que FALASSE à rocha, e não que a tocasse com seu cajado, mas Moisés não só não falou nada à rocha como a "feriu" duas vezes com o cajado, pelo que Deus o castigou não lhe permitindo que entrasse na Terra Prometida.

Chama a atenção, portanto, que alguém que se intitula "bispo" e líder de uma igreja alegadamente "cristã", cometa um erro crasso num episódio bíblico tão conhecido e tão decisivo na vida de Moisés. Não por acaso, o orgulho e a vaidade fizeram com que Moisés buscasse a exibição de poder e prestígio naquele dia, e terminou pagando muito caro por isso: viu a Terra Prometida apenas de longe, mas nela não entrou (Deuteronômio 32:48-52). Talvez os episódios atuais não sejam mera coincidência.



terça-feira, 11 de agosto de 2009

As jumentinhas de Balaão

Houve um tempo (não tão antigo assim) em que os jornais raramente davam notícias sobre os evangélicos (então chamados de "protestantes") e, quando o faziam, geralmente eram apenas informações neutras ou positivas sobre algum trabalho evangelístico ou social que eles desenvolviam. 

Hoje, infelizmente, parece que as notícias sobre "evangélicos" correspondem a uma subseção das páginas policiais. 

Frequentam-nas autoproclamados "apóstolos", "bispos" e "pastores" dos mais variados matizes. A Folha de S. Paulo informa na edição de hoje (disponível na Folha Online), que a Justiça aceitou denúncia do Ministério Público, e abriu ação penal contra Edir Macedo e mais nove integrantes da cúpula da Igreja Universal, por movimentação financeira suspeita de R$ 4 bilhões no período de 2003 a 2008. 

Parece que todas as suspeitas que envolvem a organização em questão serão investigadas pelo Poder Judiciário, com amplo direito de defesa obviamente.

Este novo escândalo se soma a outros tantos perpetrados por igrejas que se dizem evangélicas, como o caso do apóstolo e da bispa da Igreja Renascer. 

Em casos como esses, os líderes investigados rapidamente tentam levantar uma nuvem de poeira para desviar a atenção, dizendo-se perseguidos porque estão pregando o evangelho. 

Ainda que outras tantas igrejas evangélicas se sintam animadas a levantar os seus membros em defesa de uma suposta fraternidade cristã, o fato é que muitos crentes viram apenas massa de manobra nas mãos de seus líderes, que assim agem - não raras vezes - na base da troca de favores e esconderijos com os outros que estão na berlinda. 

Tudo isso estimula uma verdadeira briga de torcidas organizadas na saída do estádio, como parece que muitas igrejas se tornaram, associações de fãs (com alguns fanáticos incluídos no pacote). É tudo na base do "eles contra nós", "nós contra eles", sendo que não fica muito claro quem é que são "eles" nem quem somos "nós". 

Afinal, o diabo tem as costas largas, e é fácil jogar a culpa nele por todas as mazelas e escândalos que caem repetidamente sobre as costas dos iluminados de plantão. 

Assim, a igreja evangélica brasileira, genericamente considerada, se movimenta num ridículo comportamento de manada, em que a grande vítima pisoteada é o evangelho puro e simples de Jesus Cristo.

Confesso que, quando essas igrejas neopentecostais surgiram e se consolidaram no decorrer das décadas de 70, 80 e 90, embora já houvesse muitas denúncias sobre suas práticas - no mínimo - esdrúxulas, eu mantinha um pé atrás antes de criticá-las, movido pela advertência de Jesus aos seus discípulos quando estes se preocupavam com um homem que expulsava demônios em nome do Mestre, que lhes respondeu: "Quem não é contra nós, é por nós" (Marcos 9:40). 

Eu imaginava que eles não eram contra nós. Não queria generalizar este "eles" e "nós", tão comum nas torcidas organizadas atuais. 

Hoje, passadas as décadas, eu chego a conclusão de que eles são sim contra nós, não porque nós temos qualidades maravilhosas, mas eles são contra o evangelho simples da mensagem da cruz e da salvação que há em Cristo, que é o que existe de mais precioso em nossas vidas. 

Como o volume financeiro acima descrito fala por si só, essas igrejas estão muito mais preocupadas com algo também precioso: ELE, o dinheiro que amealham dos incautos que caem em suas redes. 

Tanto que uma observação rápida de suas pregações televisivas mostra que eles raramente falam do nome de Jesus, como se tivessem vergonha de citá-lo. 

Falam genericamente de um "deus" que não sabemos se tem "D" maiúsculo, que cobre de bens todos aqueles que entregam seu dinheiro a eles. 

 Por essas e outras razões, não vejo mais como enquadrá-los no versículo acima, já que desprezam a graça de Deus e são manifestamente contra o verdadeiro evangelho de Cristo e contra nós, que compomos o Corpo de Cristo universalmente reunido, independentemente da denominação cristã em que estamos.


Talvez alguém possa objetar que pessoas se convertem nessas igrejas. Eu também não tenho dúvidas disso, porque já vi pessoas se convertendo nos lugares mais improváveis, inclusive estudando com seguidores de religiões que nada tinham de cristãs, mas que nelas despertaram o interesse pelo Deus verdadeiro. Afinal, "buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração" (Jeremias 29:13). 

Outra objeção que pode ser levantada contra a minha percepção da situação, é a de que, ainda que maneira meio capenga, fragmentos do evangelho são pregados nessas igrejas. 

Refuto esta opinião recorrendo à jumentinha de Balaão (Números 22), grande pregadora daqueles tempos. 

Muitos séculos depois, ao entrar triunfalmente em Jerusalém, também montado num jumentinho, sendo criticado pelos fariseus quanto ao barulho que o povo fazia, Jesus lhes disse que se eles se calassem, até as pedras clamariam (Lucas 19:40). 

Ora, Se Deus falou através de uma jumenta, Ele pode falar através de quem (ou do que) Ele quiser, logo a crítica não procede. 

Portanto, não tenho dúvidas de que pessoas honestas e corretas podem se converter nessas igrejas. Só tenho uma dúvida cruel quanto a isso: depois de realmente convertidas, elas continuam lá?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

As crônicas de Marvin - 14

Sentimentos em comum

Rapidamente subimos a ruazinha e caminhávamos em direção ao Shopping que ficava ali perto.
- Hummm... Então estamos indo para o Shopping, Marvin?
- Bem, não exatamente. – respondi.
Continuamos andando enquanto ela tentava descobrir nosso destino antes de chegarmos. Foi então que chegamos à entrada do Shopping. Do lado de fora, existe um terreno vago, onde geralmente se instalam circos ou parques de diversão. Naquele dia, estava um parque que geralmente se instalava ali todo ano. Era setembro ainda. Não havia muitas chuvas naquela época, por isto era uma época boa de se instalar parques de diversão. Sem chuva, mais clientes.
- Muito bem, aqui estamos...
- O parque? – perguntava Amanda.
- Sim, o parque. Achei que seria legal nos divertirmos um pouco... Afinal de contas, não dá para ficar trancado em casa por todo o feriado...
- É, você tem razão... Mas Marvin, eu não posso entrar neste parque...
A declaração me assustou... Será que havia alguma regra maluca por trás disto? Mas é estranho, este parque já esteve em Goiânia outras vezes e me lembro bem de alguns irmãos comentarem sobre como se divertiram ali...
- Ué, Amanda... Por quê?
- É que eu estou de vestido... Estávamos em uma visita, lembra-se? Bem, vestidos não combinam muito com parques de diversão...
- Ah, você tem razão... Hummmm...
- Se você tivesse me avisado, eu estaria preparada. – me respondeu com um sorriso...
- Não seja por isto. Estamos na frente de um Shopping... Vamos comprar algo mais adequado então!
- O quê?
Antes que ela rejeitasse esta opção, peguei ela pela mão e a levei para o Shopping. Ela bem que tentou negar, mas não teve jeito: fomos até uma loja de roupas, procurar algo para ela.
Bem, neste momento eu tenho que confessar que não poderia ter cometido erro maior que este. A combinação de mulheres mais lojas de roupas nunca foi tão desastrosa para os homens que as acompanham. É como se acontecesse um distúrbio no espaço-tempo, fazendo com que o tempo para as mulheres ficasse pelo menos umas três vezes mais rápido, enquanto que para os homens ficasse umas quarenta vezes mais lento. E na verdade não posso reclamar muito disto, pois afinal, o mesmo efeito deve acontecer ao contrário, quando chamamos elas para ir a um boteco para conversarmos com nossos amigos. E assim como há homens que não vão a butecos, também há mulheres que não demoram muito tempo em uma loja de roupas. Infelizmente as exceções são poucas para ambos os lados. E eu não tive esta sorte.
A tarefa era simplesmente encontrar uma calça e uma blusa que fossem mais apropriados para se ir a um parque de diversões. Bem, não era tão simples assim... Ela levou um bom tempo escolhendo tudo.
- Puxa, Marvin, me desculpe pela indecisão... É que eu não consigo achar algo que me agrade...
- Está tudo bem, Amanda... – respondi, sorrindo.
Ela me parecia meio tensa... Talvez pensasse que a demora dela pudesse me fazer mudar de idéia. Eu entendia o lado dela. Às vezes é fácil para nós criticarmos as pessoas quando elas fazem algo que gostam, mas que nós mesmos não gostamos. Uma pessoa que não goste de xadrez pode não achar sentido nenhum em estudar livros e livros de jogadas de xadrez. Mas para aquele que gosta, estudar aqueles livros é prazeroso. E muitas vezes há discussões desnecessárias simplesmente por que as pessoas não conseguem ver isto. Mas eu não a trouxe ali para que ela ficasse nervosa ou tensa, eu queria que ela se divertisse. Então enquanto ela escolhia uma calça, peguei um chapéu de praia que estava ali por perto e o coloquei.
- Ei, que tal estou? – disse fazendo caretas...
Imediatamente quando ela me viu, começou a rir...
- Hahaha, Marvin, você está uma graça... Mas eu acho que não faz seu estilo, hahaha...
- Tem razão, mas nesta loja não se vendem sombreros mexicanos...
- Ah, é claro... Eles certamente fazem seu estilo, não é? – disse ela, rindo, talvez me achando com cara de Mariachi fake.
E pelos próximos minutos, ela ficou bem mais descontraída. Claro, eu ia fazendo minhas palhaçadas enquanto ela escolhia... Eu escolhia roupas estranhas, gerando mais risos por parte dela... Fico me perguntando como é que tais roupas são criadas... Será que os costureiros um dia acordam, dizendo “Puxa, hoje vou fazer a roupa mais estranha que eu puder” e fazem?
Então, começamos a provar as roupas, esperando a opinião do outro, como em um filme hollywoodiano. Comecei então a entender por que algumas vezes aparecem cenas como estas... Geralmente se pede a opinião sobre uma roupa a pessoas que confiamos, que queremos de certa forma, agradar. E depois de uma hora, ela já havia escolhido tudo que queria. Pediu para uma das atendentes para que pudesse trocar de roupa nos provadores depois de pagar e a atendente deixou. Então fomos ao caixa, onde eu peguei tudo que ela escolheu e disse:
- Pode deixar, eu pago.
- Você? Não, Marvin, não posso deixar você fazer isto.
- Ora, Amanda, fui eu quem te obrigou a vir até aqui... É o mínimo que eu posso fazer...
- Não, não posso aceitar isto... Você não precisa pagar nada...
- Ei... Não faço isto por que preciso, mas por que eu quero te dar isto de presente...
Ela ficou um pouco tímida com isto.
- Puxa, não é todo mundo que tem a vontade de me dar presentes assim...
- É, eu sei... Mas não faz mal a ninguém dar presentes de vez em quando, não é?
- Mesmo sendo caros?
- Dinheiro é o de menos agora e eu não tenho muito com que gastar... O que importa é agradar as pessoas de quem você gosta.
- Puxa... Obrigada então... – disse ela um pouco tímida...
Paguei a conta dela e ela rapidamente foi se trocar. O vestido a deixava um pouco velha, devo confessar. Agora com calça jeans e camiseta, ela parecia novamente uma jovem. Hora da diversão!
Corremos para o parque que ainda estava um pouco vazio. Ainda era dia, e as pessoas preferiam vir mais tarde. Assim, pagamos rápido pela entrada e em pouco tempo já estavamos tentando nos decidir sobre qual o primeiro brinquedo que iríamos...
- Vamos na montanha russa!!! – disse eu.
- Pu... Puxa, você tem certeza?
Só pelo gaguejar dela, eu já tinha certeza. A intenção era assustar mesmo.
- Sim, claro!
Então fomos para a fila. Não demorou muito tempo e os carrinhos chegaram. Entramos, Amanda ainda meio desconfiada. Colocamos todos os equipamentos de segurança e em pouco tempo o carrinho estava partindo.
Eu nunca tinha andado de montanha russa na vida. E aquela foi a experiência mais assustadora que tive. Depois de subir até a parte mais alta, lentamente, o carrinho desceu, de uma vez, até chegar próximo ao solo. É como se a fôssemos jogados de um desfiladeiro. Confesso que não apreciei o loop, minha cabeça foi parar junto aos pés. E não entendo por que o pessoal gosta de gritar tantooo... O quê é aquilo????
- AAAAAAhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
Desci acabado... Que viagem... Só depois de pisar em terra firme, tive a oportunidade de reparar na Amanda...
- Uau, adorei!!! Vamos de novo!!!
- O quê?????
- Vamos de novo!!! Eu gostei demais, é muito legal... Nunca imaginei que fosse tão bom!
- Você está brincando?
- Claro que não!!! Vamos??
Então ela me puxou pela mão e subimos novamente no carrinho da montanha russa. O pior é que não tinha fila, não tive tempo nem de respirar direito.
Depois de cinco voltas na montanha russa, a Amanda finalmente concordou em experimentar os outros brinquedos. Bom para mim, agora poderia ver se encontrava algum brinquedo que ela não gostasse (e eu sim). Não, não se trata de revanche... Ah, se trata sim!!! Fui direto naquele brinquedo que te faz girar em cima de um grande prato.
- Marvin, você tem certeza?
- Ei, não precisa perguntar se eu tenho certeza toda vez que formos em um brinquedo novo. Este aqui será diferente.
E o pior é que foi mesmo. Agora eu poderia saber como se sente uma roupa em uma máquina de lavar... O brinquedo começou lentamente a girar, mas logo ele girava tão rápido, mas tão rápido, que eu não conseguia mais desgrudar a minha cabeça do equipamento de segurança... E todos gritavam sem nenhum motivo, então decidi me juntar a eles...
- aaaaaaaaaaaaaaaAAAAAAAAAaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAHHH!!!!
Foi uma experiência única! Vai ser a única vez na minha vida que vou neste brinquedo. Isto não é um brinquedo, é uma máquina de tortura chinesa... Como é que alguém consegue gostar disto???
- Puxa, eu gostei demais deste também!!!!
- O quê???
- Ah, Marvin, fala que você não gostou nem um pouquinho?
- Não gostei nem um pouquinho...
- Hummm, não seja mal-humorado... Hehehehe...
- Está bem, então vamos em qual agora?
Ela deu uma risadinha, olhando para algo atrás de mim...
- O que foi?
Me virei e tudo que vi foi um carrossel.
- Ah, então você está curtindo com a minha cara, não é?
- Hehehe... Só um pouquinho, Marvin...
- Humpf... Tenho certeza que no próximo brinquedo, eu me darei bem.
Desta vez fomos ao barco pirata. Não, eu não me dei bem, principalmente quando ele chegava nos pontos mais altos... Nenhuma diferença para a montanha russa...
- Muito legal este também, Marvin!!! – disse Amanda, com um grande sorriso no rosto.
Nunca a vi tão feliz em todo tempo que a conheço.
- Puxa, acho que preciso de um tempo... – respondi.
- Hehehe, tudo bem.
- Hummm, acho que sei de um brinquedo que será bom para mim...
- Ah, é? Qual?
Corri à uma das poucas barracas que não envolvia te chacoalhar, te jogar para cima ou te colocar de cabeça para baixo: a barraca de tiro. E nestas horas compensou todo aquele tempo ocioso desperdiçado com meus jogos de tiro ao alvo, escondidos dos anciãos, para não levar um chamado de atenção.
Comprei cinco rolhas, e fui capaz de ganhar uns dois chocolates. Eu sei que aquilo ali é difícil pois os prêmios são bem presos, mas o que vale é a diversão. Fiquei com um chocolate, o outro dei para Amanda.
- Humm, estava bom... Mas agora fiquei com vontade de comer mais alguma coisa...
- Puxa vida, mesmo depois de chacoalhada para todos os lados?
- Hehehehe, sim! Que tal um sorvete?
- Está bem... Eu também vou querer...
Compramos o sorvete e nos sentamos em um lugar, à sombra. Ficamos calados por cinco minutos, tomando o sorvete.
- Marvin...
- Sim?
- Eu queria te agradecer... por me trazer aqui... eu gostei muito...
- Hehehehe, embora eu esteja parecendo um rabugento, eu também estou gostando de estar por aqui... Esta hora eu poderia estar em casa, sozinho, fazendo qualquer coisa para matar o tempo...
- Hummmm... É mesmo, você mora sozinho... E seus pais?
- Bem... eles morreram há algum tempo...
- Oh... Sinto muito...
- Não tem problema... Você iria saber de uma forma ou de outra, não?
- Sim...
Houve um pequeno momento de silêncio.
- Eles morreram de acidente de carro... Estavam viajando à noite, quando um caminhoneiro que dormiu ao volante invadiu a pista deles...
- Puxa... Que pena.
- É... Sabe, eu sempre fui muito distante deles... Meu pai sempre trabalhava muito, só chegava à noite... Minha mãe se sentia muito carente por isto. Você poderia até pensar que ela teria suprido esta carência com seu filho, mas não foi assim comigo. Ela estava muito preocupada com o próprio casamento... Cresci sem o costume de conversar com eles... E eu nunca pensei que fosse sentir a falta deles, até que aconteceu o acidente... Na época, eu vivia para meu trabalho, assim como meu pai. Hoje acho que foi a única coisa que ele me ensinou, viver para o trabalho. Quando eles morreram, eu percebi que estava cometendo os mesmos erros que meu pai, então mudei minha vida completamente... Deixei um bom emprego e uma vida de luxo para viver uma vida mais simples...
Amanda ficou em silêncio por pelo menos um minuto, refletindo. Estava visivelmente melancólica e não era para menos.
- Sempre me lembro de um certo dia, quando estávamos esperando começar a reunião. Eu ainda tentava me enturmar com as outras irmãs, embora elas não me quisessem como amiga. Era uma noite de verão e fazia tanto calor!! Estava triste por causa de meu pai também, das brigas dele com minha mãe... Então apareceu uma nova pessoa no salão, um estudante. Ele era tão tímido... Assim como eu... E embora eu soubesse que ele era muito inteligente, ele nunca se vangloriou disto. Ele nunca tentou ser melhor que ninguém. Cada dia me surpreendo mais com ele, pois eu nem mesmo sabia que ele suportava sozinho a morte dos pais... Ele deve ser realmente forte por suportar isto de forma racional...
Lentamente virei meu rosto e olhei para aquela moça, que agora olhava para o chão.
- Sabe, este estudante... É por tudo isto que eu... que eu gosto tanto dele... E por isto estou tão feliz de estar perto dele...
Senti um frio na barriga, uma sensação que não poderia descrever... Uma parte de mim parecia não acreditar que estava acontecendo aquilo. Parecia irreal, fantástico. Esta parte cética precisava encontrar algo errado naquilo tudo.
- Amanda... como você poderia gostar deste estudante? Ele nunca atraiu ninguém, ele sempre foi feio e esquisito...
- Marvin... Esta beleza que você se refere é apenas um castelo de areia contruído na praia. Um dia vem a onda da idade e leva tudo. Mas a praia sem o castelo pode continuar sendo bela... E na verdade o que importa é a praia, não o castelo. Podemos fazer mais castelos, do jeito que quisermos, desde que a praia seja boa para isto. O que importa são as pessoas, as aparências mudam sempre. Talvez Jeová em sua grande sabedoria tenha permitido que as coisas fossem assim, para podermos entender que há muitas formas de beleza e que nem sempre o nosso imperfeito deixa de ser belo.
- Puxa, belas palavras... Nunca li algo assim na Sentinela...
- Hummmm... Não leu mesmo... São resultado de minhas reflexões. Eu gosto muito de pensar nas coisas da vida, mas não comento elas com ninguém, por que tenho medo de dizer besteira e ser repreendida.
A velha censura, muito peculiar às ditaduras. Ela não estava com medo de meras repreensões do tipo “você está errada neste ponto X”, mas daquelas acompanhadas por comissões e afins.
De repente, ela se levantou.
- Ei, tem mais um brinquedo que eu quero ir! Vamos?
Então ela me pegou pela mão e me puxou até os carrinhos de bate-bate. Havia muito tempo que não brincava em um destes. Peguei um preto e ela um azul. Logo que se iniciou, parti em direção a ela com toda a força que o carrinho poderia me oferecer. Bati com tanta força que ela até tombou para o lado.
- Ah, é assim, é? – disse ela com tom de revanche.
- Sim, é assim mesmo!
Ela não teve jeito de fazer nada, pois os moleques que estavam na pista se aproveitaram do fato dela estar meio presa para acabar de prendê-la. Dei a ré e fiz a volta na pista, para pegar embalo para mais um choque. Ela tentava ainda se livrar dos outros.
Enquanto isto, vários pensamentos passavam por minha cabeça. Todos eles se relacionavam com minha surpresa há pouco, nossa conversa. Eu sempre me senti sozinho e de alguma forma sempre quis resolver isto, sendo reconhecido por alguém. Até agora, não tinha tido sucesso. Por isto pensei que sempre seria um grande solitário cercado pela sociedade.
Mas com o tempo, percebi que eu estava errado. Eu não era um em um milhão, eu não era um tipo raro de pessoa. Na verdade, a grande parte do mundo é que é solitária. O mundo está cheio de pessoas tentando ser amadas, tentando ser reconhecidas. Não é para menos, pois a cada dia deixamos mais e mais de ser seres humanos. Nossa dor, nosso amor, nossa tristeza ou alegria não passam de algum tipo de reação química. Somos operários obrigados a fazer tudo que nossos patrões pedem por medo de sermos substituídos ou para mostrar (provar) que somos bons naquilo que fazemos. Somos brinquedos manuseados por crianças de 3 anos, soltando os pedaços. Ficamos sozinhos em nossa insignificância e assim como eu quis combater minha solidão com reconhecimento, todo mundo quis.
Por um momento quase acertei o carrinho dela novamente.
- Hahahaha, escapei!! – disse ela.
- Não por muito tempo!
Este combate da solidão então promoveu a maior onda de idiotices da história humana. Havia todo tipo de tentativa para se tornar famoso. Tinha gente com a capacidade de fazer músicas com duas notas musicais apenas. Letras de músicas obrigatoriamente tinham que estar relacionadas com sexo. Então começou a aparecer mulheres dançando ao lado deles... Alguém lançou a mania de apelidar mulheres de frutas e em pouco tempo não havia mais nome para usar (vocês deveriam ter conhecido a mulher jaca). Foi aí que começaram a pegar o nome de qualquer animal, planta, planeta, marca de cigarro... Tinha até a mulher Colgate, já imaginaram? Aquilo não parecia ter fim. Uma pobre mulher estava tentando bater o recorde já estabelecido de ser a mulher com mais silicone nos seios. Fico imaginando qual a razão disto. Talvez as milhares de mensagens de sua coleção de fãs pervertidos em todo o mundo a fizessem se sentir melhor. Devia ser muito triste chegar no seu quarto à noite e dar-se conta de que todo mundo é fã do seu silicone. Deveria ser muito triste alguém se esforçar tanto em seu trabalho para ser reconhecido pelos seus patrões, mas nunca receber sequer um obrigado.
- Ahá!!!! Te peguei, Marvin!
Era Amanda atingindo meu carrinho com grande força...
- Isto não vai ficar assim!
- Ah, você não vai mais me pegar!
Analisando estas tentativas, me dei conta que na verdade a simples busca pelo reconhecimento não valia de nada. Não era o simples reconhecimento, mas O Reconhecimento, aquele que se admira a pessoa de uma forma inexplicável, assim como não conseguia explicar o que senti ao ouvir Amanda me dizendo que gostava de mim. Então percebi que os dois de fato eram a mesma coisa, que eu acabei de achar o que procurava. Percebi que mais uma vez eu estava enganado... Pensei que saberia exatamente como era ser querido, mas me enganei completamente... Era um sentimento completamente diferente, incontrolável. Não era a resposta a um problema que eu encontrei, pois seria injusto tratar algo tão auto-suficiente em função de algo tão negativo.
Meu carrinho mais uma vez batia com força no dela, fazendo ela ir para frente.
- Hahahaha, eu te disse que te pegaria!
Logo a sirene tocou.
- Ah, isto não é justo!! O tempo já acabou!!
Lentamente nos levantamos dos carrinhos e saímos da pista. Eu estava feliz pela alegria dela.
- Hehehehe, isto foi muito legal!!! Mas infelizmente nós temos que ir... Não avisei meus pais que eu ficaria tanto tempo fora, e já são sete horas... Eu só gostaria de ir em mais um brinquedo...
- Ah, é? Qual?
Então ela apontou para o velho e bom trem fantasma que estava no canto do parque, convidando a todos para visitá-lo. Do lado de fora tocava Thriller e me lembrei que o cantor um dia foi testemunha de Jeová também... Certamente por isto que ele declarou não defender o ocultismo com esta música... Eu diria que os fantasmas assombram mais as testemunhas de Jeová do que as pessoas comuns.
- O trem fantasma? Humm, não me parece muito assustador, parece mais para crianças...
- Ah, mas eu sempre quis ir em um... Vamos, vamos??? – insistia ela como alguém que quer finalmente desfrutar de um prazer totalmente proibido.
- Está bem, então vamos.
Como eu esperava, o trem fantasma não era tão assustador assim. Eles assustavam mais quando eu era pequeno. Mas devo confessar que eles conseguem produzir efeitos muito bons. Foi ótimo reviver tudo aquilo. Foi ótima a companhia. Mas o melhor de tudo aquilo é que esta história era minha. Não era a história de ninguém. Eu não precisei me basear na história de ninguém, não esperava que fosse igual à história de ninguém.
Saímos do brinquedo e nos dirigimos à saída. Caminhávamos devagar, como que curtindo o caminho de volta. Ela olhava para baixo, pensando em alguma coisa que eu não sabia o que era. Eu, a olhava pelo canto dos olhos, às vezes diretamente. E aconteceu que ela percebeu que eu a olhava de maneira diferente e ficou um pouco tímida...
- O...O que foi, Marvin?
- Sabe, o que você me disse antes... O quanto você gosta deste estudante?
A vergonha dela aumentou bastante com a pergunta e eu pensei que ela não iria me responder. Logo percebi sua respiração mais forte.
- ... mais do que você imagina... muito mais.
Logo pegamos o ônibus, dirigindo-nos para casa. Ficamos um bom tempo calados durante a viagem, sérios, pensativos... O que acontecia? O que ela estava pensando agora? O que eu faço?
Feriado prolongado, sete horas da noite... Este tipo de combinação fazia bairros inteiros ficarem desertos. E nunca em toda a minha eu tinha visto a rua da casa de Amanda tão perfeitamente deserta. Não havia ninguém ali, especialmente testemunhas de Jeová. Paramos em frente ao portão de Amanda.
- Marvin... Muito obrigado de novo por tudo... Eu gostei demais do passeio.
- Eu também gostei muito, Amanda...
Ela sorriu.
- Que bom... Então.... Boa noite, Marvin.
- Boa noite... Amanda...
Então ela lentamente caminhou até a porta. Eu tinha que fazer algo.
- Ei, Amanda, espere.
Corri até ela. Ficamos cara a cara.
- Eu preciso te dizer uma coisa.
- Precisa? O quê?
Como eu tinha mencionado no início, era setembro. Não havia muita chuva nesta época. O céu estava sem muitas nuvens, por isto podia-se ver as estrelas iluminando o céu. E como havia estrelas! Como a lua iluminava tão bem aquela noite! Mesmo assim, algumas partes daquela rua ainda ficavam um pouco escuras, envolvendo tudo em mistério.
Não havia ninguém além dela e eu. Coloquei minha mão esquerda em seu rosto suavemente, enquanto a direita segurava seu ombro. Não lhe disse nada, pois eu sabia que um ato vale mais do que mil palavras. O beijo que lhe dei, este disse tudo.

O bom pastor - 2ª parte

(continuação do texto anterior, disponível clicando aqui)

O que NÃO se espera de um pastor

É interessante constatar que, para que não pairem quaisquer dúvidas, a qualificação neotestamentária do bom pastor é feita também por meio de exemplos negativos, exemplificando características que não devem estar presentes no líder (ou candidato a líder) da igreja. São elas:

1) que não seja dado ao vinho - 1 Tim 3:3 (ARA, ARC, BJ, TEB) – “não deve ser apegado ao vinho” (NVI), “não beberrão” (BP). Não pretendemos aqui entrar na questão de se é permitido ao cristão o consumo de álcool, embora na mesma carta (5:23), Paulo recomende a Timóteo que tome um pouco de vinho por causa de seus problemas de estômago e outras enfermidades. O fato indisputável é que o pastor não deve ser um bêbado, um embriagado, mesmo que eventual. Deve ter cuidado também para que o seu testemunho público não seja afetado por uma taça de vinho.

2) que não seja violento – 1 Tim 3:3 (NVI) – não briguento (BJ, BP, TEB), não espancador (ARA, ARC). A palavra grega aí traduzida por “violento”, “briguento”, “espancador” é πλήκτης - plēktēs, que quer dizer literalmente um “pugilista”, “lutador”, alguém que parte para o ataque físico contra outra pessoa. Obviamente, não devemos limitar este significado apenas para o aspecto físico da questão, mas também na conduta social e emocional do pastor, que não deve ser alguém que “atire sem perguntar”, para quem “a melhor defesa é o ataque”. Pelo contrário, o pastor deve ter sempre em mente o exemplo de Sadraque, Mesaque e Abedenego, que diante da ameaça de serem atirados na fornalha de fogo do rei, não tiveram dúvida alguma de responder: “Ó Nabucodonosor, não precisamos defender-nos diante de ti. Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei” (Daniel 3:16-17).

3) que não seja altercador – 1 Tim 3:3 (TEB) – “não contencioso” (ARC), que seja “inimigo de contendas” (ARA), “amável, pacífico” (BP, NVI), “indulgente, pacífico” (BJ), . A palavra grega aqui é ἐπιεικής - epieikēs – que também pode ser traduzida por “paciente”. Além de “não violento”, o pastor não deve ser alguém que sempre “parta para a ignorância” segundo o dito popular. Deve ter capacidade de argumentar sem recorrer à violência verbal. Lamentavelmente, muitos líderes preferem seguir outro ditado popular, e dão um boi para não entrar numa briga, mas uma boiada pra não sair dela.

3) não apegado ao dinheiro – 1 Tim 3:3 (NVI) – “não cobiçoso de torpe ganância” (ARA, ARC), “desinteressado” (BP), “desinteresseiro” (BJ). No texto original em grego, Paulo enfatiza tanto essa questão que usa duas palavras para reforçar a importância de não servir ao dinheiro: αἰσχροκερδής (aischrokerdēs) e ἀφιλάργυρος (aphilarguros), também traduzida como “avarento” (ARA, ARC). Na carta de Paulo a Tito (1:7), a TEB traduz aischrokerdēs por “não ávido de lucros desonrosos”. Infelizmente, nos dias atuais, esta ênfase paulina foi deixada de lado pelos “pastores” da prosperidade, mais preocupados em pedir dinheiro e amealhar fortunas do que simplesmente pregar e (principalmente) viver o evangelho em sua plenitude. Na visão deles, o sucesso é medido pela conta-corrente polpuda e não pela igreja cheia de pecadores convertidos a Jesus. Graças a Deus, ainda há poucos e bons pastores que sabem que de nada vale ao homem “ganhar o mundo inteiro e perder sua vida” (Mateus 16:26, Marcos 8:36, Lucas 9:25), e por isso escolhem investir seus recursos e sua vida na propagação do evangelho, e não no acúmulo de riquezas particulares, cientes do que Paulo também disse mais adiante (1 Tim 6:10) - "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males". Quando se despediu dos presbíteros de Éfeso (Atos 20), Paulo invocara em seu testemunho que “de ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes; vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo” (vv. 33-34), logo após lhes predizer que “eu sei que, depois de minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho, e que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles” (VV. 29-30).

4) que não seja novo na fé (neófito) – 1 Tim 3:6 (ARA, ARC) – “que não seja recém-convertido” (BJ, BP, NVI), e a seguir Paulo justifica: “para que não se ensoberbeça” (ARA, ARC, BJ), seja “cegado pelo orgulho” (TEB), “não se envaideça e incorra na condenação do diabo” (BP). Infelizmente, esta orientação de Paulo é seguidamente desobedecida em muitas igrejas, que assim que surge alguém recém-convertido com algum destaque, já lhe passam muitas incumbências que, biblicamente, só cabem a um pastor. Isto sem contar todos aqueles que não são exatamente “iluminados”, mas ficam “deslumbrados” com a graça de Deus, e, imaginando que a estão servindo (ou ainda, “cobiçosos de torpe ganância”), fundam suas próprias igrejas como os mais novos “profetas” e “pastores” da praça. O próprio fato de crescer no entendimento e na graça de Deus implica em tempo e paciência para que o fruto do Espírito Santo nele se desenvolva. Paulo era profundamente zeloso desta característica, tanto que insiste mais adiante com Timóteo: “a ninguém imponhas precipitadamente as mãos” (1 Tim 5:22).

5) que não seja arrogante – Tito 1:7 (ARA, TEB) – “não presunçoso” (BJ), “não orgulhoso” (NVI), “não egoísta” (BP). Embora todas as soluções sejam possíveis, a Bíblia do Peregrino parece traduzir melhor a palavra grega αὐθάδης – authadēs, que significa primordialmente “alguém que faz algo só para o próprio prazer”. Infelizmente, esta é mais uma qualidade priorizada por Paulo e desprezada por muitos pseudo-pastores, que se encaixam mais na definição do apóstolo Judas Tadeu: “Estes homens são como rochas submersas, em vossas festas de fraternidade, banqueteando-se juntos sem qualquer recato, pastores que a si mesmos se apascentam; nuvens sem água, impelidas pelos ventos; árvores em plena estação dos frutos, destes desprovidas, duplamente mortas, desarraigadas, ondas bravias do mar, que espumam as suas próprias sujidades; estrelas errantes, para as quais tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre” (Judas 1:12-13). Na visão de Pedro, esses pretensos líderes “são como criaturas irracionais, guiadas pelo instinto, nascidas para serem capturadas e destruídas; serão corrompidos pela sua própria corrupção!” (2 Pedro 2:12).

6) que não seja iracundo – Tito 1:7 (ARC) – que “não seja irascível” (ARA, BJ, TEB), “briguento” (NVI), “colérico” (BP). A palavra grega aqui é ὀργίλος - orgilos - que significa a qualidade da pessoa que se ira, encoleriza, rapidamente. Não deixa de ser um complemento aos atributos de “não violência” e “não altercação” a que Paulo se refere na carta a Timóteo. As três qualidades demonstram que o pastor deve ser uma pessoa em que o fruto do Espírito seja bem desenvolvido, e que ele tenha paciência, domínio próprio, temperança, e principalmente humildade para ouvir primeiro o que o outro tem que falar, e interaja ou reaja com toda mansidão.

Conclusão

Diante de todas essas características, é imperativo que tanto os pastores como suas congregações observem fielmente o que o Novo Testamento propõe para a liderança da Igreja. O escritor aos Hebreus (13:7) diz que as ovelhas devem seguir o exemplo de seus pastores e imitar a sua fé. Enorme responsabilidade esta! Curiosamente, o escritor de Hebreus recomenda que se observe atentamente o resultado da vida dos pastores que já se foram, uma atitude bem diferente daquela que impera em muitas igrejas atualmente, de que a fé se mede pelos resultados imediatos e palpáveis que ela obtém em, muitas vezes, verdadeiras negociatas com um deus imaginário a quem se julga servir. O resultado que deve ser observado não é o instantâneo de um determinado momento na vida do pastor, mas toda a sua vida de fé; em outras palavras, o conjunto de sua obra. Em sua primeira carta, Pedro aconselha aos pastores: “Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados, olhando por ele; não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer; não por ganância, mas desejosos de servir; não como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho. Quando se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a imperecível coroa da glória” (1 Pedro 5:2-4).

Oremos para que seja esta a conduta dos nossos pastores.

domingo, 9 de agosto de 2009

Esaús e Jacós




Esaú era um cara legal, simpático, expansivo, brincalhão, voluntarioso, amigo, caçador, despachado e “descolado” (como diríamos hoje). 

Já seu irmão gêmeo Jacó era arredio, invejoso, medroso, tímido, mentiroso, dissimulador, caseiro e faria qualquer coisa pra passar a perna no próprio irmão. 

Só por esses adjetivos, fica fácil dizer quem era o preferido de Deus, não é mesmo? 
Agora, se você pensou que era Esaú, se enganou redondamente. 

O escolhido foi Jacó... Do ponto de vista humano, fica difícil justificar esta escolha, já que muitos de nós preferiria ter Esaú como amigo. 

O nascimento dos gêmeos já tinha sido um tanto quanto esquisito (e premonitório), com Esaú vindo à luz primeiro, e, de brinde, lá estava Jacó agarrado no seu calcanhar (Gênesis 25:26). 

O próprio nome do segundo - Jacó (do hebraico - יעקב - Yaccob) – lhe foi dado por essa circunstância, já que significa, na língua materna, “defraudar”, “decepcionar”, “suplantar alguém com meios ilícitos”, literalmente “derrubar uma pessoa pegando-a pelos calcanhares”. 

O Esaú era um cara legal, simpático, expansivo, brincalhão, voluntarioso, amigo, caçador, despachado e “descolado” (como diríamos hoje). 

Já seu irmão gêmeo Jacó era arredio, invejoso, medroso, tímido.

O primeiro era o preferido do pai Isaque; o segundo, da mãe Rebeca. 

Tiveram uma infância e juventude normal para aqueles tempos, mas Jacó cobiçava intensamente o direito de primogenitura de Esaú, que nem imaginava que este era o seu calcanhar de Aquiles, antes de Aquiles existir. 

Certo dia, Esaú voltou de suas caçadas morrendo de fome, e vendo o guisado que Jacó preparara, implorou que seu irmão lho dera para comer, mas este percebeu que seu grande dia havia chegado, e, mediante juramento, trocou o prato de guisado pelo direito de primogenitura do irmão mais velho (Gênesis 25:29-34). 

Isto não bastou para Jacó, pois quando seu pai estava cego e moribundo, armou – com a ajuda da mãe – todo um teatro para enganar o pai e obter a sua bênção final (Gênesis 27). 

Pela segunda vez, passava a perna em seu próprio irmão. Isto lhe obrigou a fugir e, depois de muitos anos de exílio e provações, finalmente decidiu voltar para sua terra. 

Teria obrigatoriamente que resolver os assunto pendentes com o irmão e, mesmo depois de ter lutado contra o próprio Deus (Gênesis 32), continuou temeroso de que Esaú buscasse vingança, pelo que montou uma espécie de “procissão do retorno”, mandando uma série de ricos presentes à sua frente, para aplacar a imaginária ira do irmão, que, contrariamente ao seu temor inicial, recebeu-o de braços abertos, entre beijos e lágrimas (Gênesis 33). 

Agora era Jacó que se enganava, achando que Esaú ainda dava mais valor aos bens materiais do que ao amor do irmão. 

Atualizando nossa linguagem, Esaú era o que se pode chamar de “figuraça”. 

Ainda que fosse tarde demais para constatar que um prato de comida era infinitamente menos valioso que a bênção de Abraão (não se chora sobre leite derramado, Esaú!), o tempo decorrido foi mais que suficiente para que ele perdoasse Jacó, que, mesmo com a garantia pessoal do próprio Deus, insistia em cultivar o medo e o remorso por tudo que havia feito contra o irmão. 

Jacó se parece com muitos de nós: mesmo com o perdão de Deus e do irmão, tinha dificuldade em se perdoar pelos muitos erros de sua história de vida, tão conturbada e dolorosa. 

Afinal, havia sofrido as consequências de suas atitudes por anos a fio. 

Comeu o pão que Labão amassou, o tio-verdugo candidato a sogro que também o enganara e o fizera trabalhar 14 anos de graça pela mão de Raquel, sendo os 7 primeiros “perdidos” para se casar – mediante artimanha do "tiogro" – com Léia, a irmã mais velha da pretendida. 

Definitivamente, Jacó tinha sérios problemas familiares. 

Ao que parece, também nunca mais pode rever sua mãe e cúmplice, Rebeca, que desapareceu sem deixar vestígios bíblicos enquanto ele enfrentava seu calvário particular. 

Esta é uma das mais belas histórias da Bíblia e um dos grandes paradigmas que ela apresenta. 

Talvez os mais apressados, embora não admitam que Deus cometeu um “erro”, se sintam autorizados a todo tipo de pecado, canalhice, e mentiras afins, seguindo o caminho de Jacó, já que Esaú, o mocinho da história, se deu mal no final. 

Uma leitura mais atenta da Palavra, entretanto, mostra que o que realmente importava era a fé na promessa de Deus a Abraão, de que faria dele uma grande nação para seu louvor, promessa da qual Isaque era herdeiro e a transferiria ao primogênito. 

Naquele contexto, não havia nada mais sagrado, mas Esaú desprezou a bênção, trocando-a por um prato de guisado, pelo que a Bíblia reservou-lhe o epíteto de “profano” (Hebreus 12:16). 

Por outro lado, Jacó fez de tudo para alcançá-la, ainda que – humanamente falando – a princípio talvez estivesse interessado mais no lado material que ela representava. 

Foi necessário passar décadas de provações e uma luta dura e pessoal contra o próprio Deus, para que entendesse toda a extensão do que aquilo significava no mundo espiritual. 

A vida lhe reservava ainda outras tantas dificuldades, como a desavença entre seus próprios filhos e a perda temporária do preferido José, que só reveria no final de sua vida, no Egito. 

Jacó foi o retrato veterotestamentário do pecador miserável, carente de Deus e da Sua graça, que, mais por ignorância do que por ambição, seguiu o caminho correto por vias tortuosas demais. 

Tudo seria dele se ele apenas esperasse o tempo do Senhor. 

Sua insegurança e obstinação apenas lhe trouxeram consequências drásticas. 

Esaú, por sua vez, só teve um vislumbre do que significa a bênção de Deus quando era demasiado tarde para reverter a situação e obtê-la. 

Enquanto podia a ela aspirar, desprezou-a. 

Embora tenha sido um dos personagens bíblicos mais, digamos, “bacanas”, foi preterido porque não deu importância às coisas sagradas. 

Não percebera o seu “dia da visitação” (Lucas 19:44), e por isso foi chamado de “profano”. 

Jacó, pouco antes de reencontrar seu irmão, recebeu a visita de anjos e a reconheceu. 

“Quando Jacó os viu, disse: Este é o exército de Deus. 

E chamou àquele lugar Maanaim” (Gênesis 32:2). 

Maanaim (מחנים - machănayim) significa literalmente “dois exércitos, dois acampamentos” em hebraico, e Jacó sabia que sem Deus ele nada era. 

Ainda que fosse um cara muito legal, Esaú era o exército de um homem só. 

Assim são muitos hoje em dia, que são até “Esaús” no jeitão de ser, mas agem segundo o pior de Jacó, desprezando a fé que o movia. 

Preocupam-se apenas com o próprio prazer, ainda que tenham que arrebanhar uma legião, não de seguidores, mas de fãs, para satisfazer as suas necessidades materiais imediatas e os seus propósitos personalistas. 

Por isso, não titubeiam em relação às coisas sagradas, nem se dão conta do quanto as profanam. 

Simplesmente não as respeitam, e quando percebem o seu desvario, já não podem mais voltar atrás. Tornam-se reféns do personagem que criaram, e “profano” é o seu nome.




sábado, 8 de agosto de 2009

Espere no Senhor

“O SENHOR é bom
para com aqueles
cuja esperança está
nele,
para com aqueles
que o buscam;
é bom esperar
tranqüilo
pela salvação
do SENHOR.”

(Lamentações 3:25-26)


É mais fácil trabalhar do que esperar. Com freqüência é mais importante esperar do que trabalhar. Podemos confiar que Deus fará o trabalho necessário enquanto nós esperamos; mas se não estamos dispostos a esperar e insistimos em trabalhar enquanto Ele quer que estejamos quietos, podemos interferir na obra efetiva e triunfante que Ele está fazendo em nossa vida. Nossa espera pode ser o mais difícil que podemos fazer, pode ser a prova mais severa que Deus nos dá.

É verdade o que Oswald Chambers disse: “Uma das maiores tensões da vida é a tensão de esperar em Deus. Deus toma o santo como se fosse um arco que Ele estende, chegamos até certo ponto e dizemos “não posso agüentar mais”; mas Deus o continua estendendo. Ele não está buscando o nosso objetivo, mas o dEle, e a paciência dos santos é o fato de que devemos esperar até que Ele permita que a flecha voe direto ao alvo que Ele propôs. Se estivermos dispostos a lembrar sempre do chamado e da segurança que Deus nos dá, não há necessidade de nenhuma tensão enquanto estamos esperando. O tempo do “arco estendido” pode ser para nós um tempo de descanso ininterrupto, enquanto “descansamos no Senhor e aguardamos por ele com paciência” (Salmo 37:7)

A menos que a corda de um violino se estique até produzir o som desejado quando o arco se desliza sobre ela, não há música. Uma corda de violino solta, sem tensão, é inútil, está morta, não tem voz. Mas quando se estende até chegar à perfeita tensão, produz o tom correto e só então é útil para o músico.

“No eterno plano de Deus, um mês, um ano
É como uma hora de um lento mês de abril,
Que contém as sementes
daquilo que esperamos ou tememos
Para que floresça no tempo certo.”

O Todo-Poderoso pode parecer lento, mas o Seu caminho é seguro!


(“Manantiales en el Desierto”, Lettie Cowman, Ed. Vida-Zondervan, meditação de 04 de agosto)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Grandes canções - 4

Só pra lembrar que um dia se produziu música evangélica de altíssima qualidade no Brasil,e que no mundo há poucas vozes tão belas e afinadas como a de Paulo Cézar. A seguir, Grupo Logos cantando "Portas Abertas":


terça-feira, 4 de agosto de 2009

A verdadeira vida abundante

No meio da confusão generalizada em que as igrejas evangélicas estão metidas ultimamente, não deixa de ser curioso observar como pastores se deixam levar pelo oba-oba da teologia da prosperidade e começam a desvirtuar os textos bíblicos com o objetivo de seguir as, digamos, “tendências” atuais da (má) exegese. Talvez isso se explique (mas não se justifique) pelo mundo materialista em que vivemos, em que as estratégias mercadológicas ditam a maneira como as pessoas devem se comportar, relacionar e organizar. Somos bombardeados diariamente com o consumismo desenfreado e o discurso fácil e pegajoso da teologia da prosperidade que impera na televisão, e os frequentadores das igrejas evangélicas exigem que seus líderes sigam a onda que veem nos telepastores. Perceba que eu disse “frequentadores”, já que a alta rotatividade dos templos e suas “propostas de trabalho” ou “planos de riqueza” já não permite mais o antigo e romântico nome de “membros”. O líder, na iminência de perder o seu rebanho, não vê outra saída senão aderir ao modismo, deixando o bom ensino bíblico de lado, e assim retroalimenta o problema, pois pessoas mal instruídas na Bíblia são presas fáceis para os espertalhões que travestem o evangelho da cruz de Cristo pela ilusão fácil do pensamento positivo com floreios bíblicos.

Este atávico desejo de pertencer a alguém ou a um grupo, que os seres humanos desenvolveram tão bem, faz com que as igrejas evangélicas se pareçam mais hoje em dia com clubes de serviço – do tipo Rotary, Lions, etc. -, onde as pessoas trocam cartões, quando deviam trocar orações, ensino e admoestações. Este instinto gregário é facilmente manipulado por quem não tem compromisso algum com o ensino da Palavra, e está muito mais preocupado em se dar bem, não importa quais textos bíblicos tenha que distorcer. Um desses textos é João 10:10, em que Jesus diz que veio para que tivéssemos vida, e vida em abundância. A “pregação moderna” engloba no quesito “vida abundante” tudo quanto seja sinal externo de prosperidade. Assim, tem vida abundante quem tem posses, riquezas, ou seja, onde cair morto, para aproveitar o curioso contraste com o ditado popular. Entretanto, uma análise mais acurada das palavras de Jesus mostra que ele não estava se referindo às coisas materiais quando falava de “vida”, mas da vida espiritual que os humanos, mortos em seus pecados, jamais teriam se não se convertessem a Ele. Dentro do contexto do evangelho de João, fica claro que é a esta ressurreição espiritual que Jesus se refere, como vemos em João 5:24 – “Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida”. “Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior correrão rios de água viva” (João 7:38). “Pois, assim como o Pai levanta os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida a quem ele quer” (João 5:21). “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem; eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10:28-29).

Não por acaso, a palavra “vida” aparece 40 vezes só no evangelho de João, e nunca com o sentido de posse de bens materiais, ou como uma promessa de prosperidade a quem crê em Jesus. Vida, para João, está associada à crença em Jesus e à salvação espiritual que daí advém, conforme ele próprio finaliza o seu evangelho (20:31): “Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” Só nos resta esperar e orar para que os pastores simplesmente preguem a Palavra tal como nos foi revelada, e parem de adicionar “revelações” e “interpretações” particulares que nada acrescentam; apenas demonstram que o líder é só mais um no meio da massa ignara que quer utilizar a Bíblia para fins escusos.

“Vida abundante”, portanto, na acepção bíblica da expressão, significa o gozo, a alegria do crente que estava morto em seus pecados, e pela graça de Deus, rendeu-se a Cristo certo de que o sacrifício dEle em seu lugar é poderoso e bastante para salvá-lo. Aí ele tem entrada na vida abundante, não importa em que situação esteja ou venha a estar. Todo o resto é secundário. Há vida abundante para o rico e para o pobre. Há vida abundante na alegria, nas posses, mas também na pobreza, na dor e no sofrimento. Paulo foi preso, apedrejado e apanhou muitas vezes, passou fome, frio e nudez (2 Coríntios 11:23-27) e ninguém tem coragem de dizer que a sua vida não era abundante. Como ele próprio disse: “Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância, como em padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Filipenses 4:12-13). Até este último versículo é acintosamente subtraído do contexto para justificar as pregações megalomaníacas de quem vê apenas dinheiro na sua frente.

Prefiramos, então, a verdadeira vida abundante. Como diz o antigo corinho, “com Cristo no barco, tudo vai muito bem...”. Pode vir qualquer tempestade, que tudo seguirá muito bem. Vida abundante se resume em estar com Cristo em todos os momentos da vida, bons ou difíceis, com a certeza de que este é só o começo de toda uma eternidade com Ele, porque Ele nos amou primeiro (1 João 4:19) e nos resgatou com Seu sangue, tirando-nos da morte para a vida. Vida abundante é a nossa entrega incondicional a Deus, mediante Jesus Cristo, nosso Salvador. Como Jeremias já profetizava no Velho Testamento: “Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em entender, e em me conhecer, que eu sou o Senhor, que faço benevolência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor. (Jeremias 9:23-24)

As Crônicas de Marvin - 13

A fonte

O ponto de ônibus ficava em uma pequena praça perto da casa da Amanda. Era uma pracinha muito visitada pela vizinhança. Chegando ali, avistamos uma figura familiar.
- Irmã Priscila? – perguntei.
- Olá, irmãos. – respondeu, sorrindo – Onde estão indo?
- Bem, nós vamos visitar a congregação Alto da Glória. Vamos conversar com o ancião e a esposa dele... – respondeu Amanda.
- Ahh... Vejo que já estão “trabalhando” logo cedo, não é irmã?
As duas sorriram, mas Priscila estava um pouco séria. Então, se voltou para mim, dizendo:
- Irmão, eu não tive a oportunidade ainda de me desculpar...
- Por quê, irmã?
- Bem, no domingo, lá na festa... Eu não tive escolha, senão ir ver o que o Aldo queria... Sabe, quando éramos noivos... Eu gostava muito dele...
Entendo... A dúvida que ela demonstrou ter na verdade era um sinal... Sinal que ela ainda gostava dele de certa forma.
- Tudo bem, irmã... Então, descobriu o que ele queria?
- Bem, você ouviu o irmão Estêvão... Ele queria voltar comigo...
- Voltar? – exclamou desta vez a Amanda...
- Sim, irmã... Ele queria voltar comigo...
- Mas você não me disse na festa que ele te achava um pouco alegre demais? – Perguntei...
- Sim... Mas ele estava me dizendo ontem que se eu tinha sido escolhida para ajudar duas pessoas tão importantes como você e o irmão Estêvão, então ele deveria ter feito um mal julgamento...
- Interessante... Ele não chegou a esta conclusão simplesmente te observando, mas por que duas pessoas importantes confiam em você?
- Hummm, é...
Realmente o cara era um imprestável...
- Olha, tome cuidado com suas decisões... Pense bem antes de tomá-las...
- Tudo bem, irmão... Eu vou tomar... Bem, vou deixar vocês pegarem seu ônibus, senão vocês vão se atrasar, hehehe...
Assim ela se despediu de nós e continuou seu caminho, enquanto eu e Amanda acabamos de chegar até o ponto. Não esperamos muito tempo. Logo estávamos sentados no ônibus, em direção ao Alto da Glória, enquanto aquele veículo nos seguia.
- Humm... Marvin?
- Sim?
- O que tem nesta mochilona aí?
- Ah, são algumas coisinhas que eu sempre carrego... Nada demais.
Eram meus instrumentos de “tortura”. Estava disposto a arrancar algo daquele ancião, custe o que custar...
- Ah... Você gosta de carregar muita coisa, não é?
- Hehehe, sim... Não consigo sair de casa sem meu computador... É como se eu saísse sem roupas, sei lá...
Por que vigiavam Amanda? Isto estava ficando cada vez mais estranho... Ela não fazia mal a ninguém, o dia que tinha chamado mais atenção foi no último domingo...
Ela olhava para mim, com um pequeno sorriso no rosto, mas um olhar levemente melancólico, como que procurando puxar conversa.
O último domingo?
Agora eu entendia... Apesar de tudo, o tempo que fiquei junto com Amanda, o fato de levá-la para casa constituía, para o padrão das testemunhas de Jeová, um namoro... E como alguém tão próxima de mim, agora ela era digna de ser vigiada... E eu ainda não entendia os motivos disto, mas não era boa coisa...
Dificilmente eles fariam algum mal a ela do tipo físico, como bater ou sequestrar. Mas certamente não hesitariam em fazer pressão psicológica, algo que eram especialistas em fazer. E Amanda já possuia uma vida muito conturbada para passar por mais esta.
Mais uma vez eu consegui arrumar problemas para uma pessoa que não merecia. Tudo por causa da minha sede de vingança. Justo agora que eu estava conseguindo consertar o meu primeiro erro... Eu não faço nada certo mesmo... Eu podia ter pensado melhor nas consequências... Mas fui fazendo tudo de supetão, como sempre...
Não sei se poderia olhar para aquele rosto que agora sorria para mim da mesma forma que antes... Fiz tudo errado...
- Marvin?
- Sim?
- Aconteceu alguma coisa? Você está muito sério... Foi o que a irmã Priscila falou?
- Ah... Não... Não foi isto não...
Na verdade a Priscila nem passava na minha cabeça naquele momento... Então, decidi tomar coragem:
- Amanda... Eu queria te pedir desculpas...
- Desculpas? Por quê?
- Hummm, olha, é um pouco complicado... Eu fiz algo há algum tempo atrás e de uma forma indireta, acabei trazendo problemas para você...
- Você fez algo? Mas o quê você fez?
Olhei nos olhos dela, mas não podia contar a verdade... Ela me odiaria...
- Bem, eu não posso te dizer o que fiz. Não agora...
- Não... pode...?
- Eu sei que é estranho... Confie em mim. Eu vou cuidar de tudo... Só estou te pedindo desculpas, pois eu queria te avisar que talvez algo ruim possa acontecer a você... Saiba que eu estarei sempre do seu lado e vou te ajudar...
Estas palavras a fizeram sorrir de forma tímida... Sim, eu estava disposto a protegê-la. Eu devia isto a ela. Eu queria proteger aquele tímido sorriso...
- Marvin...
- Sim?
- Não se preocupe... Eu te perdoo, Marvin... Embora eu ainda não saiba o que está acontecendo ou o que vai acontecer, eu te perdôo... É fácil dizer isto agora, mas eu espero que se algo ruim acontecer mesmo, eu consiga superar tudo... Vou fazer o máximo para superar... Pois eu sei que ninguém é perfeito, que uma hora ou outra, até as pessoas que eu mais gosto podem me magoar... Não espero perfeição de você, espero arrependimento... E isto eu já vejo em você...
Senti como se um peso fosse tirado de meus ombros... Ela continuou...
- Além do mais, somos ensinados a perdoar setenta vezes sete... A oração do Pai-Nosso que é nosso modelo nos diz para pedirmos perdão assim como perdoamos aqueles que nos ofende... Há até uma parábola que mostra a ingratidão de um homem, que embora perdoado, não perdoou aqueles que o deviam... Que tipo de cristã eu seria se não te perdoasse?
Esta eu sei: uma testemunha de Jeová!! E era exatamente por isto que eu estava assombrado... Ela se lembra de todos estes pontos, mesmo sendo uma TJ. Ela não parecia fazer parte daquele mesmo grupo das comissões judicativas, tratamentos a apóstatas e coisas do tipo. Ela era estranhamente normal, normal demais para ser uma testemunha de Jeová...
Neste momento estas palavras de Jesus Cristo ecoavam em minha mente:

