sábado, 25 de maio de 2013

Há exatos 50 anos o Brasil era bicampeão mundial de basquete

Bons tempos...

Sim, senhores, o glorioso esporte da bola ao cesto já deu grandes alegrias aos brasileiros. Pena que tenhamos que lembrar só do passado, mas sem nunca perder a esperança de que tempos melhores e novos títulos mundiais venham por esses lados.

A matéria é da Gazeta Esportiva:

No cinquentenário do bi mundial, campeões reverenciam técnico Kanela

Bruno Ceccon

Se na virada do século a Seleção Brasileira de basquete passou 16 anos longe dos Jogos Olímpicos, na época de Togo Renan Soares, o Kanela, era uma das maiores potências do esporte. Comandados pelo treinador nos principais títulos da modalidade, os protagonistas do bicampeonato mundial, conquistado no dia 25 de maio de 1963, reverenciam o mentor.

“O Kanela é a grande personalidade do basquete do Brasil em todos os tempos. Graças a ele, a Seleção conquistou todos os seus títulos na época e alcançou um nível de excelência. Era um homem obstinado em ganhar títulos, e fazia tudo o que podia para conseguir esses resultados. Era muito hábil para tratar o aspecto psicológico dos jogadores”, enumerou Amaury Passos em entrevista à Gazeta Esportiva.net.

Sob o comando de Kanela, já falecido, a Seleção conquistou dois títulos mundiais (Chile-1959 e Brasil-1963) e ainda ficou com mais dois vice-campeonatos (Brasil-1954 e Iugoslávia-1970), além de ganhar uma medalha de bronze (Uruguai-1967). Nos Jogos Olímpicos de Roma-1960, o treinador ainda faturou o terceiro lugar. Integrante do Hall da Fama da Federação Internacional de Basquete (FIBA), ele acumulou 87 vitórias e 16 derrotas em 21 anos de Seleção Brasileira.

Então detentor do título e medalhista olímpico, o anfitrião Brasil iniciou o Mundial-1963 na condição de favorito. Responsável por 106 pontos, Amaury foi superado no quesito apenas por Wlamir Marques (108). Ao longo da campanha invicta, a Seleção de Kanela, impulsionada pelo desempenho da dupla, venceu Iugoslávia, União Soviética e Estados Unidos, as maiores potências da época.

“Sem o Kanela, a nossa geração não conseguiria os resultados que conseguiu. Da mesma forma, ele não alcançaria os feitos que alcançou sem a nossa geração. Foi realmente um grande comandante, que teve ao seu lado jovens com um potencial enorme jogando um basquete diferenciado para a época em uma simbiose que acabou dando certo”, definiu Wlamir.

Nascido na Paraíba, Togo Renan Soares se mudou para o Rio de Janeiro com apenas 11 anos e, no Botafogo, clube em que ingressou no ano de 1921, ganhou o apelido como ‘homenagem’ pelas canelas brancas. O fato de ter iniciado a carreira de técnico sem qualquer tipo de formação específica torna ainda mais impressionante os feitos do ícone.

“O Kanela não era um grande conhecedor de basquete. Na verdade, ele aprendeu os detalhes da modalidade praticamente do nada”, atesta Wlamir, acompanhado pelo ex-parceiro Amaury. “Era um homem capaz, que se cercava de profundos conhecedores dos aspectos técnicos do jogo. Dentro da quadra, era um excelente dirigente de partida”, explicou.

No Botafogo, apesar de não saber nadar, Kanela foi técnico de remo e polo aquático, além de futebol amador. No Flamengo, treinou as equipes principais de basquete e futebol, já que na época era comum os técnicos trabalharem em diferentes modalidades. O maior sucesso, no entanto, veio com o basquete, a ponto de ganhar 10 estaduais consecutivos. Em 1951, ele assumiu a Seleção Brasileira.

“Na época do Kanela, treinávamos muito. A preparação antes de um campeonato não era de 15 dias, mas sim de meses. Para o Mundial-1963, o treinamento começou em agosto de 1962 e acabou com a competição em maio do ano seguinte. Ficamos esse tempo todo confinados treinando, treinando e treinando. Nesse período, teve um Sul-americano e um Pan-americano. Por isso, chegamos ao Mundial como favoritos”, lembrou Wlamir.

Pioneiro, Kanela foi influenciado pelos ensinamentos que recebeu no colégio militar e, ainda que não tivesse formação específica, é considerado um dos responsáveis por parte das inovações nos treinamentos e no sistema de jogo do basquete. Estudioso do livro “My Basket-ball Bible”, escrito pelo técnico norte-americano Forrest Allen, o brasileiro procurava se manter atento ao cenário no exterior.

“O Kanela foi o criador de tudo, porque tomava conhecimento das coisas antes de elas chegarem ao Brasil. Hoje em dia, se eu te falo que fulano deu uma enterrada, você entende, porque vê pela televisão. Na nossa época, se alguém fazia um arremesso nos Estados Unidos, a gente só ficava sabendo cinco meses depois. O Kanela antevia alguns conceitos, como o jump. Ele dizia: pula para arremessar”, contou Paulista.

Símbolo da fase áurea do basquete nacional, Kanela deixou o comando da Seleção em 1972 e morreu aos 86 anos, em 1992. Depois de contar com a engenhosidade de um paraibano para viver seus melhores momentos, a Seleção recorreu ao argentino Rubén Magnano para disputar os Jogos de Londres-2012 e quebrar o jejum iniciado em Atlanta-1996. Cinquenta anos após o bi mundial, Amaury aprova a mudança de conceitos promovida pelo estrangeiro.

“Atualmente, a Seleção se conduz como uma equipe, com um jogo solidário e de conjunto. Não é mais aquele ‘deixa que eu chuto’ da época de Oscar e Marcel. Só os dois chutavam e os outros passavam para eles. Era bom para eles, que faziam cestas e apareciam, mas não para a equipe. Tanto é que o Oscar é cestinha de não sei quantas Olimpíadas, mas nunca ganhou uma medalhinha. Acho que agora estamos em um caminho bom”, alfinetou.

