terça-feira, 14 de setembro de 2010

Placebo gospel

Numa simplificação assumidamente insuficiente, “placebo” é um “remédio” que, na verdade, não é remédio, mas uma espécie de simulação de medicamento que, quando administrada a um paciente, faz com que ele apresente certos resultados fisiológicos decorrentes da, digamos, “sensação” de que está sendo devidamente tratado da doença que o acomete. Um placebo seria, por exemplo, uma pílula de farinha que faria as vezes de um analgésico ou antidepressivo, o que geraria no paciente que sofre de dor ou depressão um certo alívio nos seus sintomas em virtude dele acreditar que aquela pílula inócua e inútil teria o condão de realmente atacar e curar a sua enfermidade. Em termos metodológicos, o placebo é frequentemente utilizado para se medir a eficácia de um novo medicamento em testes controlados, em que parte das pessoas que o testam são tratadas com placebo e outras com o medicamento que está sendo pesquisado. O controle em questão é feito mediante protocolos reconhecidos por outros pesquisadores e instituições científicas. Na outra ponta dessa metodologia estão as críticas que se fazem a terapias alternativas, sem comprovação científica, às quais se atribuem o efeito placebo quando ocorre alguma melhora da condição do paciente.

Dito isto, a analogia que proponho é em relação ao tipo de evangelho que, com o perdão da palavra, está sendo “servido” hoje ao povo brasileiro. Se bem que, muitas vezes, parece que o correto seria dizer que está sendo “testado”. No que tange ao “antigo” evangelho decorrente da mensagem da cruz de Cristo, parece que esta simples e pura boa nova, experimentada, acolhida e – principalmente - vivida por gerações ao longo dos milênios em todos os rincões do mundo, já não é mais suficiente para os brasileiros do século XXI. Estes preferem uma espécie de “placebo gospel” embalado numa mensagem açucarada que não ataca nem cura o âmago do ser humano, mas as suas necessidades imediatas e – muitas vezes – supérfluas de bens, autoafirmação e consumo, fornecendo-lhe doses cavalares de pílulas de autoengano que lhes permitam enfrentar a dureza da vida.

Não por acaso, segundo o dicionário Houaiss, a palavra “placebo” vem do latim placebo, que significa “eu agradarei”, 1ª pessoa singular do futuro do indicativo do verbo placére (“ser do agrado, agradar, aprazer”). Uma espécie de balinha doce para agradar paladares e estômagos menos exigentes, mas inservível para alimentar, e que, infelizmente, está sendo oferecida de muitos púlpitos espalhados pelas igrejas evangélicas no Brasil. Alívios momentâneos para o cansaço e o pecado mediante refrões e discursos pré-fabricados, mas que não transformam vidas nem salvam almas, já que a cruz de Cristo é esquecida ou sublimada. Não por acaso, Paulo já advertia quanto aqueles “que são inimigos da cruz de Cristo; cujo fim é a perdição; cujo deus é o ventre; e cuja glória assenta no que é vergonhoso; os quais só cuidam das coisas terrenas” (Fil 3:18-19).

Este placebo que emana dos púlpitos não só engana sua audiência como tece uma rede de conformismo e autoemulação coletiva entre pastores e líderes de outras tantas igrejas evangélicas, que abandonam o seu senso crítico em troca de “unções” e conchavos suspeitos. Enquanto na metodologia científica, tanto o placebo como o remédio verdadeiro são averiguados e checados pela comunidade de pesquisadores, na “metodologia” religiosa, os placebos são aceitos como verdades insofismáveis, as quais não é lícito a ninguém o simples questionar. Tudo é engolido a seco sem qualquer critério, e líderes se juntam a outros líderes com base apenas no título que ostentam e na denominação que representam, como se o simples fato de se autoafirmarem “evangélicos” fosse suficiente para autorizá-los a se confraternizarem em convescotes e banquetes da vaidade, em que o Espírito Santo é barrado na porta.

Isto me lembra da homeopatia, que é frequentemente atacada pela comunidade científica como um exemplo de placebo. Sem entrar nesta questão específica, numa definição também reconhecidamente rasa, a grande característica da homeopatia é a diluição sucessiva de uma determinada substância até se atingir determinada potência do seu princípio ativo. Parece que é este o fenômeno que tem atacado a mensagem do evangelho no Brasil. A cruz de Cristo vai sendo sucessivamente diluída em tantos rituais e discursos inúteis que, ao contrário do que reza a teoria homeopática, termina perdendo todo o seu potencial de transformação do ser humano.

Atitude um pouco diferente têm os católicos devotos de Frei Galvão. As suas “pílulas” são uma espécie de placebo ao qual se atribuem milagres. Pelo menos, ao distribuí-las, as freiras do mosteiro da Luz não escondem de ninguém de que se trata apenas de palavras microscópicas enroladas num papel minúsculo.

domingo, 12 de setembro de 2010

Stephen Hawking e a existência de Deus

Artigo de Marcelo Gleiser na Folha de S. Paulo de hoje:

Hawking e Deus: relação íntima

É lamentável que físicos como Hawking divulguem teorias especulativas; ele está querendo ser Deus

Stephen Hawking, o famoso físico da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, está mais uma vez ocupando manchetes e blogs pelo mundo afora. A razão é a publicação de seu livro "O Grandioso Design" ("The Grand Design"), com Leonard Mlodinow, do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia).

A atenção é consequência da afirmação feita por Hawking de que a física resolveu a questão da origem do Universo e que, portanto, Deus não é necessário. Na verdade, isso não passa de mais uma batalha numa guerra um tanto longa e inútil.

Em seu bestseller "Uma Breve História do Tempo", publicado em 1988, Hawking escreveu: "Se o Universo é contido em si mesmo, sem borda ou fronteira, não teria começo ou fim: simplesmente seria. Neste caso, qual o lugar de um criador?"

Mais adiante: "Se descobrirmos uma teoria completa, filósofos, cientistas e o público leigo tomariam parte na discussão de por que o Universo e nós existimos. Se encontrarmos a resposta, seria o grande triunfo da razão humana, pois, então, conheceríamos a mente de Deus".

Hawking afirma que tem novos argumentos que colocam Deus para escanteio de vez. Será?

A ideia dele, que já circula de formas diferentes desde os anos 70, vem do casamento da relatividade e da mecânica quântica para explicar a origem do Universo, isto é, como tudo veio do nada.

Primeiro, usamos as propriedades atrativas da gravidade para mostrar que o cosmo é uma solução com energia zero (o "nada" de onde tudo vem) das equações que descrevem sua evolução.

Segundo, como na mecânica quântica (que descreve elétrons, átomos etc.) tudo flutua, o Universo pode ser resultado de uma flutuação de energia nula a partir de uma entidade que "contêm" todos os Universos possíveis, o multiverso.

Nosso Universo é o que tem as propriedades certas para existir por tempo suficiente -quase 14 bilhões de anos- para formar estrelas, planetas e também vida.

Em meu livro "Criação Imperfeita", publicado em março, argumento exatamente o oposto. Descrevo como afirmações que defendem a existência de uma "teoria de tudo" são incompatíveis com a física.

As teorias que Hawking e Mlodinow usam para basear seus argumentos -teorias-M, vindas das supercordas- têm tanta evidência empírica quanto Deus.

É lamentável que físicos como Hawking estejam divulgando teorias especulativas como quase concluídas. A euforia na mídia é compreensível: o homem quer ser Deus.

O desafio das teorias a que Hawking se refere é justamente estabelecer qualquer traço de evidência observacional, até agora inexistente. Não sabemos nem mesmo se essas teorias fazem sentido. Certas noções, como a existência de um multiverso, não parecem ser testáveis.

Ademais, a existência de uma teoria final é incompatível com o caráter empírico da física, baseado na coleta gradual de dados. Não vejo como poderemos ter certeza de que uma teoria final é mesmo final.

Como nos mostra a história da ciência, surpresas ocorrem a toda hora. Talvez esteja na hora de Hawking deixar Deus em paz.

Leitores interessados podem ver uma comparação entre meu livro e o de Hawking no blog do jornal "New York Times":

São Kassab

O Estadão de hoje deu um jeito de canonizar pelo menos um Kassab:

Tio-bisavô de Kassab é santo da Igreja Maronita

Trânsito, excesso de lixo, superpopulação e falta de vagas em creches. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) é um homem comum encarregado de resolver esses e outros problemas. A diferença dele para os outros 11 milhões de habitantes de São Paulo é que, se quiser pedir um milagre, pode rezar para a própria família. São Naantalla Kassab, beatificado em 1998 e canonizado pelo papa João Paulo II em maio de 2004, é tio-bisavô do prefeito da capital.

Naantalla Kassab é um dos quatro santos da Igreja Maronita, religião fiel ao Vaticano com sede no Líbano, terra de origem da família do prefeito. Ele viveu no século 19 e teria feito milagres tanto em vida quanto após a morte, em 1858.

Na Igreja Maronita, São Naantalla Kassab também é chamado de "Al-Hardini". "Não é bem um apelido. É que é tradição chamar uma pessoa pelo nome da região de onde ela vem. Hardini é a região onde nosso santo nasceu", diz o padre Sleiman Eid, também conhecido como padre Salomão, pároco da Catedral Nossa Senhora do Líbano, na Liberdade, no centro de São Paulo.

"Há uma proximidade, mas ele não é tão próximo", diz o prefeito, ao comentar a ligação com o parente santificado. "Ele foi canonizado há alguns anos e, para a família, é um motivo de orgulho", diz. A resposta séria, dada antes de uma entrevista coletiva na sexta-feira, foi feita depois de um momento de descontração. "São dois santos na família. Ele e eu", brincou Kassab, cujo "milagre" mais famoso, por enquanto, é a Lei Cidade Limpa, aprovada em 2007 e até hoje sua principal vitrine política.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sossegai!

Há dias de muita luta em nossas vidas, há momentos terríveis que atravessamos, em que a paralisia parece que vai nos vencer. O medo toma as rédeas das nossas emoções e a atitude mais cômoda, por contraditório que pareça, é simplesmente deixar-se levar pela correnteza, inapelavelmente. Entretanto, temos que seguir em frente, não podemos olhar pra trás, pois o que passou, passou, há desafios enormes pela frente, mas, graças a Deus, a vitória é garantida. Quando nosso inconsciente se depara com estes desafios, ele provoca um curto-circuito geral, porque o que vem à frente é novo e inovador, desconhecido mas – provavelmente - infinitamente melhor do que tudo o que já vivemos, mas o nosso inconsciente é uma criança mimada e insegura, que prefere agarrar-se à falsa segurança de emoções antigas, ainda que sejam erradas, destrutivas, e carregadas de culpa.