No entanto, eu vos digo: Continuai a amar os vossos inimigos e a orar pelos que vos perseguem; para que mostreis ser filhos de vosso Pai, que está nos céus, visto que ele faz o seu sol levantar-se sobre iníquos e sobre bons, e faz chover sobre justos e sobre injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem também a mesma coisa os cobradores de impostos? E, se cumprimentardes somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem também a mesma coisa as pessoas das nações?

Entendendo que quem eles chamam de apóstatas fossem os piores inimigos das testemunhas de Jeová, qual deles jamais demonstrou alguma forma de amor por eles? Digo que muito poucos e isto de forma escondida, para não serem descobertos... Na verdade, elas imitam as pessoas das nações, elas são parte do mundo, coisa que elas abominam em suas reuniões secretas de auto-valorização... Devo admitir que a resposta que dei há pouco está errada... As testemunhas de Jeová não são cristãs, elas não se classificam como escolha possível para a resposta...
- Obrigado, Amanda... Nem sei o que dizer...
- Diga algo alegre... Esqueça isto, temos coisas melhores para nos preocupar...
Logo chegamos ao local. Descemos do ônibus e seguimos algumas ruas pequenas, que levavam ao salão do Reino daquela localidade. O carro que nos seguia agora estava mais longe, para não chamar muita atenção.
O salão do Reino ali era bem organizado. Aquela região era diferente da nossa, pois os moradores ali geralmente possuíam melhores condições. Enquanto tínhamos cadeiras de plástico, as cadeiras ali eram cadeiras próprias para auditórios. O jardim bem cuidado, portas e janelas de primeira qualidade... Era tudo diferente. Na porta, o sorridente ancião esperava, com sua esposa...
- Irmão Rogério! Como vai?
- Estou bem, irmão Marvin. Esta aqui é minha esposa.
- Muito prazer. Eu sou Marvin, esta é a irmã Amanda, que está me auxiliando...
Entramos para o salão do Reino. Lá dentro, as duas ficaram conversando, enquando o ancião me mostrava as instalações.
- Bem, irmão, como você sabe, eu estou iniciando minhas visitas às congregações que me parecem com problemas entre os irmãos... Me conte sobre sua congregação...
- Irmão Marvin, eu até ia comentar que fiquei um pouco surpreso quando o senhor me ligou... Não imaginava que houvesse problemas dignos de sua visita a esta congregação...
- Bem, irmão, se você não sabe, quem mais poderia saber? Mas gostaria de conversar com você em algum lugar reservado, onde as irmãs não pudessem nem escutar, nem nos ver... Não quero alarmar ninguém, entende?
- Hummm, acho que entendo sim, irmão. Venha, aquela sala ali deve servir...
Então caminhamos para a sala que o irmão Rogério me apontou. A porta se fechou. Sentamos, então olhei para os olhos do ancião e disse:
- Irmão, eu sei que há um problema sério em sua congregação quanto às horas no serviço de campo...
- Quanto às horas? Mas irmão, aqui muitos dos irmão estão cumprindo tudo direitinho... São muito poucos irmãos que não as cumprem e eu já até chamei a atenção deles...
- Não estou falando disto, irmão, mas de um problema muito mais grave...
- Mais grave?
- Sim. Estou sabendo que alguns irmãos estão ganhando horas de serviço de campo em troca de favores...
Eu vi então o ancião ficar branco em minha frente...
- Como assim?
- Ora, irmão, você não sabe disto? Eu sei que alguns irmãos desta congregação andam me vigiando, em troca de alguns benefícios... Como ganhar horas a mais de serviço de campo... Eu pessoalmente consideraria isto um problema gravíssimo, mas pelo visto você, irmão, não compartilha da mesma opinião...
Mais uma vez o vi engolir seco... A primeira reação seria negar tudo e se fazer de vítima...
- Não, irmão, você está enganado... Não está acontecendo nada disto não... Por que o irmão está pensando isto de mim? Sempre fui zeloso em minhas obrigações para com a Congregação...
Hora do blefe...
- Irmão, por acaso você percebeu com quem está conversando?
- Como assim, irmão?
- Você está tentando me enganar, como se eu fosse uma pessoa comum. Se eu não tivesse recebido um dom especial, eu jamais teria descoberto todo este esquema ilícito de vocês... Eu por exemplo sei que vocês enviam os irmãos para me vigiar e eles contam tudo para vocês, ligando para seus celulares. Tenho certeza absoluta que você se lembra muito bem do quê aconteceu com Ananias quando tentou enganar o apóstolo Pedro... E tenho certeza também que você também se lembra do texto de primeira Crônicas, capítulo 16, versículo 22 que diz: “‘Não toqueis nos meus ungidos, e não façais nada de mal aos meus profetas”.
Pela cara de espanto que ele fez, ele se lembrava muito bem do acontecido...
- Ah... Me... Me desculpe, irmão... Eu... Eu não queria...
Ufa, ele caiu na minha história... Não me levem à mal... Eu não sou nenhum tipo de pastor pentecostal que fica brincando de Mandrake na tribuna. Por isto peço a Pedro desculpas pela comparação grosseira... O problema destes pastores é que eles fazem seu show para promover a si mesmos... Curas milagrosas, exorcismo, unção de X (substitua X por qualquer coisa que pareça santa), geração de ruídos aleatórios (que eles chamam tecnicamente de falar em línguas), tudo isto nada mais é do que uma campanha de marketing para mostrar para todo mundo que eles são mesmo poderosos. São como grandes curandeiros de terno que atendem à distância. Também não chegava a ser como os “apóstolos” da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que previam apenas aquelas coisas que ninguém dava a mínima importância (ninguém além dos mórmons). Eu não era profeta coisa nenhuma, mas precisava que eles acreditassem que eu era, para cumprir meus objetivos. E eu fiquei feliz por ele ter acreditado em mim, pois se ele continuasse a mentir e não morresse por isto, certamente ele morreria por outra coisa: raiva.
- Muito bem, me conte o que sabe sobre esta história...
-Está bem, irmão... Tudo começou no fim de semana passado...
- Começou?
- Sim. Recebemos logo cedo uma ligação. Eu não fui o único ancião a ser contactado... A pessoa dizia que era uma ligação de Betel.
- Betel????
- Isto mesmo. Betel. A pessoa não se identificou, embora eu pedisse isto.
- Hummmm... Interessante... Continue.
- Pois bem, ele me deu ordens para vigiar seus passos... Tudo que você fizesse de suspeito era para ser relatado.
- Ele te disse os motivos para isto?
- Não... Sabe, a pessoa foi bem autoritária. Sempre que eu perguntava, ela dizia que se eu não fizesse o que eles me pediam, minha reputação com o Escravo ficaria manchada... Eu não queria que isto acontecesse, então resolvi ajudá-los.
- E então, você mandou os irmãos me vigiarem, a troco de algumas horas no serviço de campo...
- Sim. Eu tive autorização direta deles...
- Mas como você pôde acreditar em alguém falando por telefone com você? Você não pensou que poderia ser um trote?
- Pensei sim, irmão... Mas aquela voz me convenceu que não era...
- Como assim?
- Bem, eu ainda falava com ela por telefone, quando ela me pediu para verificar na minha caixa de correio, uma ordem de Betel para fazer este serviço.
- Sério?
- Sim. Eu fui até minha caixa de correio e lá estava a carta. Agora não a tenho em mãos, mas está lá em casa. Dizia para observá-lo, que esta era uma questão de segurança... E que eu jamais contasse isto para ninguém...
Assombroso... Eu jamais poderia imaginar que alguém de Betel estivesse envolvido nisto...
- E o que você fazia com a informação que obtinha?
- Eu enviava um relatório por email. O endereço para qual eu devia enviar mudava de três em três dias. De três em três dias eu receberia um email, com o novo endereço para o qual eu deveria enviar os relatórios...
- Muito esperto... Fica mais difícil rastrear assim...
- Sim, eu acho que sim...
- Mais uma coisa... Por que estão vigiando a irmã Amanda?
- Bem... Recebemos esta ordem hoje de manhã... Não nos deram mais detalhes, só disseram para fazermos o mesmo com ela.
- Muito bem, irmão... Coisas deste tipo são muito vergonhosas para um ancião... Eu poderia até desassociar você por isto...
- Gulp... Irmão, me perdôe... Eu não queria fazer isto, mas eles me ameaçaram...
- Hum, está tudo bem, irmão. Eu entendo isto e te perdoo... Mas quero te pedir um favor...
- Qual é?
- Eu quero que continue a fazer o que estava fazendo, até eu descobrir quem está envolvido nisto. Se você parar agora, eu jamais descobrirei... Não quero que fale a ninguém sobre nossa conversa hoje.
- Ah, pode deixar, irmão!!! Eu não vou contar para ninguém de nossa conversa... Eu espero que não fique com raiva de mim...
- Tudo bem. Eu já disse que te entendo. Mas eu preciso descobrir quem é esta pessoa.
Assim, saímos da pequena sala, para encontrar as duas mulheres. A esposa do ancião ria alto, contando as histórias daquela congregação para Amanda, que apenas sorria.
- Muito bem, acho que nossa visita aqui foi muito produtiva. Tenho certeza que os irmãos desta congregação estão muito bem representados. – comentei.
- Muito obrigado, irmão. – disse o ancião, um pouco desanimado.
Que tipo de segredo haveria em Betel? O que estavam procurando? Finalmente começava a ter alguma pista sobre este assunto... Tive que jogar o jogo deles, tive que mentir, tirar versículos de contexto, fingir... Manipulei versículos a meu favor... Me perguntava até onde esta minha vingança me levaria... E embora tivesse sido perdoado de antemão pela Amanda, eu ainda me via culpado por trazer problemas à sua vida... Ela estava ali, despreocupada, não imaginava que estava sendo vigiada... Não queria trazer sofrimento para ela, mas alegria...
Alegria...?
Isto me deu uma idéia... Mas primeiro, precisava resolver um probleminha... Cheguei perto do ancião e cochichei no seu ouvido:
- Irmão, me faz mais um favor... Dá um jeito naquele irmão que está nos seguindo, por favor... Só desta vez... Me dá nos nervos ser seguido... Inventa alguma coisa...
- Está bem, irmão... – respondeu ele, também cochichando.
Caminhamos então até a porta, onde nos despedimos do casal. Quando começamos a caminhar de volta para o ponto de ônibus, ouvimos a esposa do ancião dizer ainda:
- Puxa, eu não sei se já disse para vocês, mas eu realmente acho que vocês dois formam um belo casal...
Tal comentário me fez voltar o rosto para ela e olhá-la cara a cara.
- Como é que é?
- É irmão! Vocês formam um belo casal... São tão bonitinhos...
- Irmã... – respondi.
- Sim, irmão?
- Você fala demais!
Me virei novamente e continuei a caminhar, junto da Amanda.
- Hehehehe, a irmã é mesmo engraçada, não Marvin? – perguntou Amanda.
- Hummm, ela é bisbilhoteira, isto sim...
- Ah, deixa ela pra lá... É o jeito dela... Além do mais, agora vamos para casa descansar e...
- Hehehehe, não vamos para casa ainda... – respondi com um sorriso.
- Ah, não? E vamos onde então?
- Bem, isto é uma surpresa.
- Uma surpresa? Mas Marvin, que tipo de surpresa seria? Pois tem um irmão nos vigiando desde que saímos lá de casa...
Esta declaração me surpreendeu.
- Ah, então você percebeu isto também?
- Sim, percebi... Devem estar doidos para saber se há algo entre nós.
- É, devem mesmo... Mas não se preocupe com isto, logo ele vai nos deixar...
Ela olhou disfarçadamente para o lado onde o irmão estava. Ele falava ao celular e logo que desligou, deu a partida no carro e foi embora.
- Puxa, Marvin. Como você sabia disto?
- Ah, eu tenho os meus meios, hehehehe...
- Hummm... Eu diria que foi bem impressionante... Mas então, vamos onde mesmo?
- Já disse que é uma surpresa... Acho que você vai gostar. Confie em mim...

domingo, 2 de agosto de 2009

Feridos pelo caminho

Não vou revelar nomes nem local – afinal, o que vou relatar acontece todo dia no Brasil - mas, há muitos anos atrás, acompanhei o processo de divisão de uma igreja tradicional, em que um dos seus líderes, incentivado por um conhecido líder evangélico, e descontente com a frieza que ele nela apontava, levou um grupo de irmãos a formar outra igreja, e, ainda que não fôssemos membros de nenhuma delas, eu e um irmão – alguns dias depois - fomos visitar a nova congregação, onde, após o culto, o líder em questão comentou conosco:

- Sabe o que é, irmãos, as igrejas que estão crescendo hoje são pentecostais, e por isso eu decidi fundar uma igreja pentecostal. É isso que funciona!

Apenas ouvimos a afirmação do recém-empossado pastor da recém-fundada igreja e ao sair de lá, o irmão que me acompanhava comentou, um tanto quanto assustado:

- Se o critério que o levou a abrir de uma igreja é o crescimento nos dias atuais, ele podia usar a mesma razão para montar um centro de umbanda ou espírita, já que eles também estão crescendo bastante.

Teologias e sarcasmos à parte, o motivo invocado pelo pastor para fundar uma nova igreja (“funciona!”) ainda era pretexto, no começo dos anos 80, para um movimento que estava no seu estágio inicial no meio evangélico brasileiro. 

Por mais que seus objetivos fossem nobres (“pregar o evangelho”), as suas palavras já revelavam a influência do utilitarismo nas igrejas, esta corrente filosófica que diz que “os fins justificam os meios” e que é hegemônica no mundo atual. 

Sem querer querendo, ele estava se tornando mais um refém do discurso utilitário do que propriamente um discípulo do evangelho. 

Afinal, as suas razões não estavam calcadas num exame mais aprofundado das Escrituras nem num espírito cristão de amor e compreensão. 

Queria, como qualquer utilitário, resultados rápidos e visíveis com o mínimo custo possível, ainda que não perdurassem no longo prazo. Afinal, muito mais valor se dá ao “pelos frutos os conhecereis” do Sermão do Monte (Mateus 7:16-20) do que ao “eu vos escolhi a vós, e vos designei, para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça” do discurso em que Jesus aprofunda o tema (João 15:16). 

Bem, se eles não se preocupavam com as pessoas que ficaram machucadas pelo processo de divisão, a questão da permanência dos frutos passava – inconscientemente, creio eu – a ser secundária. 

Aliás, eu tenho a impressão de que Deus se preocupa muito mais com os irmãos que ficam feridos pelo caminho do que aqueles que vêm à igreja, ficam por um tempo e depois somem no mundo. 

Como diz o próprio Jesus, “qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e se submergisse na profundeza do mar” (Mateus 18:6).

Pois bem, passaram-se os anos, as décadas, e daquele grupo inicial, muita gente se afastou e nunca mais quis saber de igreja, e vários outros líderes, formados na nova igreja, também invocaram as mesmas razões utilitárias para dividirem os irmãos e fundarem as suas próprias igrejas. 

Isto sem contar que o pastor-mor, que havia sido mentor do primeiro líder-divisor, muitos anos depois se envolveu num adultério, que terminou confessando apenas para o seu filho (também pastor), que, incapaz de lidar com a história sozinho, terminou me contando o fato, que também era conhecido (ou suspeitado) por outros irmãos. 

O pastor-mor não quis se retratar e confessar o pecado à sua congregação, talvez por achar que uma confissãozinha a seu filho podia quebrar o seu galho e aliviar a sua consciência. Até protestantes tornam-se católicos quando convém.

Por fim, deixo uma mensagem aos que ficaram feridos pelo caminho. Infelizmente, vocês viram, da pior maneira possível, como uma visão do evangelho distorcida e contaminada pelo utilitarismo, pode afastá-los do verdadeiro prazer de ser cristão, compartilhar suas dores e bênçãos, orar e estudar a Bíblia, e ajudar a construir um mundo melhor. 

Não existe igreja perfeita, isto é fato, mas há muitos crentes imperfeitos que NÃO são hipócritas nem querem se locupletar às custas do sofrimento alheio. 

 Aqueles que promovem divisões darão conta de si mesmo a Deus, que os acusa de serem sensuais e não terem o Espírito (Judas 1:19). 

A palavra aí traduzida por “sensuais” é, no original grego, ψυχικός – psuchikos – que quer dizer, literalmente, “governados pelas próprias paixões, pelo próprio apetite”. 

Entreguem-nos, portanto, ao justo juízo de Deus, mas não fiquem lambendo indefinidamente as suas feridas. 

Vocês aprenderam como NÃO fazer a obra de Deus, agora estão preparados para fazê-la da maneira correta, com toda a humildade, mansidão e perdão. 

Não permitam que farsantes e falsificadores do evangelho retenham o seu perdão, nem bloqueiem o seu caminho até Deus. Voltem! A Igreja e os seus irmãos precisam de vocês.

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