sexta-feira, 21 de março de 2008

O evangelho de Lucas - parte 11

O capítulo 9 de Lucas começa e termina mostrando a pobreza de Jesus e seus discípulos (o que é um contraste gritante com a chamada "teologia da prosperidade" atual), e mostra Jesus predizendo por duas vezes o seu próprio sacrifício, sem que os discípulos entendessem exatamente do que ele estava falando. Primeiro, nos vv. 1-6, Jesus envia seus apóstolos para uma missão, dando-lhes poder e autoridade para curar e exorcizar. Tratava-se de uma espécie de treinamento, uma "delegação de poder" que provavelmente durou alguns dias, já que eles deviam percorrer as cidades próximas, mas não podiam levar nem comida nem dinheiro. Deviam valer-se da caridade e da hospitalidade alheia. Aqueles que não os recebessem e os ajudassem, eles deveriam dar testemunho contra eles sacudindo o pó dos seus pés ao saírem das cidades. A ênfase aqui, me parece, está na providência divina, não só na realização de milagres, mas principalmente na dependência total e absoluta da graça de Deus para as novas tarefas que eles estavam assumindo. Agora, eles eram "pescadores de homens"(Mateus 4:19, Marcos 1:17). No final do capítulo (vv. 57-62), Jesus de novo está lidando com pessoas que queriam segui-lo, mas ele novamente ressalta a sua pobreza, dizendo que "as raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça" (v. 58). Seguir a Jesus implicava num custo sem receita aparente, não havia orçamento para as viagens, hospedagens e comida. O custo era alto, e quem lançava mão do arado, ou seja, se dispunha a trabalhar na seara do Senhor, (João 4:35), não podia mais voltar atrás (v. 62). O discípulo devia tomar a sua cruz e segui-lO sem questionar (v. 23). Por meio de uma série de paradoxos (vv. 23-25), Jesus chama a atenção para o fato de que, quem quisesse ganhar a sua vida, a perderia, e quem a perdesse, a salvaria. Obviamente, as palavras de Jesus não deveriam ter uma interpretação literal, afinal ele não estava incentivando o suicídio. O que Ele esperava ver morto naqueles que o seguiam (e o seguem até hoje) era (e é) o egoísmo, a vida centrada em si mesma, sem se importar com o próximo. O Mestre não queria que desavisados o seguissem, por isso insistiu tanto em apontar os altos custos e a completa mudança de vida em que implicava o simples fato de andar com Ele.

Jesus ainda prediz a sua morte por duas vezes, mas os ouvidos dos discípulos parecem estar trancados para esta informação. No v. 22, Ele dá uma descrição mais abrangente de como isto aconteceria, incluindo no relato a ressurreição, e no v. 44 Ele é mais sucinto. Antes da primeira profecia, os discípulos haviam presenciado a multiplicação dos pães e dos peixes, e entre as duas profecias de Jesus, temos a transfiguração dEle no monte, diante de Pedro, Tiago e João. Eram momentos de êxtase espiritual intercalados pelo choque de realidade da missão e do propósito de Jesus na Terra. Nesse meio-tempo, os apóstolos haviam cumprido sua missão sem comida e sem dinheiro pelas cidades vizinhas, presenciaram a cura de um jovem possesso e ainda foram impedidos de entrar em uma aldeia samaritana (v. 53). Jesus proporcionava aos seus discípulos um zig-zag de emoções. Andar com ele não era tarefa fácil. Tinha seus momentos de glória divina, mas também outros de contato com a miséria humana e o preconceito étnico. Dos três evangelistas sinópticos, Lucas talvez seja aquele que mais prezasse o estilo literário, e é sintomático que ele insistisse tanto na questão do custo do discipulado e do sacrifício de Jesus nesse mesmo trecho (ainda que o evangelho não fosse dividido em capítulos à época). Podemos imaginar que ele queria dizer que seguir a Jesus envolve um sacrifício do crente? É possível que sim, desde que entendamos que o sacrifício de Jesus é único, original e insubstituível, e o do crente é subsidiário, eventual, e circunstancial.

Há que registrar-se, ainda, os episódios da multiplicação dos pães e peixes e a cura de um jovem possesso. Em ambas as situações, uma multidão seguia Jesus, a ponto de Herodes ficar perplexo com aquele novo profeta (v. 7). Já havia mandado decapitar a João Batista, e agora tinha que lidar com outro "messias" aparentemente muito mais poderoso. Na multiplicação dos alimentos, chama a atenção o fato de Jesus ter dito aos seus discípulos: "Dai-lhes vós mesmos de comer" (v. 13). Eles já haviam sido treinados, e agora Jesus desafiava-lhes a fé. Eles, como de costume, se preocupavam com os dados mais objetivos, terrenos, afinal só havia 5 pães e 2 peixes, e a frieza dos números acompanhava-lhes a razão. A ironia de Jesus, em alimentar tanta gente com tão pouco, mexia com o ânimo dos discípulos, e, mesmo assim, da reunião do pouco que eles tinham Jesus ainda fez sobrar doze cestos (v. 17), um para cada apóstolo, talvez a mostrar-lhe como ainda estavam longes de exercitar a fé, o que fica mais claro quando o pai do rapaz possesso diz que seus discípulos não haviam conseguido expulsar o espírito imundo de seu filho (v. 40). Mesmo diante de tanto poder de Deus demonstrado na vida do Mestre, os discípulos ainda tateavam o campo da fé. Por fim, Jesus ensina os discípulos a serem tolerantes com aqueles que, em nome dEle, expeliam demônios (vv. 49-50), mas, logo depois, vê uma aldeia samaritana intolerante impedir-lhe a passagem e estadia (vv. 52-53). Ele havia se dado conta de que chegara a hora de enfrentar a sua missão e ir para Jerusalém. A sua determinação era tão visível que até se lhe mudou o semblante (v. 51). Os seus dias estavam se completando. Na narrativa de Lucas, Jesus só entrará em Jerusalém no fim do capítulo 19, depois de jantar com Zaqueu em Jericó. Provavelmente, os acontecimentos dos capítulos entre o 9 e o 19 aconteceram de forma muito rápida, além das parábolas de Jesus tomarem boa parte deles, mas o caminho de Jesus ao Gólgota já estava definitivamente traçado.

Sexta-feira santa

“Sabemos que a Sexta-Feira Santa que o cristianismo comemora foi a da Cruz. Mas o não-cristão, o ateu, também a conhece. Significa que ele conhece a injustiça, o interminável sofrimento, o desperdício, o brutal enigma do fim, que de maneira tão ampla forma não apenas a dimensão histórica da condição humana, mas também a existência diária de nossa vida. Conhecemos, inevitavelmente, a dor, o fracasso do amor e a solidão, que fazem parte de nossas histórias e destinos. Também conhecemos o domingo. Para o cristão, esse dia é um indício certo, mas precário, evidente, mas além da compreensão, da ressurreição, de uma justiça e de um amor que derrotaram a morte. (...) As características desse domingo carregam o nome da esperança (não existe palavra mais inexplicável).

Mas é nossa a longa jornada diária do sábado.”


(George Steiner, “Real presences”, Chicago, University of Chicago, 1989, p. 231-2, citado por Philip Yancey em “O Deus (In)visível”, Ed. Vida, pág. 280)

Medidas pontuais

A Folha de S. Paulo parece estar inaugurando um novo jargão "folhístico", e agora em relação ao trânsito caótico da capital paulista. 

Chamada de primeira página da edição de ontem, 20 de março, dizia que "Kassab anuncia medidas pontuais para o trânsito". 

Editorial na pág. A-2 repetia as tais "medidas pontuais e limitadas", para na pág. C-3 chamá-las de "medidas tímidas". 

Diga-se de passagem que a crítica ao Kassab é correta, mas pouco lhe resta fazer numa cidade em que o prefeito eleito José Serra deixou o governo menos de 2 anos após ter assumido, para se candidatar a governador (e se eleger). 

Pelo menos, o Kassab está fazendo alguma coisa, já que a maior responsabilidade pelo caos do trânsito em São Paulo é a falta que o metrô faz. 

Considerando-se que o metrô paulistano é propriedade (e serviço público) do Estado, era de se esperar que os tucanos, que governam a "locomotiva do país" (só pra seguir na linha jargão) desde 1994, tivessem realmente investido na ampliação da rede metroviária, com o benefício de terem, ainda, 8 anos de governo FHC na Federação para ajudá-los. 

E olha que o Lula tem sempre aquela mão amiga pra estender, só que o pouco que foi feito ruiu buraco abaixo em Pinheiros no ano passado. 

Por que só agora a Folha fala de "medidas pontuais" do Kassab quando se esqueceu de cobrar os tucanos nesses 14 anos que se foram? 

Pelo menos, o prefeito paulistano está fazendo a parte que lhe cabe, atrasado, desencontrado, desajeitado, mas suas mãos estão atadas pela inércia do metrô e do seu dono, o governo do Estado. 

Longe de ser fã do DEM ou do Kassab, pelo menos ele tomou "medidas pontuais". Ruim mesmo é quem nem medidas toma.


quinta-feira, 20 de março de 2008

Carta aos Romanos - 12

Nos 10 capítulos anteriores, Paulo vem fazendo uma espécie de apologia da graça de Deus revelada aos gentios, e mesmo que tenha sido claro quanto à depravação tanto de judeus como de gentios, há, principalmente no capítulo 8, um hino de louvor a Deus por ter escolhido os gentios para receberem a salvação em Cristo. Entretanto, Paulo não quer correr o risco de ser mal interpretado. Para tanto, o capítulo 11 de Romanos funciona como uma espécie de freio ao entusiasmo e à arrogância que porventura pudessem contaminar os crentes gentios de Roma que, ao ler os capítulos anteriores, se sentissem melhores do que os judeus ante a excelência do evangelho da graça de Deus revelado em Cristo Jesus. Depois da dureza das palavras de Romano 10, Paulo provavelmente sentiu que devia colocar as coisas nos seus devidos lugares, sem menosprezar nem a graça de Deus nem a eleição de Israel como povo escolhido. Daí a pergunta que inicia o capítulo 11: "terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo?", à qual Paulo se apressa em responder: "De modo nenhum!". Deus não podia quebrar a promessa feita a Abraão, pois "os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis" (v. 29 – versão Bíblia do Peregrino) ou "sem arrependimento" (Bíblia de Jerusalém). Esta circunstância, da irrevogabilidade da eleição de Israel como povo santo de Deus, associada à lição paulina de que "todo o Israel será salvo" (v. 26), lança sobre o capítulo 11 um fator complicador. Afinal, de que "salvação universal de Israel" Paulo está falando? Situando este versículo no contexto, no v. 25, Paulo diz que quer revelar aos seus leitores (os romanos e nós, crentes atuais) um "mistério": "veio o endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios". Continua: "e, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador e ele apartará de Jacó as impiedades" (vv. 26-27).

Antes de nos aprofundarmos neste significado, voltemos ao início do capítulo 11, em que Paulo deixa claro que "Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu" (v. 2), o mesmo "aos que de antemão conheceu" de Romanos 8:29, que Paulo aplica a todos, judeus e gentios (mais a estes, talvez), dizendo que "também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos". Comparando com a história de Elias (1 Reis 19:10-14), Paulo diz que "no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça" (v. 5), e não por causa das obras praticadas segundo a Lei mosaica (v. 6). Este remanescente do povo judeu – que havia se convertido ou ainda se converteria a Cristo - existia naquela época em que Paulo escrevia sua carta, mas também podemos entender que segue existindo hoje, e, pelo v. 26 ("todo o Israel será salvo"), podemos deduzir que seguirá existindo até o final dos tempos. Paulo segue falando que Deus não rejeitou a Israel, mas, ao mesmo tempo, se apresenta aos seus leitores com as suas credenciais de "apóstolo dos gentios" (v. 13), como se estivesse mostrando que o fato de lutar pela salvação dos seus irmãos judeus não competia com o seu trabalho pela salvação dos gentios.

Fazendo a analogia com a oliveira, Paulo compara o povo judeu, que havia sido eleito como mensageiro de Deus para o mundo na velha aliança (a da Lei mosaica), era como o galho que havia sido quebrado da árvore (v. 17), e os gentios, destinatários da mensagem da nova aliança, eram como ramos de oliveira brava enxertados na oliveira, pelo que não deviam se gloriar contra os galhos quebrados (os judeus), pois é a raiz comum (o pacto revelado ao povo judeu no Velho Testamento) que sustenta os galhos (sejam eles judeus ou gentios), e não o contrário (v. 18). Daí o conselho de Paulo, que vale para todas as situações da vida, passadas, presentes ou futuras: "Não te ensoberbeças, mas teme" (v. 20). A lógica de Paulo é que se Deus não poupou os judeus, quanto mais os gentios, daí a sua insistência em que todos PERMANEÇAM na bondade de Deus (v.22). A questão da permanência em Deus é da maior importância. Todos nós nos lembramos das palavras de Jesus no Sermão da Montanha, em que Ele diz que pelos frutos se conhecem os falsos profetas (Mateus 7:15-21). Esses versículos são muito usados para incentivar os crentes a dar frutos, embora o contexto esteja explicitamente se referindo aos falsos profetas. Assim, nos esquecemos facilmente do versículo que diz isso mais claramente:

João 15:16 Vós não me escolhestes a mim mas eu vos escolhi a vós, e vos designei, para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.

Não basta, portanto, que o crente dê fruto. O ciclo só está completo se o fruto permanece. Paulo insiste que os crentes devem permanecer na bondade de Deus. Nós geralmente reparamos muito se alguém se converte, ou se desiste na primeira batalha, e com isso nos esquecemos de observar (e admirar) aqueles que permanecem. É esta a permanência que Paulo NÃO vê na história do povo judeu. Pelo contrário, ele censura o fato deles terem tido tantas oportunidades, mas terem sido derrotados em todas elas. Apesar disso, ainda resta uma oportunidade para os judeus leitores de Paulo naquela época, e todos aqueles das gerações seguintes, de permanecer em Deus através de Jesus. É neste sentido que deve ser interpretado o "todo o Israel será salvo" do v. 26. Este é um versículo reconhecidamente de difícil interpretação, mas deve-se ter em conta que "todo o Israel" era uma expressão figurada muito comum entre os profetas e escritores bíblicos, não querendo dizer literalmente "todos os judeus de todos os tempos" (vide, por exemplo, Atos 4:10 e 13:24). Dentro do contexto do v. 26, Paulo está dizendo que "todo o Israel será salvo" quando "haja entrado a plenitude dos gentios" (v. 25), plenitude esta que se completa na consumação dos tempos (Lucas 21:24, Apocalipse 7:9). Em função desse "mistério" do v. 25, muitos estudiosos entendem que, no final dos tempos, haverá uma conversão em massa dos judeus, de maneira a significar figuradamente que "todos" se salvarão, mas isso ainda fica no terreno da especulação. Em Efésios, Paulo vai falar novamente deste "mistério", agora relacionando-o aos gentios:

Efésios 3:8 A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar aos gentios as riquezas inescrutáveis de Cristo,
Efésios 3:9 e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou,

Por fim, Paulo termina o capítulo 11, de novo, com um hino de louvor a Deus, dentro da sua estratégia de começar cada trecho (hoje capítulo) de sua carta aos Romanos, primeiro com uma ou várias perguntas, depois alguns paradoxos e comparações, para depois revelar um profundo ensinamento, até terminar exaltando a Deus. As cartas de Paulo eram lidas várias vezes na Igreja à qual era destinada, bem como se enviavam cópias a outras igrejas (daí termos hoje o Novo Testamento). Certamente, ele já as escrevia e preparava de tal maneira que pudessem ser lidas e meditadas vagarosamente, parte por parte.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Los "fanfarrones"

Evo Morales y Diego Armando Maradona são dois fanfarrões. Eles promoveram uma pelada em La Paz para comprovar os sublimes benefícios de se jogar futebol a mais de 3.000 metros de altitude. O único lado bom deste encontro de estrelas (cadentes) sulamericanas foi o fato de recolherem alimentos para as vítimas das enchentes na Bolívia, como ingresso. A FIFA parece não concordar com esta loucura. Nada contra o fato da turma dos Andes resolver bater um futebolzinho entre eles, no clássico local Condores x Vicuñas, afinal eles já moram lá e estão acostumados com os efeitos do ar rarefeito. O problema é quando times e seleções de outros lugares, digamos, menos elevados, mesmo da Bolívia, têm que subir a cordilheira. O período de adaptação às condições de falta de oxigênio teria que ser muito grande, algo em torno de duas a quatro semanas, conforme a altitude, e obviamente o mundo não pode parar para que jogadores de futebol se aclimatem à altura de Potosí, Oruro, La Paz e outros píncaros do desporto sulamericano.


O que me espanta nisso tudo é a lógica que se esconde por trás deste discurso maradoniano de apoio aos jogos nas alturas. A altitude funciona como um doping, uma vantagem que o jogador que lá vive tem sobre os recém-chegados das planícies e do litoral. Seria ótimo poder se aclimatar pra jogar uma partida de futebol em igualdade de condições, mas a única saída seria ele usar um equipamento de oxigênio que nivelasse o seu consumo do precioso gás. Certamente, isto seria visto pelos nossos fanfarrões como vantagem indevida, mas é curioso que eles não apliquem o mesmo raciocínio ao seu pleito do altímetro. Nós, que já sofremos tanto com o jeitinho brasileiro, agora nos deparamos com o jeitinho boliviano, com uma pitadinha argentina. Talvez eu esteja enganado e tudo se trate apenas da velha e boa hospitalidade boliviana: "Pede pra subir! Pede pra subir!".

Infância perdida

O caso da garota torturada em Goiânia (ver notícia aqui), em que a "empresária" Silvia Calabresi de Lima mantinha em cárcere privado uma menina de 12 anos, e a submetia constantemente a todo tipo de constrangimento e tortura, é um daqueles absurdos que somos obrigados a conviver no Brasil. Outro dia foi o caso da adolescente de 15 anos que era mantida como uma espécie de escrava sexual em uma cela com 20 presos homens, por mais de um mês, em Abaetetuba, no Pará. O desprezo pela vida humana neste país é impressionante. Aparentemente, não há maiores semelhanças entre os dois casos, a não ser o fato de ambas as garotas serem menores de idade. Entretanto, uma análise mais aprofundada mostra que o Brasil tem um descaso gigantesco com as crianças e adolescentes, tidas como algo descartável e que não necessitam de nenhum cuidado.

O caso do Pará desnuda uma série de desvios de comportamento de autoridades que se esquecem que são funcionários públicos, que é o povo que lhes paga, e que agem como se nada tivessem a ver com os destinos humanos. O caso de Goiás revela um pequeno retrato do Brasil, em que uma classe média - nem tão alta assim -, se julga acima do bem e do mal, e considera os mais pobres como escravos a quem pode explorar livremente. Eu fico imaginando a quantidade de garotas e adolescentes que, a título de um melhor cuidado do que teriam nas suas famílias desestruturadas, são destinadas a casas de classe média onde prestam serviços domésticos sem registro em carteira, sem receber nem salário nem educação, e ainda são submetidas a todo tipo de desmando e violência, como se lhes estivessem prestando um grande favor. Quantas infâncias são perdidas neste país por falta de uma maior atenção do Estado quanto à educação, segurança, trabalho e distribuição de renda, mas quantas crianças são exploradas por pessoas insuspeitas, que se escondem nos seus apartamentos para praticar o sadismo de torturar filhos dos outros. Tudo indica que este caso de Goiânia é uma aberração, mas eu não me surpreenderia se outras aberrações pululassem nas páginas dos jornais. Resta saber se este caso é mais um daqueles que concorrerão ao Troféu Impunidade do ano. Do Brasil (e de sua classe média) tudo se pode esperar.

O evangelho de Lucas - parte 10

O texto de Lucas 8 inicia com "logo depois disto", indicando que estes eventos aconteceram após a refeição do capítulo anterior. Assim, Jesus aqui ainda está na Galiléia. O tema do capítulo também é a fé. Para despertar a fé dos galileus, Jesus pregou em cada cidade e aldeia, pregando o Evangelho do Reino. Qual é este Evangelho do Reino? Evangelizar é segundo o grego, trazer boas novas. Quais seriam as Boas Novas? Qual a notícia trazida por Cristo sobre o Reino, que seria novidade para a época? Que o reino viria, o Velho Testamento já profetizara. Os versículos onde se fala de Cristo pregando e o Reino, são estes:
(Mt 3:2) dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.

(Mt 4:17) Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: Arrependei- vos, porque é chegado o reino dos céus.
(Mt 10:7) e indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus.

(Mc 1:15) e dizendo: O tempo está cumprido, e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos, e crede no evangelho.
(Lc 10:9) Curai os enfermos que nela houver, e dizer-lhes: É chegado a vós o reino de Deus.

Em todos eles, o verbo usado para chegar é conjugado no Perfeito do Indicativo. O perfeito era usado no grego para indicar uma ação completada de uma vez por todas. Assim, as boas Novas do Reino é que este Reino havia chegado e se instalado. O Reino aqui e agora, não um reino em um futuro que todos desconheciam. Jesus é o Rei deste reino, e os seus discípulos são seus súditos, como deixa claro a parábola da plantação de trigo e joio. Iam com ele os doze, aqueles que ele escolheu para ensinar. Lucas faz questão de mencionar as mulheres que acompanhavam eles. Jesus sempre é visto nos Evangelhos acompanhando os grupos marginalizados, mostrando para nós que muitas vezes os julgamentos humanos não são equivalentes aos julgamentos divinos.

Aqui, inicia-se a primeira parábola de Lucas, algo que se tornará prática em seu livro. Justamente pelo inicio da pregação, Jesus nos fala da ação da pregação no coração humano. Ele usa a figura de um semeador e de diversos tipos de solo. Assim que terminou de ensinar, seus discípulos lhe perguntaram o que significava aquilo. Muitos pensam que as parábolas eram usadas para facilitar o entendimento de realidades celestiais, mas Cristo diz o contrário. A todos foi dado entendimento, mas este entendimento deve dar frutos, pois senão serão tirados (Lc 19:26). Assim, nós também recebemos este entendimento, e temos que aplicá-lo. Para muitos aquela estória era apenas uma estória de um semeador, e poderiam até imaginar por que alguém tão falado em toda a Judéia estava contando estórias ao povo, menosprezando-o. É por isto que literalistas acabam desprezando a palavra de Deus. Temos que ter humildade para entender mais do que a estória do semeador, para perceber que o Grande Pregador não contaria aquela estória por nada, que a palavra de Deus pode te parecer contraditória ou fantástica demais, mas ela faz pessoas crerem e renascerem. Se pelas obras se conhecem os frutos, o que dizer da palavra de Deus? É assim que ela torna louca, a sabedoria deste mundo.
O que entender então? Que a semente é a palavra de Deus. Jesus não identifica o semeador, que pode ser Ele, ou os seus discípulos. Pode ser o próprio Deus. O solo é o coração do homem. E o primeiro solo é à beira do caminho. É ali que os homens pisam, e é por isto que este solo simboliza aquelas pessoas que recebem a palavra de Deus e não a valorizam, pisando nela. E como acontece com aqueles que não valorizam a palavra, o diabo vem depois e leva aquelas sementes, instigando pensamentos carnais naqueles homens. Pois se deixada ali, a semente poderia algum dia nascer e crescer. Não valorizar, não refletir no que é dito causa isto conosco, por isto é importante sempre ouvir o que a palavra de Deus diz. O bom solo não é pisado por homens.

O segundo solo na verdade é a pedra. A pedra naturalmente não deixa que as raízes entrem nela. Assim, quando vem o sol, a semente é queimada, e deixa de existir. O bom coração deve resistir às adversidades, exatamente por que as raízes da palavra de Deus penetram em seu coração. É a palavra de Deus que provê motivação para que enfrentemos todas as adversidades. O bom solo deixa raízes crescerem.

O terceiro solo é o cheio de espinhos. Os espinhos são as paixões mundanas, que não matam a palavra, mas impedem que ela dê frutos perfeitos. O bom solo deixa que ela cresça bem.

E por fim o bom solo, aquele que não possui os defeitos de menosprezar, de não viver e de não priorizar a palavra de Deus. Ali é que ela cresce e dá bons frutos. Ela dá bons frutos com perseverança, e não uma vez ou outra. O bom solo é bom solo sempre, não deixa de ser, mas persevera.
Assim, os frutos são como a vela. Eles não ficam ocultos, mas estão à mostra, e todos verão, e saberão qual o tipo de solo que a pessoa é representada. Temos que ter entendimento, então, e buscar a palavra de Deus.
Então, como que ilustrando a parábola com fatos reais, Lucas relata uma série de acontecimentos.
No primeiro, temos a chegada da mãe e dos irmãos de Cristo. Cristo diz que sua mãe e irmãos são aqueles que observam a palavra de Deus. Ele estaria reprovando os corações representados pela beira do caminho, que não observam, mas a ignoram? Acredito que sim.
Depois, Jesus com seus discípulos são pegos em uma tempestade. Eles ficaram com muito medo. Mas Jesus reprovou o comportamento deles, pois não tinham fé. Não seria eles o solo de pedra, que na primeira dificuldade pedia a fé?
Continuando, Jesus encontra com o endemoniado, e o cura. Ele era possuído por vários demônios, por isto se chamavam de Legião. Pediram para não ser enviados ao abismo, provavelmente aquele onde já estavam aprisionados outros demônios (2 Pd 2:4). Então ordenou que fossem para os porcos. Assustados, os moradores da região não deixaram que Cristo entrasse ali. Não é a preocupação com as coisas deste mundo (a perda dos porcos) o que está sendo retratado aqui? E como vimos, a palavra ainda cresce prejudicada por isto, é por isto que o endemoniado ainda crendo, serve de testemunho para aqueles cidadãos.
Por fim, os vários exemplos de solos férteis completam o capítulo. Para quem tem fé, os frutos colhidos são perfeitos. E estando no reino de Deus, aquele pregado no início do capítulo, entrando por esta fé, é que as doenças e a morte são vencidas.

terça-feira, 18 de março de 2008

Um país impune



Meu amigo Moisés trouxe para o Forum Atos a notícia de que o Champinha, aquele adolescente que matou (e barbarizou) a Liana Friedenbach e o Felipe Caffé, além de outros crimes, está internado numa unidade psiquiátrica especializada para casos de psicopatas como ele, na qual ele goza de um certo conforto.

Apesar de compartilhar da indignação pública por todos os crimes que este rapaz cometeu, o fato é que o Champinha é um desequilibrado mental, já que para a Justiça considerar alguém mentalmente incapaz neste país, é necessário um processo longo que, não raras vezes, termina pondo na rua quem realmente não está preparado para a vida em sociedade, é só lembrar do caso do bandido da luz vermelha, que cumpriu 30 anos de cana, e foi solto pra ser assassinado algum tempo depois. 

Era só olhar na cara dele pra ver que ele não tinha a mínima condição mental de se comportar, mas a pressão popular achou que ele devia ser solto, e deu no que deu. 

Agora a pressão popular quer que o Champinha fique na cadeia o resto da vida, de preferência numa solitária. 

Eu acho que ele vai pegar uma prisão perpétua, na prática (tudo indica isso), e, ainda que o nível de psicopatia dele seja mínimo, ele vai ser punido, coisa que não acontece com 99,99% dos presos deste país, que, nas raras vezes em que são encontrados, julgados, condenados, cumprem 1/6 da pena e saem fora. 

Isso quando não podem pagar um ótimo advogado que os deixe livre até transitar em julgado a infinidade de recursos que a lei permite. 

A grande verdade é que o crime compensa no Brasil, mas não é o Champinha o culpado por isso. Talvez ele seja um dos raros criminosos realmente punidos. 

Além disso, eu acho que além de ser punido de verdade, o preso tem direito a uma cela minimamente decente, porque ele deveria puxar a cana dele integralmente, sem visita íntima, nem de advogado (só as absolutamente necessárias), sem sair pra passear quando tiver que depor na Justiça, sem armas, celular e disk-pizza... ou seja, punido mesmo, mas com o mínimo de decência. 

Acho também que tinham que trabalhar, sempre que fosse possível, de preferência em colônias rurais, pegando na enxada mesmo, não só pra reduzir a pena e fazer terapia ocupacional, como para pagar a estadia deles lá. 

Penso ainda que as prisões deveriam ser privatizadas, com as concessionárias sendo cobradas por desempenho, e culpadas por torturas, fugas e rebeliões. 

Enquanto isso não acontece, eu acho que os carcereiros, policiais, advogados, agentes penitenciários, etc., que facilitassem a fuga de presos deveriam cumprir o restante da pena dele no seu lugar, somando-se as penas se fossem vários.

Ademais, os psicólogos e médicos forenses, bem como os juízes que dão direito a preso pra saída para Natal, dia dos Pais, dia das Mães, etc., e o meliante delinque novamente, deveriam ser responsabilizados por isso. 

Enquanto isto não acontece, as vítimas (e os culpados) somos nós todos, até o dia em que elejamos quem realmente nos represente. 

Resumo da ópera: que bom seria viver num país sério.

Quando nosso nome é Legião

Leitura bíblica: Marcos 5:1-20

“Eles atravessaram o mar e foram para a região dos gerasenos. Quando Jesus desembarcou, um homem com um espírito imundo veio dos sepulcros ao seu encontro. Esse homem vivia nos sepulcros, e ninguém conseguia prendê-lo, nem mesmo com correntes; pois muitas vezes lhe haviam sido acorrentados pés e mãos, mas ele arrebentara as correntes e quebrara os ferros de seus pés. Ninguém era suficientemente forte para dominá-lo. Noite e dia ele andava gritando e cortando-se com pedras entre os sepulcros e nas colinas.

Quando ele viu Jesus de longe, correu e prostrou-se diante dele, e gritou em alta voz: “Que queres comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te por Deus que não me atormentes!” Pois Jesus lhe tinha dito: “Saia deste homem, espírito imundo!”

Então Jesus lhe perguntou: “Qual é o seu nome?”

“Meu nome é Legião”, respondeu ele, “porque somos muitos”. E implorava a Jesus, com insistência, que não os mandasse sair daquela região.

Uma grande manada de porcos estava pastando numa colina próxima. Os demônios imploraram a Jesus: “Manda-nos para os porcos, para que entremos neles”. Ele lhes deu permissão, e os espíritos imundos saíram e entraram nos porcos. A manada de cerca de dois mil porcos atirou-se precipício abaixo, em direção ao mar, e nele se afogou.

Os que cuidavam dos porcos fugiram e contaram esses fatos na cidade e nos campos, e o povo foi ver o que havia acontecido. Quando se aproximaram de Jesus, viram ali o homem que fora possesso da legião de demônios, assentado, vestido e em perfeito juízo; e ficaram com medo. Os que estavam presentes contaram ao povo o que acontecera ao endemoninhado, e falaram também sobre os porcos. Então o povo começou a suplicar a Jesus que saísse do território deles.

Quando Jesus estava entrando no barco, o homem que estivera endemoninhado suplicava-lhe que o deixasse ir com ele. Jesus não o permitiu, mas disse: “Vá para casa, para a sua família e anuncie-lhes quanto o Senhor fez por você e como teve misericórdia de você”. Então, aquele homem se foi e começou a anunciar em Decápolis o quanto Jesus tinha feito por ele. Todos ficaram admirados.”


Versículo-chave: “Meu nome é Legião”, respondeu ele, “porque somos muitos”.
(Marcos 5:9)

Meditação: Como é que Legião foi parar num estado desses? O que foi que a vida lhe fez, e então, por causa disso, o que foi que ele fez a si mesmo? O que ele temia fazer a outros por causa do que estava fazendo a si mesmo? Que recordações atormentavam esse homem desesperado? O que o levou a uma separação auto-imposta das pessoas a quem ele amava? Se a dor e as dificuldades de encontrar e lidar com as pessoas, em realidade são difíceis demais ou dolorosas demais, ou se encontramos rejeição repetida, seguem-se rapidamente o jogo da autocomiseração e o remorso. Legião havia-se desviado do canal da cura. Era uma legião sem líder, marchando em todas as direções.

Quem é a legião da criança magoada, do adolescente frustrado e rejeitado, do jovem que promete, mas está desapontado, do fracasso repleto de recordações, do pai exigente, do juiz acusador, do irmão mais velho que infunde culpa, que vive em nossa pele? A maioria de nós somos um punhado de pessoas interiores conflitantes que concorrem pelo reconhecimento. Somos um punhado de coisas não resolvidas. Nós também somos legiões... sabemos disso pela maneira estranha de reagirmos, quase inadvertidamente, em algumas situações. Jesus curou Legião, e pode unificar nossa legião de impulsos competitivos e naturezas mistas e, como Legião, podemos voltar para a vida falando abertamente do que nos vai por dentro e do que Jesus está fazendo a esse respeito.

Pensamento do dia: “Quanto mais o homem tenta ser ele mesmo sem estar certo com Deus, tanto menos semelhante a si mesmo se torna e mais semelhante a todos os demais. O homem foi criado para ter comunhão com Deus, e jamais pode ser ele mesmo até que se submeta a essa regra divina... O ser completo é o que Deus pede e requer – não para torná-lo escravo, mas para emancipá-lo”. (Richard C. Halverson)

(Lloyd John Ogilvie, em “O que Deus tem de melhor para a minha vida”, Ed. Vida, meditação de 17 de fevereiro)

O evangelho de Lucas - parte 9

No capítulo 8, Lucas aborda dois temas que lhe são muito caros, começando a dar-lhes a especial atenção que caracterizará os capítulos seguintes: as mulheres e as parábolas. Primeiramente, registra a presença de "algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades", entre elas Maria Madalena (da qual saíram sete demônios); Joana, mulher de um procurador (uma espécie de administrador financeiro) de Herodes, e Susana. Madalena era de Magdala, um pequeno vilarejo entre Cafarnaum e Tiberíades. O primeiro aparecimento do seu nome em Lucas, logo após o relato da mulher pecadora (prostituta) do final do capítulo 7, fez com que, por muito tempo, Maria Madalena fosse confundida (às vezes propositalmente) com a prostituta que havia enxugado os pés de Jesus com os cabelos. Sobre Joana e Susana nada se sabe além do que Lucas aqui escreve. Joana será citada novamente junto com Maria Madalena e Maria, mãe de Jesus, por ocasião da ressurreição (Lucas 24:10). Muito provavelmente eram mulheres muito importantes no ministério de Jesus, pois Lucas faz questão de reforçar que muitas delas acompanhavam os discípulos ou, ainda, sustentavam economicamente o grupo. O fato do marido de Joana ser citado, e ter uma excelente posição social para a época, não deixa de ser, também, um testemunho claro aos leitores de Lucas de que aquela história era efetivamente verdadeira, e havia como comprová-la com as fontes indicadas.

Curiosamente, embora seja o evangelista que mais cita mulheres, Lucas é o mais econômico ao citar Maria Madalena; faz isso apenas duas vezes (Mateus cita 3 vezes; Marcos, 4; João, 3). Madalena era, certamente, muito influente no grupo, e muito importante para Jesus, tanto que ela é a primeira a vê-lo ressuscitado (Marcos 16:9). Talvez o fato dela ter sido exorcizada por Jesus tenha influído na sua credibilidade como testemunha da ressurreição diante dos apóstolos e discípulos (Marcos 16:10, Lucas 24:11), que nela não acreditaram e a julgaram vítima de "delírios". O argumento de que Pedro teria, de alguma maneira, ficado incomodado com a presença dela não se justifica se analisarmos que Marcos é o evangelista mais próximo a Pedro e o que dá a ela mais importância. Lucas, entretanto, a ignora no relato de Atos. Ao que parece, se Madalena podia incomodar algum apóstolo, provavelmente seria Paulo. Mesmo desaparecendo dos atos dos apóstolos, Maria Madalena deve ter tido muita importância para os primeiros cristãos, já que até um evangelho apócrifo lhe foi atribuído. Paulatinamente, vai diminuindo a importância que as mulheres haviam tido durante o ministério terreno de Jesus, e a Igreja institucionalizada tende a reproduzir as condições sócio-culturais da civilização em que estava inserida, ou seja, à mulher cabia funções subalternas e subservientes aos homens, a quem cabia o poder. Começa, portanto, a descida de Madalena ao inferno da liturgia e da hierarquia eclesiástica. Aos poucos, ela vai perdendo sua importância, chegando a perder a própria reputação, ao confundirem-na (propositalmente, a meu ver) com a prostituta de Lucas 7. Assim ela é retratada numa homilia do papa Gregório I no ano 591. Esta situação vai perdurar por muitos séculos, até que em 1969, finalmente, a Igreja Católica desfaz o "engano" milenar. A razão para esse, digamos, "descuido", me parece muito mais uma medida ideológica para desvalorizar a mulher dentro da hierarquia da Igreja do que propriamente uma teoria da conspiração, como quis fazer-nos crer Dan Brown em seu "Código da Vinci".

Nos versículos seguintes, Lucas se concentra no outro tema que lhe agrada muito: as parábolas. Como a Bíblia anotada por Russel Shedd ensina, "parábola" vem do grego παραβολή (parabolē), "comparação", que literalmente significa "lançar duas coisas semelhantes uma contra a outra". Ainda segundo Shedd, "significa colocar uma coisa ao lado da outra para estabelecer a semelhança ou distinção. Nos lábios de Jesus, veio a ser método especial de usar histórias terrenas para desvendar verdades espirituais àqueles que se entregam a Ele. Um dos motivos era atingir os simples, fixar as verdades nas mentes dos ouvintes (Mc 4.3), e sobretudo distinguir entre as pessoas de boa fé que queriam aprender, e as demais que ivessem zombar ou discutir (cf. Is 6.9-10)". Assim, Lucas relata duas parábolas em seguida, a do semeador (vv. 4-8) e a da candeia (vv. 16-18), intermediadas pela explicação da primeira (vv. 9-15), da mesma maneira como haviam feito Mateus (13:1-23) e Marcos (4:1-20). Apenas algumas parábolas tiveram explicação detalhada da parte de Jesus (a do joio e do trigo, por exemplo - Mateus 13:24-40, 36-54). A intenção de Jesus, me parece, que é aquela que Russel Shedd apontou na sua definição de parábola, ou seja, atingir os simples de coração e afastar os escarnecedores e mal intencionados. Assim, nas palavras de Jesus, "fala-se por parábolas para que, vendo, não vejam; e, ouvindo, não entendam" (Lucas 8:9). Obviamente, Jesus não estava querendo ser incomunicável ou fazer-se propositalmente ininteligível. Os fariseus se julgavam superiores pelo seu nível de instrução e treinamento religioso, e devem ter ficado espantados por se depararem com alguém que sabia, como ninguém, dominar as palavras. Devem ter se preocupado com a afirmação de Jesus de que "nada há oculto, que não haja de manifestar-se, nem escondido, que não venha a ser conhecido e revelado" (v. 17). O Mestre sabia, como sabemos hoje, que inteligência não é exatamente a capacidade de acumular conhecimento, mas de associar idéias, e isso independe do nível social da pessoa.

Em seguida, Lucas narra a presença de "sua mãe e seus irmãos", que vieram ter com Jesus (v. 19) e não podiam vê-lo por causa da multidão. Ele lhes dá uma resposta que soa mal educada, de que sua mãe e seus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam (v. 21), mas de alguma maneira Jesus estava colocando as coisas no seu devido lugar. É óbvio que a família lhe era importante, tanto que Maria estava aos pés da cruz, mas aquele era o momento do seu ministério público, em que seus parentes deviam se conformar com um lugar mais abaixo na Sua lista de prioridades, embora sua própria família não acreditasse na sua vocação messiânica nessa época (João 7:5) e achasse que ele estava fora de si (Marcos 3:21, 31-32). Marcos 6:3 cita o nome de 4 dos irmãos, Tiago, José, Judas e Simão, além de suas irmãs. A tradição católica diz que os "irmãos" de Jesus eram, na verdade, seus primos ou filhos de um primeiro casamento de José, e não propriamente irmãos, já que Maria teria sido perpetuamente virgem. O dogma da virgindade perpétua de Maria vai ser definido pela primeira vez no Concílio de Constantinopla de 553, mas, com todo o respeito aos irmãos católicos, não me parece que seja essencial ao evangelho que Maria fosse eternamente virgem. Se assim o fosse, certamente os evangelhos e as cartas de Paulo teriam afirmado esta condição, mas não é o que ocorre. Assim, me parece, como parece à maioria dos protestantes, que os irmãos a que se refere Lucas no v. 19 eram efetivamente irmãos de sangue, sem desprezar a possibilidade de que fossem filhos de um primeiro casamento de José, embora também não haja qualquer evidência bíblica neste sentido. Entendo a definição do dogma, tal como apresentado pela Igreja Católica, como uma medida muito mais ideológica do que teológica, no sentido de manter a mulher permanentemente dominada pelo poder patriarcal ou marital, dentro do mesmo espírito que norteou a condenação papal de Maria Madalena à prostituição ("aquela que foi sem nunca ter sido"), ou seja, de se valorizar o papel subalterno, angelical, virginal, da mulher numa sociedade eminentemente machista. Não é estranho, entretanto, que isto se dê através de um paradoxo. Ao mesmo tempo em que se elevam as virtudes de Maria, mãe de Jesus, as mulheres, que nela deviam inspirar-se, são rebaixadas na sua condição social.

Há uma tempestade narrada por Lucas nos vv. 22-25, em que Jesus repreende o vento para que a bonança retorne, e, diante do desespero dos discípulos, censura a sua falta de fé. Todos eles vão, então, à terra dos gerasenos (cfe. também Marcos 5:1 ). Aqui há uma controvérsia com o relato de Mateus 8:28, em que as pessoas de lá são chamadas de gadarenos e há dois endemoninhados, em vez de um. Há ainda alguns manuscritos dos três evangelhos sinópticos que trazem ainda o gentílico "gergesenos", havendo também manuscritos de Mateus que trazem a palavra "geraseno". Aparentemente, se trata do mesmo fato e da mesma região, mas há alguma discrepância quanto ao nome e ao relato, embora os estudiosos entendam que tanto Gadara como Gerasa eram cidades situadas a alguns kilômetros da orla, faziam parte da região chamada de Decápolis ("dez cidades" – ver mapa acima/ao lado) e Gerasa era a capital da região em que se encontrava Gadara, e, por isso, o nome podia ser usado tanto de uma como de outra. Quanto ao número dos endemoninhados serem dois ou um, a versão mais aceita é de que eram dois, mas apenas um se adiantou para falar com Jesus. O fato deste geraseno/gadareno "corajoso" reconhecer que Jesus como Filho do Deus Altíssimo (v. 28), e do número de demônios que nele estavam (uma "legião" – v. 30 -, que para os romanos englobava algo em torno de 6.000 soldados) revela alguém em terrível situação de possessão demoníaca, e, talvez por isso mesmo, ousado o suficiente para apresentar-se diante de Jesus, contrastando com a falta de fé que os discípulos haviam demonstrado na travessia do mar da Galiléia (v. 25). Aquela região era habitada por gentios, como se vê no fato de criarem animais considerados impuros pelos judeus, e talvez a rejeição do Mestre naquele lugar se tenha se dado pelo medo de que um grupo de judeus liderado por Jesus, que havia provocado a morte de boa parte de sua manada, viesse a lhes causar mais prejuízos. Entretanto, o homem que antes vivia nu nos sepulcros, e agora estava livre dos demônios, "vestido, em perfeito juízo, assentado aos pés de Jesus" (v. 35), embora quisesse segui-lO, foi-lhe incumbida a missão de anunciar por toda a cidade (que havia rejeitado tanto a ele como ao Mestre), tudo aquilo que Deus lhe havia feito. Esta é uma história estranha, mas repetitiva, não só quanto ao lado espiritual. Muitas vezes, as pessoas e sociedades inteiras rejeitam o progresso, a cura, o desenvolvimento, o bem-estar, em nome da manutenção de um estilo de vida que não se importa com quem vive e anda nu se machucando pelos sepulcros. Uma grande história com muitos ensinamentos, sem dúvida. Há uma linda meditação de Lloyd John Ogilvie sobre esta passagem, que eu postarei em seguida (ver aqui).

O capítulo 8 de Lucas, como vimos, é pródigo em lições, e termina com mais duas mulheres. O médico Lucas faz questão de salientar que havia 12 anos que a mulher sofria de uma hemorragia incessante, o que a tornava proscrita segundo a Lei mosaica (Levítico 15:25). Tal constrangimento e sofrimento não a impediu, entretanto, de se aproximar da multidão (da qual havia sido excluída) para tocar Jesus. A cena que se segue é encarada com um certo desdém pelos discípulos quando Jesus diz que "alguém" o havia tocado (vv. 45-46): "Mestre, as multidões te apertam e te oprimem e dizes: Quem me tocou?". Vendo a confusão, a mulher toma coragem e se aproxima, no que é recompensada por Jesus que lhe diz que a sua fé a havia salvado. Há outra repercussão digna de nota no comportamento, digamos, espalhafatoso de Jesus ao fazer com que a mulher se expusesse publicamente. Afinal, já havia 12 anos que ela estava excluída da sociedade local, e agora, era necessário um reconhecimento público da sua cura para que ela pudesse ser aceita de volta ao convívio da sua família, dos seus parentes e amigos. A mulher entendeu o que o evangelista também havia feito questão de enfatizar: ela, que não era ninguém pela Lei mosaica, agora havia se transformado em ALGUÉM por e para Jesus.

O chefe da sinagoga local, Jairo, presenciara o acontecimento, e, mal havia Jesus despedido em paz a mulher (v. 49), alguém de sua casa chegou afoito dizendo que não incomodasse mais o Mestre, pois sua filha estava morta. Jesus, ciente da multidão que o acompanhava e da repercussão de suas palavras, diz a Jairo que não se preocupasse, mas que apenas cresse e a menina seria salva. Vão, então, até a casa de Jairo, e somente Pedro, Tiago e João têm autorização para entrar. Diante da afirmação de Jesus de que a menina apenas dormia, a multidão que chorava passa a rir (v. 53), o que não impede Jesus de ressuscitar a menina para espanto geral, ordenando, a seguir, que seus pais não contassem a ninguém o que havia acontecido. Com os gadarenos, Jesus havia preferido a publicidade, agora queria anonimato. Talvez porque uma ressurreição naquele momento poderia apressar demais o ritmo dos acontecimentos e provocar a Sua morte antes do previsto, como de fato ocorreu logo após a ressurreição de Lázaro, que provocou a imediata reunião (e conspiração) do Sinédrio (João 11:46-50).

Globo e mórmons, tudo a ver!

Notícias transcritas no Forum Atos dão conta de que a Globo fez um acordo com os mórmons (Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias) para a veiculação gratuita de algumas propagandas da campanha "Mãos que Ajudam", da referida Igreja. Até aí nenhum problema, afinal os canais de televisão são concessões públicas e, sempre que possível, devem fazer campanhas filantrópicas com outras organizações, inclusive igrejas. As organizações religiosas, igualmente, têm o direito (e por que não dizer, o dever) de irem além de suas fronteiras para ajudar a sociedade, como fazem os mórmons reformando escolas, numa iniciativa digna de nota. Entretanto, não deixa de ser curioso esta parceria entre Globo e os mórmons. Com certeza, não se trata de uma tentativa de aproximação com os evangélicos, pois não só os mórmons não se consideram evangélicos ("protestantes", como eles dizem) como os evangélicos não consideram os mórmons cristãos. Também não parece ser uma tentativa de se contrapor à Universal (leia-se "Record"), já que os mórmons eram apenas 200.000 no Brasil no censo de 2000, e não devem ter crescido tanto neste período. Há certamente várias organizações religiosas e filantrópicas (ou não) que atendem e representam um número muito maior de pessoas. Ninguém menospreza o poder da Globo, e o que representa (e custa) a inserção de uma publicidade de 15 segundos em horário nobre; agora, a dúvida cruel é saber por que eles se associaram aos mórmons, já que mesmo essa campanha "Mãos que Ajudam a Reformar Escolas Públicas", por mais que seja elogiável, tem um alcance limitado. Dentro da campanha "Todos pela Educação" da Fundação Roberto Marinho, até que faz sentido, tudo muito meigo, mas a Globo agradecer alguém já soa estranho, e ainda retribuir com horário grátis na TV, aí a nossa rebimboca da parafuseta já espana, né... Estranho, muito estranho...

Para refletir

“Da mesma forma que aquele orador, indagado qual seria o primeiro entre os preceitos da eloqüência, respondeu: a elocução; como o segundo: a elocução; também o terceiro: a elocução; assim, se me interrogas acerca dos preceitos da religião cristã, primeiro, segundo e terceiro, me agradaria responder sempre: a humildade.”

(Santo Agostinho, “Epístola 56. A Dióscoro”)

CQC - Custe o Que Custar

Pois é, conforme noticiado aqui, ontem estreou o CQC – Custe o Que Custar, versão brasileira do já mitológico programa argentino CQC – Caiga Quien Caiga. Como disse antes, eu estava preparado para me decepcionar, talvez por já ter gravado no meu inconsciente a qualidade do original. Para minha grata surpresa, o programa de estréia se saiu bem, muito bem mesmo, para os parâmetros da Band e da TV brasileira em geral. É claro que se trata de uma produção independente, deste modelo de televisão que não existe no Brasil, onde produção, programação e exibição estão sempre concentradas numa só empresa, com raras exceções, sendo a Globo o melhor (ou pior) exemplo de concentração do mercado. Aquilo que o mercado cinematográfico de Hollywood descobriu no início do século passado, ou seja, a desconcentração favorece a concorrência e democratiza e, muitas vezes, maximiza os lucros, ainda não chegou no protocapitalismo brasileiro, com a Globo à frente. Ainda "juntos chegaremos lá, fé no Brasil", como cantava o jingle do Afif (afff!) em 1989.

Falando do programa em si, foi muito agradável de se ver. Bem produzido, um ritmo legal, ótima apresentação, boas reportagens. Um porém, apenas: gosto do Marcelo Tas, um cara que tem história na televisão brasileira, mas me parece um pouco enferrujado para o papel de âncora do programa. Até que se saiu bem, entretanto, principalmente para mim que ainda tenho o Mario Pergolini como referência. Torço para que ele pegue o ritmo do CQC original. Dividindo com ele a bancada, Rafinha Bastos e Marco Luque se saíram surpreendentemente bem. Anotem aí esses dois nomes, vamos ouvir falar deles num futuro muito próximo. Os "repórteres de campo" se saíram muito bem também, considerando-se que se tratava de um programa de estréia e eles ainda não estão no pique do original, nem acertaram ainda um ritmo próprio para a TV brasileira, já que aqui a gente tem aquele humor chapa-branca do Casseta & Planeta, e o escracho anti-celebridade (já cansativo) do Pânico na TV. Há um nicho de humor ainda carente, o do escracho-inteligente-sem-rabo-preso, que acho que o CQC pode preencher. Enfim, acho que o CQC brasileiro veio pra ficar, e, cá entre nós, o Brasil precisa que eles não só fiquem como se estabeleçam, só assim ainda haverá esperança que a televisão brasileira não seja este reduto de incompetentes e conformados.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Carta aos Romanos - 11



Isto é algo que a maioria dos cristãos sabe, mas que sempre nos escapa quando estamos lendo a Bíblia. Cada carta de Paulo foi escrita como um conjunto único, sem separação em capítulos e versículos, que é um recurso que somente foi utilizado a partir do século XVI. Na carta aos Romanos, ele, me parece que propositalmente, vai dividindo sua carta em capítulos de acordo com a seqüência lógica de seu pensamento, que sempre começa com algumas idéias leves, e vai num crescendo até explodir numa exaltação à glória de Deus e às bênçãos da vida cristã. O capítulo 8 parece ser a maior prova disso, mas todos os outros seguem o mesmo modelo, inclusive o 9, em que ele começa citando o testemunho de sua própria consciência, e o 10, em que fala da boa vontade do seu coração em relação aos judeus. A palavra "consciência", por sinal, é um tema constante nas cartas de Paulo. Embora inexistente no Velho Testamento, no Novo ela aparece 28 vezes, sendo 20 vezes nas cartas de Paulo, 3 em Hebreus, e 3 em 1ª Pedro. Outras 2 vezes aparece na narrativa de Atos, mas Lucas as coloca na boca de Paulo. Só em Romanos, ele emprega a palavra "consciência" 3 vezes (2:15, 9:1 e 13:5). Em Romanos 2:14-16, a consciência assume para Paulo um papel primordial na salvação daqueles que não chegaram a ouvir o evangelho:

Rom 2:13 Pois não são justos diante de Deus os que só ouvem a lei; mas serão justificados os que praticam a lei
Rom 2:14 (porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem por natureza as coisas da lei, eles, embora não tendo lei, para si mesmos são lei.
Rom 2:15 pois mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os),
Rom 2:16 no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o meu evangelho.

Como veremos mais tarde, esta questão da consciência está intimamente ligada ao contexto de Romanos 10, em que Paulo começa falando dos judeus terem tentado estabelecer uma espécie de justiça própria mediante as obras da Lei, ignorando que "o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê" (v. 4), conforme ele detalha melhor em 2ª Coríntios 3:7-18, mas também cita, em seguida, Deuteronômio 30:11-14, no sentido de que a própria Lei de Deus já apontava que a graça de Deus era a única forma dEle atrair os homens a Si, e, assim, de nada adiantaria subir ao céu para trazer Cristo ou ressuscitá-lo de novo, se a pessoa não tivesse fé. Daí Paulo dar, por assim dizer, a "fórmula" de se tornar um cristão e ser salvo:

Rom 10:8 Mas que diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé, que pregamos.
Rom 10:9 Porque, se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo;
Rom 10:10 pois é com o coração que se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.

Esses versículos são básicos para se entender o cristianismo, e como se opera a salvação. Paulo já vem dizendo isto durante toda a carta aos romanos, mas de outra forma. Já havia deixado claro que todos pecaram e carecem da glória e da graça de Deus (Romanos 3), e que pela fé somos justificados (Romanos 5), não havendo condenação para quem está em Cristo Jesus (Romanos 8), mas agora Paulo diz que era necessário não só um reconhecimento intelectual dessas verdades, mas também um comprometimento pessoal e público, no sentido de uma confissão audível de que Jesus é o Senhor da vida do cristão, e uma fé sincera no seu sacrifício por nossos pecados e na sua ressurreição. Jesus Cristo é o Senhor e o Salvador. Aqui temos, portanto, o fundamento para a profissão de fé do crente, não só no sentido de um ritual público, mas de um compromisso efetivo por toda a sua vida. No v. 11, Paulo insiste na idéia de que todo aquele que crê em Cristo não será confundido, e que não há acepção de pessoas, mas, citando Joel 2:32, "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (vv. 12-13). Paulo desfila um repertório de profetas do Antigo Testamento, pois sabe que boa parte dos seus leitores, judeus convertidos, estavam familiarizados com essas passagens bíblicas. E aí, ele os desafia:

Rom 10:14 Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram falar? e como ouvirão, se não há quem pregue?
Rom 10:15 E como pregarão, se não forem enviados? assim como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam coisas boas!


Esta é uma passagem linda, uma exortação ao evangelismo, sem dúvida, mas ao mesmo tempo ela pode ser perigosa quando tirada fora do contexto. Por exemplo, para justificar sua heresia do "batismo pelos mortos", além de aproveitar-se da ironia que Paulo faz em 1ª Coríntios 15:29, os mórmons pinçam esses versículos de Romanos 10, isolando-os e, mediante um discurso sobre a injustiça de alguém ser condenado sem nunca ter ouvido o evangelho, tentam justificar o batismo que eles fazem "por procuração" das pessoas (almas) que já morreram. Assim, a pessoa viva aqui se batizaria em nome de algum morto, enquanto Cristo lhe pregaria esta mensagem no além. Eu sei que pode parecer absurdo (como de fato é), mas eles desenvolveram toda uma doutrina herética com base nesses versículos, e que, infelizmente, corrompem muita gente.

Entretanto, como toda seita que abusa de textos tirados de contextos, os mórmons procuram desviar a atenção do leitor da Bíblia em relação aos versículos seguintes, em que Paulo complementa:

Rom 10:16 Mas nem todos deram ouvidos ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem deu crédito à nossa mensagem?
Rom 10:17 Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo.
Rom 10:18 Mas pergunto: Porventura não ouviram? Sim, por certo: Por toda a terra saiu a voz deles, e as suas palavras até os confins do mundo.

Assim, o próprio Paulo respondeu às suas questões dos vv. 14-15:

Sim, todos ouviram! E não só na Judéia e nos arredores, mas por toda a terra!!!

Não se trata de um "simzinho" à toa... a palavra grega aí é μενουνγε (menounge), que é mais do que um mero "sim", mas um "sim" enfático, afirmativo ao extremo.

Foi a Lei mosaica que revelou a graça de Deus aos judeus? Certamente que sim... Deuteronômio 30 o confirma.

E aqueles que nunca ouviram falar da Lei mosaica (ou do evangelho)? Foi a natureza que revelou a glória de Deus, como diz o Salmo 19 e Romanos 1? Talvez... afinal, está no contexto da carta de Paulo aos Romanos... foi a consciência? Talvez...Romanos 2:14-16, como vimos acima, também fala disso... Estes são mistérios que não nos cabe dar uma resposta definitiva, mas Deus deixou algumas pistas colocadas estrategicamente nas cartas de Paulo. Pedro também se refere a esta "boa consciência" justamente quando fala de batismo em outro texto que os mórmons adoram deturpar, 1ª Pedro 3, em que Jesus foi pregar aos espíritos em prisão, Pedro fala do batismo não exatamente pela água, mas pela consciência:

1Pe 3:18 Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito;
1Pe 3:19 No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão;
1Pe 3:20 Os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca; na qual poucas (isto é, oito) almas se salvaram pela água;
1Pe 3:21 Que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo;


Logo, na analogia que Pedro faz da salvação das águas pela arca de Noé, ele também se refere ao batismo na água, que nos salva, não pelo simples lavar da sujeira do corpo, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus. Assim, fica claríssimo que o que nos salva não é o ritual em si, envolva ele água por aspersão ou imersão, mas a consciência do crente que, de fato, crê em Cristo e está justificado para a salvação no Seu sangue.

Pedro e Paulo certamente formavam uma bela dupla.

Correndo o risco de nos alongarmos um pouco mais sobre Romanos 10:18 (e já alongando), a primeira impressão de quem lê este texto é a de que ele se refere unicamente aos judeus, mas se formos pesquisar mais a fundo, veremos que ele se refere tanto a judeus como a gentios. Ainda que o capítulo 10 seja mais específico com relação aos judeus, desde Romanos 1 Paulo vem dizendo que todos são indesculpáveis, que todos tiveram a oportunidade de conhecer Deus através da natureza, e em Romanos 2, através da consciência, como já citamos.

"Ouvir a lei", em Romanos 2:13 (acima), aparentemente, diz respeito unicamente aos judeus, mas o próprio texto de Romanos 10 vai abrindo o leque para os gentios. No v. 12, Paulo diz que "não há distinção entre judeus e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam". E o v. 13 complementa dizendo que "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo". Logo, um grego, um gentio, poderia invocar o nome do Senhor? Teria ele ouvido de Deus pela natureza ou pela consciência? O v. 18 diz que "Porventura não ouviram?". E a resposta: "Sim, por certo: Por toda a terra saiu a voz deles, e as suas palavras até os confins do mundo". Esta é uma citação que Paulo faz do Salmo 19, outro salmo tido como "portador" de uma revelação universal de Deus por meio da natureza:

Salmo 19:
1 Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
2 Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.
3 Não há fala, nem palavras; não se lhes ouve a voz.
4 Por toda a terra estende-se a sua linha, e as suas palavras até os confins do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol,


Se saiu por toda a terra, até os confins do mundo, isso inclui os gentios. E o raciocínio do v. 19 de Romanos 10 é invertido, ou seja, se saiu por todo mundo a mensagem de Deus, "porventura, não terá chegado isso ao conhecimento de Israel?". Ou seja, Paulo inverte mesmo o raciocínio. Até o v. 17, ele fala do particular (Israel) para o geral (mundo), mas nos vv. 18 e 19 ele vai do geral (mundo) para o particular (Israel) pra justificar seu ponto de vista. Isto serve de ponte também para o primeiro versículo do capítulo 11, pois, pelo menos a princípio, Paulo estava se referindo exclusivamente aos judeus. Logo, os judeus que leram a carta deviam estar se perguntando: "terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo?", ao que Paulo responde: "De modo nenhum!" (Romanos 11:1).

Alguns comentários sobre o texto em questão:
Bíblia de Genebra:
10.18
Por toda a terra se fez ouvir a sua voz. O contexto imediato da citação de Sl 19.4 é o da revelação geral de Deus (Sl 19.1-3). Paulo se utiliza disso para provar, por meio das Escrituras, que Israel tinha ouvido a mensagem de Deus, e isso subentende que sua citação dessa seção do salmo envolve o ensino do salmo todo, que fala tanto de uma revelação geral, na natureza, como de uma revelçação especial, em sua Palavra. Esta última revelação tem lugar no contexto da primeira. A lógica subjacente pode ser: Se aqueles, sem qualquer revelação especial, "ouviram" a mensagem da glória divina na criação, quanto mais a ouviram aqueles que receberam a revelação especial.

Bíblia do Peregrino:
10,18-21 Não podem alegar que não ouviram, porque a pregação e estendeu a todo o mundo; adapta Sl 19,4, que fala da manifestação cósmica. Tampouco podem alegar que não entenderam, porque Deus
se pôs a seu alcance (Is 65,1), os incitou (Dt 32,21) mas eles resistiram (Is 65,2).

Bíblia de Estudo NVI:
10.18 A sua voz. A citação provém do Sl 19,4, referente ao testemunho dos céus a respeito da glória de Deus. Aqui, "a sua voz ressoou" aplica-se aos pregadores do evangelho, demonstrando que Israel não pode oferecer a desculpa de não ter tido oportunidade de ouvir, pois os pregadores iam a todos os lugares. Essas palavras (usadas primeiro em referência à revelação de Deus na natureza) dizem respeito de forma adequada à pregação generalizada do evangelho, e Paulo as emprega para demonstrar que os judeus tiveram ampla oportunidade de ouvir a mensagem da redenção.
10.19 Será que Israel não entendeu? A citação que se segue (de Dt 32,21) responde à pergunta, dando a entender que os gentios, que os judeus consideravam sem iluminação espiritual, entenderam. Sem dúvida, como os gentios entenderam a mensagem, os judeus também a poderiam ter entendido, quem não é meu povo. Os gentios, que não são nação formada por Deus da mesma forma que Israel.

O evangelho de Lucas - parte 8

O capítulo 6 de Lucas tem uma ligação com o capítulo 5, pois inicia dizendo "E sucedeu que...".Lucas provavelmente queria mostrar o quanto aqueles fariseus insistiam em fazer os discípulos se comportarem como vinho novo em odres velhos. E talvez por isto Lucas coloca dois relatos sobre discussões sobre o sábado e sua observância em sequência.

Lucas inicia o relato falando da colheita de espigas realizada pelos discípulos no sábado, algo que não era lícito. Jesus responde citando o exemplo de Davi que entra no templo para comer os pães da proposição. Em um relato paralelo Jesus falaria também dos sacerdotes realizando o serviço no templo. Jesus é o Senhor do sábado, por isto ele pode interpretar corretamente o que o sábado é. Neste caso, os discípulos que são o vinho novo, serão deitados em odres novos, que é Cristo. E Cristo é maior que o templo (Mt 12:6), logo o que Davi fez é comparável ao que os discípulos fizeram. Se colher espigas daquela forma fosse algo permitido por lei, Cristo teria apontado a lei como resposta, e provavelmente os fariseus nem teriam acusado os discípulos de transgredí-la, já que a conheciam muito bem.

Depois disto, Jesus é retratado curando uma pessoa no sábado. Conhecendo as intenções dos fariseus, Jesus pergunta sobre o caráter do sábado. É um dia de morte, ou um dia de vida? Ora, o sábado para o cristão é o descanso obtido pela fé em Cristo (Hb 4:3). Este descanso é o descanso onde Deus irá curar todos de todas as doenças e dores, como está escrito:

(Ap 21:4) Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.

Este é o sábado cristão, e Cristo não só corrige o entendimento dos fariseus, ele nos indica como será aquele dia. O sábado é um dia de cura, e nada mais apropriado do que aquela cura para nos mostrar o caráter do Sábado, aquele descanso que entra todos os cristãos.

Logo depois disto ele reúne seus 12 discípulos e realiza uma pregação que futuramente seria conhecida como sermão do monte, onde Cristo define o básico de sua pregação. Ser cristão envolve uma mudança de comportamentos, primeiramente em relação ao sofrimento e à riqueza. Quem sofre pode ficar feliz, pois Deus enxugará suas lágrimas. Como diz Eclesiastes, há tempo para tudo, então se hoje é o tempo de sofrimento, amanhã será o tempo de alegria. O rico deve tomar cuidado, por que se ele quer obter sua alegria das coisas que possui agora, então ele não poderá obter alegria de Deus. Ele já tem sua alegria, e Deus está dando a alegria para os que necessitam dela. E de fato o verdadeiro cristão se torna pobre, infeliz e sofredor, por que este mundo não é capaz de fornecer a alegria que ele deslumbra ao olhar para Deus. Assim, pelos frutos se conhecem as árvores, e assim como uma árvore boa não pode dar frutos ruins, o bom homem não pode dar exemplos de conduta ruim. Se ele ouve Cristo e pratica aquilo que lhe foi ensinado, então ele constitui uma casa sólida sobre a rocha, aquela sobre a qual a igreja de Cristo é fundada (Mt 16:18).

E como se fala de árvores e frutos, a discussão do capítulo 7 é sobre a fé. Diante da fé, Jesus não nega apoio a ninguém, tanto que aquele que foi enviado às ovelhas perdidas de Israel foi atender a um centurião romano. Este demonstra sua grande fé, ao acreditar primeiro que era tão pecador que não poderia estar junto com Cristo. Isto demonstra a humildade e arrependimento daquele que seria considerado um perdido por fariseus. Segundo, sua fé no fato de Cristo ser tão poderoso que poderia ordenar sua cura sem estar presente.

Depois, se fala sobre a ressurreição do filho de uma viúva. A compaixão é o que move Cristo neste ato, e por isto devemos dar glória a Deus, pois temos um juiz que se compadece de nós. Este ato assusta muitos, que dividem suas opiniões. O povo se perguntava se era um profeta ou se o próprio Deus visitava seu povo, um reflexo talvez de algumas declarações de Cristo. Isto chama a atenção de João Batista. Justamente ali que a fé entra novamente em ação. João parecia não ter certeza de ser ou não Jesus o Cristo, que confirma tudo com atos. Somente Deus poderia fazer milagres em seu próprio nome, e Cristo fazia assim. Se fosse somente um profeta, como disseram alguns, então Deus não estaria com ele, e ele certamente sofreria as consequências.

Por fim, Jesus vai comer com um fariseu. Os fariseus cometiam muitos erros, mas Jesus sempre lhes davam chances, principalmente àqueles que eram sinceros, pois eles estavam dispostos a aprender. E justamente aquele fariseu achou que Jesus não conhecia os pecados da mulher que a tocava. Mas Cristo sabia, e explicou para Simão, aquele fariseu, que um grande perdão gera um grande amor. Retomando o ensino do capítulo anterior sobre as árvores e seus frutos, e expandindo, temos um grande exemplo disto. A mulher que era muito mais pecadora que Simão, foi muito mais perdoada que ele. É por isto que ele quase não fez nada para Cristo como demonstração da gratidão e amor, enquanto a mulher fez tudo aquilo como gratidão. Ela tinha sido mais perdoada que o fariseu Simão, é por isto que ela agia daquela forma.

E Jesus confirma aquilo para a mulher: a fé é salvadora. E todos ali presentes mais uma vez se assustaram do fato de Cristo perdoar pecados. Todos eles entendiam que somente Deus poderia fazer isto.

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