Há esperança, todavia. Podemos optar pela verdadeira segurança, que é entregar a Deus todo o nosso caminho, o que significa certeza de abrigo, mesmo em meio à tempestade, certeza de resgate, mesmo em meio ao mar enfurecido, certeza de paz, mesmo debaixo do bombardeio incessante, certeza de salvação, mesmo vivendo num mundo destinado à perdição. O que passou, passou, não voltará, e se a sensação de paralisia é forte demais, podemos nos inspirar no que fez Paulo, durante a tempestade na viagem pra Roma, deixando de lado, por longos dias, todos os meios humanos pra tentar se salvar no barco à deriva (Atos 27:13-44). Se é esta a situação em que estamos, deixemos o barco à deriva até que o Senhor decida em que ilha nós vamos aportar, ou em que pedra o barco vai se estilhaçar, mas, em toda e qualquer situação, nós seremos salvos (Atos 27:22), e apenas o barco, a carcaça desta velha vida, naufragará.

De qualquer maneira, o sol beijará outra manhã, o mar voltará a cantar canções de ninar, o vento tornará a acariciar no seu vem e vai, e nós continuaremos vivos e de pé na presença do Senhor, eternamente. Nunca perca esta verdade do seu horizonte.

Com Cristo no barco, tudo vai muito bem...

Sossegai...


Não conte com o ovo antes do frango

Não conte com o ovo antes da galinha (ou seria o contrário?...), principalmente se a sua profissão for a que mais é prejudicada por frangos: a de goleiro. Na disputa de pênaltis entre o Maghreb de Fez e o FAR de Rabat, pelas oitavas de final da Copa do Rei do Marrocos (o tempo normal terminou empatado em 1x1 ontem, 09/09/10, Khalid Askary, goleiro do FAR de Rabat, pegou um pênalti e partiu pro abraço, só que algo muito estranho aconteceu.... será que era uma Jabulaaaaaaniiiii... ?




Atualização de 27/09/10:

Pelo jeito o mês de setembro de 2010 será apagado do calendário do goleiro Khalid Askary. Não é que ele fez outra lambança no jogo contra o KAC Kenitra? Só que desta vez, ele desistiu de continuar em campo, tratou de abandonar o jogo imediatamente. Também com essa zica...


Bento XVI não quer mais perda de fiéis no Brasil

Notícia do jornal O Dia:

Papa pede esforço da Igreja brasileira contra perda de fiéis

Roma (Vaticano) - O papa Bento XVI pediu nesta sexta-feira à Igreja Católica do Brasil que não poupe esforços para deter o crescente abandono de fiéis e enfrentar, por outro lado, a rápida expansão das comunidades evangélicas e neopentecostais. O pedido foi feito durante discurso aos bispos brasileiros, recebidos hoje em Castelgandolfo (a cerca de 30 quilômetros de Roma), na tradicional visita "ad limina" (visita aos túmulos, em livre tradução), realizada a cada cinco anos pelos representantes eclesiais de cada país.

"É observada uma crescente influência de novos elementos na sociedade, que há poucas dezenas de anos não existiam. Isto provoca um crescente abandono por parte de muitos católicos da vida eclesial ou inclusive da Igreja, enquanto no panorama religioso do Brasil se assiste à rápida expansão das comunidades evangélicas e neopentecostais", disse Bento XVI. Segundo o papa, este afastamento se deve a "uma evangelização, em nível pessoal, às vezes superficial".

"Às vezes, os batizados não são suficientemente evangelizados, por isso são facilmente influenciáveis, já que têm uma fé frágil e frequentemente baseada em uma ingênua devoção", acrescentou o Sumo Pontífice. Por isso, o papa instou que "a Igreja Católica se empenhe na evangelização e que não economize esforços na busca de católicos que tenham se afastado ou de pessoas que conheçam pouco ou nada da mensagem cristã".

O Pontífice explicou que, diante "do desafio da multiplicação incessante de novos grupos, nos quais às vezes é feito uso de um proselitismo agressivo", é necessário reforçar o "diálogo ecumênico". "A falta de unidade (entre as Igrejas cristãs) mina a credibilidade da mensagem cristã divulgada à sociedade", afirmou Bento XVI.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Patriotismo, partidarismo e guerra

por C. S. Lewis:

A guerra deixará de absorver a nossa total atenção, porque se trata de um objeto finito e, por isso, intrinsecamente inadequado para suportar toda a atenção de uma alma humana. Para evitar mal-entendidos, é preciso fazer algumas distinções aqui. Acredito que a nossa causa é muito justa, como costuma acontecer com as causas humanas, e isso me faz acreditar que seja o nosso dever participar dessa guerra. Todo dever é um dever religioso, e nossa obrigação de desempenhar esse dever é absoluta. Assim, pode até ser um dever salvar uma pessoa que esteja se afogando e, quem sabe, se vivemos em uma praia perigosa, devemos nos preparar para o ofício de salva-vidas, de modo que estejamos prontos caso apareça alguém se afogando. Quem sabe tenhamos até que perder a nossa própria vida para salvá-lo. Mas, se um dia alguém se devotasse ao ofício de salvar vidas no sentido de dedicar-se totalmente a isso – de modo que não pensasse ou falasse de outra coisa, ou exigisse que todas as demais atividades humanas cessassem até que todas as pessoas aprendessem a nadar -, ele seria um maníaco obsessivo. Assim, salvar a vida de pessoas do afogamento é um dever pelo qual vale a pena morrer, mas não para o qual valha a pena viver. Tudo indica que os deveres políticos (entre os quais eu incluiria os deveres militares) sejam desse tipo. Uma pessoa pode ter que morrer pelo seu país, mas ninguém precisa viver pelo seu país em um sentido exclusivo. Aquele que se entrega sem reservas aos apelos temporais de uma nação, de um partido, ou de uma classe, está dando a César algo que, de maneira mais do que enfática, pertence a Deus: está dando a si mesmo.

(C. S. Lewis em “O Peso da Glória” (The Weigh of Glory), citado em “Um Ano com C. S. Lewis”, Ed. Ultimato, 2005, p. 281)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ramadã à brasileira

Artigo do site Opera Mundi:

Daniella Cambaúva e Laisa Beatris | São Paulo

Ramadã à brasileira: como os muçulmanos de São Paulo passam o mês sagrado do Islã

O relógio da família Jarouche, que mora em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, toca às cinco horas da manhã. Eles acordam, fazem uma refeição leve e se preparam para fazer a fajr, primeira oração do dia. A mãe, Fátima, e a filha mais velha, Tamara, fazem o wudu, o ritual de lavar as mãos antes das orações e rezam em casa. O pai e o filho Youssef vão à mesquita e, em seguida, saem para o trabalho.

Por volta do mesmo horário, a chegada dos fiéis para a primeira oração do dia na mesquita xiita do Brás, na zona leste de São Paulo, se mistura com a de lojistas que montam barracas. Dentro da mesquita, alguns poucos fiéis começam a ler o Alcorão em voz alta, e o som da frase “Allahu Akbar" (“Deus é o maior!”, em árabe), a voz do imame (sacerdote), transmitida pelos alto-falantes chamando para oração, mistura-se com o sucesso de Lady Gaga que toca do outro lado da rua.

Em um cenário nada típico, começa o dia dos muçulmanos que vivem no Brasil durante o Ramadã, mês sagrado do calendário islâmico. Durante 30 dias, a rotina dos fiéis é alterada. Do nascer ao pôr do sol, não podem comer nem beber nada. A exceção ao jejum é para pessoas doentes, mulheres grávidas, lactantes ou em período menstrual. As crianças começam a praticá-lo aos poucos, a partir dos sete anos e começam completamente aos 14 anos.

Esta segunda-feira (6/9), é o 27º dia do Ramadã, uma data especial porque foi na noite entre os dias 26 e 27 do mês sagrado do islamismo que o profeta Maomé teria recebido a primeira revelação do Alcorão.

Vizinhos

Se não fossem pelas reclamações dos não-muçulmanos que moram perto da mesquita, os fiéis da mesquita do Brás seriam chamados para fazer oração pelo adhan – som emitido pelos alto-falantes no minarete, como acontece em algumas mesquitas do Brasil e é comum em outros países. Em São Bernardo do Campo, os vizinhos fizeram uma reclamação e a prática foi proibida.

“Chamava antes, aí o povo começou a reclamar. A gente reza às cinco da manhã, mas não tocava às cinco da manhã. Tocava meio-dia, tocava às 15h e às 20h. Ai o povo [os vizinhos] começou a fazer abaixo assinado, começou a reclamar”, contou Tamara Jarouche. Segundo Fátima, os vizinhos se sentiam incomodados porque o chamado é feito em árabe e eles diziam não poder entender o que estava sendo dito.

Este é apenas um dos contratempos que os brasileiros que são fiéis do Islã enfrentam para fazer a resignação do Ramadã. No Brasil, alguns muçulmanos encontram dificuldades para interromper o trabalho e rezar, contou o jovem xeque Mohamad al-Bukai, da mesquita sunita do Brás. O problema é mais comum entre aqueles que não são autônomos e que não trabalham para outros muçulmanos.

No Egito, onde 90% da população é muçulmana, o governo implementou o horário de inverno para adiantar em uma hora o pôr do sol durante o Ramadã. Nos Emirados Árabes Unidos, um decreto religioso autorizou os operários expostos ao calor a quebrar o jejum para não terem problemas de saúde. Na Arábia Saudita, a jornada de trabalho foi trocada.

Convivência

Para Youssef Jarouche, um dos maiores problemas de fazer o Ramadã no Brasil é que a maioria da população não está de jejum.

“Sinto uma boa dificuldade no Brasil. Porque, como não tem muitos muçulmanos, você vê todo mundo na rua diferente de você, todo mundo comendo, fazendo outras coisas que você não pode fazer”, disse Youssef.

Sua irmã Tamara conta que, atualmente, estuda em um colégio islâmico e, portanto, as dificuldades diminuíram. Mas nem sempre foi assim: quando estudava em outro colégio, ela ficava com outros colegas muçulmanos, sentada na escada durante o intervalo para não ver os outros comendo.

Já Aisha – como prefere ser chamada Jeane Pires Manzolini, que se converteu ao Islã há um ano e meio – afirma que não sente dificuldades para conviver com não-islâmicos, mas que o mais difícil é suportar a sede nos dias quentes e secos. “Sinto falta da água; da água eu sinto bastante”, disse. Atualmente, ela recorre à Justiça para incluir em seu registro o nome islâmico que escolheu, em homenagem à terceira esposa do profeta Maomé.

Purificação

O jejum – um dos cinco pilares do Islã, praticado por cerca de 1 bilhão de fiéis pelo mundo e mais de 1,5 milhão no Brasil – não é visto pelos muçulmanos como punição, mas como uma “purificação espiritual que enfraquece o corpo e fortalece a alma”.

“O jejum serve para que você também pense nas pessoas que não podem comer, que não podem beber, que têm dificuldades para isso. Para que você se compadeça, seja solidário com eles e entenda o que eles estão passando”, afirmou Aisha.

Além do jejum, há o acréscimo de uma oração não obrigatória, o tarawih, que significa " oração dos descansos", feita após a quinta reza do dia, o ichá. As outras orações diárias são fajr, zuhr, asr e maghrib.

Desjejum

O relógio da família muçulmana no ABC volta a tocar pouco depois das 17h. Enquanto Fátima prepara o jantar, pega uma tâmara, come, e grita para avisar a filha que é hora de quebrar o jejum. Fátima, Tâmara e Leila, a caçula de sete anos, esperam os homens para fazer a refeição.

O Ramadã – que, em árabe, significa “ser ardente” – começou no dia 11 de agosto no Egito, na Arábia Saudita, na Indonésia, nos Emirados Árabes Unidos, na Jordânia, na Síria, nos territórios palestinos, no Marrocos, na Argélia, na Tunísia, na Líbia, no Afeganistão, na Malásia e em Cingapura. Os xiitas do Irã e do Iraque começam no dia 12, assim como os indianos e os paquistaneses, que esperam que a lua marque o início do nono mês do calendário islâmico. O Ramadã é considerado sagrado porque se acredita que foi nesse período que o Alcorão, o livro sagrado para o islamismo, foi revelado ao profeta Maomé em Meca.

Evangélicos americanos e o controle chinês de natalidade

Artigo publicado hoje no jornal O Estado de S. Paulo:


Evangélicos dos EUA e a abstinência sexual na China


Autoridades apelam a grupo cristão para conter natalidade

Se tudo correr conforme planejado, até o fim deste ano uma garota em algum lugar da Província de Yunnan da China dirá a seu namorado que não pode fazer sexo com ele. E ele terá de agradecer a um programa de abstinência dos EUA. Neste ano, em escolas de Yunnan, professores estão sendo treinados num currículo de educação sexual criado pela organização cristã conservadora Focus on the Family. O acordo com a secretaria da Educação de Yunnan é um marco para a organização, que vem batalhando há quatro anos para fazer incursões sobre abstinência na China.

É o resultado também de uma estreita confluência de interesses: grupos cristãos evangélicos querem entrar na China. E autoridades chinesas, apesar do ateísmo oficial do país, querem ajuda para controlar o crescimento populacional e lidar com a rápida mudança de valores na sociedade chinesa. Ela experimentou grandes transformações nas últimas décadas, com um firme crescimento das taxas de divórcio e a migração e modernização exercendo uma crescente pressão sobre as famílias, segundo sociólogos. A Focus on the Family tentou vender seus programas orientados para casamento e família como soluções. Mas algumas autoridades do Partido Comunista manifestaram suspeitas sobre os motivos do grupo.

Numa primeira demonstração do currículo de abstinência há dois anos - aplicado à Liga da Juventude Comunista da China em Hangzhou - esperava-se que os adolescentes terminassem o seminário firmando um compromisso de virgindade, o marco do programa de abstinência do grupo cristão. Mas autoridades do governo inferiram, insistindo que os rapazes só deveriam ter compromissos com o Partido Comunista.

"Não tem sido fácil", disse Deanna Go, diretora de campo na China da organização com sede no Colorado. "Tudo é mais demorado aqui." Mas autoridades de Yunnan disseram que a mensagem de abstinência da Focus on the Family repercutiu entre os líderes conservadores da província.

"Atualmente, os adolescentes têm muitos canais diferentes para aprender sobre sexo", disse Ma Lianhong, ex-secretária geral de comunicações de Yunnan, que apresentou o grupo cristão aos líderes provinciais. "Mesmo que não se possa falar nisso, eles aprenderão sobre o assunto silenciosamente, o que é ainda mais perigoso. A abstinência é boa para manter as famílias sólidas e reduzir a taxa de divórcios. E ela vai ao encontro da moral tradicional da China."

Os programas de abstinência provocaram uma polêmica considerável nos EUA. Os críticos citam pesquisas que, segundo eles, demonstram que a abordagem é ineficaz, e argumentam que os esforços deviam ser orientados para educação sobre o sexo seguro. Mas os defensores dizem que a estratégia tem a capacidade de reduzir as taxas de natalidade fora do casamento e as doenças sexualmente transmissíveis.

Na última década, a Focus on the Family obteve um relativo sucesso com seu programa de abstinência em outros países - especialmente em nações majoritariamente muçulmanas, como Egito e Malásia, onde sua marca de abstinência cristã coincide com os ensinamentos do Islã. No mundo, o grupo diz que atingiu aproximadamente 3 milhões de adolescentes.

A China tem se mostrado um mercado difícil de entrar. O sexo pré-marital tornou-se comum em suas cidades desenvolvidas. Especialistas dizem que mesmo em áreas mais rurais os costumes sexuais estão mudando.

As companhias fabricantes de preservativos querem capturar uma parte lucrativa dos 1,3 bilhão que compõem a população chinesa. A ONU, organizações sem fins lucrativos que trabalham com a prevenção da aids e outros grupos estão despejando milhões em programas de sexo seguro. E a abstinência, dizem alguns, é a última coisa nas mentes dos adolescentes chineses.

"É difícil convencê-los a frequentar nosso treinamento", disse Qian Honglin, fundadora de uma organização sem fins lucrativos que trabalha com a Focus on the Family em Pequim. "Seus pais querem que eles venham, mas os jovens adultos não escutam as mães. Mas depois que eles entram é fácil perceberem os benefícios."

Antes do acordo de Yunnan, o programa era ensinado sobretudo em seminários ocasionais por organizações humanitárias associadas em quatro cidades importantes. A abordagem gradativa atingiu somente 9 mil alunos. O novo acordo de Yunnan promete uma exposição mais ampla. Apenas na semana passada, 512 professores da metade dos distritos escolares da província foram treinados para ensinar o currículo em seminários patrocinados pelo governo.

Como foi exatamente então que a Focus on the Family vendeu seu programa ao governo chinês? Como a maioria das coisas na China, foi preciso "ter as conexões certas". Em 2006, autoridades de Yunnan que tinham ouvido pelo rádio alguns comentários do fundador da Focus on the Family, James Dobson, procuraram se informar sobre a possibilidade de transmiti-los em sua estação. Isso levou líderes provinciais ao Colorado durante uma viagem aos EUA em 2007.

Para trabalhar na China, entretanto, a Focus on the Family teve de fazer o seu próprio compromisso: nada de material politicamente sensível, e nada de religião. O grupo evangélico diz que está cumprindo estritamente esses termos. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK


Um ateu diante da morte

Coluna de Alvaro Pereira Junior na Folha de S. Paulo de hoje:


Um ateu diante da morte


VIVO ELOGIANDO o Christopher Hitchens. Agora ele vai morrer.

Hitchens, jornalista e ensaísta britânico, é o chamado espírito de porco. Ele pensa ao contrário do senso comum.

Chegou ao extremo de escrever um livro contra a Madre Teresa de Calcutá.

Para ele, a santa freirinha mantinha suas casas de caridade em condições precaríssimas por mero sadismo, já que recebia toneladas de doações em dinheiro e poderia perfeitamente montar hospitais de primeiríssima linha.

Mas eu ia dizendo: Hitchens vai morrer. Tem câncer de esôfago em estado avançado. A doença já se espalhou pelo corpo. Foi detectada tarde demais.

Ele está careca e muito magro, consequências da quimioterapia.

O fato de Hitchens ter escrito um livro chamado "God Is Not Great" ("Deus Não É Grande") e de ser ateu convicto não ajuda muito no que se chama de "consolo espiritual".

Vale muito a pena ver uma entrevista que ele deu há pouco para o repórter Anderson Cooper, na CNN.

Não se faz de vítima, muito pelo contrário. Enquanto o normal, diante de algo tão grave, é perguntar: "Por que eu?", Hitchens indaga: "Por que não eu?".

E explica: o pai morreu da mesma doença. O que não impediu Hitchens de não dar a mínima para a própria saúde, beber e fumar como um desesperado.

Quem acompanhou os passos dele na feira literária de Paraty, em 2006, se lembra de que ele era o último a sair das festanças, zureta e bêbado como um porco.

Agora, ele se confronta com o fim da vida.

Lamenta estar nesse estado tão cedo, aos 61 anos (o pai morreu aos 79). Gostaria, pelo menos, de ver os netos crescerem.


Veja a íntegra da entrevista de Christopher Hitchens a Anderson Cooper na página da CNN. Em inglês, obviamente.

domingo, 5 de setembro de 2010

Tragicomédia jurídica

Na carreira profissional, há situações que um advogado enfrenta que não se enquadram em nenhum manual jurídico, e fogem completamente da estressante rotina cotidiana, às vezes numa mescla de comédia com tragédia. Muitos anos atrás, aconteceu um desses fatos inusitados comigo. Tinha sob minha responsabilidade várias ações de cobrança de um determinado banco, algumas com quantias mais vultosas, outras com valores pequenos. Um desses casos menores era de um contador humilde, a quem chamarei de “Francisco” para preservar sua verdadeira identidade. Ele tinha um pequeno escritório no centro de São Paulo e vivia com muitas dificuldades. Quando ele era apenas mais um nome na lista de devedores, movi a ação cobrando-lhe um valor em torno de R$ 4.000,00. Francisco constituiu advogado para defendê-lo e o processo tomou seu curso normal, até que o juiz pediu que o advogado dele se manifestasse sobre um determinado ponto. O prazo transcorreu e nada do advogado se manifestar. O juiz reiterou o despacho, abrindo novo prazo para o causídico, mas novamente ele preferiu o silêncio. O juiz, provavelmente, se irritou com o – digamos - pouco caso da parte e proferiu imediatamente uma sentença irada, condenando Francisco em todas as formas possíveis de multas e correção monetária, acrescentando verbas que eu sequer havia pedido inicialmente. Imaginei que, como acontece em 99,99% dos casos, a parte contrária fosse recorrer, mas não houve apelação, pelo que o processo transitou em julgado rapidamente.

Ainda irritado com o silêncio da parte perdedora, o juiz proferiu um despacho determinando que o banco executasse a dívida o mais rápido possível. Só aí fui ver o tamanho que a dívida tinha tomado depois da condenação do meritíssimo. Com todas as multas e correções, o valor devido agora somava mais de R$ 20.000,00. Aumentara 5 vezes em menos de 1 ano. Não querendo melindrar ainda mais o nobre julgador, tratei de peticionar rapidamente. Alguns dias depois, recebo a ligação de Francisco, na primeira ocasião que tive oportunidade de falar com ele. Sabedor da bola de neve em que havia se transformado aquela dívida, tratei de atendê-lo gentilmente:

- Pois não, Francisco!
- Oi, Dr. Hélio. Eu queria falar com o senhor sobre o caso do Banco X, acabei de receber o mandado de execução de um oficial de justiça aqui.
- Pois é, Francisco, infelizmente aconteceram algumas coisas neste processo e o seu advogado não respondeu os pedidos do juiz, nem recorreu, por isso o juiz ficou muito bravo e a dívida ficou deste tamanho...
- Sabe o que é, Dr. Hélio... é que o meu advogado.... MORREU!

Engoli em seco, tapei o fone e tive que segurar o riso causado pela surpresa da notícia inusitada. Depois de alguns constrangedores segundos, disse-lhe:

- Francisco, vamos fazer o seguinte. Eu vou analisar o caso, ver o que dá pra fazer e te ligo em seguida, me aguarde alguns minutos que eu já te ligo...

Desligado o telefone, saí pelo corredor do escritório dando gargalhadas, mal podendo me conter. Os colegas de trabalho logo quiseram saber a razão da piada, e quando eu lhes contei o ocorrido, todos tivemos a mesma reação e nos pegamos rindo de um caso que envolvia a morte de um colega, mas aí percebemos que não era a morte dele que provocava o humor negro – afinal, nem o conhecíamos ou tivéramos qualquer problema com ele -, mas da ira injustificada do juiz que havia se indignado com um advogado que não pudera defender seu cliente porque estava morto.

Depois de um tempo pensando nas questões processuais, éticas e filosóficas, afinal a partir dali teria que ser o advogado informal das duas partes para se atingir o valor maior do direito, que é a Justiça. Liguei para o banco e perguntei qual o máximo de desconto que eles podiam dar naquela dívida para pagamento à vista, e eles se contentavam com o valor de R$ 2.000,00. Em seguida, liguei para o Francisco e lhe disse:

- Francisco, não sei como você vai fazer, mas trate de arranjar R$ 2.000,00 em dinheiro e me traga amanhã aqui no escritório, que o banco aceitou este valor.

Ele imediatamente concordou e apareceu com o dinheiro no dia seguinte. Não lhe cobrei honorários e expliquei que eu simplesmente iria desistir da ação, já que não podia comunicar o juiz da morte do advogado, sob pena dele, além do constrangimento e do sentimento de culpa, querer anular todos os atos desde a data do óbito, o que levaria o coitado do Francisco a ter que contratar outro advogado e sujeitar-se a novas despesas e a um novo processo, o que certamente pioraria a sua já combalida situação financeira. À exceção do juiz e do advogado morto, todas as partes estavam satisfeitas: o banco, o devedor e eu. Por fim, expliquei-lhe outra razão que me levou a escolher o caminho da desistência da ação:

- É que nesta altura do processo, eu só posso desistir da ação se o seu advogado não discordar. Como nós sabemos que ele não vai dizer nada, só não dará certo se o juiz receber alguma mensagem do além...

Até hoje o advogado não discordou nem concordou, mas o processo, enfim, foi pro beleléu...

Religiosidade ultraortodoxa e tecnologia moderna

Notícia da Gazeta do Povo de Curitiba (PR):


Sem-tecnologia dão um jeitinho para sobreviver


Grupos religiosos que recusam modernidades contratam gente de fora para usar internet e inovam em adaptações

Helena Carnieri

Um fazendeiro da Pensilvânia é condenado a passar 90 dias na cadeia por se recusar a instalar um sistema de esgoto na “casinha” da escola que dirige. Em Israel, um grupo de rabinos proíbe seus se­­guidores de surfar na internet, mas desenvolve um buscador que respeita rígidas regras: não mostra qualquer conteúdo sensual e trava aos sábados. Grupos como os amish norte-americanos e os judeus ultraortodoxos são exemplos excêntricos de pessoas que re­­jeitam a tecnologia, mas dão um jeito de se beneficiar dela.

A recusa em adotar modernidades pelas comunidades amish, formadas por descendentes de suíços anabatistas do século 16, foi retratada no filme A Teste­­mu­­nha, com Harrison Ford (Peter Weir, 1985).

A professora de Ciências Hu­­manas Ambientais da Univer­­si­­dade do Missouri Jana Hawley precisou se adaptar a essa realidade. Para a pesquisa de seu doutorado, ela passou um ano entre os amish da cidade de Jamesport, no estado do Missouri. “Fiz pão em um forno a lenha, lavei roupas em uma máquina movida a diesel, doces em um fogão a querosene e sidra em uma prensa manual” relata em artigo. Mas ela também se admirou com inovações do grupo, como lamparinas instaladas em lustres.

Em conversa com a Gazeta do Povo, Hawley contou que outro trabalho para o qual foi muito requisitada foi o de motorista: os amish da comunidade com a qual fez amizade não podem dirigir nem possuir carros, mas pegam carona de bom grado. “Fiz 55 mil milhas (88,4 mil quilômetros) na­­quele ano”, recorda.

A aceitação desta ou daquela inovação foi justamente o motivo das divisões entre o grupo original que migrou da Suíça para os EUA. Hoje os 300 mil membros de co­­munidades amish espalhados pe­­lo campo norte-americano têm di­­ferentes níveis de tolerância a carros, motores para trator e roupas moderninhas. Algumas co­­mu­­nidades se espalharam até o Canadá e o México.

“Em alguns quesitos, eles vi­­vem como no século 18, mas em outros estão como em 1960”, disse Jana à reportagem. A lógica por trás da vida amish é estar separado do mundo, conforme interpretação do versículo bíblico que diz: “Não vos conformeis com este mundo” (Romanos, 12:2).

Motivação semelhante, mas que remonta ao Velho Testa­­men­­to, têm grupos ultraortodoxos do judaísmo, que recusam diversos tipos de tecnologia. Restrições que foram contornadas via inovação. A internet “kosher” (termo que designa a alimentação preparada de acordo com os preceitos judaicos) é um exemplo, e serve pa­­ra informar sobre produtos e serviços em Israel sem o “risco” de cair em páginas com pornografia ou violência. Buscar palavras como “televisão”, “rádio” ou “má­­quina” no site www.koogle.co.il, porém, é perda de tempo.

Os ortodoxos também criaram formas de usar a eletricidade no sábado, dia sagrado, sem ferir a lei judaica, e, por incrível que pareça, têm feito avançar as pesquisas de teste genético. Casais em que o ho­­mem e a mulher são portadores de genes ligados a alguma doença são desencorajados a ter filho.

Características comuns entre as comunidades amish e ultraor­­todoxa são a recusa em servir ao Exército e o emprego de mão de obra externa ao grupo para “ma­­ni­­­pu­­lar” tecnologias indesejadas. Tam­­bém, o tino comercial. “Os amish andam em carroças bem simples, mas fazem modelos bem sofisticados para vender. É nelas que os turistas dão voltinhas no Central Park de Nova York”, conta Jana.

sábado, 4 de setembro de 2010

Isaías e os "profetas" monetários

O culto ao dinheiro e às riquezas que hoje caracteriza – lamentavelmente – muitas igrejas evangélicas é completamente estranho ao ensino bíblico da boa nova. Em suas “liturgias” modernosas existe uma convocação ao “sacrifício” de dinheiro para se obter os favores de Deus, como se o Todo-Poderoso fosse obrigado por um contrato esotérico a prover de bens os Seus filhos que lhe “emprestam” dinheiro, sendo a prosperidade um sinal visível da Sua salvação. Nada mais profano e antibíblico. Este materialismo se enraizou de tal forma em muitas igrejas, mediante discursos cheios de chavões, mantras e palavras de efeito, que a leitura da Bíblia é desestimulada, justamente para que os ouvintes não parem para pensar na loucura que vivem e atribuem a Deus.

Se não bastasse o ensino neotestamentário, de que “não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo” (1 Pedro 1:18-19), o próprio Velho Testamento, hoje invocado para cerimônias e votos sacrificiais judaizantes, aponta o caminho da salvação gratuita pelas palavras daquele que é considerado o profeta messiânico por excelência: Isaías. O grande capítulo do seu livro é o 53, onde ele prefigura a vinda do Messias - o Servo Sofredor - para salvar o Seu povo, e pouco antes o profeta alerta: “Porque assim diz o Senhor: Por nada fostes vendidos; e sem dinheiro sereis resgatados” (Isaías 52:3). Não por acaso, em seguida vem a ênfase na pregação do evangelho - “Quão formosos sobre os montes são os pés do que anuncia as boas-novas, que proclama a paz, que anuncia coisas boas, que proclama a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!” (52:7) –, o anúncio do Messias (cap. 53), coroando a mensagem antecipada (e gratuita) do evangelho com o clamor de Deus: “ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão! e o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e deleitai-vos com a gordura” (55:1-2). Todo o restante do capítulo 55 segue nesta toada, a do perdão (e da vida) oferecido de graça por Deus, sem qualquer necessidade de dinheiro.

Ainda dá tempo dos seguidores dos “profetas” monetários voltarem a ler a Bíblia.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A morte pede carona

e se dá mal nessa propaganda da Mercedes:

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