sábado, 27 de setembro de 2008

O cristão imperfeito, segundo Calvino

5. A VIDA CRISTÃ NÃO IMPLICA PERFEIÇÃO, INATINGÍVEL NA PRESENTE CONDIÇÃO HUMANA, PORÉM RECLAMA ESFORÇO, DILIGENTE E CONTÍNUO, DE BUSCÁ-LA, DIA APÓS DIA, SEM DESFALECIMENTO

Não exijo que o viver do homem cristão nada exale senão o evangelho absoluto, o qual, no entanto, não se deve exatamente só almejar, mas também necessário se faz intentar. Contudo, não exijo perfeição evangélica em moldes tão estritos que não se possa reconhecer como cristão aquele que não a haja ainda atingido plenamente. Se esse fosse o caso, seriam todos excluídos da Igreja, uma vez que ninguém se acha que não esteja tão afastado dela por mais que haja adiantado, e contudo não há razão para que sejam rejeitados.

Então, o que fazer? Esteja fixado diante dos olhos este alvo, rumo ao qual se dirijam todas as nossas ações e rumo a ele lutemos e nos esforcemos até chegarmos. Pois não é lícito tentar partilhar com Deus dessas coisas que estão prescritas em sua Palavra, acatando parte delas, e de teu arbítrio desconsiderando outra parte. Ora, por toda parte ele recomenda, em primeiro lugar, a integridade como a parte capital de sua adoração [Gn 17.1; Sl 41.12], termo que significa a sincera candidez de espírito que careça de dolo e fingimento, à qual se contrapõe o coração dobre, como se estivesse dizendo que o princípio do bem viver é espiritual, quando o afeto interior do espírito se devota a Deus, sem fingimento, para cultivar-se a santidade e a justiça. Mas, uma vez que não sobeja a ninguém tanta força, neste cárcere terreno do corpo, que se possa avançar com a justa celeridade da corrida, ao contrário tão grande fraqueza oprime a grande maioria que, vacilando e claudicando, até mesmo rastejando no solo à frente se movem com dificuldade, avancemos, cada um segundo a medida de sua reduzida capacidade, e prossigamos a jornada iniciada. Ninguém vagueará tão desafortunadamente que não avance cada dia ao menos um pouco de caminho.

Portanto, não cessemos de progredir no caminho do Senhor, avançando incessantemente, não nos desesperando ante a insignificância de êxito alcançado. Ora, por mais que o êxito não corresponda ao desejo, contudo, o labor não foi perdido quando o dia de hoje supera o de ontem, contanto que, com sincera candidez, olhemos firmemente para nosso alvo e aspiremos alcançar nossa meta, não nos lisonjeando com adulação, nem condescendendo a nossas más disposições; ao contrário, em esforço contínuo proponhamo-nos a ser cada dia melhores até que alcancemos a perfeita bondade que devemos buscar toda nossa vida. Conquistaremos essa perfeição quando, despojados da debilidade de nossa carne, sejamos plenamente admitidos na companhia de Deus.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, pp. 159-160)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

A maior riqueza do mundo

Em pouco tempo o dia se tornara noite. A chuva forte castigava a cidade, e juntamente com o barulho dos automóveis, abafava os pequenos sons produzidos ali, naquele momento. Havia um bom tempo que aquela cidade não recebia uma chuva tão forte, havia tempo que seus cidadãos não paravam para pensar sobre a força da natureza. Agora, eram obrigados, pois tudo que tinha vida naquela cidade poluída e fria, se escondia. Enquanto isto, a água limpava seus becos imundos, cancelava compromissos, aumentava aflições.
Nestas horas, pequenas coberturas se tornavam pequenos oásis às avessas. Não muito longe, em uma rua pouco movimentada, havia um destes. Ali, se encontrava um mendigo, que por não ter nem como se cobrir, estava encharcado. Estava completamente sozinho no momento, para não falar de sua fome, o que tornava sua situação mais desesperadora. Não é fácil ser mendigo em cidade grande. Principalmente um adulto. As pessoas costumam achar que mendigar é uma opção. Algumas, vendo seu estado lastimável, acreditam que ele antes de tudo é um bêbado. Mesmo que fosse, cinco reais para tomar sua pinga não chega aos cem reais, mínimo que alguns gastariam em uma noitada acompanhada de garrafas de uísque e mulheres. O que nos faz pensar que as pessoas devem acreditar que o mendigo não tem o direito à diversão, ou que mendigos devem prestar contas do dinheiro que recebem como doação, enquanto os próprios cidadãos não prestam contas do que fazem com seu dinheiro para seus patrões, aqueles que pagam seus salários.
Mas o grande problema é que há mesmo mendigos que fazem qualquer coisa com este dinheiro mesmo, até comprar drogas. Há pessoas que se disfarçam de mendigos. Realmente, não é fácil ser mendigo hoje em dia. Antigamente os mendigos eram mais verdadeiramente mendigos. Será que o mundo possui menos mendigos hoje, ou será que descobriram que são mendigos mesmo tendo uma situação melhor? Não se sabe, e isto não importa agora... Aquele mendigo não trabalhava não por preguiça, mas por que é realmente difícil encontrar emprego hoje em dia. Principalmente quando não se tem uma aparência boa, quando não se cheira bem, e quando não se tem nem um lar. Estas coisas custam dinheiro, e ele não tinha isto. Aquele mendigo estava em uma situação não muito boa... Estava encharcado, com frio, com fome, e agora, bastante sozinho. Talvez para fugir um pouco da realidade, ele fechava os olhos, e murmurava algo. Pelo menos ele tinha certa honra, já que alguns buscavam meios mais destrutivos para fugir desta realidade. Mas também é raro que algum mendigo tivesse algum estudo. Ele sabia ler e escrever, sabia falar bem e sabia que alguns meios de fugir desta realidade que parecia mentira não valia a pena.
Naquela hora, passava pela rua um senhor. Estava abrigado por um guarda-chuva, mas não conseguiu continuar por que a chuva tinha ficado mais forte. Resolveu parar na mesma cobertura onde aquele pobre mendigo se abrigara. O homem estava bem vestido, e tinha um ótimo comportamento. Na verdade, aquele homem poderia ser considerado facilmente como um dos maiores filantropos da cidade. Seu amor ao próximo era invejável. Sua cordialidade era insuperável. Seu amor ao próximo era tão grande, que não conseguia ver as pessoas sofrendo à sua volta. Foi por isto que há muitos anos atrás, abandonou suas crenças em um deus. Não conseguia imaginar como qualquer deus poderia deixar pessoas sofrerem. Decidiu que faria tudo o que estivesse à sua disposição para ajudar ao próximo.
E ali estava seu mais novo próximo. Molhado, faminto e com frio. Aquela situação deixou o senhor comovido. Imediatamente retirou seu casaco e o entregou ao mendigo:
- Por favor, meu bom homem, tome isto. Você precisa mais dele do que eu.
- Puxa, muito obrigado.
Enquanto vestia o casaco, meio sem-graça ainda por receber a ajuda daquele homem, chegava outra figura tentando se esconder da chuva. Rapidamente entrou para baixo da cobertura, e ficou em um canto, em silêncio. Parecia estar apressado, pois olhava para o seu relógio, depois olhava para o céu, como se quisesse anular a chuva com uma cara feia. Por fim, o mendigo terminou de vestir o casaco. Logo o senhor puxou assunto:
- E então, está um pouco melhor agora?
- Estou sim, obrigado.
- Olha, tudo o que tenho aqui são 50 reais. Quero que fique com eles. Assim que a chuva passar, você pode comprar alguma coisa para se aquecer, e comer também.
- Puxa, muito obrigado senhor. Nem sei como agradecer. Deus lhe pague.
O senhor hesitou um pouco em continuar. Mas logo continuou:
- Não se preocupe em me agradecer. É o mínimo que eu poderia fazer para ajudar.
- Olha, eu não posso dar nada em troca, mas eu tenho certeza que Deus há de dar muito mais para o senhor.
Ele poderia seguir ignorando o que o mendigo dizia. Ele não era um homem de discutir por pouca coisa. É verdade que já travou muitos debates em sua vida, mas ele não precisava discutir com aquele homem, que ao seu ver, precisava de atenção, não de refutação. Porém, achava importante mencionar seus pontos de vista, para que aquele homem entendesse que há crenças e crenças, e além delas, há a descrença. Um bom cidadão certamente tem consciência da liberdade das pessoas, e queria passar aquilo ao mendigo, como uma lição de vida.
- Bem, meu amigo, eu não acredito em deus. Aceito seus agradecimentos, não precisa se preocupar em retribuir-me.
Aquilo fez com que o mendigo interrompesse os agradecimentos. Passou a segurar o queixo, indicando claramente que estava refletindo no que lhe foi dito. O senhor intimamente tinha ficado feliz, pois obtivera o planejado. O outro homem que estava com eles finalmente olhou para os dois.
- Ah, desculpa, eu não sabia...
- Não tem problema...
O mendigo continuava a pensar sobre o que aconteceu. A curiosidade tomou conta dele, que não resistiu e perguntou:
- Senhor, por que o senhor não acredita em Deus?
- Meu bom homem, você mesmo é um exemplo do motivo pelo qual não acredito em deus. Veja seu estado. O que deus fez por você? Por que ele deixaria que você ficasse neste estado, sem ter o que comer, o que vestir, onde morar... Por que ele permitiu que você vivesse sem sua dignidade como ser humano, já que você é uma criatura dele, e ele deveria te amar? Sabe, eu não podia acreditar que um deus bondoso como pregam por aí, pudesse permitir tamanho sofrimento de pessoas como você. Deixei de acreditar em deus por isto. E agora, sou eu mesmo que tento ajudar as pessoas que encontro nesta situação. Não espero que deuses resolvam isto por mim.
Isto chamou a atenção do outro homem que estava com eles. Logo ele se aproximou, dizendo:
- A paz do Senhor para todos.
Os dois homens olharam para ele.
- Não pude deixar de ouvir a conversa dos dois. Eu sou bispo de uma pequena igreja aqui perto, e estava indo para lá quando fui pego pela chuva. Meu carro acabou parando por causa da água. Fiquei com medo de ficar lá dentro e alguma enchente o levar, por isto vim para cá. Bem, se estão falando de Deus e sobre as enfermidades, gostaria de conversar com vocês também. É um assunto que muito me interessa.
O senhor não estava disposto a discutir naquela hora... Muito menos com bispos de pequenas igrejas. Eles costumam ser inflexíveis, quando não dispostos ao ridículo.
- Não estamos exatamente conversando sobre algo, pelo menos não ainda.
- Bem, mas eu escutei você dizer que Deus não poderia permitir que tais pessoas sofressem, e ainda assim amá-las.
- Sim, foi o que eu disse.
- Bem, acho que a primeira coisa que eu deveria deixar claro é que todos os seres humanos possuem livre-arbítrio. Não só os seres humanos: seres angelicais também. Foi por isto que alguns anjos deixaram de servir ao Senhor, e passaram a agir contra ele. Estes são os demônios. Infelizmente eles querem nos prejudicar de todas as formas, por isto pessoas como este senhor aqui sofrem. São os encostos, e eles só abandonam a vida de uma pessoa em um ritual de libertação espiritual. Nossa igreja costuma ajudar muitas pessoas como ele, que entram com enfermidades espirituais graves, e saem de lá curadas. Hoje são pessoas muito prósperas, e dão seu testemunho de que Deus está cumprindo suas promessas.
- Ah, entendi... E prosperidade é sinônimo de bênçãos?
- Sim, claro. Ou você acha que o sofrimento destas pessoas é obra de Deus? Está claro que quem está agindo neste homem é Satanás.
- Então este homem aqui não é abençoado?
- Provavelmente não. O que não o impede de ser curado.
- Mas por que ele simplesmente não é abençoado? Por que deus tem que limitar estas bênçãos?
- Ora, por que a pessoa tem que querer. Isto é liberdade. E quando ela quiser, estamos de portas abertas. Além disto, se a pessoa é dizimista, ela pode exigir que Deus cumpra suas promessas. Pois quando pagamos o dízimo a Deus, Ele fica na obrigação de cumprir Sua Palavra.
O senhor depois de raciocinar um pouco, respondeu então.
- Acho que estou te entendendo. Basicamente, você está me dizendo que seu deus só age por contrato, é isto? Você vai lá, paga o devido valor, então deus resolve te ajudar...
- Bem, não é exatamente desta forma...
- Ora, foi o que eu entendi. O engraçado disto tudo é que enquanto seu deus é obrigado a fazer o que você quiser, o diabo está livre para agir, atentando todo mundo. Aliás, ele tem muito tempo livre, não é? Ele não tem coisa melhor para fazer do que espumar pela boca, se debater e xingar a mãe do pastor não?
- Puxa, seu entendimento é lamentável. Para sua sorte, você deve ser uma pessoa que confia muito na força de seu trabalho. Por isto pode gozar de uma boa situação, mesmo sem Deus no coração...
A discussão se tornava cada vez mais intensa, enquanto o mendigo só observava. Pensava bastante sobre a situação que estava passando, e depois de algum tempo, começou a sorrir. O sorriso era tão sincero, que sua felicidade se destacou mais que a discussão que estava sendo travada ali. Por isto mesmo, os dois perceberam e por um momento deixaram de discutir. O senhor resolveu perguntar ao mendigo:
- Senhor, o que houve? Por que a alegria?
- Bem, eu estava pensando aqui... Senhor bispo, antes de tudo, gostaria de agradecer o senhor por tentar defender Deus. Talvez Ele nem precise, já que ele é o Todo-poderoso, além de saber até que teríamos esta discussão hoje. Se Ele deixa pessoas pensarem como este senhor aqui, é por que Ele já possui uma resposta na ponta da língua para eles. Ele com certeza é mais sábio que nós dois. E se isto for verdade, então não precisamos nem falar nada. Ele é melhor defensor que qualquer um de nós.
O bispo ficou calado, hesitante. O mendigo continuou...
- Sobre eu ser ou não abençoado, eu podia pensar qualquer coisa disto. Mas nada me tira da cabeça que tudo isto é inveja. Inveja por que nosso Senhor Jesus Cristo não veio ao nosso mundo como um bispo, mas veio como um pobre. Ele nasceu em uma manjedoura, por que não tinha lugar para ele e seus pais na estalagem. E quando foi adulto, era como eu, pois não tinha sequer lugar para reclinar a cabeça. Eu não acho que Nosso Senhor tinha encosto, ou não era abençoado, mesmo por que era Ele quem abençoava as pessoas, Ele quem expulsava demônios. Mas eu entendo, deve incomodar muito isto mesmo. Incomoda o fato que o Filho de Deus escolheu ser igual a mim, não igual às pessoas abençoadas na sua igreja. Talvez por isto eu já ouvi quando mendigava perto de suas igrejas, as mais variadas formas de se esconder a pobreza de Jesus. E pra falar a verdade, eu nunca ouvi falar que algum apóstolo de Cristo tenha morrido rico.
O bispo, ficou sem reação. Já o senhor do lado deles, sorria sarcasticamente... O mendigo, virou-se para este e continuou...
- Senhor, eu tenho que te devolver isto.
Pegou os 50 reais, e os devolveu junto com o casaco. O senhor então se assustou.
- Meu amigo, por que está me devolvendo isto. São para você. Não vai aceitar só por que sou ateu?
- Não, não é isto.
- Então? Por quê não fica com ele?
- Olha, senhor... O senhor me deu isto, por que achou que eu estava sofrendo. De fato, justamente quando o senhor chegou, eu perguntava a Deus se merecia tudo aquilo. Se merecia o frio, a fome... Quando eu perguntei ao senhor por quê o senhor não acreditava em Deus, e o senhor respondeu, eu comecei a pensar... Só os mendigos que sofrem? Só eu sou o exemplo de sofrimento? Então percebi que o senhor só poderia dizer que eu estava sofrendo, se acreditasse que o senhor não estava sofrendo. No fim das contas, o senhor me vê da mesma forma que o bispo.
- Mas eu não me considerei melhor que você. Eu ofereci ajuda, por que estou preocupado com você.
- E o bispo disse que a igreja dele está com as portas abertas a todos, oferecendo ajuda que julgam necessária a todos que precisam. Mudou apenas a forma de ajudar e o tipo de ajuda, não é? Agora, é muito fácil um desdenhar do tipo de ajuda que o outro oferece. Se o senhor achasse que a ajuda espiritual do bispo é a melhor ajuda, o senhor poderia ser bispo. Se ele achasse que a ajuda filantrópica fosse a melhor, ele poderia ser ateu.
O homem ficou calado.
- Quando pedi ajuda a Deus, pedi de coração. Talvez agora eu tenha uma resposta... Se me julgam pelos trapos que visto, com justiça me verão como um mendigo. Mas se não podem distinguir meus tesouros, como poderiam me chamar de rei?
Os dois se entreolharam.
- Tesouros?
- Sim, tesouros. A verdade mais sagrada é que ninguém neste mundo ficará eternamente com riquezas estas de metal e papel. Isto já poderia ser usado para provar que estas não são riquezas reais.
- Então, o que é seu tesouro? – Perguntou o bispo.
- Senhores, – disse levantando – muita gente por aí não se contenta apenas com um prato de arroz e feijão. Muita gente fica enjoada de comer a mesma coisa todo dia. Muita gente não consegue comer em determinado nível de restaurante. Muita gente não consegue comer certos tipos de comida. Eu não sou assim, meus amigos. Eu realmente passo fome, mas eu sei apreciar um simples pedaço de pão. Um prato de arroz e feijão nem precisa ter a mistura, para me dar grandes alegrias. Como em qualquer lugar, e aprecio qualquer companhia. Eu sei o valor real da comida.
Deu uma pausa e continuou.
- Da mesma forma, posso dizer com toda a certeza do mundo, que eu tenho maior facilidade em dizer se aqueles que se aproximam de mim são sinceros. Seja para me ajudar, seja para me criticar. Ninguém precisa fingir para mim, pois eu não tenho nada para lhes oferecer. Eles podem ter raiva, podem ter compaixão, eu geralmente posso dizer como eles se sentem. Vocês podem dizer isto? Podem dizer quem são seus verdadeiros amigos? Podem dizer quem é sincero com vocês? Talvez, mas eu tenho mais facilidade que vocês. Por que as pessoas que eu encontro, e que me oferecem comida, são as minhas melhores amigas. Eu tenho toda a certeza que elas se preocupam comigo, que elas só desejam o meu bem. Quando elas conversam comigo, elas conversam com a verdadeira intenção de me ajudar, e não de fingir que são minhas amigas, para depois me prejudicar em algo.
Mais uma pausa.
- Tenho doenças, tenho frio, tenho fome e às vezes me sinto sozinho. Mas de tudo isto consigo entender mais e mais, o valor da vida, da amizade, dos bens, melhor do que quando eu tinha dinheiro. Então, enquanto há ricaços por aí, esbanjando dinheiro para conseguir achar alguma coisa que o entretenha, eu me distraio com as coisas mais simples. Até as coisas mais pequenas são capazes de me dar alegrias. Os meus sonhos são os mais reais, pois geralmente são os mais simples. A minha vida é a mais valiosa, por que só tenho ela. Infelizmente, eu tive que perder tudo para entender isto.
Então, concluindo, disse o mendigo:
- É por isto que sou tão rico. Porque hoje encontrei a mim mesmo. Porque percebi significado nas mínimas coisas. Tudo me alegra, por que fui redimido. Sofremos? Sim, mas as melhores coisas são as que custam mais caro.
Deixou os dois parados na cobertura, enquanto corria pela chuva, de braços abertos, pulando de alegria, como jamais se viu antes. Aquela chuva que era dele também.

Gols inventados

Às vezes a bola não entra, mas é gol!

Watford 2 x 2 Reading, 2ª divisão da Inglaterra, 20.09.08

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

S.W.A.T. de pobre

Pra quem quiser saber como os nossos filmes (e o nosso país) são apresentados no exterior, segue o trailer do lançamento do filme "Elite Squad - Tropa de Elite" no circuito norte-americano:

Sobre o sentido da vida

Atualmente venho travando um debate com alguns ateus ou defensores do ateísmo, em um fórum que reúne ex-integrantes das Testemunhas de Jeová. O tema preferido destes é o conhecido problema do sofrimento. Confesso que desviei a discussão de seu tema, mas eu tinha meus motivos. Geralmente as pessoas que desafiam o cristão com este assunto, são pessoas que não fariam nada para mudar o que eles chamam de sofrimento. Dentre as várias respostas que surgiram, havia uma onde um texto ateu mostrava Deus como um ditador frio. Claro, o texto apelava para o lado emotivo dos leitores, quando a proposta era de se fazer uma análise racional. E já que se podia apelar para o lado emocional, citei alguns pontos onde o ateísmo não é uma boa alternativa emocional.

Entre estes pontos, citei a falta de "sentido da vida". Esta declaração minha criou um grande alvoroço entre os foristas, pois para todos, ateus possuem sentido para suas vidas sim. Ao meu ver, existem dois tipos de "sentido para a vida", que expliquei a todos. Uma forista me disse que ateus possuem os dois sentidos que enumerei, e disse que o segundo sentido (que explico adiante) para um ateu pode ser visto na sobrevivência. Respondi então:

Hum... Agora você colocou algo interessante. Pois em meu segundo significado para "sentido da vida", quando aponto para Deus ou uma inteligência, aponto para uma fonte externa ao ser, que dá um sentido a este ser. Esta fonte "espera algo" daquele ser. E agora sim, posso perceber que o ateu pode possuir uma fonte de sentido alheio a si, o que não muda o fato das consequências de sua cosmologia mostrar que sua vida é descartável a qualquer momento. Esta sim foi minha real crítica neste ponto. Como disse, poderíamos classificar os sentidos da vida em duas categorias básicas, que agora com os dados que você apresentou, divido melhor como originadas no próprio ser e originadas externamente ao ser. Sentidos originados no próprio ser são como objetivos pessoais, como estabelecer trabalhar em uma grande empresa, morar na beira da praia, etc... Os sentidos originados externamente ao ser são em grande maioria, atribuídos à deidades, mas você apontou também a sobrevivência em si. Eu estava com dúvidas se a maternidade e a paternidade poderia dar este sentido também, e acho agora que isto é possível. Os pais podem ter um objetivo para seus filhos, mesmo que estes não o desejem seguir (isto foi o que me deixou na dúvida se deveria colocar este ponto aqui). Você citou Romeu, e acho importante mencionar o que ele disse. Para ele, não há diferenças entre sentidos. Isto por que para ele, seja qual for o sentido, ele é originado internamente. Se você está dizendo que ele tem razão, então você continua se contradizendo. Você aponta um sentido externo, mas diz que Romeu que aponta apenas sentidos internos está correto. Ou você se decide por um ou por outro. Eu te digo que a resposta dele é a confirmação cabal do que eu disse. Que o ateu só verá o primeiro sentido, aquele que se origina internamente. Sinceramente, a posição do Romeu é simplória demais. Tanto que você foi capaz de refutá-lo, mesmo tentando me refutar. Os sentidos para a vida não podem ser originados apenas internamente. Não vivemos em uma bolha, escolhendo o que queremos. Alguém nos colocou neste mundo (mesmo que seja nossos pais). Minha crítica original não foi quanto à falta de sentido, mas quanto às implicações desta. Pode-se como você demonstrou, apontar para um segundo sentido naturalista, mas este segundo sentido acaba possuindo o mesmo problema de se possuir apenas o primeiro sentido. O problema do primeiro sentido, o interior, é que ele é temporário. Você só tem o objetivo de trabalhar em uma grande empresa enquanto não trabalha ali. Quando conseguir, você poderá até mudar seu sentido para se manter ali. Ele é temporário, por que você é temporário. Sua vontade é temporária. Suas condições são temporárias, e estão sempre se atualizando. Assim que você morre, morre a fonte deste sentido interno para a vida. Agora, se seu sentido para viver é apenas este, então este sentimento subsiste em petição de princípio. Esta vida se torna uma ilusão, que vai durar enquanto o ser quiser. E neste estado, morrer ou viver se torna duas alternativas igualmente atraentes. A alternativa que você propôs foi citar a sobrevivência como sentido exterior para a vida. Neste caso, em nome da sobrevivência, o ser não vê mais a morte como alternativa atraente. Eu diria que é o segundo sentido que mantém o ser com a vontade de viver. O segundo sentido é aquele que evita que seja normal uma pessoa ser suicida. De fato, a pessoa se torna suicida quando perde seu segundo sentido. Ninguém resolve se matar quando não consegue morar na praia. Alguém decide se matar quando não vê mais razão para querer qualquer coisa, inclusive morar na praia. Quando vê que sua morte não fará mais diferença para ninguém, nem para ele. Felizmente, ateus não são automaticamente suicidas, o que nos mostra que eles conseguem viver com seus sentidos temporários, sem se dar conta de que tudo se trata de uma ilusão. Ou apontam a sobrevivência como sentido exterior. E neste momento, eles deificam a sobrevivência, transformando-a em Sobrevivência. Não é a primeira vez que isto acontece. Ateus da Revolução Francesa já deificaram a Razão, o que nos leva a crer que mesmo de forma inconsciente, tenta-se colocar algo no lugar de Deus. Mas Sobrevivência não é uma boa fonte de sentido da vida. Assim como a vontade humana, Sobrevivência é algo temporário. Segundo a cosmologia naturalista, nem sempre houve Sobrevivência. E se uma catástrofe acontecer no planeta, Sobrevivência deixará de existir. Se é temporário, então ela acaba trazendo os mesmos problemas... Porém, é melhor que se basear apenas no sentido interior, pois ela é bem mais sutil. Além do mais, Sobrevivência apesar de ser deificada, não possui inteligência. Então, se o ser se dar conta de que Sobrevivência não se dará conta de que ele não existe mais, acabará chegando ao mesmo ponto descrito acima. E assim, se baseando em fontes temporárias de sentido para a vida, o ser se torna totalmente descartável. Esta foi minha crítica.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Humildade

Como prometi, a tradução do texto que postei em alemão.




Geralmente não escrevo sobre minha vida. Poderia dizer melhor que nunca escrevo. Escrever é trabalhoso e minha vida é muito chata. Ninguém quer saber sobre a vida regular de uma pessoa normal. Mas ontem foi diferente. E eu devo contar o que houve, pois me lembra de um sentimento humano, cujo nome eu esqueci.
Ontem como sempre, acordei às seis. Como sempre, tomei meu banho em 10 minutos. Como sempre, comi meu pão com geléia e tomei meu café açucarado. Pontualmente às 15 para 7, fui para o trabalho.
Ah, se eu pudesse simplesmente manter esta vida assim. Seria maravilhoso! Mas os problemas insistem em aparecer.
Por isto acabei furando meus novos pneus. E justamente quando ia para o trabalho. Eu não podia acreditar. Eu chegaria pela primeira vez na vida atrasado ao serviço. Mas nem tudo estava perdido. Diante de mim, havia uma borracharia.
Esta borracharia tinha algo de estranho. Ela já estava aberta às 10 para 7?Que tipo de borracheiro trabalha ali?
Um borracheiro, que acorda tão cedo, deve trabalhar tão bem quanto eu, pensei. Então não teria problemas, apesar de ser estranho. Então me decidir ir até a borracharia e pedir ajuda. Ao chegar, disse:
- Com licença, eu furei o pneu e precisava de ajuda...
A borracharia estava totalmente vazia...
- Tem alguém aí?
Niguém me respondeu. Ele poderia estar ocupado, pensei. Então continuei entrando.
- Com licença, eu furei...
- Ah, aí está você, Schröder!!! Te procurei por uma hora...
Eu não vi ninguém. Dei uma olhada ao redor, e infelizmente não vi ninguém ainda.
- Mas eu não sou Schröder. Meu nome é Pedro...
De repente, um monte de algo se levantou, o qual pensei ser um monte de trapos. Mas era um homem, o borracheiro.
- O quê? Ficou maluco, Schröder?
- Eu não sou Schröder!! Eu furei o pneu, e preciso de ajuda...
- Como você pode dizer que você não é o Schröder? Acho que você bebeu cerveja demais ontem...
- Cerveja??? Eu só tomo Coca-Cola!!
Eu não sabia, mas o borracheiro na minha frente deu uma festa no dia anterior. Schröder, o verdadeiro Schröder, sumiu. Ele bebeu muita cerveja, e acreditou que o caminhão, cujos pneus ele arrumou, era seu quarto... O motorista, que estava na festa, não o viu entrar na parte de trás do caminhão. Lá ele dormiu por 300 quilômetros, e o não tão bêbado motorista não o encontrou até aquele momento...
- Ha, ha... Achei muito engraçado, “Senhor” Schröder. Poderia vir aqui ou não?
Estava claro para mim, que o borracheiro estava bêbado. Não apenas seu estado denunciava isto, mas seu bafo de cerveja… E agora ele tinha a coragem de dizer que eu é quem bebi.
- Olha! Você bebeu demais. Eu sou Pedro, e furei o pneu. Eu quero ajuda, de preferência agora!
- Devo infelizmente te contradizer, Schröder!! Ontem eu te vi tomando pelo menos 10 garrafas de cerveja. Então é você, Schröder, que bebeu demais. E se você bebeu cerveja demais, então você não pode dizer se eu bebi ou não bebi também muita cerveja.
- Eu não sou Schröder!!!!
- Não estamos discutindo agora quem você é, Schröder. Disto nós já sabemos. A questão aqui é a seguinte: você bebeu ou não bebeu? Eu acredito que você bebeu cerveja, por que eu te vi bebendo pelo menos 10 garrafas! Agora, você diz que você não é você. Somente um bêbado faria isto. Ou talvez você tenha perdido algum parafuso.
Ele estava bêbado, e eu não tinha mais tempo para discutir com um bêbado. Eu deveria fazer alguma coisa...
- Escute. Eu não sou Schröder. Já que você não acredita em mim, veja minha identidade. O nome em minha identidade não é Schröder, mas Pedro, como eu te disse. E esta é minha foto. Viu?
Ele se aproximou e disse:
- Humm, este é um belo argumento. Um forte argumento, diria.
Depois de uma pausa, disse:
- Então, você tem uma identidade falsa, e acredita, que eu acreditaria em você sem provas? Você é engraçado, Schröder... Mas isto não foi bom. Se você trouxe uma identidade falsa, então você tinha a intenção de mentir. E isto é muito mal, Schröder... Eu não poderia confiar em uma pessoa assim... Você não tem mais argumentos? Está nervoso? Por que você fez isto? Eu não entendo isto...
Eu não tinha mais tempo... E a situação piorava cada vez mais... O que eu poderia fazer? Eu não sabia. O borracheiro estava totalmente bêbado, e não podia reconhecer mais a realidade. Minha única chance era jogar o mesmo jogo.
- Ok, ok... Eu sou Schröder... Eu só queria saber se você me reconheceria...
- Claro que eu te reconheceria. Você comeu grama ontem, quem se esqueceria disto?
Eu pensei na hora, que ele deveria estar fazendo isto de propósito. Como pode um homem falar tanta besteira?
- Ok, mas eu preciso agora de ajuda. Um cliente furou o pneu, e precisa de arrumar seu pneu. Você me ajuda?
- Claro que sim!
Assim consegui a ajuda dele. Ele reparou o meu pneu, e ficou feliz em me ajudar. Assim pude ir para meu trabalho. Durante o trajeto de volta, refleti sobre tudo que aconteceu. Algo me fez lembrar de um sentimento humano. Um sentimento onde você sabe de tudo, e somente você. Onde ninguém além de você pode falar ou ser ouvido. Este sentimento é como uma coroa, que faz de um homem o melhor homem do mundo.
Não, não é humildade. Humildade não embebeda as pessoas. Se ela pudesse embebedar, seria maravilhoso. Este sentimento é muito diferente da humildade. E ele embebeda as pessoas sim...
É engraçado quando você discute com um bêbado... O que ninguém sabe é que nós sempre discutimos com pessoas bêbadas. Eles são sempre iguais. Por exemplo, eu poderia ter contado sobre a discussão que eu tive com meu chefe, ao chegar no trabalho neste dia. Daria no mesmo. Só que não seria tão engraçado...
Eu ainda não sei como se chama este sentimento. Talvez vocês saibam?

Grandes filmes - 6

Assistir "A Queda" ("Der Untergang") significa receber um soco no estômago sem dó nem piedade, virtudes que foram cruelmente desprezadas na Segunda Guerra Mundial. 

O filme mostra os últimos dias de Hitler ("as últimas horas de Hitler" é o seu subtítulo), refugiado no seu bunker na Berlim sitiada pelos russos. 

Baseado nos relatos de Traudl Junge (interpretada pela excelente atriz romena Alexandra Maria Lara), que serviu como secretária pessoal do líder nazista por mais de dois anos, o filme mostra um Hitler acuado, delirante, movimentando exércitos imaginários no mapa de uma Alemanha destruída e esfacelada, e, mesmo assim, ainda encontrando uma obediência cega dos seus subordinados, algo que nem a derrota iminente conseguiu abalar. 

Talvez lutassem apenas por algumas horas ou dias de vida, ou soubessem que o julgamento dos inimigos (e principalmente da História) seria devastador contra eles. 

O filme causou bastante polêmica mundo afora, principalmente por supostamente mostrar uma face humana do monstro nazista, algo que se deve, sem dúvida, à brilhante interpretação de Bruno Ganz no papel principal. 

Entretanto, esta polêmica não se sustenta, porque os nazistas, gostemos ou não, eram tão humanos como qualquer um de nós, e, se elevaram o mal à sua enésima potência, isso não os reúne em outra subespécie, apenas demonstra como a maldade é inerente à condição humana. 

Uma cena do filme me chama a atenção em particular: o momento em que um dos generais resolve sugerir a Hitler uma rendição honrosa para salvar os alemães que morriam pelas ruas de Berlim. 

Hitler se descontrola, e, aos berros, diz que se o povo alemão não foi capaz de ganhar a guerra, merecia ser exterminado até o último homem. 

Guardadas as devidas proporções, obviamente, trata-se, a meu ver, de uma aplicação da teoria da seleção natural, de Darwin. 

Aliás, em sua monumental biografia de Hitler, Ian Kershaw dá especial ênfase ao "darwinismo social" que ele considera como a grande força motriz (o leitmotiv, portanto) da visão de mundo do Führer. 

Extrema a aplicação, é verdade, mas mostra a que ponto o cientificismo, sobretudo da segunda metade do século XIX, com a sua negação absoluta da religião, da moralidade e da fé, levou o mundo a uma catástrofe sem precedentes, menos de um século depois. 

Sem contar a influência da filosofia de Nietzche, e de seu Super-Homem (Übermensch), que é assunto para outro momento, mas quero me limitar à ciência, à filosofia (e ao cinema) por ora. 

É um filme que merece (e deve) ser assistido, com todos os cuidados e reservas, para que saibamos, pelo menos, identificar as raízes do mal, quando ele se nos apresenta. 

Ainda que o filme se restrinja a contar o final de uma catástrofe, lá estão, ainda, as causas que a originaram. 

Em resumo, "A Queda" não é só uma tragédia alemã, circunscrita a um determinado território e a alguns anos em meados do século XX. 

"A Queda" é - infelizmente - a miséria de todos nós.

Leia também meus comentários sobre o livro "Hitler", a biografia escrita por Ian Kershaw, clicando aqui.





terça-feira, 16 de setembro de 2008

Les misérables

Enquanto isso, na série
"Encontrando beleza em lugares improváveis",
um mendigo chileno canta Djavan...

Demut

Escrevi isto para treinar meu alemão...
(para ler a tradução para o português, clique aqui)







Eigentlich schreibe ich selten über mein Leben. Ich könnte besser sagen, dass ich nie schreibe. Schreiben ist zu mühsam und mein Leben ist zu langweilig. Niemand will etwas über das regelmäßige Leben eines normalen Menschen wissen. Aber gestern war es anders. Und ich muss das erzählen, weil es mich an ein menschliches Gefühl erinnert, dessen Name ich vergessen habe.
Gestern bin ich wie immer um sechs Uhr aufgestanden. Wie immer habe ich für zehn Minuten gebadet. Wie immer habe ich mein Brot mit Marmelade gegessen und meinen süßen Kaffee getrunken. Pünktlich um Viertel vor sieben, bin ich wie immer zur Arbeit gefahren.
Ach, könnte ich nur dieses Leben festhalten! Das wäre wunderbar. Aber manchmal drängen sich die Probleme einfach auf.
Deshalb hatte ich eine Reifenpanne. Und das genau während meiner Fahrt zur Arbeit. Ich konnte es fast nicht glauben. Ich würde zum ersten mal später zur Arbeit kommen. Aber nicht alles war verloren. Vor mir war eine Reifenwerkstatt.
Diese Reifenwerkstatt hatte etwas seltsames an sich. War sie schon um zehn vor sieben geoffnet? Was für einen Reifenflicker arbeitet da?
Ein Reifenflicker, der so früh arbeitet, muss so gut wie ich arbeiten, habe ich gedacht. Dann gäbe es keine Probleme, obwohl das so seltsam ist.. So habe ich entschieden, in die Reifenwerkstatt zu gehen und Hilfe zu hollen. Als ich ankam, sagte ich:
- Entschuldigen Sie, ich habe eine Reifenpanne um brauche Hilfe...
Die Reifenwerkstatt war total leer...
- Ist jemand da?
Niemand hat antwortete. Er könnte beschäftigt sein, habe ich gedacht. Dann bin ich weiter gegangen.
- Entschuldigen Sie, ich habe ein...
- Ach, da bist du Schröder!! Ich habe dich eine Stunde lang gesucht...
Ich habe niemanden gesehen. Dann habe ich mich umgesehen, aber leider fand ich immer noch niemanden.
- Aber ich bin nicht Schröder. Mein Name ist Peter...
Plotzlich ist ein Haufen etwas aufgestanden, den ich für einen Lappenhaufen gehalten hatte. Aber war es ein Mann, der Reifenflicker.
- Was? Bist du verrückt, Schröder?
- Ich bin nicht Schröder!! Ich habe eine Reifenpanne, und brauche Hilfe...
- Wie kannst du sagen, dass du nicht Schröder bist? Ich glaube dass du gestern zuviel Bier getrunken hast...
- Bier??? Ich trinke nur Cola!!
Ich wusste es nicht, aber der Reifenflicker vor mir hatte am Vorabend ein Party gemacht. Schröder, der echter Schröder, war vermisst. Er hatte zuviel Bier getrunken, und geglaubt, dass der Lastwagen, dessen Reifen er repariert hatte, sein Zimmer war... Der Fahrer, der auf der Party war, hatte ihn nicht gesehen, als er auf die Ladefläche des Lastwagens gestiegen war. Da hatte er 300 Kilometer lang geschlafen, und der nicht so betrunkene Fahrer hatte ihn noch nicht gefunden...
- Ha, ha... Ich finde dass sehr komisch, “Herr” Schröder. Könnten Sie hier herkommen, oder nicht?
Es war klar für mich, dass der Reifenflicker betrunken war. Nicht nur sein Zustand zeigte das an, sondern auch seiner Bierfahne… Und jetzt hatte er den Mut zu sagen, dass ich Bier getrunken hätte.
- Schau mal! Du hast zuviel getrunken. Ich bin Peter, und hatte eine Reifenpanne. Ich möchte Hilfe und zwar jetzt!
- Ich muss dir leider widersprechen, Schröder!! Gestern habe ich dich mindestens 10 Flaschen Bier trinken sehen. Dann bist du es, Schröder, der zuviel Bier getrunken hat. Und wenn du zuviel Bier getrunken hast, dann kannst du nicht sagen ob ich auch zuviel oder nicht zuviel Bier getrunken habe.
- Ich bin nicht Schröder!!!!
- Wir sprechen hier nicht darüber wer du bist, Schröder. Das wissen wir schon. Es geht hier um die Frage: hast du oder hast du nicht getrunken? Ich glaube dass du Bier getrunken hast, weil ich dich mindestens 10 Flasche Bier habe trinken sehen! Jetzt sagst du, dass du nicht du bist. Nur ein Betrunken würde das machen! Oder du hast nicht alle Tassen im Schrank.
Er war betrunken, und ich hatte keine Zeit, mit einem Betrunkenen zu diskutieren. Ich musste etwas machen...
- Hör mal. Ich bin nicht Schröder. Weil du mir nicht glauben willst, sieh in mein Personalausweis. Der Name in meinem Personalausweis ist nicht Schröder, sondern Peter, wie ich gesagt habe. Und das ist mein Foto. Siehst du?
Er näherre sich mir, und sagte:
- Humm, das ist ein schönes Argument. Ein starkes Argument, würde ich sagen.
Nach einer Pause, sagte:
- Also, du hast einen falschen Ausweis, und glaubst, dass ich das ohne Beweis glauben würde? Du bist komisch, Schröder... Aber, das war nicht gut. Wenn du ein falsche Ausweis trägst, dann hattest du die Absicht zu lügen. Und das ist zu schlecht, Schröder... Ich könnte kaum einer solchen Person vertrauen. Hast du kein Argument mehr? Bist du nervös? Warum hast du das gemacht? Ich verstehe das nicht...
Ich hatte keine Zeit mehr... Und die Situation wurde immer unerträglicher... Was konnte ich machen? Ich wusste es nicht. Der Reifenflicker war total betrunken, und konnte die Realität nicht mehr klar erkennen. Meine einzige Chance war, meine Rolle zu spielen.
- Ok, ok... Ich bin Schröder... Ich wollte wissen, ob du mich erkennen würdest...
- Natürlich würde ich dich erkennen. Du hast gestern Gras gegessen, wer würde das vergessen?
Ich dachte, dass er nur absichtlich gesagt hätte. Wie kann ein Mann nur so viel Quatsch sagen?
- Ok, aber ich brauche jetzt Hilfe. Ein Kunde hat eine Reifenpanne, und möchte seinen Reifen reparieren lassen. Hilfst du mir?
- Natürlich ja!
So erreichte ich, dass er mir half. Er reparierte meine Reifen und war glücklich, mir zu helfen. Dann konnte ich zur Arbeit fahren. Während der Fahrt habe ich über alles nachgedacht. Etwas hat mich an ein menschliches Gefül erinnert. Ein Gefül, wo ich allwissend bin, und nur ich. Wo niemand außer mir sprechen oder gehört werden kann. Dieses Gefül ist wie eine Krone, die einen Mann zum besten Mann in der Welt macht.
Nein, das ist nicht Demut. Demut berauscht nicht die Leute. Wenn sie sie berauschen könnte, das wäre wunderbar. Dieses Gefül ist anders als Demut. Und es berauscht die Leute...
Es ist komisch wenn jemand mit einem Betrunkenen diskutiert... Niemand weiß, dass wir immer mit betrunkenen Leuten diskutieren. Sie sind immer gleich. Zum Beispiel ich könnte von mein Diskussion mit meinem Chef erzählen, als ich später zur Arbeit kam. Es wäre dasselbe. Aber die war nicht so komisch...
Ich weiß noch nicht wie ich dieses Gefühl nennen könnte. Vielleicht kennen Sie?

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Tempo oportuno



O tempo é um enigma que a humanidade vem tentando decifrar há milênios. 

Até Einstein, a ciência o considerava absoluto e imutável. 

A única alternativa era esperá-lo passar. 

Coube ao gênio da física inferir que, considerados à velocidade da luz, tempo e espaço eram grandezas relativas. 

Trazendo o tema para o campo da fé, Deus se revela no tempo e na história, e o modo pelo qual Ele faz isso não é absoluto, nem relativo, mas - em linguagem bíblica - oportuno. 

E é a Bíblia a melhor demonstração disso, contando a história do povo de Deus ao longo dos milênios. 

Afinal, Jesus veio ao mundo no tempo oportuno (Marcos 12:2; Lucas 20:10; 1ª Timóteo 2:6).

Já nós, humanos, somos seres que nascemos, atuamos, interagimos, e nos despedimos num determinado momento do tempo. 

Somos circunstanciais, enquanto Deus é eterno. 

Tiago (4:14) descreve a vida como um vapor que aparece por pouco tempo e logo se desvanece, mas, na nossa curta existência, o Senhor coloca dentro do nosso coração este desejo, este sentimento, este vislumbre da eternidade (Eclesiastes 3:11). 

No mesmo livro, onde diz que há tempo para tudo (3:1-8), o Pregador ressalta que o tempo e a oportunidade ocorrem a todos (9:11); logo, aproveitar o tempo e todas as oportunidades que ele nos oferece é um conselho sábio de Paulo (Efésios 5:16, Colossenses 4:5). 

Temos sempre a oportunidade de fazer o bem, não só aos outros mas principalmente a nós mesmos (Gálatas 6:9-10, Filipenses 4:10), e há aqueles que, como aconteceu à enteada de Herodes, aproveitam a oportunidade para fazer o mal (Marcos 6:21), ou para manipular o bem que outros fizeram (2ª Coríntios 11:12). 

A oportunidade sempre aparece para que digamos a palavra certa no tempo adequado.

Podemos deixá-la passar, e assim nos tornarmos omissos, ou dizer a palavra fora de tempo (ou de propósito), correndo o sério risco de sermos inconvenientes. 

Salomão compara a palavra dita a seu tempo a maçãs de ouro em salvas de prata (Provérbios 25:11, ver também 15:23). 

Como o servo sofredor profetizado por Isaías, podemos pedir a Deus que saibamos dizer boa palavra ao cansado. 

"Ele me desperta todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça como aqueles que aprendem" (Is. 50:4). 

Como cristãos, temos, mais que a obrigação, o prazer de aproveitar as oportunidades de dar testemunho da nossa fé (Lucas 21:13, 2ª Coríntios 5:12), enquanto aguardamos o tempo oportuno em que nosso Senhor e Rei se manifestará em glória (1ª Timóteo 6:15), sempre alertas, entretanto, porque o mal absoluto também aproveita as ocasiões de se manifestar (2ª Tessalonicenses 2:6), conforme a própria história da humanidade insiste em comprovar. 

C. S. Lewis teve oportunidade de observar isso, imaginando uma carta do Diabo a um aprendiz, em que o coisa-ruim dizia o seguinte:

Os seres humanos vivem no tempo. Porém o Inimigo os destinou à eternidade. É por isso, acredito, que ele quer que os homens atentem basicamente para duas coisas: a própria eternidade e aquele ponto do tempo que chamam de presente. O presente é o ponto em que o tempo toca a eternidade. É no momento presente, e nada mais do que no momento presente, que os seres humanos têm experiências semelhantes àquela experiência que o nosso Inimigo tem da realidade como um todo; é somente nele que lhe são oferecidas a liberdade e a realidade. É por isso que ele quer que os homens estejam constantemente ligados ou com a eternidade (o que significa mantê-lo em mente) ou com o presente – quer seja meditando sobre sua união eterna com ele ou separação dele, ou então, obedecendo à voz presente da consciência, carregando a cruz de hoje, recebendo a graça para hoje e dando graças pelo prazer no presente.

(transcrito de "Cartas do Diabo a seu Aprendiz", em "Um Ano com C. S. Lewis – Leituras Diárias de suas Obras Clássicas", Ed. Ultimato, 2005, p. 279)

Em suma, nós, cristãos, somos privilegiados porque recebemos, no nosso tempo finito – presente -, a visita do Deus infinito. 

Como lembra Paulo, fomos agraciados com "uma fé e um conhecimento que se fundamentam na esperança da vida eterna, a qual o Deus que não mente prometeu antes dos tempos eternos. No devido tempo, ele trouxe à luz a sua palavra" (Tito 1:2-3), pela qual vivemos e experimentamos a doce invasão do Eterno nas nossas vidas passageiras neste mundo. 

Há momentos, entretanto, em que nossas mãos fraquejam, nossos pés escorregam, nossa vida, aparentemente, se esvai, e o tempo se torna um fardo pesado demais para carregar. 

É nessa hora em que todas essas verdades devem ser lembradas, para que façamos como aconselha o escritor de Hebreus (4:16): "Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno". 

Afinal, como lembra o salmista, a natureza se alegra em Deus e espera dEle o seu sustento em tempo oportuno (Salmo 104:27). 

O maná que sustentou o povo de Israel no deserto por 40 anos, durava apenas um dia, com exceção da provisão dupla para o sábado, recebida na sexta-feira (Êxodo 16). 

Não adiantava guardar o maná para o dia seguinte, pois o tempo oportuno para comê-lo havia se esgotado. 

Entretanto, sempre caía maná no dia seguinte. 

Se hoje não é o tempo oportuno, não nos desesperemos, vamos com confiança ao trono da graça, lá há tempo e oportunidade, mas principalmente graça, sempre...

Pedágio? Enjoy!

O Brasil é mesmo um país bem original. Deve ser o único lugar no mundo onde concessionária de pedágio faz propaganda das suas rodovias. Considerando-se que publicidade na televisão não é de graça (pelo contrário, custa muito caro), somos obrigados a deduzir que sobra tanto dinheiro nas receitas provenientes dos valores abusivos dos pedágios no Estado de São Paulo, que a CCR (grupo que reúne as concessionárias das principais rodovias do RJ e de SP) se dá ao luxo de fazer propaganda das suas estradas, talvez preocupada com a crescente cobrança no sentido contrário, ou seja, muita gente simplesmente deixa de viajar, ou escolhe os raríssimos caminhos alternativos (onde há) para fugir da ânsia de lucro do grupo. Quem sabe, se a CCR destinasse o valor da publicidade para a diminuição do valor dos pedágios, trazendo-os a níveis civilizados, o resultado seria melhor para todos.

Veja também: Um basta! aos pedágios abusivos

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Pequeno balanço olímpico

A Olimpíada terminou no último domingo, e já dá para fazer um pequeno balanço do desempenho brasileiro em Pequim-2008. Algumas primeiras conclusões:

1) Uma pena que as meninas do futebol não tenham ganho a medalha de ouro. Talvez seja o caso de repensar algumas atitudes, como as excessivas firulas e o descontrole de algumas jogadoras, como a Marta, que só não foi expulsa contra a Alemanha por um descuido (ou excessivo respeito) da árbitra. A gente gosta e quer jogo bonito, mas dá pra combinar com um pouco de seriedade e pragmatismo;

2) A seleção masculina de futebol foi até longe demais com o Dunga, que está mais para Zangado ultimamente, e o totalmente-fora-de-forma-física-e-técnica Ronaldinho. Do Alexandre Pato, é melhor não esperar nada, pois jogador, mesmo jovem, que assim que chega a ter um destaque, liga pra uma atriz global pra ver se encaixa um namoro, certamente não entendeu o que é ser um profissional de alto nível. Que compre uma chácara em Pato Branco, monte uma cidade cenográfica para sua atriz, contrate a Bozena para o talk-show local, e sejam todos muito felizes para sempre; só deixem o futebol para quem realmente se interessa pelo esporte.

3) As meninas do vôlei finalmente desencantaram. Aquele 24x19 contra a Rússia em Atenas-2004 ainda vai ficar entalado na garganta por longas décadas, mas elas exorcizaram o fantasma do amarelão que as assombrava. Acho que finalmente poderei assistir as partidas delas ao vivo. Antes, eu só me preocupava com o resultado. Ah... confesso... não vi a final ao vivo..... o trauma de telespectador olímpico de Atenas ainda era muito presente....

4) Os rapazes do vôlei decepcionaram. Aliás, já vinham decepcionando desde o ano passado, com todo aquele imbróglio envolvendo o corte do Ricardinho (já comentado aqui). Pelo jeito, o problema deles era grana mesmo, tanto que o presidente da CBV, Ary Graça, já havia até estipulado o prêmio de R$ 4.700.000,00 pela medalha de ouro, com bastante antecedência, para evitar a polêmica que havia atingido a seleção antes do Pan do Rio. Por mais que tentem negar, o fato é que Ricardinho fez falta, não só com sua genialidade como levantador, mas também – pasmem! – pela sua capacidade de liderar e mexer com o grupo. Nada contra o Marcelinho, que até jogou bem, só que não dá pra ele atingir o nível do Ricardinho, seja como jogador, seja como líder. É óbvio que o Ricardinho não é nenhum santo, e o seu temperamento explosivo contribuiu para a divisão do grupo, mas o Bernardinho errou ao não saber administrar a situação. Talvez tenha esticado demais a corda, e ela se rompeu, infelizmente. Pior pra todos nós.

5) As moças e o rapaz da ginástica artística precisam de tratamento psicológico urgente. A atitude deslumbrada do Diego Hypólito, ainda na fase classificatória, prenunciava a tragédia. Parecia que ele achava que a medalha de ouro já estava garantida, e era tudo uma questão de tempo. Ria compulsivamente e chamava: "Que venham os leões!". Pois é... os leões vieram e o devoraram, justo no passo final da sua rotina, levando sua esperança e sua arrogância para o chão. Já as meninas foram a Pequim, ao que parece, para chorar. Jade Barbosa era uma manteiga derretida.... qualquer coisa, ela abria o bocão. Então, se é pra chorar, que chorem aqui no Brasil mesmo, e tanto eles como nós passamos menos vergonha.

6) Maurren Maggi foi só superação. Medalha de ouro merecida numa prova tão simples (e com tão poucos concorrentes) que a gente fica sem entender por que é que não produzimos mais campeões nos saltos. Pelo menos, Maurren teve a consciência e a concentração necessárias para uma campeã. Caprichou no primeiro salto e meteu pressão nas demais saltadoras. Um salto cerebral, sem dúvida, que merece todos os elogios.

7) Jadel Gregório, por sua vez, comprovou que, como saltador, ele é um ótimo animador de torcida. Verborrágico, é especialista em soltar bravatas sobre seu desempenho, que, infelizmente, ficam apenas no mundo da fantasia. Se falasse menos e saltasse mais, pelo menos uma medalha de bronze dava pra beliscar. E olha que o sueco campeão olímpico de Atenas nem apareceu, devido a uma contusão alguns dias antes dos Jogos iniciarem.

8) César Cielo mostrou que, se dependesse do apoio do COB e da CBDA, não teria ganho nada em Pequim. Sorte dele que tem pais que investiram no próprio filho. Esta é uma medalha da família, e do país também, mas não das organizações que dirigem a natação e o esporte olímpico.

9) O Brasil revelou toda a sua incompetência (pra dizer o mínimo) na administração dos mundos e fundos que são dirigidos ao esporte olímpico, pelas muitas leis de incentivo. Há estatísticas que variam de R$ 692 milhões a R$ 1,4 bilhão de dinheiro público que foi destinado às várias confederações para se prepararem para Pequim. Onde é que foi parar este dinheiro é que é o x da questão. Certamente, não foi parar na preparação do Eduardo Santos, judoca que perdeu na repescagem e pediu desculpas, chorando, aos seus pais, que, sofridamente, haviam investido na sua carreira. Nem na preparação de Rosângela Conceição, a Zanza, que, muito dignamente, representou o país na luta greco-romana. Enquanto Carlos Arthur Nuzmann dirigir o COB como se fosse um happy-hour num boteco do Leblon, o Brasil vai ter que amargar muitas decepções como as que tivemos em Pequim.

10) A cobertura esportiva foi um capítulo à parte. O Sportv e a ESPN Brasil empataram em revezamento dos piores comentaristas esportivos. Um desastre total. A Globo despejou toda a sua tradicional empáfia. A única vantagem que se pode antever na cobertura da Record, nos próximos Jogos Olímpicos de Londres – 2012, é o fato de não termos mais que tolerar as idiotices de Galvão Bueno nem as crônicas jadebarbosianas do Pedro Bial. Talvez seja o caso da gente já iniciar um abaixo-assinado pra pedir ao Bispo Macedo para não contratá-los jamais.

11) Deixo as meninas do basquete fora de qualquer consideração. Com a baderna instalada na CBB, já foi um feito elas terem se classificado para as Olimpíadas, coisas que os rapazes não conseguem desde Atlanta-1996. Enquanto não reconstruírem a casa do basquete no Brasil, é melhor considerá-lo como um esporte não-olímpico, pelo menos por aqui. Evita maiores decepções....

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Eclesiastes - capítulo 10

Leitura anterior: Eclesiastes - capítulo 9

Eclesiastes está chegando ao final, e o discurso do Pregador se encaminha para uma conclusão. Existe algum sentido na vida, afinal? Se existe, qual é? 

Até o capítulo 9, o Pregador veio desconstruindo uma série de certezas que pensamos ter sobre a vida. 

Ironicamente, a única certeza que temos é a morte. O senso comum nos mostra que as mesmas coisas acontecem para justos e injustos, e que crentes e descrentes se equiparam nas circunstâncias cotidianas da vida, sejam elas tristes ou felizes. 

O sol nasce para todos, indistintamente. O capítulo 10 marca uma transição, em que o Pregador compara a sabedoria e a estultícia. "Estultícia" é um sinônimo mais formal de "tolice". 

No capítulo 2, ele já tentara se embriagar para que a estultícia se apoderasse dele (v. 3) e deixara claro que o que acontece ao sábio, também acontece ao estulto, ao tolo (vv. 15-16), mas agora é hora de marcar posição, e, para tanto, ele faz uma comparação muito simples, dizendo que a estultícia na vida de quem busca a sabedoria é como a mosca morta que estraga o perfume. 

A exemplo do que nos aconselham Jesus (Lucas 21:36), Paulo (1 Coríntios 16:13), e Pedro (1 Pedro 4:7 e 5:8), devemos estar sempre vigilantes não só quanto ao mal em si, mas também quanto às tolices, as bobagens, que somos tentados a fazer, aceitar ou vivenciar todo dia. 

Aquelas coisas pequenas, que aparentemente não têm nenhuma importância, podem estragar não só o nosso dia, mas às vezes uma vida toda. As versões católicas são mais felizes na tradução deste v. 1 (que é uma continuação de 9:18) para o português:

"Uma mosca morta estraga um perfume, uma migalha de insensatez conta mais que muita sabedoria." (Bíblia do Peregrino)

"Moscas mortas infectam e fazem fermentar o ungüento do perfumista; uma pequena tolice pesa mais que a sabedoria, que a glória." (Tradução Ecumênica)

Dietrich Bonhoeffer, pastor (e grande teólogo) alemão, que foi preso por conspirar contra Hitler, e depois enforcado a mando deste, alguns dias antes da guerra acabar, chamou a atenção para a estultícia, a tolice, que aos poucos foi se impregnando num povo tido como sábio, que é o povo alemão, a ponto de resultar na gigantesca tragédia que foi a Segunda Guerra Mundial, onde o mal parece ter chegado ao apogeu na humanidade. 

No início do seu cativeiro, em 1943, ele escreveu um texto intitulado "Sobre a tolice" (para acessar o texto completo, clique aqui), em que diz o seguinte:
A tolice é um inimigo mais perigoso do bem do que a maldade. Contra o mal se pode protestar, é possível desmascará-lo, pode-se, em caso de necessidade, impedi-lo com o uso da violência. O mal sempre já traz em si o germe da auto-desagregação, pelo fato de deixar ao menos um mal-estar na pessoa. Contra a tolice não temos defesa. Nada se consegue com protestos nem com violência; argumentos não adiantam; a fatos que contradizem o próprio preconceito não se precisa dar crédito – em tais casos o tolo até mesmo se torna crítico – e se esses fatos são incontornáveis, simplesmente se pode pô-los de lado como casos isolados sem significado. iferentemente do malvado, o tolo está completamente satisfeito consigo mesmo; ele até mesmo se torna perigoso, pois facilmente se sente provocado e passa à agressão. Por isso, recomenda-se mais cautela em relação ao tolo do que ao mau. Nunca mais tentaremos persuadir o tolo com argumentos; é inútil e perigoso.

(BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão. Ed. Sinodal, 2003, p. 33)

Hoje, olhando pelo retrovisor da História, ficamos com a impressão de que Bonhoeffer lutou contra um mal muito visível, um monstro com enormes garras, chamado nazismo, e nos esquecemos facilmente de que uma série de pequenas permissões à estultícia de um "salvador da pátria" personificado em Hitler, fez com que uma imensa tragédia se abatesse sobre toda a humanidade, e não só a Alemanha. 

E tudo começou de maneira bem simples, contaminando e corrompendo a civilização alemã a ponto de levá-la à barbárie da guerra e do holocausto. 

Talvez seja o caso de procurarmos identificar, atualmente, quais são as pequenas idiotices que toleramos na Igreja, imaginando-as inofensivas, quando têm não o poder de destruí-la, mas a possibilidade concreta de solapar muitas das bases em que nos firmamos ao longo dos séculos.

Desta maneira, o capítulo 10 de Eclesiastes é um libelo contra a estultícia, a tolice, a idiotice, que, por pequenas que sejam, ameaçam o caminho da sabedoria de qualquer um. 

Os três primeiros versículos anunciam a tônica de todo o capítulo. A questão do lado direito (para onde se inclina o sábio) e do lado esquerdo (para onde vai o tolo), longe de ser um preconceito contra os canhotos, refere-se a uma simbologia bíblica que associa a bondade divina ao lado direito e a punição ao lado esquerdo, como no dia do juízo final previsto por Jesus em Mateus 25:32-46. 

Para o Pregador, o tolo pode até tentar parecer sábio (como geralmente acontece), mas chega um determinado momento em que toda a sua estultícia é exposta publicamente, conforme diz o v. 3. 

Controlá-la, dominá-la, escondê-la, exige um esforço gigantesco que geralmente não resiste às pressões da vida. 

Salomão ainda dá um conselho prático para aqueles que se deparam com alguém em posição superior (v. 4), dizendo que a serenidade aplaca a ira do governador. 

Isto não o impede de ver que, como também costuma acontecer, muitas vezes o tolo está em posição de honra, enquanto o rico (que pode ser entendido tanto em sentido literal como figurado) está colocado em posições mais baixas (vv. 5-7). 

O v. 8, que diz que "quem abre uma cova nela cairá, e quem rompe um muro, mordê-lo-á uma cobra", pode ser interpretado no mesmo sentido, por exemplo, de Provérbios 26:27 ("O que faz uma cova cairá nela; e a pedra voltará sobre aquele que a revolve"), ou seja, quem faz o mal, o mal receberá, que podemos comparar ao que Paulo escreveu em Gálatas 6:8 - "Porque quem semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas quem semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna". 

Os versos seguintes seguem a mesma linha. Quem arranca pedras, provavelmente para uma briga (v. 9), pode ser atingido por elas, e é possível ligar esta idéia aos "tempos" de Eclesiastes 3:5, "tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar". 

O v. 10 chama a atenção para as pessoas que se fiam no seu conhecimento acumulado, que nem sempre é sabedoria. 

Assim como o ferro embotado, que não tem o corte afiado, é a sabedoria daquele que acumulou conhecimento mas não se preocupou em colocá-lo em prática, nem em revisitá-lo constantemente e desenvolvê-lo. 

O v. 11 revela que, como toda cidade importante daquela época, em Jerusalém também havia "encantadores" de serpente, que não eram propriamente bruxos ou feiticeiros, mas artistas populares que ganhavam a vida divertindo o povo nas ruas com suas técnicas de domar as serpentes. 

De nada adiantaria exibir esta habilidade e ser mordido por elas. Por analogia, de nada adianta a sabedoria se ela não serve para instruir, prevenir, planejar, construir, e, principalmente, se defender dos perigos da vida. 

É interessante constatar que, alguns séculos depois, diante da destruição iminente de Jerusalém (e do reino de Judá) pela Babilônia, Jeremias profetizava da parte de Deus: "Porque eis que envio para entre vós serpentes, áspides contra as quais não há encantamento, e vos morderão, diz o SENHOR" (Jeremias 8:17).

A partir do v. 12, o Pregador volta a criticar a estultícia com mais veemência. "Nas palavras do sábio, há favor", ou seja, há graça, pois o sábio, numa visão neotestamentária, pode ser comparado ao homem que segue o conselho de Paulo: "Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que seja boa para a necessária edificação, a fim de que ministre graça aos que a ouvem" (Efésios 4:29). 

Salomão valoriza as palavras do sábio e reprova as do tolo, chamando-as de "loucura perversa" (v. 13). Conforme a experiência da vida nos ensina, geralmente o tolo "multiplica as palavras", ou seja, age como os gentios quando oravam, criticados por Jesus, que disse que eles pensavam que "pelo seu muito falar, serão ouvidos" (Mateus 6:7). 

Não só na oração, mas na vida, em geral, as pessoas tolas, que querem parecer sábias, se metem a falar de tudo freneticamente, na esperança de que suas bobagens não sejam percebidas no meio da sua verborragia, e possam passar uma imagem de sabedoria que não têm. 

Ao dizer que o tolo "nem sabe ir à cidade" (v. 15), além de mostrar o excesso de trabalho que a falta de sabedoria acarreta ao homem do campo, mostra que o tolo não procura se instruir. 

Naquela época, não havia escolas, e as cidades eram os locais onde se encontravam os sábios, geralmente discutindo em praça pública ou no templo. 

O tolo sequer se interessava em dirigir-se às cidades, pois a sabedoria estava longe dele em todos os sentidos da palavra "longe". 

O Pregador critica ainda a terra cujo rei é uma criança (v. 16) e cujos príncipes festejam já de manhã (ou ainda pela manhã), o que revelava a ociosidade do seu povo inconsequente. 

Já feliz era a terra em que seu rei era filho de nobres, ou seja, tinha tido boa educação, e os seus príncipes faziam tudo no seu devido tempo, sem se dedicar a bebedeiras (v. 17). 

A preguiça é criticada (v. 18), num contraste com o que o Pregador vinha dizendo até então, ou seja, que tudo era vaidade, e que de nada adiantava trabalhar. 

Obviamente, isto deve ser entendido dentro do equilíbrio que ele passa a propor, ou seja, o trabalho é bom, a preguiça deve ser evitada, mas tudo deve ser feito com equilíbrio e temperança, reservando tempo, inclusive, para não pensar em trabalho. 

O dinheiro pode atender a tudo na vida (v. 19), mas este versículo deve ser lido em conjunto com Eclesiastes 7:12, ou seja, "a sabedoria protege como protege o dinheiro; mas o proveito da sabedoria é que ela dá vida ao seu possuidor". 

Por fim, o Pregador pede cuidado com as palavras. Naquela época, as casas das cidades e das vilas eram pegadas umas às outras, e geralmente havia pátios internos ou praças externas interligando-as, então, tudo o que alguém falasse dentro do seu quarto podia muito bem ser ouvido pela vizinhança. 

Logo, era aconselhável que cada um guardasse os seus pensamentos para si, principalmente aqueles contrários aos ricos e poderosos (v. 20). 

A meu ver, a conclusão do capítulo 10, em relação ao sábio, pode muito bem ser relacionada a Filipenses 4:8 – "Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai".



Leitura seguinte: Eclesiastes - capítulo 11


segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Aquela misteriosa alegria...

Debaixo do sol escaldante, procurava algo que não sabemos...

- Onde está? - repetia mentalmente para si.
- Onde caiu?

Não tinha idéia de onde poderia ter caido tal preciosidade. Estivera procurando toda vida por aquilo. E agora que tinha a chance de encontrar, não estava conseguindo... Porém, seus companheiros já haviam encontrado... E já estavam desfrutando de seu achado... Contentes, rindo uns com os outros... Se pudessem, cantariam tão bem como o melhor coral dos melhores anjos. E não é por falta de tentar. Aliás, eles sempre tentaram fazer não só isto, mas muitas outras coisas...

E aquela alegria toda contribuía ainda mais para que ele não encontrasse o que procurava... Ele tinha que fazer alguma coisa... Por que só ele não o encontrava? O que há de errado com ele? Por quê?

A exclusão é dolorida, a solidão é uma tortura. Ele não queria ficar daquele jeito sempre... Ele tinha que encontrá-las. Deveria haver alguma forma... Se aqueles ali ao seu lado encontraram, por que ele não encontraria? Eles não eram diferentes dele. Talvez até fizesse de conta que tivesse encontrado, para se aproximar e descobrir como fizeram. Isto também o ajudaria a se concentrar mais em sua busca.

Então, com toda humildade do mundo, se aproximou daquela algazarra. Não se mostrou soberbo, não estava tentando ser melhor que ninguém. Foi educado, cordial, atencioso. E os que já riam, riram dele. Tentou rir juntamente com eles, como se aquilo tudo fosse uma brincadeira costumeira entre os ali presentes. Não conseguiu. Sua situação estava deveras séria, para que despertasse em si uma vontade, principalmente a vontade de rir. E aqueles ali perceberam que sua risada era falsa. Era uma risada sem vontade, forçada, aparente. Viram o riso, não viram a humildade. Não viram a educação, a cordialidade, a atenção. Viram sua imagem mas não o viram. E assim, riram. Então, mergulhado em mais profunda tristeza, começou a se afastar. Antes porém, direcionou sua atenção para o achado daqueles que estavam ali... Mas achou algo estranho...

- Mas, estavam felizes com isto? O que significa isto tudo?

Em sua mente, um turbilhão de idéias aflorou. Já tinha visto aquilo que eles tinham em mãos... Mas jamais pensaria que era aquilo que ele deveria procurar, pois aquilo sim lhe daria a alegria esperada. Uma alegria que ri não das imagens, mas uma alegria que convida todos a rirem unidos, sem tom de críticas.

E se aquilo não existir? Se aquilo for uma ilusão? Já bem sei que muitos dos que acharam aquilo, o deixaram de lado, se cansaram de rir um da cara do outro, e resolveram abandoná-lo. Pois eu achava um absurdo que fosse possível abandoná-lo, dado tamanha alegria que proporciona àqueles que o detém. Agora vendo o que acharam, fico na dúvida se tal coisa realmente existe.
E caminhou lentamente para um canto, onde pudesse efetivar sua solidão. Sentou-se ao chegar ali, e não muito depois, um pássaro azul, de beleza inigualável, sentou-se em uma árvore próxima. Não muito depois, iniciou um canto que ele jamais ouvira. Um canto tão belo, que tinha a impressão que aquele momento seria único. Um canto mais belo que aqueles ouvia tentarem. Isto o fez mergulhar novamente em seus pensamentos.

- É verdade que não se joga pérolas aos porcos. Por isto não as encontrei com eles. Antes, a lavagem que detinham é para eles suas pérolas. E quem que jogaria esta lavagem, senão o criador de porcos? Ele não está interessado na alegria deles, está interessado em sua própria alegria. E sua própria alegria custará a vida destes porcos que há pouco riram de mim. Tenho pena deles. Acharam que poderiam ver intenções ocultas, por que me viram sorrir falsamente. Mas eles não descobriram por que agi assim. E não vão descobrir nunca por que o seu criador age assim. Antes, estão satisfeitos com sua lavagem, que fez suas cabeças. Então, que continuem com sua alegria verdadeiramente falsa. Continuem com seus rituais, seus julgamentos, suas leis, suas vestimentas, suas condutas, seus instrumentos musicais, sua pompa, sua castidade e com toda sua exegese para defendê-los. Continue com sua lavagem.

E latindo agora de forma alegre, concluiu:

- Eu não voltarei a meu próprio vômito, não eu. Não vou mais deixar que a lama atrapalhe meu olfato. Nunca mais.

E partiu em sua busca, sabendo que certamente encontraria aquelas pérolas já há muito tempo prometidas. Mas o sorriso em sua face já denunciava que de alguma forma misteriosa, ele já havia encontrado...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Viva o progresso!

Recentemente, lendo o jornal, me deparei na seção de cartas dos leitores, com o comentário de um leitor que comemorava a recente aprovação do estudo de células-tronco no Brasil. A comemoração de fato, foi apenas um pretexto para uma crítica à religião como um todo, já que a oposição à este estudo partiu de religiosos. Eu sinceramente desconheço toda a argumentação usada neste debate. Me parece que o que está envolvido é a decisão de se usar células que formariam um novo ser humano, para o tratamento de doenças em pessoas que já nasceram. Seria então um caso de se escolher qual vida sobreviveria. Minha intenção aqui não é discutir o tema e todos os argumentos envolvidos. O que me chamou a atenção em tudo isto foi a crítica deste leitor à religião, como algo que atrapalha o progresso. Isto me chamou a atenção, e pelo visto esta é uma opinião aceita por muitas pessoas hoje em dia.

Por isto, resolvi também comemorar o progresso, relembrando os grandes feitos em seu nome.


O progresso é sempre citado como um mantra, que encanta as multidões, e faz a cabeça de milhares. É tão eficaz neste papel que seria natural que entre as magias conjuradas pelo conhecido bruxo infantil Harry Potter haja uma magia chamada progressum mentalis para controle de mentes. Mas toda boa mágica, principalmente em livros infantis, precisa de um elemento extraordinário. Precisa fugir da realidade. O progresso já é muito bem usado pelos nossos magos da política. Os mais antigos destes magos já inseriram em 19 de novembro de 1889 o mantra em nossa bandeira, e desde aquele dia esperamos tanto a ordem como o progresso prometido. Alguns hoje acham que este progresso seria encher nossas estradas de pedágios ou vender tudo que o país conseguiu construir em toda sua história, e o governo é ruim justamente por que não promove este progresso.


Este poder de encantar se deve em parte por que o progresso é quase um padrão moral universal, e poderia muito bem ser adotado pelo sistema internacional de medidas. Quando uma coisa é ruim, ela atrasa o progresso, quando é boa ela faz o mundo progredir. E por isto religião é ruim, pois atrasa o progresso, pelo menos nossa noção atual de progresso, fique isto bem claro. Pois a religião na idade Média também supunha estar fazendo o mundo progredir, queimando seus hereges e fazendo um mundo espiritualmente mais uniforme (e mais obediente também). O tempo passa, o tempo voa, e o conceito de progresso não continua "numa boa". Esta indefinição sobre o que é o progresso, que ajuda os magos do progresso a progredirem a nível pessoal. Não é à toa que quem dita as regras dita também o conceito de progresso. O catolicismo da Inquisição ditava o que era o progresso, hoje governos ditam o que é o progresso. Progresso é a encarnação das vontades dos poderosos, independente de seu nível de poder. Veremos isto adiante.


O progresso que temos que comemorar hoje é o progresso tecnológico. A ciência impulsiona o progresso. Devemos agradecer à ciência por nos dar o computador, telefone, televisão, internet, por melhorar a nossa qualidade de vida no geral. Muitas doenças possuem hoje um tratamento eficaz graças a este progresso científico. Hoje eu sei que tudo que eu sinto, de amor a ódio, na verdade é simplesmente resultado de reações em meu organismo, mediadas por enzimas ou hormônios. Tenho que agradecer pelo fato de não sentir mais medo, agora o que tenho é muita adrenalina no sangue. Medo é uma ilusão. Com todo este progresso, até minha vontade está correndo risco de se tornar uma mera ilusão. Pobre Platão, que achava que a realidade era o mundo das idéias. A ciência, ou melhor, o positivismo lógico conseguiu inverter os papéis do mundo das idéias e o mundo dos sentidos de Platão. O mundo dos sentidos é a realidade que existe por trás do mundo das idéias, este sim o que vivemos. Claro, isto tudo se colocarmos a ciência como única capaz de explicar nosso mundo, como o positivismo lógico afirma e como parece ser o rumo que a coisidade está tomando.


E como estamos cada dia progredindo mais para que deixemos de ser humanos para ser alguma coisa, poderíamos até nos perguntar se nossa vida está realmente melhorando. Será que somos vivos mesmo, ou esta é apenas mais uma convenção de nosso ilusório mundo? É por isto que devemos sempre comemorar as novas conquistas da ciência, que nos dá a vida através das pesquisas com células tronco, enquanto a tira sorrateiramente de nós através dos conceitos que adotam. Atualmente vivemos uma total desconstrução do homem, comemoraremos muito quando conseguirem completar esta árdua tarefa. Será um grande progresso, e muitos leitores felizes irão mandar cartas para seus jornais prediletos, comemorando este novo progresso e criticando os tempos onde os sentimentos barravam o mesmo progresso. Provavelmente pessoas de alto gabarito como Josef Mengele serão reabilitados à ciência, quem sabe até "canonizados" por terem buscado empiricamente as respostas para suas dúvidas, e não se deixar levar apenas por seus "sentimentos". Finalmente todos seremos iguais, criminosos ou não. Vamos comemorar nossa igualdade, pois seremos igualmente nada.


Eu já sabia que eu não tinha vida nenhuma, o positivismo lógico só me confirmou isto. Pois quem chamaria de vida, o que eu levo? Eu não tenho a melhor televisão do mercado, não consigo comprar um notebook, tenho carro 1.0 parcelado em 60 vezes, meu celular tem tela monocromática e não tira foto, minha câmera digital tem apenas 3 Megapixels... Isto definitivamente não é vida. Pelo menos em nosso sistema capitalista. Pessoalmente não sou partidário do capitalismo, nem do socialismo. Porém, não posso deixar de observar o que foi deixado para nós através destes, o chamado progresso. O capitalismo em si é um grande progresso comparado com o feudalismo que o precedeu. Antigamente tínhamos os senhores feudais e os servos, agora aquele que explora se chama patrão e o que leva a pior é o empregado. As formas de exploração também ficaram bem mais sutis, uma grande revolução. Podemos perceber como as relações trabalhistas progrediram quando vemos o grau técnico dos trabalhadores. Antigamente, os servos já nasciam servos, e já começavam aquilo que consideravam ser sua vida trabalhando para seus senhores. Ninguém era obrigado a se especializar em nada, mesmo por quê não tinha como ser demitido por não saber o que fazia. Hoje não, somos bem mais modernos. Hoje além de sermos obrigados a ficar um terço de nossas vidas estudando para conseguir os menores salários oferecidos, muitos ainda fazem cursos para serem bons funcionários, fazem dinâmica de grupo, frequentam palestras sobre liderança, motivação... Tudo para que nos moldemos àquilo que definiram como o "empregado perfeito" (progresso como definido pelos que estão no comando). Curiosamente, nunca vi cursos para pessoas se tornarem "empregadores perfeitos". Aliás, o empregador nem precisa ser formado para ser empregador. Ele pode ser a pessoa mais arrogante que você conheceu, ou a pessoa mais dócil. Tanto faz. Ninguém vai condená-lo por ele ser o que é, e muitos dos grande empregados são aqueles que sabem ignorar a personalidade de seus superiores. Você nunca verá uma dinâmica de grupo com empregadores.


Um bom exemplo desta situação é o programa que tem passado todo ano chamado O Aprendiz, onde vários candidatos a "O usuário mais perfeito" se confrontam. Ali, são feitos vários testes para ver se todo mundo aprendeu tudo direitinho. Por exemplo, já vi alguns sendo demitidos, por que colocaram sua família em primeiro lugar. Os candidatos são isolados de todos os conhecidos enquanto estão participando do programa. Houve um caso onde um futuro pai estava dividido entre a vontade de acompanhar a esposa durante os últimos meses de gestação de seu filho, e a participação no programa. Em outro caso, a mãe queria voltar a ver seu filho pequeno. Mas eles tinham que colocar a empresa (no caso o programa) em primeiro lugar. A pessoa tem que viver para a empresa, e não para sua família. Geralmente, procuramos um emprego motivados por nossas famílias, para que possamos ajudá-las a se manter. Mas assim que entramos, deixamos a família de lado. A empresa deve vir em primeiro lugar. É o progresso definido pelos patrões, que se aproveita da desconstrução humana, para pregar que não devemos ter sentimentos, muito menos vida familiar. Por isto passamos quase um quarto de nossas vidas trabalhando, quando o funcionário não é obrigado a fazer horas extras ou trabalhar no fim de semana. O processo de desconstrução da sociedade é um passo inevitável, já que coisas não podem viver em sociedade. Voltarei a falar sobre isto adiante.


Outra pessoa foi demitida por que acreditava que estava aprendendo muito ali, e que ainda não sabia de tudo. Um bom funcionário então, deve saber de tudo. Ninguém deve aprender nada desempenhando suas funções. Imagino como seria uma reunião de funcionários que sabem tudo, e que porventura alguém entre em discordância com os demais. Imagino como seria muito complicado para estes funcionários que sabem tudo explicar como uma eventual falha possa acontecer. Pois as falhas acontecem, geralmente por que não sabemos de tudo. Não sabemos das n variáveis que podem influenciar nosso trabalho.


Tive que assistir com toda a revolta que pude reunir, como um grupo foi julgado por seu mau desempenho. Na verdade, não ficaram muito atrás de seus concorrentes. Mas isto não importava, tinha que se encontrar os culpados. Então o grupo foi obrigado a encontrar as falhas de cada um, coisa que ninguém conseguia fazer, pois ninguém conseguiu ver falha. Eles tinham feito tudo da melhor forma possível. Eles eram um grupo, eram uma equipe, e naquele momento, estavam sendo obrigados a ser "cada um por si". Eles não tiveram coragem de apontar tais erros, e foram repreendidos ainda. Mais uma vez, vemos a desconstrução da sociedade aqui também.


E o mundo de hoje incentiva este "cada um por si". Eu tenho que ser melhor que todo mundo. Você tem que ser melhor do que eu. Mesmo quando você está trabalhando em equipe, você tem que ser o melhor na equipe, mesmo que isto signifique às vezes prejudicar os outros. Em nome de ser o melhor possível, grandes empresas esmagam pequenas empresas que sustentam famílias honestas e trabalhadoras, apenas para conseguir menos do 1% atual a mais nos lucros. Em nome de ser o melhor possível, empregados que tem problemas de saúde e dependem de seu salário para pagar seus tratamentos são mandados embora por que sua produtividade está caindo. Em nome do melhor possível, pais de família com 5 filhos para criar devem aceitar míseros salários, pois senão serão substituídos por pessoas que não possuem nem um periquito para cuidar. Podemos dizer adeus ao trabalho ideal, aquele onde trabalhávamos não para sermos os melhores, mas para fazermos o melhor para todos, e não para alguns. Aquele que trabalhamos para o bem de todos, e não para o bem próprio, ou o bem dos patrões. Aquele que trabalhamos para mudar o mundo para melhor, o real progresso, e não para mudar o destino das próximas férias de nossos empregadores, ou as cifras de suas contas bancárias.


Isto não se limita infelizmente, ao mundo secular. Até as igrejas hoje parecem estar concorrendo para ser as melhores igrejas. A igreja melhor é a que possui grandes aparelhos de som, e que podem fazer um culto para todo o bairro escutar. Ou então a melhor igreja é aquela que resgata melhor as tradições de Israel, assim demonstrando que apesar de todo aquele show teatral, elas possuem alguma ligação com os judeus, talvez até com o cristianismo. A melhor igreja possui os melhores castiçais, a melhor iluminação, o melhor equipamento de som, os melhores músicos, o melhor logotipo...


Esta concorrência para ser o melhor nos faz cada vez mais consumistas. Deixamos de procurar aquilo que precisamos para precisar daquilo que outros definiram como necessário. E geralmente esta necessidade é alimentada por uma busca por status. Então, depois de algum tempo agindo assim, o consumismo se tornou normal. Hoje, pessoas desejam trocar de carro todos os anos só por trocar, só por que é bom ter carro novo. É certo que muitas vezes os carros mais velhos vão para a oficina mais vezes, porém nem sempre este é o caso, diria até que esta não chega a um quarto dos casos. Deixamos de ver o carro como um meio de transporte para encará-lo como um item de luxo necessário. Pagamos mais só por que ele corre mais, mesmo que não possamos correr tanto em nossas estradas, pagamos mais só por uma marca, pagamos para rebaixar o carro e deixá-lo muito diferente do que os projetistas o fizeram. Não critico as pessoas que modificam seus carros por hobby, uma vez que elas fazem isto por um prazer próprio, elas fazem isto por elas mesmas. Critico aqueles que o fazem para os outros. Critico isto naquelas pessoas que fazem isto para serem melhores que os outros.


Tudo isto de alguma forma contribui para nos afastarmos uns dos outros. Esta competição acaba com nossas relações sociais, na medida que transforma todos, mesmos inconscientemente, em concorrentes. É isto que chamo de desconstrução social, e ela prescede a desconstrução humana que já comentei. Pois precisaria primeiro deixarmos de ser uma sociedade humana, para depois deixarmos de ser humanos. Assim é mais fácil. Como consequência disto, agora temos até vergonha de pedir licença para uma pessoa nos deixar passar. Temos vergonha do diálogo. Evitamos todos, evitamos também as idéias dos outros. Hoje presencia-se o absurdo de se manter uma opinião por que simplesmente ela é sua opinião, deixando de lado os argumentos. Aliás, argumentos são fabricados, e por mais absurdos que eles sejam, são preferíveis do que a argumentação alheia. Nos isolamos dos outros, nos tornamos autônomos. E esta autonomia está agora se voltando contra nós mesmos. A solidão é a doença deste século, e não é à toa. Era até previsível isto. Nós estamos deixando de ser uma sociedade preocupada com seus membros. A preocupação com nossos membros só surge quando ela se torna um argumento para mantermos aquelas opiniões já ditas, ou quando ela se torna uma fonte de renda. Um bom exemplo disto é a carta do leitor que citei acima, onde ele comemora o progresso. Ele está tão preocupado com as pessoas doentes que esperam pelas pesquisas com células tronco, que deixou de comentar sobre elas em 95% de sua carta, para falar contra a religião.


Viva ao progresso, que desconstruiu o homem e sua sociedade. Viva ao progresso, que nos deu o poder de dizimar duas cidades com suas bombas atômicas, coisa que gastaríamos mais tempo para fazer, e atingiríamos somente os habitantes que viviam nas cidades durante os ataques. Viva o progresso que ajudou a acabar com a camada de ozônio. Viva o progresso que ajudou a construir Chernobyl. Viva o progresso que nos ajudou a construir armas mais violentas. Viva tudo isto. Não são coisas que costumamos nos lembrar quando comemoramos o progresso, por isto faço questão de lembrar a todos, que este progresso que muitas vezes comemoramos, teve um preço, e muitas vezes alto.


Espero que algum dia as pessoas ponham a mão na consciência, e reflitam sobre o que estão passando. Espero que algo possa ser feito para parar esta desconstrução pela qual passamos, e possamos mais uma vez ter a dignidade de nos considerarmos seres humanos, seres vivos. Espero que as pessoas voltem a se escutar, a se relacionar como pessoas, a se respeitar. Não será fácil isto. Um dos primeiros passos seria observar aquilo que já foi dito há muito tempo:

Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? não fazem os gentios também o mesmo? (Mateus 5:44-47)

Infelizmente, como o texto é religioso, terá grandes chances de não ser valorizado. Afinal de contas, a religião atrasa o tal progresso. E não é verdade?

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