Pouco mais de 10 anos depois de deixar o comando da Seleção Brasileira, Togo Renan Soares, o Kanela, relatou suas memórias ao jornal A Gazeta Esportiva. Na edição do dia 18 de dezembro de 1983, o ex-treinador relembrou o jogo decisivo diante dos Estados Unidos no Mundial-1963 e revelou detalhes da campanha.

“Estou com 79 anos e quero aproveitar a lucidez que ainda me sobra para contar detalhes importantes das 15 vezes em que dirigi o selecionado brasileiro de basquete. Não foi fácil como muita gente pensa, nem mesmo sabendo que na época vivíamos uma fase de ouro, com craques que dificilmente serão substituídos”, iniciou.

Em 21 anos no comando da Seleção Brasileira, Kanela disputou um total de 103 partidas. A vitória diante dos norte-americanos por 85 a 81, alcançada no dia 25 de maio de 1963, foi um dos duelos mais especiais para o ex-treinador, já que garantiu o bicampeonato mundial.

“Esse jogo foi tão importante na minha vida de técnico, que até hoje ficou gravado na memória. Lembro-me que estivemos sempre na frente, até quando faltavam menos de três minutos para o final. Eu, num lampejo divino, senti que quem perdesse o pivô com cinco faltas naquele instante perderia também o jogo, e fizemos uma jogada para eliminar o Gibson”, recordou.

Exigente, ele não deixou de elogiar seus atletas. “O Amaury e o Wlamir eram os alicerces do time. Eu confesso que os considerava insubstituíveis por qualquer tempo que passasse. O Sucar, com 2,06m de altura, também era muito importante para o time, principalmente porque estava no esplendor de seu estado físico”, afirmou.

Além dos pódios em campeonatos mundiais (ouro no Chile-1959 e no Brasil-1963, prata no Brasil-1954 e na Iugoslávia-1970 e bronze no Uruguai-1967), Kanela ainda comandou o time nacional na conquista de uma medalha olímpica de bronze (Roma-1960). Em 1983, ele foi profético.

“Até hoje, nenhum técnico brasileiro de qualquer modalidade esportiva deu ao País tantos títulos como o basquete na Era Kanela. Admito que estou sendo vaidoso, mas como já dizia o General Tibúrcio, se eu não contar as coisas boas que fiz, quem poderá contá-las? Os êxitos alcançados nessas campanhas são de tal importância que por muito tempo serão insuperáveis”, vaticinou.



Nome indicado por Dilma ao STF desagrada grupos religiosos


A notícia é da Folha de S. Paulo:

Grupos religiosos preparam ofensiva contra indicação de Barroso ao STF

MÁRCIO FALCÃO, JOHANNA NUBLAT e GABRIELA GUERREIRO

Incomodados com a escolha do advogado Luís Roberto Barroso para o Supremo Tribunal Federal (STF), grupos religiosos preparam uma ofensiva no Senado para tentar derrubar a indicação da presidente Dilma Rousseff.

Advogado constitucionalista, Barroso tem uma atuação marcante na área dos direitos humanos. Ele enfrenta resistência de católicos e evangélicos.

No STF, Barroso defendeu pesquisas com células-tronco e a equiparação das uniões homoafetivas às uniões estáveis convencionais.

"Vamos fazer uma espécie de dossiê com todas as declarações dele sobre os assuntos que nos são caros", disse o advogado Paulo Fernando, do grupo Pró-Vida, ligado à Igreja Católica. "Dificilmente o nome dele será derrubado, mas ele precisa saber que estamos de olho", disse.

Representantes do grupo católico esperam conseguir apoio especialmente de parlamentares ligados aos segmentos religiosos.

O nome do constitucionalista agradou aos ativistas gays, que o consideram "maravilhoso aliado da dignidade humana". "Foi a melhor pessoa para a nossa comunidade", diz texto de Toni Reis, secretário de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

A indicação de Barroso foi lida ontem no plenário do Senado. Ele terá de passar por uma sabatina na Comissão de Constituição e Justiça, que deve ser realizada na metade de junho, e por uma votação no plenário.



sexta-feira, 24 de maio de 2013

Jovens de diferentes religiões acolherão católicos de todo o mundo na JMJ do Rio


A realização da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, com a presença do papa Francisco, de 23 a 28 de julho de 2013, é também uma oportunidade para que jovens de outras religiões possam acolher e conviver pacificamente com os seus pares católicos que virão de todo o mundo.

Essa lição de respeito e solidariedade foi noticiada pela BBC Brasil:

Jornada da Juventude envolve fieis de outras religiões no Rio

Caio Quero

A estudante de jornalismo Thaís Mello, de 25 anos, diz estar animada para a chegada da Jornada Mundial da Juventude, evento que deve reunir cerca de 2,5 milhões de jovens católicos no Rio de Janeiro no final do mês de julho e que vai contar com a presença do papa Francisco.

Mas, ao contrário da multidão de devotos que vai invadir as ruas da cidade por uma semana, Thaís não é católica. Adepta da Igreja Batista, uma das denominações protestantes com maior número de fiéis no Brasil, ela e sua família vão participar da JMJ hospedando em sua casa peregrinos de fora da cidade.

"Quando eu soube da jornada e de que iam precisar de casas para as pessoas se hospedarem, eu achei legal a ideia. Eu conversei com meus pais e eles autorizaram", conta Thaís, que deve receber sete peregrinos em sua casa de quatro quartos em Guadalupe, Zona Norte do Rio. Mas ela não é a única não católica que estará envolvida com a Jornada.

Incentivados pelo evento, jovens muçulmanos, judeus e católicos vão promover um encontro paralelo dois dias antes do início da JMJ, para discutir o diálogo entre as diversas religiões.

Hospedagem

A ideia de receber jovens católicos em sua casa surgiu após uma experiência similar que Thaís viveu no Equador.

No ano passado, ela foi ao país para participar de um programa de trabalho voluntário ligado a uma igreja protestante. Entre as casas em que ficou hospedada, estava a de uma família católica.

"Eu fiquei primeiro na casa de uma família protestante e depois na casa de uma família católica. Fui muito bem recebida e foi muito legal", diz.

Thaís conta que está estudando para prestar concursos públicos, mas que já planeja interromper a rotina dos estudos durante a semana da Jornada. Ela disse ainda que a ideia de hospedar os fiéis não sofreu resistência de seus pais, também batistas.

"Meu pai só ficou um pouco receoso porque a gente não sabe quem são as pessoas (que ficarão hospedadas). Ele até conversou sobre isso com o pessoal (da organização), que fez uma visita aqui em casa e o tranquilizou", diz.

Thais acrescenta que seu pai fez apenas uma exigência: "meninos para um lado e meninas para outro".

A estudante afirma não ver conflito no fato de estar recebendo jovens de outra religião em sua casa. "Apesar das igrejas (diferentes), nós somos cristãos. Tem algumas diferenças, sim, só que a gente não tem que ficar focado nisso, tem que focar em Deus e seguir adiante".

Diálogo

Além do cristianismo, membros de outras religiões também vão aproveitar a Jornada para discutir as semelhanças e diferenças entre suas crenças. No dia 21 de julho, cerca de 150 jovens muçulmanos, judeus e católicos vão promover em um auditório da PUC-Rio um encontro inter-religioso.

"Vai ser como se fosse uma pré-Jornada, com uma abertura com os líderes de cada religião", diz a católica Aline Barbosa Almeida, coordenadora arquidiocesana da Pastoral da Juventude do Rio de Janeiro e uma das organizadoras.

Aline explica que o evento vai contar com a participação 50 jovens de cada uma das religiões. Além disso, uma exposição vai trazer objetos usados nos ritos católicos, judaicos e muçulmanos.

A iniciativa – que não faz parte da programação oficial da JMJ - surgiu após discussões da Juventude Inter-Religiosa do Rio de Janeiro (JIRJ), grupo que existe há cerca de um ano e meio e reúne jovens das três religiões.

"Nós temos muito mais coisas em comum que pontos discordantes. E mesmo naquilo que a gente discorda, isso não significa que aquela pessoa que pensa diferente de mim seja inferior ou superior, ela simplesmente pensa ou crê de maneira diferente e deve ser respeitada", diz Fernando Celino, muçulmano e um dos organizadores do evento.

Nascido em uma família católica, Celino se converteu ao islamismo há pouco mais de sete anos. Coordenadora de projetos sociais da instituição judaica Hillel, Tamar Nigri Prais afirma não ter sentido resistência de qualquer das partes ao diálogo entre as religiões.

"Convivendo a gente consegue ver ainda mais claro (as coisas que as religiões têm em comum). O mais legal são o interesse no diálogo e o respeito mútuo entre as religiões", diz.



Religiões afrobrasileiras lutam contra a discriminação no Rio de Janeiro

A matéria foi publicada n'O Globo:

Religiões africanas à mercê da intolerância

Mais da metade das casas de umbanda ou candomblé do estado já sofreu algum tipo de discriminação

RIO — Para o agente de saúde Luiz Paulo, de 26 anos, havia chegado a hora de um passo importante no candomblé. Decidiu fazer o santo, rito que significa nascer para o orixá. Por três meses, tinha de vestir apenas roupas brancas e manter a cabeça coberta. Mas encontrou no trabalho, uma clínica da família do Rio, os obstáculos. Sua gerente o proibiu de cumprir seu preceito e exigia que ele usasse seu uniforme. Luiz Paulo tentou negociar: propôs que usasse um boné branco, reduzindo ao máximo seus paramentos religiosos. Vieram sucessivas recusas. Enquanto isso, a gerente, evangélica, reunia sua equipe para orações, dizendo que o clima no grupo estava “pesado”. Pouco tempo depois, Luiz Paulo foi demitido. Resultado, acredita ele, de discriminação religiosa e homofóbica, uma vez que também diz ter sofrido preconceito por ser gay.

No Rio de dezenas de credos, que receberá o Papa Francisco em julho, durante a Jornada Mundial da Juventude, casos como o de Luiz Paulo ainda são frequentes. E atingem sobremaneira seguidores de religiões como candomblé e umbanda, como revela o Mapeamento das Casas de Religiões de Matriz Africana do Estado do Rio, feito pelo Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente (Nirema) da PUC-Rio. Das 847 casas pesquisadas desde 2008, mais da metade (430 delas) relatou episódios de intolerância religiosa contra seus centros ou seguidores nos últimos anos (o levantamento completo será apresentado em novembro, no livro “A presença do axé”).

Tratado como ovelha negra no trabalho

Realidade corroborada por um relatório do recém-criado Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir, fundado em janeiro e ligado à Superintendência estadual de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos), que chegou à conclusão de que, de janeiro a maio deste ano, foi o candomblé o segmento religioso mais vulnerável à violação de seus direitos no estado.

— Antes de ser demitido, eu era tratado como a ovelha negra da minha equipe. Os problemas se agravaram quando decidi fazer o santo. Nem minhas guias eu podia usar aparentes. Tinha de camuflá-las. Foram meses trabalhando sob pressão e olhares tortos — afirma o agente de saúde Luiz Paulo, uma das 38 pessoas que já procuraram o Ceplir, onde 10,53% dos atendimentos foram para adeptos do candomblé que buscavam orientações sobre seus direitos ou foram vítimas de intolerância religiosa no ambiente de trabalho, familiar ou na vizinhança.

Uma das mais respeitadas e conhecidas ialorixás do candomblé no Rio, Mãe Meninazinha de Oxum conta que um grupo já tentou invadir seu terreiro, em São João de Meriti, para “tirar o demônio” dali. Relata que constantemente sua caixa de correio aparece repleta de panfletos de igrejas evangélicas. Ao andar pelas ruas com suas vestimentas tradicionais, é repetidas vezes abordada por pessoas tentando convertê-la a outras religiões.

— Como todos no candomblé e na umbanda, sofremos principalmente com agressões verbais. Mas também há relatos de agressões físicas. São filhos de santo impedidos de usar seus colares, crianças agredidas nas escolas, casas invadidas... — conta Mãe Meninazinha, que comanda o terreiro Ilê Omolu Oxum desde 1968.

Em 2009, o terreiro de umbanda Centro Espírita Vovô Cipriano de Aruanda, em Caxias, teve o altar, as paredes de quartos de santo e vários objetos religiosos quebrados com uma marreta por um homem. Um ano antes, jovens invadiram e depredaram o Centro Cruz de Oxalá, no Catete. Já no barracão do sacerdote Alexandre Nunes Feijó, no Largo do Pechincha, na Zona Oeste, ele conta que voltava do Mercadão de Madureira, quando encontrou a frente de seu terreiro cercada por um grupo de parentes de um adolescente de 14 anos que fazia sua iniciação no candomblé — quando há um período de reclusão de duas a três semanas.

— A mãe, filha de santo, tinha autorizado. Também era uma vontade do menino. Cheguei, expliquei o que estava acontecendo, mas não houve conversa. Eles me acusaram de cárcere privado e chamaram a polícia — diz Alexandre.

A polícia também já foi chamada algumas vezes por vizinhos do Templo A Caminho da Paz, conta Amélia Martins, diretora de estudos do centro, no Cachambi. Todas as vezes, foram reclamações sobre o barulho. Só um dos muitos exemplos, segundo ela, de resistência à religião, que tem suas origens no Estado do Rio e cujo primeiro templo foi a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, de 1908, em São Gonçalo.

— Existe uma guerra silenciosa contra a umbanda. Isso tem feito alguns terreiros desaparecerem — afirma Amélia, revelando outra consequência da discriminação. — Muitos de nossos médiuns, por receio, escondem a religião no trabalho, no ambiente escolar e até mesmo familiar.

Sem coragem de contar para a mãe

É o caso do jovem Rodrigo D’Oxum, de 26 anos, frequentador do Centro Espírita Cabana das Almas, em Nova Iguaçu. Aos 18 anos, ele ingressou na umbanda. Mas ainda hoje não contou à família, cuja mãe, é “católica fervorosa”.

— Quando decidi pela umbanda, ainda morava com ela. E tenho certeza de que se criaria uma situação muito chata em casa — diz Rodrigo, que conta ainda ter medo de ser agredido ao fazer trabalhos em encruzilhadas à noite.

Cerca de 80% dos ataques contra religiões de matriz africana acontecem em ruas e parques. A professora do Departamento de Ciência Social da PUC-Rio e coordenadora geral do Nirema, Sonia Giacomino, destaca que, na maior parte dos casos, os adeptos dessas religiões são os alvos. Mas há também casos de terreiros apedrejados. Mais de 80% dos agressores, ainda segundo o mapeamento, são vizinhos dos centros e grupos evangélicos. Mas Sonia alerta que não se pode generalizar, porque eles não representam o conjunto dos evangélicos.

Superintendente estadual de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos, órgão ligado à Secretaria estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, Cláudio Nascimento observa ainda que a discriminação atinge outros grupos:

— Há, por exemplo, crianças muçulmanas perseguidas dentro da escola. Ou perseguição a integrantes de movimentos agnóstico e ateísta.

O Ceplir faz atendimento inicial pelo telefone 2334-9550 ou em sua sede, na Central do Brasil. Um grupo de 20 pessoas de credos diferentes trabalha agora em propostas de políticas públicas contra a intolerância religiosa. No dia 30 de maio, será apresentado à consulta pública o Plano Estadual de Enfrentamento da Intolerância Religiosa, o primeiro em âmbito estadual no país.



quinta-feira, 23 de maio de 2013

Pat Robertson diz que adultério do esposo não é algo tão ruim assim


Resolvemos atender os apelos dos nossos leitores que estavam saudosos das trapalhadas do conhecido televangelista norteamericano Pat Robertson, figurinha carimbada aqui do blog.

Se bem que não é preciso esperar muito, não é mesmo? Pat Robertson nunca perde a chance de soltar uma pérola, e a mais recente ocorreu - para variar - no seu programa de perguntas e respostas "Clube 700" da rede CBN (Christian Broadcast Network), conforme você pode ve no vídeo abaixo.

Respondendo à pergunta de uma telespectadora, que se queixava das traições do marido e da dificuldade em perdoá-lo, Robertson disse: "Bem, ele é homem, ok!".

Quem esperava que ele parasse por aí se enganou. Pat prosseguiu dizendo que a esposa tinha que pensar bem e analisar se o marido era um bom provedor para a família, em termos de comida, roupas, atenção para com os filhos, se os leva a eventos esportivos, etc., e ainda se ele era um cara bonito.

Logo, se o esposo adúltero tem todas essas qualidades, o que a mulher deveria fazer seria "focar em todas essas coisas e se apaixonar por ele de novo".

Mais adiante, afirma que "os homens têm a tendência de dar uma fugidinha. E o que você deve fazer é tornar a sua casa tão maravilhosa que ele não queira sair por aí".

Diante das reações negativas aos comentários do televangelista, a CBN tentou por panos quentes dizendo que lamentava que as palavras de Pat Robertson tivessem sido "mal entendidas". Afinal, o que é uma escapadinha do casamento para um crente, não é mesmo?

Bom, se fosse a primeira vez que ele desse uma declaração polêmica, a gente até tentaria entender, mas parece que ele gosta de estar sempre no olho do furacão.

Só relembrando o que ele já disse:


Parem de entender mal o que ele diz, poxa!





Nos tempos da capa de Acã

Escrevendo aos Efésios (5:10-13), Paulo ordena: "aprendei a discernir o que é agradável ao SENHOR. E não vos associeis às obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, condenai-as; pois é vergonhoso até mesmo mencionar as coisas que fazem às escondidas" (versão KJV Atualizada).

Portanto, pouparemos os distintos leitores deste blog das palavras chulas decupadas (degravadas) das escutas autorizadas das chamadas telefônicas altamente reveladoras do (atualmente preso) "pastor" Marcos Pereira, disponibilizadas pelo Extra para quem tiver a curiosidade irrefreável de saber no que consistiam as "conversas picantes" do indigitado.

A se confirmar que a voz da gravação é do referido "pastor", saberemos se ele efetivamente segue (ou não) a ordem de Paulo aos Efésios.

Entretanto, o mesmo "pastor" em questão é useiro e vezeiro em passar o seu paletó sobre os incautos, fazendo-os "cair" mediante um "poder" que ele atribui a Deus, como se pode ver nos vídeos abaixo:

No primeiro vídeo, inclusive, ele passa o paletó que afirma ter ganho de "Edson Freitas, cabeleireiro da Xuxa", o que não é surpresa, já que Marlene Mattos, quem diria, já deu o ar de sua graça na igreja dele.



Não era de hoje que nos assustávamos com (mais) esse espetáculo grotesco perpetrado em nome de algum "deus" que não tem nada a ver com o Deus da Bíblia, a mesma que traz as palavras de Jesus dizendo que "não existe nada escondido que não venha a ser revelado, ou oculto que não venha a ser conhecido" (Lucas 12:2 KJV)

Também fica claro pelo ensino bíblico que, quando alguém insiste muito no pecado e no desatino, a ponto de se tornar aberração, "o seu estado último se torna pior do que o primeiro" (Mateus 12:45, Lucas 11:26, 2ª Pedro 2:20), razão pela qual obviamente nos entristecemos, mas não nos surpreendemos.

Os vídeos e o personagem (ora preso) acima nos remetem a uma certa ocasião muito tempo atrás, também em tempos bíblicos, quando Josué se empenhava em liderar o povo de Israel na duríssima conquista da terra prometida (Canaã) depois da morte de Moisés.

Josué havia empreendido a conquista de Jericó (um acontecimento bíblico muito utilizado hoje em dia por evangélicos e católicos em suas campanhas de evangelismo e oração), e o Senhor ordenara ao povo de Israel que não retirara para uso pessoal nenhum despojo da cidade que terminaria fragorosamente vencida (Josué 6:17-18).

Entretanto, um homem chamado Acã se encantou com uma capa babilônica, além de ouro e prata que havia encontrado em Jericó (Josué 7:20-21), e os surrupiou para si, imaginando que poderia manter segredo do seu ato inescrupuloso.

Como resultado de sua ação vergonhosa, o povo de Israel foi derrotado na batalha seguinte, na cidade de Ai, e todos queriam saber a razão pela qual Deus os havia desamparado depois da vitória esfuziante que haviam obtido em Jericó.

A resposta não tardou em vir mediante revelação do Senhor, e o povo reunido viu Acã tendo que confessar o seu crime, para depois ser apedrejado e queimado com toda a sua família e todos os seus bens, a fim de eximir Israel do grave pecado que havia cometido contra Deus.

Na mesma carta em que Paulo escreve aos coríntios (a 1ª, capítulo 5) sobre imoralidade sexual na igreja, ele diz que "se a obra de alguém se queimar, este sofrerá prejuízo; ainda assim, será salvo como alguém que escapa por entre as chamas do fogo" (1ª Coríntios 3:15 KJV).

Talvez ainda haja esperança para Marcos Pereira, que atende pelo nome de "pastor". A ele dedicamos o conselho de Lamentações de Jeremias 3:9, "ora, põe o teu rosto rente ao pó da terra; em sinal de arrependimento, talvez ainda haja esperança!".

Se não houver arrependimento e genuína conversão, entretanto, tememos que o seu destino possa ser o mesmo que teve Acã por causa de uma capa.



Justiça proíbe psicólogos de tratar gays como doentes

A notícia é do Estadão:

Justiça proíbe tratar gay como doente

Ministério Público do Rio queria rever decisão de Conselho Federal de Psicologia que proíbe profissionais do setor de 'curar' homossexualidade

FÁBIO GRELLET

A 5.ª Vara da Justiça Federal do Rio de Janeiro negou pedido do Ministério Público Federal (MPF) para que declarasse nula uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) no trecho em que impede os psicólogos de oferecer tratamento para a cura da homossexualidade ou colaborar com eventos ou serviços que proponham algum tratamento com esse objetivo. Cabe recurso, mas, consultado ontem, o MPF não informou se pretende recorrer.

A resolução 1/99 do CFP, de março de 1999, prevê que "os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades (...) nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados". "A norma proíbe os psicólogos de tratar a homossexualidade como doença, pois a Organização Mundial da Saúde já declarou que não é", diz o presidente do CFP, Humberto Verona.

Os autores da ação afirmam que a intenção é corrigir um aspecto da norma. "Concordamos que psicólogos que ofereçam tratamento contra a homossexualidade sejam punidos", disse ao Estado o procurador da República Vinicius do Nascimento, outro autor da ação, quando ela foi proposta. "O problema ocorre quando o homossexual procura tratamento por conta própria. Se ele inicia um relacionamento hétero, provavelmente vai enfrentar ansiedade e outras dificuldades. Então talvez decida procurar um psicólogo para se tratar, mas o profissional não poderá atendê-lo, porque pode ser punido. É isso que queremos mudar", disse na época.

O presidente do Conselho Federal de Psicologia nega que algum profissional tenha sido punido por orientar pacientes homossexuais. "O problema é anunciar a cura da homossexualidade ou deixar de esclarecer ao paciente que ele não está doente. Se o paciente pedir a cura, o psicólogo deve contar que não se trata de doença."

Julgamento. Em sua sentença, o juiz federal Firly Nascimento Filho afirma que "não sendo doença, modernamente se entende que se trata de uma opção sexual que, numa democracia, pode ser exercida livremente, de acordo com as concepções do indivíduo. É certo que remanescem na sociedade instintos discriminatórios, que não podem ser tolerados, pois cabe ao Estado proteger as minorias dos ataques das maiorias".



quarta-feira, 22 de maio de 2013

Videla terminou no vaso sanitário da história

Duas crônicas de Ariel Palacios, correspondente do jornal "O Estado de São Paulo" em Buenos Aires, mostram o inusitado e emblemático fim de carreira de um ditador sanguinário latinoamericano, que ia às missas todos os domingos e nada fez para impedir a morte sumária (o "desaparecimento") dos próprios sobrinhos:


Alguns generais morrem em campo de batalha. Outros falecem no leito doméstico, pronunciado supostas frases patrióticas. Alguns morrem assassinados em revoluções, golpes e complôs. Outros caíram do cavalo (sem metáforas) e fraturaram o pescoço. Mas, até agora, não havia registros de um ex-ditado/general sul-americano que tenha morrido sentado no vaso sanitário, ao lado do prosaico rolinho de papel higiênico. J.R.Videla encerrou sua carreira desta última forma, com um óbito digno de entrar nos anais da História.

O “senhor da vida e da morte” durante a última ditadura militar argentina (1976-83), o ex-general Jorge Rafael Videla, morreu na manhã da sexta-feira sentado no vaso sanitário de sua cela na prisão de Marcos Paz. O ex-ditador, que havia tido disenteria na véspera, acordou após uma noite com problemas estomacais e intestinais e sentou-se no vaso. Ali, nesse âmbito, ocorreria o desenlace.

Às 6:40 da manhã, um dos guardas da prisão, em sua recontagem de presos, viu pelo visor da cela que Videla estava sentado no vaso.

Mas, em uma segunda ronda, tempos depois, o guarda percebeu que Videla permanecia sobre o vaso, embora reclinado para a frente. Imediatamente, o guarda chamou um médico. Os dois entraram na sala e perceberam que Videla não tinha pulso. Suas pupilas não reagiam.

Com as calças de seu pijama arriadas, sem o aprumo militar que o caracterizou durante décadas, o todo-poderoso homem da ditadura militar argentina encerrou sua carreira.



Cecilia Pando, esposa de um ex-militar e líder de um pequeno grupo de extrema direita que reivindica a ditadura argentina, havia divulgado na sexta-feira a informação de que Videla havia morrido placidamente na cama de sua cela. Pando, amiga de Videla, tentava evitar uma imagem escatológica no final da vida de seu ídolo. No entanto, as autoridades penitenciárias confirmaram no fim de semana que sua morte ocorreu em um cenário mais sui generis. Eventos assim não abundam. Um óbito para entrar nos anais da História.

Videla havia sido condenado em 2010 à pena de prisão perpétua pelo assassinato de civis. No ano passado acumulou uma pena de 50 anos pelo sequestro de 35 bebês, filhos das desaparecidas políticas. Na ocasião, em declarações nos tribunais, admitiu pela primeira vez na História as mortes dos desaparecidos políticos. No entanto, deixou claro que não se arrependia dos fuzilamentos.

O ex-ditador – que comandou o país nos primeiros cinco anos de um total de sete da ditadura militar – não receberá qualquer tipo de honra militar durante seu enterro, já que, além de ter sido destituído de seu grau militar, desde 2009 está em vigência uma resolução que proíbe a realização de honras militares nos funerais de ex-integrantes das Juntas Militares.

A líder da organização das Avós da Praça de Mayo, Estela de Carlotto, declarou que Videla era “um ser desprezível que deixou este mundo”. Carlotto destacou que o ex-ditador “nunca se arrependeu do genocídio que cometeu”.

O deputado Horacio Pietragalla, que foi sequestrado pelos militares quando era um bebê de oito meses em 1976, declarou que Videla morreu “da forma como tinha que ser: preso e condenado”. No entanto, lamentou que “nunca se arrependeu” dos assassinatos que ordenou. Pietragalla recuperou sua verdadeira identidade quando tinha 25 anos.

Segundo Pietragalla, “os crimes de Videla nos recordam a que ponto tão sinistro a Humanidade pode chegar”.

Sua ditadura teve o saldo de 30 mil civis sequestrados, torturados e mortos, além de 300 mil exilados.

Além disso, a ditadura roubou 500 bebês, filhos das desaparecidas. Deste total, as Avós da Praça de Mayo conseguiram nas últimas três décadas e meia devolver a identidade a 108 jovens que eram crianças recém-nascidas na época da ditadura.

CARREIRA - Descendente de uma tradicional família do interior da Argentina, Jorge Rafael Videla nasceu em 1925 na cidade de Mercedes, província de Buenos Aires. Filho de um coronel do Exército, seguiu a carreira do pai. O jovem Videla formou-se na Academia Militar em 1942 com o grau de subtenente da infantaria. Aluno destacado, foi o sexto colocado de um total de 196 cadetes. Sua ascenção foi constante. Em 1971, designado general de brigada, tornou-se o diretor do Colégio Militar. Em agosto de 1975 a então presidente Isabelita Perón colocou Videla no posto de Comandante em chefe do Exército.

Poucos meses depois, no dia 24 de março de 1976, Videla liderou o golpe de Estado que derrubou Isabelita. O general – que foi presidente de facto da Argentina até março de 1981 – comandou o período de maior repressão da ditadura.

Apesar da violência de seu governo, era considerado a ala “suave” dos líderes militares.

JULGAMENTOS - A ditadura acabou em dezembro de 1983, quando Videla estava na reserva. Com a volta da democracia, começaram as investigações sobre os crimes do ex-ditador. Ele foi condenado à prisão perpétua pela primeira vez em 1985, durante o julgamento das juntas militares – denominado de “Nuremberg argentino”. Mas, em 1990 foi anistiado pelo presidente Carlos Menem.

Em 1998, os organismos de defesa dos direitos humanos driblaram as leis de perdão aos militares e conseguiram a detenção de Videla pelos sequestro de crianças, crime que não havia sido incluído no indulto presidencial.

Em 2007, com a anulação dos indultos, declarados inconstitucionais, Videla tornou-se alvo de uma série de processos na Justiça relativos aos assassinatos ordenados por ele durante a ditadura.

Em um dos julgamentos, em 2010, Videla fez uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a “necessária crueldade” da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a “sociedade argentina” havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, “não existiam vozes contrárias” ao regime militar. Videla também disse que sua sentença seria “injusta” e que ele era um “bode expiatório”.

MISSA E MORTOS - Videla diferenciou-se dos outros líderes de regimes militares da América Latina pela aplicação de um plano de apropriação sistemática de bebês e o ocultamento de sua identidades. Os bebês, filhos das prisioneiras políticas, nasciam no cativeiro de suas mães, nos centros clandestinos de detenção e tortura da ditadura. Após os partos eram entregues a famílias de militares e policiais estéreis. Na sequência, as mães biológicas eram assassinadas e seus corpos “desapareciam”.

Em um dos julgamentos, em 2010, Videla fez uma prolongada defesa das ações do regime militar e alegou a “necessária crueldade” da ditadura. O ex-ditador também sugeriu que a “sociedade argentina” havia sido cúmplice da ditadura, já que, segundo ele, “não existiam vozes contrárias” ao regime militar.

Videla também disse que sua sentença seria “injusta” e que ele era um “bode expiatório”.

María Seoane, que com Vicente Muleiro escreveu “O Ditador”, uma detalhada biografia não-autorizada do ex-general, me disse que “Videla não se arrepende de nada, pois voltaria a matar todos aqueles que matou. Não há nenhum rastro de arrependimento nele. É o mal em estado puro!”

Segundo Seoane, “Videla reunia-se com o chefe de inteligência antes de ir à missa de manhã cedo. Nessas reuniões informava-se sobre quantos inimigos o regime havia assassinado no dia anterior e como estavam funcionando os 500 campos de concentração da ditadura”.

APELIDO – Durante a ditadura Videla foi apelidado de “a pantera cor de rosa”, por dois motivos:

a) sua sorte em escapar de vários atentados enquanto era ditador, tal como a pantera do desenho animado.

b) Era magro e tinha o mesmo caminhar cadenciado da pantera cor de rosa.

E aqui, uma cronologia e um fait-divers sobre a ditadura e seu modus operandi:



CRONOLOGIA DA DITADURA E ASSUNTOS RELATIVOS

  • 1976-1983 – Ditadura Militar
  • 1983 – Volta à democracia
  • 1985 – Início dos julgamentos aos militares
  • 1986 – Rebeliões militares. Primeira lei do perdão, a ‘Ponto Final’
  • 1987 – Mais rebeliões militares. Segunda lei do perdão, a ‘Obediência Devida’
  • 1990 – A última rebelião militar. Indulto às cúpulas militares
  • 1998-99 – Abertura dos processos por sequestros de crianças, crime não incluído nos julgamentos dos anos 80
  • 2005-2007 – Revogação das Leis do Perdão e abertura de novos julgamentos.


MODALIDADES DE TORTURAS DA DITADURA DE VIDELA

- Picana elétrica: criada nos anos 30 na Argentina por Leopoldo Lugones Hijo, filho do escritor Leopoldo Lugones. Era o instrumento para assustar o gado com choques elétricos. Aplicado a seres humanos, tornou-se no instrumento preferido de tortura na Argentina.

- Submarino molhado: afundar a cabeça de uma pessoa em uma tina d’água. Ocasionalmente a tina também estava cheia de excrementos humanos.

- Submarino seco: colocar a cabeça de uma pessoa dentro de um saco de plástico e esperar que ela ficasse quase asfixiada.

- O rato no cólon: colocação de um rato, faminto, no cólon de um homem. Nas mulheres, o rato era colocado na vagina.

Diversas testemunhas indicam que os torturadores argentinos ouviam marchas militares do Terceiro Reich e discursos de Adolf Hitler enquanto torturavam.

OS MORTOS DA DITADURA

- Durante a Ditadura, militares e policiais argentinos assassinaram ao redor de 30 mil civis (segundo organismos de defesa dos Direitos Humanos argentinos e organizações internacionais), a maioria dos quais sem militância na guerrilha.

- Vários militares afirmam que assassinaram “somente” 8 mil civis. Esse é o número que o general e ex-ditador Reynaldo Bignone, declarou à TV francesa. Videla, no ano passado, citou mais de 7 mil.

- Segundo os próprios militares, a guerrilha e grupos terroristas assassinaram 900 pessoas, a maioria dos quais militares e policiais.

BEBÊS SEQUESTRADOS

- Durante a Ditadura 500 bebês foram sequestrados, filhos das desaparecidas (segundo dados das Avós da Praça de Mayo)

- 108 crianças desaparecidas foram recuperadas ou identificadas por suas famílias biológicas

FRACASSOS ECONÔMICOS E MILITARES: Além de ter sido a mais sanguinária Ditadura foi um fracasso tanto na área militar como na esfera econômica. Fiascos Militares:

- Entre 1976 e 1978 a Ditadura colocou quase a totalidade das Forças Armadas para perseguir uma guerrilha que já estava praticamente desmantelada desde antes do golpe, em 1975. Analistas militares destacam que este desvio das Forças Armadas argentinas (que havia iniciado no final dos anos 60 mas intensificou-se a partir do golpe) reduziu drásticamente o profissionalismo dos militares.

- Em 1978, a Junta Militar argentina levou o país a uma escalada armamentista contra o Chile. Em dezembro daquele ano, a invasão argentina do território chileno foi detida graças à intermediação papal. O custo da corrida armamentista colocou o país em graves problemas financeiros.

- Em 1982, perante uma crise social, perda de sustentabilidade política e problemas econômicos, o então ditador Leopoldo Fortunato Galtieri – famoso por seu intenso approach ao scotch – decidiu invadir as ilhas Malvinas para distrair a atenção da população. Resultado: após um breve período de combate, os oficiais do ditador renderam-se às tropas britânicas.

Desastres econômicos:

- Em sete anos de Ditadura, a dívida externa subiu de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões.

- A inflação do governo civil derrubado pela Ditadura, que era considerada um índice “absurdo alto” pelos militares havia sido de 182% anual. Mas, este índice foi superado pela política econômica caótica da Ditadura, que encerrou sua administração com 343% anual.

- A pobreza disparou de 5% da população argentina para 28%

- A participação da indústria no PIB caiu de 37,5% para 25%, o que equivaleu a um retrocesso dos níveis dos anos 60.

- Além disso, a Ditadura criou uma ciranda financeira, conhecida como “la plata dulce”, ou, “o doce dinheiro”.

- Ao mesmo tempo em que tomavam medidas neoliberais, como a abertura irrestrita das importações, os militares continuavam mantendo imensas estruturas nas empresas estatais, que transformaram-se em cabides de emprego de generais, coronéis e seus parentes.

- Os militares também estatizaram US$ 15 bilhões de dívidas das principais empresas privadas do país (além das filiais argentinas de empresas estrangeiras).

- No meio desse caos econômico, os militares provocaram um déficit fiscal de 15% do PIB.

- A repressão provocou um êxodo de centenas de milhares de profissionais do país. Os militares, em cargos burocráticos, exacerbaram a corrupção na máquina estatal.

Paradoxos: A Ditadura tinha um discurso anticomunista mas continuou vendendo trigo para a URSS e não aderiu ao boicote americano contra as Olimpíadas de Moscou em 1980.



‘GUERRA’ OU REBELIÃO LOCALIZADA? – Os militares deram o golpe e instauraram a ditadura mais sanguinária da História da América do Sul (América do Sul, não América Latina) com o argumento (um dos vários) de que a guerrilha controlava grande parte do país. Segundo os ex-integrantes da ditadura, os militares argentinos implementaram uma “guerra”.

No entanto, trata-se de um exagero para justificar os massacres cometidos durante a ditadura.

A pequena guerrilha argentina, mais especificamente o ERP, dominava às duras penas uma pequena porcentagem da província de Tucumán, a menor província da Argentina.

A magnificação da guerrilha foi útil para os militares e também para o prestígio dos guerrilheiros. A nenhum dos dois lados era conveniente admitir a realidade, de que a área controlada pela guerrilha era ínfima.

Os militares e os setores civis que apoiaram o golpe (e os saudosistas daqueles tempos) afirmavam (e ainda afirmam) que o país estava em guerra civil nos nos 70.

Mas, “guerra civil”, rigorosamente, seriam conflitos de proporções mais substanciais, tais como a Guerra da Secessão dos EUA, a Guerra Civil Espanhola, a Guerra Civil Russa logo após a proclamação do Estado Soviético, a Guerra das Duas Rosas (Lancasters versus Yorks, na Inglaterra) ou a Guerra Civil da Grécia após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ainda: a Guerra Civil da Nicarágua, e a de El Salvador. Isto é: bombardeios de cidades, grandes êxodos de refugiados, centenas de milhares de mortos, uma boa parte de um país controlado por um dos lados, e outra parte controlada por outro lado. Isso não ocorreu na Argentina nos anos 70.





Moradores se unem contra enterro do ditador

Ele era o "senhor da vida e da morte" quando governava a Argentina e definia o destino de civis sequestrados, torturados e assassinados durante o regime militar. Mas, depois de morto, Jorge Rafael Videla não consegue um lugar para ser enterrado. Em sua cidade natal, Mercedes, na Província de Buenos Aires, moradores se uniram para evitar que seus restos mortais fossem levados para o cemitério local.

Em protesto contra um eventual funeral, a secretaria de direitos humanos do município colocou placas nos portões do cemitério com os nomes dos 22 desaparecidos da ditadura que eram da cidade.

O corpo do ex-ditador foi liberado ontem pelo Instituto Médico Legal de Buenos Aires. No fim de semana, um documento do serviço penitenciário revelou que Videla, morreu sentado no vaso sanitário de sua cela na manhã de sexta-feira.

Na véspera, havia sofrido uma queda enquanto tomava banho. O acidente, somado ao fato que de o ex-militar tomar um remédio anticoagulante, causou uma hemorragia interna que acabaria por provocar sua morte.

A família do ex-ditador informou às autoridades que o corpo não será cremado e contratou uma agência funerária de Mercedes, o que aumentou a possibilidade de o funeral ocorrer no cemitério local, onde estão enterrados seus pais.

Hoje, vários partidos políticos de Mercedes farão um protesto na praça principal para repudiar a ditadura.

A tradição fúnebre argentina, especialmente no interior do país, é a de enterrar os mortos no mausoléu familiar. Ou, como alternativa, em um túmulo próximo ao dos pais e parentes. Na Câmara de Vereadores, representantes dos partidos afirmam que não querem que o corpo de Videla altere a calma da cidade. José Luis Pisano, do Partido Socialista, disse que não deseja que Mercedes "transforme-se em um ponto de peregrinação da direita fascista e menos ainda que ele seja enterrado ao lado de companheiros que perderam a vida durante a ditadura".

As autoridades admitem que, apesar de repudiar Videla, não podem proibir que a família o enterre na cidade. "A família possui um mausoléu e túmulos privados. Não está dentro de nosso alcance impedir esse enterro", afirmou o secretário de direitos humanos de Mercedes, Marcelo Melo. Ativistas dos direitos humanos afirmam que Videla, ao esconder os corpos de desaparecidos, impediu que seus parentes chorassem seus mortos diante de seus túmulos. "Não podemos fazer a mesma coisa que ele fez com os 30 mil desaparecidos", disse Diana Manos, da Comissão de Parentes de Presos e Desaparecidos de Mercedes.

Dois dos nomes nas placas diante do cemitério - Ignácio e Esteban Ojea Quintana - têm um vínculo especial com Videla: eram seus sobrinhos, detidos pela Marinha em 1977 por serem militantes da esquerda. O tio nada fez para salvá-los da morte. Seus corpos nunca foram localizados.

Outro nome nas placas é o de Carlos Agosti, sobrinho do brigadeiro Orlando Agosti, chefe da Aeronáutica e integrante da junta militar liderada por Videla. Carlos foi sequestrado e assassinado em dezembro de 1976. Seu corpo está enterrado a poucos metros do mausoléu da família Videla.

O ditador viveu rodeado pela morte. Ele foi batizado como "Jorge Rafael" em homenagem a dois irmãos gêmeos mais velhos - Jorge e Rafael - que morreram de sarampo em 1923. A poucos metros do mausoléu da família Videla estão enterrados três padres assassinados em 1976 por ordem da ditadura.



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