quarta-feira, 9 de julho de 2008

Competindo com cavalos

O filósofo e mártir tcheco, Vitezlav Gardavsky, morto em 1978, elegeu Jeremias como seu “modelo de homem” em sua campanha contra uma sociedade que, cuidadosamente, planejava cada detalhe da existência material, porém eliminava o mistério e o milagre, extirpando toda a liberdade da vida. Ele escreveu em seu livro “God Is Not Yet Dead” ["Deus Ainda Não Está Morto"], que a terrível ameaça contra a vida não é a morte, ou a dor, nem qualquer variedade de desastre contra os quais nós, tão obsessivamente, procuramos nos proteger com nossos sistemas sociais e estratagemas pessoais. A grande ameaça é “morrermos antes de realmente morrer, antes que a morte se torne uma necessidade natural. O verdadeiro horror repousa exatamente sobre essa morte prematura, após a qual continuamos a viver por muitos anos”.

Há uma passagem memorável com respeito à vida de Jeremias quando, esmagado pela oposição e mergulhado na autopiedade, ele esteve a ponto de capitular entregando-se à morte prematura. Jeremias estava pronto a abandonar seu chamado divino único e resignado a ser apenas uma estatística de Jerusalém. Naquele momento crítico, o profeta ouviu esta admoestação: “Se te fatigas correndo com homens que vão a pé, como poderás competir com os que vão a cavalo? Se em terra de paz não te sentes seguro, que farás na floresta do Jordão?” (Jeremias 12:5). O bioquímico Erwin Chargaff atualizou as questões: “O que você deseja alcançar? Grandes fortunas? Comida mais barata? Uma vida mais feliz, mais duradoura? É poder sobre os vizinhos o que persegue? Estará você apenas procurando escapar à morte? Ou será que você busca maior sabedoria e devoção mais profunda?”

A vida é difícil, Jeremias. Você irá desistir diante da primeira onda de oposição? Irá bater em retirada quando descobrir que há muito mais por que se viver do que três refeições diárias e um lugar seco para descansar, à noite? Procurará refugiar-se em casa no instante em que descobrir que multidões de pessoas estão mais interessadas em manter seus pés aquecidos do que viver sob risco para a glória de Deus? Você irá manter uma vida cautelosa ou corajosa? Eu o chamei para viver o seu melhor, para perseguir a justiça, manter a direção rumo à excelência. É muito mais fácil, como bem sabe, ser neurótico. É muito mais simples viver como um parasita. É menos complexo relaxar e deixar-se levar pelos braços da maioria. Mais fácil, porém não melhor, não mais significante, não mais recompensador. Eu o chamei para uma vida de propósito, muito além do que você pensa ser capaz de viver e prometi dar-lhe forças suficientes para você cumprir o seu destino. Agora, ao primeiro sinal de dificuldades, você está disposto a desistir. Se você se sente fatigado por essa multidão comum de patéticas mediocridades, o que fará quando a verdadeira corrida começar, contra os velozes e determinados cavalos da excelência? O que você realmente deseja, Jeremias? Quer arrastar-se, acompanhando a multidão ou almeja correr com os cavalos?

É compreensível que existam desistências rumo à excelência, mudanças frente ao risco, quedas da fé. É mais fácil definir-se no mínimo (“um bípede sem penas”) e viver com segurança dentro desta definição do que ser definido no máximo (“pouco menor que Deus” – Salmo 8:5), vivendo aventuras nesta realidade. É improvável, creio eu, que Jeremias tenha sido rápido ou espontâneo em sua resposta à pergunta de Deus. Os inebriantes ideais por uma nova vida haviam sido sobrepujados pelo cinismo mundial. A impetuosidade, euforia e entusiasmo juvenis não mais o estimulavam. Ele pesou as opções, contabilizou os custos. Agitou-se intimamente em hesitação. Sua resposta não foi expressa verbalmente, mas com sua biografia. A vida de Jeremias foi sua resposta: “Eu correrei com os cavalos”.

(Eugene Peterson, em “Corra com os Cavalos”, 2003, Ed. Textus e Ed. Ultimato, pág. 9 - para ler um comentário do livro, clique aqui)

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