sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Ó-pa-í-ó!

Estréia hoje na Globo, o seriado Ó-pa-í-ó... mais uma chance para o grande público finalmente descobrir que o Lázaro Ramos é apenas mais um canastrão...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Como enlouquecer um estádio...

Os tempos mudam...



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve um dia,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se a cada dia,
Outra mudança faz de maior espanto,
Que não se muda já como soía.


Luís de Camões, soneto 45

Eclesiastes - capítulo 11


Leitura anterior: Eclesiastes - capítulo 10

Eclesiastes 11 é o menor capítulo do livro. Nele, o Pregador inicia a conclusão de seu pensamento, e o faz de uma maneira muito bela, chamando a atenção para o fato de que vale a pena viver. 

Se não concluísse de uma maneira positiva, restaria a impressão de que nada vale a pena na vida, quando ele pensa exatamente o contrário. 

Talvez Fernando Pessoa tenha captado, inadvertidamente, o "espírito" da conclusão do Pregador: "tudo vale a pena se a alma não é pequena". 

É este o sentido dos 3 primeiros versos do capítulo 11, chamando a atenção de que trabalhar ajuda a ter rendimentos para ajudar o próximo. 

"Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás" (v. 1) é um belo versículo que algumas vezes é usado fora de contexto, geralmente para dízimos e ofertas, como se fosse algum negócio que pudesse ser realizado com Deus. 

É, sim, um versículo sobre liberalidade, sobre desprendimento, sobre repartir com os outros aquilo que se tem (v. 2), sem esperar nada em troca (v. 6), já que ninguém sabe o dia de amanhã. 

Os tempos são instáveis, imprevisíveis (v. 3), e não devemos ficar parados, apenas observando (v. 4). Os desígnios de Deus também são imprevisíveis, mas boa e oportuna sempre é a Sua providência (v. 5). 

Assim, podemos entender melhor o que significa lançar o nosso pão sobre as águas. Pão é sempre visto na Bíblia como um símbolo do sustento, do cuidado do Pai, do pão nosso de cada dia, fruto do nosso trabalho, e remete à primeira conseqüência do pecado original, quando Deus falou a Adão: "Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás" (Gênesis 3:19). 

O suor do nosso trabalho não é em vão. Vaidade é reter o pão na vã confiança de que a nossa vida depende dele. 

O maná que caía no deserto durava apenas um dia, exceto o do 6º dia, que podia ser aproveitado no sábado (Êxodo 16:25-26). 

De novo, a providência divina está em evidência aqui. Lançar o pão sobre as águas significa, no contexto de Eclesiastes 11, não retê-lo, mas usá-lo para ajudar ao próximo, para repartir aquilo que não só o nosso trabalho, mas também a providência de Deus, nos permitiu ter e comer. 

E o próprio Deus não reteve Seu Filho, mas o enviou a nós como o "pão da vida" que desceu dos céus para nossa salvação (João 6:33-51).

A idéia básica de Eclesiastes 11:1 é exatamente este lançamento de uma nau aos mares do mundo, ao desconhecido, na esperança de que, de alguma forma, depois de muito tempo, a encontraremos de novo. 

A Bíblia do Peregrino traduz este versículo assim: "Ainda que envies o teu trigo pela superfície do mar, no fim do tempo o recuperarás", e comenta sobre os seis primeiros versículos:

Se Coélet aceita e aconselha algo, é usufruir do fruto do próprio trabalho. Logo, é preciso trabalhar para obter este fruto. Pois bem, a correspondência entre trabalho e resultado não é mecânica, a proporção não é matemática, o êxito não é seguro. Então, não vale a pena trabalhar?
A insegurança é faca de dois gumes: um empreendimento arriscado – o comércio marítimo – tem êxito, um empreendimento normal se expõe a múltiplos riscos; as nuvens fazem a árvore crescer, o vento a derruba, nuvens e vento seguem suas leis, entre firmes e caprichosas. O marido não sabe exatamente quando a mulher vai conceber ou como a vida entra no feto: como vai saber o plano misterioso de Deus que dá e sustenta toda a vida? A conclusão de Coélet é positiva: deve-se trabalhar enfrentando o risco e com esperança.


Desta maneira, o Pregador recupera e dá uma visão mais abrangente daquilo que já havia escrito em Eclesiastes 8:15. "exaltei eu a alegria, porquanto para o homem nenhuma coisa há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se; pois isso o acompanhará no seu trabalho nos dias da vida que Deus lhe dá debaixo do sol". 

O fruto do seu trabalho não deve ficar só para si, mas deve ser doado, "lançado" aos outros com alegria, pois, segundo Paulo lembra, "Deus ama ao que dá com alegria" (2 Coríntios 9:7). 

E assim, é formado um círculo com Eclesiastes 2:26, onde se diz que "Deus dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dar àquele que agrada a Deus". 

Se o pecador, o ímpio, ajunta para dar involuntariamente ao justo, este deve ajuntar o que recolheu com o fruto de seu trabalho e redistribuí-lo voluntariamente aos outros, não apenas o rendimento, o salário, o dinheiro, mas o seu tempo, o seu cuidado, a sua disposição, sabendo que, em tudo, Deus está no comando, e fará prosperar aquilo que lhe apraz, e recompensará a cada um segundo a Sua vontade e providência. 

Aproveitemos o hoje, pois "doce é a luz, e agradável aos olhos ver o sol" (v. 7). No fundo, isso é tudo o que temos, o momento presente, o agora, como lembra o escritor de Hebreus (3:13) que nos aconselha a nos exortarmos "uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de nós se endureça pelo engano do pecado", e "pecado", na visão do Pregador, significa dar ao trabalho, às necessidades imediatas, enfim, à existência material um valor tal que desvie nossos olhos do Criador, e não nos prepare nem nos console nos dias de trevas, que são muitos (v. 8), pois, finaliza, "tudo quanto sucede é vaidade".

É neste, digamos, "espírito", que o Pregador se dirige aos jovens agora, aconselhando-os a se alegrarem na juventude, recreando o coração nos dias da mocidade, sempre tendo em mente que Deus pedirá contas de todas essas coisas, naquele que é um dos versículos mais conhecidos de Eclesiastes (11:9). 

É interessante perceber que o Pregador não aconselha uma vida de reclusão, de ascetismo, ou de completo isolamento, tanto que no versículo seguinte (10), chama a atenção para que se evite o desgosto, a depressão, a dor, mas se busque a alegria da vida com responsabilidade, sabendo que até a primavera da vida, que é a juventude, também é vaidade, preparando o seu leitor/ouvinte, principalmente jovem, para o conselho maior que dará no primeiro versículo do capítulo 12: "Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer".



Leitura seguinte: Eclesiastes - capítulo 12


terça-feira, 21 de outubro de 2008

Faça musculação em casa...

se você tiver coragem de pagar um mico desses...
(de preferência acompanhado de paramédicos e um desfibrilador)

sábado, 18 de outubro de 2008

Hipocrisia jornalística

O Painel de Leitor da Folha de S. Paulo de hoje (acesso aqui para quem tem UOL) traz a carta do leitor Evaldo Novelini, que demonstrou a contradição do psicanalista Contardo Calligaris, no melhor estilo "Esqueçam o que eu escrevi" inaugurado pelo FHC. Pêgo com a boca na botija (e as calças curtas), o psicanalita saiu-se com uma resposta ridícula; parece mesmo que ele está em outro mundo, a que ele chama de "ideal":

"Sugiro um tema para o próximo artigo do psicanalista Contardo Calligaris: hipocrisia.

No artigo "Marta com McCain" (Ilustrada, 16/10), ele classifica como sórdida a tentativa de Marta Suplicy de atacar, de forma sub-reptícia, a opção sexual do prefeito Gilberto Kassab.

O texto indignado na Folha nem parece ser da mesma lavra do homem que, dois meses atrás, disse à revista "Imprensa" (edição número 237, agosto de 2008) que concordava com a lógica de expor, durante as campanhas eleitorais, a vida privada dos candidatos: "Não estamos falando apenas da divulgação do imposto de renda, mas inclusive com quem ele transa. Isso interessa a todos a partir do momento que é candidato. (...) Nesse sentido, acho relevante saber se o cara transa com o ascensorista no 17º andar"."

EVALDO NOVELINI, jornalista (Mogi das Cruzes, SP)

Resposta do colunista Contardo Calligaris - Claro, no meu mundo ideal, não haveria nada a esconder, mesmo; a ponto que as opções seriam indiferentes. Agora, a campanha de Marta agiu contando com o fato de que estamos em outro mundo, em que a sexualidade poderia ser fonte de vergonha e descrédito. Isso, sim, é vergonhoso.


Ainda que Calligaris não seja exatamente um jornalista, mas colunista da Folha, este episódio não deve nada à diferença de abordagem praticada pelo jornal em questão. Valia tudo para massacrar e desqualificar a Marta, quando esta era prefeita e candidata à reeleição em 2004, inclusive explorar à exaustão o seu divórcio. Agora, ainda que a suposta "ofensa" ao Kassab seja "fichinha" perto dos adjetivos que foram usados contra a Marta, chamada de "Dona Marta e seus dois maridos", o que rendeu o "Dona Marta" que o Kassab hoje adora usar e a Folha finge não perceber, simulando horror com uma insinuação de homossexualidade, que está muito mais na ideologia (ou no "mundo ideal") de quem a ouve do que a mensagem propriamente dita. Típico de um jornal que há muito tempo deixou de ter o rabo preso com o leitor... isso, sim, é vergonhoso.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

The subprime crisis, explained

Ainda no campo da economia, em fevereiro deste ano, o programa humorístico Bremner, Bird & Fortune, do Channel 4 da Inglaterra, já adiantava, muito satiricamente, a atual crise do subprime, no melhor estilo do humor britânico:



em inglês, infelizmente sem legenda

Papagaios de pirata

Na atual crise financeira dos chamados "mercados", pelo menos algo se aproveita: o sistema se desnuda e começamos a perceber como ele funciona. Chama a atenção a opinião de "economistas" nos programas especializados na matéria. Trata-se, geralmente, de homens (na maioria) e mulheres geralmente nos seus 30, 40 anos de idade, saídos da classe média (mais para baixa do que alta), que fazem o seu curso de Economia, seu estágio na bolsa, e vão trabalhar em corretoras e consultorias do ramo. Aí, começam a dar as suas opiniões, cumprindo fielmente o cerimonial e o jargão do business. Perpetuam, assim, o jogo do poder, em que o grande capital é o que realmente interessa (e comanda). Compreende-se que eles estão apenas "defendendo o seu", assegurando o seu trabalho e o pão de cada dia, mas não deixa de ser tragicômico vê-los como a mão e a boca visível do mercado, repetindo incessantemente a mesma ladainha ao deus Mercado, voltados para Wall Street, e sempre dispostos a garantir a máxima privatização dos lucros e a correspondente socialização dos prejuízos.

sábado, 11 de outubro de 2008

Sofrimento, o megafone de Deus

"O Espírito humano não tentará entregar a sua vontade própria enquanto tudo parecer estar em ordem com ela. Agora, tanto o erro quanto o pecado têm essa característica de que quanto mais profundos, menos as suas vítimas suspeitarão da sua existência; trata-se de maldades mascaradas. O sofrimento é uma maldade sem máscara, inconfundível; toda pessoa sabe que algo está errado quando está sendo machucado. [...] Contudo o sofrimento não é só imediatamente reconhecível, mas também um mal impossível de se ignorar. Podemos até deitar a cabeça satisfeitos apesar dos nossos pecados e de toda a nossa estupidez; qualquer pessoa que já tenha observado glutões engolindo as mais exóticas especiarias, como se não soubessem o que estão comendo, admitirá que é possível ignorar até mesmo o prazer. Mas o sofrimento insiste em que nos ocupemos dele. Deus sussurra nos nossos prazeres, na nossa conversa e por meio da nossa consciência, mas grita por meio do sofrimento. O sofrimento é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo."

(C. S. Lewis, em "O Problema do Sofrimento", transcrito em "Um Ano com C. S. Lewis – Leituras Diárias de suas Obras Clássicas", Ed. Ultimato, 2005, p. 317)

sábado, 4 de outubro de 2008

Leituras cristãs - 4

"O Caminho do Claustro" é o título do livro escrito por Kathleen Norris, em que ela relata boa parte da sua experiência como oblata (uma espécie de visitante leiga) num mosteiro beneditino norte-americano. O interessante é que Norris tem formação presbiteriana, e, embora não relate nenhuma conversão ao catolicismo, ela faz essa ponte entre as duas grandes tradições cristãs ocidentais - protestantes e católicos - de uma maneira muito tranqüila, serena, sem se preocupar com aquilo que as divide, mas se concentrando no que as une, que é a oração, a meditação, a contemplação, que podem ser resumidas como uma prática de adoração a Deus. Desta maneira, ela nos brinda com reflexões profundas e inspiradoras sobre a condição humana, a submissão a Deus e a prática da meditação e do silêncio num mundo que vive em pânico, convidando-nos a checar as nossas prioridades, como cristãos. Norris é freqüentemente citada por Philip Yancey em seus livros, e realmente "O Caminho do Claustro" merece ser lido por quem quiser encontrar inspiração para desacelerar o seu ritmo e dar valor ao que realmente tem valor na vida. Destaco um trecho belíssimo do livro:


MEU PRIMEIRO PAI

(Kathleen Norris, em “O Caminho do Claustro”, Ed. Nova Era,
págs. 65 a 69 e 73)

“A capacidade negativa...
(é ser) capaz de estar no meio de
incertezas, mistérios, dúvidas, e
não teimar em recorrer
à realidade ou à razão.”
(John Keats, poeta inglês, 1785-1821)


Uma coisa estranha acontece quando eu entro, como artista convidada, numa turma de primeiro grau, na qualidade de artista em visita, para ler poesia e estimular as crianças a escreverem. É algo menos relacionado a mim, como indivíduo, do que ao poder da poesia, podendo ser, também, um efeito colateral do simples fato de que conheço muito pouco as crianças. Vou ao seu encontro como um quadro-negro esperando o giz. Descobri que, invariavelmente, não importa se a escola é pobre ou rica, no campo, na periferia ou na cidade, os garotos que o professor classifica como “bons alunos” serão capazes de escrever poemas e contos aceitáveis mas sem nada de extraordinário. Os poemas notáveis vêm do lado torto, isto é, dos maus alunos, aqueles que os professores costumam criticar por não participarem das atividades da turma.

Um dia, quando estava com alunos de quinta série de uma escola num bairro operário na Dakota do Norte, olhei de relance para a folha de um menino e vi as palavras “Meu Primeiro Pai”. Percebi que algo muito pessoal e profundo devia estar acontecendo. Não me lembro mais do que pedira que escrevessem, mas sei que não era nada tão invasivo como “faça um poema sobre alguém da sua família”. Era mais provável que tivesse sido um exercício livre, utilizando metáforas. Apesar da possibilidade de escrever sobre qualquer coisa, este menino escolhera falar sobre seu “primeiro pai”, e, embora sem interferir, conversei várias vezes com ele. Sua reação foi de surpresa e satisfação, quando mostrei que suas comparações eram tão boas que o tinham colocado, de imediato, em profundo contato com a metáfora. Ele escrevera sobre o pai:


“Eu me lembro dele,
como Deus em meu coração, eu me lembro dele no meu coração
como as nuvens lá em cima,
e sorvete de morango e bananas
quando eu era pequeno.
Mas, do que eu me lembro mais
é do seu amor,
grande como o Texas,
quando eu nasci.”


O menino me disse, cheio de orgulho, que nascera no Texas, mas nada falou a seu respeito. Sua professora, igualmente surpresa, foi quem me deu mais detalhes. Ela me contou coisas que não me surpreenderam, em função da minha experiência como artista convidada:

- Ele não é um bom aluno, e embora se esforce, nunca fez nada assim antes.

Em compensação, também me disse que o menino jamais vira o pai; o sujeito sumira da cidade no dia de seu nascimento.

Por incrível que pareça, foi gratificante para mim saber disso. Bastara a presença de um poeta em sala, dando aulas sobre comparações e metáforas (oficialmente, para justificar a minha presença em termos reconhecidos pelo sistema educacional, era isso que eu “ensinava”), para permitir a este menino contar aos adultos em sua vida – sua professora, sua mãe, seu padrasto – algo que eles precisavam saber, que um “primeiro pai” é figura de realce em sua emoção. Como Deus em seu coração, diz ele em seu poema, revelando o íntimo de sua alma.

...

Todavia, são os outros alunos, os maus alunos, os marginalizados, geralmente dotados de uma forma de inteligência que não costuma ser apreciada na escola, os que me escutam com mais atenção. São estes meninos, para os quais o abandono e a frustração são a norma na escola e, de uma maneira geral, na vida – quem sabe, na noite anterior o namorado da mãe, bêbado, não cometeu algum abuso contra ele -, que se sentem na poesia como os patos na água. Às vezes, como aconteceu com aquele aluno da quinta série, eles descobrem que adotar uma voz poética pode dar ensejo a uma revelação. É como se, pela primeira vez na vida, estivessem livres para falar com suas próprias vozes. É sempre um prêmio – para o professor, para a turma e para mim – quando uma criança nos leva ao íntimo da poesia. Aquele garoto falou diretamente à nossa própria solidão e exílio e fez recordar que o nosso mundo cotidiano é mais misterioso do que imaginamos: quem iria imaginar que um menino comum, numa turma comum na Dakota do Norte, carregava consigo, o tempo todo, um amor e uma perda tão grandes quanto o estado do Texas?

...

O menino que escreveu sobre seu pai ausente tinha uma história a contar. Seu coração estava exilado, e a natureza catalisadora da poesia o ajudou a voltar para casa. E o catalisador da fé? Alimentando-se tanto da razão quanto de nossa habilidade para a capacidade negativa, a fé pode ajudar-nos a ver que nossas experiências mais valiosas são sempre aquelas que deixam em nós, como disse o escultor e crítico Edward Robinson, “um lembrete inconsciente... 2 mais 2 são iguais a 5”, experiências que nos obrigam a ter em mente que nosso relacionamento com os outros e com o mundo são mais misteriosos do que aceitamos admitir. No Universo feito por Deus, o mundo real a que chamamos lar, o amor é maior do que o Texas, e maior até do que a morte, e 2 mais 2 podem ser iguais a 0, a 11, ou mesmo a 4.

Farsas políticas

Falar de política no Brasil seria algo cômico, não fosse trágico. Amanhã teremos eleições municipais em todo o país, e longe dos grandes centros é mais fácil observar alguns "fenômenos" que revelam o quanto ainda nos falta para termos governos sérios. Em geral, as cidades pequenas ainda são dominadas pelos mesmos velhos coronéis de um século atrás. As caras (e alguns sobrenomes) mudaram, mas as práticas ainda são idênticas. Ao redor de uma determinada figura que, pelo seu poderio econômico, se sobressai nas comunidades menores, gravita uma legião de puxa-sacos que dependem do seu coronel para receber o seu minguado salário todo mês. A Prefeitura Municipal é, invariavelmente, o maior empregador, e indispor-se com o mandatário de plantão equivale a um passaporte para a desgraça. Muitas vezes, esses coronéis são também corruptos, e constroem seus pequenos impérios às custas das verbas públicas. Na chamada "cara dura", se apropriam dos recursos que seriam destinados à saúde e à educação, por exemplo. Entretanto, fazem questão de passar uma imagem de decência, honestidade e desapego ao material, ainda que isso fique apenas no discurso, não porque têm uma queda inevitável para a mentira. É que eles realmente precisam de um consolo, que é acreditar que não são corruptos, e a mentira, muitas vezes repetida para si mesmos, termina por travestir-se de verdade. Nesta ilha da fantasia particular, os seus cupinchas também são de grande serventia, porque participam desta farsa coletiva que é colocar o coronel acima do bem e do mal, de preferência com uma caneta na mão para nomear seus apaniguados que perpetuam a lenda da sua honestidade. Esses, por sua vez, comportam-se como uma torcida de futebol. Torcem pelo seu deus nessa terra como se fossem os mais apaixonados e doentios corinthianos ou flamenguistas. Esquecem-se facilmente de que política é algo muito mais sério, e suas conseqüências afetam muito mais gente do que uma simples partida de futebol. Assim, a santa e pura democracia se embrenha nesse matagal das misérias e das vaidades humanas, e, diante de tanta promiscuidade, não lhe resta outra alternativa senão, envergonhada, exilar-se para - talvez - nunca mais voltar. Amanhã à noite, o astronauta de plantão na estação orbital será a testemunha privilegiada do clarão dos fogos que espoucarão pelo nosso território. Imaginará ele, provavelmente, que ganhamos uma Copa do Mundo extemporânea, quando na verdade, estaremos cavando - um pouco mais - o nosso lamentável rebaixamento à mediocridade.

sábado, 27 de setembro de 2008

O cristão imperfeito, segundo Calvino

5. A VIDA CRISTÃ NÃO IMPLICA PERFEIÇÃO, INATINGÍVEL NA PRESENTE CONDIÇÃO HUMANA, PORÉM RECLAMA ESFORÇO, DILIGENTE E CONTÍNUO, DE BUSCÁ-LA, DIA APÓS DIA, SEM DESFALECIMENTO

Não exijo que o viver do homem cristão nada exale senão o evangelho absoluto, o qual, no entanto, não se deve exatamente só almejar, mas também necessário se faz intentar. Contudo, não exijo perfeição evangélica em moldes tão estritos que não se possa reconhecer como cristão aquele que não a haja ainda atingido plenamente. Se esse fosse o caso, seriam todos excluídos da Igreja, uma vez que ninguém se acha que não esteja tão afastado dela por mais que haja adiantado, e contudo não há razão para que sejam rejeitados.

Então, o que fazer? Esteja fixado diante dos olhos este alvo, rumo ao qual se dirijam todas as nossas ações e rumo a ele lutemos e nos esforcemos até chegarmos. Pois não é lícito tentar partilhar com Deus dessas coisas que estão prescritas em sua Palavra, acatando parte delas, e de teu arbítrio desconsiderando outra parte. Ora, por toda parte ele recomenda, em primeiro lugar, a integridade como a parte capital de sua adoração [Gn 17.1; Sl 41.12], termo que significa a sincera candidez de espírito que careça de dolo e fingimento, à qual se contrapõe o coração dobre, como se estivesse dizendo que o princípio do bem viver é espiritual, quando o afeto interior do espírito se devota a Deus, sem fingimento, para cultivar-se a santidade e a justiça. Mas, uma vez que não sobeja a ninguém tanta força, neste cárcere terreno do corpo, que se possa avançar com a justa celeridade da corrida, ao contrário tão grande fraqueza oprime a grande maioria que, vacilando e claudicando, até mesmo rastejando no solo à frente se movem com dificuldade, avancemos, cada um segundo a medida de sua reduzida capacidade, e prossigamos a jornada iniciada. Ninguém vagueará tão desafortunadamente que não avance cada dia ao menos um pouco de caminho.

Portanto, não cessemos de progredir no caminho do Senhor, avançando incessantemente, não nos desesperando ante a insignificância de êxito alcançado. Ora, por mais que o êxito não corresponda ao desejo, contudo, o labor não foi perdido quando o dia de hoje supera o de ontem, contanto que, com sincera candidez, olhemos firmemente para nosso alvo e aspiremos alcançar nossa meta, não nos lisonjeando com adulação, nem condescendendo a nossas más disposições; ao contrário, em esforço contínuo proponhamo-nos a ser cada dia melhores até que alcancemos a perfeita bondade que devemos buscar toda nossa vida. Conquistaremos essa perfeição quando, despojados da debilidade de nossa carne, sejamos plenamente admitidos na companhia de Deus.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, pp. 159-160)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

A maior riqueza do mundo

Em pouco tempo o dia se tornara noite. A chuva forte castigava a cidade, e juntamente com o barulho dos automóveis, abafava os pequenos sons produzidos ali, naquele momento. Havia um bom tempo que aquela cidade não recebia uma chuva tão forte, havia tempo que seus cidadãos não paravam para pensar sobre a força da natureza. Agora, eram obrigados, pois tudo que tinha vida naquela cidade poluída e fria, se escondia. Enquanto isto, a água limpava seus becos imundos, cancelava compromissos, aumentava aflições.
Nestas horas, pequenas coberturas se tornavam pequenos oásis às avessas. Não muito longe, em uma rua pouco movimentada, havia um destes. Ali, se encontrava um mendigo, que por não ter nem como se cobrir, estava encharcado. Estava completamente sozinho no momento, para não falar de sua fome, o que tornava sua situação mais desesperadora. Não é fácil ser mendigo em cidade grande. Principalmente um adulto. As pessoas costumam achar que mendigar é uma opção. Algumas, vendo seu estado lastimável, acreditam que ele antes de tudo é um bêbado. Mesmo que fosse, cinco reais para tomar sua pinga não chega aos cem reais, mínimo que alguns gastariam em uma noitada acompanhada de garrafas de uísque e mulheres. O que nos faz pensar que as pessoas devem acreditar que o mendigo não tem o direito à diversão, ou que mendigos devem prestar contas do dinheiro que recebem como doação, enquanto os próprios cidadãos não prestam contas do que fazem com seu dinheiro para seus patrões, aqueles que pagam seus salários.
Mas o grande problema é que há mesmo mendigos que fazem qualquer coisa com este dinheiro mesmo, até comprar drogas. Há pessoas que se disfarçam de mendigos. Realmente, não é fácil ser mendigo hoje em dia. Antigamente os mendigos eram mais verdadeiramente mendigos. Será que o mundo possui menos mendigos hoje, ou será que descobriram que são mendigos mesmo tendo uma situação melhor? Não se sabe, e isto não importa agora... Aquele mendigo não trabalhava não por preguiça, mas por que é realmente difícil encontrar emprego hoje em dia. Principalmente quando não se tem uma aparência boa, quando não se cheira bem, e quando não se tem nem um lar. Estas coisas custam dinheiro, e ele não tinha isto. Aquele mendigo estava em uma situação não muito boa... Estava encharcado, com frio, com fome, e agora, bastante sozinho. Talvez para fugir um pouco da realidade, ele fechava os olhos, e murmurava algo. Pelo menos ele tinha certa honra, já que alguns buscavam meios mais destrutivos para fugir desta realidade. Mas também é raro que algum mendigo tivesse algum estudo. Ele sabia ler e escrever, sabia falar bem e sabia que alguns meios de fugir desta realidade que parecia mentira não valia a pena.
Naquela hora, passava pela rua um senhor. Estava abrigado por um guarda-chuva, mas não conseguiu continuar por que a chuva tinha ficado mais forte. Resolveu parar na mesma cobertura onde aquele pobre mendigo se abrigara. O homem estava bem vestido, e tinha um ótimo comportamento. Na verdade, aquele homem poderia ser considerado facilmente como um dos maiores filantropos da cidade. Seu amor ao próximo era invejável. Sua cordialidade era insuperável. Seu amor ao próximo era tão grande, que não conseguia ver as pessoas sofrendo à sua volta. Foi por isto que há muitos anos atrás, abandonou suas crenças em um deus. Não conseguia imaginar como qualquer deus poderia deixar pessoas sofrerem. Decidiu que faria tudo o que estivesse à sua disposição para ajudar ao próximo.
E ali estava seu mais novo próximo. Molhado, faminto e com frio. Aquela situação deixou o senhor comovido. Imediatamente retirou seu casaco e o entregou ao mendigo:
- Por favor, meu bom homem, tome isto. Você precisa mais dele do que eu.
- Puxa, muito obrigado.
Enquanto vestia o casaco, meio sem-graça ainda por receber a ajuda daquele homem, chegava outra figura tentando se esconder da chuva. Rapidamente entrou para baixo da cobertura, e ficou em um canto, em silêncio. Parecia estar apressado, pois olhava para o seu relógio, depois olhava para o céu, como se quisesse anular a chuva com uma cara feia. Por fim, o mendigo terminou de vestir o casaco. Logo o senhor puxou assunto:
- E então, está um pouco melhor agora?
- Estou sim, obrigado.
- Olha, tudo o que tenho aqui são 50 reais. Quero que fique com eles. Assim que a chuva passar, você pode comprar alguma coisa para se aquecer, e comer também.
- Puxa, muito obrigado senhor. Nem sei como agradecer. Deus lhe pague.
O senhor hesitou um pouco em continuar. Mas logo continuou:
- Não se preocupe em me agradecer. É o mínimo que eu poderia fazer para ajudar.
- Olha, eu não posso dar nada em troca, mas eu tenho certeza que Deus há de dar muito mais para o senhor.
Ele poderia seguir ignorando o que o mendigo dizia. Ele não era um homem de discutir por pouca coisa. É verdade que já travou muitos debates em sua vida, mas ele não precisava discutir com aquele homem, que ao seu ver, precisava de atenção, não de refutação. Porém, achava importante mencionar seus pontos de vista, para que aquele homem entendesse que há crenças e crenças, e além delas, há a descrença. Um bom cidadão certamente tem consciência da liberdade das pessoas, e queria passar aquilo ao mendigo, como uma lição de vida.
- Bem, meu amigo, eu não acredito em deus. Aceito seus agradecimentos, não precisa se preocupar em retribuir-me.
Aquilo fez com que o mendigo interrompesse os agradecimentos. Passou a segurar o queixo, indicando claramente que estava refletindo no que lhe foi dito. O senhor intimamente tinha ficado feliz, pois obtivera o planejado. O outro homem que estava com eles finalmente olhou para os dois.
- Ah, desculpa, eu não sabia...
- Não tem problema...
O mendigo continuava a pensar sobre o que aconteceu. A curiosidade tomou conta dele, que não resistiu e perguntou:
- Senhor, por que o senhor não acredita em Deus?
- Meu bom homem, você mesmo é um exemplo do motivo pelo qual não acredito em deus. Veja seu estado. O que deus fez por você? Por que ele deixaria que você ficasse neste estado, sem ter o que comer, o que vestir, onde morar... Por que ele permitiu que você vivesse sem sua dignidade como ser humano, já que você é uma criatura dele, e ele deveria te amar? Sabe, eu não podia acreditar que um deus bondoso como pregam por aí, pudesse permitir tamanho sofrimento de pessoas como você. Deixei de acreditar em deus por isto. E agora, sou eu mesmo que tento ajudar as pessoas que encontro nesta situação. Não espero que deuses resolvam isto por mim.
Isto chamou a atenção do outro homem que estava com eles. Logo ele se aproximou, dizendo:
- A paz do Senhor para todos.
Os dois homens olharam para ele.
- Não pude deixar de ouvir a conversa dos dois. Eu sou bispo de uma pequena igreja aqui perto, e estava indo para lá quando fui pego pela chuva. Meu carro acabou parando por causa da água. Fiquei com medo de ficar lá dentro e alguma enchente o levar, por isto vim para cá. Bem, se estão falando de Deus e sobre as enfermidades, gostaria de conversar com vocês também. É um assunto que muito me interessa.
O senhor não estava disposto a discutir naquela hora... Muito menos com bispos de pequenas igrejas. Eles costumam ser inflexíveis, quando não dispostos ao ridículo.
- Não estamos exatamente conversando sobre algo, pelo menos não ainda.
- Bem, mas eu escutei você dizer que Deus não poderia permitir que tais pessoas sofressem, e ainda assim amá-las.
- Sim, foi o que eu disse.
- Bem, acho que a primeira coisa que eu deveria deixar claro é que todos os seres humanos possuem livre-arbítrio. Não só os seres humanos: seres angelicais também. Foi por isto que alguns anjos deixaram de servir ao Senhor, e passaram a agir contra ele. Estes são os demônios. Infelizmente eles querem nos prejudicar de todas as formas, por isto pessoas como este senhor aqui sofrem. São os encostos, e eles só abandonam a vida de uma pessoa em um ritual de libertação espiritual. Nossa igreja costuma ajudar muitas pessoas como ele, que entram com enfermidades espirituais graves, e saem de lá curadas. Hoje são pessoas muito prósperas, e dão seu testemunho de que Deus está cumprindo suas promessas.
- Ah, entendi... E prosperidade é sinônimo de bênçãos?
- Sim, claro. Ou você acha que o sofrimento destas pessoas é obra de Deus? Está claro que quem está agindo neste homem é Satanás.
- Então este homem aqui não é abençoado?
- Provavelmente não. O que não o impede de ser curado.
- Mas por que ele simplesmente não é abençoado? Por que deus tem que limitar estas bênçãos?
- Ora, por que a pessoa tem que querer. Isto é liberdade. E quando ela quiser, estamos de portas abertas. Além disto, se a pessoa é dizimista, ela pode exigir que Deus cumpra suas promessas. Pois quando pagamos o dízimo a Deus, Ele fica na obrigação de cumprir Sua Palavra.
O senhor depois de raciocinar um pouco, respondeu então.
- Acho que estou te entendendo. Basicamente, você está me dizendo que seu deus só age por contrato, é isto? Você vai lá, paga o devido valor, então deus resolve te ajudar...
- Bem, não é exatamente desta forma...
- Ora, foi o que eu entendi. O engraçado disto tudo é que enquanto seu deus é obrigado a fazer o que você quiser, o diabo está livre para agir, atentando todo mundo. Aliás, ele tem muito tempo livre, não é? Ele não tem coisa melhor para fazer do que espumar pela boca, se debater e xingar a mãe do pastor não?
- Puxa, seu entendimento é lamentável. Para sua sorte, você deve ser uma pessoa que confia muito na força de seu trabalho. Por isto pode gozar de uma boa situação, mesmo sem Deus no coração...
A discussão se tornava cada vez mais intensa, enquanto o mendigo só observava. Pensava bastante sobre a situação que estava passando, e depois de algum tempo, começou a sorrir. O sorriso era tão sincero, que sua felicidade se destacou mais que a discussão que estava sendo travada ali. Por isto mesmo, os dois perceberam e por um momento deixaram de discutir. O senhor resolveu perguntar ao mendigo:
- Senhor, o que houve? Por que a alegria?
- Bem, eu estava pensando aqui... Senhor bispo, antes de tudo, gostaria de agradecer o senhor por tentar defender Deus. Talvez Ele nem precise, já que ele é o Todo-poderoso, além de saber até que teríamos esta discussão hoje. Se Ele deixa pessoas pensarem como este senhor aqui, é por que Ele já possui uma resposta na ponta da língua para eles. Ele com certeza é mais sábio que nós dois. E se isto for verdade, então não precisamos nem falar nada. Ele é melhor defensor que qualquer um de nós.
O bispo ficou calado, hesitante. O mendigo continuou...
- Sobre eu ser ou não abençoado, eu podia pensar qualquer coisa disto. Mas nada me tira da cabeça que tudo isto é inveja. Inveja por que nosso Senhor Jesus Cristo não veio ao nosso mundo como um bispo, mas veio como um pobre. Ele nasceu em uma manjedoura, por que não tinha lugar para ele e seus pais na estalagem. E quando foi adulto, era como eu, pois não tinha sequer lugar para reclinar a cabeça. Eu não acho que Nosso Senhor tinha encosto, ou não era abençoado, mesmo por que era Ele quem abençoava as pessoas, Ele quem expulsava demônios. Mas eu entendo, deve incomodar muito isto mesmo. Incomoda o fato que o Filho de Deus escolheu ser igual a mim, não igual às pessoas abençoadas na sua igreja. Talvez por isto eu já ouvi quando mendigava perto de suas igrejas, as mais variadas formas de se esconder a pobreza de Jesus. E pra falar a verdade, eu nunca ouvi falar que algum apóstolo de Cristo tenha morrido rico.
O bispo, ficou sem reação. Já o senhor do lado deles, sorria sarcasticamente... O mendigo, virou-se para este e continuou...
- Senhor, eu tenho que te devolver isto.
Pegou os 50 reais, e os devolveu junto com o casaco. O senhor então se assustou.
- Meu amigo, por que está me devolvendo isto. São para você. Não vai aceitar só por que sou ateu?
- Não, não é isto.
- Então? Por quê não fica com ele?
- Olha, senhor... O senhor me deu isto, por que achou que eu estava sofrendo. De fato, justamente quando o senhor chegou, eu perguntava a Deus se merecia tudo aquilo. Se merecia o frio, a fome... Quando eu perguntei ao senhor por quê o senhor não acreditava em Deus, e o senhor respondeu, eu comecei a pensar... Só os mendigos que sofrem? Só eu sou o exemplo de sofrimento? Então percebi que o senhor só poderia dizer que eu estava sofrendo, se acreditasse que o senhor não estava sofrendo. No fim das contas, o senhor me vê da mesma forma que o bispo.
- Mas eu não me considerei melhor que você. Eu ofereci ajuda, por que estou preocupado com você.
- E o bispo disse que a igreja dele está com as portas abertas a todos, oferecendo ajuda que julgam necessária a todos que precisam. Mudou apenas a forma de ajudar e o tipo de ajuda, não é? Agora, é muito fácil um desdenhar do tipo de ajuda que o outro oferece. Se o senhor achasse que a ajuda espiritual do bispo é a melhor ajuda, o senhor poderia ser bispo. Se ele achasse que a ajuda filantrópica fosse a melhor, ele poderia ser ateu.
O homem ficou calado.
- Quando pedi ajuda a Deus, pedi de coração. Talvez agora eu tenha uma resposta... Se me julgam pelos trapos que visto, com justiça me verão como um mendigo. Mas se não podem distinguir meus tesouros, como poderiam me chamar de rei?
Os dois se entreolharam.
- Tesouros?
- Sim, tesouros. A verdade mais sagrada é que ninguém neste mundo ficará eternamente com riquezas estas de metal e papel. Isto já poderia ser usado para provar que estas não são riquezas reais.
- Então, o que é seu tesouro? – Perguntou o bispo.
- Senhores, – disse levantando – muita gente por aí não se contenta apenas com um prato de arroz e feijão. Muita gente fica enjoada de comer a mesma coisa todo dia. Muita gente não consegue comer em determinado nível de restaurante. Muita gente não consegue comer certos tipos de comida. Eu não sou assim, meus amigos. Eu realmente passo fome, mas eu sei apreciar um simples pedaço de pão. Um prato de arroz e feijão nem precisa ter a mistura, para me dar grandes alegrias. Como em qualquer lugar, e aprecio qualquer companhia. Eu sei o valor real da comida.
Deu uma pausa e continuou.
- Da mesma forma, posso dizer com toda a certeza do mundo, que eu tenho maior facilidade em dizer se aqueles que se aproximam de mim são sinceros. Seja para me ajudar, seja para me criticar. Ninguém precisa fingir para mim, pois eu não tenho nada para lhes oferecer. Eles podem ter raiva, podem ter compaixão, eu geralmente posso dizer como eles se sentem. Vocês podem dizer isto? Podem dizer quem são seus verdadeiros amigos? Podem dizer quem é sincero com vocês? Talvez, mas eu tenho mais facilidade que vocês. Por que as pessoas que eu encontro, e que me oferecem comida, são as minhas melhores amigas. Eu tenho toda a certeza que elas se preocupam comigo, que elas só desejam o meu bem. Quando elas conversam comigo, elas conversam com a verdadeira intenção de me ajudar, e não de fingir que são minhas amigas, para depois me prejudicar em algo.
Mais uma pausa.
- Tenho doenças, tenho frio, tenho fome e às vezes me sinto sozinho. Mas de tudo isto consigo entender mais e mais, o valor da vida, da amizade, dos bens, melhor do que quando eu tinha dinheiro. Então, enquanto há ricaços por aí, esbanjando dinheiro para conseguir achar alguma coisa que o entretenha, eu me distraio com as coisas mais simples. Até as coisas mais pequenas são capazes de me dar alegrias. Os meus sonhos são os mais reais, pois geralmente são os mais simples. A minha vida é a mais valiosa, por que só tenho ela. Infelizmente, eu tive que perder tudo para entender isto.
Então, concluindo, disse o mendigo:
- É por isto que sou tão rico. Porque hoje encontrei a mim mesmo. Porque percebi significado nas mínimas coisas. Tudo me alegra, por que fui redimido. Sofremos? Sim, mas as melhores coisas são as que custam mais caro.
Deixou os dois parados na cobertura, enquanto corria pela chuva, de braços abertos, pulando de alegria, como jamais se viu antes. Aquela chuva que era dele também.

Gols inventados

Às vezes a bola não entra, mas é gol!

Watford 2 x 2 Reading, 2ª divisão da Inglaterra, 20.09.08

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

S.W.A.T. de pobre

Pra quem quiser saber como os nossos filmes (e o nosso país) são apresentados no exterior, segue o trailer do lançamento do filme "Elite Squad - Tropa de Elite" no circuito norte-americano:

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