sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Origens do misticismo do sal grosso

A notícia abaixo, do caderno Paladar do Estadão, passou um tanto quanto despercebida, mas não deixa de ser curiosa e um testemunho pungente sobre o misticismo que assola o futebol brasileiro:

É sol, é sal, é gol

Por Dias Lopes

Dirigentes do São Paulo espalharam sal grosso em um dos degraus da escada do Estádio do Morumbi, através da qual os jogadores têm acesso ao gramado, no dia 25 de agosto. Era para esconjurar o jejum de vitórias do Brasileirão 2013 que já durava 12 partidas. A mandinga funcionou. O São Paulo venceu o Fluminense do Rio de Janeiro por 2 a 1.

Não é pouco o poder que a fé do povo atribui ao sal grosso. “Afasta o azar, a inveja, o mau-olhado, a doença e as energias negativas”, sustentam os crentes. Alguém atravessa um momento difícil na vida? Que tome banho de sal grosso!

Turbina-se o efeito do sal grosso associando-o a outra crendice. No Estádio do Morumbi, ele foi colocado no terceiro degrau da escada, contado de baixo para cima. Três é um número propiciador, com magia fundamentada na saga cristã. O mistério da Santíssima Trindade preconiza que Deus é único, mas reunido em três figuras distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Três reis magos levaram presentes a Jesus. As Sagradas Escrituras contam que Cristo foi pregado na cruz “na terceira hora” (Mc 15.25). Três mulheres cuidaram do seu corpo. Ele ressuscitou no terceiro dia.

Na magia, sal grosso ou fino, que são a mesma substância (cloreto de sódio), têm finalidade ambivalente. Servem também para amaldiçoar. Os executores de Tiradentes salgaram o terreno da casa onde ele morava, em Vila Rica, para que nada voltasse a nascer ali. Luís da Câmara Cascudo, em um dos capítulos de Superstições e Costumes (Antunes & Cia., Rio de Janeiro, 1958), mostra uma faceta diferente do sal.

Segundo o mestre do folclore, comê-lo junto com uma pessoa reforça laços de convivência. Na França, aconselha-se comer “un miud de sel” com o futuro amigo. Em uma das histórias das Mil e Uma Noites, um homem participa de um assalto ao tesouro do rei. Na escuridão, vislumbra alguma coisa branca que brilha e a toca com a língua. Muda imediatamente de lado. Considera-se hóspede do rei, ligado a ele pelo laço da hospitalidade estabelecida pelo sal. Enfrenta os outros ladrões e os obriga a interromper o assalto.

Segundo Cascudo, justamente pelo fato de ser um símbolo de amizade, derramar sal é um gesto de repúdio, de traição. Leonardo da Vinci, no afresco Última Ceia, pintou um saleiro entornado diante do cotovelo de Judas. O traidor de Cristo se matou a seguir. Acredita-se que a Igreja Católica assimilou esse e outros significados do sal para incorporá-lo a seus rituais. Até 1973, empregou-o no batismo das crianças. O oficiante tomava o sal na mão e fazia o batizando provar uma pitada. Simbolicamente, purificava as culpas e pecados, acendia a luz da fé e promovia a aliança com Deus.

Na raiz das superstições em torno do sal se encontra a perplexidade do homem primitivo com seus prodígios na alimentação. Até o século 20, foi a mais importante substância para conservar e manter o sabor dos alimentos. Sem o sal não haveria o charque e o bacalhau, por exemplo.

Os exércitos e os navegadores de antigamente teriam passado fome em suas expedições se não dispusessem da comida preservada pelo sal. Ele também beneficiou a indústria moderna. Do pão de fôrma ao presunto, nenhuma substância natural prolonga mais a validade dos alimentos e lhes dá tanto sabor.

O organismo humano precisa do cloreto e do sódio reunidos no sal para manter o equilíbrio do corpo, a atividade dos músculos e nervos. Mas a medicina quer acabar com ele. Alega que seu consumo excessivo aumenta a pressão arterial e causa problemas renais, arritmia, infarto, etc. Se o sal for banido, porém, nossa comida ficará insípida e, no jogo de volta, o São Paulo vai levar uma goleada do Fluminense.



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A greve de fome da feminista russa


As militantes feministas do grupo Pussy Riot foram presas e condenadas por "incitamento ao ódio religioso" em 2012, depois de terem se manifestado durante uma celebração ortodoxa russa na Catedral do Cristo Salvador, em Moscou.

Matéria publicada no portal português Público, com grafia lusitana, já que a reforma ortográfica foi mais uma lorota que nos contaram, e deve ter servido só para alguns espertalhões venderem livros e dicionários:

Pussy Riot em greve de fome: “As prisioneiras da colónia nº 14 têm medo das próprias sombras”

ANA DIAS CORDEIRO

Nadezhda Tolokonnikova, das Pussy Riot, entrou em greve de fome. Explica que o método "extremo" é o único possível num lugar onde o silêncio é imposto pelo terror.

Nadezhda Tolokonnikova, uma das duas Pussy Riot ainda presas, entrou em greve de fome. “É um método extremo” mas “a única forma de sair da situação em que me encontro”, escreve numa carta aberta em que detalhadamente denuncia as condições desumanas da colónia prisional da Mordóvia, para onde foi transferida no Outono passado. Uma situação também ela extrema, diz, perante a violência infligida a si e às outras prisioneiras, ainda mais indefesas por não serem, como ela, um foco da atenção do público.

Em Agosto de 2012, as três Pussy Riot foram consideradas culpadas da acusação de hooliganismo e incitamento ao ódio religioso, por terem cantado, uma “oração punk” na Catedral do Cristo Salvador, em Moscovo, na qual criticavam a Igreja Ortodoxa russa e Vladimir Putin. Nadezhda Tolokonnikova foi então condenada a dois anos de prisão, juntamente com Maria Aliokhina e Iekaterina Samutsevich, entretanto libertada.

Dentro da colónia penal nº 14, “o silêncio é imposto” pelo terror, diz nesta carta aberta publicada no jornal britânico The Guardian. As prisioneiras “têm medo das próprias sombras, vivem aterrorizadas". Não se ouvem queixas. Ou pelo menos, as queixas não atravessam os muros da prisão. Entrar em greve de fome era “a única forma” de se fazer ouvir.

“A administração da colónia prisional recusa ouvir-me”, expõe. “E eu recuso baixar os braços. Não ficarei em silêncio, resignada a ver colegas da prisão a desfalecer sob a pressão de condições de escravatura. Exijo que sejamos tratadas como seres humanos.”

Nadezhda Tolokonnikova lembra que chegou aqui há um ano, vinda do centro de detenção de Moscovo, onde a colónia prisional nº14 já era tristemente célebre por dela se dizer: “Quem nunca cumpriu pena no campo da Mordóvia, simplesmente não cumpriu pena.”

Violações flagrantes

Nada parecia, pois, comparar-se a este lugar, onde “os níveis de segurança [prisional] são os mais altos, os dias de trabalho mais longos e as violações de direitos humanos mais flagrantes.” Na colónia penal nº14, “ninguém ousa desobedecer”, onde o trabalho forçado ocupa dois terços das horas do dia, se dorme quatro horas e se tem uma folga a cada mês e meio. Aqui onde as mulheres podem ser espancadas por tudo e por nada – quando, por exemplo, não conseguem cumprir o nível irrealista de produção diária exigido na fábrica de uniformes da polícia onde Nadezhda Tolokonnikova trabalha. O corpo desfalece perante a brutalidade e, quando os sinais de doença surgem, as súplicas são atendidas sim, mas com humilhação e insultos.

Uma prisioneira de 50 anos, que sofria de tensão alta e se sentia mal, pediu um dia para terminar o turno mais cedo e dormir uma noite completa de oito horas, conta Tolokonnikova. Em vez disso, foi insultada e acusada de ser “parasita”. Noutro caso, uma mulher cigana foi espancada até à morte, há um ano. “A administração encobriu a morte [declarada na unidade médica da prisão]: a causa oficial foi uma trombose.”

Forçar à submissão

Algumas prisioneiras são instrumentalizadas pelos responsáveis. A mando destes ou com o seu consentimento, são elas que agridem as colegas que ficam abaixo das quotas exigidas num dia de trabalho de 16 ou 17 horas.

Os maus tratos são “um método conveniente” para a administração “forçar as prisioneiras à submissão total perante os sistemáticos abusos de direitos humanos”, continua a activista, antes de descrever a “atmosfera ameaçadora, de ansiedade que invade a [sua] área de trabalho”. E os casos de mulheres que, derrotadas pela falta de sono, “pela interminável luta de cumprir quotas de trabalho desumanas”, ficam à beira do esgotamento e se agridem mutuamente, pelas mais pequenas coisas do dia-a-dia ou, fora de controlo, se autoflagelam.

Nadezhda Tolokonnikova lembra-se de ter sido acolhida pelo chefe-adjunto da colónia, tenente-coronel Kupriyanov, que é na realidade, quem administra a prisão: “Devia saber que, no que diz respeito à política, sou um estalinista”, disse-lhe já depois de pressionada a “confessar a culpa”. E quando ela respondeu que apenas trabalharia o previsto no código laboral, oito horas por dia, o outro responsável da administração, coronel Kulagin, prontificou-se a esclarecer que na colónia, a regra era outra. “A nossa força de vontade é maior do que a tua.”

Violações "intermináveis"

O desrespeito pelos direitos e necessidades básicas – como o repouso, a alimentação ou a higiene – são “intermináveis”, escreve Tolokonnikova. “As condições de vida e de higiene do campo são calculadas para as prisioneiras se sentirem como um animal imundo e sem direitos”, denuncia ao mesmo tempo que relata momentos em que a sua unidade perdeu o direito a um banho durante duas ou três semanas.

“A administração força as pessoas ao silêncio”, diz Tolokonnikova. "Todos os outros problemas derivam deste. A administração sente-se intocável.” A activista diz que não compreendia por que toda a gente ficava em silêncio. Até ao dia em que ela própria se deparou “com uma avalancha de obstáculos que se abate sobre quem decide falar”. E continua: “As queixas simplesmente não saem da prisão”, diz sem especificar como conseguiu publicar esta carta.

Uma revolta é, porém, impensável. “Ninguém ousa desobedecer.” A uma exposição, pedido ou queixa por escrito, como fez Tolokonnikova, através do seu advogado, a solicitar o respeito dos direitos humanos das prisioneiras, a administração prisional sobe o nível de ameaça e opressão. Em resposta pela acção individual da activista, aplica o castigo colectivo que inibe, paralisa.

O efeito do castigo colectivo

“É possível tolerar qualquer coisa desde que nos afecte a nós apenas. Mas o método do castigo colectivo é maior do que isso. Significa que toda a unidade ou mesmo toda a colónia é submetida ao mesmo castigo. Isto inclui, pessoas a quem entretanto nos ligamos”, escreve, dando exemplos de amigas que sofreram represálias pelas queixas expressas pela activista. Uma viu recusada a passagem a liberdade condicional por que tinha lutado durante sete anos. Outra foi “atirada” para a unidade de espancamentos diários. O tenente-coronel Kupriyanov teve o cuidado de dizer a Tolokonnikova que tudo isto acontecia por causa dela. Nesse momento, ela decidiu parar: “Pus fim ao processo de interpor queixas.”

Agora, lembra que depois de uma dessas queixas, a vida na "unidade e brigada de trabalho” se tornou “impossível”. Desde então, “a pressão não tem parado de aumentar”. “Por isso”, conclui, “a partir do dia 23 de Setembro, inicio esta greve de fome e recuso participar no trabalho escravo na colónia. E assim me manterei até ao dia em que a administração decida cumprir a lei e pare de tratar as prisioneiras como gado”. Até “sermos tratadas como seres humanos”.



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Crendices quânticas

Realmente, não devemos nos surpreender quando certos "pastores", "bispos" e "apóstolos" de carteirinha (alguns com ficha corrida) vendem seus "martelos", "colunas", "arcas", "óleos", "mezuzás" e outros objetos supostamente "ungidos".

O povão gosta mesmo é de comprar qualquer coisa que lhes proporciona algum tipo de pensamento mágico com soluções simples e alívio imediato, mas raramente duradouro.

Resumo da ópera: tudo o que os incautos precisam na hora da dificuldade é de um bom efeito placebo.

Nesse borbulhar de interesses muito mais comerciais do que religiosos, a coitada da Física Quântica é apenas mais uma das disciplinas usadas e abusadas pelas crendices populares.

E, como já comentamos aqui em 2009, no artigo "O conto do bilhete premiado", cai quem quer...

A notícia foi publicada na Folha de S. Paulo de 24/09/13:

Feira de medicina quântica tem desde 'essência de golfinhos' até água 'carinhosa'

JULIANA VINES

De um lado, um homem fantasiado de golfinho vende florais com "essências vibracionais" de "golfinhos sutis". Do outro, um estande expõe um filtro de barro que, por R$ 1.500, promete transformar cristais de água em "obras de arte" graças à inscrição "amor e gratidão".

As ofertas foram apresentadas na 4ª Expoquantum, feira de terapias e produtos da chamada medicina quântica, corrente que transpõe conceitos da física para tratamentos alternativos.

A feira aconteceu nos dias 14 e 15 deste mês, no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo. Reuniu 5.000 pessoas e 119 expositores.

A advogada Maria Lucia Teixeira de Araújo, 60, foi "de curiosa". Chegou cética e saiu com uma pulseira holográfica que diz aumentar o equilíbrio --parecida com a pulseira Power Balance, cuja publicidade foi proibida pela Anvisa em 2010.

"Não acreditava", diz. Depois da demonstração feita pelo expositor, não resistiu.

O vendedor pediu que ela cruzasse as pernas, em pé, e tentou desequilibrá-la, primeiro sem e depois com a pulseira. Com as mãos vazias, ela quase caiu. Quando segurou a pulseira de silicone, o homem se pendurou no seu braço e ela não se desequilibrou.

"Ando com mais firmeza. Não tiro a pulseira nem para dormir", disse ela, uma semana depois.

"Nenhum desses produtos tem relação com conceitos da física quântica", diz Daniel Bezerra, físico e autor do livro "Pura Picaretagem" (Leya, 176 págs., R$ 29,90), escrito com o jornalista Carlos Orsi.

Surgida no século 20, a física quântica trata do mundo microscópico. Ao observar a atividade de partículas subatômicas, como elétrons, cientistas descobriram que elas se comportavam de forma diferente da realidade macroscópica.

"O mundo microscópico se descreve com probabilidades, há elétrons que podem atravessar paredes. Mas isso tudo no mundo microscópico", diz Marcelo Knobel, físico e professor da Unicamp.

Para Orsi, os princípios que contrariam o senso comum fazem com que a física quântica seja usada para justificar terapias alternativas. "O raciocínio é: se a física quântica não faz sentido e é ciência, por que tal produto não pode ser também?", diz.

O fenômeno do misticismo quântico começou em 1975, na Califórnia (EUA), segundo Osvaldo Pessoa Jr., professor de filosofia da ciência da USP.

"Surgem correntes que tentam explicar como a física quântica justifica uma visão mística da realidade. Isso tem seu auge nos anos 1990 e 2000 [com os filmes 'Quem Somos Nós?' e 'O Segredo']."

Os dois filmes emprestam outra ideia da física: a de que o ato da observação define qual característica será manifestada por uma partícula.

"Algumas interpretações da física incluem o observador consciente como importante nesse processo. Mas o argumento do filme 'O Segredo' de que o observador pode modificar a realidade não é sustentado", diz Pessoa Jr.



SALTO QUÂNTICO

Para os defensores da medicina quântica, não faltam evidências. "A física quântica é a física das possibilidades", disse à Folha o físico indiano Amit Goswami, hoje o divulgador mais conhecido dessa corrente. Ele esteve no Brasil para um simpósio, realizado com a feira.

"O processo de cura quântica é completamente conhecido. Não há só o corpo físico, há também o energético."

Ele reconhece que há falsas promessas vendidas com o rótulo de ciência. "Isso é esperado. Mas não é suficiente para anular todos os bons resultados dessas terapias."

Por aqui, o pai da saúde quântica é o engenheiro Wallace Liimaa (as vogais foram duplicadas depois de um estudo cabalístico). Organizador do simpósio, ele conta que sentiu os efeitos de terapias quânticas na sua saúde.

"Tinha 25 anos quando tive um 'salto quântico': estava com gastrite, mudei a alimentação e isso mudou meu modo de ser. A saúde quântica vê a doença como oportunidade de transformação."

Para o clínico geral Paulo Olzon, da Unifesp, a abordagem preventiva das terapias quânticas é interessante.

"Não acredito em formulações mágicas. Mas meditação e mudança de atitude em relação à vida podem ter influência sobre doenças."





terça-feira, 24 de setembro de 2013

Pastora assessora de Magno Malta é investigada por crime financeiro


No seu blog, Marta Lança se identifica como "assessora Especial da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Família no Congresso Nacional, Membro da Executiva do Frente Nacional Cristã de Ação Social e Política (FENASP), Membro da Executiva da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), Secretária Executiva do Conselho de Pastores e Ministros Evangelicos de Minas Gerais (CPEMG) e Pastora Auxiliar da Igreja Batista Getsêmani".

Magno Malta é senador pelo PR do Estado do Espírito Santo e um dos expoentes da bancada evangélica no Congresso Nacional.

A notícia é d'O Globo:

Assessora do senador Magno Malta também foi indiciada

Para a Polícia Federal, Marta Lança, pastora evangélica, cometeu crime contra o sistema financeiro

EZEQUIEL FAGUNDES

BELO HORIZONTE - Em outra frente da mesma operação Miqueias, deflagrada pela Polícia Federal para apurar um esquema de lavagem de dinheiro com prejuízo em fundos de pensão de servidores públicos, uma assessora do senador Magno Malta (PR-ES) também é investigada. Lotada no gabinete e amiga do senador desde 1988, a pastora Marta Alves Lança, da Igreja Batista Getsêmani de Belo Horizonte, foi detida em casa, levada para prestar depoimento na superintendência da PF e depois liberada. Apontada como lobista, ela foi indiciada por crime contra o sistema financeiro. Em seu apartamento, um imóvel modesto, foi apreendido um notebook, celular e documentos.

Com salário de R$ 3.500 pagos pelo Senado, Marta Lança mora na capital mineira. Oficialmente, ela exerce a função de secretária na Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família do Congresso Nacional. Mas já atuou para o senador nas CPIs do Narcotráfico e da Pedofilia.

Em depoimento, Marta declarou que, no fim do ano passado, foi apresentada a Almir Fonseca Bento, representante da empresa Invista Empreendimentos Inteligentes, suspeita de lavagem de dinheiro. O interlocutor foi Rogério Arcanjo, assessor do pastor e deputado federal Ronaldo Fonseca, presidente do PR no Distrito Federal. Ao GLOBO, ontem, Marta disse que pediria exoneração.

— Meu nome apareceu nessa investigação porque conversava com a Fernanda, da empresa Investe. Conheci a Fernanda através de um amigo em comum de Brasília, ela veio na minha casa, foi na igreja comigo. Vou pedir para ser exonerada do cargo que ocupo, o senador é um homem idôneo e não quero manchar a imagem dele.

Por sua assessoria, Malta disse ter ficado surpreso com a notícia, afirmou que não vai julgá-la precipitadamente e que aposta na inocência da assessora por se tratar de uma amiga de vários anos, de extrema confiança. O deputado Ronaldo Fonseca e seu assessor, citados no depoimento de Marta, foram procurados, mas não retornaram.



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Bispo de Bauru compra briga com Justiça Eleitoral

O bispo bom de briga
Dom Caetano Ferrari (foto ao lado), bispo da diocese de Bauru (SP), nacionalmente conhecido pela purpurina levantada pela polêmica em que se envolveu ao excomungar o irrequieto padre Beto, agora volta suas baterias contra a Justiça Eleitoral, que cassou cinco vereadores da Câmara Municipal daquela cidade pelo apoio que lhes foi dado pela igreja católica local nas últimas eleições (2012).

Independentemente da questão ética sobre a representatividade política de cada setor da sociedade, do abuso do poder econômico e das relações obscuras que comandam esses apoios eleitorais, cá entre nós, não deixa de ser um tanto quanto hipócrita impedir uma diocese católica de apoiar candidatos num pleito enquanto várias denominações evangélicas têm, cada uma, os seus representantes em todas as esferas de poder.

A notícia foi publicada originalmente no jornal Valor Econômico, e reproduzida pelo IHU:

Dom Ferrari, bispo de Bauru,
luta por vereadores cassados

"Sabe aquele buraco que já fez aniversário na rua da casa? Ou a merenda escolar que não chega até a boca das crianças de sua cidade na quantidade que deveria? Ou o posto de saúde que nunca tem médico para atender? Saiba que a solução para todos esses problemas está na ponta de seus dedos". O texto, ilustrado com uma urna eletrônica, traz a solução: o voto em um dos 20 candidatos católicos, recomendados pelo bispo de Bauru, dom Caetano Ferrari. O apoio da igreja a postulantes a vereador, divulgado em um jornalzinho em Bauru nas eleições de 2012, teve o efeito reverso na cidade do interior paulista. Dos candidatos, 75% foram derrotados e os cinco eleitos foram cassados por conta do apoio católico. Agora, os três vereadores e dois suplentes apoiados pelo bispo lutam na Justiça para voltar ao cargo.

A reportagem é de Cristiane Agostine e publicada pelo jornal Valor, 23-09-2013.

Por trás do folheto, está dom Caetano, um religioso de 71 anos que defende que a igreja "oriente e eduque" os católicos para a política. "É necessário", diz. Com a voz calma e o jeito de desconfiado, o bispo é responsável por guiar 41 paróquias em 14 municípios paulistas, que concentram mais de meio milhão de pessoas.

Nas últimas três eleições, a diocese de Bauru distribuiu folhetos recomendando o voto em candidatos. Em 2012, por meio do conselho de leigos, selecionou os nomes, de diferentes partidos, e organizou o jornalzinho "Voto responsável - informativo dos candidatos a vereador referendados por paróquias da diocese de Bauru". Foram distribuídos 88 mil exemplares aos 248,9 mil eleitores da cidade para divulgar os "idôneos", segundo o bispo. "Não temos partido, mas oferecemos critérios para o pessoal escolher. Não é para votar em corrupto, num mensaleiro", diz dom Caetano. "A igreja indica aos fiéis que, de preferência, votem em católicos".

No entanto, o Ministério Público Eleitoral questionou o material, alegando dois problemas: propaganda ilegal dentro de templo religioso e doação irregular da diocese, já que a legislação proíbe doações da igreja "em dinheiro ou estimável em dinheiro, inclusive por meio de publicidade de qualquer espécie".

O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) concordou e, por unanimidade, cassou o mandato dos vereadores Fabiano Mariano (PDT), Antônio Faria Neto (PMDB) e Fernando Mantovani (PSDB), e dos primeiros suplentes Jorge Sebastião dos Santos (PRB) e José Carlos de Souza Pereira (PT). Os parlamentares não conseguiram reverter a decisão no TRE-SP e recorreram ao Tribunal Superior Eleitoral, que ainda não julgou o caso. Os suplentes dos três vereadores assumiram no início do mês, alterando a composição da Câmara Municipal, com 17 vereadores.

O bispo está indignado com a decisão. "Vemos nisso uma forma de atacar a igreja católica", afirma. "Todos os candidatos têm base de alguma instituição, de um grupo de pessoas. Pode ser um sindicato, uma igreja ou uma associação de bairro", diz. "Nós orientamos a votar nesses candidatos. Os evangélicos não dizem que elegem poste?"

Os folhetos, diz dom Caetano, não foram distribuídos dentro das paróquias, nem custeados pela diocese. Segundo o bispo, o grupo de leigos escolheu os candidatos que frequentam as paróquias e foram eles que pagaram os R$ 4,2 mil da impressão dos folhetos. O grupo de leigos é ligado à diocese, mas é independente, "com CNPJ próprio", afirma.

"Em vez de a Justiça se preocupar com corruptos que estão por ai, por excesso de rigor acaba praticando injustiça"

"Em vez de Justiça se preocupar em afastar corruptos que estão por aí, por excesso de zelo e de rigor acaba praticando injustiça", critica dom Caetano. "E os bandidos do mensalão que foram condenados e estão exercendo o cargo? O Supremo condenou e os caras ainda estão lá. Que justiça é essa? É o fim da picada".

Políticos católicos que não entraram na lista dos preferidos da diocese, no entanto, não reclamam. É o caso do vereador Milton Sardin, do PP, que assumiu no lugar de Fabiano Mariano, cassado. "O anúncio afirmava que votar naqueles candidatos era voto responsável. E os outros? Seria um voto irresponsável?", diz. "Os candidatos pagaram para estar no jornal. Eu não".

Sentado em uma poltrona na sala da casa onde vive, dom Caetano não se abala com a crítica. Ao seu redor estão inúmeras imagens de São Francisco de Assis, que inspira a ordem dos franciscanos, a mesma do papa. Nascido no interior de São Paulo, o bispo de olhos claros e cabelos brancos é de uma família de religiosos com ascendência italiana. Foi coroinha, ordenou-se frade franciscano há 46 anos, padre há 43 anos e bispo há 11.

Em frente à poltrona, perto da televisão, há uma pintura da imagem de São Francisco ao lado de uma foto do papa Francisco. Em outra parede da sala estão fotos de dom Caetano com João Paulo II e Bento XVI. Na mesa de centro, jornais locais e de circulação nacional. "Sou um humilde frade que por acaso é bispo", diz.

Dom Caetano esteve com o papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, e participou do almoço do religioso com bispos brasileiros, no fim de julho. Falar das impressões sobre o papa deixa seu semblante mais tranquilo. "O papa encarna a simplicidade franciscana, o calor da acolhida, da convivência. Por outro lado, como jesuíta, é firme naquilo que ensina", diz. O bispo cita duas vezes aquilo que se destacou no papa: a ternura, o rigor e a ordem.

Embora defenda que a igreja participe da escolha política dos fiéis, o religioso resiste ao engajamento em lutas sociais, defendido pela Teologia da Libertação, ala católica mais progressista. "Não há fé sem obras. Não pode ser uma igreja mística, que só pensa no céu e se esquece da Terra. Mas também não pode só pensar nas coisas da Terra, na transformação das realidades sociais", diz. "A igreja não é uma ONG, uma instituição de fins filantrópicos, assistenciais. É a Igreja de Cristo, com a missão de anunciar o evangelho, perdoar os pecados, santificar as pessoas", afirma. O religioso discorda de classificações que dividem a igreja entre conservadores e progressistas, apesar de estar mais próximo do primeiro grupo.

Assim que voltou do encontro com o papa Francisco, o bispo viu ressurgir a principal polêmica que enfrentou desde que assumiu a diocese de Bauru, em 2009: a excomunhão de um padre que defende a união civil de homossexuais, o aborto, o sexo fora do casamento e o fim do celibato para padres, entre outros temas polêmicos para a igreja. Depois da visita ao Brasil, quando o papa indagou-se "Quem sou eu para julgar os homossexuais?", Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, de Franca, cidade a 300 quilômetros de Bauru, entrou com uma ação na Justiça para tentar reverter a decisão da diocese - e voltou a fazer barulho na imprensa. A ação do ex-padre ganhou ainda mais apelo agora que o papa Francisco, pela segunda vez, voltou a tocar no tema ao dizer á revista jesuíta italiana 'La Civiltà Cattolica' que a Igreja é 'obcecada' por temas como gays, aborto e anticoncepção.

Dom Caetano tensiona sua fisionomia ao falar do caso. O religioso ajeita-se na poltrona, aperta o braço do sofá e dita pausadamente duas frases, destacando palavra por palavra. "Desejo que seja feliz e estou rezando por ele. Não tenho mais nada a declarar". A expulsão do padre que defende gays marcou o bispo. "Foi um caso dolorido para mim e para a igreja. Mas graças a Deus está encaminhado à Santa Sé", diz.

Roberto Francisco Daniel foi excomungado em abril depois de expor suas ideias polêmicas em missas, entrevistas e em vídeos que estão no Youtube. A diocese obrigou o padre a reconhecer que estava errado e dom Caetano chegou a propor a gravação de um vídeo com o pedido de desculpas, mas o padre se negou. Formado em direito e história, Beto é professor universitário, tem um programa no rádio, escreve para jornais, dá palestras e lançou o livro "Verdades Proibidas - Ideias do padre que a Igreja não conseguiu calar".

O bispo considera quase impossível que a Justiça reverta a excomunhão. "Ele declarou pelos meios de comunicação pontos de divergência grave com relação à doutrina da fé e da moral da igreja. Fez isso publicamente", diz. "Beto não foi excomungado. Ele se autoexcomungou com as coisas erradas que disse", afirmou. "E o Estado é laico e não tem nada que se meter. Isso é da disciplina interna da igreja".

A crítica por ter excomungado Beto, diz o bispo, foi "um erro da imprensa". "A decisão não foi por causa dos homossexuais", diz. "Eu também defendo os gays, a igreja defende os gays, papa Francisco defende os gays. Quem sou eu para julgar? A homossexualidade não é matéria de excomunhão, mas a doutrina sim", diz o bispo em entrevista que antecedeu as declarações do papa sobre dogmas tratados como obsessões pela Igreja.

Antes de ir para Bauru, dom Caetano foi bispo de Franca. Naquela cidade, assim que deixou a diocese, um caso de pedofilia envolvendo um padre ganhou repercussão e abalou a igreja. Dom Caetano diz que enquanto estava em Franca não teve conhecimento do problema, nem recebeu denúncias. Afirma que trataria o problema com o mesmo rigor que tratou do padre Beto e diz que a Justiça deve cuidar do caso. No entanto, acha que a excomunhão do padre de Franca não precisaria ter a mesma "declaração formal e pública".

Dom Caetano lidou ainda com outro problema em Franca, antes mesmo de assumir a diocese. Um padre da região havia engravidado uma jovem menor de idade e teve que deixar o sacerdócio. O caso, assim como do padre acusado de pedofilia, foi tratado de forma mais discreta pela igreja, longe dos holofotes.

Ao falar dos casos polêmicos, Dom Caetano reclama de perguntas sobre o motivo de a igreja ter tratado aparentemente com mais rigor o padre midiático do que o processado por pedofilia e o que engravidou uma jovem. Para o bispo, há muita confusão em torno do termo "excomunhão". "Trair a mulher é um pecado mortal, que tira a comunhão. Você não pode comungar. Mas ninguém vai declarar: ele está excomungado. Não precisa fazer escândalo", diz, como exemplo.

Dom Caetano diz que os desvios de conduta dos religiosos já são tratados com rigor pela igreja e que muitos são aconselhados a casar ainda durante a formação. "Pode acontecer algum escândalo como tem acontecido, de padre que deixa [a igreja] para casar, de homossexualismo, de pedofilia, porque esses padres são humanos. Mas isso não se desenvolveu no seminário nem foi patrocinado lá. Muito pelo contrário. Os formadores são muito criteriosos. Dizem: você tem que casar; para você a castidade é impossível. Isso tanto para homossexual quanto para heterossexual", afirma.

Entre a defesa de uma igreja que eduque os fieis para a política e a crítica aos desvios de religiosos, dom Caetano lembra da passagem do papa Francisco pelo Brasil e da pregação por uma igreja mais próxima do povo, junto da periferia e perto de seus problemas cotidianos. Entre eles, os problema que sempre aparecem nas eleições: o buraco na rua, a falta da merenda escolar e o posto de saúde sem médico, como cita o jornalzinho com os 20 candidatos de Bauru. "É sair da sacristia e ir para as ruas", diz.



domingo, 22 de setembro de 2013

Ciência tenta explicar experiências de quase-morte


Artigo da BBC traduzido e adaptado por Bruno Calzavara para o HypeScience:

Experiências de quase-morte explicadas pela ciência

Um dos maiores mistérios da medicina está próximo de ser revelado. Cientistas relatam que uma onda de atividade elétrica no cérebro pode ser a responsável pelas experiências descritas por pacientes no limite entre a vida e a morte.

Um estudo realizado em ratos moribundos encontrou altos níveis de ondas cerebrais no momento da morte dos animais. Pesquisadores americanos disseram que, em humanos, isto pode dar origem a um estado elevado de consciência. A pesquisa foi publicada na revista “Proceedings of National Academy of Sciences”.

O que realmente são experiências de quase morte?

A autora principal do estudo, Jimo Borjigin, da Universidade de Michigan, Estados Unidos, conta que muita gente pensava que o cérebro, após a morte clínica, se tornava inativo ou hipoativo; ou seja, com menos atividade do que o estado de consciência. Mas o estudo conduzido pela sua equipe provou que este definitivamente não é o caso. “Muito pelo contrário, o cérebro de torna muito mais ativo no processo de óbito do que durante nossa vida rotineira”, ressalta.

Memórias das experiências de quase-morte são mais reais que a realidade?

De luzes brancas brilhantes e experiências fora do corpo à sensação de assistir à vida passando diante de seus olhos, os relatos das pessoas que estiveram perto da morte e conseguiram sobreviver são semelhantes em todo o mundo. No entanto, estudar este assunto em seres humanos é um desafio, e essas visões são bem pouco compreendidas.

Experiência de quase-morte: realidade ou alucinação?

Para se aprofundar no tema, os cientistas da Universidade de Michigan monitoraram nove ratos durante seus últimos instantes de vida. No período de 30 segundos depois que o coração do animal parou de bater, eles registraram um aumento acentuado nas ondas cerebrais de alta frequência, chamadas de oscilações gama. Estes impulsos são uma das características dos neurônios que se acredita estar relacionada à consciência em humanos, especialmente porque ajudam na ligação de informações de diferentes regiões do cérebro.

10 Ocorrências próximas e pós-morte

Nos ratos, esses pulsos elétricos foram encontrados em níveis muito mais elevados logo após a parada cardíaca do que quando os animais estavam acordados e bem. Borjigin afirma que é possível que esse mesmo processo aconteça no cérebro humano – e um nível elevado de atividade cerebral e de consciência pode ser a origem das visões comuns em experiências de quase-morte.

“Isso pode nos dar um panorama para começarmos a explicar estes fenômenos. O fato de os pacientes verem ‘a luz’ talvez indique que o córtex visual no cérebro está altamente ativado. E temos provas para sugerir este pode ser o caso, porque vimos um aumento das oscilações gama na área do cérebro que fica no topo do córtex visual”, explica.

“Nós observamos que houve aumento na interação entre as ondas de baixa frequência e as gama, que é conhecida por ser uma característica da consciência visual e sensação visual”. No entanto, a cientista ressalta que, para confirmar estes resultados, seria necessário um estudo realizado com humanos que tiveram a morte clínica declarada e foram ressuscitados.

Ao comentar a pesquisa, o especialista Jason Braithwaite, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, explica que o fenômeno parece ser o “último suspiro” do cérebro. “Esta é uma demonstração mais oficial de uma ideia que já existe há muito tempo: a de que, sob certas circunstâncias desconhecidas e confusas, como as experiências de quase-morte, o cérebro fica superestimulado e excitado acima da média”, diz.

“Como ‘o fogo ardente através do cérebro’, as atividades podem surgir em áreas do cérebro envolvidas em experiências conscientes, fornecendo todas as percepções resultantes de uma experiência real, com emoções e sentimentos verdadeiros”, acrescenta.

O pesquisador, no entanto, lembra que existe a limitação de que não se sabe quando, no tempo, a experiência de quase-morte realmente ocorre: talvez aconteça antes de os pacientes receberam anestesia ou em algum ponto seguro durante uma operação, bem antes de uma parada cardíaca.

“No entanto, para aqueles casos em que as experiências ocorrem próximas ao momento da parada cardíaca – ou além dela –, essas novas descobertas fornecem mais informações para revelar como o cérebro conduz essas experiências fascinantes e marcantes”.

O cientista Chris Chambers, da Universidade de Cardiff, no País de Gales, considerou o estudo muito interessante e bem conduzido. “Sabemos muito pouco sobre a atividade do cérebro durante a morte, muito menos sobre a atividade cerebral consciente. Estes resultados abrem a porta para novos estudos em seres humanos”, considera.

Entretanto, Chambers acredita que é preciso ser “extremamente cauteloso” antes de se tirar conclusões sobre experiências de quase-morte em humanos. “Uma coisa é medir a atividade cerebral em ratos durante a parada cardíaca, e outra bem diferente é relacionar este fato às experiências humanas”, conclui.



sábado, 21 de setembro de 2013

O eterno presente dos desaparecidos argentinos

Artigo publicado no Estadão de 25/08/13:

Corpos roubados

MARTÍN CAPARRÓS

Todos morrem. Nós, argentinos, não somos exceção à regra: todos morremos. O extraordinário é o que fazemos com os corpos.

A história argentina transborda de corpos roubados, içados, negociados. A história argentina propriamente dita teve início quando o marinheiro espanhol Juan Díaz Solís, navegando pelo Rio da Prata pela primeira vez, chega às costas argentinas e os nativos o comem: a primeira interação entre europeus e nativos, a origem de nossa cultura e o início da gastronomia crioula. Desde então, corpos argentinos jamais deixaram de ser manipulados de maneira estranha. Mas nunca em tamanha quantidade, com tanta força, com tantas consequências, como nos anos 1970, quando desapareceram com eles.

Entre 1976 e 1980, os militares argentinos, com o apoio de boa parte da sociedade argentina, dedicaram-se a matar militantes de esquerda e ocultar seus corpos. Foi o que o general Videla chamou, numa linguagem invejável, de "desaparecidos". O termo vingou e foi retomado em muitas línguas, Nossa contribuição para o léxico global. Jorge Luis Borges confessou muitas vezes que sua maior ambição era deixar uma locução verbal, uma palavra nova, para o idioma. Aquele que o conseguiu foi o mais brutal dos seus comensais.

Desaparecer com os corpos era entregá-los a um futuro negado. Os generais da ditadura argentina acreditavam no aqui e agora, no momento presente - ou seja, acreditavam num presente permanente, num tempo sem mutação no qual ninguém estaria em condições de exigir que eles prestassem contas. Achavam que, se naquele momento exato não precisavam assumir a responsabilidade, nunca o deveriam. E preferiram não assumir e ocultar os corpos: apostar no presente interminável.

Foucault deixou muito claro: o poder mostra seu poder sobre o corpo do delito - o corpo do delinquente - para ensinar a lei. Castiga, mata em público para impor suas leis. Embora, às vezes, esses mortos possam se rebelar e se tornar estandartes - ou vergonhas.

Na época aqueles poderosos argentinos, sempre medíocres, sempre a meio pau, preferiram não encarar seus atos, não educar por meio desses mortos, apenas desfazer-se de alguns milhares que os molestavam. Os militares renunciaram à ostentação da morte e desmoronaram na pequenez do furto, das pequenas trapaças medíocres.

O desaparecimento é a morte que não se responsabiliza por sua força educativa, legalizadora. O desaparecimento tenta uma espécie de colocação entre parênteses, ilusória no sentido de que todo morto deve ter seu lugar e sua função. Pesadelos e horrores sempre estiveram povoados de mortos errantes.

E nunca foram os mortos que enterraram seus mortos.

O desaparecimento criou ainda outros equívocos: naqueles dias os familiares - as mães - dos mortos não choravam por eles, mas rogavam por vivos atípicos, os "desaparecidos". Para pedir por eles, pedir aos carrascos que procurassem suas vítimas, precisaram mudar a identidade delas, a história. Não podiam dizer "viemos para saber de nossos filhos guerrilheiros". Tinham que dizer "viemos procurar uns bons rapazes, tão tranquilos...".

Assim foi se construindo uma visão da história. Em consequência dos desaparecidos, da inexistência desses mortos, por muito tempo os militantes assassinados não foram o que de fato haviam sido: rapazes e moças que escolheram um caminho na vida. A história não os registrou pelo que fizeram, mas pelo que foi feito com eles: sequestrados, assassinados, escamoteados, desaparecidos.

Para a história, eles não foram os sujeitos das próprias decisões, mas objeto das decisões - violentas, criminosas - de outros, de seus verdugos. Aqueles rapazes e moças perderam, com suas vidas, sua história. Suas mães, os bondosos, os que os amavam, com seus relatos voltaram a desaparecer com os desaparecidos. E também, de algum modo, demonizaram e despolitizaram os militares: como carrascos de bons rapazes inocentes já não eram soldados com o objetivo político de matar seus opositores, mas loucos e ávidos assassinos, perturbados. Assim, as razões verdadeiras de seus atos permaneceram, por muitos anos, nas sombras.

Durante décadas, a maioria dos argentinos aceitou, de algum modo, a decisão dos militares: preferiu não saber exatamente o que se passara. Por isso também todos aqueles jovens - suas histórias, suas vidas - continuaram ocultos sob o nome comum de "desaparecidos".

O tempo das lembranças é confuso; passaram-se mais de 20 anos até formar-se uma massa crítica - além dos desconhecidos de sempre - que procurou saber mais a respeito. Isso começou no final dos anos 1990 e agora, pouco a pouco, aqueles rapazes e moças vão recuperando suas identidades de jovens que não foram vítimas passivas, mas militantes, pessoas decididas. E isso tem gerado discussões, revisões, mesmo confrontos. Que não tornam as vítimas menos vítimas nem inocentam seus assassinos, mas lhes devolvem a sua história.

E assim, pouco a pouco, vamos deixando de chamá-los de desaparecidos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


*MARTÍN CAPARRÓS É UM ESCRITOR ARGENTINO, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE A QUEM DE DIREITO (COMPANHIA DAS LETRAS)




sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Retrospectiva da semana

O que foi publicado no blog durante esta semana e você não teve tempo de ler porque estava muito ocupado acompanhando o julgamento dos embargos infringentes no Supremo Tribunal Federal.

Começamos - no sábado - questionando até que ponto é utopia buscar a harmonia entre o mundo e a natureza, e no domingo falamos sobre a dependência humana do tempo.

No primeiro dia útil da semana, mostramos o trabalho de pesquisadores que associam os sacrifícios rituais à prosperidade da antiga Jerusalém.

Na terça-feira, chamamos a sua atenção para o fato de que, na mais recente tragédia americana, o atirador do massacre de Washington era budista.

Na quarta-feira, voltamos a questionar as teorias sobre a origem da maldade, esta condição típica e infelizmente tão inerente ao ser humano.

A surpresa da quinta-feira foi outra pesquisa, que sugere que as cáries podem evitar câncer na área da cabeça e do pescoço.

Por fim, hoje repercutimos aqui o questionamento que continua sendo feito sobre o apoio das igrejas ao golpe militar de 1964, e avançamos um pouco no terreno da influência religiosa na economia, ao reproduzir artigo que mostra que evangélicos e roqueiros agitam o mercado de instrumentos musicais no Brasil.

Tenha um ótimo fim-de-semana!

Evangélicos e roqueiros disputam liderança no mercado de instrumentos musicais

Notícia publicada no Estadão:

Roqueiros e evangélicos lideram compras de instrumentos musicais

Católicos aparecem em terceiro lugar, com apenas 4% de um mercado que vai movimentar mais de R$ 700 milhões no País este ano

Roger Marzochi

SÃO PAULO - Os roqueiros representam 15% das vendas de instrumentos musicais no Brasil, em um mercado que deve crescer 12% este ano, embalado pela alta do dólar e por eventos como o Rock in Rio.

No ano passado, as vendas de instrumentos musicais no Brasil chegaram a R$ 625 milhões. Depois dos adeptos do rock aparecem os evangélicos, com 12% do mercado, e os católicos, com 4%.

O restante do mercado (69%) é formado por estudantes de música das escolas, que são 7 milhões de alunos, segundo Synésio Batista da Costa, presidente Associação Brasileira de Música (Abemúsica).

Incentivos. Synésio, que também se define como 'roqueiro de carteirinha', fã dos Beatles, Pepeu Gomes e Mamonas Assassinas, explica que os músicos de jazz representam menos de 1% das vendas de instrumentos musicais no País.

A volta da música nas escolas, decidida há três anos, mas ainda em processo de implantação nas escolas, poderá estimular as vendas do setor, segundo os empresários do setor.

O objetivo da Abemúsica é fazer com que o ensino musical chegue a todas as 170 mil escolas de ensino fundamental no Brasil, que reúnem cera de 22 milhões de alunos.

"Vai demorar, mas imagina quando toda essa criançada começar a estudar música? Isso é um dos motivos do otimismo da indústria e do varejo", explica ele.

Os fabricantes e revendedores de instrumentos musicais estão reunidos em São Paulo na 30ª Feira Internacional de Música - Expomusic, aberta nesta quinta-feira, 19.

A feira reúne 200 expositores que esperam vendas de R$ 250 milhões nos próximos dias, o que significa aumento de 14,5% em relação ao evento do ano passado.

Alta do dólar. "De janeiro a junho, imaginávamos um desempenho 6% a 7% neste ano", diz Synésio Batista da Costa, presidente da Abemúsica. "Com o dólar no atual nível, num momento onde já foi realizada grande parte da importação, a projeção melhorou", acrescenta.

"Os importadores terão que reposicionar os seus negócios no ano que vem, porque os lojistas já importaram o que tinham que importar. Vai ter instrumento mais barato", explica, lembrando que o setor movimenta no varejo R$ 2,5 bilhões em 2 mil pontos de venda em todo o Brasil.

Roberto Weingrill, presidente da fabricante de instrumentos musicais Weril, diz que já sentiu uma melhora no mercado. Segundo ele, as vendas da empresa tiveram um crescimento inesperado de 20% no primeiro semestre.

"O mercado começou a crescer tremendamente, com aumento de vendas dos produtos mais acessíveis", diz o executivo, confirmando a expectativa positiva frente à concorrência com instrumentos importados da Ásia, muito mais baratos que os nacionais.

A concorrência com os importados é tanta que que a companhia havia decidido focar suas vendas em instrumentos profissionais, que são mais caros.

Importados. "Além do dólar, isso reflete a busca por melhor qualidade. O pessoal deixou de comprar produto mais barato. Com a avalanche de instrumentos asiáticos, muitas pessoas se iniciaram no ramo musical e agora buscam um produto com melhor qualidade", diz Weingrill.

A indústria nacional ainda conta com uma ajuda extra: as importações de instrumentos musicais apresentaram queda. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a importação de dez tipos de instrumentos musicais foi de US$ 59,9 milhões de janeiro a agosto, uma queda de 23,8% em relação ao mesmo período do ano passado.

Nesse período, a importação apenas de instrumentos de sopros denominados metais (trompete e sax, por exemplo, produzidos pela Weril) foi de US$ 4,8 milhões, uma queda de 12,31% na comparação com os primeiros oito meses de 2012.

E, com a alta recente do dólar, a Weril pretende elevar a exportação, hoje restrita a apenas 4% de sua produção, muito inferior ao nível de 22% antes da invasão dos produtos asiáticos, que prejudicou a companhia nos mercados interno e externo.

Isenção fiscal. "É um setor que já passou por todas as dificuldades e a tendência é de crescimento. Sofremos com o dólar baixo e a abertura de mercado no início da década de 90. A indústria nacional está com perspectiva boa especialmente se o dólar permanecer entre R$ 2,20 e R$ 2,50", explica Silvio Dutra, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Instrumentos Musicais e Áudio (Anafima).

A entidade pressiona o governo pedindo isenção tributária semelhante à que é concedida para as editoras de livros didáticos.

"O livro didático é isento de impostos para estimular a educação. Com a volta da música nas escolas, a música começou a fazer parte da grade curricular e por isso achamos razoável que os instrumentos musicais sejam tratados da mesma forma que o livro."

SERVIÇO: EXPOMUSIC 2013 – 30ª. FEIRA INTERNACIONAL DA MÚSICA, INSTRUMENTOS MUSICAIS, ÁUDIO, ILUMINAÇÃO E ACESSÓRIOS

Data: 18 a 22 de setembro de 2013
Horários: das 13h às 21h (dia 22, das 11h às 19h).

Dias 20 a 22, o evento é aberto ao público em geral mediante compra de ingresso.
Crianças com idade até 12 anos, maiores de 60 anos e deficientes físicos têm acesso gratuito.

Local: Expo Center Norte
Endereço: Rua José Bernardo Pinto, 333, Vila Guilherme, São Paulo, SP.
Informações pelo telefone: (11) 2226-3100



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails