quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Socorra-me se for capaz!




O vídeo abaixo, que eu vi no blog veSHAME gospel, mostra a filmagem da morte ao vivo de um presbítero de 87 anos de idade, da Igreja Assembleia de Deus de Botucatu (SP). O vídeo tem 10:10 min. de duração e ali pelo 3:08min o presbítero dá seu último suspiro, enquanto uma moça canta o verso "Chegou a sua hora...". Meio minuto depois, o pastor percebe o acontecido e o culto prossegue, com alguma agitação atrás da cantora. Depois, o pastor lidera a congregação no cântico do hino "Mais Perto Quero Estar".

Ainda que seja uma cena tocante do ponto de vista religioso, e mesmo que não se saiba exatamente o estado de saúde do presbítero, o que chama a atenção é que - aparentemente - ninguém tentou socorrê-lo, seja fazendo alguma manobra de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), seja simplesmente levando-o rapidamente ao pronto-socorro mais próximo. Enquanto havia uma provável parada cardíaca no altar, sequer a música foi interrompida para que se procurasse na audiência alguém habilitado para tanto, talvez um médico, uma enfermeira, um bombeiro, um estudante... A igreja preferiu uma espécie de velório instantâneo a ter que fazer qualquer tentativa simples que fosse de ajudar o irmão. Pouco antes de sua partida deste mundo, ele parecia estar bastante interessado no culto, chegando inclusive a cochichar algo com o pastor. Será que já estava se sentindo mal? Será que a igreja pode decidir quando é que chegou a hora de alguém? Será que a eutanásia no altar é legítima? Será que o presbítero, mesmo com 87 anos de idade, não queria viver um pouco mais?


Atualização de 10/01/10 - A irmã Leilah (do Blog da Leilahh) gentilmente me traz a notícia do site da Igreja Assembléia de Deus de Botucatu (SP), cuja leitura completa pode ser feita clicando no link "Notícias" e há ali uma Nota de Falecimento que assim reporta o ocorrido:

Ao detectarmos sua partida, verifiquei pulsação, batimentos cardíacos, embora não seja médico, mas pastor; e imediatamente, meu filho que é presbítero na Igreja, ligou para pedir auxilio do Corpo de Bombeiro (resgate) que se demoraram cerca de uns 10 minutos. Enquanto não chegavam, o deitamos nas cadeiras do púlpito, e senti desejo de adorar a Deus cantando, pois, cantamos quando nasce uma criança, mas também quando o Senhor recolhe ao descanso um servo Seu. Aguardamos a chegada dos bombeiros, que ao chegar ao templo verificaram que realmente o irmão Anísio já havia falecido, porém, comunicaram-nos, que iria levá-lo ao pronto socorro da UNESP em Botucatu, para a constatação da causa morte, o que fizeram. E não permiti que fosse filmado o corpo do nosso querido irmão deitado sobre as cadeiras e nem a retirada do mesmo pelo corredor central da Igreja, pois, estávamos ao vivo para o mundo todo pela nossa WebTV “Uma Vida com Deus”. Porém, respeitosamente, em silêncio total, pedimos que toda igreja se levantasse e num gesto humanitário e cristão, e aguardássemos a retirada do corpo de nosso irmão do templo. Como não tínhamos mais condições de continuar com o culto, finalizamos o mesmo, e mantivemos o Templo aberto para o velório, pois, era desejo do irmão Anísio ser velado na Igreja. Tão logo fosse liberado seu corpo.

De qualquer forma, fica o registro para que os irmãos tomem os cuidados necessários em suas igrejas, clubes e associações que envolvam muitas pessoas, tanto do ponto de vista de urgência de pronto socorro como de atitudes que possam ser interpretadas como a sua omissão. Atitudes como a do pastor em questão, por mais bem intencionadas que sejam, como dar glórias a Jesus assim que constata o passamento do irmão (03:30 min.), e 1 minuto e meio depois (05:00 min.) dizer que "Jesus levou o nosso companheiro, partiu para a glória aqui em cima do púlpito", podem eventualmente causar pelo menos o desconforto e constrangimento de uma investigação policial. Todo cuidado é pouco, pois o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) penaliza ainda mais a omissão de socorro quando se trata de pessoa idosa:

Art. 97. Deixar de prestar assistência ao idoso, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, em situação de iminente perigo, ou recusar, retardar ou dificultar sua assistência à saúde, sem justa causa, ou não pedir, nesses casos, o socorro de autoridade pública:

Pena – detenção de 6 (seis) meses a 1 (um) ano e multa.

Parágrafo único. A pena é aumentada de metade, se da omissão resulta lesão corporal de natureza grave, e triplicada, se resulta a morte.

E faço este alerta também com base no Estatuto do Idoso:

Art. 4º Nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei.

§ 1º É dever de todos prevenir a ameaça ou violação aos direitos do idoso.

Vivemos num país que, lamentavelmente, tem leis que ficam só no papel e não "pegam", como se diz na gíria. Por isso faço uma defesa constante de que respeitemos a lei e a façamos cumprir. Se cada um de nós fizer a sua parte cobrando e exigindo da sociedade e das autoridades o respeito à lei, com certeza viveremos num país melhor.






Rastros de ódio

A notícia do The New York Times, via blog O mundo gosPELE de ovelha, dá uma ideia de a que ponto a pregação anti-gay pode chegar:


Após pregação de evangélicos norte-americanos, Uganda declara morte aos homossexuais


Em março de 2009, três cristãos evangélicos norte-americanos, cujos ensinamentos sobre a "cura" do homossexualismo foram amplamente desacreditados nos Estados Unidos, chegaram a Kampala, a capital de Uganda, para uma série de palestras.

O tema do evento, de acordo com Stephen Langa, seu organizador ucraniano, era "a agenda gay - aquela agenda obscura e sinistra" -, e a ameaça que os homossexuais representampara os valores dispostos na Bíblia e a família tradicional africana. Por três dias, de acordo com participantes e gravações, milhares de ugandenses, entre os quais policias, professores e políticos de projeção nacional, ouviram atentamente as palestras dos norte-americanos, apresentados como "especialistas" em homossexualidade.

Os visitantes discutiram sobre como fazer com que homossexuais se tornassem heterossexuais, sobre a sodomização de garotos adolescentes por homossexuais, e sobre como "o movimento gay é uma instituição malévola", cujo objetivo é "destruir uma sociedade cuja base é o casamento e substitui-la por uma cultura de promiscuidade sexual".

Agora, os três pregadores se viram colocados na defensiva, e alegam que não tinham a intenção de ajudar a promover a espécie de ira que pode conduzir ao que aconteceu em seguida: um projeto que prevê a imposição de pena de morte para casos de homossexualidade.

Um mês depois da conferência, um político ugandense até então desconhecido que se gaba de ter amigos evangélicos no governo dos Estados Unidos apresentou um projeto de lei de combate ao homossexualismo que ameaça os gays de morte por enforcamento e, como resultado, colocou Uganda em rota de colisão com as nações ocidentais.

Os países doadores de assistência, entre os quais os Estados Unidos, estão exigindo que o governo ugandense abandone a proposta, alegando que ela viola os direitos humanos, ainda que o ministro da Ética e Integridade de Uganda (que já havia ameaçado proibir minissaias) tenha declarado recentemente que "os homossexuais podem se esquecer dos direitos humanos".

O governo ugandense, diante da ameaça de perder milhões de dólares em verbas assistenciais estrangeiras, agora está indicando que recuará, ainda que apenas parcialmente, e alterará a cláusula que previa pena de morte, substituída por uma versão que envolveria prisão perpétua para alguns homossexuais. Mas a batalha está longe do fim.

Em lugar disso, Uganda parece ter se transformado em um campo de batalha remoto para as guerras culturais dos Estados Unidos, com grupos norte-americano das duas alas, os evangélicos e os ativistas gays, investindo dinheiro e dedicando apoio cada vez maior ao debate sobre o homossexualismo na África.

"É uma luta pela vida dessas pessoas", disse Mai Kiang, diretora da Astraea Lesbian Foundation for Justice, uma organização de Nova York que canalizou quase US$ 75 mil para os ativistas ugandenses pelos direitos dos homossexuais, e espera ampliar essa quantia.

Os três norte-americanos que participaram da conferência - Scott Lively, autor de diversos livros de combate ao homossexualismo, entre os quais um que ensina pais a protegerem seus filhos contra o "recrutamento gay"; Caleb Lee Brundige, que se descreve como ex-homossexual e que trabalha como promotor de "seminários de cura"; e Don Schmierer, membro do conselho da Exodus International, uma organização cuja missão declarada é a de "mobilizar o corpo de Cristo e ministrar sacramentos e a verdade a um mundo abalado pela homossexualidade" - estão agora tentando se distanciar da proposta legislativa.

"Sinto que fui usado", disse Schmierer, argumentando que havia sido convidado a falar sobre "como tratar os filhos" para famílias em que haja filhos homossexuais. Ele reconheceu ter informado às audiências como homossexuais poderiam ser convertidos ao heterossexualismo, mas declarou que não tinha ideia de que alguns ugandenses estivessem pensando em propor a pena de morte para os gays.

"Isso é horrível, completamente horrível", ele disse. "Algumas das melhores pessoas que conheço são homossexuais". Lively e Brundige fizeram declarações semelhantes, em entrevistas ou por meio de comunicados divulgados pelas organizações que integram. Mas os organizadores ugandenses da conferência admitiram que ajudaram a redigir o projeto de lei, e Lively admitiu ter se reunido com legisladores de Uganda a fim de discutir a proposta.

Ele chegou a escrever em seu blog, em março, que alguém havia comparado a campanha em que esteve envolvido a uma "bomba nuclear contra a agenda homossexual em Uganda". Mais tarde, quando confrontado com críticas, Lively se declarou muito decepcionado com a severidade das propostas.

Defensores dos direitos humanos em Uganda afirmam que a visita dos três norte-americanos ajudou a colocar em ação um ciclo que pode se provar muito perigoso. Os homossexuais de Uganda já estão descrevendo uma situação de constante chantagem, ameaças de morte como "morra, sodomita!" pichadas nas paredes de suas casas, constante perseguição, agressões físicas ocasionais e até mesmo casos do chamado "estupro corretivo".

"Agora temos de realmente viver na clandestinidade", disse Stosh Mugisha, uma ativista dos direitos homossexuais que diz ter sido agarrada em um pomar de goiabas e estuprada por um lavrador que desejava curá-la de sua atração por mulheres. Ela diz que foi infectada por HIV, mas que a reação da avó dela ao caso foi simplesmente dizer: "Você é teimosa demais".

A despeito de ataques como esses, muitos homens e mulheres homossexuais ugandenses disseram que as circunstâncias vinham melhorando antes do projeto, ao menos o bastante para que pudessem conceder entrevistas coletivas e defender publicamente os seus direitos. Agora, estão preocupados com a possibilidade de que o projeto encoraje linchamentos.

Multidões já espancaram até a morte pessoas apanhadas cometendo até mesmo pequenas infrações, como o roubo de um par de sapatos. "O que eles fizeram foi atear um incêndio que não poderá ser apagado", disse o reverendo Kapya Kaoma, de Zâmbia, que viveu seis meses na clandestinidade a fim de registrar o elo entre o movimento africano de combate ao homossexualismo e os evangélicos dos Estados Unidos.

Kaoma esteve na conferência e disse que os três norte-americanos "subestimaram a homofobia dos ugandenses", e "o que significa para os africanos quando se fala de determinado grupo como culpado de tentar destruir seus filhos e famílias". "Ao falar assim", ele disse, "eles levam os africanos a lutar até a morte".

Uganda é um país muito fértil, majoritariamente rural, no qual grupos cristãos conservadores exercem imensa influência. Afinal, é esse o país em que há propostas de conceder bolsas de estudo a alunos que se mantenham virgens, canções sobre Jesus recebem os visitantes no aeroporto, adesivos nas portas do Legislativo que definem Uganda como abençoada e uma primeira dama evangélica que sugeriu um censo sobre virgindade como forma de combater a Aids.

Durante o governo Bush, funcionários da administração dos Estados Unidos elogiaram Uganda por suas políticas de defesa da família e investiram milhões de dólares em verbas de assistência para programas de abstinência sexual.

Uganda se tornou um polo para grupos evangélicos norte-americanos. Algumas das personalidades cristãs norte-americanas mais conhecidas passaram por aqui recentemente, muitas das quais para difundir mensagens de combate ao homossexualismo, entre as quais o reverendo Rick Warren, que visitou Uganda em 2008 e comparou homossexualidade a pedofilia.

(Warren recentemente criticou o projeto de lei de combate à homossexualidade, tentando corrigir o que definiu como "mentiras, erros e falsas informações" sobre sua participação na concepção da proposta.) Muitos africanos consideram a homossexualidade como uma importação imoral do Ocidente, e o continente tem muitas leis severas de repressão à homossexualidade. No norte da Nigéria, gays podem ser sentenciados à morte por apedrejamento. Fora da África, alguns países muçulmanos, como o Iêmen e o Irã, também aplicam a pena de morte contra homossexuais. Mas muitos ugandenses dizem que isso seria ir longe demais. Alguns até defenderam os gays.

"Eu posso defendê-los", disse Haj Medih, taxista muçulmano que atende a muitos passageiros homossexuais. Medih disse que os gays não representam ameaça para ele e que em lugar disso teme a polícia e o governo. ¿Eles é que podem prender alguém e confiná-lo, e para gente como eu não existe advogado que ajude¿.

Tradução: Paulo Migliacci

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Prazer e desespero

por Philip Yancey:

“O relato de decadência da pessoa mais rica, mais sábia e mais talentosa do mundo serve de alegoria perfeita para o que pode acontecer quando perdemos de vista o Doador, de cujas boas dádivas usufruímos. O prazer representa um grande bem, mas também um grave perigo. Se começarmos a perseguir o prazer como um fim em si mesmo, podemos perder de vista no caminho aquele que nos deu coisas boas como o desejo sexual, as células sensitivas do paladar e a capacidade de apreciar a beleza. Nesse caso, como diz Eclesiastes, a devoção exagerada ao prazer paradoxalmente conduzirá a um estado de total desespero.

Eclesiastes insiste em afirmar que até as pedras em que tropeçamos são boas em si. “Tudo fez formoso em seu tempo” (3:11). Mas, ao assumirmos um fardo para o qual não fomos feitos, transformamos nudez em pornografia, vinho em alcoolismo, comida em glutonaria e diversidade humana em racismo e preconceito. O desespero toma conta à medida que abusamos das boas dádivas de Deus; já não parecem dádivas, e muito menos boas.”

(Philip Yancey, “A Bíblia que Jesus Lia”, Ed. Vida, pág. 153)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Grandes livros - 9

No dia em que faz 50 anos que Albert Camus morreu, nada melhor que lembrar aquele que muitos consideram a sua obra-prima, "O Estrangeiro". 

É uma leitura paradoxal. De um lado, o texto flui rápido e facilmente, mas a intensidade de emoções diante da apatia de Mersault, o personagem principal, vai crescendo a cada página. 

O livro começa com a notícia da mãe de Mersault, e já dá a pista de como ele tem dificuldades em lidar com as emoções: "Mamãe morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo…". 

De cara, o leitor fica curioso pela aparente indiferença do filho, que vai se confirmar durante o restante da obra, não só em relação à mãe, mas às pessoas de sua relação e à humanidade como um todo. 

A história se passa na Argélia, e numa visita à praia, no meio de uma confusão banal, Mersault mata um árabe não exatamente por necessidade ou prazer, mas por total indiferença à vida do outro. 

Ao longo de um processo rápido, suas emoções (ou a falta delas) são reveladas em público, e o grande argumento que o leva a ser condenado à morte é - pasmem! - o fato de não ter chorado no funeral da mãe. 

O leitor mais exigente que nos perdoe, mas aqui cabe uma pequena fuga do assunto para comentar algo que - aparentemente - não tem nada a ver com o tema proposto.

Curiosamente, embora não pareça em nada ter sido inspirado em Camus, quem acompanhou a série de TV "Seinfeld" sabe que, no episódio final, os personagens são julgados e condenados pelo seu total desprezo pela humanidade.

Há, de fato, um certo humor involuntário no drama existencialista escrito por Camus, uma falta de sentido na vida de alguém que passa por ela como um devaneio tétrico provocado por uma insolação na praia.

Ao ler o livro,  nos surpreendemos e, por assim dizer, nos assustamos por perceber que o tédio e a angústia da vida de Mersault não estão sujeitos à nossa análise corriqueira do que seja efetivamente uma vida feliz. 

No final, aquele que eu considero o melhor momento do livro: o diálogo de Mersault com o capelão antes da sua execução, que é um daqueles momentos em que a sinceridade de Mersault embrulha o estômago do leitor pela virulência e (paradoxal) lucidez de suas palavras, o seu desprezo à humanidade e também à religião. 

Também por isso, não é uma leitura fácil nem recomendada para quem vê a religião apenas como uma muleta para suas necessidades imediatas.

Entretanto, não deixa de ser uma excelente maneira de conhecer melhor o que passa na cabeça de muita gente que rejeita Deus pela hipocrisia de muitos religiosos. 

Ler "O Estrangeiro" é fundamental para pelo menos começar a entender Camus e a nossa miserável humanidade.

Albert Camus, 50 anos depois

Artigo de Moacyr Scliar na Folha de S. Paulo de hoje:


Após 50 anos, obra de Albert Camus permanece atual

Profundidade do pensamento e domínio da forma literária marcam produção do argelino, Nobel de literatura em 1957

MOACYR SCLIAR
COLUNISTA DA FOLHA

Este 4 de janeiro assinala os 50 anos da morte de um dos escritores e intelectuais mais influentes do século 20: Albert Camus. Nascido em 1913 em Mondovi, Argélia, Camus era filho de um francês morto na Primeira Guerra e de uma descendente de espanhóis. Era, portanto, um "pied noir", "pé-negro", termo que designa a população de origem francesa que vivia na Argélia.

Sua infância, em Argel, foi pobre: trabalhou com o tio, tanoeiro, e a muito custo estudou. Cursou filosofia e doutorou-se com uma tese sobre Santo Agostinho. Poderia ter seguido a carreira docente, mas a tuberculose da qual sofria (como muitos artistas e intelectuais à época) agravou-se, impedindo-o de trabalhar na área.

Em 1939, mudou-se para a França e, em 1940, aderiu ao movimento da resistência contra a ocupação nazista. Ainda em 1940, fundou, com outros, a revista "Combat", da qual foi redator-chefe de 1944 a 1946. Simultaneamente, dava início à uma carreira literária que lhe valeria o Nobel de literatura em 1957. Na Argélia, publicara "O Avesso e o Direito" e "Bodas em Tipasa". Seguiram-se "O Estrangeiro", "A Peste", "O Mito de Sísifo" e "O Homem Revoltado". Também escreveu para o teatro "Calígula", "Os justos" e "O Estado de Sítio".

Mãos sujas

Em 1942, conheceu Jean-Paul Sartre, de quem foi amigo por dez anos e com quem manteve uma das polêmicas mais famosas do pensamento contemporâneo, vinculada às grandes transformações ocorridas após a Segunda Guerra.

Com a vitória da União Soviética no fronte oriental, o comunismo stalinista expandiu-se, tomando o poder em vários países. Porém, a entusiástica adesão de muitos intelectuais à Revolução Russa, de 1917, agora dava lugar à decepção, quando não à franca revolta, como mostram os depoimentos de Arthur Koestler, Ignazio Silone, Richard Wright, Louis Fischer e Stephen Spender em "O Deus que Falhou" (1949).

Koestler, autor de "O Zero e o Infinito", romance anti-stalinista, influenciou muito Camus. Sartre, mais velho que Camus e visto como o expoente maior do existencialismo, só se aproxima da política em 1941, mas, então, sua postura é bem mais rígida. Ele de certa forma justifica os excessos do stalinismo e do regime maoista sob o argumento de que política exige "mãos sujas" ( "Les Mains Sales", título da peça teatral claramente autobiográfica descrevendo os conflitos de um jovem intelectual burguês).

Antes sujar as mãos, diz o filósofo, do que ficar em cima do muro, uma questão, como vemos, muito atual. Ao mesmo tempo, Sartre manifestava-se contra o domínio francês na Argélia que havia desencadeado uma luta de libertação. Camus era a favor da independência, mas contra o terrorismo usado pela guerrilha. A polêmica entre os dois é descrita em "Camus e Sartre - O Fim de uma Amizade", de Ronald Aronson, publicado no Brasil pela Nova Fronteira (2007).

Jogo de futebol

Àquela altura, a reputação de Camus já estava consolidada e ele viajava pelo mundo inteiro. Veio ao Brasil, em 1949, e pediu para assistir a uma partida de futebol e deu conferências em várias cidades, apesar de sentir-se doente -pode ter havido uma reexacerbação da tuberculose.

Manoel Bandeira, que esteve com ele e também era tuberculoso, conta que falaram sobre a doença e outros temas com simplicidade: "Não havia nenhum vestígio dessa personagem odiosa que é a celebridade itinerante. Não parecia um homem de letras. Era um homem da rua, um simples homem".

A autenticidade, associada à profundidade do pensamento e ao domínio da forma literária, torna a obra de Albert Camus, morto em 1960 em um acidente de carro, sempre atual.

domingo, 3 de janeiro de 2010

A isonomia conveniente de Malafaia


Em suas últimas aparições televisivas, Silas Malafaia tem feito uma defesa apaixonada do autodenominado “apóstolo” Valdemiro Santiago, protestando contra o fechamento do templo-sede da igreja Mundial do Poder de Deus pela Prefeitura Municipal de São Paulo. 

Invoca, para tanto, a sua interpretação particular do princípio da isonomia inscrito no artigo 5º, caput, da Constituição Federal, pelo qual “todos são iguais perante a lei”. 

Considerando as interpretações particulares que Malafaia faz da Bíblia e das “unções financeiras de 900 reais”, não é surpresa que ele se enrosque todo quando se trata de princípios fundamentais da Constituição. 

Afinal, o que Malafaia pleiteia é basicamente o seguinte: se existem igrejas católicas e escolas de samba instaladas em prédios inseguros que permanecem abertos, porque vão fechar justo o templo do Valdemiro? 

Primeiro, a comparação com o carnaval, embora promissora do ponto de vista cômico, não funciona bem porque a multicampeã escola de samba Vai-Vai, por exemplo, ensaia nas ruas do bairro do Bixiga em São Paulo, justamente por seu barracão não ter infraestrutura adequada para tanto. 

Logo, os carnavalescos são mais sérios e se preocupam mais com seu povo do que muito "pastor" que tem por aí. 

Quem sabe se Valdemiro copia o modelo e ensaia seu rebanho nas ruas do Brás? 

Segundo, o princípio da isonomia não é uma muleta jurídica pra ser usada em qualquer situação. 

Por sinal, ninguém vê pastor defendendo este princípio para que as organizações religiosas, constitucionalmente isentas de tributos, paguem impostos quando desviam dinheiro dos fiéis para outros fins que não em benefício da comunidade como um todo, como por exemplo, na compra de mansões, aviões e televisões para seus líderes, algo que toda pessoa física ou empresa é obrigada a fazer. 

Logo, se existem igrejas católicas que não oferecem condições de segurança, elas simplesmente devem ser interditadas. 

Se não o são, isto significa que as autoridades competentes estão falhando (pelo que podem ser legalmente punidas se chegarem às raias da prevaricação) e não que os outros templos nas mesmas condições devam ser mantidos abertos. 

A isonomia, neste caso, protege TODA a sociedade exposta aos riscos das construções deterioradas, ou seja, o princípio constitucional requer que TODOS os templos sejam interditados, e não que sejam liberados indistintamente. 

Numa analogia igualmente esdrúxula, seria o mesmo que, ao ser capturado, um criminoso dissesse ao policial: "Pelo princípio da isonomia, o senhor não pode me prender enquanto não fizer o mesmo com os milhares de foragidos do país..."!!! 

Logo, se Malafaia realmente entendesse de isonomia, ou quisesse se valer do princípio para objetivos nobres, ele diria o seguinte: “Muito bem, camarada, agora vamos fechar todos”. 

Mas não, não é isso o que o nobre pastor quer. 

A isonomia mórbida que ele defende, embora não admita, é que todos tenham a suprema glória de morrer soterrados pelo desabamento do seu templo. 

Por que só o povo da Renascer tem este "direito"?

sábado, 2 de janeiro de 2010

A fé em Edir é baixa

Edir Macedo é um dos brasileiros menos confiáveis. Pelo menos é isso o que diz pesquisa publicada no jornal Folha de S. Paulo de ontem. O Datafolha apresentou uma lista de 27 personalidades de todos os meios, muito conhecidas no Brasil, e entrevistou 11.258 pessoas que deram notas de 0 (menos confiável) a 10 (mais confiável) a cada uma delas. As 10 melhores médias são as seguintes:

1) Lula - 7,90 (com 39% de nota 10)
2) William Bonner - 7,78
3) Padre Marcelo Rossi - 7,62
4) Roberto Carlos - 7,60
5) Ivete Sangalo - 7,35
6) Sílvio Santos - 7,28
7) Zezé di Camargo - 6,97
8) Dunga - 6,97
9) Chico Buarque - 6,72
10) Caetano Veloso - 6,60

Edir Macedo ficou em penúltimo lugar com nota 3,80, à frente apenas do ex-presidente - e atual senador por Alagoas - Fernando Collor, que segura a lanterna com imbatíveis 2,98. Fica ainda na gostosa companhia dos outros três que completam os cinco últimos: Fernando Henrique Cardoso (23º - 4,80), Itamar Franco (24º - 4,71) e José Sarney (25º - 3,95), mas cá entre nós, não deixa de ser sintomático que, num ano em que atravessou (ileso) o inferno de denúncias, o Sarney seja considerado mais confiável que o Edir.

Entre os presidenciáveis da eleição deste ano, estão posicionados:

14) José Serra - 6,23
19) Aécio Neves - 5,45
20) Ciro Gomes - 5,41
21) Dilma Roussef - 5,40
22) Marina Silva - 5,15

É claro que pesquisas deste tipo são contaminadas por um alto grau de subjetividade, "contaminada" por critérios políticos, ideológicos, culturais e religiosos de caráter estritamente pessoal, mas - diante do universo de mais de 11.0000 entrevistados - não deixa de ser uma amostra significativa do que pensa a sociedade brasileira como um todo, um retrato do momento que atravessa o país. É óbvio também que este tipo de pesquisa tem um cunho eminentemente mercadológico, e é muito mais lido por agências de publicidade, que podem direcionar suas ações a determinados nichos, como é o caso da campanha do Pe. Marcelo Rossi pelo retorno da venda de cervejas aos estádios.

Pelo menos por enquanto não existe um detalhamento completo da pesquisa, para se saber exatamente como se distribuem as notas entre os diferentes segmentos da população, mas parece haver um teto para o crescimento evangélico no Brasil, a julgar pela nota atribuída a Edir Macedo. Queiram ou não, a maior parcela da população associa o nome "evangélico" a pessoas como ele. Imagino eu que boa parte dos evangélicos entrevistados deu nota baixa a Edir por conta de suas convicções pessoais de quem seja confiável ou não, assim como é difícil crer que aquele jeito ensaiado de falar do Pe. Marcelo Rossi possa resistir a uma observação mais aprofundada.

Para mim, isto tudo apenas reforça a tese de que é preciso resgatar o bom nome de "evangélico" daqueles que o usurpam e utilizam para seus propósitos escusos. Já passou da hora de dizermos que certos "pastores", "bispos" e "apóstolos" NÃO são nem pastores, bispos ou apóstolos, e muito menos nossos irmãos de fé.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Isto é uma vergonha!!!

Boris Casoy nunca pensou que o seu bordão fosse voltar-se contra ele próprio. Faz só algumas horas que 2010 começou e já não falta assunto ruim. Se não bastasse a tragédia do desabamento de uma encosta na Ilha Grande em Angra dos Reis hoje, justo o pessoal encarregado de limpar a sujeira que a galera deixou nas ruas e praias na noite do reveillon, os garis, tiveram que passar a última noite com uma ofensa atravessada na garganta. O âncora do Jornal da Band, Boris Casoy, ao chamar um intervalo, não percebeu que o microfone estava aberto, e, antes de ir para o comercial, apareceram dois garis humildes desejando feliz ano novo, no que vazou o comentário do apresentador - permeado de risos de escárnio - dizendo: "Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. Dois lixeiros... o mais baixo na escala do trabalho". A Band diz que hoje à noite ele vai fazer uma retratação, mas o estrago está feito. Pelo menos essas falhas técnicas (e morais) permitem conhecer melhor a maneira como boa parte da elite brasileira - jornalistas consagrados incluídos - trata o povão. Confira você mesmo:



P.S.: o pedido de "profundas desculpas" do Bóris:



Como disse o Kibeloco no Twitter: O pesar do Boris Casoy foi tão comovente, que qdo ele pediu "profundas desculpas" aos garis, eu juro que ouvi "F*&@#-se."


O melhor ano da sua vida!

Leitura bíblica:

"Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês", diz o Senhor, "planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro. Então vocês clamarão a mim, virão orar a mim, e eu os ouvirei. Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração."

(Jeremias 29:11-13)

Meditação:

O sinal seguro de que temos um relacionamento autêntico com Deus é crermos mais no futuro que no passado. O passado não pode ser fonte de confiança nem de condenação. Na sua graça, Deus dividiu nossa vida em dias e anos para que pudéssemos abrir mão de nossos ontens e antegozar os nossos amanhãs. Para os erros passados, ele oferece-nos o perdão e a habilidade de esquecer. Para nossos amanhãs, ele nos dá a dádiva da expectação e da emoção.

O que o Senhor disse ao povo de Israel que se definhava no exílio babilônico aplica-se a qualquer de nós que nos encontramos exilados dele, sem esperança para o futuro. Ele tem planos para cada um de nós - bons planos para nosso crescimento em sua graça - a fim de que tenhamos um futuro com esperança. Emil Brunner disse: "O que o oxigênio é para os pulmões, a esperança é para a alma." A esperança possibilita uma qualidade de vida imprescindível; liberta-nos para ousar, dá-nos a confiança para as frustrações diárias e a coragem para viver a vida venturosamente. A dádiva da esperança para o futuro é a chave que abre as comportas do poder do Senhor e destranca o fluxo de suas possibilidades surpreendentes e ilimitadas.

Muitos dizem: "Precisamos ter esperança!" como se a esperança fosse algo que pudéssemos conseguir por nós mesmos. A esperança vem de algo ou de alguém. A esperança autêntica vem de Cristo, por causa do que ele é e do que ele pode fazer. Sua ressurreição é a fonte suprema de esperança. Nada pode derrotar a Cristo". O pior que o homem fez no Calvário foi seguido da melhor esperança para todas as eras. Ele se encontra conosco hoje a fim de dar-nos ânimo para o futuro.

Ele está no controle deste novo ano. Ele tem um plano! Entregue-lhe o ano que você tem pela frente, agradeça ao Senhor, pois tudo o que lhe vai acontecer está de acordo com o que ele planejou a fim de ajudar-nos a nos tornarmos mais à sua semelhança. Tenha um ano cheio de alegria!

Pensamento do dia:

O melhor que Deus tem para a minha vida começa com uma esperança vibrante para o futuro.

(Lloyd John Ogilvie, em "O que Deus tem de melhor para a minha vida", Ed. Vida, meditação de 1º de janeiro)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Fechando 2009 com Bach

No apagar das luzes de 2009, só tenho que agradecer a Deus pelo ano maravilhoso que tive. Apesar de todos os problemas que todos nós temos na vida, foi um ano abençoado. Acho que mais que do que pedir que Deus faça um milagre em mim, eu tenho que agradecer pelo milagre que é a minha vida nEle. Desejo a todos os leitores e amigos deste blog um 2010 também maravilhoso e abençoado, e que todos experimentem e se satisfaçam plenamente com o dom da vida que Deus nos deu. Obrigado, Senhor!

Para celebrar a passagem do ano, nada melhor do que ouvir o 1º movimento do Concerto N. 1 para violino em Lá menor, do compositor que considero o que mais se aproximou da música divina, o alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), num solo brilhante do violonista russo-ucraniano David Oistrakh (1908-1974). São pouco mais de 4 minutos de um presente valiosíssimo para a alma e uma preparação para os ouvidos diante do ribombar de fogos logo mais. Simplesmente, deixe-se levar...


O coração de Deus

Leitura: Lucas 4:31-32; Marcos 1:22; Romanos 8:12-17

Romanos 8:12-17

“Portanto, irmãos, estamos em dívida, não para com a carne, para vivermos sujeitos a ela. Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão, porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temerem, mas receberam o Espírito que os adota como filos, por meio do qual clamamos: “Aba, Pai”. O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Se somos filhos, então somos herdeiros,; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória.”

Versículo-chave: “E muito se maravilhavam da sua doutrina, porque a sua palavra era com autoridade.” (Lucas 4:32)

MEDITAÇÃO:

Emerson, referindo-se a Sêneca, disse: “Seus pensamentos são excelentes, se tão-somente ele tivesse o direito de expressá-los”. Jesus não somente tinha o direito, mas também o poder de expressar os seus pensamentos. Ele podia iluminar, revelar e comunicar a Deus porque ele era o Deus encarnado. Reivindiquemos hoje o que sabemos acerca de Deus em virtude de sua própria Palavra a respeito de si mesmo e de Jesus Cristo.

Cristo apresentou Deus:

- como Pai amoroso vitalmente interessado por todas as necessidades dos seus filhos, um Pai que conhece a alma individualmente e se importa com ela.
- como Deus que constantemente busca os seus filhos.
- como Deus que não espera que seus filhos estejam preparados nem adequados.
- como Deus que perdoa antes que o homem confesse – não por causa da confissão, mas para que ele possa confessar.
- como Deus que, em virtude do seu amor, permitiu que seus filhos fossem livres e permanece a seu lado ainda que falhem e causem dor a si mesmos ou a outros.
- como Deus que exerce sua soberania sobre o Universo e mostra seu poder no amor sofredor da cruz para curar o ódio, as enfermidades e as dores.
- como Deus que está constantemente reunindo seus filhos de todas as raças e credos a fim de serem irmãos, porque ele é Pai.
- como Deus que está totalmente disponível a seu povo através do diálogo criativo da oração como uma fonte de orientação, poder e paz.
- como Deus que criou o homem para um relacionamento eterno, que a morte não pode destruir.
- como Deus que é o Senhor de toda a história... Aquele que era, é e para sempre será.


PENSAMENTO DO DIA: Jesus tem autoridade porque é o Autor da vida.

(Lloyd John Ogilvie, “O que Deus tem de melhor para a minha vida”, Ed. Vida, meditação de 26 de dezembro)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ebenézer

“...até aqui nos ajudou o Senhor.”
(1 Samuel 7:12)


A expressão “Até aqui” parece-nos um marco referente ao passado. Cinqüenta, setenta anos se passaram, e “até aqui nos ajudou o Senhor!” Por meio de pobreza e riqueza, doença e saúde, em casa ou fora, em terra ou mar, em honra ou desonra, em oração ou tentação – “até aqui nos ajudou o Senhor”!

É agradável olhar para trás contemplando uma longa alameda de árvores. É bonito vê-las erguendo-se como colunas de um templo, fechando a abóbada com seu arco de ramos. Da mesma forma, contemple as alamedas de seus anos passados e veja-os cobertos pelos ramos verdes da misericórdia de Deus, e os troncos, como os fortes pilares da sua fidelidade e amor que sustentam as suas alegrias.

Não há aves cantando nas ramagens? Certo que haverá muitas, e todas elas cantam a misericórdia recebida “até aqui”.

Mas esta expressão aponta também para diante. Pois quando alguém chega a um certo marco e escreve: “Até aqui”, ele ainda não chegou ao fim; ainda há distâncias a percorrer. Mais provas, mais alegrias, mais tentações, mais triunfos; mais orações, mais respostas, mais labores, mais vigor, mais lutas, mais vitórias; e então vem a doença, idade, enfermidade e morte.

E agora, é o fim? Não! Há mais ainda – acordar semelhante a Jesus, tronos, harpas, cânticos, vestes brancas, a face do Salvador, a companhia dos santos, a glória de Deus, a plenitude da eternidade, a sempiterna bem-aventurança. Ó crente, tenha bom ânimo, e com grata confiança erija o seu “Ebenézer”, pois.

Quem te ajudou até aqui,
Te ajudará até o fim.

(“Mananciais no Deserto”, Lettie Cowman, Ed. Betânia, meditação de 31 de dezembro)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Tudo fez formoso a seu tempo


2009 chega ao fim. 

Tempo de fazer balanços e projetar 2010. 

Tempo também de agradecer a Deus por tudo o que passou, antecipando o que ainda está por vir. 

Não importa se foi (ou se vai ser) bom ou ruim, pois somos alertados pela Palavra que “o mundo jaz no maligno” (1 João 5:19), mas “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:38).

Salomão diz em Eclesiastes 3:11 que Deus “tudo fez formoso a seu tempo” e acrescenta que “também pôs na mente do homem a ideia da eternidade, se bem que este não possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim”. 

É esta ideia da eternidade no coração que move muita gente a buscar, por todos os meios, uma maneira de se perpetuar na lembrança e no coração dos outros, no poder, nas riquezas, na dominação, esquecendo-se de que Quem faz tudo formoso a seu tempo é Deus e não o homem. 

Vivemos numa era de megapastores midiáticos e celebridades instantâneas, em que a busca desesperada de poder e fama é uma maneira mal disfarçada de tentar alcançar a eternidade já neste mundo, no ledo autoengano de que se possa roubá-la das mãos de Deus.

O confronto entre o eterno e o provisório é antigo. 

O tempo é um enigma que a humanidade vem tentando decifrar há milênios. 

Santo Agostinho dizia que todos nos sentimos familiarizados com ele, mas somos incapazes de entendê-lo de forma clara e satisfatória. 

Até Einstein, a ciência o considerava absoluto e imutável. 

A única alternativa era esperá-lo passar, como muitos fazem à espera do ano novo. 

Coube ao gênio da física inferir que, considerados à velocidade da luz, tempo e espaço são grandezas relativas. 

Trazendo o tema para o campo da fé (se os queridos leitores nos permitem), Deus se revela no tempo e na história, e o modo pelo qual Ele faz isso não é absoluto, nem relativo, mas - em linguagem bíblica – formoso e oportuno. 

A palavra hebraica traduzida por “formoso” em Eclesiastes 3:11 é יפה - yâpheh – que também pode ser traduzida por “belo”, “agradável, “prazeroso”. 

A ideia por trás da expressão “tudo fez formoso a seu tempo” é que justamente devemos aproveitar todas as oportunidades que nos são dadas por Deus para viver uma vida plena dedicada a Ele, mesmo nos momentos mais difíceis. 

Este é o conselho também dado por Paulo em Efésios 5:15-16, que nos recomenda a sermos sábios e usarmos bem todas as oportunidades (“remindo o tempo”), porque os dias são maus. 

E é a Bíblia a melhor demonstração disso, contando a história do povo de Deus (e a Sua intervenção na História) ao longo dos milênios. 

Afinal, Jesus veio ao mundo no tempo oportuno (Marcos 12:2; Lucas 20:10; 1ª Timóteo 2:6). 

Já nós, humanos, somos seres que nascemos, atuamos, interagimos, e nos despedimos num determinado momento do tempo. 

Somos circunstanciais, enquanto Deus é eterno. 

Tiago (4:14) descreve a vida como um vapor que aparece por pouco tempo e logo se desvanece, mas, na nossa curta existência, o Senhor coloca dentro do nosso coração este desejo, este sentimento, este vislumbre da eternidade (Eclesiastes 3:11 - veja também um texto interessante de Philip Yancey sobre o tema). 

No mesmo livro, onde diz que há tempo para tudo (3:1-8), o Pregador ressalta que o tempo e a oportunidade ocorrem a todos (9:11); logo, aproveitar o tempo e todas as oportunidades que ele nos oferece é um conselho recorrente de Paulo (Efésios 5:16, Colossenses 4:5).

Temos sempre a oportunidade de fazer o bem, não só aos outros mas principalmente a nós mesmos (Gálatas 6:9-10, Filipenses 4:10), e há aqueles que, como aconteceu à enteada de Herodes, aproveitam a oportunidade para fazer o mal (Marcos 6:21), ou para manipular o bem que outros fizeram (2ª Coríntios 11:12). 

A oportunidade sempre aparece para que digamos a palavra certa no tempo adequado. 

Podemos deixá-la passar, e assim nos tornarmos omissos, ou dizer a palavra fora de tempo (ou de propósito), correndo o sério risco de sermos inconvenientes. 

Salomão compara a palavra dita a seu tempo a maçãs de ouro em salvas de prata (Provérbios 25:11, ver também 15:23). 

Como o servo sofredor profetizado por Isaías, podemos pedir a Deus que saibamos dizer boa palavra ao cansado. 

"Ele me desperta todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça como aqueles que aprendem" (Is. 50:4). 

Como cristãos, temos, mais que a obrigação, o prazer de aproveitar as oportunidades de dar testemunho da nossa fé (Lucas 21:13, 2ª Coríntios 5:12), enquanto aguardamos o tempo oportuno em que nosso Senhor e Rei se manifestará em glória (1ª Timóteo 6:15), sempre alertas, entretanto, porque o mal absoluto também aproveita as ocasiões de se manifestar (2ª Tessalonicenses 2:6), conforme a própria história da humanidade insiste em comprovar. 

C. S. Lewis teve oportunidade de observar isso, imaginando uma carta do Diabo a um aprendiz, em que o coisa-ruim dizia o seguinte:

      Os seres humanos vivem no tempo. Porém o Inimigo os destinou à eternidade. É por isso, acredito, que ele quer que os homens atentem basicamente para duas coisas: a própria eternidade e aquele ponto do tempo que chamam de presente. O presente é o ponto em que o tempo toca a eternidade. É no momento presente, e nada mais do que no momento presente, que os seres humanos têm experiências semelhantes àquela experiência que o nosso Inimigo tem da realidade como um todo; é somente nele que lhe são oferecidas a liberdade e a realidade. É por isso que ele quer que os homens estejam constantemente ligados ou com a eternidade (o que significa mantê-lo em mente) ou com o presente – quer seja meditando sobre sua união eterna com ele ou separação dele, ou então, obedecendo à voz presente da consciência, carregando a cruz de hoje, recebendo a graça para hoje e dando graças pelo prazer no presente.
(transcrito de "Cartas do Diabo a seu Aprendiz", em "Um Ano com C. S. Lewis – Leituras Diárias de suas Obras Clássicas", Ed. Ultimato, 2005, p. 279)
Em suma, nós, cristãos, somos privilegiados porque recebemos, no nosso tempo finito – presente -, a visita do Deus infinito, Aquele que faz tudo formoso a seu tempo. 

Como lembra Paulo, fomos agraciados com "uma fé e um conhecimento que se fundamentam na esperança da vida eterna, a qual o Deus que não mente prometeu antes dos tempos eternos. No devido tempo, ele trouxe à luz a sua palavra" (Tito 1:2-3), pela qual vivemos e experimentamos a doce invasão do Eterno nas nossas vidas peregrinas neste mundo. 

Há momentos, entretanto, em que nossas mãos fraquejam, nossos pés escorregam, nossa vida, aparentemente, se esvai, e o tempo se torna um fardo pesado demais para carregar. 

É nessa hora em que todas essas verdades devem ser lembradas, para que façamos como aconselha o escritor de Hebreus (4:16): "Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno". 

Afinal, como lembra o salmista, a natureza se alegra em Deus e espera dEle o seu sustento em tempo oportuno (Salmo 104:27). 

O maná que sustentou o povo de Israel no deserto por 40 anos, durava apenas um dia, com exceção da provisão dupla para o sábado, recebida na sexta-feira (Êxodo 16). 

De nada adiantava guardar o maná para o dia seguinte, pois o tempo prazeroso e oportuno para comê-lo havia se esgotado. 

Entretanto, sempre caía maná no dia seguinte. 

Se hoje não é o tempo oportuno, não nos desesperemos, vamos com confiança ao trono da graça, lá há tempo, formosura e oportunidade, mas principalmente graça, sempre...

Para um estudo mais detalhado do livro de Eclesiastes, clique aqui.




segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

"Tomando posse" com Agostinho

As últimas décadas da Igreja cristã no Brasil e no mundo têm sido marcadas pelo (re)aparecimento de teologias novidadeiras e reinterpretações esdrúxulas e mal intencionadas de alguns textos bíblicos, com o fim de apresentar um “evangelho”consumista e utilitário, em que os fins justificam os meios, e o que importa é o resultado material conseguido aqui e agora por quem o pratica. Muitas igrejas vêm sendo contaminadas por estas aberrações hermenêuticas, e se afastam cada vez mais do rio de águas vivas que, apesar de todos os obstáculos, segue jorrando desde os tempos neotestamentários. Por isso, eu dedico especial atenção aos escritos dos primeiros cristãos, aqueles que estavam mais próximos, tanto geográfica como cronologicamente, dos (verdadeiros) apóstolos e do próprio Jesus. Aqueles irmãos queridos beberam de uma água mais limpa, de melhores fontes. Tiveram a magnífica oportunidade de participar da formação da Igreja cristã, ainda não institucionalizada como querem fazer crer os historiadores papais, e como Policarpo de Esmirna orou ao morrer no ano 160 d. C: “eu te louvo porque me julgaste digno deste dia e desta hora; digno de ser contado entre teus mártires, e de compartilhar do cálice de teu Cristo, para ressuscitar na vida eterna da alma e do corpo na incorruptibilidade do Espírito Santo.”.

Consultando, pois, os pais da Igreja, é muito interessante ver como eles interpretavam de uma maneira muito mais espiritual alguns textos que hoje são completamente desvirtuados pelos falsos profetas da prosperidade. Em sua obra “O Espírito e a Letra”, escrita por volta de 412 d. C., por exemplo, Santo Agostinho interpreta alguns textos que hoje são deturpados – de maneira totalmente diferente:

Ainda se pode investigar se o Apóstolo se refere à esperança da justiça pela qual a justiça espera ou pela qual a justiça é esperada. Pois, o justo, vivendo da fé, espera certamente a vida eterna, assim como a fé, que tem fome e sede de justiça pela renovação dia a dia do homem interior, aperfeiçoa-se e espera saciar-se dela na vida eterna, onde se realizará o que o salmo diz de Deus: É ele que sacia de bens a tua vida (Sl 103,5).
...
Portanto, é réu da condenação sob o seu poder aquele que despreza sua misericórdia quando chamado à fé. Mas a todo aquele eu acreditar e a ele se confiar para ser absolvido dos pecados, curando-se de todos os vícios, inflamado por seu calor e iluminado por sua luz, contará com sua graça para as boas obras. As boas obras o libertarão da corrupção da morte mesmo em seu corpo; será coroado, saciado de bens não temporais, mas eternos, além do que podemos pedir ou pensar (Ef 3,20).

O salmo referiu-se a estes mesmos favores divinos observando a mesma ordem, ao dizer: Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não esqueças nenhum dos seus benefícios. É ele quem perdoa todas as tuas culpas, e que sara todas as tuas enfermidades. É ele quem resgata da morte a tua vida, e que te cora de misericórdia e de graça. É ele quem sacia de bens a tua vida (Sl 103,2-5). E para que a deformidade do homem velho, ou seja, de nossa mortalidade, não se desesperasse de alcançar estes bens, continua o salmo: Renova-se, como a da águia, a tua juventude. Como se dissesse: “Isso que ouviste diz respeito ao homem novo e ao Novo Testamento”. Considera comigo tudo isso um pouco, eu te peço, e contempla com prazer esse louvor à misericórdia, isto é, à graça de Deus.

(Santo Agostinho, “O Espírito e a Letra” (De Spiritu et Littera), caps. XXXII e XXIII, em “A Graça (I)”, Coleção Patrística, São Paulo: Paulus, 1998, pp. 85 e 88)

Felizmente ainda temos esses registros, verdadeiros testemunhos históricos da Igreja cristã, que mostram que a verdadeira prosperidade – para todos os cristãos de todas as eras - é viver uma vida ESPIRITUAL plena e completa, que se projeta para a eternidade na mais absoluta dependência de Deus.



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