sexta-feira, 11 de julho de 2008

Eclesiastes - capítulo 8

Leitura anterior: Eclesiastes - capítulo 7

Eclesiastes 8 segue o discurso prático do capítulo anterior, começando com uma pergunta ("Quem é como o sábio?") que se liga à frase imediatamente posterior, "que sabe a interpretação das coisas", colocando como uma espécie de enigma a ser decifrado o provérbio "a sabedoria do homem faz reluzir o seu rosto, e muda-se a dureza da sua face" (v. 1). 

Ora, de imediato, no capítulo 8, o Pregador diz que há, sim, um benefício na sabedoria, que é o brilho do rosto e a leveza da face. Há outro componente que deve ser analisado: um rosto brilhante significa, em linguagem bíblica, uma proximidade de Deus. 

A face de Moisés resplandecia de tal maneira quando falava com Deus no monte, que teve que usar um véu (Êxodo 34:35). Quando Daniel tem a visão de um anjo (que boa parte da tradição diz ser o arcanjo Gabriel), este tem o rosto como um relâmpago (Daniel 10:6), o que se parece muito com a glória de Deus (Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 1:12-16). 

Davi também tinha essa ideia de que era Deus a fonte da sabedoria que ilumina o rosto dos seus filhos: "Quem nos dará a conhecer o bem? Senhor, levanta sobre nós a luz do teu rosto" (Salmo 4:6). 

O próprio Salomão fizera conhecido um dos seus provérbios em que associa a dureza do rosto à impiedade: "o homem perverso mostra dureza no rosto, mas o reto considera o seu caminho" (Provérbios 21:29). 

É esta "consideração do caminho", de todos nós, este "conhecimento do bem", que podemos chamar de sabedoria, conforme o provérbio seguinte ensina: "não há sabedoria, nem inteligência, nem mesmo conselho CONTRA o Senhor" (Prov. 21:30). 

O sábio "conhece o tempo e o modo, porque para todo propósito há tempo e modo" (Ecl 8:4-5). O início do capítulo 8 fala de como devemos nos comportar diante do rei, e é possível interpretar esses versículos como sendo o rei o próprio Deus. 

De fato, um rei (aqui com um significado bem abrangente, de líder, presidente, governador, etc.) deve se cercar de homens sábios como conselheiros, mas o Pregador coloca um juramento divino como garantidor da fidelidade a Deus, juramento este que mostra o rei (no caso, Salomão) como alguém ungido por Deus para esta função e este domínio sobre o povo. 

A Bíblia de Jerusalém entende este juramento como uma possível interpolação do texto por alguém da época em que os Ptolomeus dominavam o Egito e a Palestina (séc. II a. C.), mas isso é mera suposição, sem nenhuma evidência mais concreta. 

O fato é que, a meu ver, este juramento se encaixa dentro do propósito do Pregador, que no começo do capítulo 5 já havia advertido quanto às palavras e aos votos feitos ao Senhor. 

Assim como não devemos nos apressar a pronunciar palavra alguma diante de Deus (5:2), não devemos nos apressar em deixar a presença do rei (8:3), pois ele faz o que bem entende. Já o homem tem que carregar uma espécie de "peso do mal" sobre ele (v. 6), "porque este não sabe o que há de suceder; e, como há de ser, ninguém há que lho declare" (v. 7). 

Este deve ser um versículo que todos os clarividentes e prognosticadores certamente não gostariam de ler, pois aí está bem claro que não existe adivinhação do futuro mediante uma bola de cristal (pelo menos que seja aprovada e atestada por Deus).

O v. 8 merece um pouco mais de atenção, pois há um problema de tradução com relação à palavra רוּח (rûach ) na expressão "não há nenhum homem que tenha domínio sobre o rûach para o reter". 

A Almeida Revista e Atualizada traduz a palavra por "vento", enquanto a Revista e Corrigida e a NVI traduzem-na por "espírito". As Bíblias católicas têm uma visão um pouco diferente, mas ainda na linha de alma, espírito. 

A Bíblia de Jerusalém diz; "Homem algum é senhor do sopro, para reter esse sopro" e a Bíblia do Peregrino é mais poética: "O homem não é dono de sua vida, nem pode encarcerar seu alento". A Tradução Ecumênica segue o mesmo caminho: "Ninguém tem poder sobre o sopro vital para reter esse sopro". 

Esta diversidade de traduções para a mesma palavra já foi discutida no capítulo 3 e a sua importância teológica é para o debate entre aqueles que creem na existência e na imortalidade da alma, e aqueles outros que a negam peremptoriamente. 

A mim me parece que o contexto imediato favorece a primeira posição, pois o raciocínio do mesmo versículo é completado com a expressão "nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte". 

Logo, me parece que a melhor tradução realmente seja "espírito", já que no dia da morte, ninguém pode reter a alma, o espírito. 

Ainda nesse contexto, o v. 8 é completado com a frase "nem tampouco a perversidade livrará aquele que a ela se entrega". Por "entregar-se" aqui deve ser entendido "tornar-se escravo", conforme indica a palavra hebraica בּעל - ba‛al

Logo, quem se torna escravo do mal, da perversidade, nesta vida, não se livrará dela, mas ¿só nesta vida? 

Ainda que não exista aqui nenhuma referência explícita a uma sobrevivência da alma após a morte, nem seja possível desenvolver uma teologia do inferno a partir dessa expressão, a meu ver ela se encaixa dentro do espírito do v. 8, de que realmente há uma alma, um espírito que sobrevive à decadência do corpo e que, mesmo após a morte, ainda é escravizada, de alguma forma, ao mal e à perversidade.

A seguir, o v. 9 fala do poder do rei, e aqui numa visão já bastante terrena, no sentido de que todo aquele que lidera, que governa, e que, de alguma forma, abusa deste poder, além de arruinar os outros, termina prejudicando a si mesmo. 

Isto viria a ser verdade do reinado do filho de Salomão, Roboão, quando o reino se dividiu em Norte e Sul (1 Reis 12). 

 v. 10 fala das injustiças da vida, muito comuns até hoje, em que pessoas más são sepultadas com todas as honras (indevidas), enquanto pessoas boas são deixadas no mais completo abandono e esquecimento. 

O v. 12 fala da inclinação do coração do homem para o mal, ocasião em que o Pregador faz uma pequena pausa para falar de coisas concretas, que realmente preocupam o crente ao ver a injustiça do mundo, realçando um dos pilares de Eclesiastes, que é o temor a Deus. 

De fato, diz Qohélet, "bem sucede aos que temem a Deus", enquanto o perverso, que não teme a Deus, terminará sendo punido de alguma forma (v. 13). 

Isso não elimina a confusão que muitas vezes percebemos, entre justos a quem ocorrem coisas más, e perversos a quem ocorre coisas boas, mas preocupar-se com isso - diz o Pregador – também é vaidade (v. 14). 

Voltando ao seu padrão existencialista – na melhor acepção da palavra –, no v. 15 o Pregador repete pela terceira vez um conselho que já havia dito antes (2:24 e 5:18): vivam com alegria! Comam, bebam e alegrem-se! Isso faz parte do dom da vida que Deus nos deu. Agora é a providência divina que está em foco. 

Por fim, já tendo falado dos pilares da sabedoria, do temor de Deus e da providência, resta o último pilar do discurso de Qohélet: a eternidade. E, para destacá-la, ele termina o capítulo 8 repetindo, de certa forma, Eclesiastes 3:11, dizendo que o homem não consegue compreender toda a obra de Deus, nem o sábio a pode achar, pois ela não tem princípio nem fim, como que se estivesse escondida debaixo do véu da eternidade, esta mesma eternidade que foi colocada por Deus no coração do homem.



Leitura seguinte: Eclesiastes - capítulo 9


quarta-feira, 9 de julho de 2008

Leituras cristãs - 1

"O Desafio da Santidade", de Francis Frangipane, editado pela Ed. Vida, é um livro diferente. Longe de tratar o tema "santidade" com uma atitude legalista e arrogante, na base do "abster-se de tudo e parecer santo", fala de santidade com naturalidade, como algo que faz parte do dia-a-dia do cristão, e o autor tem uma maneira bastante espontânea de abordar o assunto. Como eu precisaria transcrever capítulos inteiros para destacar o que gostei, do livro, tiro apenas alguns trechos e frases:

"Não há dúvida de que é a honestidade que leva à santidade." (pág. 23)

"Nossa ânsia não é por fatos, mas por plenitude." (pág. 86)

"Na melhor das hipóteses, nossas doutrinas tão somente acalmam nossas ansiedades e organizam nossas crenças." (pág. 87)

"Enquanto a palavra santidade significa "ser reservado, separado", uma possível interpretação da raiz da palavra hebraica para santidade é: "ser resplandecente, limpo, novo ou fresco, imaculado". A santidade produz separação do pecado, porém a simples separação do pecado não pode produzir a santidade. Não é a ausência do pecado que produz a nossa santificação; a santidade vem da presença de Deus. Você pode evitar "tocar o que é impuro", mas, se não estiver unido pelo amor à paternidade de Deus, jamais conhecerá a verdadeira santidade; tudo o que terá será religião. Cristo em nós é a nossa santidade, pois, quanto mais próximo for o nosso relacionamento com ele, mais refletiremos a sua santidade." (pág. 92)

"Francamente, Jesus chamou um sem-número de pessoas para silenciarem a seu respeito. Houve algumas para quem ele disse: "Não conte isso a ninguém" (Mt 8:4; 9:30 e 12:16). A outros ele proibiu absolutamente de falar, embora estivessem falando a verdade (Mc 3:11,12). A outros ainda ele dizia que realizariam grandes feitos, porém jamais os mandara, nem lhes falara, nem jamais os conhecera (Mc 7:22,23). De fato, há aqueles a respeito dos quais ele falou que o zelo deles por fazer convertidos os leva através de "terra e mar", e então seus prosélitos se tornam "duas vezes mais filhos do inferno" do que aqueles que os converteram (Mt 23:15). Não temos o objetivo de desencorajar o testemunho de quem quer que seja, mas queremos levar à percepção de que o que somos em nossa postura e em nossas ações é o testemunho que será "conhecido e lido por todos" (2 Co 3:2). Um "testemunho" não é somente o que é "dito"; é aquilo que é visto. Se atrairmos homens a Cristo no céu, eles devem ser testemunhas oculares de Cristo em nós. Mas se formos claramente santarrões e pecadores, nosso testemunho não terá efeito." (págs. 98/99).

"Contemple o caminho da santidade! A tristeza e o suspiro fugirão! O caminho para a santidade é o caminho para Deus, não para a religião. É caminho de vida onde todos os julgamentos, conseqüências negativas e problemas de uma vida suja e pecaminosa - tudo aquilo que trouxe a morte para o mundo - são eliminados de nossa vida! Nenhum impuro, nenhum leão, nenhum animal feroz haverá ali. Grande parte da guerra espiritual, que se alimenta da nossa ignorância, incredulidade e iniqüidade, é simplesmente inexistência de santidade." (pág. 104)

"Veja bem, nossos esforços, não importa o quanto nos empenhemos, não podem produzir descanso ou vida em Deus. Devemos ir a ele. Muitos líderes têm se empenhado até a exaustão na tentativa de servir a Deus. Se passassem metade de seu tempo com ele, em oração e contemplação, encontrariam sua companhia sobrenatural operando poderosamente em seus esforços. Eles se tornariam passageiros no veículo do seu desejo, um veículo onde ele mesmo é tanto capitão quanto navegador." (pág. 111)

Competindo com cavalos

O filósofo e mártir tcheco, Vitezlav Gardavsky, morto em 1978, elegeu Jeremias como seu “modelo de homem” em sua campanha contra uma sociedade que, cuidadosamente, planejava cada detalhe da existência material, porém eliminava o mistério e o milagre, extirpando toda a liberdade da vida. Ele escreveu em seu livro “God Is Not Yet Dead” ["Deus Ainda Não Está Morto"], que a terrível ameaça contra a vida não é a morte, ou a dor, nem qualquer variedade de desastre contra os quais nós, tão obsessivamente, procuramos nos proteger com nossos sistemas sociais e estratagemas pessoais. A grande ameaça é “morrermos antes de realmente morrer, antes que a morte se torne uma necessidade natural. O verdadeiro horror repousa exatamente sobre essa morte prematura, após a qual continuamos a viver por muitos anos”.

Há uma passagem memorável com respeito à vida de Jeremias quando, esmagado pela oposição e mergulhado na autopiedade, ele esteve a ponto de capitular entregando-se à morte prematura. Jeremias estava pronto a abandonar seu chamado divino único e resignado a ser apenas uma estatística de Jerusalém. Naquele momento crítico, o profeta ouviu esta admoestação: “Se te fatigas correndo com homens que vão a pé, como poderás competir com os que vão a cavalo? Se em terra de paz não te sentes seguro, que farás na floresta do Jordão?” (Jeremias 12:5). O bioquímico Erwin Chargaff atualizou as questões: “O que você deseja alcançar? Grandes fortunas? Comida mais barata? Uma vida mais feliz, mais duradoura? É poder sobre os vizinhos o que persegue? Estará você apenas procurando escapar à morte? Ou será que você busca maior sabedoria e devoção mais profunda?”

A vida é difícil, Jeremias. Você irá desistir diante da primeira onda de oposição? Irá bater em retirada quando descobrir que há muito mais por que se viver do que três refeições diárias e um lugar seco para descansar, à noite? Procurará refugiar-se em casa no instante em que descobrir que multidões de pessoas estão mais interessadas em manter seus pés aquecidos do que viver sob risco para a glória de Deus? Você irá manter uma vida cautelosa ou corajosa? Eu o chamei para viver o seu melhor, para perseguir a justiça, manter a direção rumo à excelência. É muito mais fácil, como bem sabe, ser neurótico. É muito mais simples viver como um parasita. É menos complexo relaxar e deixar-se levar pelos braços da maioria. Mais fácil, porém não melhor, não mais significante, não mais recompensador. Eu o chamei para uma vida de propósito, muito além do que você pensa ser capaz de viver e prometi dar-lhe forças suficientes para você cumprir o seu destino. Agora, ao primeiro sinal de dificuldades, você está disposto a desistir. Se você se sente fatigado por essa multidão comum de patéticas mediocridades, o que fará quando a verdadeira corrida começar, contra os velozes e determinados cavalos da excelência? O que você realmente deseja, Jeremias? Quer arrastar-se, acompanhando a multidão ou almeja correr com os cavalos?

É compreensível que existam desistências rumo à excelência, mudanças frente ao risco, quedas da fé. É mais fácil definir-se no mínimo (“um bípede sem penas”) e viver com segurança dentro desta definição do que ser definido no máximo (“pouco menor que Deus” – Salmo 8:5), vivendo aventuras nesta realidade. É improvável, creio eu, que Jeremias tenha sido rápido ou espontâneo em sua resposta à pergunta de Deus. Os inebriantes ideais por uma nova vida haviam sido sobrepujados pelo cinismo mundial. A impetuosidade, euforia e entusiasmo juvenis não mais o estimulavam. Ele pesou as opções, contabilizou os custos. Agitou-se intimamente em hesitação. Sua resposta não foi expressa verbalmente, mas com sua biografia. A vida de Jeremias foi sua resposta: “Eu correrei com os cavalos”.

(Eugene Peterson, em “Corra com os Cavalos”, 2003, Ed. Textus e Ed. Ultimato, pág. 9 - para ler um comentário do livro, clique aqui)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Grandes canções - 3

TEMPO PERDIDO

Legião Urbana
Composição: Renato Russo


Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...
Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder...
Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E Selvagem! Selvagem!
Selvagem!...

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos...Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo...

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens...
Tão jovens! Tão jovens!...

O evangelho de Lucas - parte 35

No capítulo 20, já em Jerusalém, Jesus é retratado pelo evangelista Lucas, pregando o Evangelho. É esta a tarefa principal de Jesus, que incomodava fariseus e doutores da lei, incomodava ainda mais Satanás. E com o intuito de interromper esta pregação, que estes fariseus e doutores da lei são incentivados a perguntar-lhe: Qual é sua autoridade para ensinar?

Adeptos do cerimonialismo rigoroso, fariseus não poderiam permitir que uma pessoa que não fosse ordenada por eles ensinasse em seu próprio templo. Notem que a pergunta não mais gira em torno de sua doutrina, pois a esta altura todas as suas tentativas de invalidá-la foram frustadas. Eles questionam sua autoridade, tomando como verdadeira a premissa de que um pregador precisa ser ordenado por eles. Novamente percebe-se o discurso sobre a tradição religiosa embutido, apesar da ordenação dos sacerdotes do templo ter sido instituída por Deus. Este é o caso das tradições religiosas contemporâneas, mais destacadamente as tradições católicas, que se reservam ao direito de definir quem é e quem não é ministro da Palavra de Deus, direito este pertencente à própria Palavra que é viva e eficaz (Hb 4:12).

E como o sacerdócio foi instituído por Deus, os fariseus teriam a razão. No entanto, ignoraram poderosos sinais de Jesus Cristo, cuja força e grandeza demonstravam o favor divino. Pois estes sinais demonstravam que havia recebido a autoridade para pregar do próprio Pai. O sacerdócio veio do Pai, mas a autoridade de Cristo também, e foi esta última que os fariseus falharam em reconhecer.

Então para respondê-los, Jesus propõe primeiro uma pergunta: O batismo de João era dos céus ou da terra?

Muitos podem se perguntar por que Jesus responde a pergunta deles com outra pergunta. Será que Jesus estaria se evadindo da pergunta deles?

João Batista veio como aquele que prepararia o caminho para Jesus. Ele atestou publicamente que Jesus era o Messias prometido, aquele que haveria de vir. Portanto, se aqueles fariseus reconhecessem que o batismo de João era vindo do céu, estariam confirmando que João era um profeta, e se um profeta deu tal testemunho, estariam confirmando que Jesus tinha sim autoridade.

Aqui podemos notar como a mente humana - guiada pelo interesse próprio e não pela busca da verdade - age. Pois em nenhum momento eles agem buscando-a, e sim, querendo manter seus interesses. E por isto, não podem admitir que o batismo de João seja dos céus, por medo da multidão.

Entretanto, a pergunta de Cristo nos leva a uma reflexão ainda maior, como destaca Calvino em seus comentários. Jesus ao perguntar se o Batismo de João era do céu, indica o pré-requisito para que algo seja considerado válido: ser intituído por Deus. O Batismo de João só é válido por que veio do céu, ele só tem autoridade se foi instituído por Deus. Os homens não possuem o direito de instituir nenhum sacramento, como fazem os católicos ao instituir sacramentos como matrimônio, ordem, extrema unção, confissão e outros. Eles só valem se vierem do céu, e o Batismo não deixou de passar por esta prova.

Eles deveriam reconhecer isto, já que o sacerdócio no qual se apoiavam para tentar fazer Cristo deixar de pregar foi instituído da mesma forma. E aqui vemos como o que é instituído por Deus não está livre do mau uso por parte de pessoas gananciosas que querem usar a religião como forma de domínio. Antes tivessem percebido por qual autoridade Jesus ensinava aquilo, baseando-se nos milagres que Ele fez. Antes, tivessem percebido que João era um profeta por suas obras. Não quiseram reconhecer isto, por isto preferiram responder que não sabiam.

Jesus então conta uma parábola de trabalhadores que receberam uma vinha para cuidar. A ligação com os fariseus é clara, pois estes também receberam algo: a Palavra, o Sacerdócio, a Lei, a Terra. Acima de tudo receberam a autoridade pela qual questionavam. E como na parábola, estes fariseus receberam a visita de profetas, e os maltrataram, demonstrando o total desrespeito por aquele que os instituiu. Agora vem o filho dele, e eles o matarão. O que Deus fará com eles? Destruí-los-á, e dará o que foi dado a eles para outro. Isto certamente acontece quando Cristo ressuscita. Que o mesmo erro não aconteça com aqueles que receberam esta vinha.

Temos portanto que refletir sobre as atitudes dos fariseus. Não devemos fazer mau uso do que Deus nos dá. Devemos ser sinceros e buscar a verdade. É a pedra rejeitada que se tornou a pedra angular, e foi rejeitada por edificadores. Justamente aqueles que se julgava saber sobre pedras. São os que se julgam sábios que serão os mais prejudicados.

Não restando outra alternativa, enviam ainda alguns que, pretendendo ser humildes e sinceros, perguntam para Cristo sobre impostos. Neste momento percebe-se que já tinham a intenção de entregar Cristo para os romanos, pois se Ele dissesse que não deveria ser pago, poderia ser acusado de rebelião. Por outro lado, se dissesse para pagar, muitos do que estavam ouvindo seus ensinos perderiam a vontade de ouvir. Apesar de muito combatido, a idéia que ele era o Messias que livraria Israel da opressão de Roma ou qualquer outro império ainda estava viva, e uma declaração de que o imposto de Roma deveria ser pago provaria para muitos que Jesus não seria o Messias. Mas Cristo não era o Cristo de Israel, que o livraria da opressão, Cristo era o Filho de Deus, e estava ali apenas para resgatar as ovelhas perdidas de Israel (Mt 15:24). Seu desejo era fazer discípulos, e converter todos a Deus. Portanto, que as coisas humanas sejam entregues aos humanos, e as coisas divinas a Deus. Não devemos misturar divino com secular. Se o dinheiro era de César, por ter seu rosto nele, então por que estavam questionando o que fazer com ele? Por outro lado, se temos nossas Bíblias, onde o nome de Deus é exaltado sempre, o que devemos fazer com ela? Deixá-la de lado para buscar palavras humanas, ou sabedoria humana?

Diante desta grande sabedoria, os inimigos de Cristo não tiveram opção senão recuar. E depois desta demonstração de sabedoria, aproximaram-se de Cristo os saduceus, que são os precursores dos naturalistas, dos materialistas. Eles não acreditavam em espíritos ou ressurreição. Já que Josefo registra muitos debates entre eles e fariseus sobre a questão, entendemos por que resolveram provar até Cristo nisto. Usando a Lei sobre o matrimônio e a geração de descendentes, eles criaram uma dificuldade para a doutrina da ressurreição, onde uma mulher se casa com os sete irmãos de uma família, sem obter no entanto um descendente. Com quem ela estaria casada no paraíso?

Alguns textos bíblicos conseguem responder uma gama de doutrinas humanas que surgiram durante o cristianismo, e este texto é um deles. Pois Cristo os responde, declarando que na ressurreição não se casam nem se darão em casamento. Jesus não diz que a mulher estaria casada com um ou outro, mas que ninguém seria casado. Para os mórmons, que ensinam que há um casamento eterno, esta passagem acaba com todas as espectativas da eternidade de um casamento. Dizer que Jesus se referia à falta de cerimônias de casamento no mundo vindouro não condiz com a resposta dada. Os saduceus queriam saber com quem ela estaria casada, e não com quem ela se casaria. O mesmo texto pode ser dito para as Testemunhas de Jeová, que a princípio dizem que no mundo vindouro pode-se morrer, sendo instantaneamente ressuscitado. Jesus é enfático ao dizer que serão iguais aos anjos, não podendo morrer. Além disto, as ilustrações de seus livros estão cheias de crianças e adultos vivendo em família, o que não condiz com a situação de anulação do matrimônio retratada por Cristo aqui. Até mesmo os adventistas são respondidos pela primeira declaração, pois se a igualdade entre os filhos de Deus e os anjos no mundo vindouro se dá no fato de serem imortais, então concluímos que anjos não morrem, o que confirma a visão tradicional sobre a condenação de Satanás por toda a eternidade, e não sua aniquilação.

Isto bastaria para responder aos saduceus, mas Jesus complementa corrigindo a visão daqueles homens sobre o mundo espiritual, nos livros que eles tinham como sagrados, que era a Lei. Então, Jesus toma uma das declarações onde Deus se identifica como Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Deus é Deus de vivos. Assim, Jesus prova que há ressurreição, pois um Deus não poderia ser Deus de algo que não existe. E com esta mesma mentalidade, podemos dizer que a mesma passagem não só prova a ressurreição, mas prova a imortalidade do homem. Pois seria Deus um Deus daquilo que não existe? E assim, Jesus prova o erro dos saduceus, e seus velhos rivais os fariseus, o saúdam.

Depois de tudo isto, não conseguiam mais lhe fazer perguntas. Perceberam que seus esforços eram em vão. Jesus então continua seu discurso, questionando quem é o Messias, o Cristo, fato este relatado por Mateus e Marcos. A resposta dada é que ele era filho de Davi, e a partir daí Lucas continua sua narrativa. Para eles Cristo era apenas humano, o filho de Davi. Mas Jesus novamente corrige sua visão, perguntando por que Davi chama o Messias de Senhor, se este era apenas seu filho? A lógica aqui era clara, pois o Messias mesmo sendo filho de Davi, tinha autoridade superior a ele, do contrário, Davi não lhe chamaria de Senhor. Marcos e Mateus ainda completam dizendo que Davi disse isto "no Espírito". De quem o Messias era filho? Para estar acima de Davi, o Messias só poderia ser Filho do próprio Deus, de forma que seu senhorio se extende a todas as criaturas.

Finalmente, Jesus adverte seus discípulos a tomarem cuidado com os fariseus e toda sua pompa. Afinal de contas, foram eles que causaram todas as discussões, por sua ganância, naquele capítulo.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Fé morta

Acordei cedo hoje e, enquanto criava coragem para sair da cama, zapeei a TV nos tradicionais programas "evangélicos" da madrugada. 

Na Record estava uma senhora contando como sua vida mudou depois do "Congresso Empresarial", e, depois de desfilar um rosário de aquisições que comprovavam a sua prosperidade, ela soltou a seguinte pérola: "porque a fé sem obras é morta". 

Se eu ainda tinha algum sono, foi aí que eu me despertei. Se ela disse isso é porque foi ensinada pelos pastores da Universal. 

Fiquei pensando cá com os meus botões: como é que alguém consegue deturpar um texto tão maravilhoso como o de tiago 2:17, tirando-o do seu contexto e dando-lhe essa interpretação tão esdrúxula:

Tiago 2:

14 Que proveito há, meus irmãos se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura essa fé pode salvá-lo?
15 Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e tiverem falta de mantimento cotidiano.
16 e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito há nisso?
17 Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.
18 Mas dirá alguém: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.
19 Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; os demônios também o crêem, e estremecem.
20 Mas queres saber, ó homem vão, que a fé sem as obras é estéril?
21 Porventura não foi pelas obras que nosso pai Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar seu filho Isaque?
22 Vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada;
23 e se cumpriu a escritura que diz: E creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça, e foi chamado amigo de Deus.
24 Vedes então que é pelas obras que o homem é justificado, e não somente pela fé.
25 E de igual modo não foi a meretriz Raabe também justificada pelas obras, quando acolheu os espias, e os fez sair por outro caminho?

26 Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.

Este é um texto que ainda causa alguma controvérsia entre católicos e protestantes sobre a suficiência da fé para a salvação. 

Assim como uma multidão de teólogos de ambos os lados, não vejo dificuldades na interpretação desse texto. 

Está claro, para nós, que a fé não é algo que se assume apenas intelectualmente, mas que produz resultados práticos (obras) no mundo das coisas reais e concretas. 

Quem se converte ao Senhor Jesus produz boas obras não por que elas carregam algum bem salvífico intrínseco alheio à fé, mas, pelo contrário, elas a acompanham. 

Agora, eu confesso que fiquei estarrecido com esta idéia de que as tais "boas obras" - sem as quais a fé é morta - são aqueles bens materiais que o suposto crente consegue ao fazer provas, correntes e pirâmides de "fé", ou seja, a sua prosperidade visível, palpável, aferível e auferível conforme as aparências humanas. 

Troca-se o crente que se doa aos outros pelo que deles recebe. Pelo jeito, chegamos ao fundo do poço da teologia da prosperidade. 

Ok, eu sei, eles sempre dão um jeito de cavar mais fundo ainda...


domingo, 6 de julho de 2008

Paulo e Aristóteles

Vez ou outra, aparece alguém criticando a teologia, dizendo que o pensamento teológico é "engessador", o que muitas vezes é verdade, para o bem e para o mal. 

Afinal, uma estrutura religiosa que se baseie em fundamentos voláteis dificilmente se sustentará ao longo do tempo. 

Por outro lado, a teologia demanda permanente reflexão, o que efetivamente ocorreu no decorrer da História, e continua animando muita gente a seguir o caminho da crítica consciente e construtiva. 

Entretanto, quando alguém diz que "não gosta de teologia", ou a vê "contaminada" pelo pensamento filosófico, a questão se assemelha àquelas frases que muita gente diz.... "não gosto de política", ou "não faço política", ou ainda "odeio política". 

Ora, podem até não gostar de política, mas estão fazendo política pela sua omissão em participar da vida política. 

O mesmo se pode dizer da ideologia. Podemos criticar todos os movimentos ideológicos do mundo, mas, em suma, ninguém é imparcial, todos nos movemos por algum tipo de ideologia, mesmo que nosso discurso seja negá-la. 

Quanto à teologia, o cenário não é diferente. Até os ateus militantes fazem um discurso teológico, mesmo que possa ser considerado como um tipo de "a-teologia". Os teístas afirmam e os ateístas negam a existência de Deus, e este debate é feito através de discursos teológicos. 

Todos os nossos discursos, teológicos ou não, padecem da mesma ambiguidade. Não há ninguém que seja verdadeiramente neutro, imparcial, ou "contra o sistema", até porque o "sistema" precisa dos contrários para se validar. 

Logo, o discurso contra a teologia também é teológico, mas com apenas um viés: todos devem abandonar a teologia que, consciente ou inconscientemente, abraçam, e render-se incondicionalmente à contra-teologia dos insatisfeitos.

A filosofia é outro campo de batalha, bastante antigo, em que alguns vêem o cristianismo como que um desenvolvimento natural do pensamento grego, e outros a combatem como se ela simbolizasse um Armagedom das idéias. 

Nunca é demais relembrar, entretanto, que Paulo caminhava com tranqüilidade nesta seara. No capítulo 17 do livro de Atos, por exemplo, Paulo faz uso claro e transparente da filosofia e da poesia grega, ao pregar para os gregos, citando especificamente os poetas gregos, que literalmente disseram o que Paulo reproduz no versículo 28:

Atos 17:28 porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração.

As fontes poéticas que Paulo cita literalmente (assumindo o plágio), neste versículo, tanto pode ser o poema Phaenomena, de Aratus, como o Hino a Júpiter, de Cleantus, além de outros poetas que usaram a mesma idéia, ou seja, do homem ser geração de Deus. 

E, além disso, o "nele vivemos, nos movemos e existimos", se refere especificamente às polêmicas filosóficas que motivaram os gregos por tantos séculos, ou seja, o que significa a vida, o movimento, e a existência. Paulo ainda escreve o seguinte:

Filipenses 2: 1 Portanto, se há alguma exortação em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão do Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, 2 Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. 3 Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. 4 Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. 5 De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, 6 Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, 7 Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;

E, ao fazer isso, ele está se referindo especificamente aos estados da psiquê humana, conforme Aristóteles havia ensinado quatro séculos antes, dividindo os fenômenos da psiquê humana em três espécies, conforme já postei neste blog:

a) Estados afetivos ou paixões (ou afecções) - (apetite, cólera, medo, audácia, desejo, alegria, amizade, ódio, saudade, inveja, piedade – inclinações da alma que implicam em prazer ou desprazer);

b) Capacidades (ou faculdades) – aptidões ou capacidades para experimentar as paixões (citadas acima): por exemplo, a capacidade para experimentar a piedade, a inveja ou a cólera;

c) Disposições (ou deliberações) – o próprio comportamento concreto, prático, que tenhamos, bom ou mau, relativamente às paixões. O exemplo é o da cólera: se nos entregamos a ela ou a experimentamos de forma violenta, a cólera é má; já poderá ser boa se a experimentarmos com moderação (o que envolve também adequação ao momento, e a devida proporcionalidade).

Além dos afetos, das paixões, a palavra grega traduzida por "sentimento" em Filipenses 2:5, é φρονέω ("phroneō", "fron-eh'-o"), que nada mais é do que o que Aristóteles entendia por "disposição", hoje mais conhecida por "fronesis", que nada mais é do que a prudência, a temperança, o bom senso para encontrar o caminho do meio, caminho este que, associado à verdade e a vida, define Jesus (João 14:6).

Portanto, me parece que é melhor refletir com calma e equilíbrio sobre a teologia e a filosofia, do que simplesmente rejeitá-las. Tal atitude soa mais como uma fuga inconsciente a um dos mais preciosos bens que Deus concedeu aos humanos: simplesmente pensar.



Rembrandt, "Aristóteles e o busto de Homero"


Como o rio que corre para o mar....


No Forum Atos, existe uma discussão interessante sobre a divindade de Jesus, bastante democrática, que envolve católicos, evangélicos, ortodoxos, espíritas, testemunhas de Jeová, e outras vertentes religiosas. Lá pelas tantas, um espírita argumentou que Jesus mesmo teria dito que não é Deus, citando João 14:28: "Ouvistes que eu vos disse: Vou, e venho para vós. Se me amásseis, certamente exultaríeis porque eu disse: Vou para o Pai; porque meu Pai é maior do que eu". Talvez inspirado pelas minhas leituras recentes de Guimarães Rosa (sem a genialidade dele, obviamente), assim que li este versículo, imaginei outra leitura que, por analogia, esclarecesse o que Jesus havia dito:

Disse o rio ao pescador: vou para o mar, porque o oceano é maior do que eu, embora continuemos todos sendo água...

Não estava o Mestre, portanto, negando a sua divindade. A resposta que obtive foi: "Todos continuam sendo água, mas um rio não é igual um mar", ao que meu irmão e amigo Gustavo bem observou que era exatamente por isso que a comparação é perfeita. Em seguida, o espírita em questão objetou que "Pois é, da mesma forma que os rios vão todos pro mar, somos todos filhos de Deus, o que não implica em sermos todos deuses". De novo, eu achei que a resposta estava pronta na primeira analogia: afinal, "somos todos pescadores", no que o Gustavo complementou: "E disse Jesus a Simão: Não temas; de agora em diante serás pescador de homens. (Lc 5:10)".

É claro que qualquer comparação humana é incapaz de alcançar a profundidade do mistério da Trindade ou da Encarnação, mas essa pequena discussão pelo menos nos deu uma pálida idéia de como uma pequena analogia com a água - do rio, do mar e do oceano - pode nos ajudar a nos aproximarmos de entender, pela fé, como Deus é ao mesmo tempo Um e Três. Um em essência e Três em distinção de papéis. Também mostra como Jesus, a "imagem do Deus invisível" (Colossenses 1:15), em quem "habita corporalmente a plenitude da divindade" (Colossenses 2:9) pôde dizer que "o Pai é maior do que eu", pois, mesmo sendo 100% Deus e 100% homem, "tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado" (Hebreus 4:15), sabia ser limitado à sua condição humana, "humilhando-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz" (Filipenses 2:8). A analogia (e o símbolo - batismal, por exemplo) da água é universal, e se ampliarmos a imagem para o ciclo da evaporação, da chuva e da absorção pelo solo, talvez entendamos melhor ainda o que Cristo quis dizer em João 16:28 - "Vim do Pai e entrei no mundo; todavia, deixo o mundo e vou para o Pai".

sábado, 5 de julho de 2008

Justiça no pensamento aristotélico - 4


4) JUSTIÇA E MEDIEDADE:

No Livro V da “Ética a Nicômaco”, Aristóteles reforça seu entendimento da justiça como a máxima virtude:
“Então a justiça neste sentido é a excelência moral perfeita, embora não o seja de modo irrestrito, mas em relação ao próximo: portanto a justiça é freqüentemente considerada a mais elevada forma de excelência moral, e “nem a estrela vespertina nem a matutina é tão maravilhosa”; e também se diz proverbialmente que
na justiça se resume toda a excelência”.


Com efeito, a justiça é a forma perfeita de excelência moral porque ela é a prática efetiva da excelência moral perfeita. Ela é perfeita porque as pessoas que possuem o sentimento de justiça podem praticá-la não somente em relação a si mesmas como também em relação ao próximo. É por isto que se consideram bem ditas as palavras de Bias: “O exercício do poder revela o homem”, pois os governantes exercem necessariamente o seu poder em relação aos outros homens e ao mesmo tempo são membros da comunidade.” [1]


De novo, Aristóteles insiste no aspecto prático da virtude, e, nesse caso em particular, do agir justo. Para ele, as virtudes intelectuais dependem em boa parte da educação, da experiência e do tempo. Mas o mesmo se pode dizer das morais, que também não são produtos naturais ou imanentes. Ninguém nasce virtuoso. Nisto se verifica o seu distanciamento de Platão, para quem a concepção de justiça é inata ao homem. Para Aristóteles, a natureza apenas nos tornou receptáculos das virtudes, com capacidade e aptidão para as mesmas, mas esta capacidade ou aptidão precisa, em última análise, do concurso da nossa ação, seja pela maturidade, seja pelo hábito. As virtudes estão nos homens não em ato, mas em potência. É pela prática (delas) que aprendemos, e é praticando-as, ou seja, agindo virtuosamente, que nos tornamos virtuosos. Tornamo-nos justos não por entendermos intelectualmente o que é a Justiça, mas por a praticarmos insistente e habitualmente. E, conseqüentemente, seremos mais justos tanto quanto mais Justiça praticarmos. Como diz Bittar:
“A instrução está a dirigir a virtude intelectual, que aparece somada à experiência, ao passo que o hábito (éthos) se destaca como o elemento essencial da virtude propriamente ética. Aliás, é a prática e a reiteração da boa conduta que permitem se possa conquistar a excelência moral; ética (ethiké) é o termo derivado exatamente de hábito (éthos). Dependendo da habitualidade, a virtude ética está na razão direta da plena concorrência da vontade deliberada humana para a sua aquisição, motivo pelo qual não se pode considerá-la como virtude inata ou de necessária existência congênita no espírito humano. Presente sem ela está como potência a ser realizada, mas isto mediante o concurso da razão deliberada no sentido de esculpi-la em ato, convertendo-a de seu estado metaempírico em ação (práxis).” [2]
A ênfase na prática, no agir justo, é o enfoque constante da obra de Aristóteles quanto à Justiça. Mas ele a vê, essencialmente, como uma “escolha deliberada” do ser humano. Como lembra o mestre Ferraz Junior:
“A justiça, como as demais virtudes, é uma disposição (εξιζ) e é um meio-termo (μεσοτηζ). Há, porém, uma terceira característica. Diz Aristóteles que a justiça “é uma disposição em razão da qual o homem justo é definido como apto a executar, pela escolha deliberada, o que é justo” (É.N., V., 9,1134ª). Não basta, pois, para caracterizar a justiça (e o vício que lhe corresponde), o fato de ser uma disposição e um justo meio. Ela é também uma escolha deliberada, sendo a deliberação também uma característica essencial da virtude em geral. “A virtude é uma disposição de agir de modo deliberado” (É.N., II, 6,1107ª). Aristóteles estuda, ao mesmo tempo, a justiça e seu contrário, a injustiça (É.N., V, 1,1129ª20). Este procedimento faz parte do método dialético, pois “a questão de se saber se um termo é tomado especificamente em vários sentidos, ou em um só, deve ser considerada do modo seguinte. É preciso, antes de tudo, examinar se o contrário do termo apresenta várias significações, se a diferença é específica ou somente nominal” (Top., I, 15, 106ª9 e ss). Essa investigação, no caso da justiça - sendo objeto da Ética -, tem por material as ações dos homens considerados justos, a partir do que se erguerá a teoria (É.N., V, 1, 1129ª17).” [3]
Este entendimento de “deliberação” na obra de Aristóteles fica mais claro quando nos lembramos de que ele dividia os fenômenos da psique humana em três espécies:

a) Estados afetivos ou paixões (ou afecções) - (apetite, cólera, medo, audácia, desejo, alegria, amizade, ódio, saudade, inveja, piedade – inclinações da alma que implicam em prazer ou desprazer);

b) Capacidades (ou faculdades) – aptidões ou capacidades para experimentar as paixões (citadas acima): por exemplo, a capacidade para experimentar a piedade, a inveja ou a cólera;

c) Disposições (ou deliberações) – o próprio comportamento concreto, prático, que tenhamos, bom ou mau, relativamente às paixões. O exemplo é o da cólera: se nos entregamos a ela ou a experimentamos de forma violenta, a cólera é má; já poderá ser boa se a experimentarmos com moderação (o que envolve também adequação ao momento, e a devida proporcionalidade).

Assim, para Aristóteles, as virtudes (tal como os vícios) não são propriamente estados afetivos ou paixões, tampouco capacidades. São, sim, disposições ou deliberações: uma forma de viver as paixões. Se a deliberação é boa, estamos diante de uma virtude. Se é má, estamos diante de um vício. O ideal, pois, é a mediedade, ou seja, experimentar emoções como a das paixões no momento oportuno, nos casos específicos e relativamente às pessoas que convém, dadas as razões e formas adequadas.

A virtude é, pois, um hábito quanto ao seu modo-de-ser, que se aperfeiçoa e se desenvolve com a prática reiterada, desde a infância, e deve ser objeto primordial da educação, por mais que os jovens queiram recusá-la em troca do prazer momentâneo do vício. Quanto ao seu conteúdo, a virtude é vista como una (embora admita uma certa amplitude de possibilidades – e não seja de todo condenável um pequeno desvio, quer num sentido quer noutro), dentre (e no meio) de uma pluralidade de erros, seja por excesso, seja por defeito. E aqui começamos a perceber a influência da geometria no pensamento aristotélico. A virtude está realmente no meio, entre dois extremos, embora não rigorosamente simétricos, já que a natureza, em cada caso, normalmente mais nos inclina para um dos dois lados. Entretanto, que não se confunda este meio com mediocridade ou mediania; trata-se, na verdade, de um ápice na ordem da excelência e da perfeição. A virtude está no meio; se consideramos a covardia e a temeridade, a coragem será a virtude, embora a temeridade seja menos condenável que a covardia; se analisamos a licenciosidade e a insensibilidade, a virtude está na moderação (a que depois o pensador chamará temperança); se nos vemos diante da prodigalidade e da avareza, a virtude reside na liberalidade ou generosidade.

É importante notar que algumas destas palavras passaram por mudanças conceituais com o decorrer do tempo. Liberalidade ou parcimônia podem, dependendo da situação, significar algo diferente da virtude e do vício. Considere-se, ainda, casos excepcionais de ausência de um termo exato para a virtude do meio, analisando-se, conforme o caso concreto, aqueles que agem de acordo com esse ou aquele termo extremo, como sucede quando estudamos a ambição. Na verdade, é deplorável tanto a falta de ambição como o seu oposto, o excesso, e tudo depende de como se observa o contexto.

Ainda no domínio das paixões, podem ser verificados termos médios praticamente em todos os aspectos que se investigue. Entretanto, Aristóteles sabe que identificar o termo médio e a virtude no caso da Justiça é a tarefa mais complexa, e por isso temos que deter-nos um pouco mais sobre o seu conceito de mediedade.

Os comentadores de Aristóteles muito debatem sobre o seu conceito de mediedade, com diferentes interpretações, em que a crítica mais comum é o caráter genérico do que esse conceito significa, ou seja, como é possível aferir, na prática (para usar um conceito de Aristóteles em seu desfavor), qual é o ponto médio, o meio termo, o equilíbrio, a moderação.

Entretanto, ao analisar a questão da eqüidade, no mesmo Livro V de Ética a Nicômaco, o estagirita procura dar um exemplo prático de como se pode, diante da lacuna da lei, guiar-se simultaneamente pelo eqüitativo e pelo justo:
“Agora podemos ver claramente a natureza do eqüitativo, e perceber que ele é justo e melhor que uma simples espécie de justiça. É igualmente óbvio, diante disto, o que vem a ser uma pessoa eqüitativa; quem escolhe e pratica atos eqüitativos e não se atém intransigentemente aos seus direitos, mas se contenta com receber menos do que lhe caberia, embora a lei esteja do seu lado, é uma pessoa eqüitativa, e esta disposição é a eqüidade, que é uma espécie de justiça e não uma disposição da alma diferente.” [4]
Aristóteles, no livro comentado de Ética a Nicômaco, é pródigo em exemplos práticos de situações, a seu ver, justas e injustas. Fazendo referência aos expoentes da literatura grega, sempre encontra uma maneira de ilustrar o seu pensamento com exemplos tirados da cultura grega e do imaginário popular. Ainda que se critique a dificuldade em se chegar ao ponto médio de cada questão, é inegável que a doutrina da mediedade tem lugar central na sua concepção de Justiça.


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[1] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996, pág. 195
[2] BITTAR, Eduardo C. B. Curso de Filosofia Aristotélica. Barueri, SP: Ed. Manole, 2003, pág. 1019
[3] FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. Estudos de Filosofia do Direito. São Paulo: Atlas, 2003, 2ª ed., pág. 166.
[4] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996, pág. 213

Riobaldo e a religião


No último dia 27, o Brasil celebrou os 100 anos do nascimento de Guimarães Rosa. Ocasião perfeita para colocar aqui a opinião de Riobaldo sobre religião, conforme a obra-prima da literatura brasileira, Grande Sertão: Veredas.

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura. No geral. Isso é que é a salvação da alma… Muita religião, seu moço! Eu cá não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. (...) Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Estremeço. Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. (...) Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada - erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom.

(Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”, Ed. Nova Fronteira, 2001, p. 32)


sexta-feira, 4 de julho de 2008

El apagón de la Telefónica

A empresa Telefónica de España, grande beneficiária do monopólio de telefonia fixa no Estado de São Paulo, resultado prático das privatizações do governo FHC (também conhecidas por "privatarias"), deixou os seus clientes sem acesso à Internet nos dois últimos dias. Quem sabe agora eles trocam o nome do Speedy por Stoppy (ou Snoopy, pra mostrar como eles vêem seus clientes). Useira e vezeira no desrespeito ao consumidor, a Telefónica apenas resolveu exponenciá-lo, talvez porque saiba que a impunidade brasileira lhe protege. Assim, milhões de paulistas foram prejudicados. Empresas não puderam operar normalmente, assinantes residenciais ficaram a ver navios virtuais, crimes não puderam ser registrados nas delegacias, e o cidadão comum não pôde obter uma simples certidão numa repartição pública. Hoje, a situação continua complicada, apesar da empresa alegar que "os serviços voltaram à normalidade". Se já é estranho que um monopólio estatal - reconhecidamente incompetente - se transforme num monopólio privado de quinta categoria, já que a suposta concorrência que existiria nunca se concretizou, muito mais estranho é que esta empresa - que trata seus clientes dessa forma vergonhosa há vários anos -, continue sendo autorizada a operar no Brasil, obtendo lucros de R$ 490 milhões só no 1º trimestre de 2008, conforme noticia a Folha Online (e R$ 2,36 bi em 2007, segundo a mesma fonte). Considerando-se, ainda, que boa parte do seu lucro é destinada aos acionistas espanhóis, que dedicam aos brasileiros um tratamento vergonhoso nos seus aeroportos, seria o caso de se pensar numa câmara de compensação de prejuízos entre Brasil e Espanha. Assim, antes que os lucros fossem remetidos ao finérrimo país europeu, podiam ser abatidos os prejuízos que os brasileiros tiveram com os maus serviços e os desserviços da Telefónica de España, bem como uma singela indenização pelos maus tratos aos brazukas no aeroporto de Barajas, em Madrid.

Ah... antes que me entendam mal, não quero a volta da estatal Telesp, de triste memória. Aliás, se ainda fosse a Telesp, a Míriam Leitão estaria soltando fogo pelas ventas no Bom Dia Brasil toda manhã, pedindo a privatização. E o Bonner e a Fátima estariam abrindo o Jornal Nacional ameaçando o povão com a inflação e com as estatais. A Veja esgotaria o estoque de ilustrações de dinossauros nas suas capas dominicais. Como é a Telefônica, eles ficam quietinhos. Em suma: além de uma imprensa ética e honesta, eu quero apenas mais uma coisa: capitalismo, e o que ele tem de melhor: a concorrência. Ô Anatel! Ô Ministério das Comunicações! Leiam os meus sinais de fumaça! Eu quero poder escolher!

Quem com "créu" fere...

Sou santista, mas torci – sem grande euforia, confesso – pro Fluzão ganhar a Libertadores. Consumada a tragédia (que atende pelo nome de LDU), acho que pelo menos algo pedagógico dá pra extrair desta derrota. Primeiro, todo o pessoal envolvido no futebol podia evitar cada vez mais essas frases feitas e as baboseiras com que eles reincidentemente estupram nossos ouvidos. O Renato podia deixar aquele ar blasé para algum papel trágico no teatro kabuki, bem calado, de preferência, pra não soltar idiotices como "Boca Juniors, prazer, Fluminense!" ou "estamos a 5 km da próxima Libertadores". O Thiago Neves podia melhorar seu gosto musical e ouvir outras coisas melhores que o Créu, ou ingressar num curso de ballet para comemorar seus gols com um pouco menos de baixaria. Além disso, ele podia se convencer de que dizer que o gol da derrota (nos 4x2 de Quito) é o gol do título pode funcionar pro Carlinhos Bala, do Sport, mas é mera loteria. Afinal, o campo de futebol foi feito pra plantar grama e não abobrinha.

Grandes canciones - 2

Uma pequena homenagem a Astor Piazzolla, no dia em que se completam 16 anos sem este gênio da música argentina e mundial, com esta que é uma das mais belas e emotivas músicas já compostas, feita em homenagem ao seu pai quando este estava no leito de morte:

ADIOS NONINO



quarta-feira, 2 de julho de 2008

O evangelho de Lucas - parte 34



O capítulo 20 começa com Jesus em Jerusalém, para sua jornada final, aproveitando o tempo para ensinar o povo no templo e pregando o seu próprio evangelho (algo que Lucas faz questão de destacar), sempre perseguido pelos escribas e sacerdotes (v. 1), que conspiravam para testá-lo e pegá-lo em algum erro, e o relato de Lucas, no v. 2, mostra que eles lhe perguntaram com que autoridade fazia "essas coisas", que podem tanto ser entendidas como os seus sinais ou prodígios, como, principalmente, o fato de Jesus ter expulsado os vendilhões do templo no final do capítulo anterior (19:45-46). Certamente, esta delegação do Sinédrio não gostava de ver Jesus não só avocando como demonstrando autoridade no templo, que eles consideravam um território particular de onde auferiam sua pretensa honra além de riquezas através dos tributos cerimoniais. Jesus, percebendo sua má intenção, respondeu-lhes com outra pergunta, indagando-lhes se o batismo de João era dos céus ou dos homens (v. 4). Isso deixou seus adversários numa "saia justa", se é que podemos usar esta expressão moderna para o constrangimento que eles enfrentaram. Se dissessem que era do céu, seriam cobrados por não terem acreditado em João (v. 5). Se respondessem que era dos homens, seriam apedrejados pelo povo que tinha João como profeta (v. 6). Não lhes restou alternativa senão sair pela tangente dizendo que não sabiam (v. 7). Foi a deixa para que Jesus também se recusasse a responder a questão que eles lhe haviam formulado (v. 8).

A seguir, Jesus lhes conta a parábola dos lavradores maus (vv. 9-18), que também é relatada por Mateus (21:33-44) e Marcos (12:1-11), o que mostra a importância do seu simbolismo para quem a ouviu, fossem seus discípulos ou inimigos. Mais uma vez, Jesus utiliza imagens que eram facilmente compreensíveis para os seus ouvintes, sobre uma vinha que havia sido arrendada pelo seu proprietário a certos lavradores, antes de ausentar-se do país por um bom tempo (v. 9). Ainda fora de sua terra, ele manda servos para cobrarem a sua parte no arrendamento das vinhas. Manda um servos (v. 10), manda outro (v. 11), manda um terceiro (v. 12), mas todos são espancados e humilhados pelos lavradores e retornam ao seu senhor de mãos vazias. Creio que não era preciso esperar até o final da parábola para que os ouvintes de Jesus começassem a entender que esses servos do dono da vinha eram os profetas que Deus havia enviado ao povo de Israel, e haviam sido espancados e mortos. Jesus já havia explicitamente acusado os pais dos intérpretes da Lei de terem matado os profetas (Lucas 11:47-48). A parábola prossegue com o pai enviando o "filho amado" (v. 13), na esperança de que os lavradores agora o respeitariam, mas estes viram neste fato a oportunidade de eliminar o herdeiro da vinha, pelo que o mataram (v. 15). Não resta outra alternativa para o dono da vinha senão voltar à sua vinha, exterminar os lavradores maus e passá-la a outros (v. 16). Diante do desfecho da parábola, seus ouvintes disseram que não queriam que tal coisa acontecesse, mas Jesus olhou bem para eles e citou o Salmo 118:22, identificando-se, sem que eles ainda percebessem a extensão da sua lembrança, com a pedra de esquina que seria rejeitada pelos construtores (v. 17). Ai de quem nEle tropece e ai daqueles sobre os quais ela cair (v. 18). É interessante relembrar que Jesus estava no templo, que algumas décadas depois seria arrasado e perdido para sempre. Ele sabia disso e deve ter pensado nisso quando fitou os olhos dos seus ouvintes.

Entretanto, ainda que num nível inconsciente, se é que podemos pensar assim, os escribas e os sacerdotes perceberam, de alguma maneira, a profundidade e a gravidade dessa parábola, bem como o fato de que ela se dirigia a eles, razão pela qual ficaram profundamente irritados (v. 19). Utilizando a mesma artimanha que usariam com Judas, subornaram algumas pessoas para se aproximar de Jesus, "fingindo-se de justos" para espreitar algum ato falho do Mestre para entregá-lo aos romanos (v. 20). Eles já haviam percebido que dificilmente conseguiriam enredar Jesus e fazê-lo quebrar alguma das suas pesadas ordenanças farisaicas. A questão não é tanto quebrá-las, pois Jesus constantemente fazia isso, mas Ele sempre justificava suas atitudes de maneira tão sábia que seus inimigos não tinham como rebatê-lo. Imaginaram, então, que Jesus incorreria em algum ilícito civil ou criminal, que lhes permitiria entregá-lo ao governador, pelo que lhe perguntaram se era lícito pagar tributos a César (v. 22). Esta era uma pergunta muito capciosa, e qualquer resposta de Jesus, na visão dos seus inimigos, o incriminaria. Se dissesse que era ilícito, seria entregue aos romanos como revolucionário. Se dissesse que era lícito, desagradaria ao povo que via nEle uma espécie de messias guerreiro e libertador da opressão romana. A resposta de Jesus, mostrando a efígie da moeda e perguntando de quem era a inscrição (v. 24), pegou-lhes de surpresa. A sua frase "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (v. 25) é antológica e mesmo quem não é cristão consegue captar a profundidade da sabedoria desta que é uma das respostas mais sábias que a humanidade conheceu. Não restou outra alternativa aos seus algozes senão admirar-se da sua sabedoria e se calarem (v. 26).

Ainda nesse espírito de inquérito a céu aberto no templo, chegaram alguns saduceus, homens importantes no sistema religioso judeu, que rivalizavam com os fariseus por não acreditarem que houvesse ressurreição (v. 27). Para testar Jesus, formulam, então, uma pergunta intricada sobre uma mulher que fica viúva sete vezes de sete irmãos (vv. 28-32). Quando ela morre, de qual deles seria esposa? (v. 33). Jesus lhes responde que não há casamentos no mundo vindouro (v. 35), e não se pode mais morrer porque os salvos são iguais aos anjos. São filhos de Deus e filhos da ressurreição (v. 36). Os saduceus se aferravam a uma interpretação literal do Velho Testamento para negar a ressurreição, e recebem agora uma lição de exegese do próprio Deus-Filho, que diz que a passagem da sarça ardente mostrada a Moisés (Êxodo 3:1-6), quando este chama o Senhor de Deus de Abraão, Isaque e Jacó, revela que Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, "porque para ele todos vivem" (vv. 37-38). No relato correspondente de Marcos 12:27, Jesus ainda acusa os saduceus: "Laborais em grande erro". De fato, esta é uma passagem difícil para os aniquilacionistas, pois mostra que o partido dos judeus - que dizia não haver prova da imortalidade da alma no Velho Testamento – foi severamente censurado pelo próprio Jesus. Adam Clarke comenta assim este versículo em especial:

Lucas 20:38
Para ele todos vivem -
Há uma passagem notável no comentário de Josefo sobre Macabeus, capítulo 16, que prova que os judeus melhor isntruídos acreditavam que as almas dos homens justos estavam na presence de Deus, num estado de felicidade. "Aqueles que perderam suas vidas por amor a Deus, vivem perante Deus, como Abraão, Isaque e Jacó, e os demais patriarcas". E algo não menos notável está escrito em Shemoth Rabba, fol. 159. "O rabi Abbin diz: o Senhor disse a Moisés, encontre para mim dez pessoas justas entre o povo, e eu não destruirei o teu povo. Então disse Moisés: espere, aqui estamos eu, Arão, Eleazar, Itamar, Finéias, Calebe e Josué; mas Deus disse, aqui estão somente sete, onde estão os outros três? Quando Moisés viu que não sabia o que fazer, ele disse, ó Eterno Deus, vivem aqueles que estão mortos? Sim, disse Deus. Então Moisés disse, se aqueles que estão mortos realmente vivem, lembre-se de Abraão, Isaque e Jacó". Assim, a ressurreição dos mortos, e a imortalidade e imaterialidade da alma, não eram doutrinas estranhas ou desconhecidas entre os judeus.

Calvino tem uma posição também bastante interessante sobre esta passagem:

Em virtude desta prova bastante evidente, portanto, o Senhor queria recomendar-lhes a grandeza e afluência de sua bondade, que haveriam de sentir após a morte, quando a descrevia como que a transbordar a toda a descendência. Com efeito, a veracidade desta promessa então o Senhor a selou, e como que lhe exibiu o cumprimento, quando, muito depois da morte destes, o denominavam o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó [Ex 3.6]. E então? Não era, porventura, ridícula essa designação, se haviam perecido? Ora, teria sido exatamente como se assim houvesse falado: "Eu sou Deus daqueles que não existem". Daí narram os evangelistas [Mt 22.23-32; Lc 20.27-38] que com este exato argumento os saduceus foram pressionados por Cristo, isto é, individualidades que haviam aprendido do próprio Moisés que "todos os santos lhe estão na mão" [Dt 33.3], de sorte que não pudessem, de fato, negar que a ressurreição dos mortos fora atestada por Moisés. Donde era de se concluir que, na verdade, não se extinguem na morte aqueles a quem receberam sob sua tutela, guarda e proteção é Aquele que é o árbitro da morte e da vida.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 2, pp. 192-193)

Ainda que os saduceus reconhecessem a sabedoria da resposta de Jesus e não quisessem mais interrogá-lo (vv. 39-40), Jesus lhes dirige outra pergunta. Citando o Salmo 110:1 – "Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés" (vv. 42-43), indaga-lhes como Davi poderia chamar de Senhor alguém que é conhecido como "filho de Davi", título que muitos conferiam a Jesus. Os saduceus, dada sua interpretação literal das Escrituras, certamente esperavam o messias como sendo um descendente de Davi, um "filho de Davi", mas aqui Jesus lhes mostra que o próprio Davi chama o messias de Senhor, ou seja, de Deus, e como Jesus se apresentava também como Filho de Deus, aqui temos uma das mais claras defesas que o próprio Mestre faz da doutrina da Trindade. Ainda que a palavra "trindade" não esteja escrita na Bíblia, e seja uma formulação teológica para definir um mistério tão profundo, o próprio Jesus faz questão de citar esse salmo de dificílima interpretação para ressaltar a sua condição divina. Lucas não se limita a este trecho de seu evangelho para reforçar esta verdade, mas no livro de Atos ele faz questão de relatar a citação que Pedro faz deste mesmo Salmo:

Atos 2:29 Irmãos, seja-me permitido dizer-vos livremente acerca do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado, e entre nós está até hoje a sua sepultura. 30 Sendo, pois, ele profeta, e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que faria sentar sobre o seu trono um dos seus descendentes - 31 prevendo isto, Davi falou da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada no hades, nem a sua carne viu a corrupção. 32 Ora, a este Jesus, Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. 33 De sorte que, exaltado pela dextra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis. 34 Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio declara: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, 35 até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés. 36 Saiba pois com certeza toda a casa de Israel que a esse mesmo Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.

É interessante como se observa, na Bíblia, o progresso da Revelação. Primeiro, Davi compõe, inspirado, aquele salmo messiânico, em que fala isto que é completamente estranho ao monoteísmo judaico: a existência de Dois Senhores dentro daquilo que eles entendiam por unicidade. Depois, Jesus pergunta aos fariseus de quem eles imaginavam que o Messias seria Filho (Mateus 22:41-46), e quando eles respondem "de Davi", Jesus faz questão de se mostrar maior que Davi, maior do que o homem, mesma atitude que tem diante dos saduceus nessa passagem de Lucas 20. E, por fim, na primeira pregação cristã (a do Pentecostes), Pedro lembra-se novamente desse Salmo, cita-o e inclui na Revelação a promessa do Espírito Santo, finalmente cumprida naquele exato momento. É óbvio que Pedro não fez um tratado sobre a Trindade naquele momento por duas razões básicas: a primeira é que isso era claro para ele e para os discípulos de Cristo; e a segunda é que continua inacessível à razão saber como esse "mistério" se processa dentro da Divindade. Pedro sabia que somente a fé realmente alcança este entendimento. E se a fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela Palavra de Deus (Romanos 10:17), era exatamente isto o que ele estava fazendo naquele dia de Pentecostes, sem querer estruturar ali um compêndio de Teologia Sistemática que agradasse a razão. Mas Lucas, ao registrar esse sermão, divinamente inspirado, fez questão de deixar claro ali do que Pedro estava falando, para nossa alegria e instrução.

Retornando ao evangelho de Lucas, ele termina o capítulo 20 mostrando Jesus advertindo seus discípulos que se guardassem dos escribas, que gostavam de desfrutar de sua reputação e ostentá-la perante o povo, devorando as casas as viúvas com pretensas orações, e que eles seriam objeto de juízo muito mais severo (vv. 45-47). Este é um capítulo, portanto, que começa e termina com Jesus sendo acossado pelos sacerdotes, escribas, fariseus e saduceus, mostrando o conflito latente entre Deus-Filho e uma religiosidade tacanha, interesseira, que pensava apenas nos benefícios que seus líderes podiam auferir das superstições ritualísticas que inculcavam nos seus adeptos incautos. Era este conflito que estava prestes a explodir.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Diário de um lunático - 7


04/05/2007

Olá para todos, sou eu novamente.

Quem tem me acompanhado tem percebido como meu objetivo maior é dar minha opinião sobre alguns grupos religiosos, principalmente comentando o que eu passo algumas vezes. Mas a minha primeira motivação para isto não foi uma religião que pregava algo totalmente diferente do que pratica, ou as notícias de mulçumanos suicídas que me fez acreditar que a religião é um grande mal à humanidade. A minha motivação primeira foi o próprio ateísmo, por isto posso até me considerar um "lunático". Pois poderia com toda justiça ser considerado um ateu, mas prefiro que não seja. A meu ver, o ateísmo é muito mais próximo de uma religião do que todo mundo imagina. E é por isto que resolvi escrever hoje. Algo que li me chamou a atenção, e resolvi considerá-lo aqui.

Estava lendo em algum destes fóruns que freqüento, que a religião atrasou e continua atrasando o progresso. Em outro lugar li que a fé é um sentimento, dizendo com isto que a fé é algo arbitrário. Cheguei até a ler que a religião foi culpada pelas catástrofes ambientais que temos hoje em dia, neste que é o ano da ecologia...

É até curioso que tais afirmações sejam feitas. Até onde eu sei, o ateu, ou como eles gostam de ser chamados - os "céticos" -, são aqueles que questionam acima de tudo. Para eles, só posso dizer que algo acontece quando este algo for empiricamente provado. Já se provou que elétrons percorrem um condutor, quando aplicada uma diferença de potencial entre os pólos deste condutor, e isto eles não duvidam. Agora, não se provou ainda de forma empírica, como avaliar se uma situação é boa ou não. É claro, uma lâmpada ligada em uma noite escura de chuva é algo muito bom. Mas isto infelizmente, é puro sentimento, e ateus não consideram o sentimento digno de crédito. O sentimento é arbitrário, fazendo todo julgamento - sobre algo ser ou não bom - também ser arbitrário.

O que é o progresso? Ao meu ver, progredir é deixar um estado definido para um estado melhor que o anterior. O progresso chegou em minha casa, por que finalmente asfaltaram minha rua! Deixei uma situação péssima, vivendo entre a poeira, para uma melhor, vivendo sem ela. É neste momento que a trapalhada do ateu acima fica evidente... Para se definir progresso, é preciso primeiro definir o que é bom e o que é ruim. E isto ele não pode fazer, pois isto não é definido empiricamente. Ele pode no máximo se basear em conceitos próprios para definir o que é progresso, mas isto deveria ter o mesmo valor para ele do que a fé de um budista. Não pode haver moralidade universal para o ateu, senão qualquer teísta poderia facilmente provar a existência de seu deus. E isto o ateu não pode permitir.

As catástrofes ambientais foram culpa da religião? Eu penso que tal análise seja bastante superficial. Da mesma forma, poderia dizer que toda descoberta científica no passado se deveu à crença em um deus, pois a grande maioria dos cientistas era teísta (boa parte ainda é). Claro que o ateísta não aceitará a segunda declaração, pois tem horror a qualquer intromissão da religião na ciência. Mas se é para ser superficial, então sejamos! Agora, se estivermos dispostos a tratar as duas questões como questões complexas, que necessita de uma análise mais acurada, então nenhuma das duas declarações poderá ser feita.

Finalmente, a fé pode ser um sentimento. E é muito engraçado como exatamente são os sentimentos que me diferenciam do computador que estou usando para escrever neste diário. Será que quando um ateu militante empreende uma campanha de desconversão, ele está querendo robotizar todo mundo? Como é que eles julgam qual sentimento deve ser combatido? Eu realmente queria que sentimentos fossem arbitrários, assim poderia escolher não ficar triste, ou bravo, ou nervoso...

Mas já que eles são totalmente racionais, eu estava imaginando... Há um conhecido argumento chamado "aposta de Pascal", que muitos ateus conhecem e desdenham como uma tentativa absurda e desesperada de conversão. Pascal dizia que era melhor fazer parte de uma religião que prometia a salvação do que ser ateu, pois se esta religião estivesse certa, a vantagem seria infinita. Mas se ela estivesse errada, nada diferente do que o ateísmo já tem aconteceria.

Costumam responder apontando para as "n" religiões que existem, e que mesmo escolhendo a religião "x" não teríamos esta garantia... Bem, vamos usar a razão então. Se existissem "n" religiões que prometessem a salvação e um paraíso após a morte, e considerando que elas são equiprováveis, as chances de você escolher a religião correta seria 1/n. Você pode aumentar "n" que a razão tende a zero, mas não chega a zero. E no ateísmo, a probabilidade de se viver após a morte é 0. Então, o que é maior? 0 ou 1/n? E se não são equiprováveis, não é melhor tentar achar as que possuem maior probabilidade? Para mim, o que a aposta de Pascal prova é que o ateísmo é mais irracional que qualquer religião. E dizem que sentimento não é importante.

Termino hoje por aqui... Sou Pedro, muito obrigado por me tolerar...

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