sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Chega ao Brasil livro que expõe os intestinos da Cientologia

Matéria publicada na Carta Capital de 08/01/14

Célebres fanáticos

Jornalista investiga as acusações de mortes, escravidão e tráfico humano contra a Cientologia nos Estados Unidos

Francisco Quinteiro Pires

Desde janeiro passado, quando publicou nos Estados Unidos um livro sobre as práticas absurdas da Cientologia, Lawrence Wright espera um revide contundente. Ações judiciais são o principal recurso dos cientologistas contra os seus críticos. O propósito é, segundo Wright, “atormentar”, “desestimular”, e não ganhar uma causa. “Até agora recebi apenas ameaças de processo”, diz. “A igreja conseguiu assustar as minhas editoras na Grã-Bretanha e na Austrália, mas nutro a esperança de que a obra seja lançada nesses países.”

A Prisão da Fé – Cientologia, celebridades e Hollywood (Companhia das Letras, 600 págs., R$ 54) mostra como a igreja exige dos seus integrantes uma reorientação radical de vida. De acordo com Wright, não há uma conversão. O mais comum é a aceitação gradual de proposições extravagantes, graças à promessa de poder e enriquecimento. Essa religião oferece aos fiéis o aumento da inteligência e a conquista da imortalidade. “A Cientologia recruta as celebridades e se esforça para fazê-las se sentirem como reis. Por muito tempo houve a lenda de que ela tinha uma rede secreta de contatos que ajudava aspirantes a artistas a se transformarem em grandes estrelas. A afiliação dos atores John Travolta e Tom Cruise, assim como de outros nomes populares, deu credibilidade a essa bravata.” Desde a sua fundação há quase 60 anos em Los Angeles, na Califórnia, a igreja atrelou o seu prestígio aos astros de Hollywood. Atualmente, ela acumula cerca de 1 bilhão de dólares em ativos líquidos e diz ter mais de 8 milhões de seguidores pelo mundo (as sedes brasileiras se localizam em São Paulo e no Rio de Janeiro). Segundo a Statistical Abstract of the United States, somente 25 mil americanos se identificam como cientologistas, o equivalente à metade da população definida como rastafári.

Wright pôde publicar o livro nos EUA sem sofrer assédio legal por estar amparado na Primeira Emenda da Constituição, protetora da liberdade de expressão e do livre exercício religioso. Os cientologistas a invocam para se blindar contra condenações por práticas abusivas, contrárias às leis do trabalho e tráfico humano. A Cientologia obteve status de religião após seus integrantes abrirem mais de 2 mil processos contra o Internal Revenue Service (IRS), a receita federal americana. As ações judiciais eram uma reação ao pedido de pagamento de cerca de 1 bilhão de dólares de impostos devidos pela igreja. Encurralado, o IRS baixou o montante para 12,5 milhões de dólares. Reconhecida como organização religiosa, a Cientologia tem isenção fiscal ao receber doações e prestar certos serviços.

“A Primeira Emenda torna difícil o trabalho das autoridades quando o assunto é religião”, diz Wright. “O FBI abortou a sua investigação sobre a igreja depois de um tribunal julgar que certas práticas questionáveis nos altos escalões do clero, como confinamento involuntário e abuso emocional e físico, poderiam ser consideradas atividades religiosas.” O jornalista refere-se à operação de busca e apreensão feita em 1977 pelo FBI em imóveis da igreja onde seus integrantes eram encarcerados ilegalmente. Nenhuma das pessoas encontradas no escuro, com trapos sujos atados às mãos, pediu socorro à polícia federal americana. Esse procedimento chocante seria necessário para disciplinar os cientologistas heterodoxos.

Wright compartilha o espanto de ex-seguidores com a impunidade da igreja garantida pela lei. Em um livro de memórias publicado neste ano, Jenna Miscavige Hill, sobrinha de David Miscavige, o líder da Cientologia desde 1986, relata a sua experiência sob as regras alienantes da igreja, à qual se filiou criança. Jenna conta ter sido vítima de confinamento e de trabalhos forçados, parte do contrato de 1 bilhão de anos de serviços que teve de assinar para ser funcionária. “A igreja é uma organização perigosa, cujas crenças permitem que ela viole direitos básicos e cometa crimes contra a humanidade. É um mistério como pode agir impunemente na nossa sociedade atual”, escreve em Beyond Belief: My Secret Life Inside Scientology and My Harrowing Escape.

Alguns dos mais de 250 entrevistados por Wright para o livro, cuja origem foi uma reportagem na The New Yorker em 2011, relataram ser alvo de agressões pelo tio de Jenna. Apesar de o amigo Tom Cruise descrevê-lo como um dos homens mais “competentes”, “tolerantes” e “inteligentes” do mundo, Miscavige teria um temperamento explosivo e bateria nos seus subordinados. Segundo ex-funcionários da igreja, o líder da instituição foi o supervisor do tratamento da atriz Lisa McPherson, morta após um colapso mental em 1995. Alimentada com um conta-gotas e presa numa solitária, McPherson sofreu embolia pulmonar e tornou-se um dos nove integrantes da igreja a falecer misteriosamente na sede de Clearwater, Flórida. Os cientologistas fizeram um acordo com a família da atriz após o legista do caso determinar que a morte ocorreu por acidente.

A fim de publicar A Prisão da Fé na Inglaterra, Wright teria de alterar o texto para se proteger de processos por calúnia. A estratégia foi adotada pelo jornalista John Sweeney em The Church of Fear, Inside The Weird World of Scientology, lançado à época de A Prisão da Fé. O livro de Sweeney parece redigido por um advogado, segundo a revista The Economist, “um sinal de que o sistema legal inglês limita os escritos sobre pessoas controversas e litigantes”. Vencedor do Pulitzer Prize por O Vulto da Torres, A Al-Qaeda e o Caminho até o 11/9 (2006), Wright diz que a denúncia não era sua prioridade. Ele passou boa parte da carreira “examinando os efeitos de crenças religiosas sobre a vida das pessoas”.

A Cientologia tornou-se atraente por ser “estigmatizada” e ter “um papel descomunal no elenco das novas religiões que surgiram no século XX e adentraram o XXI”. O jornalista usou como fio condutor o rompimento de Paul Haggis com a Cientologia em 2009. Diretor e roteirista de Crash, No Limite, premiado com o Oscar de melhor filme em 2006, Haggis entrou na Igreja aos 21 anos e ali permaneceu por três décadas e meia. Com o auxílio dos cientologistas, conseguiu os primeiros trabalhos. Tempos depois, foi admitido em Hollywood, trajetória parecida com aquelas de Travolta e Cruise. Pai de duas lésbicas, Haggis abandonou a religião porque ela apoiou uma lei contrária ao casamento gay na Califórnia.

Haggis prevê perseguição nos próximos anos. A intolerância com o dissenso marca a Cientologia, nascida com o seu fundador, L. Ron Hubbard (1911-1986), pseudocientista e escritor. Exaltado falsamente como herói de guerra, Hubbard era sexomaníaco e espancava as esposas. Em obras como Dianética, O Poder da Mente sobre o Corpo (1950), desenvolveu teorias sobre a imortalidade da alma ao reciclar, sobretudo, conceitos de Sigmund Freud. Embora a Cientologia não exija crença em um deus (a cruz, um de seus símbolos, não tem ligação com o cristianismo), Hubbard se apresentou como déspota de um pequeno reino.

Ele apregoou que um indivíduo se libertaria das leis da matéria, do espaço e do tempo se participasse das audições, aconselhamentos pagos conduzidos por alguns funcionários da igreja. Se o pagante não alcança o sucesso espiritual, o problema é o contato com “as pessoas supressivas”, os críticos da Cientologia. “O indivíduo tem de cortar relações com os desafetos da igreja, mesmo que seja sua mãe, esposa ou filha”, diz Wright. “É preciso escolher entre o amor das pessoas mais próximas ou uma promessa de salvação.” Wright duvida que a Justiça mude a atuação questionável da igreja. “Apenas a informação pública pode fazer isso.”



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

No embalo do papa, patriarca de Constantinopla quer acelerar reformas entre ortodoxos

Matéria publicada no IHU:

Patriarca de Constantinopla convoca reunião sem precedentes

Com um movimento que surpreendeu a todos, o patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I (foto), convocou a todos os primazes das Igrejas ortodoxas para uma reunião marcada para março deste ano, na sede patriarcal do Corno de Ouro (Istambul). Nela serão estabelecidos o cronograma e as práticas do trabalho da comissão organizadora que está preparando o Sínodo, previsto para 2015. O informe do encontro se deu via artigo assinado por Nat da Polis e publicado pela agência AsiaNews que, de maneira informal, também aborda o plano de fundo que inspira tal iniciativa patriarcal: trata-se de “uma tentativa de sair de uma marginalidade, decorrente de uma mentalidade provincial que tem caracterizado as igrejas ortodoxas na idade moderna”, assim como o “nacionalismo” que tem marcado a fisionomia de tantas igrejas ortodoxas no último século. Constantinopla, de acordo com a convocatória, quer lembrar às outras igrejas ortodoxas que não se pode enfrentar os desafios colocados pela globalização sem ações conjuntas.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 07-01-2014. A tradução é do Cepat.

Pisando no acelerador do “Santo e Grande Concílio”, Bartolomeu também aponta para a necessidade de reafirmar o papel do Primus inter pares entre os patriarcas ortodoxos. Há décadas a ortodoxia esforça-se, e com urgência, para dar vida a uma igreja que possa enfrentar os problemas relativos à presença ortodoxa na época atual. Ao lado do Patriarca ecumênico, está o Metropolita de Pérgano, Ioannis Zizioulas, considerado por muitos como o maior teólogo cristão vivo. Zizioulas há tempos aponta para os riscos de uma “intervenção” do mundo ortodoxo. Para ele, a ortodoxia tem a necessidade de viver uma experiência sinodal de um grande respiro, comparável a que os católicos vêm tendo com o Concílio Vaticano II, caso não queiram se fechar em guetos de auto-marginalização. Em seu livro “Ortodoxia e o Mundo moderno”, Zizoulas escreve que o maior perigo para a Ortodoxia, assim como para todo o mundo cristão, “não é o ateísmo, o poder secular ou seus muitos inimigos”, mas “a fuga da realidade histórica e a busca contínua da sua identidade própria fixada apenas no passado”, particularmente cultivada entre homens da Igreja tomados por uma “autocomplacência narcisista que leva a contraposições estéreis”. Palavras que convocam, especialmente, para os apelos sobre os perigos de uma igreja “auto-referêncial”, como já disse mais de uma vez o Papa Francisco.

De fato, as palavras e atitudes do atual bispo de Roma parecem ter tomado um efeito dominó no campo ortodoxo. O Patriarca ecumênico Bartolomeu reuniu as possibilidades, abertas em âmbito ecumênico, com o início do novo Pontificado. Sua presença na missa inaugural do ministério petrino de Francisco e o encontro, anunciado para o próximo mês de maio, entre os sucessores dos irmãos apostólicos Pedro e André em Jerusalém, indicam o princípio de um caminho que está se iniciando, mas cujo desenvolvimento ainda é inimaginável. Todavia o “modus operandi” do Papa argentino também tem saltado aos olhos da Ortodoxia matriz moscovita, com suas iniciativas inéditas. O sinal da cruz e o abraço que Vladimir Putin e o Papa deram juntos a imagem da Madona de Vladimir, importante símbolo religioso da fé ortodoxa russa, quando o presidente russo visitou o Vaticano, ficaram marcados no imaginário coletivo dos russos ortodoxos. Por outro lado, os homens fortes do Patriarcado de Moscou – incluindo Hilarion di Volokolamsk, que também foi recebido pelo Papa Francisco – reforçaram sua preferência por um diálogo que privilegia um terreno comum de defesa dos valores morais e cristãos pelas comunidas do Oriente Médio que sofrem, ao invés de apontar para a questão da dissolução do “nó teológico” representado pelo ministério petrino. No final de dezembro, o Sínodo da Igreja ortodoxa russa insiste em seu “não” ao documento de Ravenna, o texto de trabalho produzido pela Comissão Mista para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas, em que buscava-se desenhar uma doutrina teológica do Primato que também fosse “sustentável” para os ortodoxos.

A relação com o Papa Francisco é tomada como catalisadoras das iniciativas nunca concluídas, no âmbito ortodoxo, entre Moscou e Constantinopla. Mas o que também pode fazer emergir outras contradições que nascem no seio da Ortodoxia. A imagem do pastor esquecido de si mesmo e cheio de paixão apostólica, oferecida por Bergoglio, abre uma brecha para a simpatia frente aos fiéis ortodoxos. E surgem, inevitavelmente, as comparações com outro clero, o das igrejas ortodoxas, nas quais, muitos de seus representantes alegram-se em ter uma nomenclatura privilegiada. Nestes dias, após os escândalos dos eclesiásticos que causaram vítimas por sua condução errônea, foi criada na Rússia uma polêmica contra o suposto “lobby gay” que opera dentro do Patriarcado do Moscou, denunciado pelo prótodiacono-blogger Andrei Kuraev. Uma história que pode ter resultados imprevisíveis.



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Filmes bíblicos invadirão cinemas em 2014


2014 promete: a Bíblia invadirá as telonas!

É que nada mais, nada menos que 5 possíveis blockbusters ("estouros de bilheteria") estão programados a serem lançados neste ano.

Por mais que tenham os tradicionais fins mercadológicos, não deixa de ser interessante essa retomada de temas bíblicos numa sociedade cada vez mais afastada de Deus.

Confira a lista:

1) "Filho de Deus" ("Son of God")

Previsto para estrear em fevereiro, o filme é baseado na série televisiva "A Bíblia" que foi reproduzida recentemente no Brasil pela Record, com o ator português Diogo Morgado no papel de Jesus.


2) "Noé" ("Noah")

Conforme já comentamos em novembro de 2013, um elenco estelar foi escalado para exibir nos cinemas a narrativa bíblica do dilúvio dos tempos de Noé, ao que parece com muito mais "licença poética" do que se esperaria.

Com Russel Crowe no papel-título, Anthony Hopkins, Jennifer Connely e Emma Watson completam o time de celebridades hollywoodianas que compõem o elenco.


3) "O Céu é de Verdade" ("Heaven is For Real")

Ainda que não tenha explicitamente uma temática bíblica, "O Céu é de Verdade" se baseia no livro de mesmo nome que conta a história do garoto Colton Todd Burpo, filho do pastor evangélico americano Todd Burpo, que, pouco antes de completar 4 anos de idade, teve uma experiência de quase-morte e, segundo alega, teria ido ao paraíso e conversado com o próprio Jesus Cristo.

Com lançamento previsto para pouco antes da Semana Santa, ao que parece se trata de uma estranha versão gospel de "Esqueceram de Mim", com roteiro ao contrário, se é que dá para entender o que isto significa.


4)"Êxodo" ("Exodus")

Se você pensava que, depois do gigantesco sucesso de "Os Dez Mandamentos" (1956), ninguém em Hollywood ousaria fazer outro filme com base no relato bíblico do livro de Êxodo, pode tirar o seu cavalo da chuva e botá-lo no deserto do Sinai.

Para o papel que consagrou Charlton Heston, o Moisés da vez será o ex-Batman Christian Bale, com a ex-Alien Sigourney Weaver segurando as pontas do outro lado dessa superprodução que, ao que tudo indica, também usará e abusará da licença poética para imaginar, digamos, variantes não escritas no texto de Êxodo.

O diretor é Ridley Scott, conhecido por vários outros bons filme de época, como "Gladiador" e "Cruzada", e se especula que será o grande sucesso de bilheteria do Natal de 2014.


5) "Mary, Mother of Christ" ("Maria, Mãe de Cristo")

Também prevista para o Natal de 2014, depois de uma série de atrasos na produção (para você ter uma ideia, Peter O'Toole, falecido em dezembro de 2013, participou do filme), "Maria, Mãe de Cristo" tem seu foco, como o próprio nome indica, na vida de Maria.

Compõem o elenco, entre outros, Ben Kingsley e Julia Ormond, com a jovem atriz israelense Odeya Rush, de 16 anos de idade, no papel-título.

Um dos grandes promotores do filme é Joel Osteen, o pastor-celebridade da Lakewood Church de Houston (Texas) e amigo de Oprah Winfrey nas horas vagas.

Ainda não há trailer oficial.





terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Dilema: já podem lhe induzir a ter memória de algo que você não viveu

A matéria foi publicada na Folha de S. Paulo de 28/12/13:

Falsas memórias

Estudo mostra que mesmo as pessoas com memória excepcional estão sujeitas a 'lembrar' coisas que, na verdade, elas não viveram

RICARDO BONALUME NETO

A memória humana é algo maleável, capaz de ser facilmente adulterada, e isso tende a criar problemas jurídicos e terapêuticos graves.

OK, isso nunca foi muita novidade.

Mas se viu agora que mesmo uma memória excepcional não impede que ela possa ser falsificada deliberadamente. E resta a dúvida: o que é falso, o que é verdadeiro naquilo que uma pessoa lembra? Ou melhor, "lembra"?

"Sem confirmação independente, você não tem como ter certeza se uma memória é verdadeira ou um produto de algum outro processo", disse à Folha a pesquisadora Elizabeth Loftus, da Universidade da Califórnia em Irvine, EUA.

Um novo trabalho da sua equipe, publicado na revista "PNAS", da Academia de Ciências dos EUA, mostrou que é possível implantar memórias falsas mesmo em pessoas capazes de lembrar pequenos detalhes da sua vida de uma década atrás.

Estudos nos EUA há mais de uma década mostraram que é possível fazer as pessoas acreditarem que viveram algo de que não participaram.

Loftus e colegas agora avaliaram voluntários com a "supermemória".

Ela podia fazer, por exemplo, alguém "relembrar" que tinha sido perdido dos pais em um shopping center, quando isso nunca aconteceu. E ainda por cima acrescentar detalhes do "evento".

NINGUÉM É IMUNE

A descoberta de pessoas com memórias excepcionais sobre sua própria vida indicaria que elas estariam imunes a esse tipo de "lavagem cerebral". Mas não foi o caso, como testes demonstraram.

Esse tipo de gente é algo difícil de acreditar. Basta ver uma série de televisão americana, "Unforgettable" ("inesquecível"). Uma policial de Nova York, Carrie Wells, lembra cada detalhe de cada dia da sua vida e isso a ajuda a resolver os casos. Ficção?

Não até descobrirem alguns poucos indivíduos --apenas 20 foram estudados por Loftus e colegas-- com a chamada memória autobiográfica altamente superior.

Pergunte a um deles o que fizeram em certo dia --por exemplo 5 de setembro de 1987--, e a pessoa dirá o que fez, o que comeu de almoço, o que leu no jornal do dia...

Como uma pessoa assim é capaz de se lembrar de algo que aconteceu há uma década bem melhor do que uma pessoa comum se lembra de um simples mês atrás, seria de se esperar que fossem imunes aos testes criados pelos psicólogos para produzir falsas memórias.

Foram testados os 20 voluntários com memória superior e 38 pessoas com memória normal de idades e sexo semelhantes, utilizando experimentos com palavras, imagens e sentenças e a falsa memória de um vídeo não existente ligado aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos EUA.

Resultado: ter a supermemória não impediu que ela fosse distorcida.

CONSEQUÊNCIAS

Lawrence Patihis, da equipe de Loftus, lembra que as consequências das "falsas memórias" continuam sendo um problema. Na década de 1990, essas memórias eram usadas por psicoterapeutas para fins questionáveis -- "provando" casos de abuso sexual que nunca existiram.

Essas alegações diminuíram muito. "Isso em parte reflete o trabalho da professora Loftus na área", diz ele.

Recentemente, Loftus fez pessoas desistirem de tomar vodca achando que tinham tido uma péssima experiência preliminar com a bebida.

"Se fizer as pessoas pensarem que ficaram doentes com alimentos gordurosos fazerem-nas evitar essa comida, então isso poderia ter implicações para o seu comportamento alimentar e ser terapêutico", diz ela. "Também podemos implantar uma memória positiva sobre alimentação saudável."

Segundo a pesquisadora, essas são algumas maneiras pelas quais falsas memórias podem ajudar as pessoas.



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Como atropelar o evangelho com Jesus numa moto

Muitos "evangélicos" brasileiros têm a curiosa mania de dizer que Cristo tem que ser pregado de qualquer maneira, não importa o meio a que se recorra, nem a quem e o que perturbe, sem o mínimo de bom senso.

Apoiam-se, esses "evangélicos", no versículo de Filipenses 1:18, em que Paulo diz que "Mas que importa? contanto que, de toda maneira, ou por pretexto ou de verdade, Cristo seja anunciado, nisto me regozijo, sim, e me regozijarei".

Entretanto, conforme o Gustavo, co-editor deste blog, já teve oportunidade de analisar em janeiro de 2012 no artigo "Pregação pode ser feita de qualquer jeito?", esse versículo fala de uma circunstância muito específica, em que o apóstolo analisa as intenções das pessoas que se propõem a pregar o evangelho, se por verdade ou por mentira.

Quem pensa o contrário se escora na alegação utilitária de que "os fins justificam os meios", correndo o risco de violar outros versículos bíblicos que dizem, por exemplo, que "faça-se tudo decentemente e com ordem" (1ª Coríntios 14:40) e "segui a paz com todos" (Hebreus 12:14).

É muito estranho, portanto, que uma igreja evangélica de Campo Grande (MS) tenha decidido que a melhor maneira de "anunciar Jesus" seria promover um festival de motocicletas na rua, burlando a fiscalização municipal sem contar exatamente o que seria feito e incomodando os vizinhos com o barulho, a insegurança e, claro, a fumaça do inferno.

Afinal, o próprio título do evento - "1º Arrancadão do Itamaracá de Motos" - já soa totalmente despropositado para quem quer associar a ele o nome de Jesus, não é mesmo?

Centenas de pessoas se reuniram na principal avenida do bairro de Jardim Itamaracá, na capital sul-matogrossense, para ver os motociclistas participarem de uma competição informal de "zerinho", em que a possante começa a girar em torno de si mesma para delírio da plateia.

Claro que não faltaram também os aparecidos de plantão que gostam de empinar suas máquinas e os meliantes que vão nesses lugares só para brigar com o primeiro que olhar torto na sua direção.

A perturbação da paz pública durou 5 horas e não foi reprimida pela polícia, embora moradores do local a tenham acionado infrutiferamente.

Tiveram que sentir a fungada do capeta no cangote sem apelação. Nem dó. Houve choro e ranger de dentes...

Não há registro de que a cruz de Cristo tenha sido pregada no meio daquele barulho todo, mas os vizinhos certamente têm arrepios quando ouvem a palavra "evangélico".

O "arrancadão gospel" de Mato Grosso do Sul fez o evangelho puro e simples virar fumaça.

Bons tempos aqueles em que a pregação pura e simples do evangelho de Jesus Cristo era o único e legítimo chamariz para atrair pessoas de todas as idades.





Já que o "pastor" da tal igreja queria encontrar uma maneira de se comunicar com os motociclistas da sua região, ele podia fazer algo mais calmo, como uma reflexão sobre a letra da canção zen "Jesus numa moto", de Sá, Zé Rodrix e Guarabira (vídeo e letra abaixo)

Seria muito mais tranquilo e - talvez - proveitoso. Fica a dica!




JESUS NUMA MOTO

Preso nessa cela
De ossos, carne e sangue
Dando ordens a quem não sabe
Obedecendo a quem tem.

Só espero a hora
Nem que o mundo estanque
Prá me aproveitar do conforto
De não ser mais ninguém.

Eu vou virar a própria mesa
Quero uivar numa nova alcatéia
Vou meter um Marlon Brando" nas idéias
E sair por aí.

Prá ser Jesus numa moto
Che Guevara dos acostamentos
Bob Dylan numa antiga foto
Cassius Clay antes dos tratamentos

John Lennon de outras estradas
Easy Rider, dúvida e eclipse
São Tomé das letras apagadas
E arcanjo Gabriel sem apocalipse.

Nada no passado
Tudo no futuro
Espalhando o que já está morto
Pro que é vivo crescer.

Sob a luz da lua
Mesmo com sol claro
Não importa o preço que eu pague
O meu negócio é viver.

Eu vou virar a própria mesa
Quero uivar numa nova alcatéia (nova alcatéia)
Vou meter um Marlon Brando" nas idéias
E sair por aí.

Prá ser Jesus numa moto
Che Guevara dos acostamentos
Bob Dylan numa antiga foto
Cassius Clay antes dos tratamentos.

John Lennon de outras estradas
Easy Rider, dúvida e eclipse
São Tomé das letras apagadas
E arcanjo Gabriel sem apocalipse.

Sob a luz da lua...
Mesmo com sol claro...
Preso nesta cela...





domingo, 5 de janeiro de 2014

Nelson Ned falece aos 66 anos de idade


O consagrado cantor popular (e depois evangélico) Nelson Ned não resistiu à pneumonia que causou sua internação no Hospital Regional de Cotia (SP) ontem, 4 de janeiro de 2014, e veio a falecer na data de hoje.

Nascido em Ubá (MG) no dia 2 de março de 1947, Nelson Ned teve uma longa carreira de sucessos populares numa época em que a música romântica dominava as rádios e os programas de auditório no Brasil.

Aos 17 anos de idade foi ao Rio de Janeiro tentar a sorte como cantor, e a sua pequena estatura não foi obstáculo para que atingisse o reconhecimento como grande cantor que - de fato - era.

Sua carreira exitosa não se limitou ao Brasil, já que foi profundamente querido nos países hispânicos da América Latina, onde as versões em espanhol de suas canções alcançaram o topo das paradas musicais.

Seu grande sucesso nessa época foi "Tudo Passará" (ou "Todo Pasará" em castelhano).

Nos anos 1990, converteu-se ao evangelho e passou a desenvolver uma carreira de grande êxito na música evangélica.

Ao todo, estima-se que o pequeno gigantesco cantor tenha vendido cerca de 45 milhões de cópias de suas obras ao longo de sua vida.

Acima de tudo, Nelson Ned foi um ser humano especial que conseguiu vencer com o seu talento a barreira que a sua estatura - socialmente relegada a segundo plano (e às lamentáveis chacotas) - felizmente não conseguiu lhe impor.

Uma grande voz que se vai, um enorme exemplo que fica. Merece todas as nossas homenagens.

Abaixo, três grandes momentos de Nelson Ned, o primeiro cantando o conhecido hino "Grandioso És Tu", e o segundo e o terceiro cantando "Todo Pasará" e "Tudo Passará".







Prazer com desgraça alheia pode não ser tão ruim

Que tal fazer uma viagem profunda aos inescrutáveis labirintos da alma humana lendo o artigo abaixo, publicado no UOL Bem-Estar?

Sentir prazer com o constrangimento alheio não é tão ruim, diz psicólogo

Christie Aschwanden 
The New York Times

A espetacular decadência do atleta mais bem pago do mundo teve início quando ele bateu um Cadillac utilitário em um hidrante e uma árvore. Os relatos iniciais do acidente de Tiger Woods, ocorrido em 2009, davam conta de que sua esposa tinha quebrado a janela do veículo com um taco de golfe para tirá-lo lá de dentro, mas quando se espalhou a notícia de que o casal tinha tido brigas motivadas por alegações de infidelidade de Woods, a janela quebrada se tornou uma metáfora do desmoronamento da sua reputação.

À medida que o escândalo foi se desenrolando, a celebridade esportiva que tinha construído um império baseado na sua imagem de homem de família íntegro foi se revelando um viciado em sexo extraconjugal, autor de mensagens de mau gosto para amantes e acompanhantes pagas. Quase de um dia para o outro, Woods passou a ser ridicularizado, inclusive com um site e uma conta no Twitter cujo único propósito era de publicar piadas sobre ele.

O prazer perverso sobre o rumo desses acontecimentos é designado por uma palavra alemã tão perfeita para ele que passamos a adotá-la em inglês. "Schadenfreude", ou "alegria perante o prejuízo", é o prazer derivado do infortúnio de outrem, e Richard H. Smith, professor de psicologia da Universidade de Kentucky, dedicou a carreira a estudá-la, pesquisando ainda outras emoções ligadas ao convívio social, tendo inclusive publicado uma antologia sobre a inveja, parente próximo do "schadenfreude".

Função adaptativa

Por mais perverso que esse sentimento possa parecer, ele tem uma função adaptativa, argumenta Smith neste agradável livro. Trata-se de uma emoção que decorre de comparações sociais que nos permitem avaliar os nossos talentos e perceber qual a nossa posição na ordem social. O desejo de fazer essas comparações parece ser um padrão recorrente - estudos mostram que até macacos e cães se comparam com os seus pares.

O "schadenfreude" nos dá uma ideia do que os psicólogos Roy F. Baumeister e Brad J. Bushman têm chamado de "o conflito mais básico da psique humana" – o atrito entre os nossos impulsos egoístas e o autocontrole. "Somos todos selvagens por dentro", escreveu Cheryl Strayed em sua coluna Dear Sugar no site The Rumpus. "Todos nós queremos ser o escolhido, o amado e o estimado."

Porém, a vida nem sempre é assim, e quando nos deparamos com alguém mais escolhido, amado ou estimado do que somos, o nosso instinto natural é querer colocá-lo no nosso nível. Se esse desejo imoral é por acaso atendido, o sentimento de "schadenfreude" se manifesta. Clive James capturou o espírito desse sentimento em um poema que tira seu título de sua primeira linha: "O livro do meu inimigo foi descartado / E eu estou satisfeito".

Quando a inveja invoca dor, o "schadenfreude" fornece um antídoto poderoso. O sucesso de Woods no campo de golfe e a sua vida aparentemente perfeita - sua linda esposa e família, sua reputação ilibada – "representavam um contraste agudo para a maioria das pessoas, mesmo que elas não estivessem interessadas em golfe", escreve Smith. Embora algumas pessoas tivessem sido certamente inspiradas por ele, talvez um número maior ainda delas se sentisse diminuído. A sua decadência o trouxe para mais perto do nível dessas pessoas, e, assim, permitiu que aqueles que o invejavam se sentissem melhor consigo mesmos.

Reality shows

O filósofo do século 17 Thomas Hobbes afirmou que o humor muitas vezes vem de uma súbita sensação de superioridade, e Smith escreve que a nossa cultura se desenvolve com base em comparações feitas a partir de uma posição de superioridade que proporcionam essa "glória repentina".

"Será que assistimos aos reality shows em busca de conhecimentos preciosos sobre a condição humana?", pergunta ele. "Por favor. Nós assistimos a esse tipo em programa em busca daquelas cenas constrangedoras que nos fazem sentir um pouquinho melhores quanto às nossas próprias vidinhas anônimas."

Uma sensibilidade semelhante alimenta as revistas de fofoca. Em uma análise que investigou durante dez semanas as publicações da The National Enquirer, Smith e Katie Boucher, psicóloga da Universidade de Indiana, descobriram que quanto mais alto for o status de uma celebridade, maior a probabilidade de encontrar um artigo sobre ela focado em infortúnios.

Sentimos ainda mais prazer quando o "schadenfreude" parece merecido, como acontece quando o status mais elevado de alguém abala a nossa autoimagem. Uma pesquisa feita por Benoît Monin, um psicólogo social de Stanford, mostra que a mera presença de um vegetariano pode fazer os onívoros se sentirem moralmente inferiores, já que eles preveem que serão julgados.

"Os vegetarianos não precisam dizer uma palavra; o mero fato de existirem, do ponto de vista de um comedor de carne, causa uma irritação moral", escreve Smith. Descobrir que a pessoa de comportamento supostamente superior está sendo hipócrita alivia essa irritação, de modo que pegar um vegetariano devorando um pedaço de carne faz com que os amantes de bife sintam uma explosão de "schadenfreude": "Nós não somos tão inferiores quanto fomos levados a acreditar; agora podemos assumir a posição contrastante de superioridade moral".

Segundo as suas definições tradicionais, o "schadenfreude" é uma emoção passiva sentida pelos espectadores que não desempenham funções nos infortúnios experimentados pela pessoa que têm como alvo, mas Smith argumenta que essa demarcação é "estreita demais", alegando que embora a ação "complique a situação", ela não elimina o "schadenfreude".

No entanto, ampliar o sentido do termo de modo a incluir a vingança e outras ações tira a especificidade da característica de satisfação da palavra. É a falta de participação por parte das testemunhas que adiciona um sentido de deleite ao "schadenfreude" e torna o seu reconhecimento permissível – a pessoa que você tinha secretamente como alvo se deu mal, e você não teve nada a ver com isso.

Embora este livro seja destinado para leitores leigos, a escrita às vezes parece acadêmica, e o autor se mostra muito propenso a fazer resumos, oferecendo citações sucessivas de outros estudiosos, quando seria melhor uma síntese mais forte ao leitor. E, embora seja provavelmente verdade que as comparações sociais subjacentes ao "schadenfreude" ajudaram a alimentar o antissemitismo na Alemanha nazista, um capítulo sobre o papel do "schadenfreude" no Holocausto se apresenta como uma tentativa de dar ao assunto uma gravidade desnecessária.

Apesar de suas falhas, vale a pena ler este livro curto para conhecer os seus insights sobre o lado sombrio da natureza humana e as ilustrações maravilhosas que aparecem periodicamente no texto. Feitos pela filha do autor, Rosanna Smith, esses desenhos – uma tartaruga erguendo o braço para expressar vitória, a formiga e o gafanhoto de Esopo dividindo uma refeição – dão a mesma sensação de prazer suscitada pelas ilustrações que apimentam as páginas da revista The New Yorker.

Smith conclui que "o 'schadenfreude' não precisa ser demonizado". É melhor aproveitar a oportunidade que ele oferece de saciar nossos lados sombrios do que negar a sua existência. Enquanto permanecer passivo, o "schadenfreude" pode melhorar a nossa autoestima e nos lembrar de que até mesmo as pessoas mais invejáveis são falíveis – assim como nós.

Sobre o livro:

'The Joy of Pain: Schadenfreude and the Dark Side of Human Nature'
("A alegria diante da dor: o Schadenfreude e o lado sombrio da natureza humana", em tradução livre)
Por Richard H. Smith
256 páginas. Oxford University Press. U$ 24,95

sábado, 4 de janeiro de 2014

Primeira visita de um papa à Terra Santa faz 50 anos hoje

Selo jordaniano comemorava o 1º aniversário da visita de Paulo VI à Terra Santa

Exatos cinquenta anos atrás, no dia 4 de janeiro de 2014, chegava a Amã, capital da Jordânia, o primeiro papa a fazer uma visita à Terra Santa.

Paulo VI foi recebido pelo então rei jordaniano, Hussein I, que providenciou toda a logística para que o pontífice católico pudesse visitar Jerusalém em segurança.

O ano era 1964, e a Jordânia ainda tinha o controle do território da Cisjordânia, onde está compreendida Jerusalém, então dividida em suas partes Oriental (sob controle jordaniano) e Ocidental (sob controle israelense).

Ainda que Jerusalém tivesse sido declarada como capital quando da formação do Estado de Israel, a capital de fato era Tel-Aviv.

Só após a Guerra dos Seis dias de 1967 é que Israel finalmente encamparia Jerusalém como parte do seu território.

Foi nesse contexto que o papa Paulo VI decidiu peregrinar à Terra Santa, sabendo dos problemas que o esperavam.

Entretanto, ao contrário da impressão que os dados acima possam apontar, a tônica da visita papal não foi a política ou a diplomacia entre judeus e árabes.

A ênfase da viagem do papa foi encontrar e se reconciliar com os ortodoxos orientais, os dois grandes ramos do cristianismo que haviam se separado no cisma de 1.054 d. C.

A ida do papa ao Oriente Médio havia sido anunciada somente um mês antes, em 4 de dezembro de 1963, num período em que o Vaticano e Israel ainda não tinham selado laços diplomáticos.

O motivo oficial anunciado pelo Vaticano era "honrar os lugares santos onde Cristo nasceu, viveu, morreu e ressuscitou, e subiu ao céu".

Assim, em sua oração na Basílica do Santo Sepulcro, Paulo VI pediu perdão pelos erros do passado e exortou os ouvintes a "tomarem consciência de nossos pecados, dos pecados de nossos pais, dos pecados da história passada e dos pecados de nossa época".

Além do rei Hussein I da Jordânia, o papa ainda se encontrou com o presidente israelense, Zalman Shazar e os patriarcas armênio e ecumênico de Jerusalém.

O ponto alto da visita, entretanto, foi o encontro de Paulo VI com Atenágoras I, o patriarca ecumênico de Constantinopla, no último dia de sua visita à Terra Santa, em 6 de janeiro de 1964.

O abraço entre os dois líderes abriu um caminho de diálogo e reconciliação entre católicos e ortodoxos que, ainda que não tenha acabado com o cisma até hoje, produziu frutos perenes como a revogação dos decretos de excomunhão mútua de 1.054, que o papa Leão IX e o patriarca Miguel I haviam dirigido um ao outro.

Essa revogação se deu quase 2 anos depois, no dia 7 de dezembro de 1965, com a Declaração de União Católico-Ortodoxa, que anulou as excomunhões recíprocas de 5 séculos antes.

De certa forma, o encontro entre Paulo VI e Atenágoras I marcou todo o diálogo ecumênico que se seguiu. O papa criou naquele mesmo ano de 1964 o Secretariado para as Religiões Não-Cristãs e em 1967 fundaria o Pontifício Conselho Justiça e Paz.

Todo esse esforço de reconciliação era produto, também, do trauma da Segunda Guerra Mundial, em que a religião foi usada para as maiores atrocidades contra os judeus e outras minorias segregadas.

Quando ainda era o padre Giovanni Battista Montini, Paulo VI sentiu na carne os horrores do fascismo na Itália na década de 1920 e, como secretário de Pio XII durante a Segunda Guerra,  viu a que ponto a barbárie nazista podia chegar, como de fato chegou.

Desarmar os espíritos era, portanto, imperativo, e tanto o papa como o patriarca de Constantinopla souberam entender o momentum e começaram a desativar a bomba do fanatismo e da intolerância religiosa, que, lamentavelmente, ainda não foram desarticulados por completo.

Outro fator que pode ser cogitado como causa da reaproximação entre as duas igrejas foi a Guerra Fria que se seguiu ao conflito global.

A ameaça comunista era um fenômeno muito real para ser ignorado por ambas, e os ressentimentos do passado deviam ser abandonados em prol de uma estratégia possível de sobrevivência e convivência.

Demorou bastante, entretanto, para que as relações entre católicos e judeus se estabilizassem e chegassem a um denominador comum.

As relações diplomáticas entre Vaticano e Israel somente foram estabelecidas em 1994, e o papa Francisco visitará Israel, Jordânia e Palestina entre 24 e 26 de maio de 2014 para celebrar os vinte anos de amizade oficial entre os dois Estados e os cinquenta anos da visita histórica de Paulo VI.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Inscrição mais antiga já encontrada em Jerusalém pode confirmar relato bíblico


O jornal israelense Haaretz informou na sua edição de 02/01/14 que a inscrição de um pote encontrado em Jerusalém pertence ao tempo do Rei Salomão, o que o tornaria a mais antiga inscrição já descoberta na capital de Israel.

Quem a decifrou foi Gershon Galil, professor de Estudos Bíblicos e História Antiga na Universidade de Haifa.

Sua importância deriva do fato de que está escrita em hebraico arcaico e porque mostra que já havia o domínio do alfabeto em Israel no século X a. C.

O que pode ser ainda mais interessante, dependendo do ponto de vista com que se analise a descoberta, é que o pote era utilizado para guardar vinho, e a palavra "halak" nele inscrito significa "vinho barato".

"Halak" era um termo enológico na língua ugarítica, de Ugarit, no norte da região onde hoje se localiza a Síria.

Na época, havia três tipos de vinho, o de boa qualidade, o - digamos - "regular" - e o "vinho barato", de má qualidade.

De acordo com o professor Galil, o vinho "halak", muito provavelmente, era destinado aos milhares de operários que trabalharam nas grandes obras do reino de Salomão, como o primeiro Templo de Jerusalém, por exemplo.

O Primeiro Livro de Reis, no Velho Testamento, informa em seu versículo 5:15 que "tinha também Salomão setenta mil que levavam as cargas, e oitenta mil que talhavam pedras nas montanhas".

Um dos grandes questionamentos que os céticos opõem ao texto bíblico diz respeito à magnitude dos reinos de Davi e de Salomão, que, segundo alegam, não eram tão grandes como o relato bíblico faz crer.

Muitos chegam a afirmar que Jerusalém mal passava de uma vila pequena e desinteressante, sem qualquer importância no contexto do mundo antigo.

A se confirmarem as observações do professor Galil, o reino de Salomão passará a ser visto como bem administrado e que tinha um comércio internacional altamente significativo para a época.

Não se pode esquecer, entretanto, que outro grupo de arqueólogos alegou ter encontrado outra inscrição mais antiga de Jerusalém, conforme comentamos aqui no blog em julho de 2013.

Não fica claro, pela matéria do Haaretz, se se trata da mesma descoberta, então atribuída ao reino de Davi (também no século X a. C.), mas - ao que tudo indica até agora - parece se tratar do mesmo artefato.

Segue esta linha de raciocínio o Times of Israel, que teve acesso ao parecer do pesquisador e se adianta dizendo que se trata realmente daquela inscrição que foi descoberta em julho de 2013 (vide abaixo).

Aguardemos, então, maiores detalhes e análises independentes para saber se estamos realmente diante de uma descoberta espetacular para a arqueologia bíblica.






quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Dupla de mórmons bêbados ataca transeunte na Austrália

Quem vive em cidades grandes está - de certa forma - acostumado a ver as duplas de missionários mórmons, com o crachá que os identifica (com os nomes começados por "Elder"), fazendo visitas para divulgar a sua religião.

O que ninguém espera é que aqueles jovens com suas gravatas e camisas brancas tomem uns gorós e tenham um acesso de loucura atacando aleatoriamente a primeira pessoa com quem cruzam na rua.

Pois foi exatamente isto o que aconteceu na Austrália no último dia 29 de dezembro, na paradisíaca região de Surfers Paradise (com o perdão da redundância).

A bela Costa Dourada australiana foi palco do ataque de fúria de dois missionários mórmons, Amanaki Kaufusi (21 anos de idade) e Onesi Taufui (18), que moram em Sidney, mas têm raízes familiares em Tonga, arquipélago da Oceania.

Centenas de mórmons se reuniram na cidade de Gold Coast, a 16 km de Surfers Paradise, para uma conferência da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias no bairro de Tallebudgera.

Entretanto, os dois jovens acusados do crime, Kaufusi e Taufui, preferiram dar uma escapadinha e foram aproveitar a noite de sábado (28/12/13) na zona boêmia da cidade, conhecida como "Sin City" ("Cidade do Pecado").

Segundo as testemunhas que presenciaram a insólita ocorrência, já na manhã do domingo, o embriagado Kaufusi teria gritado "Eu quero bater em alguém. Vou socar a próxima pessoa que passar na minha frente".

No seu perfil no facebook, Kaufusi (foto ao lado) curte a página Awesome Fights ("Lutas Lindas"), o que talvez explique alguma coisa, se é que é possível explicar.

As pessoas que estavam com ele tentaram fazê-lo ver que estava bêbado, mas ele teria dito em tonganês: "Vocês querem ver o que é bêbado? Isso é que é ser bêbado..."

Ato contínuo, o jovem atacou a primeira pessoa que viu, um turista de 24 anos de idade chamado Onyekachi Okoye, que desabou inconsciente na calçada e, após ser socorrido, foi hospitalizado.

Não se sabe ao certo quem é a vítima, mas uma busca no Google mostra que Onyekachi Okoye é um nome de origem africana.

Não contentes em ver o inocente transeunte desfalecido no chão, ambos os missionários, Kaufusi e Taufui, teriam ainda chutado a cabeça do rapaz antes de tentarem a fuga.

Outros missionários mórmons que estavam no local ainda insistiram para que eles se entregassem, mas eles pegaram um táxi pensando em retornar o mais rápido possível ao retiro de Tallebudgera.

O fato é que os dois missionários enfurecidos foram presos pela polícia australiana e agora aguardam o seu julgamento.

A favor da igreja mórmon, é bom que se diga que o triste fato poderia ocorrer em qualquer comunidade, religiosa ou não, mas, conforme seu próprio portal na internet diz, "durante o período em que servem em tempo integral, os missionários são representantes oficiais da Igreja".

O serviço missionário é uma prática comum dos jovens mórmons, incentivado pela igreja, dura de 18 meses a 2 anos, e se trata de um serviço voluntário e gratuito que prestam à sua organização.

Talvez seja o caso de se tomar mais cuidado para que fatos lamentáveis como este não se repitam.

A fonte da informação acima é o CourierMail.



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails