quarta-feira, 13 de maio de 2009

As crônicas de Marvin - 09

O contorno das sombras

Ponto de vista alternativo, 3 de setembro de 2051, 00:00

A noite sem lua mergulhava as ruas em completa escuridão. A chuva, que castigava a cidade, impedia que seus moradores saíssem, transformando aquela cidade em um completo vazio. Esta era a noite perfeita para sair sem ser visto, para falar sobre o que não pode ser ouvido. Fazer pactos que não podem ser conhecidos.
Em algum lugar da cidade, um galpão que deveria estar abandonado, agora abrigava 11 vultos. Aguardavam em silêncio, reunidos em um círculo. Intencionalmente, não havia luz. Havia escuridão, havia tensão. O silêncio foi quebrado apenas quando o 12º vulto apareceu de uma das portas e se juntou aos 11 originais.
- Vejo que todos estão aqui. – disse.
- Sim, acabamos de chegar também. – disse um dos vultos.
- Então podemos começar nossa primeira reunião, cavalheiros. Creio que todos já sabem os motivos para a convocação. Como estão os números?
- Segundo relatórios, já são 60% de desassociados. Eu diria que estes números são preocupantes, se continuarem aumentando assim. – comentou outro vulto.
- Sim, mas no momento, não há nada que possamos fazer sobre isto.
- Por quê, Moshe? – perguntou um dos vultos.
O vulto que se intitulava Moshe, parou por um instante, refletindo sobre sua resposta. Então continuou:
- Cavalheiros, não seria bom tentar desfazer o que já foi feito agora... Os fiéis ficariam chocados se isto fosse feito...
Um dos vultos que escutava, escorado em uma das paredes, deu uma pequena risada sarcástica, comentando em seguida:
- Ora, foi exatamente para isto que a doutrina de novas luzes foi criada... enquanto esta doutrina existir, a disputa pelo poder ficará mascarada por uma correção divina...
- Sim, Eliyahu, mas não podemos esquecer que esta doutrina só é bem sucedida, quando aplicada a longo prazo. E com certeza, não teremos estas condições agora...
- Hummm, entendo onde você quer chegar... Então, este é o motivo de nossa reunião, não é?
- Sim...
Houve um breve silêncio, até que o outro vulto chamado de Eliyahu retomou a discussão:
- Bem, acredito que será bem mais fácil pegar uma pessoa, do que todo o Corpo Governante...
- Não contaria com isto. – respondeu Moshe.
- Hummm... qual seria a dificuldade?
- Bem, o jovem que estamos falando foi capaz de planejar uma forma de controlar todo o Corpo Governante, e está conseguindo, com sucesso, acabar com a Torre de Vigia. Ele é bem habilidoso, não acha?
- Entendo... Então foi por isto que me pediu para buscar informações sobre ele... – comentou outro dos vultos.
- Sim, Yekhezqe'l... Como está nosso detetive?
- Ainda buscando informações... Teremos dados importantes em breve...
- Muito bom. Enquanto isto, Yeshayahu, vamos colocar algumas testemunhas para vigiá-lo...
- Tudo bem... Mas, o quê diremos a eles, Moshe?
- Diga que são ordens do Corpo Governante, que é um chamado especial, e que é para manter isto em segredo. Diga também que a questão é tão sigilosa, que não poderão saber os motivos pelos quais estão sendo chamados para vigiar tal pessoa. E mais uma coisa: peça para eles não deixarem que ele descubra. Ele não pode sonhar que está sendo vigiado... Ele é esperto, e pode chegar até nós, se quiser...
- E se eles continuarem perguntando?
- Dispense eles do serviço de campo, e lhes dê uma boa quantidade de horas. Eles acharão isto o máximo.
- Este rapaz não estaria disposto a vir para nosso lado? – perguntou mais um vulto.
- Não acho que seria possível, Yona... Pelo que sei, ele andou se tornando uma espécie de idealista, do pior tipo. Pessoas como ele não estão interessadas no poder... Ele podia ter visto desde o princípio, que possuía em mãos o controle total sobre um grande número de pessoas. Um controle que foi habilmente construído durante anos. Eu tenho que elogiar nosso caro Juiz Rutherford, ele é um gênio. Ele pegou um grupo de pessoas idealistas e inocentes, e transformou aquilo em um instrumento perfeito de controle. Quando ele colocou a Torre de Vigia como único canal de comunicação com Deus, ele simplesmente fez com que todos os questionamentos teológicos tivessem que passar por sua aprovação. Assim, até mesmo para se questionar a Torre de Vigia, era necessário sua permissão. Nem mesmo o papa conseguiu tanto sucesso, embora eles tenham o mesmo tipo de ensino. Se os católicos não tivessem tanta liberdade como possuem hoje, certamente nosso alvo seria o Vaticano. Talvez algum dia, se os tradicionalistas conseguirem derrubar o Concílio Vaticano II, as condições na igreja Católica permitam um domínio tal qual a Torre possui. Por isto é importante para a Torre fechar-se ao mundo. A igreja Católica se abriu um pouco, e tudo foi buraco abaixo...
- Sim, mas agora isto pode ser perdido, se não impedirmos aquele garoto.
- Sim... E vamos impedí-lo... Este é o primeiro passo. Temos que neutralizá-lo. Mandaremos as testemunhas de Jeová vigiarem ele. Ele deve cometer algum deslize... E quando cometer...
Fez-se por algum tempo, silêncio na sala... Por fim, Moshe disse em tom solene:
- Cavalheiros, por hoje é só. Quando Yekhezqe'l obtiver mais dados sobre nosso objeto, voltaremos a nos reunir.
Um a um, cada um dos 12 foram se afastando. O último a sair foi aquele que chegou por último. Lentamente se deslocando para a porta, sussurrou suas últimas palavras...
- Em breve, Juiz, retomaremos seus passos...
A chuva caia mais forte lá fora, escondendo em cumplicidade aqueles 12 homens...

3 de setembro de 2051, 10:00

Para compensar as traquinagens do sábado, decidi que eu merecia dormir até mais tarde aquele dia... Foi bom assim, pelo menos eu estava com mais disposição para as viagem daquele dia.
Tomei logo meu café, peguei minhas coisas e saí. Havia muita coisa para se fazer ainda. O ônibus demorou um pouquinho, como era costume nos domingos.
Estava novamente mergulhado em meus pensamentos, e sobre o que eu iria dizer... Eu estava para fazer algo totalmente diferente do que já havia feito até aquele momento. Certamente se eu contasse o que eu faria para o Estêvão, ele iria me reprovar. Por isto não mencionei nada a ele.
Em certo ponto, o ônibus parou para pegar os passageiros. Eu observava aquelas figuras, indo para seus trabalhos, passeios... Mas uma delas chamou mais atenção: um rapaz, de uns 27 anos mais ou menos, vestido de terno, levando uma pastinha. Com o cabelo penteado como se uma vaca tivesse lambido, e com um ar celestial. Pensei: “Droga, uma testemunha de Jeová... Fui encontrado...”. Disfarcei o máximo que pude, mas ele não pareceu me reconhecer.
Chegando no centro, na avenida Tocantins, desci em meu ponto. Pelo visto ele não tinha me reconhecido. Desci a avenida até a Anhanguera, para pegar o eixo. Mas algo me incomodava... Decidi olhar para trás, e eis que vejo novamente o mesmo jovem. Rapidamente ele começou a falar com a pessoa mais próxima dele, que levou um susto. Pelo canto do olho pude ver ainda ele pegando de sua pequena pastinha, uma Sentinela... “É mesmo uma testemunha de Jeová”, pensei. Mas por que estaria me seguindo, sem ao menos vir me puxar o saco? Toda testemunha de Jeová gosta de cumprimentar seus superiores...
Tudo aquilo era muito estranho para mim... E não estava disposto a ser seguido por uma testemunha. Felizmente, na esquina da Tocantins com a Araguaia, havia uma cigana, que me entregou um folheto, e me perguntou:
- Senhor, gostaria que eu lesse sua mão? Quer saber seu futuro?
Olhei para ela por um instante, e logo a respondi.
- Bem, minha senhora, eu realmente não posso. Mas vou te contar um segredo. Logo passará por aqui um jovem de terno e com uma pasta na mão. Ele está se fazendo passar por testemunha de Jeová, por que ele quer encontrar uma pessoa que consiga convencê-lo a fazer algo contra a vontade dele. Sabe, estes ricaços excêntricos inventam cada uma... Eu tentei por cerca de meia hora convencê-lo a passar o Natal lá em casa, e ele se manteve em sua posição...
Ela me olhou com uma cara de espanto.
- Mas, moço, o quê acontece se eu convencê-lo?
- Bem, aquela pasta dele está cheia de dinheiro. Alguém me disse que ele juntou o que podia dentro dela, e vai oferecer para aquele que o convencer. É por isto que ele vai negar até a morte que não é testemunha de Jeová, e não vai aceitar ser convencido do contrário...
Seus olhos arregalaram ainda mais... Deixei a mulher para trás, e entrei no pequeno terminal de ônibus. Logo, o rapaz veio atrás, mas foi abordado pela cigana.
O terminal tinha uma visão privilegiada daquela cena. A velha ficou na frente do rapaz, dizendo várias coisas. O rapaz tentava educadamente se livrar dela, e como não conseguia nada, se colocou para orar na frente dela. A velha, percebendo que sua conversa não estava surtindo resultados, segurou a mão do rapaz, que se assustou, gritando:
- MINHA SENHORA, LARGUE MINHA MÃO AGORA. EU NÃO QUERO SABER DE LEITURA DE MÃO, PREVISÃO DO FUTURO. NADA!!! ISTO É COISA DE SATANÁS, O DIABO!!!!
Vendo que não tinha jeito mesmo, a mulher começou a dizer:
- Bem, já que é assim, eu acho que vou começar então a ler suas revistas...
Então com um pulo, pegou a pasta do rapaz e saiu correndo. Logo se via uma cena de perseguição, uma velha correndo como um velocista, e o jovem quase sem fôlego, gritando:
- PEGA ESTA SENHORA, ELA ROUBOU MINHA PASTA!!!
As pessoas observavam aquela cena grotesca, enquanto comentavam:
- Puxa, ela está em forma, hein!!
Não pude ver o resto, pois o meu ônibus tinha chegado. Entrei no eixo Anhanguera, e logo achei um lugar, perto da porta. Ainda estava pensando sobre aquele fato, quando o ônibus parou no próximo ponto, onde dois jovens bem arrumados entraram pela porta que eu estava. Usavam camisa, calça social e sapato de couro.
- Então, vamos marcar uma festa para esta noitinha? – conversavam.
Droga, me encontraram novamente!!! E não vieram falar comigo... Alguma coisa estava acontecendo... Será que eles não tinham serviço de campo a cumprir não? Por quê estavam me seguindo? Quem estava mandando eles fazer aquilo? Ainda não tinha respostas para aquilo. Mas não poderia deixá-los ver que eu havia percebido que estavam me seguindo. Primeiro, por que não queria dar satisfações para ninguém de onde eu estava indo. Segundo, por que se eu os alertasse, faria com que eles tomassem mais cuidado. Eu posso descobrir depois quem estava mandando me seguir.
Fiquei refletindo sobre aquilo até chegarmos ao terminal da praça da Bíblia. Decidi descer por ali, e não fiquei surpreso de ver aqueles dois me seguirem. Saí do terminal, e atravessei a rua, na frente de um ônibus, o que obrigou os dois a esperarem do outro lado. Ruim para eles, já que comecei a correr em seguida.
Percebendo o que eu estava fazendo, eles começaram a correr também. Eu não sou um atleta, então teria que fazer algo, e rápido. Peguei meu celular e disquei 190.
- Alô, eu preciso de ajuda, por favor.
- O que aconteceu, senhor?
- Estou sendo perseguido por dois homens bem vestidos, se não me engano, acho que vi uma arma na cintura de um deles.
- Onde o senhor está? – disse o policial.
- Estou na praça da Bíblia.
Se eu fosse católico, certamente faria uma oração a santo Expedito para que os policiais aparecessem antes que eu perdesse o fôlego. Como não era, resolvi garantir minha segurança...
- O senhores virão logo? Antes de ser perseguido, aqueles dois estavam falando o quanto os policiais desta área são lerdos e bundões.
Em um minuto a viatura da polícia parou na frente dos dois jovens. Dois policiais irados saíram do carro, apontando suas armas e gritando:
- PARADOS, POLÍCIA!! PARA O CHÃO, AGORA!!
Sem saber o que estava acontecendo, os dois obedeceram. Continuei correndo até encontrar um moto-taxista. Como tinha deixado o ônibus que eu queria, pensei que fosse uma boa idéia continuar o trajeto de moto mesmo. Informei então o endereço ao motorista, e fomos. Descemos a mesma avenida pela qual eu estava subindo, tendo a oportunidade de ver um dos policiais lançando o um dos jovens no porta-malas da viatura, enquanto o outro chutava a perna do outro.
Continuando pela Anhanguera, tive que retomar o fôlego, pensando sobre o quê significava tudo aquilo. Paramos no primeiro sinaleiro, e enquanto descansava, parou ao nosso lado outro motoqueiro. Sapatos de couro, calça social, camisa... Como? Esperei o sinal abrir, e pedi para o motorista:
- Senhor, me faz um favor?
- Sim, se não for difícil...
Tirei o panfleto da cigana do bolso e entreguei para ele.
- Entrega isto para aquele motoqueiro de roupa social ali atrás... Inventa qualquer motivo...
No próximo sinaleiro, o motoqueiro parou novamente ao nosso lado. O moto-taxista então cumpriu o prometido:
- Senhor, minha mulher é vidente, e estou distribuindo os panfletos dela...
- Me desculpe, senhor, mas eu não estou interessado.
- Pode ficar com o papel, às vezes algum conhecido seu está.
Ele então colocou o papel na mão do motoqueiro engomado, que logo amassou o papel e o jogou no chão.
- O senhor está maluco? Eu disse que não queria.
Então o sinal abriu, e o moto-taxista foi embora.
- Senhor, aquele cara ali atrás está me seguindo... Por acaso o senhor consegue despistá-lo?
- Bem, eu vou então para a BR, depois te trago de volta, OK?
Você normalmente não diz a um moto-taxista para andar rápido. Seria loucura, uma perda completa da razão... Mas não havia jeito ali.
Rapidamente o moto-taxista se dirigiu para a rodovia. Tive que tomar cuidado com os retro-visores, pois ele passava muito rápido por eles... Eu poderia ficar preso em algum. Meu coração quase saiu pela boca, quando entramos na BR-153, na frente de um caminhão que estava embalado pela descida do viaduto. A moto amarela urrava, enquanto zigue-zagueava entre os carros da estrada. A esta velocidade, nosso perseguidor já estaria para trás, já que eles não costumam arriscar as próprias vidas. Olhei para trás, para me certificar, mas não gostei do que vi.
O mesmo motociclista estava atrás de nós, correndo até mais do que nós. Desesperado, virei para frente e disse:
- Senhor, ele está nos alcançando!!
Ele então acelerou o que podia, enquanto nos dirigíamos para perto do Serra Dourada. Ali, encontramos um carro ultrapassando outro. O moto-taxista, não sei por quê razão, achou melhor passar entre os dois. Enquanto isto, o testemunha de Jeová nos seguia quase na mesma velocidade. Sinceramente jamais pensei que eles corressem tanto assim...
Passando o Serra Dourada, nos deparamos com 3 caminhões desta vez, um entrando na rodovia, outro ao seu lado e o terceiro, tentando ultrapassar o segundo, mas desenvolvendo uma velocidade um pouco maior. “Me lasquei”, pensei. Torci para o moto-taxista não resolver fazer o que fez com os últimos dois carros, mas felizmente, ele foi sensato desta vez, e passou pelo acostamento. Por um tempo, esperou nosso perseguidor aparecer também pelo acostamento, então mudou para o outro lado da pista, e foi para trás de outro caminhão que estava mais adiante.
- Tive uma idéia, rápido, vista esta jaqueta.
Rapidamente me deu uma jaqueta que estava vestindo.
- Mas isto é seguro?
- Vai por mim, acho que vamos despistá-lo.
Então, tentei fazer o que ele me disse, o mais rápido possível. Não era seguro usar apenas uma mão para me prender àquela moto. Felizmente consegui vestir a jaqueta antes de nosso perseguidor nos encontrar. Neste momento, o moto-taxista acelerou, finalmente ultrapassando o caminhão, agora já em frente ao Carrefour, se direcionando ao jardim botânico. Enquanto corríamos, o moto-taxista me dizia:
- Muito bem, agora eu quero que você ligue para o número que vou te falar...
Demorou um certo tempo para nosso perseguidor perceber que éramos nós. Isto nos fez distanciar dele. Infelizmente, nossa moto tinha mais pessoas, e corria menos por isto. Então, logo ele estaria nos alcançando novamente. Passamos pelo jardim botânico, onde saímos da rodovia, e fomos em direção ao Parque das Laranjeiras. Antes de chegarmos neste bairro, viramos em uma das ruas, que em um domingo de manhã não tinha muita gente. Havia apenas um mendigo, envolvido em seus cobertores.
O perseguidor então veio com cautela, pois em sua mente, ele não havia sido percebido ainda... Dobrando a esquina daquela rua, se assustou imensamente ao ver a nossa moto vindo na direção contrária, com toda velocidade. Somente o mendigo naquela rua foi capaz de ouvi-lo ele dizendo:
- Droga!! Ele acabou de mudar de posição. Diga aos outros que ele voltou a seguir para o Parque das Laranjeiras!!
Então, acelerou sua moto, e seguiu a moto amarela, em direção ao Parque das laranjeiras. Aquela barulheira parecia ter acordado o velho mendigo, que agora se revolvia por baixo dos cobertores.
Nosso perseguidor então se manteve atrás, sempre atento à direção que o moto-taxista escolhia. Estranhamente, o moto-taxista não corria mais como antes. Não demorou muito para que chegasse ao seu destino. Qual não foi a surpresa de nosso perseguidor, quando o passageiro desceu daquela moto, e ele não era eu? A jaqueta ajudou a disfarçar bem aquela pessoa, e a pressa do nosso perseguidor não permitiu que ele visse as diferenças entre mim e aquela pessoa ali.
Na verdade, aquele não era o destino do passageiro. Nem do moto-taxista. Eles apenas pararam, pois ficaram sabendo que tudo havia corrido conforme nosso plano. Um outro moto-taxista, conhecido do primeiro, logo chegou àquela rua do mendigo. Ao vê-lo, não teve dúvidas de se aproximar e perguntar:
- É o senhor que se chama Marvin?
Finalmente pude sair debaixo daquele cobertor. Pelo menos ele serviu para seu propósito: pude finalmente confirmar algumas suspeitas minhas. A primeira é que eu estava realmente sendo seguido. Segundo, que os meus perseguidores estavam usando celulares e não rádios. Isto significa que a pessoa que gerenciava a operação estava de longe, o que lhe daria a possibilidade de deslocar a quantidade de pessoas necessária para me seguir. Eles também dificultariam para mim, tentar escutar sua conversa. Rádios costumam usar frequência aberta, e os que codificam a mensagem costumam ser mais caros. Com celulares, o perseguidor não precisaria investir recursos, e não chamaria atenção.
Subi na nova moto, não sem antes devolver a coberta àquela mulher, que aguardou escondida na outra esquina. Ela ainda me emprestou outra jaqueta, para que não corresse o risco de outro testemunha de Jeová me encontrar. Sorte minha que o primeiro moto-taxista morava por perto. Agradeci à senhora, e finalmente seguimos nosso destino.

3 de setembro de 2051, 12:00

Finalmente cheguei ao meu destino, em algum lugar de Senador Canedo. Olhei o pedaço de papel em meu bolso, para confirmar o endereço que haviam me passado. Me aproximei da porta, e toquei a campainha. Logo alguém veio me atender.
- Olá, eu queria saber se é aqui que mora Elizabete dos Santos?
A mulher sorriu, respondendo:
- Sim, sou eu mesma.
- Ah, que bom. Há muito tempo queria vir aqui, falar com você sobre um assunto um pouco delicado...
- Puxa, e o quê seria.
- Bem, seria sobre sua mãe... A dona Ana Clara...

terça-feira, 5 de maio de 2009

Ceticismo e Revelação em Santo Agostinho

por Paul Tillich:



Depois que Agostinho abandonou o grupo maniqueu, caiu no ceticismo, como em geral acontece quando nos desiludimos de algum sistema de verdades. Passamos a duvidar de todas as possibilidades da verdade. Além disso, nessa ocasião, o ceticismo estava na moda. Até mesmo na escola platônica, conhecida pelo nome de Academia, o ceticismo sobre o conhecimento expressava-se com o nome de probabilismo. Somente as declarações prováveis eram possíveis; a certeza não era possível. Todos os primeiros escritos filosóficos de Agostinho estudam o problema da certeza. Trata-se de importante elemento em seu pensamento porque pressupõe o fim negativo da filosofia grega. A heróica tentativa grega de construir um mundo baseado na razão filosófica se acabava catastroficamente no ceticismo. A tentativa de criar um mundo novo, em termos da doutrina das essências, fracassou. É a partir daí que se deve entender a nova ênfase na revelação. O ceticismo, fim da filosofia grega, foi o pressuposto negativo da maneira como o cristianismo veio a receber a idéia da revelação. O ceticismo é, em geral, a base da doutrina da revelação. As pessoas que dão ênfase na revelação, em termos mais absurdos e supernaturalistas, são precisamente as que se comprazem em ser céticas sobre todas as coisas. O ceticismo e o dogmatismo, a respeito da revelação, se correlacionam. A maneira como o cristianismo valorizou a revelação até o Renascimento, relaciona-se com o tremendo choque com que a razão ocidental experimentou o fracasso de todas as tentativas filosóficas gregas de alcançar a certeza.

(TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: 2000, 2. ed., p. 121)

As crônicas de Marvin - 08

Rivais

Eu realmente me surpreendi com aquela aparição. O que o Estêvão estaria fazendo por aqui?
- Olá, Marvin. Eu recentemente consegui me transferir para Goiânia, estamos finalmente na mesma Congregação...
Olhei para ele com certa desconfiança, dizendo:
- Transferir? Como assim, por quê você se transferiu para cá?
- Ora Marvin, você não sabe mesmo? Nós tínhamos um plano, que você não cumpriu... Até o momento, eu estava confiando em você... Mas agora prefiro acompanhar tudo de perto, para não sair mais nada do rumo que nós havíamos planejado...
Não podíamos continuar aquela conversa do lado de fora. Convidei-o para entrar, convite que ele aceitou prontamente, enquanto estralava o pescoço.
- Hehe, você não mudou nada, não é? Continua caminhando como se fosse o Mr. Bean... O povo deve te achar muito esquisito, não?
- Na verdade já me disseram que eu sou um exemplo de como Jeová pode escolher até os esquisitos...
Estêvão caiu na gargalhada... Eu nem sei por que contei isto para ele, afinal, ele pegaria no meu pé por causa disto durante todo o mês. Ao entrarmos, ele já foi continuando sua conversa...
- Pois bem, resolvi viver aqui, para mantermos mais o foco de nossas atividades. Não é só você que tem o direito de se divertir, sabia? Se eu não fosse médico e estivesse disposto a te ajudar, seu plano jamais teria dado certo.
- Sim, eu sei. Mas se eu não conhecesse tanto de eletrônica, principalmente aplicada à medicina, você também não poderia ter feito nada.
- Claro. Por isto é que é importante agirmos juntos. Eu gostaria que você me apresentasse à Congregação amanhã.
- Hummmm, está bem então. Parece que não tenho muita escolha não, não é mesmo?
E não tinha. Estêvão estava mesmo querendo acompanhar minhas ações de perto. Bem, eu não tinha nada contra aquilo.
Terminamos nossa conversa, e ele se despediu. Esperei que ele se afastasse, peguei minha carteira e a mochila que estava em meu quarto e saí. Passei na farmácia primeiro, e perguntei ao atendente, mostrando uma lista:
- Eu estou precisando destes dois remédios aqui. Você os possui?
Com os remédios em mãos, me dirigi rapidamente ao supermercado. Tive o cuidado de escolher um supermercado em um bairro diferente, para não ser visto por ninguém. A moça do caixa ficou um pouco assustada quando me viu comprando 4 pacotes de papel higiênico, àquela hora da noite. Eu nem fiz muita questão disto, precisava mesmo era comprar aquilo e voltar logo para casa. Guardei minhas compras na mochila e voltei imediatamente. Felizmente não fui visto por ninguém.
Não foi muito fácil não. Primeiro, desenrolar todo aquele papel higiênico deu muito trabalho. Fiz com cuidado 4 bolas grandes de papel higiênico com os pacotes que comprei. Preparei as 2 cápsulas de plástico, que aguardavam os ingredientes finais. As boas lembranças me vieram à mente ao fazer isto. Certamente aquele tempo de escola me ajudou muito.
A madrugada estava fria e tranquila, como as madrugadas de setembro. Não havia lua aquele dia, para minha sorte, então a noite estava bem mais escura que o normal. O frio segurava qualquer alma viva em suas casas, menos um vulto negro, encapuzado. Eu era quase um ninja, se não fosse pela falta de conhecimentos em ninjutsu...
Entrei por uma das portas do salão do Reino, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Por segurança, deixei do lado de fora um aparelho que miava aleatoriamente, para o caso de algum vizinho acordar à noite.
A operação levou umas 2 horas, mas tudo foi concluído com sucesso. Finalmente poderia voltar para casa, e descansar, para as aventuras do outro dia.

2 de setembro de 2051, 14:00

Naquele dia eu tinha dormido até mais tarde. Não pude dormir além das 11, já que o Estêvão me ligou.
- Olá, Marvin...
- Nhamm... Alô, Estêvão... Por quê você está me ligando tão cedo?
- Cedo? São 11 horas!!!
- Já?
- Sim. Você não vai encontrar as irmãs para iniciar as visitas domiciliares às 14?
- Humm, é mesmo... Ei, como você sabe disto?
- Estive conversando com os anciãos. Eu gostaria de participar, estou te ligando para avisar. Vocês marcaram na porta do salão do Reino?
- Hummm, sim. Mas...
- Tudo bem, então te encontro por lá. Até mais.
- Estêvão? Alô?? Droga, ele desligou...
Três horas depois estávamos os 4 no salão do Reino. Eu fui o último a chegar. Como era de se esperar, o Estêvão já estava mantendo uma animada conversa com a Priscila, enquanto que a Amanda apenas ouvia.
- Puxa, finalmente você chegou, dorminhoco. – Dizia Estêvão, com um sorriso no rosto.
- Bem, nós marcamos às 14:00 em ponto, não foi?
- Hahaha, está certo, Marvin. Só estou pegando no seu pé. Bem, acho interessante irmos em duplas hoje, para as irmãs pegarem o jeito. Façamos assim, eu vou com a irmã Priscila, e você com a irmã Amanda.
O sem vergonha chegou ontem, e já está mandando em tudo...
- Mas por quê?
- Ora, irmão... Com a conversa que tivemos enquanto te esperávamos, eu acabei conhecendo melhor a irmã Priscila. Tenho certeza que você não terá problemas com a irmã Amanda.
Ele é muito esperto... O pior é que não posso dizer nada contra isto, poderia levantar suspeitas.
- Ah, Marvin, não faça esta cara. É por causa de feições como esta que as pessoas te acham esquisito. A irmã aqui mesmo pensava assim, não é irmã?
A Priscila me olhou com uma cara meio tímida, e respondeu hesitante:
- Hummm, foi...
- Hahahaha, pois então. Bem, então está definido. Vamos, irmã, temos muito o que fazer ainda...
Foram então os dois. A irmã Priscila ainda olhava para trás, despedindo de nós. Olhava como se quisesse ficar ainda. O que pude fazer foi apenas observar, enquanto a palavra esquisito ecoava em minha mente...
- Hummm, irmão?
De repente, me lembrei que a irmã Amanda ainda estava por ali.
- Ah, irmã... Me desculpe, nós temos que ir também, não?
- Sim...
Então fomos também. Começamos a nos dirigir à casa da irmã Ana Clara. Decidimos que ali seria um bom começo, já que nós dois a conhecíamos bem. Subíamos uma rua íngreme, quando a irmã Amanda acabou quebrando o silêncio...
- Hummm, irmão, algo está te incomodando? Seria a conversa com o irmão Estêvão, agora há pouco?
- O irmão Estêvão não sabe o que diz, irmã... Não tem nada me incomodando não...
Me lembrei do “esquisito”, e de como o Estêvão só tem curtido com minha cara desde que chegou. Aquilo ficou martelando em minha cabeça...
- Na verdade, irmã... Me incomodou um pouco o fato dele me chamar de esquisito...
- Ah, entendo...
Ela fez uma breve pausa, depois continuou...
- Humm, de certa forma irmão, acho que as pessoas pensam o mesmo de mim. E-eu geralmente não converso muito, não sou “popular”. Toda pessoa tímida acaba sendo conhecida assim...
Realmente, ela de certa forma é igual a mim.
- Isto me incomoda às vezes também... Mas então, eu chego à conclusão que não há motivos para se incomodar com isto...
- Não há? Por que?
- B-Bem, quando uma pessoa diz que você é esquisito, na verdade está dizendo que você é muito diferente dele... Isto só poderia ser levado para o lado negativo, se você considerar ele como um padrão de normalidade ou de qualidade...
De fato... O que ela me disse me fez sorrir um pouco...
- Para mim, irmão... Você não é... esquisito... Humm... Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Você sabe medir suas palavras, você sabe ser gentil, se preocupa com os outros e não se vê acima de ninguém... E-Eu acho que agora que você ocupa uma posição de tanta responsabilidade será o momento certo para todos perceberem todas estas qualidades suas, e poderão perceber o quanto estavam enganados a seu respeito...
Ninguém nunca me elogiou assim... Fiquei surpreso com tais palavras, imediatamente olhando com aquela cara de “como é que é?” para ela. Não pude deixar de reparar que ela ficou vermelha na mesma hora. Ou ela já estava vermelha?
Estávamos entrando na rua da casa da dona Ana Clara. Algumas crianças brincavam de bola na calçada, enquanto outras corriam para se esconder, provavelmente outra brincadeira.
“Perceber que estavam enganados”? É difícil mudar pessoas. Eu nunca consegui mudar ninguém. As lembranças de minhas tentativas tornaram a me entristecer...
- Irmã, acho difícil mudarem as opiniões que eles possuem sobre mim. Você não acha difícil mudar as pessoas? Já muitas vezes quis mudar o mundo, em vão...
Por um instante ela ficou calada, pensando, com uma carinha de tristeza também.
- Eu sei... Mas se você quer mudar o mundo, você começar com você mesmo. O mundo é muito grande, e cada pessoa nele tem suas próprias vontades, seus próprios planos. Eventualmente, você encontrará alguém que não quer ser mudado, ou talvez pior, alguém que quer te mudar, por que também quer mudar o mundo. Planos de mudar o mundo geralmente falham no momento que são idealizados...
Depois de uma curta pausa, ela completou:
- Não há angústia maior em não conseguir mudar aqueles que você mais ama...
- Irmã?
- Por muito tempo eu quis que meu pai mudasse... Que ele parasse de beber, e que pudesse se dedicar mais à nossa família... Mas ele gosta de beber, e ignora tudo que nós dizemos para ele... Nós é que somos idiotas, por não beber. Infelizmente ele só vai mudar, quando algo muito grave acontecer, e ele perceber que aquilo que ele está fazendo o vai levar para o fundo do poço...
Interrompemos o assunto, e finalmente paramos. Chegávamos à casa da irmã Ana Clara.

2 de setembro de 2051, 19:00

Era chegada a reunião... Hora de deixar um pouco os pensamentos tristes gerados durante a tarde, e me concentrar em coisas mais alegres.
Quando cheguei no salão do Reino, havia alguns irmãos já tomando água. Já tinha avisado ao Estêvão que a água poderia não ser boa naquele dia, mensagem que ele entendeu imediatamente. Não perdi tempo, fui até a irmã Amanda, e lhe dei uma garrafinha de água mineral.
- Irmã, é para não perder muito tempo indo beber água.
- Ah, obrigado, irmão.
Então fui até a irmã Priscila, e fiz o mesmo.
- Irmã, esta aqui é para que você não perca muito tempo indo beber água.
- Puxa, muito obrigado, irmão... Ei, irmão, eu queria te dizer uma coisa...
- Hum, sim? O que é?
- Bem, eu gostaria de te pedir desculpas por hoje à tarde. Na verdade, eu preferia ter ido com vocês... Gosto do irmão Estêvão, mas eu prefiro você...
- Oh, puxa, nem sei o que dizer...
- Bem, se tiver alguma coisa para dizer, só não o diga para o irmão Estêvão, hahahaha...
Então iniciei a reunião, chamando a todos:
- Irmãos, gostaria de anunciar algo muito importante hoje, então prestemos mais que a devida atenção. Eis que nosso irmão Estêvão, que compartilha comigo a responsabilidade de ser uma das testemunhas do Apocalipse, se mudou para esta congregação. A partir de hoje, estaremos agindo juntos aqui.
Todos se espantaram com tal declaração. Agora, aquela congregação pequena possuía duas figuras de alta importância. Pedi então que todos mudassem de posição, finalmente começando a reunião. A música de abertura foi linda, a letra era mais ou menos assim:

Eu te louvarei
Enquanto eu viver
Meu louvor estará para sempre
Em meu coração – meu coração
Levantarei minhas mãos
Enquanto eu louvar
Para não mais pecar contra ti
Me consagrarei

Faz-me um vaso
Faz-me feliz
Meu prazer, meu prazer
È cumprir, é cumprir
O que diz.


Houve até quem ensaiou uma dança, mas nada digno da Broadway ainda. Tudo em clima de alegria. Logo o discurso público começou. E tudo que eu tinha que fazer é esperar. No mínimo, uns 40 minutos, foi o que me disseram.
Bem, era um discurso sobre o fim do atual sistema de coisas, algo que estava se tornando corriqueiro, principalmente depois das nomeações minha e do Estêvão.
- O fim está muito perto, irmãos... – dizia o palestrante.
Enquanto isto, eu prestava atenção aos irmãos... Depois de uns 50 minutos, quase no final do discurso, um dos irmãos levanta-se correndo e vai até o banheiro, se trancando por lá. ‘Beleza, já começou’, pensei. Logo outros irmãos começaram a ir ao banheiro e formar duas filas por ali, uma no banheiro masculino e outra no feminino. A coisa começou a esquentar quando o irmão que estava lá dentro abriu a porta e cochichou algo para o primeiro da fila. Logo o irmão Marcos estava lá na porta, querendo saber o que havia acontecido. Todos na congregação se assustaram, quando aos berros, o irmão dizia:
- PUTA QUE PARIU, IRMÃO!!! EU VOU TER QUE LAVAR ESTE BANHEIRO AMANHÃ, DE TERNO, E COM UMA ESCOVA DE DENTES!!!!!!!
Ele abriu a porta e entrou de uma vez, para acabar escorregando na água e caindo de bunda no chão. O vaso estava entupido!! Não sei se foi mais engraçado o fato dele cair, ou o fato de algo ficar carimbado nas calças dele.
O irmão Jonas então correu lá para ver o que estava acontecendo... O pessoal da fila estava se contorcendo, enquanto o irmão desesperado só colocava a cara pra fora, tentando acalmar todo mundo. Só pra por moral, eu me levantei e disse:
- Irmão, olha o palavreado. Evitemos hábitos impuros.
Ele não me escutou... Estava tão preocupado com o que estava acontecendo dentro do banheiro que não me deu ouvidos... Logo o resultado no banheiro das mulheres pôde ser visto, então os dois anciãos ficaram mais desesperados. Quem estava fora ou estava se borrando, já que o purgante que eu coloquei na água era realmente forte, ou estava correndo para casa, pedindo desculpas para todos por sair mais cedo. Depois eu ouvi dizer que mais da metade deles não conseguiu chegar em casa a tempo. Nem era preciso dizer que eu tinha conseguido interromper a reunião, não é?
Logo, a tarefa de tentar desentupir os vasos começou. Um ancião em cada banheiro tentava fazer o possível para deixá-los pelo menos utilizaveis. ‘É agora’, pensei. Peguei meu celular, e através de um programa que fiz para ele, enviei o comando para as duas cápsulas que coloquei lá dentro.
“Bummmmmmmm”... Foi o barulho que saiu, e que assustou todos os irmãos... O Marcos já saiu de lá xingando:
- Mas que... MERRRRRRRRRDA!!!!
Muita merda, irmão. A explosão foi nostálgica... Bons tempos aqueles quando eu fazia isto na escola técnica... Eles nunca me descobriram naquele tempo, pois eu tinha aperfeiçoado minhas técnicas. E assim como naquela época, eu conseguia sujar bastante o banheiro, desde o chão até o teto. Bastava entupir o vaso com uma parede de papel higiênico, colocar a cápsula lá dentro, e depois colocar a segunda parede de papel. Com meu comando, as cápsulas imediatamente liberaram o seu conteúdo na água, que através de uma reação, começam a efervecer... Assim, a pressão entre as duas paredes de papel higiênico aumenta bastante, a ponto de forçar as duas paredes, uma para cada lado. Tem que se ter muitos anos de experiência para causar a explosão, sem destruir o vaso, como alguns diziam que acontecia.
- O diabo é muito sujo! - Falou um dos irmãos.
- É, e ele está usando nosso banheiro. – completei com ironia...
Enquanto o Estêvão saia para rir (ele tinha acabado de descobrir o significado de humor escatológico), eu cancelava a reunião daquele dia. Que pena, não conseguimos estudar a Sentinela naquele dia... E os anciãos ficaram um bom tempo para limpar o banheiro no domingo, com suas escovas de dentes...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A fé cura


“Não temas, crê somente.”
(Marcos 5:36)



Marcos 5:21-43 apresenta-nos duas mulheres doentes: uma menina de doze anos e uma mulher adulta, doente há doze anos.

A filha de Jairo está à morte. O pai vem ao encontro de Jesus, clamando por sua vida. Pergunto: tomando a menina como símbolo da nossa alma, conseguimos sentir quando nossa “criança interior” adoece? Temos um “lado pai” que cuida do nosso interior, que vai em busca da vida abundante em Cristo?

Dessa vez Jesus não faz um milagre à distância. Vai até a casa da menina. A restauração da alma ferida é um processo a realizar na intimidade, no “quarto-interior”.

No caminho, é tocado por uma mulher doente. Algo se esvai nessa mulher – perde sangue e recursos há doze anos. Segundo a lei da época, está impura, proibida de ter vida afetiva. Está sem abraços, marginalizada.

Talvez também estejamos assim na nossa adultez – fizemos tudo que sabíamos, gastamos toda a nossa sabedoria, nosso dinheiro, nossa educação, mas nada estancou a dor da alma. Será que nos arriscamos, como essa mulher, a quebrar os tabus e expor nossa dor? Jesus identifica e abençoa essa mulher que ousa. Bela combinação de atividade de Jesus e atividade humana na busca da cura.

Então chegam os pessimistas de plantão para anunciar que a menina já morreu. Também conhecemos o que em nós diz: “não adianta mais, já morreu”. E Jesus responde, encorajando: “não tenhas medo, somente fé”. Novamente, este é o requisito: fé.

O Evangelho relata como Jesus, acompanhado de poucos, chega à casa de Jairo, retira os pranteadores e, num ambiente de calma e intimidade, cuida da menina. Para tratar nossa criança interior, precisamos escolher apenas o essencial. E o toque restaurador de Jesus Cristo curará o que está ferido e moribundo dentro de nós.

(“Devocionais para Todas as Estações”, Ed. Ultimato, meditação de 28 de janeiro)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

As crônicas de Marvin - 07

Auto-destruição

A congregação estava inquieta. A simples menção de pessoas suspeitas na congregação era motivo de preocupação. Acostumados a acreditar que não fazem parte do mundo, eles nunca pararam para pensar que no fundo são imperfeitos. Qualquer um ali poderia cair agora. Este era o motivo de tanto alarde. Resolvi então tomar uma atitude. Fui até a frente, e avisei:
- Irmãos, com a autoridade concedida a mim, tenho o dever de organizar tudo isto. Façamos o seguinte: se alguém conhecer pessoas que apresentaram o comportamento descrito na carta, me enviem, ou me telefonem. No dia primeiro nos reuniremos à noite para decidirmos algumas coisas, e falarmos sobre este tema.
Pronto. Agora eles teriam tempo para listar todos os que eles conheciam e que apresentaram tais dúvidas.
Naquela mesma noite recebi uma ligação. Eu havia acabado de chegar em casa, e me preparava para dormir, quando o telefone tocou.
- Alô.
- Marvin, aqui é o Estêvão. Por acaso você perdeu o juízo?
- Olá, irmão. Como vai você, como tem passado?
- Deixa disto. Eu quero saber por que você está usando nossa “arma final”. Você não deveria usá-la até nós aproveitarmos um pouco nosso tempo como manda-chuvas. O que houve?
- Estêvão, eu simplesmente perdi a minha paciência. Não poderia ver pessoas sofrendo por causa daqueles lunáticos mais... Eu tinha que fazer alguma coisa...
Estêvão estava nervoso com a situação, e não sem motivos. Ele estava adorando ser bajulado pelos seus irmãos de fé. Ele não ligava muito para questões morais não, na verdade ele achava aquilo mais do que justo pelo que ele teve que passar, depois de perder a irmã.
Nosso plano era perfeito. Dividimos ele em duas partes. Primeiro, pretendíamos colocar todas as testemunhas de Jeová como pessoas que defendiam qualquer coisa que fosse pregada pela Torre de Vigia, mesmo que fosse ridículo ou que fosse contraditório aos ensinos anteriores. A verdade é que nossa experiência havia levantado uma pergunta muito séria: Se considerarmos a Torre como a única referência da Verdade®, como distinguir se ela ainda se mantém na Verdade® ou não? Nós estávamos controlando o Corpo Governante, de forma a inserir as doutrinas que queríamos, e ninguém falava nada... Queríamos mostrar também que eles nunca checavam as fontes passadas pela Torre, ou suas declarações. Este seria um prato cheio para todos os grupos de ex-testemunhas existentes, pois daria mais e mais material para que eles construíssem uma resposta efetiva contra a Torre. Assim, estaríamos fortalecendo estes grupos, quase patrocinando eles. Todo mundo sabe que o pior inimigo da Torre é ela mesma. Ela tem um grande histórico de mudanças doutrinais, que já era bem explorado pelos grupos dissidentes. Só precisávamos deixar estas mudanças mais aparentes, destacando os erros que antigamente eram muito sutis para que uma testemunha normal pudesse perceber.
Mas isto não era suficiente. As testemunhas de Jeová já existiam há pelo menos 150 anos e uma coisa já havia ficado bem claro: simplesmente mostrar contradições não faria ninguém cair em si, e se voltar contra a Torre de Vigia. Muita gente já havia tentado isto durante estes anos, e os resultados não foram muito significativos. Isto porque a Torre se aproveita de conceitos que as pessoas geralmente possuem, para construir um raciocínio bem sólido entre seus fiéis. Um bom exemplo é usar o conceito de que todo mundo na igreja deve ser um santo, livre de qualquer defeito. Com base neste conceito, eles constroem uma definição de santidade que somente eles seguem, uma definição feita sob encomenda. Para provar que a definição está errada, você teria que primeiro se enquadrar nela, para se tornar uma pessoa confiável. Depois você teria que demonstrar seus argumentos contra esta definição, mas aí você seria contraditório, por ter adotado o padrão de santidade que tenta destruir. Até hoje, somente uma coisa conseguiu quebrar este raciocínio circular de forma eficaz: a desilusão.
É difícil encontrar uma ex-testemunha que deixou de ser testemunha por que resolveu estudar a Bíblia e descobriu as contradições doutrinárias da Torre. Sempre o “gatilho” para que a pessoa resolva estudar realmente suas doutrinas foi alguma desilusão com a Torre, ou com seus adeptos. Pessoas que foram proibídas de amar alguém de fora da Torre ficaram desiludidas com a atitude segregária da Torre. Pessoas que foram humilhadas por outras testemunhas ficaram desiludidas com tal atitude vinda de irmãos “santos”. Pessoas que perderam parentes ficaram desiludidas com as decisões malucas da Torre. Tudo foi desilusão. A desilusão é um sentimento muito poderoso, capaz de colocar as mentes mais acomodadas para trabalhar, embora não se saiba qual o resultado final de uma desilusão. E aí entra a segunda parte de nosso plano: causar uma desilusão coletiva nas testemunhas mais sinceras.
De fato, não criamos nada que já não existisse entre as testemunhas de Jeová. Ali dentro sempre há os grupinhos de testemunhas, sempre há aqueles que não se dão bem com alguém, aqueles que no fundo se acham mais conhecedores da Bíblia... E estes estão sempre buscando nas regras da Torre, algo para diminuir o papel de seus “rivais”. Traição seria algo a se lembrar aqui. Sempre havia aqueles que estavam prontos a trair suas amizades, esperando apenas uma justificativa moral para isto. Todo mundo espera justificativas morais para cometer os atos mais insanos. Afinal de contas, foi Deus quem declarou que o mundo era pecador. Nada mais justo (na visão deles) que Deus abrisse alguma exceção para eles, talvez por que em suas mentes insanas, eles achassem que eram mais santos do que os outros. Assim houve guerras e assassinatos, roubos, inveja, egoísmo, discriminação... Tudo permitido por um deus criado por eles mesmos... Então tudo o que fizemos foi criar uma regra clara que resultasse em desassociação rápida, permitindo que eles justificassem moralmente a traição. Foi o perfeccionismo que os levou à Torre, o mesmo perfeccionismo faria eles se excluírem. Todo mundo tentou destruir a Torre de fora, mas é muito mais simples destruí-la por dentro... Fizemos seus próprios membros se desassociarem.
Certamente os mais sinceros serão os primeiros desassociados. Eles possuem a sinceridade suficiente para confessar que possuem dúvidas. E os que não confessam dúvida nenhuma são aqueles que se consideram mais evoluídos espiritualmente. Escolhemos então o tema mais polêmico entre as testemunhas de Jeová, e lançamos um artigo muito ambíguo, que causasse dúvidas em todos. Deixaríamos então as dúvidas se firmarem, então lançaríamos a carta que tornasse estas dúvidas motivos de desassociação.
Então, testemunhas sinceras seriam desassociadas por sua sinceridade, sinceridade sobre um tema polêmico entre as testemunhas. Não seria muito difícil nestas condições ver como seus irmãos são pessoas em quem não se pode confiar, pessoas que estão sempre dispostas a mostrar sua santidade, até mesmo às custas dos outros. Eles verão a injustiça e a injustiça produzirá neles a desilusão. Desiludidos, eles finalmente estarão em condição de analisar os argumentos contrários à Torre sem pensamentos pré-concebidos. E aí, eles encontrarão todas as ex-testemunhas e seus argumentos enriquecidos pela nossa primeira parte do plano.
- Marvin, eu sei que eles são uns canalhas... Mas não podemos nos apavorar. Você mesmo que elaborou todo o plano, você deveria segui-lo mais à risca.
- Eu sei. Mas não pude me conter mais. Agora, o que está feito, está feito. Não há mais volta, Estêvão... Nós queríamos acabar com a Torre de uma vez por todas, e vamos fazer isto. Acho que qualquer plano de vingança só poderá ser bem-sucedido, se conseguirmos isto. Não podemos mais enrolar, temos que acabar logo com isto... Vidas humanas estão em jogo. Pense em sua irmã, e pense que muitas pessoas estão passando pelo mesmo que ela agora.
De certa forma, consegui fazer Estêvão se contentar com o que estava acontecendo. Era difícil para ele, ele estava gostando muito de ser o centro das atenções. Mas nosso plano deveria continuar. E se demorássemos muito, o efeito do artigo sobre o Mediador passaria. Era aquela a hora certa, apesar de tudo.

1 de setembro de 2051, 19:00

Estávamos novamente reunídos no Salão do Reino. Eu me sentia mais malvado que o próprio the Punisher, e estava preparado para usar todo o poder que consegui nos últimos meses.
A maioria dos irmãos estava sentada em seus lugares, somente alguns conversavam em pé, espalhados pelo salão. Minha chegada causou olhares desconfiados, como vítimas olhando para seu carrasco.
Peguei uma cadeira, e me sentei na frente, pedindo para todos se sentarem também. Então fiz o anúncio:
- Irmãs e irmãos, como todos vocês sabem, estamos nos aproximando do dia de Jeová, e estamos passando por tempos complicados. Estive por algum tempo observando a congregação, e avaliando a capacidade de orientação dos anciãos. Como todos sabem, nos primeiros dias muitos me procuraram para ser orientados, mas tive que redirecioná-los para os anciãos. Agora todos podem saber que eu estava os avaliando como anciãos.
Todos se entreolharam, assustados.
- Bem, irmãos, estou com a lista de pessoas que apresentaram comportamento suspeito. Estes nomes foram obtidos através de conversas com os irmãos, pessoalmente ou por telefone. E a lista é preocupante, o que reflete bastante a atitude de nossos anciãos. Afinal de contas, todos os irmãos foram denunciados aqui. Inclusive a irmã Mariana...
Uma voz assustada falou lá no fundo:
- Mas a Marianinha só tem 4 anos....
Eu também me assustei ao ver isto. Como disse antes, eu pensava que somente os mais sinceros seriam atacados... Mas me enganei. Na verdade, o que aconteceu é que os irmãos se aproveitaram do fato que não foi mencionado em momento algum, a exigência de provas para a denúncia. Eu mesmo não tinha me dado conta disto, a Torre geralmente não pede provas concretas. Ela simplesmente acredita. Como as investigações da Inteligência da Torre de Vigia eram conduzidas em segredo, ficava muito mais simples deixar a pessoa como culpada ou inocente, baseando-se apenas em simpatia. Provas só atrapalham nestes casos.
- Isto mesmo, até ela. É por isto que há muito para se fazer aqui. Não vou tomar as devidas atitudes ainda, prefiro trabalhar um pouco com vocês, para melhorar a situação por aqui. Em primeiro lugar, gostaria de falar ao irmão Marcos, que com muito pesar, terei que tratar de sua falta de humildade. Irmão, graças a esta falta de humildade, os irmãos viveram até o momento em dúvidas e sem direção. Por isto, você vai receber tarefas consideradas mais degradantes, para aprender o verdadeiro significado da humildade.
O irmão Marcos prontamente me respondeu:
- Degradantes?
- Sim. Você vai limpar a congregação. Quero ver os banheiros tinindo.
- Mas irmão...
- Não discuta comigo, eu sei o que é melhor para minhas ovelhas.
Ele baixou a cabeça...
- Ah, não se esqueça, você tem a obrigação de vir à congregação vestindo suas melhores roupas. Não pagamos mais o dízimo, mas devemos dedicar sempre a melhor parte a Jeová.
- O que você quer dizer com isto?
- Venha trabalhar aqui com seu terno.
- Mas onde já se viu fazer limpeza com terno?
- Deixe-me ver se entendi bem, irmão... Você está querendo definir nossos costumes segundo os hábitos do mundo?
- Eh... mas... Hummm....
- Não é por que as pessoas do mundo fazem a limpeza de suas casas e trabalhos com as piores roupas, que você fará o mesmo. Você tem que dar o exemplo. Mais uma coisa, venha aqui e pegue uma...
Tirei de minha pasta uma caixinha, e a abri. O irmão Marcos veio a meu encontro, e olhou com uma cara atônita. Estendeu a mão, e tirou de lá uma escova de dentes.
- Uma escova de dentes? Por quê?
- Você vai usar esta escova para fazer a limpeza da Congregação. Eu quero muita dedicação sua nesta tarefa.
Ele olhou assustado para a escova, e deu uma boa olhada para o Salão, medindo a área das paredes e do chão... É isto iria demorar muito. Enquanto isto, o irmão Jonas segurava-se para não rir.
- Irmão Jonas... A outra escova é sua.
Ele deu um salto da cadeira, e engoliu o riso.
- Eu??
- Sim, você. Você também é ancião aqui, e o tamanho desta lista também é culpa sua... Além do mais, eu sei que você tem alguns problemas de relacionamento com o irmão Marcos... Um pouco de trabalho em equipe irá aproximar os dois.
Certamente aproximou. Os dois agora me odiavam.
Enquanto o irmão Jonas pegava sua escova, continuei:
- Bem, tenho visto também que alguns jovens correm o risco de ir para o caminho do mundanismo. É por isto que eu resolvi tomar algumas medidas mais severas. Por favor, me entendam, é para o próprio bem de vocês. Pois bem, o caso mais sério é o do irmão Sérgio. Gostaria que ele desempenhasse um papel especial dentro da Congregação, que o fará se sentir mais próximo de Jeová.
Ele arregalou os olhos para mim.
- Bem, acho que não é o momento para ele se casar agora, pois ele tem muito o que dedicar a Jeová. Eu gostaria que ele, como filho de um dos anciãos, prestasse o serviço de cuidar de nossas viúvas e idosas, pois como Tiago mesmo diz, a verdadeira religião faz isto. Por isto, gostaria que ele evitasse namoros por este período, para ter mais tempo para a tarefa, como Paulo mesmo orientou.
Todos ficaram surpresos com a decisão. O Sérgio logo exclamou:
- O quê!?!?
Ficaram todos calados. Quem quebrou o silêncio foi a irmã Solange, a mais provável candidata à esposa do Sérgio:
- Mas isto não é justo!
Todos olharam para ela, certamente concordando com ela... Podia-se perceber o olhar triste das outras irmãs que faziam parte do fã-clube não oficial do Sérgio. De repente, o silêncio foi novamente quebrado, desta vez pelo irmão Júlio:
- Droga, isto é uma sacanagem!!
Imediatamente todos olharam para o Júlio com aquela cara assustada, como se dissesse “como assim?”. Até eu fiquei sem palavras... Ele percebeu a besteira que fez, enquanto olhava para todo mundo pensando no que iria falar.
- Ehrr, quer dizer... Bem, eu na verdade... Tipo, isto pode acontecer comigo também, não é? Eu tenho que falar algo antes que aconteça...
Percebi nesta hora que uns três afastaram um pouco suas cadeiras dele. A situação estava ficando meio estranha, então resolvi retomar o assunto antes que ficasse pior.
- Ehrr, irmãos, voltando ao assunto, como nossos dois anciãos estarão ocupados com as tarefas propostas aqui, resolvi anunciar outro ancião para ser o responsável por nossa congregação, durante este tempo.
Todos voltaram sua atenção novamente para mim... Consegui o que queria.
- Bem, devido a seu histórico como um irmão zeloso, gostaria de chamar o irmão Benedito para esta posição.
Todos ficaram sem entender mais nada... A conversa paralela foi inevitável, até que um irmão mais corajoso resolveu perguntar:
- Mas irmão, o irmão Benedito é surdo-mudo...
- Sábia observação, irmão! – Respondi com um sorriso...
- Mas ninguém aqui sabe a linguagem de sinais... Só o irmão Tiago, que ministrou seus estudos... E ele nem é tão bom assim...
- Oh, muito bem. Então eu acho que vocês terão uma grande oportunidade de aprendê-la aqui, não? Além do mais, o nome dele está na lista também, como é que vocês não entendem a linguagem de sinais, e dizem que ele apresentou aquelas dúvidas apresentadas na carta do Escravo?
Eu pelo menos já sabia que o nome do irmão Benedito estava ali naquela lista por que ele era muito próximo do irmão Jonas.
- Mas nem tudo que vim falar aqui hoje são críticas, irmãos... Tenho realmente muito apreço pela fé que algumas irmãs tem demonstrado, por isto, gostaria de destacá-las, dando uma melhor participação na congregação. É por isto que eu estou pedindo para a irmã Rosa fazer nossas leituras durante as Reuniões.
Todos estranharam a decisão, principalmente o irmão Osvaldo:
- Mas irmão, não nos é dito para que as mulheres fiquem caladas durante as reuniões?
- Irmão, seja qual for a interpretação daqueles versículos, isto nunca impediu que as irmãs respondessem as perguntas feitas na hora do estudo. Portanto, recomendo que estude melhor a passagem, para entender o que ela realmente quer dizer.
O irmão Osvaldo ficou envergonhado e acenou com a cabeça, consentindo com minha recomendação. Eu sei que fazer a leitura nas reuniões não é algo muito grandioso, mas já é o começo. Eu sinceramente nunca achei que as mulheres estavam ali apenas para aumentar os números nas estatísticas da Torre.
- É por isto também, que quero nomear duas mulheres para monitorar o trabalho de todos aqui, e me fazer um relatório sobre isto. Elas também poderão transmitir quaisquer instruções adicionais minhas que eu elaborar posteriormente. Primeiro gostaria de chamar a irmã Priscila...
Já estava olhando para ela quando ela sorriu. Tentei disfarçar qualquer tipo de sentimento comprometedor, e fiquei o mais frio possível. Eu havia escolhido ela, por que gostava da companhia dela, de sua alegria... Não me levem a mal... Está bem, ela é bonita, por isto escolhi ela. Seus cabelos cacheados e loiros eram muito bonitos...
Nem ia escolher outra pessoa, mas me lembrei que havia alguém que merecia algum reconhecimento... Alguém que como eu foi ignorado, mas que o episódio com a irmã Ana Clara me fez ver que era uma grande pessoa, preocupada com aquelas pessoas mais necessitadas.
- A outra irmã que gostaria de convidar é a irmã Amanda.
Ela estava com uma cara bem depressiva quando a chamei. De certa forma, eu consegui vê-la sorrir com aquele convite. Espero conseguir fazer algo por ela, já que ela fazia tanto pelos outros... Seus olhos verdes brilhavam agora, com o convite, enquanto ela me olhava, um pouco envergonhada.
- Gostaria de passar para as duas as intruções necessárias depois desta nossa reunião. Acho que por enquanto é só. Peço que os irmãos, em minha falta, comuniquem-se com uma das duas irmãs, que elas me repassarão os problemas. Infelizmente sou apenas um, por isto preciso de ajuda. Estão todos dispensados.
Todos se levantaram, talvez imaginando se aquilo era um pesadelo. Eu não tinha pensado ainda nas várias formas de tortura psicológica que eu poderia fazer. Há muito tempo que eu queria imitar meu personagem de filme brasileiro preferido e dizer “Pede pra sair, pede pra sair”, “Você é um fanfarrão”, e coisas do gênero. Claro, eu teria que adaptar para a linguagem tejotina, algo do tipo “Pede pra voltar (pro mundo), pede pra voltar (pro mundo)”, “Você faz parte do mundo”... Acho que está chegando a hora...
As duas moças estavam em minha frente, então. A Priscila, alegre como nunca. A Amanda, tímida como sempre.
- Ei, Amanda não fique tão tímida. Agora fomos escolhidas para fazer algo importante! – dizia a Priscila.
- Hummm, eu sei, desculpa...
- Bem, senhoritas, o que vou passar para vocês é bem simples. Aqui está meu telefone, me liguem em qualquer emergência. Vamos organizar visitas domiciliares. O importante é identificar os problemas existentes na família que vocês visitarem. Vamos fazer uma lista das famílias aqui na congregação, e dividí-las em três. Cada um visitará uma família, e buscará seus problemas...
Assim, discutimos todos os detalhes sobre aquela vistoria... Enquanto isto, corria a notícia de que pelo menos 40% das testemunhas de Jeová já haviam sido desassociadas por todo o mundo. Um bom número, mas que não foi maior por causa do receio das pessoas. Bom sinal, isto significa que eles não estavam tão dispostos a trair uns aos outros como eu pensava. Quanto à minha congregação, vou dar um choque neles primeiro, antes de permitir as desassociações.
Bem, voltei tranquilamente para casa. Tinha descarregado um pouco da minha raiva nos outros. Foi até legal.
Chegando em minha casa, avistei uma figura parada em meu portão. Seria um ladrão? Me aproximei, e no entanto, percebi que era uma pessoa bem conhecida...- Estêvão, o que você está fazendo por aqui?

Através de tudo

Daniel 3:8-30

“Foi nessa hora que alguns astrólogos aproveitaram a ocasião para acusar os judeus. Eles disseram ao rei Nabucodonosor:
- Que o rei viva para sempre! O senhor deu a seguinte ordem: “Quando ouvirem o som dos instrumentos musicais, todos se ajoelharão e adorarão a estátua de ouro. Quem desobedecer a essa ordem será jogado numa fornalha acesa.” Ora , o senhor pôs como administradores da província da Babilônia alguns judeus. Esses judeus – Sadraque, Mesaque e Abede-Nego – não respeitam o senhor, não prestam culto ao deus do senhor, nem adoram a estátua de ouro que o senhor mandou fazer.
Ao ouvir isso, Nabucodonosor ficou furioso e mandou chamar Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Eles foram levados para o lugar onde o rei estava, e ele lhes disse:
- É verdade que vocês não prestam culto ao meu deus, nem adoram a estátua de ouro que eu mandei fazer? Pois bem! Será que agora vocês estão dispostos a se ajoelhar e adorar a estátua, logo que os instrumentos musicais começarem a tocar? Se não, vocês serão jogados na mesma hora numa fornalha acesa. E quem é o deus que os poderá salvar?
Sadraque, Mesaque e Abede-Nego responderam assim:
- Ó rei, nós não vamos nos defender. Pois, se o nosso Deus, a quem adoramos, quiser, ele poderá nos salvar da fornalha e nos livrar do seu poder, ó rei. E mesmo que o nosso Deus não nos salve, o senhor pode ficar sabendo que não prestaremos culto ao seu deus, nem adoraremos a estátua de ouro que o senhor mandou fazer.
Ao ouvir isso, Nabucodonosor ficou furioso com os três jovens e, vermelho de raiva, mandou que se esquentasse a fornalha sete vezes mais do que de costume. Depois, mandou que os seus soldados mais fortes amarrassem Sadraque, Mesaque e Abede-Nego e os jogassem na fornalha. A ordem do rei tinha sido cumprida, e a fornalha estava mais quente do que nunca; por isso, as labaredas mataram os soldados que jogaram os três jovens lá dentro. E, amarrados, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego caíram na fornalha.
De repente, Nabucodonosor se levantou e perguntou, muito espantado, aos seus conselheiros:
- Não foram três os homens que amarramos e jogamos na fornalha?
- Sim, senhor! – responderam eles.
- Como é, então, que estou vendo quatro homens andando soltos na fornalha? – perguntou o rei. – Eles estão passeando lá dentro, sem sofrerem nada. E o quarto homem parece um anjo.
Aí o rei chegou perto da porta da fornalha e gritou:
- Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, servos do Deus Altíssimo, saiam daí e venham cá!
Os três saíram da fornalha, e todas as autoridades que estavam ali chegaram perto deles e viram que o fogo não havia feito nenhum mal a eles. As labaredas não tinham chamuscado nem um cabelo da sua cabeça, as suas roupas não estavam queimadas, e eles não estavam com cheiro de fumaça. O rei gritou:
- Que o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego seja louvado! Ele enviou o seu Anjo e salvou os seus servos, que confiam nele. Eles não cumpriram a minha ordem; pelo contrário, escolheram morrer em vez de se ajoelhar e adorar um deus que não era o deles. Por isso, ordeno que qualquer pessoa, seja qual for a sua raça, nação ou língua, que insultar o nome do Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego seja cortada em pedaços e que a sua casa seja completamente arrasada. Pois não há outro Deus que possa salvar como este.
Então o rei Nabucodonosor colocou os três em cargos ainda mais importantes na província da Babilônia.”

Versículo-chave:

- Ó rei, nós não vamos nos defender. Pois, se o nosso Deus, a quem adoramos, quiser, ele poderá nos salvar da fornalha e nos livrar do seu poder, ó rei. E mesmo que o nosso Deus não nos salve, o senhor pode ficar sabendo que não prestaremos culto ao seu deus, nem adoraremos a estátua de ouro que o senhor mandou fazer.
(Daniel 3:17-18)

Meditação:

Duas palavras apenas, mas que nos dão a fé para passarmos pelas fornalhas da vida: “Se não”. A fé que Sadraque, Mesaque e Abede-Nego tinham firmava-se profundamente na soberania de Deus sobre toda a criação e em seu cuidado para com seu povo na Babilônia. Mas se Deus não decidisse tirá-los da fornalha, ainda assim não adorariam o bezerro de ouro de Nabucodonosor. A história do que aconteceu a Daniel e a seus amigos é uma fonte de ânimo e confiança para nós hoje. Jamais ficamos a sós em nossas fornalhas. O Senhor está conosco quando as chamas das dificuldades e provações nos envolvem. Ele está pronto a unir-se a nós no calor da vida, se pudermos dizer: “Se Deus pode ajudar-me nesta situação, ele me ajudará. Mas ainda que ele decida não intervir da maneira que eu gostaria, não desistirei, pois estou vivo para sempre. Nada nesta vida pode separar-me do seu amor.”
Esse tipo de submissão da dor e dos problemas da vida solidifica a crença de que jamais estamos sozinhos. As palavras que trouxeram o quarto homem, libertarão o seu poder hoje. Há um maravilhoso encontro de poder e paz sempre que sabemos com certeza que fornalha alguma ficará sem o Senhor, e que nada pode destruir nosso relacionamento com ele. Podemos ter o gozo do Senhor se possuirmos uma qualidade de fé que prossegue a despeito de tudo. Nossa esperança não se baseia no conseguir que Deus faça o que queremos, mas em desejar a ele, a despeito de como os eventos se resolvem.

Pensamento do dia:

“Através de tudo, através de tudo, aprendi a confiar em Deus” (André Crouch).

(“O que Deus tem de melhor para a minha vida”, Lloyd John Ogilvie, Ed. Vida, meditação de 08 de dezembro)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

As crônicas de Marvin - 06

Prelúdio de uma “caça às bruxas”

Foi desta forma que passei de vingador a conselheiro das testemunhas de Jeová. Assim foram os dias que se seguiram à minha auto-escolha como uma espécie de profeta.
Eu poderia simplesmente me negar a aconselhar qualquer pessoa. Agora eu tinha autoridade para isto. Agora todos queriam saber o que eu pensava. E eu não precisava mais da atenção deles. Eu precisava da atenção das pessoas quando me encontrava sozinho antigamente, procurando alguém para conversar. Alguém que eu pudesse chamar de amigo. Agora que eu havia me acostumado, não me importava mais com eles.
Mas não poderia fazer algo muito drástico, para não chamar muito a atenção. Uma coisa que tive em mente ao planejar minha vingança era de introduzir sempre mudanças sutis. Esta era a forma de agir da Torre, e ela provou na prática que era uma tática boa para manter adeptos. Eu queria mostrar ao máximo de pessoas possível, como eles estavam sendo enganados. Para isto, eu teria que ficar o maior tempo possível na liderança.
Por isto, a primeira coisa que eu fiz foi elaborar um discurso para fortalecer o papel dos anciãos. Eles já se dispuseram com toda a alegria do mundo para fazer este papel mesmo. Tive que lembrar que aquele era o arranjo estabelecido por Jeová. Não foi fácil elaborar o discurso, mas acredito que tenha sido um sucesso. Muitos deixaram de me procurar, embora ainda houvesse aqueles que me procurassem. Este discurso eu fiz no primeiro fim de semana após o nosso congresso de distrito.
Assim, tudo foi mais tranquilo depois do discurso. Agora eu teria mais tempo para planejar outras formas de evidenciar os erros das testemunhas de Jeová.

23 de agosto de 2051, 19:00

Estava voltando do meu serviço naquele dia. Já estava me acostumando a ver os irmãos lotando o ônibus e conversando sobre o Novo Mundo. Pelo menos agora eles não me seguiam até em casa.
Resolvi passar na feira que havia perto de casa para fazer as compras do mês. Não ia comprar muita coisa, e grande parte era besteira. O doce de leite que vendiam ali era o melhor de todos...
Estava em uma das bancas, escolhendo o que eu iria levar, quando ouvi uma voz ao meu lado, dizendo:
- Olá, irmão. Você por aqui.
Pensei logo: “droga, me acharam aqui também...” Quando me virei para olhar, qual não foi minha surpresa ao ver a irmã Priscila, uma das duas irmãs que pregaram aquele dia em minha porta? Diante de tanta beleza, só pude sorrir.
- Olá, irmã. Como está?
Para minha sorte, ela tinha muito mais experiência em escolher legumes do que eu. Afinal de contas, era ela quem estava responsável por fazer a feira na casa dela. Ela fez questão de me ensinar todos os detalhes relevantes na hora de escolher os legumes. Ela era muito espontânea, e sabia sempre puxar conversa. Para alguém como eu que não sabe conversar, ter uma companhia assim é essencial. Além do mais, ela possuía uma alegria invejável e contagiante. Era difícil não ficar alegre também. Me lembro que no dia que resolvi estudar com as testemunhas, foi ela quem tomou a iniciativa de conversar comigo. Talvez por isto eu sempre tive uma grande simpatia por ela. Está certo que ela nunca me deu atenção depois daquele dia, mas eu já estava me conformando com o fato de que não costumo chamar muita atenção.
- Irmão, agora que você está tão destacado na congregação, e os irmãos sempre procurando sua ajuda, você deve estar muito sem tempo, não?
- Bem, não tenho tempo como tinha antigamente... Mas não posso reclamar. Estou gostando de tudo. Por que está me perguntando isto?
Quem sabe ela esteja querendo marcar um encontro? Hehehe... (engoli um sorriso)
- Hummm, sabe, é que eu queria aproveitar esta chance que estou tendo de falar com você à sós, para te confessar algo que está “martelando” em minha cabeça já há algum tempo...
Eu juro que tentei encarar isto com naturalidade. Mas não dei conta... É mesmo, eu agora tinha saltado para o topo da lista dos casáveis... Será? Será? Puxa, foi tudo tão repentino...
- “Martelando”? O que seria irmã?
- Bem, irmão. Eu queria que não se chateasse comigo...
- Não vou me chatear, pode falar...
Como eu poderia me chatear com alguma coisa que ela me dissesse? Sou todo ouvidos!!
- Está bem. Irmão, sabe, eu sempre pensei que você fosse muito esquisito... Fechado, no seu canto... Parecia ser de outro planeta...
Realmente eu estava enganado. Puxa, que sinceridade mortal. Valeu por fazer meu dia melhor, irmã.
- ... você sempre nos olhava com aquele olhar estranho... Dava calafrios, sabe? Primeiro a gente achou que você era bobo, ou coisa parecida, depois pensamos que você era safado e até colocamos em você o apelido de “o tarado da rua 10”...
Naquele momento percebi ali que as pessoas que dizem gostar de sinceridade são mentirosas. Eu não gosto de sinceridade, eu gosto de elogios! Tente ser sincero com alguém para ver se ele não te esgana... Basta observar que quando alguém quer ofender outra pessoa, ela simplesmente diz o que vai dizer e completa que está sendo sincera, como forma de se desculpar.
- Eu???
- Sim... desculpa por dizer isto tudo, irmão... Mas eu precisava te dizer isto, pois agora eu percebi o quanto fui tola... Me perdoa irmão... Sabe, esta vida é cheia de surpresas mesmo. Jeová é sábio o bastante em escolher a pessoa mais esquisita neste mundo para mostrar para nós o quanto nosso julgamento é errado e superficial...
E o Oscar de esquisitice vai para... Marvin!!!! Obrigado a todos, dedico este meu prêmio aos meus pais, que possibilitaram minha existência.
- Puxa, irmã, é claro que te perdoo... Eu não poderia guardar mágoa de você, ainda mais depois de toda sua sinceridade.
- Você me perdoa mesmo?
- Claro! Esqueça isto. Você pediu desculpas, isto é o que importa.
Foi então que ela deu aquele sorriso. Era um sorriso tímido, que eu nunca tinha visto em uma pessoa tão comunicativa como ela. Seus olhos também brilhavam, com um brilho diferente... Como se tivessem ganhado vida. Ela estava envergonhada da confissão, mas parecia estar mais “leve”.
- Obrigado, irmão. Eu tenho que ir.
Então ela olhou para os lados, talvez para ver se encontrava alguém conhecido. É claro que não havia ninguém naquela hora, eu estava até surpreso de encontrá-la. Para minha surpresa, ela não estava procurando uma nova companhia. Ela subitamente me deu um beijo no rosto, e saiu correndo...
- Tchau, Marvin!
A vida naquele momento parecia um filme, correndo em slow motion. Eu só a via correndo pela multidão, como se quisesse esconder. Eu estava paralisado. Mas por qual razão? Talvez eu tivesse percebido que ela foi realmente sincera em tudo que fez e disse. Talvez ela agora gostasse mesmo de mim. E isto era inédito para mim. Já me enganei muitas vezes com as pessoas, mas aquela experiência foi muito diferente... Daquela vez, eu estava realmente feliz.
Estava voltando para casa, enquanto pensava nestas coisas. Como deveria encarar o que aconteceu? Deveria aproveitar o momento? Deveria negá-la para que quando revelasse meus planos mais tarde, ela não me odiasse?
Estava passando pela porta da irmã Ana Clara neste momento. Foi quando me lembrei que já havia algum tempo que ela não estava indo às reuniões. Ela era viúva, e sozinha. Vendo aquela casa de luzes apagadas me fez lembrar dela. O que aconteceu com ela? Talvez a felicidade que me acompanhava aquela hora me fez decidir por investigar isto pessoalmente.
Toquei a campainha. Aguardei uns 5 minutos e nada. Toquei mais uma vez. Nova demora. Resolvi insistir mais um pouco, só que não esperando tanto tempo. Foi assim que pude reparar na cortina da janela se movimentando. Ela tinha me visto, e foi me atender.
Sua cara não era das melhores. Estava pálida, abatida.
- Irmã, fiquei preocupado com você. O que houve?
- Eu não estou me sentindo bem, irmão. Eu sei que você vai pensar que minha fé não é grande o suficiente, mas irmão, neste momento estou sentindo uma tristeza tão grande que mal posso suportar...
- Mas, por que eu acharia que você não tem fé suficiente?
- Ora, irmão, foi o irmão Marcos que me preveniu para não deixar que minha fé desapareça... Eu não sou tão forte quanto gostaria... Sinto muito...
- Não há necessidade de desculpas, irmã... Todos ficamos tristes de vez em quando...
- Ao ponto de desejar a própria morte? Pois não consigo deixar esta idéia de lado, irmão...
Percebi então que a alegria que me acompanhava havia pedido licença para tomar água. Ainda não entendia por que ela estava daquele jeito...
- Mas o que aconteceu para você estar assim?
- Irmão, eu fiquei muito feliz por você ser escolhido para uma tarefa tão importante. Você sempre foi atencioso comigo, não poderia ser outra pessoa além de você. Mas não posso deixar de lembrar que minha única filha, a única pessoa que ainda me resta, abandonou Jeová para viver no mundo... Faz 5 anos que não posso sequer olhar na cara dela... Sempre que penso nisto, me lembro de como eu e meu marido esperávamos pelo nascimento dela. Nos vestidinhos que compramos, no berço... Me lembro das primeiras palavras. Me lembro de como ela contava empolgada como tinha conhecido novas amiguinhas na escola. Me lembro dos livros de estórias que comprei, para contar para ela à noite, e como ela dormia como um anjinho... Agora não consigo nem dar um abraço nela, e às vezes sinto tanta saudade dela, que parece que vou morrer sufocada...
A voz baixa e tranquila adicionava a melancolia necessária para contagiar até mesmo eu com aquela tristeza... É, eu também sabia o que era solidão...
- Irmã, por que eu te faço lembrar dela?
- É por quê você é uma das testemunhas de Apocalipse... Isto quer dizer que o fim está mais próximo do que nunca... Isto quer dizer que eu não tenho muito tempo mais para convencer minha filha a voltar... Em pouco tempo, ela não estará mais conosco... Minha única filha... Eu nunca mais a verei...
Fez-se um breve silêncio. Ela então continuou...
- Irmão, eu peço desculpas pela minha fraqueza... Mas eu simplesmente não consigo mais ir às reuniões... Todo mundo lá está feliz pela proximidade do dia de Jeová. Eles já não fazem parte do mundo, e certamente muitos deles estarão no paraíso... Eu não consigo ficar feliz... Não poderia chorar no meio deles, e estragar a alegria que eles possuem... Tudo que eu queria era abraçar mais uma vez minha filha... Eu sei que isto é errado... Se você me condenar, eu não me importo irmão... Eu mereço isto... Não consigo mais fazer nada para Jeová... Sou inútil agora...
Eu tinha planejado toda minha vingança direitinho. Tinha imaginado cada caso. Mas para isto não estava preparado. Eu não tinha planejado me arrepender.
Vingança?
À primeira vista me parecia uma ótima opção. Mas naquele momento eu percebi que muitas vezes se paga um preço alto por um pouco de auto-satisfação. Eu me sentia como um assassino, e tinha acabado de tirar o último fio de vida daquela senhora... Aquela senhora que agora sentava-se em uma cadeira, e se colocava a chorar. Na mesma noite recebi dois choques, e eu ainda não conseguia compreender o significado daquilo. O que eu faria? O que eu diria? Eu não era nada. Eu não tinha sabedoria suficiente para lidar com aquilo. Eu era um tolo brincando com a vida das pessoas...
- Irmã, eu é que tenho que te pedir desculpas...
Ela enxugou o rosto...
- Mas por quê, irmão...? Você não fez nada.
- Exatamente, irmã... Eu não fiz nada... Este é meu erro...
Me aproximei dela, e a abracei. Assim ela começou a chorar novamente... Quem já foi testemunha de Jeová sabe mais do que ninguém que o amor entre eles é um amor distante, praticado verbalmente. E era exatamente as palavras que me faltavam... Um abraço era a última coisa que ela poderia esperar de mim, mas tinha o mesmo efeito de grandiosas palavras do mais hábil orador.
As pessoas precisam umas das outras. Ninguém vive sozinho. Elas podem se enganar às vezes, mas no fundo, elas estão sempre buscando o reconhecimento de alguém. Talvez o que consolou aquela senhora naquele momento foi saber que eu a reconhecia, que eu me importava com ela.
- Irmã, volte a ir à congregação. Nós vamos cuidar de você. Eu sou seu amigo, acima de tudo. Não quero te ver triste.
- Mas quase ninguém dá atenção para mim lá, irmão. Acho que ali só você e a irmã Amanda que se preocupam comigo.
- A Amanda?
- Sim... Ela é sempre tão atenciosa com todos...
Disto eu não sabia... Ela quase nunca falou comigo...
- Pois então, irmã... Já é um começo. Aos poucos, conversando com todo mundo, faremos mais amizades... Façamos o seguinte... Eu venho aqui na próxima reunião para ir com você, o que acha?
Ela ficou relutante, mas consegui convencê-la... Fui embora, mas ainda com uma certa melancolia... Tudo era mais fácil quando eu tinha que simplesmente me divertir às custas das testemunhas de Jeová... Infelizmente cometi o maior erro de todos, eu esqueci que eu estava lidando com pessoas, e muitas delas pessoas sinceras. Pessoas que sofrem, que se alegram, pessoas estas que estão de certa forma presas.
Me lembrei então da Priscila, correndo pela multidão. O que há de errado com aquele povo? Então compreendi que eles eram proibidos de ser imperfeitos. Já dizia o ditado, errar é humano. Eles estavam desesperadamente tentando deixar de ser humanos. Buscavam a santidade e perdiam a humanidade. Eles estavam proibidos de amar, e principalmente de demonstrar este amor. Havia uma espécie de lei que ditava como devia-se comportar quando se gostava de alguém, e isto tornava as relações tão superficiais, que a última coisa que se percebia ali era o sentimento (e a espontaneidade). Era um grande teatro, feito para agradar ao pequeno grande público. Isto obrigava as pessoas a se esconder quando desejavam vivenciar de fato o tão falado amor...
Mas eles estavam proibidos também de sofrer... A busca pela perfeição não podia permitir sofrimentos... Todas aquelas pessoas sentadas em suas cadeiras, cheias de preocupações, sofrendo seus problemas em silêncio para que a imagem de religião perfeita fosse mantida, às custas das imperfeições sufocadas. Os aconselhamentos tinham que ser sigilosos.
Aquela noite choveu. Uma chuva mansa, sem vento. Era quase como se todos os anjos juntos chorassem de uma só vez, junto comigo. Desde que jurei vingança até aquela noite, não tinha pensado seriamente sobre Deus. Agora, estava eu pedindo sabedoria... Certamente alguma coisa eu faria, e iria começar colocando meu velho plano em prática. Era hora de tirar as máscaras.

27 de agosto de 2051, 19:00

Como havia prometido, passei na casa da irmã Ana Clara. Ela estava melhor, mas ainda abatida. Perguntei a ela como ela passou aqueles dias, e ela me contou que ficou bem melhor.
Chegamos então na congregação. Como era de se esperar, todo mundo me cercou, deixando a irmã Ana Clara em segundo plano. Pelo menos a irmã Amanda se aproximou dela, e puxou conversa.
Ainda estava com raiva daquelas pessoas. Não podia mais suportar aquilo. Então fui até a frente, e pedi para iniciar a reunião. Então, falei para todos:
- Boa noite, irmãos. Gostaria de falar algumas coisas antes de iniciarmos a reunião de hoje.
Estavam todos com seus lindos sorrisos, aguardando o que eu tinha para dizer.
- Em primeiro lugar, gostaria de pedir aos irmãos que não me cerquem mais quando entrar neste salão. Há irmãos aqui que precisam muito mais de atenção do que eu. Hoje por exemplo, eu quero que todos se levantem, vão até a irmã Ana Clara, dêem um abraço nela, e digam a ela que ela é uma irmã preciosa para todos.
Não foi difícil reparar a surpresa daquelas pessoas. Eles se olhavam, como se perguntassem, “o que deu nele”?
- Isto mesmo, eu quero que vocês façam isto. De preferência agora, por favor.
O irmão Marcos então se levantou em defesa deles.
- Mas irmão, isto é dar honra indevida a uma pessoa...
- Não, irmão. Isto não é dar honra indevida a uma pessoa. Isto é diminuir a honra que vocês dão a vocês mesmos, e dar a uma pessoa que precisa e a merece.
Imediatamente ele fez uma cara de que não gostou da resposta. Não é para menos.
- E não faça esta cara. Você deveria ser o primeiro a ouvir e aplicar a correção dada. Seja humilde, você deveria ser o primeiro na fila.
Mas ele não foi o primeiro. A irmã Amanda, que já estava perto da irmã Ana Clara, foi a primeira. Depois dela, o resto da congregação. Havia tempo que não via a irmã Ana Clara tão feliz.
Eu já previa que o clima ali ficaria pesado. Foi por isto que providenciei uma música sobre amor no cancioneiro... A letra era mais ou menos assim:

One man come in the name of love
One man come and go
One man come, he to justify
One man to overthrow

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

One man come on a barbed wire fence
One man he resist
One man washed on an empty beach
One man betrayed with a kiss

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

Early morning, April four
Shot rings out in the Memphis sky
Free at last, they took your life
They could not take your pride

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

Spoken: For the Reverent Martin Luther King - saint.

In the name of love
One more in the name of love
In the name of love
One more in the name of love

In the name of love

Ninguém parece ter reconhecido a letra, mas cantaram muito bem, e até com alegria. Formaram um belo coro, e fizeram questão de ignorar a menção a Martin Luther King...
Mas esta não era a parte principal... O ponto máximo da reunião foi o aviso final, uma carta enviada do corpo governante a todas as congregações. Ela dizia assim:

Caros irmãos,

É com muito pesar que viemos por meio desta comunicar que alguns irmãos têm abandonado a fé verdadeira. Estes irmãos preferiram seguir as próprias especulações do que aguardar a orientação do Escravo Fiel e Discreto em tempo oportuno.
Há alguns dias, foi lançada uma matéria sobre o papel do Mediador para os cristãos. Parece que alguns irmãos ficaram com dúvidas se Jesus Cristo sendo uma criatura, poderia de fato nos salvar. Esta dúvida em si já seria motivo de grande preocupação. Mas percebeu-se que a partir desta dúvida, alguns irmãos concluíram que a saída lógica para isto seria crer, como algumas religiões da Babilônia a Grande, que Jesus seria Deus.
É por este motivo que estamos pedindo para os anciãos de cada congregação para conduzirem uma comissão para apurar quem despertou este tipo de dúvida, e questionar até que ponto ela foi prejudicial às pessoas. Os irmãos que apresentarem a fé comprometida serão desassociados por período indeterminado, a fim de salvar as ovelhas que ainda se mantém na fé verdadeira.
Se algum irmão souber de alguém que tenha apresentado tais dúvidas, que seja fiel a Jeová, e avise os anciãos, para que eles possam cuidar deste irmão da forma apropriada.

Pronto, meu primeiro plano estava completo. Eu acabei de abrir a caixa de Pandora, e ninguém sabe o que vai acontecer de agora para frente. Dava para perceber a cara assustada de todos eles... Dava ainda para ver o mórbido semblante satisfeito de alguns...

segunda-feira, 30 de março de 2009

Reencontro selvagem

O amor é uma linguagem universal...

Esses dois jovens criaram este filhote de leão a que eles deram o nome de Christian. Infelizmente, ele ficou muito grande para eles cuidarem e eles decidiram libertá-lo para que ele pudesse viver como um leão selvagem. Depois de um ano, eles foram à África para vê-lo. Eles foram alertados de que o leão não se lembraria dele. Este vídeo foi feito quando eles o encontraram.


quarta-feira, 25 de março de 2009

Grandes canciones - 4

Um pouco de música folclórica argentina:

COSA PELIGROSA

por Los Nocheros


Me bastará tan sólo de tu boca oír te amo
y desde la distancia al infinito te hallaré
en cada movimiento pendular de un triste otoño
veré todo el verano resbalar sobre mi pie

Me bastará tan sólo que un "te quiero" de tu boca
se escape cielo adentro hacia una nueva dimensión
así aceptar que sólo yo comprendo esta locura
y nadie más divulgue lo increible de este amor

Pero mira que cosa tan graciosa es mi ilusión
yo aquí soltando sueños y esperanzas a los vientos
Pero mira que cosa peligrosa es tu querer
te juegas al azar y apuestas con mis sentimientos

El río va llevando las caricias de tus manos
y el aire aquel momento que inventamos la pasión
No existe fiel testigo que describa con palabras
el beso que provoca mi peregrina tentación

Pero mira que cosa tan graciosa es mi ilusión
yo aquí soltando sueños y esperanzas a los vientos
Pero mira que cosa peligrosa es tu querer
te juegas al azar y apuestas con mis sentimientos

pero mira que cosa que cosa peligrosa
pero mira que cosa que cosa peligrosa


terça-feira, 17 de março de 2009

As crônicas de Marvin - 05

A maravilhosa fama

7 de agosto de 2051, 7:00

Não foi fácil dormir aquela noite. Agora como um “profeta”, muitas possibilidades surgiram para mim. Pensei nas formas mais cruéis de me vingar daquelas pessoas que não só me enganaram, mas me ignoraram... De certa forma, eu tinha que expor o extremo puxa-saquismo deles...
Bem, já era segunda-feira, e eu tinha que agir... Infelizmente não tinha mais tempo para vinganças pessoais, tinha que trabalhar. Quem mandou ser pobre? De qualquer forma eu tinha que recuperar o dinheiro gasto em minha vingança, senão não poderia fazer as contribuições voluntárias dignas de um “profeta”. Comi apressadamente o meu cereal matinal, e corri para o ponto de ônibus.
Se estivéssemos falando de qualquer dia normal, e de qualquer ponto de ônibus normal, eu não estaria assustado ao vê-lo cheio de pessoas. Mas por incrível que pareça, ao virar a esquina e me deparar com o ponto de ônibus onde costumo pegar meu ônibus, tive uma grande surpresa: ele estava lotado. Mas não de quaisquer pessoas, estava lotado de testemunhas de Jeová... Pessoas que nunca vi pegando ônibus, pessoas que pegavam ônibus em outros horários. Até pessoas que pegavam outros ônibus. Estavam todos ali, e abriram um grande sorriso quando me viram.
Me aproximei lentamente, como quem ainda estava esperando acordar de algum pesadelo. Mas não acordei, e ele ficava cada vez pior. Cheguei perto do ponto, para ouvir meus caros irmãos, e suas explicações. O irmão Pedro foi plenamente capaz de explicar aquele aglomerado humano:
- Irmão, ontem ao voltar do congresso, e ver que você preferiu pegar um ônibus ao invés de uma carona, comecei a refletir sobre esta sua atitude... Você está certo, meu irmão. Como se diz em Revelação 11:18, Jeová Deus virá para destruir os que destroem a terra, e nós não podemos contribuir com isto. Por isto, vamos todos andar mais de ônibus, para diminuir a poluição gerada. E já que estamos fazendo isto, aproveitamos para acompanhá-lo, de forma que possamos aprender alguma coisa com o irmão.
A irmã Marta ainda completou:
- Puxa irmão, você demorou, hein! Eu deixei 3 ônibus passarem para ver se te encontrava...
Como dizia o sábio filósofo Homer Simpson, “Duh!!”. Era tudo que eu precisava. Um grupo de testemunhas de Jeová com sérios problemas espirituais (perdão pelo pleonasmo). Enquanto tirava umas fotos com a irmã Marta, que queria uma lembrança minha, pensava em como iria sair desta fria... Não me ocorreu nada. O pior foi decidir quem iria comigo, afinal o ônibus não conseguiria levar muita gente... Falei para entrarem em ordem de chegada.
Foi a pior viagem de ônibus que tive. Me incomodava o fato de aqueles que foram sentados estavam com seus caderninhos a postos para anotar qualquer coisa que eu dissesse ou fizesse. Fui em pé, apesar da insistência geral. Podia até deixar para alguém pagar minha passagem, mas minha consciência não permitiu. Fui obrigado a fazer uma mini-palestra sobre o cristão e o trabalho. Não foi muito difícil, apesar de tudo. Basicamente falei para não se mentir em hipótese alguma (puxa, como sou hipócrita), mesmo que isto custe seu emprego. Qualquer coisa que termine com o famoso “não somos parte do mundo” tem um grande poder de deslumbramento...
Consegui descer do ônibus, e ir rapidamente para meu serviço. Bem, eu trabalho com manutenção de computadores. Um nerd tem que fazer aquilo que sabe com maestria. Além disto, é um trabalho que não exige contato com o cliente. Pelo menos eu pensava assim, até que as vendas da loja aumentaram 50% naquele dia. Parece que meus irmãos concluíram que o computador não é tão mau assim, já que um de seus “profetas” trabalhava com eles. Tive que parar meu serviço 16 vezes para trocar algumas palavrinhas com os irmãos, exigência do chefe. Pelo menos assim ele reparou em minha existência. Talvez eu peça um aumento em momento oportuno.
Não costumo sair do serviço pela janela, aliás acho que ninguém faz isto. Não fazia. O pior de ser famoso é ser um famoso pobre. Pelo menos os ricos possuem seguranças, carros e coisas assim para despistar as multidões. Tive que correr e pegar um ônibus diferente desta vez... Mas correu tudo bem. Eu pelo menos teria a chance de ver o documentário que eu queria ver na televisão, e que há muito tempo esperava. Era sobre energia renovável, algo que sempre me interessou.
Cheguei em casa e fui preparar algo para comer. A história de despistar os irmãos me fez demorar muito para chegar. Estava quase na hora do documentário... Quando o telefone tocou. Era o irmão Osvaldo:
- Olá, irmão Marvin. Aqui é o irmão Osvaldo! Eu não te vi saindo da loja hoje, você está bem?
Respondi com desânimo:
- Estou sim, como vai irmão Osvaldo?
- Eu estou indo...
Podia mesmo ir, e me deixar ver o meu programa...
- Bem, irmão Marvin, eu te liguei por que eu queria te perguntar algo muito sério... Sabe, há muito tempo eu e minha esposa temos brigado muito, e isto nos entristece muito. Sabe, eu amo ela demais, e ela também me ama, e nós gostaríamos de nos dar bem, mas confessamos que precisamos de ajuda... Os anciãos já conversaram conosco, e não adiantou ainda... Então decidimos pedir sua ajuda, já que você foi apontado pelo Escravo como uma das duas testemunhas de Revelação...
Foi aí que me caiu a ficha... Eu entrei na maior furada de minha vida, e livremente. Tinha acabado de assinar meu contrato de conselheiro gratuito e vitalício... Eu tinha dificuldades até para falar bom dia para todo mundo, agora dar conselhos? Tinha que pensar rápido em uma solução, o documentário estava para começar...
- Irmão, eu só tenho uma coisa a dizer. Você possui algum objeto que foi dado por um espírita, e este objeto está causando todos estes problemas.
- Puxa, irmão, você tem certeza? Pois os anciãos já falaram sobre isto, e eu até me desfiz de um monte de objetos que possuíam alguma relação com o espiritismo...
É claro. Eu peguei a solução básica para este tipo de problema, e esqueci que ela seria a primeira que os anciãos tentariam... Bem, eu não estava muito criativo naquele dia...
- Irmão, ainda tem algum objeto relacionado com o espiritismo em sua casa. Você não se livrou de todos. Se você valoriza seu casamento mesmo, você deveria começar a procurar imediatamente. Ache este objeto, ele está aí em algum lugar. Chame mais pessoas e procure. Seu casamento depende disto!
Desliguei o telefone, e corri para a televisão. O programa tinha acabado de começar. Com sorte, o irmão Osvaldo ficaria pelo menos um mês procurando. Mas o irmão Osvaldo não era o único com problemas... Por isto, o telefone tocou mais uma vez. Resolvi não atender.
Passados 10 minutos do documentário, toca a campainha. Era o ancião Marcos no portão, para minha infelicidade. Agora não dava para fazer de conta que não estava em casa, as luzes estavam acesas, a televisão ligada. Tive que atendê-lo...
- Irmão Marvin, boa noite... Eu peço desculpas por vir aqui a esta hora, mas eu tentei te ligar, e ninguém atendeu...
- Sério? Puxa, eu não ouvi ele tocando... Deve ser quando eu estava tomando banho...
- Tudo bem, não tem problema. Foi melhor vir pessoalmente, pois o assunto é sério.
- Assunto sério? Sobre o quê se trata?
- Bem, há algumas coisas que você não conhece sobre nossa congregação... E achei melhor te contar antes que você ouça de outras pessoas.
- Hummm, e o que seria?
- Eu acredito que o irmão Jonas não aprova algumas coisas que eu faço pela congregação. A verdade é esta.
- O irmão Jonas? Mas vocês são anciãos há tanto tempo, sempre demonstraram ser amigos.
- Sim, pois não seria um bom exemplo para a congregação ter dois anciãos que discutissem entre si. Mas a verdade é que muitos procedimentos adotados por ele não são corretos.
- Ah, não?
- Não. Por exemplo, não acho apropriado que um ancião faça um discurso de casamento para pessoas que sequer são batizadas.
- Ah, disto eu não sabia.
- Isto mesmo. O irmão Jonas não é rigoroso, dá muitas concessões. E por isto, é o mais procurado. Claro, é mais fácil afrouxar aqui e ali, do que seguir as orientações do Escravo.
Uma disputa por poder, completamente oculta aos cristãos comuns... Esta foi inesperada para mim, e por um momento até me esqueci do meu documentário. Quem seria capaz de imaginar isto? Mas o irmão Marcos estava ali, bem na minha frente, tentando fazer minha cabeça contra o irmão Jonas. Provavelmente movido pelos ciúmes...
Nisto toca o telefone... Eu estava ignorando, mas o irmão Marcos interrompeu seus “reclames” para dizer:
- Irmão, se quiser pode atender o telefone...
- Ah, tá, tudo bem, vou ver quem é...
Atendi então o telefone. Sem nenhuma identificação, alguém grita do outro lado da linha:
- ACHHHHHEEEEEIIIIIIII, IRMÃÃÃÃOOOOO!!!
- Irmão.... Osvaldo??
- Isto mesmo, irmão. Puxa, você é um homem de Deus mesmo! Eu sabia que poderia contar com você!
- Puxa, achou mesmo?
- Sim, claro. Minha esposa tinha um anel que foi dado pela irmã de uma mulher cujo marido é espírita... Como ela não queria se desfazer do anel, que é caro, então ela escondeu isto de mim.
- Puxa, sério?
- Sim! Ainda bem que você é guiado pelo espírito de Jeová. Pode ter certeza que vou contar isto para todos os irmãos! Temos um profeta entre nós!! Puxa, como estou feliz... E então, o que devemos fazer agora, irmão?
Como diria outro sábio chamado Dick Vigarista, “Raios, raios duplos!!”. Antes mesmo de todas as nações se unirem para congregar no templo de Deus, no novo mundo, elas se congregarão aqui em casa, me impedindo de viver... Agora não tinha mais jeito...
- Ora, irmão, basta queimar...
- Mas irmão, é um anel... Ele não vai queimar...
- Tem razão. Então faz o seguinte. Pegue todo mundo que você encontrar, e vá até a Vila Esperança. Encontre um lote vago, faça um buraco e enterre. Depois, faça uma oração. Vou pedir para o irmão Marcos te acompanhar, já que ele é ancião.
- Puxa, muito obrigado, irmão Marvin. Mas a Vila Esperança não é muito longe não?
- Exatamente por ser longe que eu estou te mandando para lá. Você vai querer que este objeto que tanto prejudicou seu casamento fique perto de vocês?
- Puxa, irmão, é mesmo!! Como sou tolo, é claro que não. Vamos fazer isto agora.
- Tudo bem então, vou mandar o Marcos. Não saia sem ele.
Desliguei o telefone, e falei para o Marcos:
- Irmão, seja o que for que você tem para me dizer, acho que pode esperar. Eu quero que você ajude o irmão Osvaldo a se livrar de um objeto dado por um espírita. É urgente, vai lá agora.
- Mas irmão...
- Irmão, eu sei o que é bom para você e o Osvaldo. Por ora, vá. Teremos muito tempo para falar disto depois.
- Está bem então. Até mais.
Matei dois coelhos com uma cajadada só. Espero que agora eu tenha um pouco de paz... Me despedi do irmão Marcos, e corri para o sofá. Por via das dúvidas, apaguei as luzes e fechei as cortinas. Ao me sentar, descobri que o programa estava quase no fim... A esta altura, o telefone toca de novo... Já tinha perdido todo o programa, não ia entender mais nada mesmo, então resolvi atender...
- Olá, irmão Marvin. Aqui é a irmã Rosa.
- Olá, irmã. Como está?
- Hummm, eu não estou muito bem... Irmão, eu queria um conselho... Estou me sentindo muito solitária...
- Mas irmã, você mora com 5 pessoas!!
- Eu sei... Mas aqui em casa cada um vai para seu canto. Ninguém quer saber sobre meu dia, sobre como me sinto, o que eu desejo... Ninguém liga para mim... Estou muito triste...
Se eu dissesse que eu também não ligo para ela, eu pioraria mais as coisas. Tudo bem, hora de fingir de novo... Eu sempre me impressiono com a habilidade humana de conseguir sempre piorar as coisas. Infelizmente não fiz curso de psicologia. Eu repasso.
- Irmã, você tem que deixar claro para as pessoas de sua casa, que você precisa deles. Por quê não conversa com todos, e expõe o que está sentindo?
- Mas irmão, eles não iriam me escutar. Nunca me escutaram!!
- Irmã, muita coisa nesta vida não vem fácil. Se você deseja conquistar algo, deve lutar sem vacilar...
Depois de uma longa conversa, consegui despistar a irmã Rosa. Sugeri que ela visitasse um psicólogo. Além de estarem mais preparados, são pagos para isto. Finalmente entendi por que ela tem seu famoso dom da fala. Ninguém conversava com ela, e por isto alguém tinha que escutá-la. Foram 2 horas de conversa que não deram em nada. Depois disto desliguei o telefone, as luzes, e fui dormir. Pelo menos tentei, já que tive um pesadelo maluco onde testemunhas de Jeová cercavam minha casa como zumbis, dizendo “Me ajude, Marvin”, e eu corria para o quintal, onde os passarinhos cantavam “Me ajuuuddeee, Marrrvinnn”. Então me viro para o lado e vejo 7 vacas magras e 7 vacas gordas, cada uma com uma letra, que formava a palavra “INTERPRETE-NOS”. No fundo, Golias enfrentava a besta de sete cabeças e dez chifres em um campeonato de vale tudo, Golias agora com um capacete de motoqueiro. Ambos gritavam “É tudo sua culpa, é tudo sua culpa!!!”. O pior de tudo é que eu não bebo... Agora eu entendo por Michael Jackson escreveu Thriller, afinal, ele também foi TJ um dia...

sexta-feira, 13 de março de 2009

O mais jovem santista

JJJ - Jiu-Jitsu de Jesus (?!)

Pra começo de conversa, três esclarecimentos são necessários:


1) O título deste texto é apenas uma generalização do vale-tudo para aproveitar a sigla JJJ. Para quem não conhece, jiu-jitsu não é sinônimo de vale-tudo, embora o vale-tudo (hoje conhecido por MMA - Mixed Martial Arts) possa eventualmente incluir o jiu-jitsu entre as técnicas de luta desenvolvidas no combate, como a própria sigla MMA fala por si só;


2) Não tenho nada contra jiu-jitsu, MMA ou outras artes marciais. Pelo contrário, considero-as verdadeiras artes, como o próprio nome indica. Se as pessoas fazem mau uso delas, é outra história;


3) Também não tenho nada contra cristãos que as praticam. Apenas questiono, a seguir, a conveniência de se misturar templo, adoração e evangelismo no mesmo recinto.


É que a Folha de S. Paulo de ontem trouxe artigo (reproduzido na Folha Online) sobre um ringue de vale-tudo montado no templo da Igreja Renascer de Alphaville (bairro rico do município de Barueri, na Grande São Paulo), em que jovens são atraídos para as lutas de vale-tudo, segundo os pastores da igreja, para "propósitos evangelísticos". Fica difícil entender como é que algum pastor considera "normal" ver rapazes em trajes sumários lutando jiu-jitsu dentro da igreja, afinal a única manifestação de ira de Jesus, relatada nos evangelhos, diz respeito à expulsão dos vendilhões do templo, mas não consta que ele tenha recorrido ao vale-tudo para fazer isso. Graças a Deus não havia pitbulls naquela época.


Definitivamente, o profano se instalou em algumas igrejas que se dizem "evangélicas". Há uma polêmica antiga envolvendo o boxe, em que há muita gente que diz que não se trata propriamente de um esporte, mas de violência gratuita. O mesmo não se diz de lutas marciais como o judô, o karatê, o tae-kwon-do e o jiu-jitsu, que têm toda uma moderação nos golpes (e proteção nos lutadores) que os tornam mais parecidos com arte do que propriamente com esporte. Se já é discutível levar nobilíssimas lutas de judô para dentro de um templo, muito mais questionável é fazer do vale-tudo um ritual litúrgico. Afinal, a força do evangelho reside muito mais no Espírito do que no corpo. Por outro lado, esses tropeços têm o seu lado positivo (como quase tudo na vida): revelam que para algumas igrejas (e seus pastores) vale tudo mesmo...



Atualização: veja uma entrevista com o Pr. Caio Fábio sobre este tema,
clicando aqui.

veja também:

Pregação pode ser feita de qualquer jeito?

Mais vale-tudo na igreja

O lutador ungido

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ceticismo, Cristianismo e Hedonismo



por Paul Tillich:


Esse vasto projeto dos filósofos gregos de criar um mundo de significados começou a desmoronar no apagar das luzes do mundo antigo e produziu o que chamo de epílogo cético do desenvolvimento antigo. Originalmente, o termo skepsis queria dizer "observar as coisas". Mas assumiu um sentido negativo de examinar os dogmas, até mesmo as dogmata das escolas gregas de filosofia, para rejeitá-los. Os céticos, assim, duvidaram de todas as formulações das escolas de filosofia. Não que essas escolas não contivessem em seu ensino boa parte desses elementos céticos, como, por exemplo, a academia platônica. O ceticismo não conseguiu avançar além do probabilismo enquanto que as outras escolas tornaram-se pragmáticas. Assim, essa atmosfera cética invadiu todas as escolas e permeou a vida toda no mundo antigo de então. Tratava-se de assunto vital e muito sério. Não se tratava novamente de se sentar em mesas de estudo para descobrir que se podia duvidar de todas as coisas. Essa tarefa seria comparativamente fácil. Na verdade, esse movimento significava o desabamento de todas as convicções. A conseqüência dessa atitude – bastante característica da mentalidade grega – foi uma espécie de paralisia da ação. Se não somos mais capazes de pronunciar juízos teóricos, não podemos agir na prática. Portanto, introduziram a doutrina da epoché, "suspensão de juízo, reserva, não julgar nem agir, não decidir nem teórica nem praticamente". A doutrina da epoché significava a resignação do juízo em todos os aspectos. Por isso, os céticos retiraram-se para os desertos vestidos de uma simples túnica ou manto. Os monges cristãos, mais tarde, seguiram-nos nessa atitude, porque eles também se desesperaram sobre a possibilidade de se viver neste mundo. Alguns céticos da igreja primitiva eram sérios e agiam de acordo, ao contrário de certos céticos esnobes de nossos dias que não se animam a arcar com as conseqüências de seu ceticismo, que levam vidas alegres e confortáveis enquanto duvidam de todas as coisas. Os céticos gregos retiraram-se da vida e assim mostraram-se consistentes.

O ceticismo foi, pois, um dos importantes elementos para a preparação do cristianismo. As escolas gregas, como os epicuristas, os estóicos, os acadêmicos, os peripatéticos e os neopitagóricos, não eram escolas no sentido em que temos hoje escolas filosóficas, como a escola de Dewey ou a de Whitehead. As escolas filosóficas gregas eram também comunidades cúlticas; eram meio rituais e meio filosóficas. Seus membros queriam viver de acordo com as doutrinas de seus mestres. Quando surgiu o movimento cético, procuravam acima de tudo a certeza; queriam-na para poder viver. Acreditavam que os grandes mestres, Platão ou Aristóteles, o estóico Zenão ou Epicuro, e mais tarde Plotino, não eram apenas pensadores ou professores, mas homens inspirados. Muito antes do cristianismo existir, a idéia de inspiração já se desenvolvia nessas escolas gregas: seus fundadores eram inspirados. Quando membros dessas escolas entraram mais tarde em discussão com cristãos, diziam, por exemplo, que não era Moisés o inspirado, mas Heráclito. Essa doutrina da inspiração também ajudou o cristianismo a entrar no mundo. A razão pura não era capaz de construir a realidade na qual se pudesse viver.

O que se dizia sobre os fundadores dessas escolas filosóficas era semelhante ao que os cristãos diziam a respeito do fundador de sua igreja. É curioso notar que um homem como Epicuro – de tal maneira atacado pelos cristãos que só restam dele poucos fragmentos – era chamado soter pelos discípulos. Essa palavra era usada no Novo Testamento para significar "salvador". Assim, o filósofo Epicuro era conhecido como salvador. Por quê? Em geral, Epicuro é considerado um homem que sempre viveu bem nos seus agradáveis jardins e que ensinou uma filosofia hedonista rejeitada pelos cristãos. Mas o mundo antigo não tinha essa idéia sobre Epicuro. Era chamado de soter porque fizera a coisa mais importante que alguém poderia fazer pelos seus seguidores: libertava-os da angústia. Epicuro, com seu sistema materialista de átomos, libertava as pessoas dos demônios presentes na totalidade da vida do mundo antigo. Vê-se bem que a filosofia era assunto muito sério nessa época.

Outra conseqüência desse espírito cético era o que os estóicos chamaram de apatheia (apatia), que significa ausência de sentimentos em relação às forças e impulsos da vida, como desejos, alegrias, dores, indo-se além de tudo isso ao estado da sabedoria. Sabiam que somente algumas pessoas conseguiram alcançar esse estado. Os céticos que se retiraram para os desertos demonstravam até certo ponto essa capacidade. Por trás de tudo isso, naturalmente, situava-se a crítica anterior aos deuses mitológicos e aos ritos tradicionais. A crítica da mitologia deu-se na Grécia cerca da mesma época em que o Segundo Isaías fazia o mesmo na Judéia. Essa atividade crítica minava a crença nos deuses do politeísmo.



(TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: ASTE, 2000, 2ª ed., pp. 26-28)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails