sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Pesquisa polêmica associa autismo a circuncisão na infância


Matéria publicada no IHU:

Estudo controverso liga circuncisão na infância a autismo


David Freeman

Um novo estudo polêmico realizado na Dinamarca mostra uma ligação entre circuncisão e autismo, embora os especialistas tenham grandes divergências sobre como interpretá-lo.

No estudo, publicado online em 8 de janeiro no Journal of the Royal Society of Medicine, um par de pesquisadores observou casos de transtorno do espectro do autismo (TEA) em mais de 340 000 meninos nascidos na Dinamarca entre 1994 e 2003. Os pesquisadores descobriram que o risco de desenvolvimento de autismo antes dos 10 anos era quase 50% maior nos meninos circuncidados.

O que explica a ligação?


“Tudo o que podemos dizer a esta altura é que existe uma associação estatística entre circuncisão e autismo”, diz Morten Frisch, co-autor do estudo, consultor do Statens Serum Institute (instituto estatal do soro) e professor-adjunto de epidemiologia da saúde sexual da Universidade Aalborg, em Copenhague.

“Não podemos dizer se é uma associação causal ou alguma ligação não-causal falsa para a qual ainda não temos uma explicação”, afirmou ele por email ao The Huffington Post.

Mas Frisch -- conhecido na Dinamarca por ser crítico feroz da circuncisão – levantou a possibilidade de uma ligação causal, com distúrbios psicológicos que teriam a dor da circuncisão como potencial culpada. Como escreveram ele e seu colaborador na introdução do estudo:

“... em estudos com animais e humanos, experiências dolorosas em neonatos foram associadas a alterações de longo prazo na percepção da dor, uma caracterísica muitas vezes encontrada entre crianças com TEA... O estudo presente foi realizado com o objetivo de investigar a hipótese de que a TEA possa ser uma rara consequência adversa em meninos submetidos à circuncisão ritual durante um período vulnerável da vida.”

Mas outros especialistas ridicularizaram a hipótese.

“É preciso ter muito cuidado antes de tirar conclusões com base em estudos como esse”, diz ao The Huffington Post Douglas S. Diekema, pediatra da Universidade de Washington, em Seattle, e um dos autores de uma declaração de política da Academia Americana de Pediatria amplamente favorável à circuncisão. “Eles levantam questões para mais estudos, mas não oferecem respostas... Correlação não sugere nem prova causação.”

Se a circuncisão realmente fosse causa de autismo, diz Diekema, era de se esperar uma queda nas taxas de autismo correspondente à queda do número de circuncisões. “Na verdade”, diz ele, por email, “estamos observando justamente o contrário”.

Quase 80% dos meninos nascidos nos Estados Unidos nos anos 1970 e 1980 foram circuncidados, relatou a Live Science em 2012. Essa porcentagem caiu para 62,5% em 1999 e para 54,7% em 2010.

Já os dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças mostram que o autismo tem se tornado cada vez mais prevalecente. Das crianças nascidas nos Estados Unidos em 1992, cerca de 1 em 150 desenvolveram autismo. Entre as crianças nascidas em 2002, a média foi de cerca de 1 em 68.

Diekema diz que a ligação entre circuncisão e autismo provavelmente é falsa, mas mesmo assim recomenda que pais que desejem circuncidar seus filhos insistam em controle de dor adequado durante e depois do procedimento.

Frisch também pediu mais pesquisas, mas oferece um conselho diferente.

“Para os pais, e particularmente para aqueles cujas decisões não são ditadas pela religião, meu conselho é considerar a questão da circuncisão da perspectiva da criança”, disse ele por email. “Afinal de contas, é a genitália dela – quem tem o direito de alterá-la permanentemente?”

A política da academia sobre circuncisão foi publicada em 2012. Ela afirma que os benefícios da circuncisão são maiores que os riscos, incluindo menores riscos de contração de doenças sexualmente transmissíveis.

As diretrizes de circuncisão publicadas recentemente pelo CDC espelham as da academia.



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