terça-feira, 4 de agosto de 2009

As Crônicas de Marvin - 13

A fonte

O ponto de ônibus ficava em uma pequena praça perto da casa da Amanda. Era uma pracinha muito visitada pela vizinhança. Chegando ali, avistamos uma figura familiar.
- Irmã Priscila? – perguntei.
- Olá, irmãos. – respondeu, sorrindo – Onde estão indo?
- Bem, nós vamos visitar a congregação Alto da Glória. Vamos conversar com o ancião e a esposa dele... – respondeu Amanda.
- Ahh... Vejo que já estão “trabalhando” logo cedo, não é irmã?
As duas sorriram, mas Priscila estava um pouco séria. Então, se voltou para mim, dizendo:
- Irmão, eu não tive a oportunidade ainda de me desculpar...
- Por quê, irmã?
- Bem, no domingo, lá na festa... Eu não tive escolha, senão ir ver o que o Aldo queria... Sabe, quando éramos noivos... Eu gostava muito dele...
Entendo... A dúvida que ela demonstrou ter na verdade era um sinal... Sinal que ela ainda gostava dele de certa forma.
- Tudo bem, irmã... Então, descobriu o que ele queria?
- Bem, você ouviu o irmão Estêvão... Ele queria voltar comigo...
- Voltar? – exclamou desta vez a Amanda...
- Sim, irmã... Ele queria voltar comigo...
- Mas você não me disse na festa que ele te achava um pouco alegre demais? – Perguntei...
- Sim... Mas ele estava me dizendo ontem que se eu tinha sido escolhida para ajudar duas pessoas tão importantes como você e o irmão Estêvão, então ele deveria ter feito um mal julgamento...
- Interessante... Ele não chegou a esta conclusão simplesmente te observando, mas por que duas pessoas importantes confiam em você?
- Hummm, é...
Realmente o cara era um imprestável...
- Olha, tome cuidado com suas decisões... Pense bem antes de tomá-las...
- Tudo bem, irmão... Eu vou tomar... Bem, vou deixar vocês pegarem seu ônibus, senão vocês vão se atrasar, hehehe...
Assim ela se despediu de nós e continuou seu caminho, enquanto eu e Amanda acabamos de chegar até o ponto. Não esperamos muito tempo. Logo estávamos sentados no ônibus, em direção ao Alto da Glória, enquanto aquele veículo nos seguia.
- Humm... Marvin?
- Sim?
- O que tem nesta mochilona aí?
- Ah, são algumas coisinhas que eu sempre carrego... Nada demais.
Eram meus instrumentos de “tortura”. Estava disposto a arrancar algo daquele ancião, custe o que custar...
- Ah... Você gosta de carregar muita coisa, não é?
- Hehehe, sim... Não consigo sair de casa sem meu computador... É como se eu saísse sem roupas, sei lá...
Por que vigiavam Amanda? Isto estava ficando cada vez mais estranho... Ela não fazia mal a ninguém, o dia que tinha chamado mais atenção foi no último domingo...
Ela olhava para mim, com um pequeno sorriso no rosto, mas um olhar levemente melancólico, como que procurando puxar conversa.
O último domingo?
Agora eu entendia... Apesar de tudo, o tempo que fiquei junto com Amanda, o fato de levá-la para casa constituía, para o padrão das testemunhas de Jeová, um namoro... E como alguém tão próxima de mim, agora ela era digna de ser vigiada... E eu ainda não entendia os motivos disto, mas não era boa coisa...
Dificilmente eles fariam algum mal a ela do tipo físico, como bater ou sequestrar. Mas certamente não hesitariam em fazer pressão psicológica, algo que eram especialistas em fazer. E Amanda já possuia uma vida muito conturbada para passar por mais esta.
Mais uma vez eu consegui arrumar problemas para uma pessoa que não merecia. Tudo por causa da minha sede de vingança. Justo agora que eu estava conseguindo consertar o meu primeiro erro... Eu não faço nada certo mesmo... Eu podia ter pensado melhor nas consequências... Mas fui fazendo tudo de supetão, como sempre...
Não sei se poderia olhar para aquele rosto que agora sorria para mim da mesma forma que antes... Fiz tudo errado...
- Marvin?
- Sim?
- Aconteceu alguma coisa? Você está muito sério... Foi o que a irmã Priscila falou?
- Ah... Não... Não foi isto não...
Na verdade a Priscila nem passava na minha cabeça naquele momento... Então, decidi tomar coragem:
- Amanda... Eu queria te pedir desculpas...
- Desculpas? Por quê?
- Hummm, olha, é um pouco complicado... Eu fiz algo há algum tempo atrás e de uma forma indireta, acabei trazendo problemas para você...
- Você fez algo? Mas o quê você fez?
Olhei nos olhos dela, mas não podia contar a verdade... Ela me odiaria...
- Bem, eu não posso te dizer o que fiz. Não agora...
- Não... pode...?
- Eu sei que é estranho... Confie em mim. Eu vou cuidar de tudo... Só estou te pedindo desculpas, pois eu queria te avisar que talvez algo ruim possa acontecer a você... Saiba que eu estarei sempre do seu lado e vou te ajudar...
Estas palavras a fizeram sorrir de forma tímida... Sim, eu estava disposto a protegê-la. Eu devia isto a ela. Eu queria proteger aquele tímido sorriso...
- Marvin...
- Sim?
- Não se preocupe... Eu te perdoo, Marvin... Embora eu ainda não saiba o que está acontecendo ou o que vai acontecer, eu te perdôo... É fácil dizer isto agora, mas eu espero que se algo ruim acontecer mesmo, eu consiga superar tudo... Vou fazer o máximo para superar... Pois eu sei que ninguém é perfeito, que uma hora ou outra, até as pessoas que eu mais gosto podem me magoar... Não espero perfeição de você, espero arrependimento... E isto eu já vejo em você...
Senti como se um peso fosse tirado de meus ombros... Ela continuou...
- Além do mais, somos ensinados a perdoar setenta vezes sete... A oração do Pai-Nosso que é nosso modelo nos diz para pedirmos perdão assim como perdoamos aqueles que nos ofende... Há até uma parábola que mostra a ingratidão de um homem, que embora perdoado, não perdoou aqueles que o deviam... Que tipo de cristã eu seria se não te perdoasse?
Esta eu sei: uma testemunha de Jeová!! E era exatamente por isto que eu estava assombrado... Ela se lembra de todos estes pontos, mesmo sendo uma TJ. Ela não parecia fazer parte daquele mesmo grupo das comissões judicativas, tratamentos a apóstatas e coisas do tipo. Ela era estranhamente normal, normal demais para ser uma testemunha de Jeová...
Neste momento estas palavras de Jesus Cristo ecoavam em minha mente:

No entanto, eu vos digo: Continuai a amar os vossos inimigos e a orar pelos que vos perseguem; para que mostreis ser filhos de vosso Pai, que está nos céus, visto que ele faz o seu sol levantar-se sobre iníquos e sobre bons, e faz chover sobre justos e sobre injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem também a mesma coisa os cobradores de impostos? E, se cumprimentardes somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem também a mesma coisa as pessoas das nações?

Entendendo que quem eles chamam de apóstatas fossem os piores inimigos das testemunhas de Jeová, qual deles jamais demonstrou alguma forma de amor por eles? Digo que muito poucos e isto de forma escondida, para não serem descobertos... Na verdade, elas imitam as pessoas das nações, elas são parte do mundo, coisa que elas abominam em suas reuniões secretas de auto-valorização... Devo admitir que a resposta que dei há pouco está errada... As testemunhas de Jeová não são cristãs, elas não se classificam como escolha possível para a resposta...
- Obrigado, Amanda... Nem sei o que dizer...
- Diga algo alegre... Esqueça isto, temos coisas melhores para nos preocupar...
Logo chegamos ao local. Descemos do ônibus e seguimos algumas ruas pequenas, que levavam ao salão do Reino daquela localidade. O carro que nos seguia agora estava mais longe, para não chamar muita atenção.
O salão do Reino ali era bem organizado. Aquela região era diferente da nossa, pois os moradores ali geralmente possuíam melhores condições. Enquanto tínhamos cadeiras de plástico, as cadeiras ali eram cadeiras próprias para auditórios. O jardim bem cuidado, portas e janelas de primeira qualidade... Era tudo diferente. Na porta, o sorridente ancião esperava, com sua esposa...
- Irmão Rogério! Como vai?
- Estou bem, irmão Marvin. Esta aqui é minha esposa.
- Muito prazer. Eu sou Marvin, esta é a irmã Amanda, que está me auxiliando...
Entramos para o salão do Reino. Lá dentro, as duas ficaram conversando, enquando o ancião me mostrava as instalações.
- Bem, irmão, como você sabe, eu estou iniciando minhas visitas às congregações que me parecem com problemas entre os irmãos... Me conte sobre sua congregação...
- Irmão Marvin, eu até ia comentar que fiquei um pouco surpreso quando o senhor me ligou... Não imaginava que houvesse problemas dignos de sua visita a esta congregação...
- Bem, irmão, se você não sabe, quem mais poderia saber? Mas gostaria de conversar com você em algum lugar reservado, onde as irmãs não pudessem nem escutar, nem nos ver... Não quero alarmar ninguém, entende?
- Hummm, acho que entendo sim, irmão. Venha, aquela sala ali deve servir...
Então caminhamos para a sala que o irmão Rogério me apontou. A porta se fechou. Sentamos, então olhei para os olhos do ancião e disse:
- Irmão, eu sei que há um problema sério em sua congregação quanto às horas no serviço de campo...
- Quanto às horas? Mas irmão, aqui muitos dos irmão estão cumprindo tudo direitinho... São muito poucos irmãos que não as cumprem e eu já até chamei a atenção deles...
- Não estou falando disto, irmão, mas de um problema muito mais grave...
- Mais grave?
- Sim. Estou sabendo que alguns irmãos estão ganhando horas de serviço de campo em troca de favores...
Eu vi então o ancião ficar branco em minha frente...
- Como assim?
- Ora, irmão, você não sabe disto? Eu sei que alguns irmãos desta congregação andam me vigiando, em troca de alguns benefícios... Como ganhar horas a mais de serviço de campo... Eu pessoalmente consideraria isto um problema gravíssimo, mas pelo visto você, irmão, não compartilha da mesma opinião...
Mais uma vez o vi engolir seco... A primeira reação seria negar tudo e se fazer de vítima...
- Não, irmão, você está enganado... Não está acontecendo nada disto não... Por que o irmão está pensando isto de mim? Sempre fui zeloso em minhas obrigações para com a Congregação...
Hora do blefe...
- Irmão, por acaso você percebeu com quem está conversando?
- Como assim, irmão?
- Você está tentando me enganar, como se eu fosse uma pessoa comum. Se eu não tivesse recebido um dom especial, eu jamais teria descoberto todo este esquema ilícito de vocês... Eu por exemplo sei que vocês enviam os irmãos para me vigiar e eles contam tudo para vocês, ligando para seus celulares. Tenho certeza absoluta que você se lembra muito bem do quê aconteceu com Ananias quando tentou enganar o apóstolo Pedro... E tenho certeza também que você também se lembra do texto de primeira Crônicas, capítulo 16, versículo 22 que diz: “‘Não toqueis nos meus ungidos, e não façais nada de mal aos meus profetas”.
Pela cara de espanto que ele fez, ele se lembrava muito bem do acontecido...
- Ah... Me... Me desculpe, irmão... Eu... Eu não queria...
Ufa, ele caiu na minha história... Não me levem à mal... Eu não sou nenhum tipo de pastor pentecostal que fica brincando de Mandrake na tribuna. Por isto peço a Pedro desculpas pela comparação grosseira... O problema destes pastores é que eles fazem seu show para promover a si mesmos... Curas milagrosas, exorcismo, unção de X (substitua X por qualquer coisa que pareça santa), geração de ruídos aleatórios (que eles chamam tecnicamente de falar em línguas), tudo isto nada mais é do que uma campanha de marketing para mostrar para todo mundo que eles são mesmo poderosos. São como grandes curandeiros de terno que atendem à distância. Também não chegava a ser como os “apóstolos” da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que previam apenas aquelas coisas que ninguém dava a mínima importância (ninguém além dos mórmons). Eu não era profeta coisa nenhuma, mas precisava que eles acreditassem que eu era, para cumprir meus objetivos. E eu fiquei feliz por ele ter acreditado em mim, pois se ele continuasse a mentir e não morresse por isto, certamente ele morreria por outra coisa: raiva.
- Muito bem, me conte o que sabe sobre esta história...
-Está bem, irmão... Tudo começou no fim de semana passado...
- Começou?
- Sim. Recebemos logo cedo uma ligação. Eu não fui o único ancião a ser contactado... A pessoa dizia que era uma ligação de Betel.
- Betel????
- Isto mesmo. Betel. A pessoa não se identificou, embora eu pedisse isto.
- Hummmm... Interessante... Continue.
- Pois bem, ele me deu ordens para vigiar seus passos... Tudo que você fizesse de suspeito era para ser relatado.
- Ele te disse os motivos para isto?
- Não... Sabe, a pessoa foi bem autoritária. Sempre que eu perguntava, ela dizia que se eu não fizesse o que eles me pediam, minha reputação com o Escravo ficaria manchada... Eu não queria que isto acontecesse, então resolvi ajudá-los.
- E então, você mandou os irmãos me vigiarem, a troco de algumas horas no serviço de campo...
- Sim. Eu tive autorização direta deles...
- Mas como você pôde acreditar em alguém falando por telefone com você? Você não pensou que poderia ser um trote?
- Pensei sim, irmão... Mas aquela voz me convenceu que não era...
- Como assim?
- Bem, eu ainda falava com ela por telefone, quando ela me pediu para verificar na minha caixa de correio, uma ordem de Betel para fazer este serviço.
- Sério?
- Sim. Eu fui até minha caixa de correio e lá estava a carta. Agora não a tenho em mãos, mas está lá em casa. Dizia para observá-lo, que esta era uma questão de segurança... E que eu jamais contasse isto para ninguém...
Assombroso... Eu jamais poderia imaginar que alguém de Betel estivesse envolvido nisto...
- E o que você fazia com a informação que obtinha?
- Eu enviava um relatório por email. O endereço para qual eu devia enviar mudava de três em três dias. De três em três dias eu receberia um email, com o novo endereço para o qual eu deveria enviar os relatórios...
- Muito esperto... Fica mais difícil rastrear assim...
- Sim, eu acho que sim...
- Mais uma coisa... Por que estão vigiando a irmã Amanda?
- Bem... Recebemos esta ordem hoje de manhã... Não nos deram mais detalhes, só disseram para fazermos o mesmo com ela.
- Muito bem, irmão... Coisas deste tipo são muito vergonhosas para um ancião... Eu poderia até desassociar você por isto...
- Gulp... Irmão, me perdôe... Eu não queria fazer isto, mas eles me ameaçaram...
- Hum, está tudo bem, irmão. Eu entendo isto e te perdoo... Mas quero te pedir um favor...
- Qual é?
- Eu quero que continue a fazer o que estava fazendo, até eu descobrir quem está envolvido nisto. Se você parar agora, eu jamais descobrirei... Não quero que fale a ninguém sobre nossa conversa hoje.
- Ah, pode deixar, irmão!!! Eu não vou contar para ninguém de nossa conversa... Eu espero que não fique com raiva de mim...
- Tudo bem. Eu já disse que te entendo. Mas eu preciso descobrir quem é esta pessoa.
Assim, saímos da pequena sala, para encontrar as duas mulheres. A esposa do ancião ria alto, contando as histórias daquela congregação para Amanda, que apenas sorria.
- Muito bem, acho que nossa visita aqui foi muito produtiva. Tenho certeza que os irmãos desta congregação estão muito bem representados. – comentei.
- Muito obrigado, irmão. – disse o ancião, um pouco desanimado.
Que tipo de segredo haveria em Betel? O que estavam procurando? Finalmente começava a ter alguma pista sobre este assunto... Tive que jogar o jogo deles, tive que mentir, tirar versículos de contexto, fingir... Manipulei versículos a meu favor... Me perguntava até onde esta minha vingança me levaria... E embora tivesse sido perdoado de antemão pela Amanda, eu ainda me via culpado por trazer problemas à sua vida... Ela estava ali, despreocupada, não imaginava que estava sendo vigiada... Não queria trazer sofrimento para ela, mas alegria...
Alegria...?
Isto me deu uma idéia... Mas primeiro, precisava resolver um probleminha... Cheguei perto do ancião e cochichei no seu ouvido:
- Irmão, me faz mais um favor... Dá um jeito naquele irmão que está nos seguindo, por favor... Só desta vez... Me dá nos nervos ser seguido... Inventa alguma coisa...
- Está bem, irmão... – respondeu ele, também cochichando.
Caminhamos então até a porta, onde nos despedimos do casal. Quando começamos a caminhar de volta para o ponto de ônibus, ouvimos a esposa do ancião dizer ainda:
- Puxa, eu não sei se já disse para vocês, mas eu realmente acho que vocês dois formam um belo casal...
Tal comentário me fez voltar o rosto para ela e olhá-la cara a cara.
- Como é que é?
- É irmão! Vocês formam um belo casal... São tão bonitinhos...
- Irmã... – respondi.
- Sim, irmão?
- Você fala demais!
Me virei novamente e continuei a caminhar, junto da Amanda.
- Hehehehe, a irmã é mesmo engraçada, não Marvin? – perguntou Amanda.
- Hummm, ela é bisbilhoteira, isto sim...
- Ah, deixa ela pra lá... É o jeito dela... Além do mais, agora vamos para casa descansar e...
- Hehehehe, não vamos para casa ainda... – respondi com um sorriso.
- Ah, não? E vamos onde então?
- Bem, isto é uma surpresa.
- Uma surpresa? Mas Marvin, que tipo de surpresa seria? Pois tem um irmão nos vigiando desde que saímos lá de casa...
Esta declaração me surpreendeu.
- Ah, então você percebeu isto também?
- Sim, percebi... Devem estar doidos para saber se há algo entre nós.
- É, devem mesmo... Mas não se preocupe com isto, logo ele vai nos deixar...
Ela olhou disfarçadamente para o lado onde o irmão estava. Ele falava ao celular e logo que desligou, deu a partida no carro e foi embora.
- Puxa, Marvin. Como você sabia disto?
- Ah, eu tenho os meus meios, hehehehe...
- Hummm... Eu diria que foi bem impressionante... Mas então, vamos onde mesmo?
- Já disse que é uma surpresa... Acho que você vai gostar. Confie em mim...

domingo, 2 de agosto de 2009

Feridos pelo caminho

Não vou revelar nomes nem local – afinal, o que vou relatar acontece todo dia no Brasil - mas, há muitos anos atrás, acompanhei o processo de divisão de uma igreja tradicional, em que um dos seus líderes, incentivado por um conhecido líder evangélico, e descontente com a frieza que ele nela apontava, levou um grupo de irmãos a formar outra igreja, e, ainda que não fôssemos membros de nenhuma delas, eu e um irmão – alguns dias depois - fomos visitar a nova congregação, onde, após o culto, o líder em questão comentou conosco:

- Sabe o que é, irmãos, as igrejas que estão crescendo hoje são pentecostais, e por isso eu decidi fundar uma igreja pentecostal. É isso que funciona!

Apenas ouvimos a afirmação do recém-empossado pastor da recém-fundada igreja e ao sair de lá, o irmão que me acompanhava comentou, um tanto quanto assustado:

- Se o critério que o levou a abrir de uma igreja é o crescimento nos dias atuais, ele podia usar a mesma razão para montar um centro de umbanda ou espírita, já que eles também estão crescendo bastante.

Teologias e sarcasmos à parte, o motivo invocado pelo pastor para fundar uma nova igreja (“funciona!”) ainda era pretexto, no começo dos anos 80, para um movimento que estava no seu estágio inicial no meio evangélico brasileiro. 

Por mais que seus objetivos fossem nobres (“pregar o evangelho”), as suas palavras já revelavam a influência do utilitarismo nas igrejas, esta corrente filosófica que diz que “os fins justificam os meios” e que é hegemônica no mundo atual. 

Sem querer querendo, ele estava se tornando mais um refém do discurso utilitário do que propriamente um discípulo do evangelho. 

Afinal, as suas razões não estavam calcadas num exame mais aprofundado das Escrituras nem num espírito cristão de amor e compreensão. 

Queria, como qualquer utilitário, resultados rápidos e visíveis com o mínimo custo possível, ainda que não perdurassem no longo prazo. Afinal, muito mais valor se dá ao “pelos frutos os conhecereis” do Sermão do Monte (Mateus 7:16-20) do que ao “eu vos escolhi a vós, e vos designei, para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça” do discurso em que Jesus aprofunda o tema (João 15:16). 

Bem, se eles não se preocupavam com as pessoas que ficaram machucadas pelo processo de divisão, a questão da permanência dos frutos passava – inconscientemente, creio eu – a ser secundária. 

Aliás, eu tenho a impressão de que Deus se preocupa muito mais com os irmãos que ficam feridos pelo caminho do que aqueles que vêm à igreja, ficam por um tempo e depois somem no mundo. 

Como diz o próprio Jesus, “qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e se submergisse na profundeza do mar” (Mateus 18:6).

Pois bem, passaram-se os anos, as décadas, e daquele grupo inicial, muita gente se afastou e nunca mais quis saber de igreja, e vários outros líderes, formados na nova igreja, também invocaram as mesmas razões utilitárias para dividirem os irmãos e fundarem as suas próprias igrejas. 

Isto sem contar que o pastor-mor, que havia sido mentor do primeiro líder-divisor, muitos anos depois se envolveu num adultério, que terminou confessando apenas para o seu filho (também pastor), que, incapaz de lidar com a história sozinho, terminou me contando o fato, que também era conhecido (ou suspeitado) por outros irmãos. 

O pastor-mor não quis se retratar e confessar o pecado à sua congregação, talvez por achar que uma confissãozinha a seu filho podia quebrar o seu galho e aliviar a sua consciência. Até protestantes tornam-se católicos quando convém.

Por fim, deixo uma mensagem aos que ficaram feridos pelo caminho. Infelizmente, vocês viram, da pior maneira possível, como uma visão do evangelho distorcida e contaminada pelo utilitarismo, pode afastá-los do verdadeiro prazer de ser cristão, compartilhar suas dores e bênçãos, orar e estudar a Bíblia, e ajudar a construir um mundo melhor. 

Não existe igreja perfeita, isto é fato, mas há muitos crentes imperfeitos que NÃO são hipócritas nem querem se locupletar às custas do sofrimento alheio. 

 Aqueles que promovem divisões darão conta de si mesmo a Deus, que os acusa de serem sensuais e não terem o Espírito (Judas 1:19). 

A palavra aí traduzida por “sensuais” é, no original grego, ψυχικός – psuchikos – que quer dizer, literalmente, “governados pelas próprias paixões, pelo próprio apetite”. 

Entreguem-nos, portanto, ao justo juízo de Deus, mas não fiquem lambendo indefinidamente as suas feridas. 

Vocês aprenderam como NÃO fazer a obra de Deus, agora estão preparados para fazê-la da maneira correta, com toda a humildade, mansidão e perdão. 

Não permitam que farsantes e falsificadores do evangelho retenham o seu perdão, nem bloqueiem o seu caminho até Deus. Voltem! A Igreja e os seus irmãos precisam de vocês.

sábado, 1 de agosto de 2009

Caio Fábio e o Vale-Tudo

A seguir, devidamente autorizado pelo meu amigo e irmão Cristiano Martins, reproduzo a entrevista que ele fez (por email) com o Pr. Caio Fábio D'Araújo Filho, para a comunidade Psicóticos por Vale Tudo - MMA do orkut (também disponível no site do Caio Fábio):

Entrevista:

Psicóticos: Pr Caio, o senhor é de Manaus. Pelo que percebemos em seu site o senhor foi praticante de Jiu-jitsu. Qual a sua relação hoje com a arte suave, qual ou quais foram seus mestres na arte suave?

Caio Fabio:

Hoje minha relação é apenas a de um apaixonado que não teve tempo e ocasião de continuar treinando, mas que tem todo interesse em tudo, e, por isto, assino o Primier Combate e veja pelo menos duas a três horas de luta todos os dias, sem falar que não perco nenhum evento de luta no canal, especialmente todos os UFCs, desde o Royce... Meus mestres foram Arthur Virgílio Neto, Rolls Gracie, Rayson Gracie e Carlson Gracie.

Psicóticos: Como é de Manaus o senhor já conheceu algum atleta de renome em alguma modalidade que é Manauara, tipo Wallid Ismail por exemplo?

Caio Fabio: Acompanho o Wallid desde os tempos dele no Carlson, que também foi meu mestre. Depois acompanhei o resto da carreira dele, até que se tornou empresário e agente de atletas. Gostei muito quando ele iniciou o Jungle Fight e espero que não pare... De Manaus, hoje, não conheço a ninguém pessoalmente, embora acompanhe o Jacaré, o José Aldo, e outros muitos. Afinal, Manaus se tornou um dos pólos mais importantes de Jiu-Jitsu e MMA do Brasil.

Psicóticos: Sabemos que o senhor é fã do canal Combate e de alguns nomes do MMA mundial. Quais nomes vem a sua cabeça em relação a lutadores estrangeiros e quais em relação a lutadores nacionais?

Caio Fabio:

Dos brasileiros tenho o Minotauro como o cara mais consistente e sério; vejo o mesmo no Leoto Machida, que é maravilhoso na sua combinação de estilos; aprecio muito a técnica exuberante e bela do Anderson Silva, embora ache que ele anda fazendo muito corpo mole ultimamente; sou fã da valentia do Wanderley Silva; e acho que o Demian Maia uma das melhores promessas brasileiras na atualidade. Entre os estrangeiros gosto do G.S.P., B.J., Randy, Fedor, entre outros...

Psicóticos:O senhor já recebeu em seu gabinete ou mesmo aconselhou algum lutador de MMA ou de alguma arte marcial? Alguém que tenha se envolvido direta ou indiretamente em seu trabalho?

Caio Fabio:

Não! Mas já tive gente do Jiu-Jitsu e também da família Gracie me assistindo sistematicamente nas pregações.

Psicóticos: Há alguns meses atrás foi lançado um tópico na comunidade que deu o que falar, se tratava de um pastor da Igreja Renascer em Cristo que faz um trabalho com jovens e levou um ringue de Vale Tudo ou algo parecido para dentro das dependências da igreja; e após as lutas ele se reunia com essa galera e fazia uma espécie de culto. Diga o que o Senhor pensa a esse respeito. Igreja é lugar para se praticar tal atividade?

Caio Fabio:

Meu conceito de Igreja não tem a ver com um lugar, mas apenas com gente e com atitude... Não gostei do que foi feito porque tratava-se de uma “estratégia de evangelização”; e, para mim, “estratégia de evangelização” sempre é tapeação. Quer ensinar, ensine; é bom e lícito. Mas não precisa ser para “aproximar” a moçada da “igreja”. Aí é manipulação...

Psicóticos: Em setembro desse ano teremos na cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente no Estádio do Maracanãzinho, um dos maiores eventos de MMA que o Brasil já produziu: o Bitteti Combat — organizado pelo campeão mundial de Jiu-jitsu Amauri Bitteti, com a presença de Paulão Filho, Ricardo Arona, Rogério Minotouro, Pedro Rizzo..., entre outros. O senhor já ouviu falar no evento? O que acha da iniciativa do Amauri e do governo do Estado do Rio de Janeiro? Pretende vir ao Rio assistir o evento?

Caio Fábio:

Acho que o Amauri tem cacife e história para organizar tal evento. Acho que o Governo do Rio faz bem. Afinal, é uma vergonha que o mundo todo tenha aprendido o Vale Tudo, o MMA, com os Gracie e depois com os que deram seqüência, e, aqui no Brasil, o desconhecimento e a irrelevância do estilo aqui criado e provado como o melhor no mundo, não tenha aqui seu devido lugar. Se puder irei...

Psicóticos: Deixe uma mensagem para a família Psicótica no teor que o senhor achar apropriado...

Desde já agradecemos a atenção.

Caio Fábio:

Fui introduzido ao Jiu-Jitsu pelo meu amigo, hoje Senador, Arthur Virgílio Neto e seu irmão Ricardo. Eles me levaram para os Gracie. Lá fui instruído pelo Rolls, pelo Rayson e pelo Carlson, já em Niterói. Para mim o exemplo de atleta de Jiu-Jitsu, o que mais honrou a filosofia do velho Carlos, foi o Rolls. Nunca vi nenhum lutador de Jiu-Jitsu, até hoje, ter a inteligência criativa que o Rolls possuía. Tornamo-nos bons amigos. Chorei a sua morte.

Gosto do Jiu-Jitsu porque é a arte suave. Sim, justamente por isto. Vi no Jiu-Jitsu uma arte na qual minha inteligência também poderia ter plena expressão. Amei o Jiu-Jitsu pela sua inteligência. Eu jamais gostaria de uma luta burra. E o Jiu-Jitsu é para mim a mais inteligente de todas elas.



sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quando não há força


“Vão indo de força em força;
cada um deles aparece diante de Deus em Sião.”
(Salmo 84:7)

Para descrever a difícil situação em que se encontrava (a iminente invasão assíria), o rei Ezequias usa uma provável expressão proverbial da época, muito apropriada: “Os filhos estão para nascer e não há força para os dar à luz” (2 Reis 19:3 – Bíblia de Jerusalém). Ele se reporta à mulher cuja gravidez já se completou, mas o filho não sai do útero, não vem para fora. A mãe sente dores de parto, mas não tem força para expelir a criança. Ela fica desesperada e a criança corre risco de vida.

Não há nada mais aflitivo do que faltar força no momento em que mais se precisa dela. Pior ainda é quando não se sabe que naquela hora a força vai estar ausente. Foi isso que aconteceu com Sansão. Ele não tinha conhecimento de que havia se retirado dele a sua força. Quando os filisteus chegaram, ele não conseguiu repetir as façanhas anteriores. Então teve seus olhos vazados e sofreu o vexame de ser preso e levado para Gaza (Juízes 16:18-22).

Não ter força para dizer não, não ter força para vencer a tentação, não ter força para resistir à dor, não ter força para deixar de beber, não ter força para abandonar as drogas, não ter força para superar uma crise conjugal, não ter força para perdoar o desafeto, não ter força para dominar o gênio, não ter força para esquecer algo deprimente, não ter força para terminar o trabalho iniciado, não ter força para romper um amor proibido, não obter força para vencer a timidez – são situações realmente muito complexas. Em circunstâncias assim, a história pára, o que precisa acontecer não acontece, o que não pode ser protelado é adiado.

A privação da força tem muito que ver com a perda ou a diminuição da comunhão com Deus. Na verdade a força promana de Deus. Daí a confidência de Paulo a Timóteo: “O Senhor me assistiu e me revestiu de forças” (2 Timóteo 4:17). O mesmo testemunho está na boca de Davi: “O Deus que me revestiu de força, e aperfeiçoou o meu caminho. Ele deu a meus pés a ligeireza das corças e me firmou nas minhas alturas” (Salmo 18:32). Deus é pródigo na distribuição de força, pois “faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor” (Isaías 40:29). Aqueles que estão cada vez mais ligados a Deus “vão indo de força em força” (Salmo 84:7).

(“Devocionais para Todas as Estações”, Ed. Ultimato, meditação de 27 de julho)

Deixem Jesus em paz

Artigo do Juca Kfouri na Folha de S. Paulo de ontem, disponível no blog dele:

JUCA KFOURI

Deixem Jesus em paz

Está ficando a cada dia mais insuportável o proselitismo religioso que invadiu o futebol brasileiro

MEU PAI , na primeira vez em que me ouviu dizer que eu era ateu, me disse para mudar o discurso e dizer que eu era agnóstico: "Você não tem cultura para se dizer ateu", sentenciou.

Confesso que fiquei meio sem entender.

Até que, nem faz muito tempo, pude ler "Em que Creem os que Não Creem", uma troca de cartas entre Umberto Eco e o cardeal Martini, de Milão, livro editado no Brasil pela editora Record.

De fato, o velho tinha razão, motivo pelo qual, ele mesmo, incomparavelmente mais culto, se dissesse agnóstico, embora fosse ateu.

Pois o embate entre Eco e Martini, principalmente pelos argumentos do brilhante cardeal milanês, não é coisa para qualquer um, tamanha a profundidade filosófica e teológica do religioso.

Dele entendi, se tanto, uns 10%. E olhe lá.

Eco, não menos brilhante, é mais fácil de entender em seu ateísmo.

Até então, me bastava com o pensador marxista, também italiano, Antonio Gramsci, que evoluiu da clássica visão que tratava a religião como ópio do povo para vê-la inclusive com características revolucionárias, razão pela qual pregava a tolerância, a compreensão, principalmente com o catolicismo.

E negar o papel de resistência e de vanguarda de setores religiosos durante a ditadura brasileira equivaleria a um crime de falso testemunho, o que me levou, à época, a andar próximo da Igreja, sem deixar de fazer pequenas provocações, com todo respeito.

Respeito que preservo, apesar de, e com o perdão por tamanha digressão, me pareça pecado usar o nome em vão de quem nada tem a ver com futebol, coisa que, se bem me lembro de minhas aulas de catecismo, está no segundo mandamento das leis de Deus.

E como o santo nome anda sendo usado em vão por jogadores da seleção brasileira, de Kaká ao capitão Lúcio, passando por pretendentes a ela, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro, e chegando aos apenas chatos, como Roberto Brum.

Ninguém, rigorosamente ninguém, mesmo que seja evangélico, protestante, católico, muçulmano, judeu, budista ou o que for, deveria fazer merchan religioso em jogos de futebol nem usar camisetas de propaganda demagógicas e até em inglês, além de repetir ameaças sobre o fogo eterno e baboseiras semelhantes.

Como as da enlouquecida pastora casada com Kaká, uma mocinha fanática, fundamentalista ou esperta demais para tentar nos convencer que foi Deus quem pôs dinheiro no Real Madrid para contratar seu jovem marido em plena crise mundial.

Ora, há limites para tudo.

É um tal de jogador comemorar gol olhando e apontando para o céu como se tivesse alguém lá em cima responsável pela façanha, um despropósito, por exemplo, com os goleiros evangélicos, que deveriam olhar também para o alto e fazer um gesto obsceno a cada gol que levassem de seus irmãos...

Ora bolas!

Que cada um faça o que bem entender de suas crenças nos locais apropriados para tal, mas não queiram impingi-las nossas goelas abaixo, porque fazê-lo é uma invasão inadmissível e irritante.

Não é mesmo à toa que Deus prefere os ateus...  


quinta-feira, 30 de julho de 2009

O "evangelho" diet

"Tu tá gordo e careca porque qué, mano"...





Vamos lançar este "pastor" pra secretário-geral da ONU, que tem SÓ 196 países filiados... afinal, ele conhece "mais de 200" ...

Rebolation cóspel

domingo, 19 de julho de 2009

Eclesiastes - capítulo 12

Leitura anterior: Eclesiastes - capítulo 11


O último capítulo de Eclesiastes é um poema belíssimo sobre a decadência inexorável da vida de cada um de nós, ou seja, o envelhecimento que nos acomete a todos os que tivemos o prazer de passar pela juventude e ver os anos bons em que tínhamos força, curiosidade e vitalidade para experimentar os prazeres da vida, desde os mais simples até os mais complexos. 

O chamado constante do Pregador à sabedoria não deixa de ser um lembrete para que todos os jovens (de corpo e de espírito) se preparem para o destino inevitável – a morte – e quando este preparo é feito sabiamente, não deixa de ser uma espécie de "décadence avec élégance" ("decadência com elegância"), já que tolo é aquele que se revolta contra o processo orgânico inevitável que nos leva ao fim da vida. 

E a morte deve ser vista, também, como uma celebração da vida, como um retorno à casa do Pai (12:7), por mais que seja doloroso pensar que existe um fim para a existência, seja a nossa própria, seja a dos nossos queridos. 

É nesse espírito que Coélet escreve as palavras finais de Eclesiastes, chamando a atenção do jovem para Deus, que é o grande Provedor de todas as coisas, que é o grande sustentador da vida, mas é também Aquele que nos recebe de braços abertos depois de uma vida entregue a Ele.

Assim, a primeira parte do capítulo 12 de Eclesiastes exorta o leitor a lembrar-se do Criador em três momentos (três "antes"), um no v. 1 (que mostra a perda da alegria de viver), outro nos versículos 2 a 5 (que falam do envelhecimento físico) e o terceiro nos versículos 6 e 7 (que se referem ao fim propriamente dito, à morte). 

No primeiro ANTES (v. 1), o Pregador fala da perda da alegria de viver, da importância de se lembrar de Deus e do dom da vida "antes que venham os maus dias" e cheguem os anos em que se possa dizer que neles não há mais prazer, alegria e felicidade. 

Este não deixa de ser um reforço à pregação que ele vinha fazendo, ou seja, de se aproveitar a vida, pelo simples fato de existir, nos bons e maus momentos. 

Nos vv. 2-5, o Pregador diz que devemos lembrar do Criador ANTES que a decadência física seja incontornável, e a partir daí começa a descrever de uma maneira poética belíssima, como o nosso corpo – definitivamente – não responde mais aos estímulos que no circundam. 

É claro que a tendência natural do ser humano é passar por uma fase de esplendor físico na juventude, e a partir de uma certa idade, o organismo começa, por assim dizer, a se desconstruir, assim como o Pregador vinha desconstruindo – nos capítulos anteriores - toda a percepção da vida que o senso comum dita. 

Há um momento final, entretanto, em que o corpo entra em colapso, e a partir daí a vista escurece, os ouvidos mal conseguem detectar o sussurro, o corpo treme, os dentes caem, o prazer sexual (o perecer do "apetite" do v. 5) se esvai, e o sono não serve mais de repouso (o "levantar-se à voz das aves" do v. 4). 

Depois dessa descrição triste, mas realista, vem o desenlace final, o terceiro ANTES (vv. 6), que é o rompimento do cordão de prata e do copo de ouro, o cântaro que quebra junto à fonte, e para mais nada serve senão ser jogado fora. Perde a sua utilidade, simplesmente não existe mais. 

Tudo poderia terminar por aí, mas Salomão conclui dizendo que ainda que o pó volte à terra, inservível para os propósitos humanos, por outro lado o espírito volta a Deus, que o deu (v. 7), porque "vaidade de vaidade, diz o pregador, tudo é vaidade" (v. 8). 

Não por acaso, esta é a sublime conclusão do discurso do Pregador, a mesma que ele já adiantara ao iniciá-lo (1:2). 

Mais que um discurso, este é um percurso que ele apresenta, o seu percurso "debaixo do sol", expressão tão repetida em Eclesiastes, que dá a idéia de que a nossa vida é como um dia que amanhece, transcorre e se vai ao escurecer:

1:3 Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?
1:4 Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.
1:5 Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.
1:6 O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.
1:7 Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.
1:8 Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.
1:9 O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.


Felizmente, há um retornar, não mais para o mesmo dia terreno, onde há lida e dor, mas também alegria e felicidade. 

Há um retorno à casa do Pai, ao Deus criador, ao Pai que espera o filho pródigo voltar para seu lar (Lucas 15), para o dia perfeito, conforme Salomão diz em seus Provérbios:

Prov 4:18 Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.
Prov 4:19 O caminho dos ímpios é como a escuridão; nem sabem em que tropeçam.


Este dia perfeito, da luz divina, é o dia da alma imortal, conforme Calvino ensina:




2. ESPIRITUALIDADE E IMORTALIDADE DA ALMA, CONTUDO DISTINTA DO CORPO

Afinal, que o ser humano consta de alma e corpo, deve estar além de toda controvérsia. E pela palavra alma entendo uma essência imortal, contudo criada, que lhe é das duas a parte mais nobre. Por vezes também é chamada espírito. Ora, ainda que estes dois termos difiram entre si em sentido quando ocorre juntos, contudo, onde o termo espírito é empregado separadamente, equivale a alma, como quando Salomão, falando da morte, diz que "o espírito retorna então a Deus, que o deu" [Ec 12.7]. E Cristo, encomendando o espírito ao Pai [Lc 23.46], como também Estêvão o seu a Cristo [At 7.59], não entendem outra coisa senão isto: quando a alma é liberada do cárcere da carne, Deus lhe é o perpétuo guardião.

Entretanto, são absolutamente destituídos de senso aqueles que imaginam que a alma é denominada espírito por ser um sopro, ou força divinamente infundida nos corpos, a carecer, no entanto, de essência, comprovando-o não só a própria realidade, mas ainda toda a Escritura. Sem dúvida é verdade que, enquanto se apegam à terra mais do que é justo, os homens se fazem broncos; aliás, visto que se alienaram do Pai das Luzes [Tg 1.17], foram cegados pelas trevas, de sorte que não pensam que haverão de sobreviver à morte. Contudo, nem assim a luz lhes foi aniquilada nas trevas a tal ponto que não se sintam tangidos por algum senso de sua imortalidade. Sem dúvida que a consciência, que discernindo entre o bem e o mal responde ao juízo de Deus, é sinal indubitável do espírito imortal. Pois, como uma disposição sem essência poderia penetrar até o tribunal de Deus e a si incutiria terror de sua culpabilidade? Ademais, tampouco é o corpo afetado pelo temor de uma penalidade espiritual; ao contrário, só recai na alma, do quê se segue que a alma é dotada de essência.

Já o próprio conhecimento de Deus comprova sobejamente que as almas, que transcendem ao mundo, são imortais, visto que um alento evanescente não chegaria jamais à fonte da vida. Enfim, quando tantos dotes preclaros dos quais a mente humana está enriquecida proclamam sonoramente que algo divino lhe é impresso, são outros tantos testemunhos de uma essência imortal. Ora, a sensibilidade que se instila nos animais brutos não vai além do corpo, ou, pelo menos, não se estende mais longe que às coisas que lhes estão adiante. Também a versatilidade da mente humana, a perlustrar céu e terra e os arcanos da própria natureza, e quando a todos os séculos compendiou no intelecto e na memória, cada evento a dispor em sua ordem, e dos fatos passados a deduzir os futuros, demonstra claramente que no homem se aninha algo distinto do corpo. Mediante a inteligência concebemos o Deus invisível e os anjos, o que ao corpo escapa totalmente; aprendemos as coisas que são retas, justas e honrosas, o que não podemos fazer pelos sentidos corpóreos. Portanto, só o espírito pode ser a sede dessa inteligência. Aliás, o próprio sono, que entorpecendo o homem parece até mesmo privá-lo da vida, é uma testemunha não obscura da imortalidade, quando não só sugere pensamentos dessas coisas que jamais ocorreram, mas ainda presságios quanto ao porvir.

Estou abordando, apenas de leve, estes assuntos que mesmo os escritores profanos exaltam magnificamente, com estilo e expressão mais esplêndidos. Contudo, entre leitores piedosos será bastante um simples lembrete. Ora, se a alma não fosse algo essenciado, distinto do corpo, a Escritura não ensinaria que habitamos casas de barro e que na morte migramos do tabernáculo da carne, despojamo-nos do que é corruptível para que, por fim, no último dia recebamos a recompensa, em conformidade com o que, enquanto no corpo, cada um praticou.

Ora, por certo que essas referências e semelhantes a essas, que ocorrem com freqüência, não só distinguem claramente a alma do corpo, mas ainda lhe transferem o designativo homem, indicando ser ela a parte principal. Ora,quando Paulo exorta os fiéis [2 Co 7.1] a que se purifiquem de toda impureza da carne e do espírito, ele enuncia duas partes nas quais reside a sordidez do pecado. Também Pedro, chamando a Cristo "pastor e bispo das almas" [1 Pe 2.25], teria falado improcedentemente, se não existissem almas em relação às quais desempenhasse este ofício. Nem seria procedente, a não ser que as almas tivessem essência própria, o fato de que fala acerca da eterna salvação das almas, e que ordena purificar as almas, e que desejos depravados militam contra a alma [1 Pe 1.9; 2.11]; de igual modo, o autor da Epístola aos Hebreus [13.17] declara que os pastores velam para que prestem conta de nossas almas.

Com o mesmo propósito é o fato de Paulo [2 Co 1.23] invocar a Deus por testemunha contra sua própria alma, porquanto ela não se faria ré diante de Deus, se não fosse susceptível à penalidade. Isto expressa-se ainda mais claramente nas palavras de Cristo, quando ele manda que se tema àquele que, após haver matado o corpo, pode lançar a alma na Gehena de fogo [Mt 10.28; Lc 12.5]. Ora, quando o autor da Epístola aos Hebreus distingue Deus dos pais de nossa carne, como sendo o Pai dos espíritos, não poderia ele afirmar de modo mais claro a essência das almas.

Além disso, a não ser que as almas liberadas dos cárceres dos corpos continuassem a existir, seria absurdo Cristo representar a alma de Lázaro a desfrutar de bem-aventurança no seio de Abraão, e a alma do rico, por outro lado, destinada a horrendos tormentos [Lc 16.22,23]. Paulo confirma isso mesmo, ensinando que peregrinamos distanciados de Deus durante o tempo em que habitamos na carne; desfrutamos de sua presença, porém fora da carne. E, para que não me alongue mais em matéria de forma alguma obscura, acrescentarei apenas isto de Lucas [At 23.8]: ele menciona entre os erros dos saduceus o fato de não crerem na existência de espíritos e anjos.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 1, pp. 180-182)







Tudo, portanto, que fazemos nesta vida interessa a Deus, em toda a extensão de nossa existência, e quanto antes nos lembrarmos para onde vamos (ou deveríamos ir), ou seja, quanto antes nos lembrarmos do nosso Criador, mais desfrutaremos esta vida aqui, com todas as suas limitações, mas também com todas as suas alegrias. 

Após ter promovido, pelo seu discurso-percurso, a desconstrução daquilo que era tido como sábio e proveitoso pela humanidade, o Pregador fincou 4 estacas sobre o terreno pantanoso e instável da vaidade humana, a saber: a sabedoria, a eternidade, a providência divina e o temor de Deus. 

Desses 4 pilares, apenas 2 têm o condão de tanto ser imanente como transcendente: a sabedoria e o temor de Deus. Os dois outros são transcendentes, estão acima das possibilidades do ser e do existir, e é nessa busca da sabedoria mediante o temor de Deus que podemos confiar que tanto a providência divina não nos faltará, como a eternidade nos está reservada pelo Pai que nos aguarda de braços abertos no final da jornada.

Os versículos finais de Eclesiastes (12:9-14), são uma espécie de assinatura do Pregador, um apelo à inspiração divina de suas palavras (vv. 10-11) e um último reforço ao conselho de temer a Deus (vv. 13-14). 

Conforme a experiência demonstra, sempre haverá novos e velhos conselhos a circular entre nós, e nunca os livros conseguirão dar conta deles, nem vale a pena ficar estudando-os tentando descobrir o segredo da vida(v. 12), pois a única coisa que realmente importa é viver e ser feliz com o que temos e alcançamos, e sempre temer a Deus e tê-lO em conta em todas as nossas atividades e em todos os nossos dias.



F I M



quarta-feira, 15 de julho de 2009

O bom pastor - 1ª parte

O BOM PASTOR

Nesses tempos bicudos em que o bom nome de "pastor" é rotineiramente aviltado e profanado pelos aproveitadores e charlatães de plantão, devemos retornar à fonte – o Novo Testamento – para verificar o que Deus quer e requer daqueles que aceitam o nobre desafio de ser bons pastores do Seu rebanho. O assunto é bastante extenso, já que, biblicamente, a missão de um pastor tem a ver com a função de liderar o povo de Deus, no sentido da palavra grega ηγέομαι - hēgeomai (Atos 15:22, Hebreus 14:24)[1], e grandes líderes estão espalhados por todas as páginas da Bíblia. Entretanto, tentaremos aqui verificar alguns critérios que os apóstolos – afinal, os organizadores da Igreja primitiva - nos legaram para identificarmos as qualidades que se esperam de um bom pastor.

Os nomes bíblicos para pastor

A nomenclatura bíblica para a palavra traduzida para o português como "pastor" ou seus equivalentes ("bispo", "presbítero") não segue uma rigidez metodológica, por assim dizer, já que está claro para os destinatários das cartas apostólicas que, ao usarem esses termos, eles se referiam aos líderes da igreja para as quais foram dirigidas (Éfeso, Colossos, Filipos, etc.), bem como para toda a comunidade cristã que seria beneficiada e consolidada pelas cópias das cartas que circulavam entre os irmãos. Assim, vemos que eram usadas, basicamente, as palavras ποιμήν - poimēn ("pastor") - ε ̓πισκοπή - episkopē ("bispo") e πρεσβύτερος - presbuteros ("presbítero"). Nas cartas apostólicas, não há uma clara distinção hierárquica ou funcional entre esses termos, como a tradição da Igreja Romana passaria a usar depois de algum tempo, em que o bispo (e o "patriarca" na Igreja Ortodoxa) passa a ter uma autoridade maior sobre uma jurisdição mais abrangente, e com o nome "pastor" sendo paulatinamente mudado para "padre" ou "sacerdote". Algumas igrejas reformadas seguiram esta distinção, como os presbiterianos, anglicanos e metodistas, no que foram acompanhadas por muitas igrejas neopentecostais da atualidade, sendo que algumas destas buscam uma legitimação ainda maior pela ressurreição do termo "apóstolo", com todas as prerrogativas inerentes ao pretenso "cargo", isto baseados numa interpretação controversa de Efésios 4:11[2], que, ainda que não seja objeto desta análise, parece-nos cristalino que o termo "apóstolo" é reservado aos doze mais próximos de Jesus, com a inclusão de Paulo, também testemunha de sua ressurreição, tanto que ele geralmente começava suas cartas se auto-intitulando de "apóstolo", mas quando escreve conjuntamente com Timóteo a carta aos filipenses (1:1), faz questão de referir-se a ambos como "servos de Jesus Cristo", zeloso que era da nomenclatura apropriada e da autoridade que ela lhe conferia com exclusividade. Passemos, então, ao estudo da qualificação de um bom pastor.

O que se espera de um pastor

Em sua primeira carta a Timóteo (3:1-7)[3], Paulo estabelece alguns critérios (também citados na carta a Tito[4]) que devem ser observados na ordenação de um bom pastor:

1) que seja irrepreensível – a palavra aqui traduzida por "irrepreensível" é ανεπίληπτος - anepilēptos – que não se pode culpar, irrefutável, também um derivativo da palavra επιλαμβάνομαι - epilambanomai - que não deve dar motivos para ser preso, ou conduzido preso às barras da Justiça, como Paulo e Silas em Atos 16:19[5]. Antes que alguns impostores tentem se equiparar a Paulo e Silas, é bom lembrar que eles foram levados às autoridades por estarem pregando o evangelho de Jesus, e não por crimes que cometeram abusando do santo nome do Mestre. No contexto da época (e que vale para os dias atuais), esta palavra ανεπίληπτος - anepilēptos – significa que não deve pairar sobre o pastor nenhuma reprovação de ordem moral ou doutrinária, ou seja, ele não pode defender heresias ou ser equiparado a um falso profeta. Na carta a Tito (1:6-8), ele cita esta qualidade duas vezes e também diz que o pastor deve ser "santo" (ARC), "consagrado" (NVI).

2) marido de uma mulher – embora Paulo fosse solteiro, e alardeasse essa condição[6], ele aconselha que o pastor seja casado com uma mulher, ênfase que se justifica numa sociedade como a em que ele vivia, em que muitos polígamos se convertiam a Cristo e não podiam aspirar ao episcopado. Já traziam enormes problemas para a igreja resolver. A versão católica Bíblia do Peregrino (BP) propõe a tradução "fiel à sua mulher", provavelmente mais uma paráfrase do que uma tradução literal, mas de igual importância. É interessante observar também que, no momento da posse do pastor, Paulo recomenda não só que ele seja casado (e fiel), mas também não seja viúvo, já que a idéia que o versículo dá é a de que a esposa deve estar viva, justamente para auxiliá-lo na difícil missão que tem pela frente. Isto não exclui a possibilidade de que haja excelentes pastores solteiros, não só por um curto período como por toda a vida, mas aí devem ter o dom especial de conter-se, que Paulo conhecia tão bem, como confessa em 1ª Coríntios 7.

3) vigilante, sóbrio – a palavra traduzida por "vigilante" é νηφάλεος , νηφάλιος - nēphaleos, nēphalios – que quer dizer também "sóbrio", "circunspecto", e é usada mais duas vezes no Novo Testamento, como o atributo "honesta" das mulheres do seguinte v. 11 de 1ª Timóteo 3, e como os "anciãos sóbrios" de Tito 2:2. Paulo reforça a idéia com a palavra traduzida por "sóbrio", que é σώφρων - sōphrōn – que é a qualidade de quem tem um excelente autocontrole, moderado (como em Tito 1:8), desapegado das discussões e observações apaixonadas, ou seja, "temperante", conforme a tradução proposta pela versão Almeida Revista e Atualizada (ARA), "cheio de bom senso", conforme a tradução da Bíblia de Jerusalém (BJ) e "ponderado", como propõe a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB). A quase-sinonímia de ambos os termos foi provavelmente proposital, já que Paulo queria dar ênfase a esses atributos. A NVI traduz a primeira palavra por "sóbrio" e a segunda por "prudente", por exemplo. Também se pode relacionar essas qualidades a "sensato, justo, ...que tenha domínio próprio" (Tito 1:8).

4) honesto – a palavra traduzida por "honesto" na ARC é κόσμιος – kosmios –
que a NVI traduz por "respeitável", a ARA por "ordeiro", a TEB por "de maneiras corretas", a Bíblia do Peregrino (BP) por "modesto", e a BJ – curiosamente - por "simples no vestir". De fato, a palavra κόσμιος dá a ideia de decoro, bom comportamento, ordem no agir, vestir-se e comportar-se.

5) hospitaleiro – essa é uma das qualidades que a Bíblia mais preza, mas lamentavelmente é uma das mais negligenciadas. Desde os tempos do Antigo Testamento, a hospitalidade era um dever sagrado num meio inóspito como o Oriente Médio, em que povos nômades vagavam pelas planícies e desertos em busca de pasto para o seu gado, além de água e comida para eles mesmos, bem como de um lugar para adorar a Deus, ainda que muitas vezes servissem a deuses estranhos. E interessante observar que a gota d'água que fez com que o caldo punitivo entornasse sobre Sodoma e Gomorra (Gênesis 19) é a preocupação de Ló em exercer a hospitalidade aos dois anjos que foram visitá-lo, a ponto de oferecer a virgindade de duas filhas para que seus hóspedes não fossem violentados (vide também a correlação trágica entre hospitalidade e perversão no caso da mulher do levita em Juízes 19). Esperamos e confiamos que não seja necessário chegar a estes extremos, mas de igual maneira o pastor deve ser hospitaleiro, bom anfitrião dos convidados, amigo dos estrangeiros, como a raiz da palavra grega φιλόξενος - philoxenos – propõe. Paulo reforça esta qualidade em Romanos 12:13 ("Comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade") e o escritor de Hebreus (13:2) aconselha: "Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos", como o nosso amigo Ló.

6) apto para ensinar – a palavra aqui traduzida por "apto para ensinar" (ARC, ARA e NVI) é de fácil compreensão para o nosso português atual: διδακτικός - didaktikos – simples assim, didático. A BP traduz por "bom mestre", a BJ por "competente no ensino", a TEB por "capaz para ensinar". Curiosamente, talvez estejamos diante de uma contradição moderna, já que os charlatães e impostores, que abusam do evangelho de Jesus, são "bons de lábia", como diz a gíria. Paulo dava especial importância, entretanto, à dupla função primordial do pastor: pregar e ensinar, como mais adiante diz ao próprio Timóteo: "Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino" (1 Tim 5:17 – NVI). Em outro episódio, adverte também contra os oportunistas: "Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos para si" (Atos 20:29-30).

7) que governem bem a sua própria casa – aqui temos mais um, digamos, incentivo a que o pastor seja casado, tenha a sua família e a administre bem, não só as pessoas que a compõem, mas todos os negócios que a ela dizem respeito. Parece que isso era particularmente importante nos tempos de Paulo, já que os primeiros pastores eram, geralmente, homens já maduros, com muitos filhos, e que deveriam gerir bem os filhos, não os provocando à ira (Efésios 6:4), mas educando-os "com toda a dignidade" (NVI, BJ, BP, TED) com o exemplo de bom pai e chefe de família. Na carta a Tito (1:6), ele amplia a ideia: que o pastor "tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem e insubmissão". Já na carta a Timóteo, no versículo seguinte, Paulo faz questão de esclarecer a relação que faz entre esse atributo e a igreja, perguntando: "se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?" (1 Tim 3:5)

8) que tenha bom testemunho dos que estão de fora – "deve ter boa reputação perante os de fora" (NVI), "é conveniente ter boa fama entre os de fora" (BP). Fora de onde? A antiga versão árabe diz que essa reputação deve ser reconhecida "sem a igreja", ou seja, mesmo aqueles que estão fora da igreja, que desprezam o evangelho, devem dar bom testemunho do caráter do pastor como um ser humano comum nas suas atividades cotidianas. Não deixa de ser interessante (e curioso) que Paulo, por assim dizer, "transfira" aos que estão fora da igreja o julgamento deste quesito. Ele privilegiava a boa reputação do cristão perante a comunidade dos não-cristãos, algo que já havia dito pouco antes ao próprio Timóteo[7].

9) retendo firme a fiel palavra - "que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes" (Tito 1:9), " que se apegue firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar a outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela" (NVI), ou ainda "que se mantenha na doutrina autêntica, de modo que possa exortar com uma doutrina sadia e refutar os que afirmam o contrário" (BP). Paulo está, aqui, se reportando à sua autoridade apostólica, com o seu constante zelo pela sã doutrina, que ele fazia questão de relembrar a Timóteo (1 Tim 1:10, 2 Tim 4:3) e a Tito (1:9 e 2:1), sabedor que era de que muitos falsos profetas e aproveitadores tentavam se apoderar da mensagem do evangelho para servir aos seus próprios prazeres[8]. Sobre esses impostores, falaremos mais adiante, quando analisarmos o que Paulo diz sobre o que um pastor não deve ser.

(continua - para acessar a 2ª parte, clique aqui)




[1] Atos 15:22 (NVI) Então os apóstolos e os presbíteros, com toda a igreja, decidiram escolher alguns dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Barsabás, e Silas, dois líderes entre os irmãos. Hebreus 13:24 (NVI) Saúdem a todos os seus líderes e a todos os santos. Os da Itália lhes enviam saudações. A versão Almeida Revista e Corrigida (ARC) traduz por "homens distintos" e "chefes", respectivamente. Interessante notar que esses "líderes" estão entre "os apóstolos e presbíteros" da Igreja primitiva. Veja também um artigo interessante do blog Estudantes de Teologia.
[2] Efésios 4:11 (ARC) E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores,
[3] (ARC) 1Ti 3:1 Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja.
1Ti 3:2 Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar;
1Ti 3:3 Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento;
1Ti 3:4 Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia
1Ti 3:5 (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?);
1Ti 3:6 Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo.
1Ti 3:7 Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo.
[4] Tito 1:5 Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei:
Tito 1:6 Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes.
Tito 1:7 Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância;
Tito 1:8 Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante;
Tito 1:9 Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.
[5] Atos 16:19 E, vendo seus senhores que a esperança do seu lucro estava perdida, prenderam Paulo e Silas, e os levaram à praça, à presença dos magistrados.
[6] 1Co 7:7 Porque quereria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um de uma maneira e outro de outra.
1Co 7:8 Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu.
1Co 7:9 Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se.
[7] 1Timóteo 2:1 Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens;
1Timóteo 2:2 pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e pacífica, com toda piedade e dignidade.
1Timóteo 2:3 Isto é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador,
[8] Romanos 16:17 Recomendo-lhes, irmãos, que tomem cuidado com aqueles que causam divisões e colocam obstáculos ao ensino que vocês têm recebido. Afastem-se deles.
Romanos 16:18 Pois essas pessoas não estão servindo a Cristo nosso Senhor, mas a seus próprios apetites. Mediante palavras suaves e bajulação enganam os corações dos ingênuos.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Os 500 anos de Calvino


Há exatos 500 anos atrás, no dia 10 de julho de 1509, um menino chamado Jehan Cauvin nascia na pequena vila de Noyon, região da Picardia, cerca de 95 km ao norte de Paris. 

Com o nome devidamente aportuguesado para João Calvino, fica mais fácil saber de quem estamos falando, um dos dois maiores reformadores protestantes do século XVI. 

Apenas para fazer um paralelo com o outro reformador de destaque, em 1509, Martinho Lutero tinha 26 anos de idade, já havia sido ordenado sacerdote (em 1507), e lecionava Teologia na Universidade de Wittenberg desde 1508. 

Calvino tinha, portanto, 8 anos de idade quando Lutero afixou suas 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, dando início ao período da História da humanidade (e da Igreja) que ficou conhecido como a Reforma Protestante. 

Numa brevíssima biografia, Calvino foi estudar na Universidade de Paris, no Collège Montaigu, em 1521 ou 1523 (há divergências sobre a data). 

Curiosamente, foi contemporâneo de dois expoentes católicos, Francisco Xavier e Inácio de Loyola, que fundariam a Companhia de Jesus (os jesuítas) em 1534, o que dá uma ideia da efervescência teológica daquele momento histórico. 

A idéia inicial era que também Calvino deveria estudar Teologia, já que possuía uma espécie de bolsa da Igreja Católica francesa destinada a este fim. 

Entretanto, seu pai muda de idéia em 1529, e ele vai estudar Direito em Orleans, onde provavelmente desenvolveu melhor sua veia argumentativa que se nota tão bem na sua obra. 

Além de uma forte formação humanista, Calvino também continuou estudando Teologia Não se sabe, com precisão, qual é a data da conversão de Calvino ao protestantismo, até porque ele nunca deu detalhes sobre este fato. 

Só se pode afirmar que foi entre 1532 e 1533, quando o movimento de luteranos e anabatistas já havia influenciado boa parte da Europa. 

Com a perseguição aos protestantes na França, Calvino se refugia na Suíça, inicialmente na Basiléia, onde publica – em 1536 - a primeira versão de sua obra máxima, Instituições da Religião Cristã ("As Institutas"), que é, originalmente, uma defesa da fé protestante, endereçada ao rei Francisco I, procurando convencê-lo das boas razões da Reforma. 

É em 1536 também que ele vai a Genebra, onde após idas e vindas, se estabelece definitivamente como o chefe da Reforma Protestante na cidade, na qual vem a falecer em 27 de maio de 1564. 

Segundo sua última vontade, seu corpo foi embalado num pano cru e depositado num caixão de pinho, como aqueles destinados aos pobres, para finalmente ser enterrado numa sepultura simples sem nenhuma inscrição ou monumento, para dar testemunho de que ele voltava ao pó.

Se as breves linhas acima não dão conta de traçar uma biografia de Calvino, muito mais espaço seria necessário neste blog para discutir a extensão de sua influência na trajetória da Igreja e do mundo nos séculos seguintes. 

Paixões – pró e contra, e muitas vezes extremadas – são despertadas quando se abordam a vida e os ensinos de Calvino. No campo teológico, ele é muitas vezes visto – equivocadamente – como uma espécie de "pai" da doutrina da predestinação, quando este tema é examinado de maneira discreta nas Institutas, que é um tratado de teologia muito bem escrito e fundamentado sobre as mais variadas doutrinas cristãs. 

Não se pode ignorar que a predestinação era um tema recorrente nas cartas de Paulo, e, antes de Calvino, já havia sido desenvolvido por Agostinho, Tomás de Aquino e Lutero.

Lamentavelmente, o preconceito faz com que muita gente despreze as Institutas e as demais obras de Calvino na base do "não li e não gostei". 

Outra crítica comum que lhe é dirigida, agora no campo materialista, é a de que a suposta ênfase calvinista na predestinação teria lançado as bases do capitalismo moderno, exercendo sobre ele uma enorme influência que, na verdade, não teve. 

Afinal, o sistema capitalista teve sua gênese no desmonte do feudalismo, no nascimento dos burgos e suas corporações de ofício, no colonialismo e nas novas rotas comerciais propiciadas pelas grandes navegações, todos esses fenômenos ocorridos nos séculos XIV e XV. 

A Reforma Protestante do século XVI se encaixa nesta agenda proto-capitalista como o xeque-mate no poder político da Igreja Católica, que até então mandava e desmandava na Europa. 

Como os séculos seguintes testemunharam, esse poder foi sendo perdido paulatinamente e, por mais que Max Weber tente, não se pode fazer uma associação direta e imediata entre a doutrina da predestinação com a riqueza da elite dominante e o destino proletário das classes trabalhadoras, como se Calvino tivesse tentado reproduzir na Europa o sistema hindu de castas, tudo com o objetivo de inaugurar um novo sistema, que, por sinal, só veio a tomar as feições modernas de capitalismo após as Revoluções Industrial (no campo econômico) e Francesa (no campo político), mais de 3 séculos depois.

Como indica o texto anterior, do historiador Justo L. González, muito do que se atribui a Calvino, ele efetivamente não fez, disse ou escreveu. Nunca se viu como o dono da verdade ou o fundador de uma nova doutrina ou religião, mas como um humilde servo de Deus num período especialmente conturbado para a Sua Igreja. 

É muito cômodo (e anacrônico) julgar um homem do século XVI com os olhos do século XXI, mas Calvino, além de ter sido um produto do meio em que viveu, foi um homem à altura do seu tempo, desafiando o establishment e lutando para construir um mundo em que a liberdade de culto fosse um direito reconhecido e protegido, isso num tempo em que milhares morreram por defender esta garantia, hoje tão preciosa à humanidade.

Obviamente, teve que encastelar-se em Genebra para poupar a vida e as idéias, e não viveu para ver isso concretizado, nem a mudança se operou de forma instantânea, tanto que, 8 anos após sua morte, a França sofreu a infame Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), em que dezenas de milhares de protestantes foram massacrados a mando da realeza católica. 

Nos séculos seguintes, muito sangue fratricida ainda correria pelas ruas e pelos rios europeus até que desfrutássemos da atual liberdade religiosa (ou ateísta). 

Calvino pode até não ter sido um fator decisivo neste processo, mas foi um dos muitos homens e mulheres que dedicaram a vida a vê-lo realizado, ainda que pelos olhos do século XVI. 

Aquele foi um período em que era preciso tomar posição, geralmente desconfortável, e fazer escolhas terríveis com consequências potencialmente drásticas ou letais. 

Qualquer relação que se possa fazer com a intervenção divina na história da humanidade não é mera coincidência. 

Neste aspecto, Calvino preferiu não se omitir e foi o homem certo no lugar certo e na hora certa. Motivos não faltam, portanto, para celebrar o seu 5º centenário.


quinta-feira, 9 de julho de 2009

Calvino x calvinistas

por Justo L. González 

Devido à sua importância e ao fato de que tem sido freqüentemente interpretada como representante da teologia de Calvino, a Confissão de Westminster merece alguma consideração detalhada, bem como uma comparação com a teologia do próprio Calvino. 

 A Confissão de Westminster começa com um capítulo sobre a Santa Escritura. Nele é declarado que os textos gregos e hebraicos do Antigo e Novo Testamento, que foram mantidos puros ao longo das eras são “imediatamente inspiradas” por Deus. A regra infalível para interpretar a Escritura não é outra senão a própria Escritura, em que os elementos necessários para a salvação estão claramente declarados – muito embora questões menores possam ser mais difíceis para o leigo interpretar. Embora Calvino concordasse com a importância que a Confissão deu à Escritura, existem dois pontos nos quais este documento se diferencia dele. O primeiro é o lugar da própria doutrina dentro da estrutura da Teologia. Calvino tomou a condição humana e o alvo da existência humana como ponto de partida para sua teologia. Dentro desta estrutura, a Escritura era importante como um meio para nos ajudar a alcançar o alvo para o qual fomos criados. Na Confissão, por outro lado, a Escritura se torna quase um livro de jurisprudência no qual textos devem ser encontrados para provar e apoiar vários pontos – incluindo a própria compreensão do que significa ser humano. Neste ponto, é interessante notar que os dois catecismos produzidos pela Assembléia de Westminster – redigidos por diferentes pessoas – concordam com Calvino, ao invés de concordarem com a Confissão. O outro ponto no qual a Confissão se diferencia de Calvino é a sua ênfase na inerrância escriturística. Embora Calvino cresse na inspiração divina da Escritura, ele nunca detalhou essa doutrina de forma detalhada ou mecanicista. A ênfase de Calvino estava no uso da Escritura pelo Espírito Santo na comunidade da fé, especialmente no ato da pregação. A Confissão trata com o texto sagrado de um modo mais individualista, como um guia para a fé de cada cristão. 

 A Confissão de Westminster coincide com a maioria dos calvinistas posteriores ao colocar a doutrina da predestinação em tal lugar na estrutura da Teologia que ela parece ser derivada da natureza de Deus, ao invés da experiência da graça dentro da comunidade da fé. Isto pode ser visto em que, imediatamente após afirmar a autoridade da Escritura, a Confissão prossegue discutindo a divindade no seu segundo capítulo, e os decretos eternos de Deus no terceiro. 

 Dois exemplos claros do modo em que o Puritanismo se diferenciou da teologia de Calvino podem ser vistos na maneira em que a Confissão de Westminster trata da oração e do Shabbat (descanso). Sobre a oração, Calvino diz que é o momento em que nós nos aproximamos mais intimamente do nosso propósito final. Na oração, nós glorificamos a Deus e nos relacionamos com o divino de tal forma que nós claramente esperamos que Deus seja a fonte de tudo o que somos e necessitamos. A Confissão aborda a oração de uma maneira muito legalista, afirmando que é “requerida de todo homem”, que deve ser no nome do Filho, numa língua conhecida e não (oferecida) pelos mortos. A respeito do Shabbat, o mesmo capítulo da Confissão adota uma posição diametralmente oposta a de Calvino. O reformador de Genebra afirma que o Shabbat era uma figura de coisas por vir e foi, portanto, abolido por Cristo, cuja ressurreição é o começo do Shabbat final. A celebração do domingo, então, não é uma nova forma de manter uma “observância supersticiosa de dias”, mas é, ao contrário, um modo prático de capacitar a igreja a adorar conjuntamente, e de dar descanso àqueles que trabalham. De certa forma, todos os cristãos estão agora no dia de descanso, pois não somos mais dependentes de nossas próprias obras (Institutas, 2.8; 28-34). A Confissão, por outro lado, afirma que Deus 

“em Sua Palavra, através de um mandamento moral, positivo e perpétuo, unindo todos os homens, em todas as eras, apontou particularmente um dia em sete, como um shabbat a ser mantido santo para Ele: o qual, desde o começo do mundo até a ressurreição de Cristo, era o último dia da semana; e, a partir da ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana, que, na Escritura, é chamado o Dia do Senhor, e deve ser mantido até o fim do mundo, como o Shabbat cristão. 

 Esse Shabbat é, então, conservado santo para o Senhor, quando os homens, após uma devida preparação dos seus corações, e pondo em ordem seus assuntos comunitários com antecedência, não somente observam um descanso santo, todo o dia, das suas próprias obras, palavras e pensamentos sobre seus trabalhos seculares e recreações, mas também estão despendendo todo o tempo em exercícios públicos e privados de sua adoração, e nos deveres dos necessitados e de misericórdia.” 

 Este contraste marcante entre Calvino e a Confissão de Westminster pode ser visto como derivando da maneira em que os dois tratam da Escritura, o que foi discutido acima. 

A influência de Calvino pode ser vista na Confissão onde ela afirma que tanto a lei quanto o evangelho pertencem ao pacto da graça. Dizendo isso, a Confissão evita o contraste marcante entre a lei e o evangelho que foi característico de Lutero e que Calvino tentara evitar. Mas então a Confissão prossegue para declarar que Adão, como originalmente criado, estava debaixo de um “pacto de obras” e que, apenas mais tarde, depois da queda, o “pacto da graça” foi estabelecido. Calvino nunca teria dito isso, pois isto pareceria fazer da fé um substituto para as obras que nós não podemos mais praticar. Se fé pertence a um novo pacto, segue-se que ela não foi requerida de Adão e Eva como é requerida dos seres humanos em todas as gerações posteriores. 

Assim, a Confissão de Westminster, como muito do Calvinismo do século 17, esquematizou tanto a teologia de Calvino que uma grande parte do seu espírito original se perdeu. 

Em resumo, o que dissemos sobre a Confissão de Westminster também pode ser dito sobre a maior parte do Calvinismo do século 17 – com a exceção notável de Amyraut e seu círculo na Igreja Reformada da França. Esta é a razão por que os historiadores freqüentemente se referem a esse período como um da “Ortodoxia Calvinista”. Esta ortodoxia geralmente centrou-se na questão da predestinação, que então se tornou o critério do Calvinismo. Isto é muito interessante, desde que durante o século 16, o ponto de maior divergência entre o Calvinismo e o Luteranismo não fora a predestinação – com o qual os dois grupos concordavam – mas, ao contrário, o modo da presença de Cristo na Ceia do Senhor. 

A ortodoxia calvinista prestou um desserviço ao Calvinismo verdadeiro, na medida em que gerações posteriores creram que ela foi uma expressão acurada dos pontos de vista de Calvino, e, portanto, tenderam a vê-lo como mais rígido do que ele de fato fora. Isto, em contrapartida, significou que o reformador de Genebra tenha recebido menos simpatia do que ele merecia. 

(extraído de “Uma História do Pensamento Cristão”, de Justo L. González, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. 3, pág. 299/302).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O significado da cruz

“Ao contrário do que se imagina, eu olho para trás e vejo as experiências que, à época, pareciam especialmente desoladoras e dolorosas com particular satisfação. De fato, eu posso afirmar com total sinceridade que todas as coisas que aprendi em meus 75 anos de permanência neste mundo, tudo o que, verdadeiramente, fortaleceu e iluminou a minha existência, veio através da aflição e não por intermédio da alegria, tenha sido ela gratuita ou conquistada. Em outras palavras, se fosse possível eliminar a aflição de nossa vida terrena, seja por meio de alguma droga ou medicina alternativa, o resultado não seria uma vida atenuável, mas, sim, uma vida intoleravelmente banal e trivial. Este é, claro, o significado da cruz. E foi a cruz, mais do que qualquer outra coisa, que me levou, de forma inexorável, a Jesus Cristo.”
(Malcolm Muggeridge, “A Twentieth Century Testimony”, citado por Eugene Peterson em “Corra com os Cavalos”, 2003, Ed. Textus e Ed. Ultimato, pág. 100)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails