terça-feira, 4 de junho de 2013

As infames Cruzadas da Europa do Norte


Um pedaço trágico e vergonhoso da história da religião cristã institucionalizada, com conversões forçadas e forçadas e guerras entre cristãos nominais, que não pode ser esquecido a fim de que não se repita jamais, publicado na revista Aventuras na História.

Curiosamente, os "cruzados do Norte" tiveram uma participação expressiva na formação do reino de Portugal. 

Em 1147, quando já eram proscritos no Norte da Europa, cerca de 13.000 deles navegaram em cerca de 200 barcos até a costa do então Condado Portucalense, já sob o comando de D. Afonso Henriques (mais tarde D. Afonso I, primeiro rei de Portugal).

Sabendo da chegada dos forasteiros, D. Afonso entrou em acordo com eles para vencerem os mouros que ainda comandavam o centro-sul do território que hoje forma Portugal, prometendo-lhes saques e terras, conseguindo o seu apoio para finalmente conquistarem Lisboa.

Se hoje estamos aqui, escrevendo e lendo em português, pelo menos uma mínima medida devemos a esses elementos que barbarizaram o Norte da Europa em nome de Cristo, mas por essas contingências misteriosas do destino, ajudaram a formar Portugal.

Eis a íntegra do artigo:

Os últimos pagãos da Europa

As Cruzadas do Norte, conduzidas pelos Cavaleiros Teutônicos, levaram a palavra de Cristo na ponta da espada e espalharam o terror na Idade Média

Texto Fabio Marton
Ilustrações Rodrigo Idalino

A força era relativamente pequena. Não passava de 300 cavaleiros e soldados de infantaria. Estava às portas da cidade de Gdansk, no litoral da atual Polônia. O uniforme era um paradoxo: túnicas com cruzes pretas cobriam as armaduras. Na cabeça, os elmos eram decorados com chifres. Pareciam demônios agindo em nome de Jesus Cristo. Há controvérsia sobre o que se seguiu.Não está claro se as portas foram abertas, se houve cerco ou combate. O fato é que a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos entrou em Gdansk sem muita resistência. Sua missão era retomá-la para o rei da Polônia, após uma revolta de comerciantes alemães negar a autoridade do soberano. Com a cidade conquistada, em 13 de novembro de 1308, todos os resistentes foram mortos. Eram, em sua maioria, compatriotas alemães. As mulheres e crianças tiveram o mesmo destino. Depois, os invasores atearam fogo no local. Cachorros lambiam o sangue que escorria copioso nas ruas. As crônicas medievais, provavelmente exageradas, falam em 10 mil vítimas no que ficou conhecido como o Massacre de Gdansk.

Os Cavaleiros Teutônicos esperavam o pagamento real pelo serviço prestado. Como não se chegou a um acordo, convocaram mais 4 mil cavaleiros, expulsaram a guarnição polonesa e prosseguiram conquistando e arrasando todas as cidades da Pomerélia, deixando a Polônia sem litoral. O massacre gerou um processo em Roma, durante o qual a Ordem chegou a ser excomungada pelo papa, mas terminou absolvida. Se um massacre covarde não parece uma boa introdução para uma história de cavalaria, é porque as Cruzadas do Norte não foram feitas de honra e glória, mas forjadas em combates desiguais, fanatismo, traição e ambição mercantil. Como no Oriente Médio, guerreiros que fizeram votos de pobreza e castidade cometeram saques e estupros. Por mais de dois séculos, a cristandade esteve em guerra santa contra diversos povos do Mar Báltico, os últimos pagãos da Europa.



Cristianismo, armado e perigoso

Após a conquista de Jerusalém pela Primeira Cruzada, em 1099, a cristandade viveu uma fase de violenta euforia. A conversão dos vikings, iniciada no século 8, havia se dado de forma relativamente pacífica, por contato, diplomacia e trabalho missionário - ninguém precisou conquistá-los para impor a crença à força. A opção começou a parecer atraente após a vitória na Cidade Santa. Em 1147, o abade Bernardo de Clairvaux anunciou a primeira das Cruzadas do Norte: "Proibimos expressamente que por qualquer razão se faça paz com esses povos, seja por dinheiro ou tributo, até chegar o tempo em que, com a ajuda de Deus, eles ou sua religião sejam destruídos". As palavras de Bernardo (mais tarde São Bernardo) têm origem um ano e meio antes, quando o papa Eugênio III convocou a Segunda Cruzada para recuperar um território perdido no Oriente Médio. Os alemães da Saxônia pediram uma reunião com Clairvaux, já então um grande ideólogo e propagandista da guerra santa, para demonstrar que o inimigo infiel estava na porta de casa e não era preciso viajar ao Oriente Médio para enfrentá-lo. Numa faixa entre a Alemanha e a Rússia, povos de diversas etnias recusavam a conversão. Uma dessas regiões era a Prússia, habitada então por eslavos. Em 997, o missionário São Adalberto foi morto pelos prussianos a golpes de lança depois que tentou, sem sucesso, cortar a árvore sagrada dos pagãos com seu machado. Sua cabeça desfilou pelas ruas. Havia também apostasia, como a que ocorreu na ascensão do príncipe Niklot, dos vendos, em 1131, que retomou crenças ancestrais depois de dois príncipes cristãos.

Os povos do báltico viviam em sociedades violentas, com frequentes ataques de uns contra os outros. Haviam sido empurrados para a região na Antiguidade, por inimigos eslavos, celtas e germânicos, até conseguirem se proteger atrás de uma faixa de pântanos e florestas que cruzava a atual Polônia. Não tinham escrita. O que se sabe deles vem de sítios arqueológicos, folclore e relatos de seus inimigos. Suas armas eram primitivas: lanças, machados e porretes. Tinham cavalos, mas eram pôneis, menores que os de outros europeus. Sabiam fazer fortificações de madeira e não tinham armas de cerco, como catapultas, torres e trabucos. Os únicos entre eles que chegaram a ter um exército foram os lituanos, que adotaram as tecnologias de seus inimigos - todos os outros eram bandos desorganizados de guerreiros, a típica imagem do bárbaro.

Com barcos de construção similar aos dos vikings, os pagãos que viviam no litoral faziam incursões de pirataria. Por ironia, seu alvo costumava ser os países nórdicos. "Jovens [bálticos] só conseguiam adquirir o dinheiro necessário para comprar uma fazenda e casar por meio da guerra - pilhagens traziam dinheiro, gado, cavalos e escravos", afirma o historiador William Urban, da Universidade de Monmouth (EUA). Influenciado por Bernardo de Clairvaux, o papa Eugênio III lançou uma bula, em 13 de abril de 1147, afirmando que guerrear contra os infiéis na Península Ibérica e no Báltico teria o mesmo efeito que fazer isso no Oriente Médio. O guerreiro seria perdoado por todos os seus pecados, ganhando acesso direto ao Paraíso.

Guerra confusa

O príncipe Niklot reagiu ao avanço cristão na região com um ataque preventivo aos saxões, dando início à Cruzada dos Vendos. Foi uma guerra curta e confusa. Forças unidas de dinamarqueses, saxões e poloneses, comandadas muitas vezes por bispos e abades, invadiram o território eslavo, saqueando, queimando templos e batizando guerreiros derrotados pelo caminho. No cerco à principal fortificação dos vendos, Dobin, os saxões exigiram o batismo das tropas dentro da fortaleza. Niklot não só aceitou como prometeu pagar tributos a eles. Os cruzados passaram água na cabeça dos inimigos e deram as costas, como se a missão estivesse cumprida. Tanto o príncipe como a maioria dos "convertidos" continuariam pagãos até o fim da vida. Em 1160, após uma revolta, o líder dos vendos foi morto em combate.

Muitos cristãos tomaram a nova regra papal como licença para abusar dos infiéis. Em 1186, com problemas financeiros por causa de uma guerra interna, o rei Sverre da Noruega foi buscar recursos saqueando as terras dos bálticos. Em 1195, atendendo a um pedido por reforços militares em uma missão na Livônia, os suecos se limitaram a encher seus barcos de carga roubada e ir para casa celebrar. Com a autorização do papa, os nórdicos tiveram a chance de voltar a fazer "ataques vikings à moda antiga", descreveu o historiador Eric Christiansen, autor do livro The Northern Crusades (sem tradução). Na Livônia (território das atuais Estônia e Letônia) havia uma missão cristã desde 1185.

Ela começou pacífica, mas se militarizou quando os religiosos perderam a paciência com as conversões insinceras dos pagãos. Em 1193, o papa Celestino III autorizou privilégios cruzadistas para quem reforçasse as tropas na região. Liderando esses exércitos, o bispo Bernardo de Hanover acabou morto, em 1198. Isso levou Inocente III, sucessor de Celestino, a decretar a Cruzada da Livônia. A guerra durou quase um século, e se estendeu a vários outros alvos, como os estonianos e letões. A Ordem Livônia dos Irmãos da Espada foi fundada em 1202. O território conquistado por esses monges guerreiros passou a ser chamado de Terra Mariana - a "terra santa" da Virgem Maria, não menos importante que Jerusalém.




Ainda hoje, os Irmãos da Espada são particularmente infames entre os povos bálticos: "Em nome de Cristo, atacavam, saqueavam, sequestravam, estupravam, matavam", escreveu o historiador letão Visvaldis Mangulis. Estupros eram obviamente proibidos pelos votos de castidade, mas, segundo Christiansen, "o irmão-cavaleiro estava exposto a fortes tentações, pois o poder frequentemente deixava as mulheres à sua mercê. Elas eram butim, e a expectativa de estupro era o que mantinha seus auxiliares nativos motivados. Alguns cavaleiros devem ter se juntado a eles".

Enquanto prosseguia a Cruzada da Livônia, entraram em ação os Cavaleiros Teutônicos. Surgida no final do século 12 em Acre, na Palestina, a ordem era formada por guerreiros que viviam em conventos, renunciando à propriedade e aos prazeres carnais, até mesmo à mesa: se alimentavam quase só de pão, água e alguns vegetais insossos. Os Cavaleiros passaram a procurar novos alvos após as sucessivas derrotas dos cristãos na Palestina, principalmente com a queda de Jerusalém em 1187. Em 1226, aceitaram o convite do duque polonês Conrado I, de Masóvia, para tomar parte em sua até então malfadada campanha contra os prussianos. Conrado deu a eles um feudo em Chelmno, que se expandiria em um novo país.

Com uma força de 10 mil homens, em 1233, os cruzados levariam quase 30 anos para conquistar a Prússia. Os territórios passaram a fazer parte do Ordensstaat, o Estado da Ordem, ao qual se juntaram as conquistas dos Irmãos da Espada, em 1236, após a Batalha de Saule, na qual os lituanos praticamente aniquilaram os monges-guerreiros - os sobreviventes se juntaram aos teutônicos. Com pagãos escasseando na região, em 1241, a Ordem passa a atacar outros cristãos, invadindo a República de Novgorod, de ortodoxos russos, com apoio do papa e dos reinos da Suécia e Dinamarca. Foram derrotados na Batalha do Gelo, imortalizada no filme Alexander Nevsky (1938), de Sergei Eisenstein. A cavalaria russa empurrou os cruzados para dentro de um lago congelado - com suas armaduras pesadas, o gelo se partiu e 20 deles foram ao fundo. A humilhação delimitou a fronteira máxima da ação dos cruzados: eles nunca mais voltariam a atacar os russos. O território do Ordensstaat cresceu em outras direções e chegou a dominar todo o litoral do Báltico entre a Alemanha e Rússia no final do século 15.

A vingança dos poloneses

Em 1283, a Ordem voltou-se contra o Grão-Ducado da Lituânia, o último e mais poderoso reino pagão da Europa. E também seu maior fracasso. Mesmo após um século de guerras e devastação, os lituanos só aumentaram seus domínios, chegando a uma imensa faixa entre os mares Negro e Báltico. Em 1385, a guerra acabou em derrota moral para os Cavaleiros, quando o grão-duque Jogalia da Lituânia casou-se com a rainha Edviges da Polônia, convertendo-se ao catolicismo e unificando os reinos. Quando uma revolta nativista no Ordensstaat foi apoiada pelos lituanos, os Cavaleiros declararam guerra aos países unificados, em 1409. Foi um desastre: acabaram trucidados na Batalha de Grunwald, um ano depois. A ordem perdeu suas possessões bálticas, principalmente para a Polônia-Lituânia, até os últimos e pequenos feudos monásticos, em 1583, após a Guerra da Livônia - quase dois séculos após os últimos pagãos da Europa terem se inclinado à pia batismal e 446 anos após o início das Cruzadas do Norte. A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos existe ainda hoje, depois de abandonarem qualquer propósito militar. Algo que só aconteceu em 1929.

O panteão báltico

Os pagãos do Mar Báltico não eram uniformes: falavam línguas eslavas, bálticas (como o letão e o lituano) e fínicas (como o finlandês e o estoniano), completamente ininteligíveis entre si. Mas sua religião tinha várias características comuns. Os povos bálticos reverenciavam a natureza, com os deuses principais relacionados ao céu, e os menores à terra, florestas e agricultura. Dievas era o deus do céu, onde tinha uma fazenda. Sua noiva era Saule, o Sol. Todos os dias, Saule se movia numa carruagem para seu casamento com Dievas. O rival de Dievas era Menuo, a Lua, o deus da guerra. Em algumas tradições, a Lua conseguia se casar com o Sol, mas era infiel, e por isso era punida por Perkunas, o deus do trovão. A deusa da terra era chamada Zemyna ("mãe terra"). Os cristãos relacionaram Zemyna à Virgem Maria e Dievas a Deus - ainda hoje essa é palavra para o deus cristão em lituano (do qual adotamos a grafia).

Saiba mais

Livro - The Northern Crusades, Eric Christiansen, Penguin Books, 1998





Houve colaboradores judeus no holocausto?

A esta pergunta pra lá de complicada se propõe a responder o documentário "Le Dernier des Injustes" (O Último dos Injustos), conforme a resenha abaixo, do crítico de cinema Amir Labaki, publicada no jornal Valor Econômico no dia 31/05/13:

O Shoah, o rabino e o cineasta

A pré-estreia mundial fora de competição de "Le Dernier des Injustes" (O Último dos Injustos), o sexto filme do documentarista francês Claude Lanzmann, foi o grande evento cinematográfico do Festival de Cannes 2013, encerrado no domingo com a Palma de Ouro para "La Vie d'Adèle" (A Vida de Adèle), de Abdellatif Kechiche. Não poderia haver conclusão mais poderosa para a saga fílmica sobre o Holocausto - iniciada em 1985 com o monumental "Shoah".

Em cerca de nove horas, "Shoah" desmonta a macabra indústria da morte colocada em prática para executar a "solução final" ("endlösung") nazista. Foi para aquele filme que Lanzmann entrevistou, em 1975, em Roma, Benjamim Murmelstein, mas o depoimento ficou de fora. "O tom era outro", disse o cineasta.

Murmelstein foi o terceiro e último presidente, de fins de 1944 até a liberação em meados de 1945, do conselho judaico de Theresienstadt, o gueto "modelo" na então Tchecoslováquia, a cerca de uma hora de Praga. Antes disso, a partir de 1938, o rabino conviveu intensamente em Viena com Adolf Eichmann (1906 - 1962). Segundo Lanzmann, graças a Murmelstein, mais de 120 mil judeus austríacos conseguiram escapar.

Nem por isso a História foi compreensiva para com os "anciões" ("judenälteste") que, por determinação nazista, lideraram os conselhos judeus. Murmelstein foi o único que sobreviveu à Segunda Guerra. Podendo buscar exílio após a liberação do gueto, entregou-se à prisão da qual saiu, inocentado, após um ano e meio.

O estigma de colaboracionista acompanhou-o até a morte, em 1989. Na historiografia tradicional do Holocausto, a começar do clássico de Raul Hilberg ("A Destruição dos Judeus Europeus"), os dignatários judeus dos guetos foram sempre tratados como traidores. Tudo muda agora a partir de "O Último dos Injustos".

"Eu quis mostrar que os ditos colaboradores judeus não foram colaboradores", disse Lanzmann em entrevista ao diário parisiense "Liberátion". "Eles nunca quiseram matar judeus, não partilhavam a ideologia nazista, eram infelizes sem poder. Nós reconhecemos facilmente quem eram os assassinos."

Mas o depoimento de Murmelstein vai muito além de esclarecer seu papel em Theresienstadt e, por extensão, o de seus homólogos em guetos como os de Cracóvia e Varsóvia (Polônia) e Vilnius (Lituânia). Estimulado pela interlocução cúmplice e informada de Lanzmann, seu testemunho detalha e corrige episódios centrais da perseguição nazista aos judeus.

Suas correções mais marcantes dizem respeito a Eichmann e à "noite do cristais". A imagem do burocrata frio e distante, mero gerente das operações logísticas postas em prática para concretizar o Holocausto, rui definitivamente com as revelações de quem com ele conviveu por mais de sete anos, como Murmelstein.

Agressivo, corrupto e violento, Eichmann nada tinha da "banalidade do mal" a ele imputada por Hannah Arendt ao cobrir para a "The New Yorker" seu célebre julgamento em Jerusalém, em 1961, depois de sua captura por um comando israelense na Argentina. O próprio processo é também duramente criticado por Murmelstein, que o considera conduzido por uma acusação mal preparada. Ainda assim, Eichmann foi condenado à morte e executado por enforcamento em maio de 1962.

Murmelstein depõe como testemunha ocular da (por muito tempo negada) participação pessoal de Eichmann na "noite dos cristais" ("kristallnacht"), o ataque nazi a casas, lojas e escolas judaicas na Alemanha e na Áustria anexada entre 9 e 10 de novembro de 1938. Ele ainda lança luz sobre a data do ataque, lembrando ter sido marcado para o exato 20ºaniversário do estabelecimento da República de Weimar, a "República Judaica", classificada como uma traição por Hitler. "A 'noite dos cristais' é a punição dos judeus pela República de Weimar", afirma Murmelstein.

"O que ele conta é uma magistral lição de história", diz Lanzmann. Mas é ele que a instiga e a formata. Lanzmann é tão protagonista de "O Último dos Injustos" quanto seu entrevistado. E o é duplamente.

Um duplo Lanzmann ocupa a tela: o entrevistador de Murmelstein, na Roma de 1975, aparentando menos que seus então 50 anos, e o cineasta de hoje, que aos 87 anos nos guia por vários dos endereços essenciais da narrativa do ex-ancião, a começar, já na primeira cena, da estação de trem de Bohusovice, na qual desembarcavam os judeus destinados ao confinamento em Theresienstadt.

Uma sequência memorável frisa a um só tempo essa passagem do tempo e a desumanidade nazista, quando um ofegante Lanzmann esforça-se para subir as longas escadarias que, em 1940, conduziam os veteranos judeus a suas novas instalações no gueto. Nessa hora, Lanzmann é diretor e intérprete, presente e passado, sobrevivente e vítima - História plena.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Juiz (de direito) detona família de Ronaldinho Gaúcho

A notícia é do Terra:

Família de Ronaldinho é um baronato, diz juiz de Porto Alegre

Por problema com vizinhos na capital gaúcha, Assis é condenado a pagar R$ 500 mil

Os irmãos de Ronaldinho, o ex-jogador Roberto de Assis Moreira, Deise de Assis Moreira e a mulher dele, Karla Duran Moreira, foram condenados pela 19ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul a pagar R$ 500 mil por danos materiais ao casal de vizinhos Adriano Ricardo de Carli e Vera Maria Erbes. A ação discutia danos, prejuízos e consequências ocasionados pela queda, em 2007, de um muro que dividia as duas propriedades, na esquina da Avenida Cavalhada com a Rua Eduardo Prado, na zona sul da cidade de Porto Alegre. O julgado manteve a sentença proferida pelo juiz de direito Alex Gonzalez Custódio, da Vara Cível do Foro Regional da Tristeza, em Porto Alegre.

Em sua decisão o juiz Alex Gonzalez Custódio critica duramente a família de Ronaldinho pelo total desrespeito com o Poder Judiciário durante a tramitação do processo: "Constata-se a desconsideração e o desrespeito que o dinheiro e fama em excesso podem causar em uma pessoa mesmo com seus vizinhos, em total descaso, mesmo conscientes de que causaram prejuízos a terceiros, necessitando essas pessoas virem a Juízo buscar a satisfação de seus direitos".

Segundo o juiz gaúcho, a família de Ronaldinho fez de tudo para não ser citada no processo. "Os requeridos entendem estarem acima da lei e da Justiça, ocultando-se para não serem citados", afirmou o magistrado ao decidir a questão. "O Sr. Roberto de Assis Moreira: é pessoa tão comum quanto um gari que recolhe os dejetos na frente do Fórum! Não é sua condição financeira que determina quando e como ele possa ser citado, intimado ou notificado".

O magistrado ressaltou ainda em sua decisão que a desconsideração com a justiça chegou ao ponto de ter a família Moreira que ser defendida pela Defensoria Pública, em razão de não ter conseguido localizá-la, mesmo depois de inúmeras tentativas, 'esquivando-se de citações e intimações, como se isso pudesse livrá-lo de responder pelo evento lesivo decorrente do colapso do muro edificado por eles'.

E afirma ainda o juiz Alex Gonzalez Custódio em sua decisão: "Aonde chega o cúmulo do descaso, desrespeito e total falta de consideração com os terceiros, e mesmo com o Poder Judiciário, entendendo-se inacessíveis e inalcançáveis os Irmãos De Assis Moreira, como se mantivessem um verdadeiro BARONATO em Porto Alegre, onde somente são encontrados se eles concordarem e quiserem ser encontrados, mormente com exagerada segurança que os cerca, mais do que a própria Presidente Dilma, quando visita seu ex-companheiro e amigo, Dr. Carlos Araújo, vizinho deste Julgador".

Por fim, o magistrado cita a indenização de R$ 40 milhões que Ronaldinho cobra na justiça do Rio de Janeiro do Flamengo, onde atuou profissionalmente no ano passado: "Necessariamente os réus terão que efetuar pagamento de honorários para o Fundo de Reaparelhamento da Defensoria Pública, porque é falta de vergonha ser defendido por um órgão destinado a defender pobres, enquanto o Sr. Roberto de Assis Moreira exige para seu irmão uma indenização no valor de 40 milhões de reais junto ao Flamengo, efetivamente com honorários dele incidentes sobre esse valor!".

Leia a íntegra da sentença no Terra.



Apple bane aplicativo que prometia "cura gay"

A notícia é do G1:

Apple exclui de loja aplicativo que prometia ‘cura gay’

Petição on-line pedia retirada do app de lojas da Apple e do Google.
App oferece mais de 30 cursos sobre 'princípios bíblicos de liberdade'.

A Apple excluiu nesta quinta-feira (30) da AppStore, sua loja de aplicativos, o Setting Captives Free, um app que oferecia um curso com uma suposta "cura gay".

Segundo a descrição da entidade responsável pelo programa, o Setting Captives Free oferece cursos interativos sobre “princípios bíblicos de liberdade em Jesus Cristo”.

Entre mais de 35 cursos, disponíveis em dez línguas, aquele que prometia “liberdade da escravidão da homossexualidade” em 60 dias e causou a exclusão da AppStore foi o “Door of Hope”, disponível até então para a loja dos Estados Unidos . O português não é uma das opções de idioma.

Entre os programas, há opções para quem quer abandonar “o vício em pornografia”, “os maus hábitos alimentares”, “drogas e o álcool” e para “focar a atenção em Jesus Cristo”. Segundo a empresa, mais de 416 mil pessoas já se beneficiaram.

Apesar de não estar mais disponível para iPhones e iPads, o app ainda pode ser encontrado no Google Play, loja de aplicativos da empresa de busca. Os cursos estão disponíveis também na forma de plug-in para o navegador Google Chrome.

O aplicativo é alvo de uma mobilização na internet contra a “cura gay”. Uma petição que pede sua exclusão das lojas da Apple e do Google alcançou 60,3 mil assinaturas até a publicação dessa reportagem.

Iniciada na terça-feira (29), a petição tem o objetivo de chegar a 75 mil subscrições. “Estes chamados tratamentos podem causar terríveis danos a lésbicas, gays, bissexuais e transexuais, ou quaisquer pessoas forçadas a tentar mudar quem são ou quem elas amam”, diz o texto da petição hospedada no site All Out.

“Apple e Google possuem políticas contra esse tipo de app, mas este escapou de seus crivos.”



Haddad compara gays a cristãos na Parada Gay de SP

A matéria é do GGN:

Haddad compara gays a cristãos e negros em evento da Parada Gay de SP

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, comparou neste domingo (2) os gays aos cristãos. "Assim como os homossexuais, os judeus, os cristãos, os negros e as mulheres já tiveram que defender seus direitos ao longo da História", afirmou Haddad em evento de abertura da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, conhecida como Parada Gay, que acontece hoje na região da avenida Paulista.

Segundo ele, a Parada é mais uma jornada "desta luta por aceitação e contra a intolerância". De acordo com Haddad, "aquele que é homofóbico hoje em dia já precisou lutar por sua própria liberdade em algum momento. Não podemos admitir que alguém que foi vítima de discriminação hoje persiga alguém".

O prefeito afirmou ainda que a luta LGBT em busca de convivência pacífica é de todos. "Quem não compreende isso terá que se render aos fatos. O ser humano nasceu para ser livre e será livre".

Kit gay

Indagado sobre a possibilidade de um kit gay nas escolas da rede municipal, Haddad disse que já existem programas de combate à intolerância na rede de ensino que focam não apenas a diversidade sexual, mas preconceitos de cor.

O tema da parada este ano será "Para o armário nunca mais! União e Conscientização na luta contra a homofobia". O objetivo dos organizadores é lutar contra possíveis retrocessos nos direitos já conquistados pela comunidade LGBT. A manifestação contra figuras públicas que de alguma forma se posicionaram contra os homossexuais será feita no último dos 17 trios elétricos a desfilar pela avenida Paulista.

"Lugar de religião é na igreja e não no Legislativo"

O presidente da APOGLBT, Fernando Quaresma, criticou neste domingo (2) a omissão do Poder Legislativo com relação à ampliação dos direitos LGBT. "Enquanto o Judiciário faz justiça, o Congresso se omite e o fundamentalismo religioso tem prevalecido na Casa. O Estado é laico e lugar de religião é na igreja".

Quaresma também criticou empresas que se dizem amigas dos gays, mas tem receio de ligar suas marcas à Parada. "Muitas companhias só querem o dinheiro dos gays, mas não a responsabilidade social que o apoio a esta causa traz".

Apesar do clima de festa do evento, Quaresma afirmou que a Parada "não é Carnaval fora de época" e sim mais uma possibilidade de dar visibilidade para um setor da sociedade que é oprimido.

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL - RJ) também defendeu a aprovação da PL 122 e falou da necessidade de transformar a liminar do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) , que aprovou o casamento gay, em lei. "Também precisamos de leis que garantam mais direitos às pessoas trans. A transexualidade ainda é vista como uma patologia. E muitas vezes para conseguir a operação para readequação sexual, a pessoa trans precisa se identificar como um doente".

A ministra da Cultura, Marta Suplicy, classificou a eleição do pastor Marco Feliciano, deputado federal pelo PSC, para a presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados como uma "tragédia grega". "Eu sou psicológa e ser gay não é considerado uma doença há muito tempo. Colocar alguém que quer discutir a cura gay à frente da comissão é um enorme desrespeito à comunidade LGBT".



domingo, 2 de junho de 2013

Seria a eutanásia justificável do ponto de vista cristão?


Nossa leitura especial de domingo traz um artigo instigante traduzido e publicado pelo IHU.

É um texto longo e (devo alertar) inconclusivo, mas que aponta caminhos muito interessantes, não só morais ou teológicos, para um debate que todos preferiríamos evitar, mas alguns, infelizmente, terão que enfrentá-lo um dia, talvez:

Pode haver uma justificação cristã da eutanásia?
Artigo de Giannino Piana

Por trás da tendência de submeter o paciente a qualquer tipo de tratamento, há muitas vezes, de um lado, uma concepção equivocada da vida humana reduzida à sua dimensão biológica e, de outro, a busca (talvez inconsciente) de autoafirmação do médico. Mas, sem dúvida, a razão mais importante da demanda eutanásica hoje é constituída pela conscientização cada vez maior do direito de morrer com dignidade.

A análise é do teólogo italiano Giannino Piana, ex-professor das universidades de Urbino e de Turim, e ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas. O artigo foi publicado na revista italiana MicroMega, n. 4, de maio 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A eutanásia é uma prática presente em todas as sociedades e culturas – desde as mais remotas às atuais – que assumiu (e assume) ainda conotações e significados diferentes, de acordo com as modalidades com as quais é executada e com as motivações que justificam o recurso a ela.

Sem entrar no mérito de uma pesquisa histórica (e antropológica), que nos levaria longe e que, além disso, se afasta da intenção deste ensaio, pode-se dizer que a eutanásia é hoje comumente entendida como aquele conjunto de ações ou de omissões intencional e diretamente destinadas a pôr fim à vida ou a acelerar a morte de um doente que se encontra em condições desesperadoras.

A eutanásia, portanto, é motivada por uma atitude de piedade com relação a uma pessoa que vive em uma situação particularmente penosa e que se pretende, desse modo, subtrair a mais sofrimentos.

Essa restrição da área semântica do termo é importante por muitas razões. O que desaparece é sobretudo a ambígua distinção entre eutanásia ativa e eutanásia passiva: a passiva, de fato, não tem aqui razão de ser, já que ou se configura como omissão terapêutica destinada a provocar a morte – e então é eutanásia de pleno direito que não precisa de outras adjetivações – ou é recusa da obstinação terapêutica [também chamada de "distanásia", ndt] e como tal certamente não pode ser definida como eutanásia.

Mas, acima de tudo, tal restrição permite excluir do âmbito da eutanásia questões como a do aliviamento do sofrimento ou da omissão de tratamentos que provoquem um prolongamento abusivo da vida e que, portanto, devem ser inscritos no caso particular da obstinação terapêutica.

A insistência com que aflora hoje a exigência de reconhecimento da eutanásia, não só no campo legislativo, mas também no ético, se deve a razões de outro tipo, que merecem ser, ainda que sinteticamente, enucleadas.

A primeira – e a mais relevante – dessas razões é a constatação da multiplicação de situações em que a vida pessoal parece estar gravemente comprometida na sua dignidade por causa de formas de prolongamento artificial que a destituem da sua qualidade humana. O progresso científico-tecnológico no campo biomédico, que estendeu consideravelmente as esperanças de vida, vencendo estados patológicos antes letais, corre o risco, às vezes, paradoxalmente, de se transformar em instrumento de novas alienações.

Por trás da tendência de submeter o paciente a qualquer tipo de tratamento, embora mantendo-o com vida, há muitas vezes, de um lado, uma concepção equivocada da vida humana reduzida à sua dimensão biológica e, de outro, a busca (talvez inconsciente) de autoafirmação do médico, que interpreta de maneira totalmente distorcida o seu próprio dever de serviço à vida.

Mas, sem dúvida, a razão mais importante da demanda eutanásica hoje é constituída pela conscientização cada vez maior do direito de morrer com dignidade. A recuperação da centralidade do sujeito humano, que é uma característica qualificadora da nossa cultura, implica o respeito absoluto pela dignidade pessoal e a consequente afirmação de uma série de direitos, incluindo o de enfrentar serena e lucidamente, tanto quanto possível, a morte como evento no qual a vida chega a cumprimento. Esse também é o motivo que está na base do princípio de autonomia ou de autodeterminação, que é um dos pilares da bioética contemporânea.

Critérios gerais de avaliação moral

Como, então, avaliar a eutanásia no campo da ética? Em que parâmetros o seu julgamento deve se inspirar, levando em conta a complexidade das situações e a necessidade de fazer referência a uma concepção da vida humana como vida pessoal e relacional, e portanto não exclusivamente biológica?

Acima de tudo, deve-se dizer que o julgamento ético sobre a eutanásia (entendida em sentido próprio e restrito segundo a definição dada acima) só pode ser negativo. O direito de existir é "o" (e não "um") direito fundamental da pessoa, por ser fundante de todos os outros direitos, e portanto a proteção da vida em todas as fases do seu desenvolvimento é um dever inderrogável. Essa visão, em princípio, é compartilhada pela grande maioria das éticas seculares e por todas as éticas de inspiração cristã.

No entanto, a avaliação globalmente negativa do ato eutanásico não implica necessariamente a rejeição de qualquer forma de eutanásia.

O preceito "não matarás" – como destacam diversos teólogos morais católicos (cf. E. Schockenhoff. Etica della vita. Un compendio teologico. Bréscia: Queriniana, 1997, pp. 186ss) – não constitui um imperativo moral a partir do qual se possa deduzir imediatamente uma ética normativa capaz de enfrentar a globalidade das situações humanas e, sobretudo, de desfazer alguns nós conflitantes para os quais se exige o recurso a mais mediações.

Referindo-se a essa última exigência, uma parte consistente da pesquisa ética secular defende, em nome do princípio de autodeterminação, a possibilidade, diante de situações extremas, de pôr fim à própria vida e de ser ajudado a fazê-lo. Essa posição é motivada com base na consideração de que não há, no plano puramente racional, um dever incondicional de continuar vivendo e que não se pode invocar o conceito de "interesse da vida" onde existe um estado de grave sofrimento e a vida não pode mais ser vivida em condições humanamente aceitáveis.

Nesse caso, o direito a determinar a própria morte não seria nada mais do que uma forma de respeito à dignidade humana, que poderia até tornar imperativa a intervenção de terceiros para permitir a sua realização.

Certamente, pode-se discutir criticamente uma posição como essa que traz consigo o perigo de um afrouxamento do valor da vida com resultados problemáticos para a sua tutela. Mas deve-se reconhecer que não subsistem motivações apodíticas de ordem estritamente racional a ponto de excluir em termos absolutos toda possibilidade de autodeterminação com relação à morte.

A doutrina da Igreja Católica na Evangelium Vitae de João Paulo II

Sem dúvida, é diferente a posição oficial da Igreja Católica.

Uma apresentação orgânica da tradicional doutrina cristã sobre os temas da "vida" e da sua preservação está presente na encíclica Evangelium Vitae, de João Paulo II (1995), que é (também por causa da sua proximidade no tempo) uma referência útil para a ilustração da posição sobre a eutanásia prevalecente hoje dentro do mundo católico.

O pressuposto a partir do qual parte a reflexão do Papa Wojtyla é a concepção da vida como "dom de Deus", portanto como realidade que o ser humano não possui, mas pelo qual é possuído de maneira sempre parcial, sendo a sua vida participação na do Vivente.

"A vida do homem", escreve João Paulo II, " provém de Deus, é dom seu, é imagem e figura d'Ele, participação do seu sopro vital. Desta vida, portanto, Deus é o único senhor: o homem não pode dispor dela. (…) A vida e a morte do homem estão nas mãos de Deus, em seu poder: 'Deus tem nas suas mãos a alma de todo o ser vivente, e o sopro de vida de todos os homens' — exclama Jó (12, 10). 'O Senhor é que dá a morte e a vida, leva à habitação dos mortos e retira de lá' (1Sam 2, 6). Apenas Ele pode afirmar: 'Só Eu é que dou a vida e dou a morte' (Dt 32, 39)" (Evangelium vitae, n. 39).

A partir dessas considerações, que conferem à vida humana um caráter radicalmente "sagrado", descende a sua absoluta inviolabilidade, ou seja, o fato de a ela ser devido um respeito incondicional. A consciência de que, tanto da vida, quanto da morte, não somos donos solicita, de um lado, o cultivo de uma atitude de confiança na vontade de Deus (n. 46); e implica, de outro, a formulação de uma severa condenação moral de toda forma de atentado contra a vida e contra a sua integridade, incluindo obviamente a eutanásia, cuja inaceitabilidade ética, para além das razões pessoais e sociais, deve ser buscada principalmente – esta é a tese de Agostinho retomada posteriormente por Tomás de Aquino – na rejeição da soberania de Deus sobre a vida e sobre a morte (n. 60).

Não faltam no documento papal duas importantes anotações que parecem atenuar a rigidez com a qual os princípios são enunciados ou, ao menos, parecem sugerir uma certa flexibilidade na sua aplicação. Alude-se, por um lado, ao reconhecimento da relatividade da vida terrena, à admissão de que ela não é realmente "última", mas apenas "penúltima", e que, consequentemente, pode-se (às vezes deve-se) renunciar a ela por um bem maior (nn. 2 e 47); e, por outro lado, à admissão da presença de situações complexas e conflitantes nas quais "os valores propostos pela Lei de Deus parecem formar um verdadeiro paradoxo"; situações que envolve, portanto, o recurso a formas de compromisso ou de mediação (n. 55).

A essas importantes afirmações de princípio, porém, não se segue nenhuma tradução no âmbito das vivências, aponto de deixar transparecer a possibilidade de um julgamento menos severo contra a questão eutanásica.

Uma proposta alternativa

A reflexão teológica (sobretudo a mais comprometida) se esforçou, nas décadas mais recentes, para abrir novos caminhos, solicitada pela complexidade das situações existenciais às quais a a própria Evangelium Vitae de João Paulo II se refere. Entre aqueles que se moveram nessa direção, Hans Küng merece uma menção especial, que chegou a afirmar a existência de um direito cristãmente responsável à autodeterminação em morrer (cf. H. Küng; W. Jens. Della dignità del morire. Una difesa della libera scelta. Milão: Rizzoli, 1966, especialmente as pp. 60-90). No direito a uma vida digna, segundo o teólogo suíço, não se pode deixar de incluir também a possibilidade de o ser humano decidir quando e como quer morrer.

Tal direito, que deve ser exercido no contexto de uma liberdade consciente que não deve ser confundida com o arbítrio ou o capricho, é justificada por Küng mediante o recurso a argumentos éticos e teológicos que merecem séria consideração: da revelação reconhecimento de que o direito de continuar vivendo não pode se tornar um dever absoluto – o direito à vida não pode ser confundido com uma coerção a viver – à tese de que, sendo o início da vida humana posto por Deus nas mãos da responsabilidade do ser humano, pode-se analogamente pensar que o o fim da vida também vem de Deus, posto sob tal responsabilidade.

Nesse contexto, a eutanásia adquiriria legitimidade como expressão de uma ética da responsabilidade que recupera a autonomia do ser humano por ser fundamentada na própria vontade divina: o contexto de aliança em que o "dom" da vida se inscreve implica, de fato, na livre resposta do ser humano.

Trata-se – observa Küng – de uma espécie de "terceira via teológica e cristãmente responsável entre um libertinismo antirreligioso e irresponsável ('direito ilimitado de suicídio') e um rigorismo reacionário sem compaixão ('mesmo o que é insuportável deve ser acolhido como dom de Deus')".

A liberdade de decidir em consciência o modo e o tempo da morte seria, portanto, segundo Küng, uma prerrogativa do ser humano. A certeza de fé de que a morte não é o objetivo final, mas que a vida mortal se abre para a vida eterna, por outro lado, tornaria pouco importante o prolongamento indefinido da vida biológica em condições humanamente não dignas; enquanto, por sua vez, o fato de as ciências biomédicas favorecerem a possibilidade de tal prolongamento só acentuaria – ainda é Küng que enfatiza – a necessidade de um suplemento de consciência subjetiva, dando um impulso mais sólido ao direito à autodeterminação e favorecendo a sua extensão também ao concurso de terceiros ou à possibilidade de uma opção autônoma sua nos casos em que é impossível conhecer a vontade do paciente e em que, no entanto, pode-se presumir que o seu desejo só pode ser o de morrer.

Observações para um balanço crítico

A provocação de Küng, cujas argumentações devem ser seriamente discutidas, em todo o caso, nos faz intuir que a questão da autodeterminação diante da morte é uma questão complexa, merecedora como tal de uma atenta reflexão. As razões em favor da autodeterminação, incluindo aquelas de ordem teológica, não são nada peregrinas. As argumentações contrárias, que apelam à radical indisponibilidade da vida humana por ser "dom" de Deus ou por ser dotada de uma "santidade" constitutiva, são insuficientes: de fato, elas se colocam em nível metaético ou parenético e, como tais, não podem se revestir de um caráter absoluto, muito menos ser imediatamente transpostas para o âmbito normativo.

Além disso, a tradição moral cristã conhece a existência de consistentes exceções à proibição de matar, sobretudo no campo da vida pública – basta pensar na justificação da guerra ou, hoje, ao menos, em operações de polícia internacional –, enquanto estranhamente sempre assumiu uma atitude de intransigente rejeição de qualquer exceção onde estejam em jogo questões pertencentes à esfera da vida privada: do aborto ao suicídio, passando pela eutanásia.

Pode-se dizer que se verificou uma política de via dupla ou, mais corretamente, que se adotou (e em parte continua sendo adotado) um método de abordagem diferente: no primeiro caso, a referência é a um modelo teleológico, baseado na medição, caso a caso, das consequências positivas ou negativas das ações; no segundo, a um modelo deontológico, para o qual o que conta é apenas a fidelidade aos princípios (ou aos valores), "aconteça o que acontecer", sem nenhuma atenção às consequências, por isso, positivas ou negativas das ações.

Não se vê, de fato, por que não se deve recorrer, mesmo no caso das questões relativas à vida privada, a uma responsável ponderação dos valores em jogo, avaliando concretamente o contexto, as circunstâncias e as consequências das ações tomadas.

Por outro lado, não são totalmente infundadas as objeções que alguns dirigem às argumentações de Küng. De fato, há quem aponte para a diversidade que existe entre a decisão de dar início a uma vida que não existe e a de eliminar uma vida já plenamente formada, mesmo que em fase de declínio; e quem enfatize como a responsabilidade humana, embora grande, não é ilimitada, porém.

Na ótica da fé, não é o ser humano que se dá a vida, e nem depende totalmente dele o fato de conservá-la; por isso, é difícil defender que ele possa reivindicar, em termos absolutos, o direito de tirá-la. Se a vida está, do início ao fim, em mãos alheias – observa-se – decorre que é dever do ser humano se reconciliar com os limites da própria existência e aceitar as fronteiras que lhe são traçados de fora; recuperar, em outras palavras, a dignidade da própria finitude.

A consciência dessa verdade e o reconhecimento da dependência de Deus, não em uma perspectiva de vago e estéril providencialismo, mas sim de verdadeiro compromisso, também tornam menos difícil a acolhida das situações-limite: "Há uma passividade", escreve Eberhard Jüngel, "sem a qual o ser humano não seria humano. Faz parte dela o fato de que somos paridos. Faz parte dela o fato de que somos amados. Faz parte dela o fato de que morremos" (E. Jüngel. Morte. Bréscia: Queriniana, 1972).

Mesmo dessas considerações críticas, não brotam, além disso, orientações normativas absolutas e sem exceção; o que deriva delas é a constatação de que o princípio de autodeterminação relativo ao morrer deve fazer as contas com limitações objetivas, que tornem o mínimo possível problemáticas as suas aplicações extensas e incontroladas demais. E isso por diversas razões, algumas das quais merecem ser aqui mencionadas.

Pense-se, em primeiro lugar, na dificuldade de decifrar o pedido de morrer expressado pelos doentes terminais. A atividade clínica indica que tal pedido contém às vezes uma mensagem diferente da significada através das palavras: de fato, em alguns casos, é simplesmente um apelo para não ser deixado sozinho e um pedido de ajuda.

Ou ainda pense-se no risco de que a introdução da eutanásia se transforme de "solução extrema" a prática habitual, freando a busca de alternativas e substituindo-se à mais dispendiosa gama dos cuidados assistenciais, além de dar origem a uma espécie de "ladeira escorregadia" (assim é chamada), que provoca a queda de barreiras morais destinadas a proteger o indivíduo, impedindo que os interesses econômicos e sociais acabem prevalecendo com sérios danos para as categorias mais frágeis.

Quais dispositivos legislativos?

Se, depois, do nível ético, se passa para o legislativo é imperioso lembrar que a busca de soluções deve se desenvolver de um modo totalmente "secular", mediante o recurso a um debate público aberto em que haja debates com base em argumentações racionais. As dificuldades, a esse respeito, são de grande importância.

De um lado, de fato, é cada vez mais percebida a gravidade de situações que exigiriam o recurso à eutanásia; de outro, cresce o medo de abrir com a sua introdução uma falha, que poderia levar à queda de barreiras defensivas fundamentais com relação a categorias antes marginais, que correriam o risco de ser desapropriadas até mesmo do direito a existir.

Assim, há quem considere que é preciso vencer a tentação de legislar reconhecendo a dificuldade objetiva de encontrar conceitos apropriados para definir a questão; e quem, ao contrário, acredite que não é apenas legítima, mas também desejável e até mesmo imperiosa a intervenção legislativa, por ser ética e juridicamente mais correta do que o recurso a um vago "estado de necessidade" ou o fato de se confiar de modo paternalista à decisão do médico individual.

No primeiro caso, o que se teme é sobretudo que a louvável intenção de proteger a liberdade dos indivíduos possa se transformar no perigo de prendê-los em uma rede jurídica abstrata e inadequada; no segundo – mesmo na consciência dos possíveis abusos e, por isso, da necessidade de estabelecer garantias precisas, tais como o pedido explícito do paciente, a intolerável condição de dor e a prescrição de normativas claras –, considera-se, no entanto, que deve ser primeiramente salvaguardado o respeito à consciência do paciente e, portanto, o seu direito à autodeterminação.

É difícil optar definitivamente por uma ou por outra posição. Um julgamento seriamente fundamentado, talvez, pode ser expressado com base na verificação dos efeitos produzidos pelas várias legislações, particularmente por aquelas que há muito tempo introduziram a legalização da eutanásia. Sem esquecer, no entanto, que, estando em jogo um valor fundamental como o da vida, não é possível reduzir tudo à definição de regras processuais fundamentadas no consenso ou em uma argumentação puramente estratégica; exige-se uma abordagem global que busque como objetivo a avaliação dos reflexos das eventuais decisões em termos de progresso ou de recuo de civilização.

Para além de eutanásia: a busca de perspectivas mais amplas

A demanda por eutanásia assumiu nos nossos dias proporções tão vastas também por causa de uma série de fatores de ordem cultural e estrutural, que contribuíram para acentuar os estados de sofrimento de sujeitos que vivem em condições particularmente difíceis.

A possibilidade de limitar tal demanda, sempre e em todo caso grave, está ligada, portanto, à criação de condições que permitam sair de tal angústia, favorecendo a promoção de situações qualitativamente aceitáveis.

a) Um lugar de destaque nessa revisão de condições deve ser atribuído acima de tudo à revisitação, em chave antropológica, de categorias como vida, morte, sofrimento etc. nas suas implicações existenciais. Reveste-se de grande importância, principalmente, o abandono de uma concepção redutiva da vida humana, identificada com o simples fato biológico, para assumir – como já foi lembrado – uma concepção que privilegia o aspecto pessoal e relacional e, portanto, a dimensão qualitativa.

A Bíblia, quando fala de vida, sempre o faz com relação à positividade da existência, tendo em vista uma existência cheia de sentido. A morte, ao contrário, é considerada como carência e indigência, como a perda do que torna a vida digna de ser vivida.

Disso deriva, de um lado, a exigência de eliminar todos aqueles traços de déficit da vida, que muitas vezes acompanham a condição de doença e tornam mais cansativa suportá-la; e, de outro, de ajudar o paciente a se reconciliar com a própria finitude e a assumir um estilo de vida sapiencial, que permita enfrentar menos tragicamente o drama do morrer. Trata-se de oferecer a quem sofre a possibilidade de sair do isolamento que leva ao desespero e de experimentar a companhia, silenciosa mas amorosa, de quem dá conforto e promessa de futuro.

b) Outro papel importante é exercido depois – essa é a segunda ordem de condições – pelos cuidados paliativos, que fornecem serviços proporcionais à situação do doente e evitam inúteis forçações devida a pretensões milagreiras totalmente irracionais. A demanda eutanásica, de fato, é muitas vezes ditada ou pelo medo de incorrer na obstinação terapêutica, em que o prolongamento artificial da vida se associa à sua desqualificação humana; ou, ao invés, de ser abandonado, sobretudo na fase terminal (alguns, por isso, cunharam o termo "eutanásia por abandono").

O reconhecimento de que não existem doentes "incuráveis" e de que o cuidado deve ser garantido a todos, mesmo àqueles que são considerados clinicamente "incuráveis", torna necessária a criação de estratégias terapêuticas, que garantam padrões de vida qualitativamente bons ou ao menos aceitáveis.

Os cuidados paliativos são funcionais para esse escopo; de fato, eles se inspiram no paradigma da medicina "holística", preocupada não só em curar a parte doente, mas também de "cuidar" de modo global do paciente e do ambiente em que ele vive, com a objetivo de tornar menos insuportáveis as horas de vida que lhe restam e menos traumática a aproximação à morte.

O caminho a ser percorrido para buscar os objetivos aqui propostos não é fácil, e não resolve, em todo o caso, em termos radicais, a exigência do recurso à eutanásia, que continua sendo, em algumas condições extremas, uma questão em aberto.

Mas o desenvolvimento de uma nova sensibilidade social e cultural, que vença as resistência do individualismo e se encarregue da qualidade de vida daqueles que enfrentam condições de particular precariedade, é uma exigência inderrogável. A capacidade de levar uma ajuda real a quem sofre nas diversas situações existenciais em que se encontra é obra de alto significado humano e sinal de verdadeiro crescimento civil.



sábado, 1 de junho de 2013

Morrer pode ser chic


Bom, tem até a versão caixão de papelão, segundo a BBC Brasil, mas o seu enterro também pode ser vip:

De lápides inteligentes a caixão biodegradável: inovações na indústria funerária

Juanjo Robledo

Você consegue imaginar uma lápide colorida, com fotos do falecido e com um código para ler sua biografia na internet?

Esta é apenas uma das inovações da Funermostra, uma feira de produtos funerários realizada em Valência, na Espanha.

No evento, que reúne mais de 120 expositores internacionais, você também pode encontrar carros funerários com HDTV, caixões de plástico e papelão biodegradáveis e motos Harley Davidson com suporte para levar o falecido para o local de seu descanso final.

Confira as principais novidades desse mercado:

Caixão biodegradável

Eles já começaram a ser conhecidos como caixões anticrise ou caixões ecológicos. Isso porque um modelo feito de papelão reciclado da empresa RestGreen custa cerca de US$ 190 dólares, enquanto os caixões tradicionais podem chegar a US$ 1.700 dólares.

"Além de ser o caixão mais barato do mercado, ele é ecológico e biodegradável, se desfazendo completamente no solo em cerca de seis meses ", explica Javier Ferrandiz, sócio da empresa.

Embora seja feito de papelão, ele resiste a um peso de até 200 quilos. O modelo completo, que pode ser personalizado com fotos ou imagens, vem com uma caixa de madeira na qual você coloca um caixão de papelão.

"Desta forma, o funeral pode colocar e tirar os ecocaixões", disse o empresário.

Carros funerários com HDTV

Mais do que carros funerários, esses Mercedes Benz se parecem mais com naves espaciais. A empresa Bergadama, que tem sede em Barcelona, instala nesses carros o que há de mais moderno em termos de tecnologia, desde iluminação LED a cores personalizadas, ativadas por controle remoto.

A tecnologia Drieam Film permite que se coloque uma camada de polímeros e cristais líquidos nas janelas do veículo, que funcionam como uma cortina. Se as partículas de cristal líquido recebem uma corrente eléctrica, bloqueiam a passagem da luz, impedindo o caixão de ser visto a partir do exterior do veículo.

Alguns modelos também possuem uma televisão de alta definição, que pode projetar imagens e vídeos durante a cerimônia. O preço desses carros funerários? Entre US$ 78 mil a US$ 103 mil.

Lápides com código QR

À primeira vista, as lápides Vitrolap lembram capas de revistas ou perfis de redes sociais. Algumas são coloridos, com fotos do falecido, com paisagens e frases.

"Há uma revolução no mundo do funeral. Costumamos usar costumes e estética muito antigas, enquanto podemos muito bem ser criativos", diz Angel Maria Juste Aranda, diretor da empresa.

Feita de vidro resistente, a lápide tem a qualidade de uma imagem de alta definição e também permite que você inclua um código QR – uma espécie de código de barras que ao ser "lido" pela câmera do celular, ele leva a um site.

"Com um smartphone, você pode se conectar a um site ou a um blog para ler sobre o falecido, ver suas fotos, ouvir suas músicas favoritas. E também é uma forma de o falecido continuar a viver na internet." Essas lápides custam cerca de U$ 190.

Enterro sem sair da moto

Depois de ir ao funeral de três amigos motociclistas, Daniel Quiroga Guindín sentiu que estava faltando algo: uma longa linha de motos Harley Davidson a rugir seus motores durante o adeus aos amigos.

"É assim que eu gostaria que fosse meu funeral", conta Guindín, também motociclista, da Funeraria Carranza, de Vizcaya.

A partir daí, surgiu a ideia de adaptar uma Harley Davidson preta para transportar caixões em um serviço que inclui ainda obituários e lembretes com estética da famosa motocicleta.

"Em muitos países, os funerais são bastante solenes e tratados de forma clássica. Mas muitas pessoas querem dizer adeus a seus entes queridos de outra forma, como tendo suas cinzas jogadas de balão ou ultraleve", diz Guindín.

Esse tipo de funeral tem um custo entre US$ 390 e US$ 1.000.

Caixões refrigerados

No interior dos caixões da empresa CEABIS expostos na feira, há duas garrafas de champanhe. Tudo para demonstrar sua capacidade de refrigeração. Eles são adaptados com sistema de ar condicionado, que permite preservar o corpo do falecido durante dias.

"É um produto destinado para famílias que ainda têm o hábito de velar seus entes queridos em casa. E é uma ferramenta muito útil para as áreas quentes", diz Jesus Fernandez Godoy, gerente da empresa. A novidade custa em torno de US$ 3.900.



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