quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Discipulado


por Dietrich Bonhoeffer:

Quando as Escrituras Sagradas falam do discipulado de Jesus, proclamam a libertação do homem de todos os preceitos humanos, de tudo quanto oprime, sobrecarrega, provoca preocupações e tormentos à consciência. No discipulado, o ser humano sai de sob o jugo de suas próprias leis, e submete-se ao jugo suave de Jesus Cristo. Seria isso menosprezo da seriedade dos mandamentos de Jesus? Não. Antes, somente onde permanece de pé o mandamento integral de Jesus, o chamado ao discipulado sem restrições, é que se torna possível a plena libertação do homem para a comunhão em Jesus. Quem segue indiviso ao mandamento de Jesus, quem se sujeita sem resistência ao jugo de Jesus, a este se lhe torna leve o fardo que tem de levar, recebendo, na suave pressão desse jugo, a força necessária para percorrer o caminho certo sem cansaço. O mandamento de Jesus é duro, desumanamente duro para aquele que se lhe opõe. O mandamento de Jesus é suave e fácil para aquele que voluntariamente se lhe sujeita. “Os seus mandamentos não são penosos” (1ª Pedro 5:3). O mandamento de Jesus nada tem que ver com curas psicológicas violentas. Jesus nada nos exige sem nos dar forças para o realizar. O mandamento de Jesus jamais destruirá a vida, mas a conservará, fortalecê-la-á e a sanará.

(Dietrich Bonhoeffer, em “Discipulado”, Ed. Sinodal, pág. 4)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O galeão apostólico

Logo depois do reencontro dos apóstolos no concílio de Jerusalém, Paulo e Pedro desceram juntos até o porto de Cesareia, para o adeus final, já que cada um seguiria o seu caminho. Superados os ressentimentos pela discussão áspera que haviam tido alguns dias antes, os dois apóstolos falavam agora de suas rotinas de viagens, enquanto aguardavam a hora de embarcar:

- Sabe, Pedro, estou cansado de andar a pé por essas estradas poeirentas e de pegar esses barcos cargueiros caindo aos pedaços...
- Nem me diga, Paulo, eu viajo bem menos que você e já sinto o cansaço.
- Pois é, Pedro, eu estava pensando comigo se a gente devia orar a Deus e fazer uma campanha entre os irmãos para comprar um navio apostólico só para uso dos ungidos...

Pedro fez uma cara de espanto que deixou Paulo constrangido.

- “Veja se você concorda comigo, Pedro” – Paulo continuou -, o campo é enorme, o serviço extenuante, e nós perdemos muito tempo enjoando no mar e comendo poeira pelo deserto.
- Isso lá é verdade, Paulo, mas o que você sugere?
- Tá vendo aquele galeão reluzente entrando no porto? É um modelo novo fabricado pela família Ferrari da Itália.
- Lindo mesmo, e parece bem rápido. Acho que serviria aos nossos propósitos.
- Sem dúvida, Pedro, poderia deixar um apóstolo em cada porto e assim o evangelho se espalharia mais rápido.
- Verdade... mas ainda temos toda a terra para explorar. Bom será o dia em que alguém inventar uma máquina que voa.
- Cá entre nós, Pedro, acho que quando esse dia chegar, esta máquina não será mais necessária, já que todo o trabalho duro – depois do Mestre – quem fez fomos nós e nossos filhos na fé.
- Olha, Paulo, eu não duvido que apareça alguém se dizendo “apóstolo” ou um “pastor” muito especial, achando que tem muito mais trabalho que nós e só uma galé voadora vai resolver seu problema...
- Bem, voltemos ao assunto, e a campanha do galeão?
- Ah, Paulo, acho que Deus não precisa de galeão nem de máquina voadora não... não há maior prazer do que pregar o evangelho e estabelecer a Igreja no mundo, por terra e mar, a pé mesmo...
- É verdade, Pedro... acho que eu tava delirando... não somos mais crianças deslumbradas com galeões e máquinas voadoras, e seja na terra, seja no mar, você consegue caminhar, né...
- Paulo, Paulo, o que importa é que com Cristo, a pé ou no barco, tudo vai muito bem, vai muito bem...

Assim, bem-humorados e dispostos ao trabalho, cada apóstolo seguiu para um destino, tendo no coração apenas um vislumbre do tamanho da obra que estavam ajudando a construir...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Aquassab

Cidadãos de São Paulo:
os seus problemas acabaram!




Moralidade não depende de religião

Pelo menos é isso o que diz um estudo publicado na revista Trends in Cognitive Sciences, segundo informa o jornal O Estado de S. Paulo de hoje, ao qual faço minhas considerações mais abaixo:




Moralidade independe de religião, diz estudo

Crença divina seria produto, e não causa, de comportamentos sociais

Herton Escobar

De onde vem a religião? O fato de que todas as sociedades humanas conhecidas acreditam (ou acreditavam) em algum tipo de divindade - seja ela Deus, Alá, Zeus, o Sol, a Montanha ou espíritos da floresta - intriga os cientistas, que há tempos buscam uma explicação evolutiva para esse fenômeno.

Seria a religião uma característica com raiz evolutiva própria, selecionada naturalmente por sua capacidade de promover a moralidade e a cooperação entre indivíduos não aparentados de uma população? Ou seria ela um subproduto de outras características evolutivas que favorecem esse comportamento social independentemente de crenças religiosas?

A origem mais provável é a segunda, de acordo com um artigo científico publicado ontem na revista Trends in Cognitive Sciences. Os autores fazem uma revisão dos estudos já publicados sobre o tema e concluem que nem a cooperação nem a moralidade dependem da religião para existir, apesar de serem influenciadas por ela.

"A cooperação é possível graças a um conjunto de mecanismos mentais que não são específicos da religião. Julgamentos morais dependem desses mecanismos e parecem operar independentemente da formação religiosa individual", escrevem os autores. "A religião é um conjunto de ideias que sobrevive na transmissão cultural porque parasita efetivamente outras estruturas cognitivas evoluídas."

O artigo é assinado por Ilkka Pyysiäinen, da Universidade de Helsinki, na Finlândia, e Marc Hauser, dos Departamentos de Psicologia e Biologia Evolutiva Humana da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Em entrevista ao Estado, Hauser disse que a religião "fornece apenas regras locais para casos muito específicos" de dilemas morais, como posições sobre o aborto ou a eutanásia. Já questões de caráter mais abstrato são definidas com base numa moralidade intuitiva que independe de religião.

Estudos em que pessoas são convidadas a opinar sobre dilemas morais hipotéticos mostram que o padrão de julgamento de religiosos é igual ao de pessoas sem religião ou ateias. Em outras palavras: a capacidade de distinguir entre certo e errado, aceitável e inaceitável, é intuitiva ao ser humano e independe da religião, apesar de ser moldada por ela em questões específicas.

"Isso pode sugerir como é equivocado fazer juízos sobre a moralidade das pessoas com base em suas religiões", disse ao Estado o pesquisador Charbel El-Hani, coordenador do Grupo de Pesquisa em História, Filosofia e Ensino de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Bahia. "Entre os ateus, assim como entre os religiosos, há a variabilidade usual dos humanos. Há ateus tão altruístas quanto Irmã Dulce, assim como há religiosos tão dados à desonestidade e a faltas éticas quanto pessoas não tão religiosas."

Segundo Hauser, o ser humano não tem uma propensão a ser religioso, mas sim a buscar causas e propósitos para o mundo ao seu redor - o que muitas vezes acaba desembocando em alguma forma de divindade. Nesse caso, a religião seria um produto da evolução cultural, e não da evolução biológica. "O fato de algo ser universal não significa que faça parte da nossa biologia", diz o pesquisador de Harvard.

Ele e Pyysiäinen sugerem que "a maioria, se não todos, dos ingredientes psicológicos que integram a religião evoluiu originalmente para solucionar problemas mais genéricos de interação social e, subsequentemente, foi cooptada para uso em atividades religiosas."

Ao estabelecer regras coletivas de conduta, a religião funcionaria como uma ferramenta de incentivo e controle da cooperação - tanto pelo lado da salvação quanto da punição. "Que a religião está envolvida na cooperação não há dúvida. Mas dizer que ela evoluiu para esse propósito é algo completamente diferente", afirma Hauser.


Meu comentário:

Não há dados suficientes para se compreender melhor a metodologia utilizada pelos pesquisadores em questão, mas aparentemente o estudo se insere na ampla classe de "revisão de artigos publicados", segundo informa a matéria do Estadão, o que já sugere uma certa superficialidade, já que não foram buscados dados novos, ainda que haja menção a "estudos em que pessoas são convidadas a opinar sobre dilemas morais hipotéticos". Feitas essas considerações iniciais, acho que há dois aspectos básicos que merecem ser abordados:

1) O artigo reconhece que "o fato de que todas as sociedades humanas conhecidas acreditam (ou acreditavam) em algum tipo de divindade (...) intriga os cientistas", algo que já abordei neste blog comentando sobre o instinto moral. Ora, este já é um dado suficientemente complexo e confiável para que não se tente desmontá-lo mediante uma ferramenta metodológica tão singela como a "revisão de artigos publicados". Diante de uma constatação pacífica de que não há qualquer sociedade humana conhecida - em qualquer era da história do mundo - em que não haja o instinto religioso presente, o estudo divulgado na verdade soa como uma tentativa simplória de desconstrução da conclusão unânime da ciência sobre um fato insofismável;

2) os estudos sobre "pessoas convidadas a opinar sobre dilemas morais hipotéticos" com o resultado de que eles "mostram que o padrão de julgamento de religiosos é igual ao de pessoas sem religião ou ateias" não leva em consideração um fato - a meu ver - incontestável, que contamina qualquer pesquisa que se valha desta metodologia: mesmo os ateus, independentemente de sua vontade, são guiados (ou pelo menos pressionados, compelidos, induzidos) pela moralidade majoritária e vigente na sua sociedade, que é a religiosa, que tem poucas variações significativas entre as confissões cristã, judaica, islâmica, hinduísta, budista, taoísta, etc., segundo a região em que seja efetuada a investigação. Logo, dizer que "a capacidade de distinguir entre certo e errado, aceitável e inaceitável, é intuitiva ao ser humano e independe da religião, apesar de ser moldada por ela em questões específicas" é uma análise apressada contaminada ab initio pela pressuposição equivocada de que um ateu (em qualquer contexto) tem uma concepção moral completamente imune à moralidade majoritária da sociedade em que vive (e convive), que é a religiosa.

Confesso que esperava mais deste estudo ao ler o título da matéria, pois há gente muito capacitada no mundo investigando um tema tão interessante como esse (como o Steven Pinker e Jonathan Haidt, por exemplo), mas parece que - infelizmente - eles não foram ouvidos.

Essa tal religiosidade

Muitas igrejas hoje entendem que o inimigo a ser batido é a “religiosidade”, ou seja, aqueles que se preocupam em manter viva a essência do evangelho, a graça salvífica e redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo, que se revela simples e acessível ao ser humano, seja ele do século III ou do XXI. 


Não, isso não basta, dizem os novos pregadores do apocalipse. Curiosamente, dizendo-se “apóstolos”, negam a própria tradição apostólica. Dizendo-se resgatadores da verdade evangélica, se valem de novidades rituais e mercadológicas de ocasião. É preciso submeter-se aos seus complicados rituais e repetir os seus chavões e mantras, que alegam dizer tudo, mas não dizem nada. 


Já que aquilo que eles chamam pejorativamente de “religiosidade” se preocupa com a essência do evangelho, nela não há lugar para correntes de prosperidade, novos apostolados, estranhas unções e atividades exóticas afins. É preciso “colar” nos outros a pecha de “religiosos” para desviar a atenção da sua própria religiosidade pagã.


Chegamos, portanto, a uma nova fase, uma espécie de inquisição moderna. Se o irmão ou a irmã se preocupam em estudar a Palavra, para conferir nela se os seus líderes estão realmente pregando a Verdade, logo eles são chamados de “religiosos” e devem ser combatidos e exterminados. 


O mesmo ocorre se eles ousam questionar os seus líderes e se preocupam em manter-se conectados à essência do evangelho, tal como nos foi legado ao longo de 2.000 anos de História da Igreja Cristã, e não se convertem ao novo “evangelho”, finalmente revelado aos líderes iluminados nos últimos 20 anos, os novos gnósticos portadores de uma revelação especial. O inferno não tolera a Sabedoria.


O tristemente curioso nisso tudo é que se esquece facilmente de que Jesus foi um bom religioso. Hoje é chamado de “fariseu” todo aquele que mantém os dois pés atrás em relação a toda e qualquer novidade esdrúxula que se imiscui na Igreja. Paulo se orgulhava de ser um fariseu no melhor sentido da palavra (Atos 26:5), hoje tão depreciada. 


Era aos religiosos que o evangelho era pregado inicialmente (Atos 2:5 e 13:43) nas reuniões festivas e sinagogas, e a palavra “religioso” aqui era usada no melhor sentido, exatamente para designar quem estava interessado em aprender e seguir os ensinamentos do Senhor. 


Para Tiago, “a religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tiago 1:27), mas provavelmente ele seria expulso da Igreja se dissesse uma coisa dessas em pleno século XXI, já que a palavra “religião” foi banida de muitos púlpitos por ser a nova inimiga de plantão. 


Ajudar os órfãos e as viúvas então, nem pensar... a não ser que de repente seja necessário para adoçar (com o intuito de “justificar”) o turbilhão de dinheiro entrando na “obra”, já que não fica bem comprar um avião de 9 milhões de dólares pro “pastor” com o dinheiro que poderia ser melhor usado em caridade.


Entretanto, outro fenômeno esvazia ainda mais o discurso da caça aos “religiosos”. Afinal, quem é que define o que é “religiosidade”? Atacá-la também não é outra forma de religião? O também tristemente curioso é que quem inicia essas campanhas antirreligiosas tem uma série de práticas muito mais religiosas, como o próprio nome “campanha”, que faz tanto sucesso no meio gospel atual, deixando as novenas e os terços católicos no chinelo. O discurso antirreligioso é só mais uma subespécie (degenerada) do discurso religioso. Simples assim.


É certo que, num futuro próximo, a “religiosidade”, tal como é vista por alguns pregadores, deixará de ser a inimiga e novos espantalhos serão erigidos em seu lugar, uma espécie de “vodus evangélicos” que deverão ser alfinetados de todas as maneiras possíveis até que se esgotem e sejam novamente substituídos pelo mais novo vilão do imaginário “gospel”. 


Entretanto, o estrago já estará consumado na vida de muitas pessoas que foram atraídas por essa pregação perniciosa, que, conforme Paulo já dizia (2 Coríntios 11:3) e Davi já ensinava (Salmo 51:17), não consegue se contentar com a simplicidade da devoção sincera de um coração contrito.


Àqueles que foram tachados de “religiosos”, não resta ou alternativa senão manterem-se fiéis à sã doutrina. Como o próprio Jesus deixou bem claro, mais importante do que dar frutos rápidos e aguados, é permanecer (João 15:16). 


No meio de tanta ansiedade gerada pelo consumismo moderno, dentro e fora das igrejas, religiosos de todo o mundo, uni-vos! O melhor a fazer é continuar crendo no que Jesus disse: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mateus 11:29).


É muito mais cristão ser religioso no melhor sentido do termo, do que atacar a religiosidade, mas se locupletar à custa dela.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O lutador ungido

O fenômeno nacional do MMA (Mixed Martial Arts, ainda mais conhecido como vale-tudo) nas igrejas, também tem acontecido nos Estados Unidos, onde se pode encontrar o grupo Anointed Fighter ("Lutador Ungido"), que parece ser um movimento muito mais organizado, com eventos, testemunhos e uma revista especializada, além de uma visão empresarial bem estabelecida, como eles próprios se definem:

Visão: Servir como embaixadores de Cristo para a comunidade de lutadores ao redor do mundo, criando plataformas e recursos que entregam o evangelho em termos relevantes à cultura do combate.

Anointed Fighter (AF) reconhece que o MMA (Mixed Martial Arts) se tornou um fenômeno cultural como o esporte de maior crescimento de audiência no mundo. AF deseja alcançar o mundo do MMA e sua cultura com a mensagem da salvação provendo esperança, encorajamento e verdade de uma maneira relevante enquanto quebra conceitos equivocados sobre o que significa ser um discípulo de Cristo.

AF vislumbra um tempo em que todos os entusiastas do MMA ao redor do mundo serão impactados por seu ministério através de merchandise licenciado, publicações impressas, produções multimidia e eventos relâmpago que levarão a programas de discipulado de longo prazo e autossustentáveis.

AF aspira a atingir essas metas mediante a colaboração com os maiores lutadores cristãos e as melhores organizações da comunidade MMA. Esses lutadores e organizações irão trabalhar ombro a ombro com AF para formular e proporcionar os melhores produtos e serviços nas suas respectivas áreas.

Não vai tardar muito para esta organização chegar ao Brasil, se é que já não chegou. Mesmo que eu não entenda bem como violência e evangelho possam ser apresentados conjuntamente, a não ser pela semelhança do sangue, admito que eles têm todo o direito de pregar o que creem. Vejo neles, entretanto, uma aversão à religião institucionalizada, como se pode ver pela imagem abaixo:


Neste ponto, me parece que eles cometem o mesmo equívoco daqueles que dizem que não gostam de teologia, embora criem todo um discurso teológico para combatê-la. Assim, muitos não gostam de religião nem de religiosidade, embora façam de suas práticas uma verdadeira religião antirreligião. Há que se levar em conta, também, o fato de se apresentarem como "lutadores ungidos". Cá entre nós, o que não falta no Brasil, é "unção" de todo tipo, não necessariamente cristã.

Como mostra a imagem abaixo, a oração deles não deixa de ser interessante:


"Cristo, endureça-me contra a luta que vem do meu corpo. O lutador fraco com uma voz patética que clama para que o round acabe em vez de lutar por tempo sem fim na lona.

Eu mesmo, arqui-inimigo da minha alma, meu pior parceiro de treinamento, meu adversário mais mortal, minha voz interior, pedindo "água".

Cristo, conceda-me força interna para executar um contra-ataque poderoso, para superar meus maiores medos e estrangulá-los pela eternidade, porque eu sei que, quando estou fraco, Tu és forte. Então, quando minha alma é levantada, é o teu nome que é louvado".

A argentinização da política



Artigo de Fabio Giambiagi no jornal Valor Econômico de hoje:

A "ARGENTINIZAÇÃO" DA POLÍTICA

Publiquei este artigo na Argentina, em 2009. No final explico a tradução. Fiz adaptações, para adequar o texto ao espaço. "Sou brasileiro, filho de argentinos que por razões profissionais passaram dois anos fora do país no começo dos anos 60 e por razões políticas tiveram que sair da Argentina em meados dos 70. Da mesma forma que o argentino Borges se confessava 'um europeu nascido no estrangeiro', durante parte da minha vida me senti 'um argentino nascido no Rio'. As reflexões que farei a seguir são pessoais, mas refletem o estado de espírito de vários amigos que viveram circunstâncias similares, com a diferença de que todos eles tinham nascido na Argentina. Não por acaso, tendo tido todos nós, depois de 1983, a oportunidade de retornar a Buenos Aires (pela qual cada um de nós conservou a sua paixão), optamos em todos os casos por continuar morando no Brasil.

Tendo chegado aqui em 1976, fugindo da Argentina daquela época, algo que me chamava a atenção era que conflitos menores como, por exemplo, batidas de carro, que na Argentina gerariam uma briga de socos e pontapés, no Brasil não raras vezes acabavam em um bar para tomar um chope. Criado na tradição italiana das grandes polêmicas, tendo passado minha adolescência na vertigem dos anos 70 com o país novamente fraturado pela divisão inexorável da sociedade entre peronistas e antiperonistas, aprendi por meio desses pequenos gestos que, como alguma vez disse Fernando Pessoa, ao invés de uma verdade poderia haver duas.

Com a impetuosidade da juventude, esse aprendizado não foi imediato. A transição para a vida adulta coincidiu no meu caso com a transição do Brasil rumo à democracia, na qual brilhou a figura de Tancredo Neves. Em 1984, na campanha das 'Diretas já', supunha-se que, se houvesse eleições, seriam vencidas por Ulysses Guimarães. Com a derrota da emenda das diretas, a saída encontrada foi a de 'vencer o regime com suas próprias armas', no Colégio Eleitoral, com um candidato que pudesse ser votado por parte da bancada governista, o que levou à eleição de Tancredo e, depois, à posse de Sarney.

Com a impaciência dos 22 anos e participando das passeatas com o entusiasmo de quem sentia estar no meio de uma revolução, vivi aquele desfecho como uma traição e via Tancredo com grande desconfiança, como se ele tivesse traído o povo para se juntar aos inimigos. Os anos me levaram depois à reflexão de que, na verdade, aquilo tinha sido uma excepcional lição de sabedoria política de todos os atores: de Tancredo, grande mestre da transição, respeitado por todos os partidos e capaz de dialogar com diferentes grupos; de Ulysses, que abdicou de suas legítimas pretensões e, ao invés de fazer arder o país numa campanha de destino incerto, soube dar um passo ao lado ao entender que o momento histórico requeria ceder a liderança a outra pessoa - algo muito difícil para um político - com menos resistências do regime que estava acabando; e dos próprios militares, que reconheceram que seu ciclo tinha que chegar ao fim e estavam dispostos a sair de cena, mas não queriam fazê-lo como derrotados.

O que a geração de argentinos que vieram ao Brasil nos anos 70 foi notando com o passo das décadas é que as histórias diversas de nossos países - e falo como brasileiro - eram também o reflexo da diferença entre a atitude das pessoas de um lado e de outro da fronteira. Isso ficava claro quando íamos de férias à Argentina e saíamos para conversar com os amigos. Eram sempre discussões muito diferentes em relação às que estávamos acostumados a ter aqui, em função das simpatias que cada um de nós ia desenvolvendo com os grupos políticos locais. Enquanto que no Brasil era natural aceitar as divergências e elas quase nunca comprometiam as amizades, ir à Argentina - já como visitantes - era submergir em um turbilhão de insultos e ressentimentos: os 'outros' não eram pessoas que apenas tinham opiniões diferentes, mas 'vendidos', 'traidores' ou coisas piores. Em outras palavras, inimigos que deviam ser destruídos. Com o tempo, o sentimento comum a todo esse grupo de amigos foi o cansaço ante essa forma, em última instância, de viver. Descobrimos que tínhamos optado pelo Brasil, não por gostar mais de tomar um chope que um café em uma confitería portenha; não por preferir o samba ao tango; mas sim por ter aprendido a conviver com a diferença e a apreciar a tolerância, ao invés de fomentar a cultura do ódio e do desprezo.

Os sinais do crescimento desse traço cultural são visíveis na Argentina, lembrando as disputas enlouquecidas ocorridas há mais de 30 anos. O 'ovo da serpente' está na virada da esquina. O fato de ser brasileiro e de trabalhar em um órgão oficial me inibe de manifestar minha opinião franca sobre a responsabilidade das autoridades para que se tenha chegado à situação de tensão atual. Com a vantagem de conhecer a idiossincrasia e a história de ambos países, há algo, porém, que posso afirmar: a Argentina precisa, desesperadamente, de um Tancredo, que seja capaz de conversar com todos".

Deixo a tradução de lado. A experiência de ter vivido em quatro países diferentes ao longo da vida me ensinou a analisar os fatos com olhos de quem vê um país de fora. E sou obrigado a constatar com pesar que a política brasileira se parece, em certo sentido, cada vez, mais com a argentina. Basta frequentar os insultos que circulam no mundo da web para constatar as dificuldades de diálogo. As pontes são cada vez mais escassas. O discurso do antagonismo de "nós x eles" - perigosamente estimulado desde os palanques, numa campanha absurdamente antecipada - e a noção de que o rival é um inimigo tornam rarefeito o clima político. Governo e oposição conversavam mais no Brasil nos anos 70, na época dos militares, nas pessoas de Petrônio Portella e de Ulysses, do que hoje, apesar de o PT e o PSDB terem nascido da mesma costela do MDB paulista. Comparando o Brasil de 2010 com o daqueles anos, a conclusão é que nossos políticos enriqueceram - mas a política se empobreceu.

A arte da renúncia


“Jesus dizia a todos: 
Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, 
tome diariamente a sua cruz e siga-me. 
Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; 
mas quem perder a sua vida por minha causa, 
este a salvará. 
Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, 
e perder-se ou destruir a si mesmo?”
(Lucas 9:23-25)

Aprende a arte de renunciar. É na renúncia das vontades e escolhas pessoais que Te aperfeiçôo. Ninguém pode ser Meu discípulo se não aprender tal ensinamento. Renunciei aos céus. Renunciei à glória. Aprendi os caminhos da humilhação, desconforto, e incompreensão. Pude então, compreender melhor o comportamento dos homens. Estou formando em ti um caráter semelhante ao Meu. Para que isso aconteça, é necessário trilhares os meus caminhos. Quero que estejas preparado para a obra que deverás realizar. Este processo, aparentemente indesejável, te dará a têmpera ideal para o combate. Lembra-te, a alma humana é aperfeiçoada na adversidade e no rugir dos acontecimentos. As tensões deste processo te aproximam de minha graça. Por esta razão, tenho enviado provas sobre ti a fim de que aprendas o caminho da vida. Não fujas de tal processo espiritual, pois, se tentares amenizar o calor da fornalha, não alcançarás a tão desejada pureza. Quando te sentires incapaz, exercita tua fé. Ela te foi dada exatamente para isto. Quero que desfrutes das aventuras do universo da fé. O mundo lá fora não pode adentrar ao palco sagrado dos grandes acontecimentos sobrenaturais. É um privilégio de Meus filhos a realização de obras impossíveis para a mente humana. Por esta razão te admoesto: “Aprende a arte de renunciar”. Assim, Me permitirás agir em tua vida.


(Paulo Solonca, em “Raios de Esperança”)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O ateu do coral

Brian Eno é um produtor musical inglês de 61 anos que pouca gente conhece pelo nome, mas certamente já ouviu sons e grupos produzidos por ele, como o Talking Heads, o U2 e o Coldplay, entre outros. Só a experiência sonora variada das três bandas citadas mostra do que ele é capaz. A Folha de S. Paulo de hoje traz uma longa matéria sobre Brian Eno, que se declara ateu, mas faz comentários interessantes sobre sua origem católica e sobre o fato de cantar até hoje num coral de música gospel (a verdadeira música gospel americana, não a cacofonia da moda no Brasil). Destaco esses trechos:

Catolicismo

Se você cresce com uma religião forte como o catolicismo, certamente cultiva certo apego pela intensidade das ideias, quer a favor, quer contra elas.

Você jamais se esquece do processo mental por que passou. Isso se torna parte de seu quadro intelectual mais amplo.


Música na igreja

Se você refletir sobre a metade final dos anos 1950, quando tudo isso começou a acontecer para mim, a experiência de ouvir sons era muito diferente da atual. O estéreo não existia.

Se você ouvia música fora da igreja, exceto música ao vivo, o que era muito raro, os alto-falantes eram minúsculos. A experiência era agradável, mas muito pequena.

Assim, ir à igreja, um espaço especialmente projetado, repleto de ecos, encontrar um órgão, o órgão que meu avô construiu para a igreja que frequentávamos, e subitamente ouvir a música e o canto... Isso era uma experiência maravilhosa.

Era como ouvir o disco de alguém em um radinho de pilha e depois assistir a um show da mesma pessoa em um estádio de 60 mil lugares. Imenso, em termos comparativos.

Isso teve forte relação com meus sentimentos sobre som e espaço, um tema que se tornou muito importante para mim.

Como o espaço influencia o som, qual é a diferença entre ouvir alguma coisa nesta sala e depois na outra sala? Seria possível imaginar outras salas em que se pode ouvir música?

Isso também afetou a maneira como me sentia com relação à música como experiência comunitária, no sentido de que a música de que mais gosto, o canto em igreja, era realizada não por profissionais, mas sim por pessoas sem treinamento, apenas um grupo de pessoas comuns que eu via trabalhando durante o resto da semana na padaria ou entregando carvão.

Gospel

Faço parte de um coral gospel. Sabem que sou ateu, mas são muito tolerantes. Em última análise, a mensagem da música gospel é a de que tudo vai ficar bem.

Se você ouvir milhões de discos gospel -eu ouvi- e tentar destilar o que existe de comum a todos eles, é essa sensação de que podemos triunfar de alguma maneira.

Também envolve a perda do ego, dizendo que se pode vencer ou superar as coisas abrindo mão do individualismo e se tornar parte de algo melhor.

Ambas as mensagens são completamente universais e pouco se relacionam à religião ou a uma dada religião. Relacionam-se a atitudes humanas básicas, e você pode ter essa atitude, e portanto cantar gospel, mesmo que não seja religioso.

Chama a atenção, portanto, que alguém que se diz ateu tenha uma experiência tão forte – e aparentemente positiva – da vida na igreja, a ponto de chegar aos 61 anos de idade cantando num coral gospel. Digno de destaque, também, é o fato do coral gospel aceitar alguém ateu no seu grupo, mesmo que seja alguém famoso como o Brian Eno. Pelo menos bom gosto musical ele tem...

É tênue mesmo a linha que separa a crença da descrença, e isto vale para ambos os lados. Da mesma maneira que é possível um ateu cantar num coral gospel, não deixa de ser preocupante pensar que alguém que se diz cristão esteja cantando exaltações a Deus, mas no fundo nEle não crê. Temo que isto seja muito mais comum do que nossa santa ingenuidade possa imaginar.

Jesus, propriedade exclusiva

O mundo é engraçado. 

A gente vai tocando a vida no meio de rotinas, alegrias, problemas, e ao mesmo tempo vamos sendo bombardeados por slogans e mensagens que os outros tentam nos passar, vindos de todos os lugares, como os adesivos dos carros que vemos todos os dias. 

Aí a gente pára um pouco e somos levados a refletir sobre o que eles dizem, e pára menos ainda para deglutir o que eles querem dizer. 

Um desses adesivos que estão se tornando corriqueiros é aquele que sinaliza um automóvel como “propriedade exclusiva de Jesus” ou que está “a serviço do Senhor Jesus”, o que me leva a pensar que este deveria ser o ideal de vida de todo cristão, servir única e exclusivamente a seu Mestre Jesus, mas que parece ser tão fora da realidade de cada um de nós, por mais dedicados e consagrados que sejamos ou pretendamos ser. 

Existe também a versão, digamos, “mercadológica gospel” desses adesivos, já que é comum vê-los em veículos de empresas, como se Jesus fosse o seu verdadeiro proprietário ou maior acionista. 

Por mais belo que seja o ideal de se consagrar tudo o que somos e temos a Deus, estamos muito distantes de atingir a perfeição nesta vida, e transmitir uma mensagem como essa pode parecer uma espécie de arrogância ou demagogia, sem que o “portador” do adesivo se dê conta de que é esta a ideia que está passando. 

Pode ter a melhor das intenções, mas corre o risco do seu testemunho pessoal (ou a lisura de seus negócios) ser uma gritante negação do que seu adesivo prega. 

Afinal, o cristão nunca deve desprezar o risco da hipocrisia, que está sempre pronta a contaminar (e invalidar) o seu discurso. 

A mensagem, portanto, pode ser desviada para a questão de se saber quem pertence a quem. Jesus tem a propriedade exclusiva do cristão e de tudo que lhe pertence? 

Ou, por outro lado, é o cristão que tem a propriedade exclusiva de Jesus? 

É o cristão que está a serviço do Senhor Jesus, ou o Senhor Jesus que está a serviço do cristão? 

É claro que a imensa maioria das pessoas que veem esses adesivos simplesmente não os enxerga, no sentido de que é uma informação descartada instantaneamente. 

Poucos a processam, e menos ainda analisam a fundo o que ela quer dizer, daí ser impossível precisar se alguém tem a vida transformada por um desses adesivos. 

A “bola” volta, portanto, para quem a jogou: o transmissor da mensagem realmente está “a serviço do Senhor Jesus”? 

Tudo o que ele é e tem pertence 100% a Jesus? 

São essas as questões que precisam ser respondidas, sob o risco de se estar passando, no fundo, a mensagem contrária: a de que o Senhor Jesus pertence ao imaginário vaidoso e delirante de quem diz segui-lO.


sábado, 6 de fevereiro de 2010

Periscópios do tempo

Para todos aqueles que, como eu, se interessam por saber como o interior do Brasil foi desbravado, em especial o Estado de São Paulo, a Biblioteca Nacional disponibilizou a versão digital da obra "Exploração dos Rios Itapetininga e Paranapanema", de Theodoro Sampaio, publicado pela Imprensa Nacional do Rio de Janeiro em 1889 (clique aqui para acessá-la). Em 1886, o interior do Estado de São Paulo era um imenso sertão pouco povoado, com pequenos centros urbanos espalhados até Botucatu, e alguns vilarejos isolados no meio das matas e das populações indígenas (principalmente os chavantes, caiuás e kaingangs). Foi neste ano que Theodoro Sampaio iniciou sua expedição na nascente e confluência dos rios Itapetininga e Paranapanema até a foz deste último no Rio Paraná, numa época em que não havia praticamente nenhum recurso ou socorro à disposição, mas em compensação o rio Paranapanema ainda tinha vários saltos, cachoeiras, pedras e correnteza, que foram desaparecendo com a construção das usinas hidrelétricas a partir da segunda metade do séc. XX. Sampaio registra, inclusive, a presença das ruínas da redução jesuítica de Santo Inácio, agora parcialmente submersas, na região do que hoje chamamos de Pontal do Paranapanema, antigo baluarte da ocupação colonial espanhola no Paraná, destruída pelos bandeirantes capitaneados por Raposo Tavares e Manuel Preto no início do século XVII.

Num tempo em que as enchentes e alagamentos são rotineiros, não podemos afogar a memória e nos iludirmos pensando que a urbanização do Brasil é um fato antigo, quando geralmente faz menos de 100 anos que muitas cidades existem, e, para tanto, faz-se necessário rever registros históricos de tempos e lugares não tão distantes assim, mas que não existem mais.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Examinando nosso arrependimento

por Thomas Watson - via Editora Fiel:

Nascido em 1620, Thomas Watson estudou em Cambridge (Inglaterra). Em 1646, iniciou um pastorado de dezesseis anos em Londres. Entre suas principais obras, estão o seu famoso Body of Pratical Divinity (Compêndio de Teologia Prática), publicado postumamente em 1692.

Se alguém diz que se arrependeu, desejo que examine-se a si mesmo, seriamente, por meio dos sete... efeitos do arrependimento delineados pelo apóstolo em 2 Coríntios 7.11.

1. Cuidado. A palavra grega significa uma diligência intensa ou um esquivar-se atento de todas as tentações ao pecado. O homem verdadeiramente arrependido foge do pecado como Moisés fugiu da serpente.

2. Defesa. A palavra grega é apologia. O sentido é este: embora tenhamos muito cuidado, podemos cair no pecado devido à força da tentação. Ora, nesse caso, o crente arrependido não deixa o pecado supurar em sua alma; antes, julga a si mesmo por causa de seu pecado. Derrama lágrimas perante o Senhor. Clama por misericórdia em nome de Cristo e não O deixa, enquanto não obtém o seu perdão. Assim, em sua consciência, ele é defendido da culpa e se torna capaz de criar uma apologia para si mesmo contra Satanás.

3. Indignação. Aquele que se arrepende levanta o seu espírito contra o pecado, assim como o sangue de alguém sobe quando ele vê um indivíduo a quem odeia mortalmente. A indignação significa ficar importunado no coração por causa do pecado. O penitente sente-se inquieto consigo mesmo. Davi chamou a si mesmo de “ignorante” e “irracional” (Sl 73.22). Agradamos mais a Deus quando arrazoamos com nossa alma por conta do pecado.

4. Temor. Um coração sensível é sempre um coração que teme. O penitente sentiu a amargura do pecado. Este vespa o ferrou, e agora, tendo esperança de que Deus está reconciliado, ele teme se aproximar novamente do pecado. A alma penitente está cheia de temor. Tem medo de perder o favor de Deus, que é melhor do que a vida, e receia que, por falta de diligência, fique aquém da salvação. A alma penitente teme que, depois de amolecido o seu coração, as águas do arrependimento sejam congeladas, e ela seja endurecida no pecado novamente. “Feliz o homem constante no temor de Deus” (Pv 28.14)... Uma pessoa que se arrependeu teme e não peca; uma pessoa que não tem a graça de Deus peca e não teme.

5. Desejo intenso. Assim como o bom tempero estimula o apetite, assim também as ervas amargas do arrependimento estimulam o desejo. O que o penitente deseja? Ele deseja mais poder contra o pecado, bem como ser livre deste. É verdade que ele está livre de Satanás; mas anda como um prisioneiro que escapou da prisão com algemas nas pernas. Ele não pode andar com liberdade e destreza nos caminhos de Deus. Deseja, portanto, que as algemas do pecado sejam removidas. Ele quer ser livre da corrupção. Clama nas mesmas palavras de Paulo: “Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Em resumo, ele deseja estar com Cristo, assim como tudo deseja estar em seu devido lugar.

6. Zelo. Desejo e zelo são colocados lado a lado a fim de mostrar que o verdadeiro desejo se manifesta em esforço zeloso. Oh! como o crente arrependido se estimula nas coisas pertinentes à salvação! Como se empenha para tomar por esforço o reino de Deus (Mt 11.12)! O zelo incita a busca pela glória. Ao se deparar com dificuldades, o zelo é encorajado pela oposição e sobrepuja o perigo. O zelo faz o crente arrependido persistir na tristeza santa mesmo diante de todos os desencorajamentos e oposições. O zelo desprende o crente de si mesmo e leva-o a buscar a glória de Deus. Paulo, antes de sua conversão, era enfurecido contra os santos (At 26.11). Depois da conversão, ele foi considerado louco por amor a Cristo: “As muitas letras te fazem delirar!” (At 26.24). Paulo tinha zelo e não delírio. O zelo causa fervor na vida espiritual, que é como fogo para o sacrifício (Rm 12.11). O zelo é um estímulo para o dever, assim como o temor é um freio para o pecado.

7. Vindita. Um crente verdadeiramente arrependido persegue os seus pecados com uma malignidade santa. Busca a morte dos pecados como Sansão queria vingar-se dos filisteus pelos seus dois olhos. O crente arrependido age com seus pecados da mesma maneira como os judeus agiram com Cristo. Ele lhes dá fel e vinagre para beberem. Crucifica as suas concupiscências (Gl 5.24). Um verdadeiro filho de Deus busca a ruína daqueles pecados que mais desonram a Deus... Com o pecado, Davi contaminou o seu leito; depois, pelo arrependimento, ele inundou seu leito com lágrimas. Os israelitas pecaram pela idolatria e, posteriormente, viram como desgraça os seus ídolos: “E terás por contaminados a prata que recobre as imagens esculpidas e o ouro que reveste as tuas imagens de fundição” (Is 30.22)... As mulheres israelitas que haviam se vestido à moda da época e, por orgulho, tinham abusado do uso de seus espelhos ofereceram-nos depois, tanto por zelo como por vingança, para o serviço do tabernáculo de Deus (Êx 38.8). Com o mesmo sentimento, os mágicos... quando se arrependeram, trouxeram seus livros e, por vindita, queimaram-nos (At 19.19).

Estes são os benditos frutos e resultados do arrependimento. Se os acharmos em nossa alma, chegamos àquele arrependimento do qual nos arrependeremos (2 Co 7.10).

Extraído de The Doctrine of Repetance, reimpresso por The Banner of Truth Trust.

Traduzido por: Wellington Ferreira

Copyright© Editora FIEL 2009.

O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Pais "seguidores de Cristo" condenados por morte de filho não socorrido

Depois de ter lido no blog Cristão Confuso a notícia de que um médico e os pais, todos testemunhas de Jeová, serão levados a júri popular no Brasil pela morte de uma jovem que não fez transfusão de sangue, leio no Estadão de hoje uma notícia parecida, ocorrida nos Estados Unidos, em que os pais membros de uma igreja "Seguidores de Cristo" não deram tratamento médico a seu filho adolescente que tinha as vias urinárias obstruídas, o que o levou à morte, tudo com o pretexto de que sua "fé" o curaria, o que me lembra Jesus dizendo: "Contudo quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?" (Lucas 18:8)...




Casal é condenado nos EUA por não tratar filho

Um casal da cidade de Oregon, nos Estados Unidos, foi condenado por homicídio culposo após deixar o filho de 16 anos morrer sem que eles tivessem procurado ajuda médica. Jeff e Marci Beagley são membros da Igreja dos Seguidores de Cristo, que prega a cura pela fé e rejeita cuidados médicos.

Eles devem receber a sentença no próximo dia 18. Como não têm antecedentes criminais, a pena dos dois pode variar de 16 a 18 meses de prisão. Os promotores afirmaram que eles tinham o dever, como pais, de proporcionar cuidados médicos ao filho Neil, que morreu em junho de 2008 de complicações decorrentes de obstrução das vias urinárias. A defesa argumentou que os sintomas do jovem se pareciam mais com os de uma gripe. O casal e membros da igreja presentes na audiência não quiseram fazer comentários.

Wayne Mackeson, advogado de Beagley, estuda a possibilidade de recorrer. "Não se trata de um referendo sobre a igreja. Esse caso envolve pais que não compreenderam a gravidade da doença do filho." Autoridades estaduais verificaram que algumas crianças cujas famílias pertencem aos Seguidores de Cristo acabaram morrendo, levando à aprovação de uma lei em 1999 que limita a alegação de cura pela fé como defesa em casos de homicídio culposo.

Mais vale-tudo na igreja

Parece que a febre das lutas marciais como "estratégia" evangelística, sob o curioso pretexto de "injetar masculinidade em seus ministérios", não é "só" mais um fenômeno nacional, conforme informa o BOL Notícias:

Igrejas promovem vale-tudo para conectar-se com os jovens

R.M. Schneiderman
Em Memphis (EUA)
Deborah Weinberg

Em uma sala de ensaio do teatro da rua Beale, o pastor John Renken, 42, recentemente puxou uma oração com um grupo de jovens: “Agradecemos por esta noite. Que seja uma representação do Senhor”.

Uma hora depois, um membro de seu rebanho que havia baixado a cabeça em sinal de respeito estava dando uma chuva de socos em um oponente. As orientações de Renken não eram exatamente delicadas.

“Golpeie com força!”, gritava ao lado de um ringue de um evento de artes marciais chamado Gaiola de Ataques. “Termine a luta! Vai na cabeça! Na cabeça!”

O jovem era membro de uma equipe de luta do Ministério Extremo, uma pequena igreja próxima a Nashville que serve também de academia de artes marciais. Renken, que fundou a igreja e a academia também é técnico da equipe. O lema da escola é “Onde os pés, os pulsos e a fé colidem”.

O ministério de Renken faz parte de uma parcela pequena mas crescente de igrejas evangélicas que adotam o vale-tudo -um esporte com fama de violência e sangue que combina vários estilos de luta- para alcançar e converter jovens, cujas participação na igreja tem sido persistentemente baixa. Os eventos de vale tudo atraíram milhões de telespectadores; um deles foi o maior evento pay-per-view de 2009.

O recrutamento nessas igrejas, predominantemente brancas, envolve reuniões para assistir lutas na televisão e palestras que usam os combates para explicar como Cristo lutou pelo que acreditava. Outros ministros vão mais longe, sediando ou participando de eventos ao vivo.

O objetivo, segundo esses pastores, é injetar masculinidade em seus ministérios -e na imagem de Jesus- na esperança de tornar o cristianismo mais atraente. “Amor e compaixão, concordamos com essas coisas também. Mas o que me fez encontrar Cristo foi que Jesus era um lutador”, disse Brandon Beals, 37, pastor da igreja Canyon Creek no subúrbio de Seattle.

O esforço faz parte de um programa mais amplo e mais antigo de alguns ministros que temem que suas igrejas tornaram-se femininas demais, promovendo a gentileza e a compaixão à custa da força e da responsabilidade.

“O homem deve ser o líder do lar. Criamos uma geração de menininhos”, disse Ryan Dobson, 39, pastor e fã do vale tudo que é filho de James C. Dobson, fundador do grupo evangélico proeminente “Foco na Família”.

Esses pastores dizem que o casamento da fé com o combate tem a intenção de promover os valores cristãos, citando versos como “trave a boa luta da fé”, Timóteo 6:12.

Muitos estimam que o número de igrejas que estão adotando as artes marciais está em torno de 700, de um total de 115.000 igrejas evangélicas brancas nos EUA. O esporte é considerado uma ferramenta legítima para alcançar os jovens pela Associação Nacional de Evangélicos, que representa mais de 45.000 igrejas.

“Existem muitos jovens perturbados que cresceram sem pais e estão vagando sem esperança. Eles próprios também são péssimos pais, perdidos”, disse Paul Robie, 54, pastor da igreja comunitária de South Main em Dhackerer, Utah.

A luta como metáfora faz sentido para alguns jovens.

“Estou lutando para fornecer uma qualidade de vida melhor para minha família e dar-lhe coisas que eu não tive quando era pequeno”, disse Mike Thompson, 32, ex-membro de gangue e estudante de Renken que até recentemente era desempregado e hoje luta com o apelido de “A Fúria”.

“Quando aceitei Cristo em minha vida, compreendi que uma pessoa pode lutar pelo bem”, disse Thompson.

Igrejas evangélicas sem denominação têm uma longa história de usar a cultura popular -rock, skate e até ioga- para atingir novos seguidores. Ainda assim, mesmo entre as seitas mais experimentais, o vale tudo têm críticos.

“Aquilo que você usa para atrair as pessoas para Cristo também será aquilo que você vai precisar para manter as pessoas”, disse Eugene Cho, 39, pastor da igreja Quest, uma congregação evangélica em Seattle. “Eu não vivo pelo Jesus que come carne vermelha, bebe cerveja e bate em outros homens.”

Robert Brady, 49, vice-presidente executivo de um grupo evangélico conservador concordou, dizendo que a mistura do vale tudo com o evangelismo “tira tão facilmente o verdadeiro foco da igreja que é o gospel”.

Há quase uma década, o vale tudo era considerado um esporte sangrento, sem regras ou regulamentos. Foi proibido em quase todos os Estados e criticado por políticos como o senador republicano do Arizona John McCain.

Nos últimos cinco anos, contudo, graças a um inteligente marketing do Ultimate Fighting Championship, a principal marca do esporte, o vale tudo se tornou comum. Hoje, é legal e regulamentado em 42 estados.

Seus defensores apontam para um estudo da Universidade Johns Hopkins mostrando que os participantes das lutas sofrem menos nocautes do que os lutadores de boxe.

No último ano e meio, uma sub-cultura evoluiu, com os cristãos das artes marciais vestindo marcas como “Jesus didn’t tap” e redes sociais cristãs como a anointedfighter.com.

Cerca de 100 homens, muitos tatuados e de cabeça raspada, participam das festas de lutas em Canyon Creek, assistindo combates em quatro grandes televisões da igreja. Há vendedores de cachorro-quente e de camisetas com a frase “Predestinado a Lutar”.

Metade dos que estão ali não são membros da igreja, mas vieram por meio de amigos, disse Beals, conhecido como o pastor da luta.

Os homens de 18 a 34 anos estão ausentes das igrejas, disseram os pastores, porque as igrejas se tornaram mais cômodas para mulheres e crianças.

“Crescemos em igreja de tons pastéis. Os homens caíam no sono”, disse Tom Skiles, 37, pastor da igreja Spirit of St. Louis em Montana.

Ao se focar na dureza de Cristo, os líderes evangélicos estão voltando a um movimento similar do início do século passado, dizem os historiadores, quando as mulheres começaram a entrar para força de trabalho. Os proponentes desse cristianismo muscular defendiam o levantamento de peso e outros esportes como forma de expressarem sua masculinidade.

“Toda essa geração foi criada com a idéia que estão em uma guerra pelo coração e alma dos EUA”, disse Stephen Prothero, professor de religião da diversidade Boston.

Paul Burress, capelão e técnico de luta da igreja Batista Victory, em Rochester, disse que o vale tudo dera a seus alunos uma chance de trabalhar de corpo, alma e espírito. “Ganhando ou perdendo, representamos Jesus”, disse ele. “E vencemos na maior parte das vezes.”

Contudo, na noite fria de Memphis, Renken, o pastor dos Ministérios Extremos, assistiu a dois de seus três lutadores apanhando, um quebrando o tornozelo.

O outro, Jesse Johnson, 20, potencial convertido, foi dominado pelo pescoço e decidiu não voltar para casa com os outros membros da igreja. Ele ficou em Memphis bebendo e estejando com amigos ao longo da rua Beale, ponto agitado e cheio de neons da cidade.

Veja também: O lutador ungido

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Os apócrifos da Bíblia

Há alguns dias, estive discutindo com um católico sobre como alguns livros do Velho Testamento obtiveram o status de livros canônicos para os católicos. Esta é sempre uma discussão que rende muita conversa, e geralmente envolve muita pesquisa na história. No entanto, a pesquisa vale a pena, e podemos perceber os livros que os protestantes sempre consideraram canônicos também sempre foram aceitos por toda igreja como tal, enquanto que os chamados deuterocanônicos não foram assim reconhecidos.

Tudo isto devemos ao estudioso dos idiomas originais e tradutor da Vulgata latina, Jerônimo. Até o tempo em que Jerônimo elaborou sua tradução, a igreja latina dispunha de uma tradução feita a partir da Septuaginta, conhecida hoje como Vetus Latina. A Septuaginta naquela época era composta pelos livros canônicos mais alguns outros livros, entre eles os deuterocanônicos católicos. O escritor Cassiodoro faz uma lista dos livros que compunham esta tradução grega na época:

Capítulo 14. A divisão da Escritura de acordo com a antiga tradução e de acordo com a Septuaginta. A Santa Escritura de acordo com a antiga tradução é dividida em dois Testamentos, que são o Velho e o Novo: em Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio; Josué; Juízes; Ruth; quatro livros dos Reis; dois livros de Crônicas; o Saltério; cinco livros de Salomão, que são Provérbios, Sabedoria, Eclesiástico, Eclesiastes, e Cantares, os Profetas, que são Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oseias, Amós, Miqueias, Joel, Obadias, Jonas, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, que era também um anjo, Jó, Tobias, Ester, Judite, dois livros de Esdras, dois livros de Macabeus. Após esses, se seguem os quatro Evangelistas, que são Mateus, Marcos, Lucas e João, os Atos dos Apóstolos, as Cartas de Pedro aos gentios, de Judas, de Tiago às doze tribos, de João aos Partas, as cartas de Paulo, uma aos Romanos, duas aos Corítnios, uma aos Gálatas, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, uma aos Hebreus, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filemon, o Apocalipse de João.

Fonte: Cassiodoro, De Institutione Divinarum Litterarum.


Assim, muitos dos antigos cristãos do ocidente estavam acostumados com estes livros, embora em algumas listas feitas por eles, dizia-se claramente que estes livros (os apócrifos) eram úteis apenas na edificação pessoal e não como base para formulação doutrinária. Jerônimo, conhecendo os idiomas originais, apontou que os livros apócrifos não eram de origem hebraica, mas grega. Para ele, as palavras de Deus lhes foram confiadas (Romanos 3:2). Assim, ele descartou todos os livros que não tinham origem hebraica como apócrifos, comentando em seu prefácio ao livro dos Reis:

Este prefácio às Escrituras podem servir como uma introdução "de capacete" a todos os livros que nós transformamos do Hebraico para o Latim, de forma que nós tenhamos a garantia de que o que não for encontrado em nossa lista deve ser colocado entre os escritos apócrifos. Sabedoria, então, que geralmente carrega o nome de Salomão, e o livro de Jesus, o filho de Siraque, e Judite, e Tobias e o Pastor não estão no cânon.

Fonte: http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf206.vii.iii.iv.html


À medida que sua tradução foi ficando popular, mais e mais os cristãos atestavam que estes livros eram apenas bons como leitura espiritual, mas não como base de doutrinas. Esta situação foi diferente apenas com relação a Agostinho, que cria piamente na inspiração da Septuaginta, embora ele mesmo tenha dito em outra parte que os livros apócrifos não poderiam ser considerados como base para doutrinas. Mesmo assim, nos concílios africanos que certamente tiveram sua influência, estes livros foram considerados canônicos.

Já na Idade Média, a tradução de Jerônimo já era bem conhecida e difundida. É nesta época que surge uma série de comentários bíblicos, usando esta tradução, que se tornaria a maior ferramenta de estudos teológicos: a Glossa Ordinaria. Ela reunia comentários de vários escritores cristãos primitivos, e com ela os teólogos antigos aprendiam sobre as Escrituras. Por este motivo, há vários teólogos que, ao elaborar suas listas de livros canônicos, enumeram exatamente os livros que Jerônimo considera canônicos.

É assim que chegamos à Reforma protestante. Lutero, ao negar o status canônico aos livros apócrifos, simplesmente está repetindo aquilo que era ensinado nos círculos acadêmicos. É digno de nota que estes livros são encontrados em sua tradução bíblica para o alemão, em uma seção dedicada aos apócrifos.

Diante disto, também é natural que os teólogos mais proeminentes do Concílio de Trento, demonstraram ser contrários à canonização dos livros apócrifos.

Minha discussão com este estudioso católico foi feita dentro da maior cordialidade, onde nós postamos os vários argumentos de forma respeitosa. Foi uma ótima discussão, e que fornece muitas referências ao assunto. Quem quiser acompanhar o debate mais profundamente, está convidado a acessar o link abaixo:

http://www.e-cristianismo.com.br/pt/atosforum/viewtopic.php?f=12&t=617

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails