domingo, 31 de outubro de 2010

A apologética tucana do "paipóstolo"

No seu twitter ungido, o brilhante exegeta e autointitulado "paipóstolo" Renê Terra Nova continua causando urticárias com sua tentativa neomessiânica de interpretação novidadeira (e confusão) bíblica. O "profeta" manauara só esqueceu de combinar com o deputado federal José Mentor (PT-SP) a mistura explosiva com seu homônimo Serra:



Para nossa felicidade, entretanto, o "paipóstolo" sempre termina se entregando em mais uma tuitada, ainda que inadvertidamente. Para o fenômeno amazônico, "arrependimento" (em grego, metanoia) significa uma volta de 45 graus, e não de 180º, como toda criança sabe desde que não falte às aulas de geometria, o que significa que ainda faltam 135º pra ele se converter. "Virada de 45º" não representa propriamente uma virada, mas errar (feio) o alvo:



E ele deve ser daqueles que chamam o Lula de analfabeto e apedeuta...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Interpretação tucana da Bíblia, por Renê Terra Nova

Mais peripécias exegéticas do autoproclamado (e pseudo-) apóstolo Renê Terra Nova, ensinando a interpretar "serristicamente" a Bíblia, conforme noticia o jornal Valor Econômico, em matéria reproduzida no site do Instituto Humanitas da Unisinos, numa demonstração inequívoca de que esta gente abdicou completamente da teologia para se entregar de corpo e alma à ideologia que lhe for mais conveniente:



Nos cultos, vale até trocar monte por serra

"Explique porque Serra, mas explique também porque não o outro lado (...) 'Ah, pastor, eu não sei como fazer'. Sabe sim, porque sabe tirar dízimos e ofertas".

A frase do apóstolo Renê Terra Nova mostra até que ponto vai seu empenho em conquistar votos para o tucano José Serra.

A reportagem é de Cristian Klein e publicada pelo jornal Valor, 29-10-2010.

Diante de mais de 100 pastores, Terra Nova ensinou como fazer campanha do púlpito, sem ser enquadrado na legislação eleitoral.

"É proibido na hora do culto. Você sabia disso. Pode ser enquadrado em crime eleitoral pelo TRE. Mas você pode fazer o que eu faço na igreja", disse, ao iniciar a reunião estratégica em que deu dicas de como transmitir mensagens subliminares aos fiéis.

Terra Nova explicou que eles poderiam, por exemplo, mencionar uma passagem da Bíblia que remetesse ao número de José Serra. "Eu digo, olha, irmãos, eu vou ler Isaías [capítulo] 45 e eu descobri um versículo que fala sobre serra", orientava.

Sem problema se a passagem em questão não se referir a uma serra propriamente dita.

"Deus diz que gosta que seus filhos estejam num lugar alto e subam a sua serra. O nome lá é monte. Mas eu ponho o nome que eu quero (risos na plateia). A tradução é minha. A hermenêutica é da Bíblia, mas a exegese é minha", disse.

Terra Nova recomendou aos pastores que eles poderiam fazer como ele, que citou num culto a realização de um congresso da Visão Celular na cidade de Serra, no Espírito Santo.

"Eu estou blefando? É mentira que Serra fica no Espírito Santo? E eu digo que, no próximo ano, o congresso será em Serra, e que de Vitória (olha a vitória, olha a vitória, olha a vitória...) para Serra... 45 quilômetros, 45 Serra, 45 Vitória. Eu quero ver o TRE me julgar por isso. Não julga, não", disse.

Serra fica no Espírito Santo. Mas, pelo Google Map, a distância para Vitória é de 28 quilômetros.

Renê Terra Nova ressaltou que os pastores deveriam abusar da internet, mas sem vulgaridade, com informações verdadeiras. Em seguida, porém, apontou como fato mensagem que circulou pela internet segundo a qual Dilma Rousseff não poderia entrar nos Estados Unidos e mais 11 países.

Nos cultos, a recomendação foi de agir com inteligência. Terra Nova contou que não "é confortável" ser chamado pela Polícia Federal, como ocorreu com ele, três vezes este ano, para responder a inquérito por "problema político".

Uma "apostolada" pró-Serra

Peripécias do autoproclamado (e pseudo-) "apóstolo" Renê Terra Nova, noticiadas pelo jornal Valor Econômico e reproduzidas no site do Instituto Humanitas da Unisinos:

Modelo 'Amway' difundiu voto tucano entre evangélicos

A plateia era formada por mais de 100 pastores, convocados em caráter de urgência, por telefone e e-mail, para a reunião estratégica em São Paulo. Representavam várias igrejas evangélicas independentes e vinham de todos os Estados, para ouvir as orientações do denominado "apóstolo", ou mais recentemente "patriarca", Renê Terra Nova.

A reportagem é de Cristian Klein e publicada pelo jornal Valor, 29-10-2010.

"Quem aqui já ganhou uma pessoa pra Jesus? Fala sério. Pelo menos uma. Ora, se a gente conseguiu tirar alguém da mão do diabo, não é possível que a Dilma seja pior do que o diabo (risos). A gente convence".

Difícil encontrar uma ocasião que mais simbolize a mistura de política e religião que tomou conta do segundo turno da eleição presidencial do que a ocorrida na quarta-feira, 21, na Comunidade Cristã El Shaddai, igreja evangélica localizada no bairro Ipiranga, na capital paulista.

A convocação urgente - endereçada em convite eletrônico a pastores batizados de "Generais de Guerra" - é um caso exemplar de como o segmento religioso entrou de corpo e alma na campanha à Presidência que termina domingo.

Campanha que se viu, de repente, enredada em temas tabus como aborto, união civil de homossexuais, descriminalização das drogas e mostrou a força de um grupo de interesse. Dos bispos da Igreja Católica e seus panfletos distribuídos na saída das missas à mobilização dos evangélicos pela internet, os líderes religiosos tiveram o senso de oportunidade de aproveitar o momento.

É o caso de Renê Terra Nova. Apoiador de Marina Silva (PV), ele embarcou de Bíblia e notebook em seu avião - um Falcon 010, comprado no ano passado - para fazer campanha país afora para José Serra (PSDB) no segundo turno. Tomou para si a tarefa de empreender uma grande cruzada pelo tucano, como fizera para a candidata do PV.

Conhecido o resultado das urnas, no domingo, 3, Terra Nova conta que conversou com Marina Silva por telefone e, em seguida, se apresentou às hostes do PSDB. Na primeira semana do primeiro turno, teve uma reunião em Brasília com Mônica Serra, mulher do presidenciável, e com o candidato a vice da chapa, Indio da Costa. Desde então, passou a gastar dinheiro do próprio bolso em viagens com finalidade exclusivamente política. Garante não ter pedido nada em troca: nenhum cargo, verba para projeto de assistência social, ou concessão de rádio ou TV. "Sou um oferecido", diz, numa declaração de desprendimento que não corresponde ao seu comportamento.

Renê Terra Nova tem um estilo personalista. No encontro em São Paulo, os pastores sob sua influência o esperaram por mais de duas horas até que ele chegasse num Toyota CR-Z, ano 2010, cercado por assessores. No local, o estande da Semente de Vida, editora que publica alguns de seus mais de 100 títulos, exibia um grande banner com a foto do líder.

Na reunião política, Renê Terra Nova ensinou diversos truques para driblar a legislação eleitoral e enviar mensagens subliminares de apoio a José Serra durante as pregações nos cultos (leia abaixo). O apóstolo ressaltou muito a importância da internet como uma "ferramenta poderosa" de persuasão fora do púlpito.

"Correio eletrônico, You Tube, Facebook, Twitter, e-mails, MSN, se vire nos 30. Começe a mandar informações", ordenou a seus pastores, depois de se vangloriar de ter 14 mil seguidores no Twitter, mas não seguir ninguém.

Terra Nova abriu a reunião estratégica - que não escapou ao formato de culto, entremeada por orações e cânticos - dizendo que havia apenas 11 dias para fazer algo "grande", ou seja, uma virada de José Serra sobre Dilma Rousseff (PT).

Momentos antes, em entrevista ao Valor, ele reclamava dos institutos de pesquisas. Justamente na véspera, levantamento do Vox Populi apontava que Dilma abrira vantagem de 12 pontos. O pastor lembrava que Marina Silva havia sido vítima dos institutos no primeiro turno e que o mesmo estaria acontecendo com Serra. "É imoral, é estuprar a realidade", vociferava.

O prognóstico poderia provocar um anticlímax no encontro. Mas Renê Terra Nova não fez por menos. Minutos depois, no discurso aos pastores, afirmaria que duas pesquisas, pela manhã, já haviam sido divulgadas e apontavam empate técnico entre Serra e Dilma. Não citou a fonte.

Com o poder da palavra e uma alta dose de marketing, Terra Nova multiplicou fiéis, aumentou seu poder econômico e, agora, afirma, pretende conquistar poder político, a partir do rebanho sob seu controle.

Sua base é Manaus, onde ergueu um templo capaz de abrigar 7.500 pessoas e que custou US$ 17 milhões. É a matriz de sua denominação, o Ministério Internacional da Restauração (MIR), que tem igrejas no Rio, Natal, Porto Velho e Roraima. Ao todo, o MIR congrega pouco mais de 100 mil adeptos.

Seu poder de influência, contudo, não reside aí. Terra Nova cresceu no meio evangélico ao introduzir no Brasil uma nova forma, uma metodologia, de arrebatar fiéis. O modelo tem inspiração clara no mercado. "É marketing de rede", assume.

A estratégia piramidal é muito semelhante à utilizada pela marca Amway, que esteve em voga nos anos 90. Cada pessoa que entra num grupo ou "célula" de 12 discípulos tem a missão de ser um pastor/líder e formar seu próprio grupo de 12. O resultado esperado é um avanço em progressão geométrica. A primeira geração de 12 é seguida por uma segunda, de 144, que forma uma terceira, de 1.728, uma quarta de 20.736, e assim por diante. É o Modelo dos 12, ou M-12, que se inspira no número de apóstolos que seguiram Jesus e que dá origem à chamada Visão Celular, em referência ao grupo de células que se multiplicam.

Renê Terra Nova está no topo da cadeia no Brasil. Ele trouxe o modelo - que surgiu na Coreia, nos anos 50 - depois de importá-lo da Colômbia em 1998. Viajou, à época, acompanhado de outra pastora, Valnice Milhomens, tida como a maior responsável pela difusão da candidatura Marina Silva no eleitorado evangélico. Valnice, porém, preferiu a neutralidade no segundo turno.

Terra Nova diz ter 30 mil pastores sob sua influência, os quais, por sua vez, teriam sob sua cobertura 325 mil líderes de células, abrangendo ao todo 6 milhões de fiéis. É um rebanho gigantesco - próximo da maior igreja protestante no Brasil, a Assembleia de Deus, que fez 19 deputados federais entre os 64 da bancada evangélica eleita no primeiro turno. Em Manaus, porém, Renê Terra Nova não elegeu os dois candidatos a deputado que apoiava, um estadual e outro federal.

Questionado sobre a confiabilidade da estimativa de 6 milhões de fiéis que estariam sob sua influência, ele é evasivo. "Nós também temos nossos institutos de pesquisa...", diz, sem esconder o sorriso de ironia.

Terra Nova é um nome de peso no competitivo mercado religioso. A Visão Celular lhe proporciou expandir seu projeto, ao amealhar fiéis que não precisam abandonar as igrejas as quais costumam frequentar. As reuniões dos grupos de 12 discípulos são realizadas em residências, duram no máximo uma hora e têm como apelo a proximidade entre seus integrantes. Numa igreja grande, com 3 ou 4 mil frequentadores, por exemplo, dificilmente um pastor tem condições de saber ou tempo para confortar alguém, individualmente, caso esteja passando por um grave problema, como a morte de um parente.

A Visão Celular de Renê Terra Nova tenta se aproveitar desse dilema entre quantidade e qualidade. E fornece a uma gama difusa de pastores independentes - que abriram suas próprias igrejas - um corpo de ideias coeso e uma metodologia para expansão. Tal qual uma franquia.

A comparação com empresas não é descabida. Para que a multiplicação das células se dê, os fiéis são incentivados a ser pró-ativos. Por nove meses, frequentam uma "escola de líderes". Em um ano e meio, estão autorizados a empreender e abrir seu próprio grupo. Por experiência, a melhor forma de a célula ir adiante é que seja formada metade por homens e metade por mulheres.

O modelo é uma radicalização da teologia da prosperidade, que move a maioria das denominações evangélicas neopentecostais. Incentiva que o fiel seja ele mesmo um empresário da fé e não só um beneficiário de práticas aprendidas na igreja e voltadas para sua ascensão social.

A ideia de prosperidade está tão entranhada que, em discurso que antecedeu ao de Renê Terra Nova, uma de suas discípulas, Nídia Sá, precisou ressaltar a importância da política não como meio para se ganhar dinheiro, mas por se tratar de uma questão ideológica, para preservar uma sociedade com princípios cristãos. Nídia, ao falar do púlpito, era o símbolo de como a política e religião se casaram nesta eleição. À frente dos mais de 100 pastores, seu notebook trazia um adesivo escrito "Serra 45".

O projeto de poder político é visto como uma consequência inevitável da autonomia econômica. "Queremos governar. Cansamos de ser cauda", diz Renê Terra Nova, ao afirmar que o resultado surpreendente de Marina Silva mostrou a força do segmento evangélico. A onda verde, para ele, foi, essencialmente, uma onda cristã, de apoio à candidata do PV, embora Marina não tenha enfatizado o fato de ser evangélica.

Terra Nova conta que, no início, era muito crítico do mundo da política, mas que chegou à conclusão de que não é possível ficar à margem. Tanto que criou o chamado Governo dos Justos, que admite ser o braço político de sua organização. A intensa participação na campanha de José Serra é um sinal dos novos tempos. Outro é a expansão midiática.

"Decidi agora ir para a TV. Vou dar as caras daqui para frente. Preciso aparecer mais", diz o pastor, em referência a negociações para ter um programa na televisão e à entrevista que concedia, que chamou de "milagre", pois recusara pedidos de vários jornais e revistas nacionais de grande circulação. O que não deixa de ser outra estratégia de marketing.

domingo, 24 de outubro de 2010

O mercado da fé

O jornal Valor Econômico publicou na última sexta-feira, 22/10/10, um longo e aprofundado artigo sobre o crescimento evangélico no Brasil, analisando sua repercussão na atual campanha eleitoral, mas sem se concentrar nela especificamente. A maior parte do artigo pode ser lida no site do Senado Federal, e eu destaco aqui o final, que foi o que mais me interessou por sua análise econômica do fenômeno religioso da migração entre as diferentes denominações, e como o discurso da teologia da prosperidade interfere nesse processo:

Teologia da prosperidade

Por outro lado, as igrejas neopentecostais investem na chamada "teologia da prosperidade", que valoriza o sucesso pessoal e profissional. Voltada majoritariamente para a classe C, essa estratégia foca problemas típicos de uma classe média ascendente: emprego, posse de bens, entretenimento. O crescimento dessas denominações, segundo Jacob, é mais heterogêneo e se apoia fortemente sobre o poder midiático que advém da posse de emissoras de rádio e redes de televisão. A circulação de fiéis entre as diversas denominações é mais forte nessa categoria evangélica.

O fenômeno de migração interna entre as denominações evangélicas leva muitos sociólogos da religião a abordar a religiosidade contemporânea por meio de um vocabulário microeconômico. Segundo essa perspectiva, a preferência religiosa decorre de escolhas racionais e as diferentes igrejas agem estrategicamente como empresas para atrair fiéis e os manter, numa relação típica de consumo. O que uma igreja oferece são bens simbólicos, uma espécie de "produto" que satisfaz necessidades humanas mais profundas do que o bem-estar material. Isto é, dão consolo, sentido para a vida, esperança, conforto, um norte moral.

"Com a República, institui-se a liberdade religiosa, a separação da igreja e do Estado. Considerando o funcionamento das igrejas como empresas, vemos como elas têm a liberdade de divulgar suas doutrinas e disputar fiéis umas com as outras. Ou seja, a liberdade religiosa vira livre concorrência", diz Pierucci. "O Estado não regula mais esse campo. Se regulasse, seria um monopólio, como era antigamente e continua sendo na maior parte das repúblicas islâmicas. Não tendo mais monopólio, a concorrência dá certo. Nenhuma igreja é contra o Estado laico, porque ele lhes dá liberdade de crescer."

A abordagem microeconômica das religiões esclarece o crescimento do chamado "mercado da fé". Fenômenos como música gospel, pastores televisivos e a fragmentação das denominações religiosas (cujo número é incerto, mas estima-se que já passe da centena) figuram como exemplo da necessidade de talhar um produto espiritual para suprir a demanda de fiéis que têm preferências díspares. Não por acaso, as igrejas neopentecostais são as mais preparadas para "competir" nesse mercado e tiveram um crescimento considerável nas últimas décadas. "Ao contrário de muitas outras igrejas, não fazemos propaganda nem divulgação", afirma Luiz Fernandes, que frequenta a Congregação Cristã do Brasil. "Nossos fiéis são sempre trazidos por outros fiéis. A gente nem gosta de sair em fotos."

Embora exista uma ligação entre a expansão das igrejas evangélicas e a ascensão social de grupos que costumavam pertencer às classes menos favorecidas da sociedade brasileira, os pesquisadores negam que haja relação estrita, atualmente, entre um modo de vida econômico e uma escolha religiosa precisa. Embora a ideia tenha sido apontada por Max Weber, ao escrever sobre o desenvolvimento do capitalismo europeu no século XVI, esse raciocínio dificilmente poderia ser transposto para as condições atuais. "As religiões novas têm características muito diferentes do protestantismo histórico. A experiência religiosa mais importante para o pentecostal é um êxtase recebido do Espírito Santo. O protestantismo das origens era voltado para a ação, ficava no campo da conduta. A experiência religiosa era a experiência profissional. Trabalhar era cumprir a vontade de Deus", afirma Pierucci.

A maioria dos pesquisadores considera que a curva de crescimento das igrejas pentecostais no Brasil deve ter sofrido uma inflexão. Assim, nas próximas décadas, é provável que a proporção de evangélicos se estabilize no país em torno de 25%.

Estudo realizado em 2007 pelo economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, estimou uma estabilização na proporção de católicos no país, embora a porcentagem de evangélicos tenha continuado a crescer. Para o economista, a melhora da vida econômica das populações mais pobres, sobretudo no Nordeste, estancou nas pessoas a busca por novas religiões, além de reverter o processo migratório que vigiu no Brasil durante a maior parte do último século.

Outros argumentos também são evocados para sustentar a hipótese de uma acomodação na distribuição de fiéis entre as igrejas. Segundo Pierucci, existe um teto para a quantidade de católicos que podem se dispor a mudar de religião. Para o sociólogo, o brasileiro tampouco é tão disposto a fazer parte de religiões que exigem fé exclusiva. Com isso, o catolicismo se torna mais confortável, por não tomar medidas enérgicas contra o sincretismo e o flerte com outras religiões. "Se você for evangélico, não pode ser espírita. O católico, de forma extraoficial, pode continuar indo a centro espírita, umbanda e por aí vai. A Igreja Católica não aprova, claro, mas também não interfere muito, como fez o confucionismo dos mandarins com o taoísmo, na China. Conheço pessoas que são muito espíritas e ao mesmo tempo muito católicas. Isso, no pentecostalismo, não pode", diz. Por esse raciocínio, a sobrevivência do catolicismo como religião dominante no Brasil viria de seu caráter mais maleável.

sábado, 23 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O voto evangélico no 1º turno

Notícia do site Folha.com:


Cidades mais evangélicas do país elegeram Dilma no 1º turno


ÉRICA FRAGA
DE SÃO PAULO
HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA



Nas 700 cidades brasileiras com maior proporção de evangélicos, a candidata Dilma Rousseff (PT) se saiu tão bem ou até um pouco melhor do que no conjunto do país.

Esse dado reforça a tese dos cientistas políticos que afirmam que a religião não é uma variável importante em eleições no Brasil.

Embora não derrube, ele relativiza a teoria de que Dilma não venceu no primeiro turno porque perdeu parte dos votos religiosos devido a suas posições sobre o aborto.

Se dependesse apenas dessas cidades com maior presença evangélica (30% ou mais da população), a petista já estaria eleita, com uma média de 53% dos votos.

Neste Brasil evangélico, Dilma também se sai bem em outros recortes estatísticos. Em 63% dos municípios, ela igualou ou superou sua média nacional de 47%. Em 71% deles, ela derrotou seus adversários, contra média nacional de cerca de 70%.

Marina Silva (PV), cujo crescimento de última hora foi atribuído por alguns analistas ao voto religioso, na verdade se sai mal no Brasil evangélico. Se dependesse apenas desses municípios, sua votação média teria sido de apenas 11,2%, contra os 19,33% registrados nacionalmente. Ela supera seu próprio desempenho em apenas 11,7% das cidades com mais de 30% de protestantes.

Para José Serra, a votação teria sido de 34,4% (contra 32,61% no Brasil real). Ele se saiu melhor do que sua média nacional em 56% das cidades mais evangélicas.

Para fazer a análise, a Folha usou resultados da eleição divulgados pelo TSE e uma projeção da população evangélica de cada município em 2007 feita pelo Ministério de Apoio com Informação (MAI), uma rede de auxílio a igrejas evangélicas.


clique na imagem para ampliar:

Troca-troca cóspel

Tempos bons mesmo eram aqueles em que os cristãos eram perseguidos e não viviam do troca-troca de favores e votos com políticos. Os tempos atuais mancham o bom nome "evangélico", para vergonha de todos nós. Notícia da Folha.com:


Campanha de Serra faz ofertas a evangélicos


BRENO COSTA
DE SÃO PAULO

A campanha de José Serra (PSDB) está oferecendo benefícios a igrejas evangélicas e a entidades a elas ligadas em troca de apoio de pastores à candidatura tucana. O mesmo foi feito na campanha do governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin.

O responsável pelo contato com os líderes é Alcides Cantóia Jr., pastor da Assembleia de Deus em São Paulo.

Ele responde pela "coordenadoria de evangélicos" da campanha, criada ainda no primeiro turno exclusivamente para angariar apoios entre evangélicos.

"Disparo entre 150 e 200 telefonemas por dia, mais ou menos", diz Cantóia, que trabalha numa espécie de guichê montado no térreo do edifício Praça da Bandeira (antigo Joelma), quartel-general da campanha de Serra. No local, ele também recebe pastores para "um café".

Os telefonemas são feitos para pastores de várias denominações em todo o Estado de São Paulo, em busca de pedido de voto em Serra entre os fiéis de suas respectivas igrejas.

Segundo Cantóia, entre os argumentos para conquistar o engajamento dos evangélicos, além do discurso relativo a valores, como a posição contrária à descriminalização do aborto, está a promessa de apoio a parcerias entre essas igrejas e entidades assistenciais a elas vinculadas com prefeituras e governo, em caso de vitória tucana.

Como exemplo, cita a possibilidade de, com os tucanos no poder, igrejas poderem oferecer apoio a crianças e adolescentes, complementando o período que elas passam na escola. Assistência a idosos também é citada.

"O objetivo é levar as crianças para dentro da igreja", afirma o pastor. "Esse é um dos argumentos. Seriam igrejas em tempo integral, complementando a atividade da escola."

Cantóia afirma, também, tentar intermediar demandas recebidas de pastores junto a prefeituras. Por exemplo, pedidos para que entidades funcionem como creche ou que virem intermediárias do programa Viva Leite, do governo estadual.

Alcides diz ter sido um dos articuladores que levou os pastores Silas Malafaia, do Rio de Janeiro, e José Wellington Bezerra, de São Paulo, ambos da Assembleia de Deus, a gravarem depoimentos de apoio a Serra, exibidos em sua propaganda na TV.

O Conselho dos Pastores de São Paulo, que reúne representantes de diversas denominações protestantes, estima que cerca de 80 mil pastores em SP apoiem Serra.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Uma guerra religiosa lamentável

Artigo do insuspeito ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, do DEM, que substituiu Geraldo Alckmin (PSDB) em 2006, quando este se candidatou à Presidência da República, publicado no Terra Magazine:


Lamentável


Cláudio Lembo
De São Paulo

Conseguiram. Transformaram campanha eleitoral em guerra religiosa. Em plena cerimônia religiosa celebrante é desacatado. Políticos se enfurecem. Panfletos são distribuídos.

Há tantos temas a serem abordados e, no entanto, assuntos de foro íntimo passaram a ser tratados como mensagens coletivas. As religiões informam a vida das pessoas.

Estas, a seu turno, por seu comportamento na sociedade, apontam para a excelência desta ou daquela confissão. Tratar as múltiplas crenças como inimigas entre si é criar conflitos indesejáveis.

Os brasileiros sempre buscaram a paz entre os vários credos. É traço histórico que vem desde nossa primeira Constituição, a de 1824. Agora, marqueteiros desavisados ferem nossos valores políticos.

É imperdoável o que vem ocorrendo. Viola os mais profundos sentimentos nacionais amalgamados durante séculos. Todos os participantes do pleito eleitoral, neste segundo turno, deveriam tomar uma única postura.

Declarar, em conjunto, que respeitam todas as crenças e posições doutrinárias. Apontar que qualquer mensagem contra o respeito ao outro é deletéria e contra a nação.

Há temas que devem ficar a salvo das emoções do cotidiano e, particularmente, dos debates eleitorais. Esses necessitam de ambiente de mútua compreensão do pensamento do outro.

Falar de aborto com paixão verbal sem limites é violência contra todas as mulheres e pessoas razoavelmente conscientes. Fere a intimidade mais profunda das pessoas.

O aborto é uma violência. Ninguém em sã consciência é partidário de sua prática. A vida, no entanto, sujeita as pessoas às mais estranhas circunstâncias e estas necessitam ser entendidas com razoabilidade. O presente debate saiu dos limites do razoável. Atingiu um fundamentalismo ingênuo, mas perverso. Todos os fundamentalismos são execráveis. Retiram a capacidade de pensar das pessoas.

Os liberais - os verdadeiros liberais - sabem que em todas as latitudes, onde foram excluídos os princípios iluministas, há uma violência física ou moral contra o livre pensamento.

A atual campanha eleitoral - lamentavelmente - atingiu espaços fundamentalistas, como nunca ocorrera nos comícios eleitorais após a democratização.

Os mecanismos democráticos não podem servir de caminho indesejável para dividir cidadãos. Ao contrário, a democracia, ensinando o respeito ao outro, exige compostura no seu exercício.

Os eleitores, certamente, saberão examinar todos os contornos destes últimos meses e, na hora de seu voto, afastará as más mensagens e as deformações das exposições de ambos os candidatos.

O voto deve ser conferido a programas partidários e exposições temáticas dos respectivos candidatos. As mensagens extravagantes podem ser ouvidas, mas não levadas em consideração.

Elas pertencem a outro campo, àquele do foro intimo de cada cidadão e este não deve ser violado pelos interesseiros de ocasião. A humanidade já sofre - e muito - por situações como a atual.

Voltar ao passado distante é esquecer as grandes lições - sobre a tolerância religiosa - expostas em tempos remotos por personalidades qualificadas do Ocidente.

Envergonha a cultura brasileira quem age sem freios em campanhas eleitorais. Mostra desconhecer os princípios da democracia e, assim, não pode ser respeitado no certame eleitoral.

Faltam poucos dias para o segundo turno eleitoral. Espera-se um reequilíbrio salutar nos termos da presente campanha. É anseio da cidadania.

Quando propaganda protestante gerava tragédia

Exatos 476 anos atrás, segundo relembra o site Opera Mundi:


Hoje na História: 1534 - Cartazes protestantes criticando a Igreja Católica são afixados por toda a França


Em 18 de Outubro de 1534, a história do protestantismo francês viveu um dos seus momentos fulcrais, com o caso dos cartazes. Impressos em Neuchâtel por instigação do pastor François Antoine Marcourt, cartazes de 37 por 25 cm que criticam a celebração da missa tal como ela é feita oficialmente pela Igreja católica foram afixados em vários locais da França. Além disso, acusam o papa de ter instaurado a Igreja com a finalidade de reforçar seu poder. A repetição cerimonial da morte de Cristo é particularmente atacada, simbólica, no altar. Se o sacrifício já foi consumado, por que se apoderam os sacerdotes católicos deste ritual simbólico?

Os cartazes foram afixados na noite de 17 para 18 de outubro por todo o país, inclusive na residência do rei Francisco I em Amboise. Segundo os protestantes da época “os cartazes continham artigos verdadeiros sobre os horríveis, grandes e insuportáveis da missa real”. Esse episódio trouxe consequências trágicas para os protestantes da França. Francisco I, acreditando em complô, decidiria dar início a uma caça aos “heréticos”. O caso dos cartazes marcou o fim à tolerância religiosa que reinava no país fazia alguns anos.

Os argumentos teológicos dos protestantes fundamentavam-se na Epístola de São Paulo aos Hebreus. A propaganda protestante pretendia transmitir a idéia de que a eucaristia é uma blasfêmia, uma vez que a morte de Cristo não se deixa repetir. Esta demanda foi o resultado da ação de Antoine Marcourt, Pastor de Neuchâtel, também natural da Picardia.

A situação tornou-se particularmente crítica e descambou numa reação brutal por parte da Igreja católica e do estado francês. Protestantes franceses seriam encarcerados e assassinados. Em Janeiro de 1535, o rei Francisco I organiza uma procissão macabra pelas ruas de Paris que parava 6 locais distintos. Em cada uma das paradas havia um pódio onde o rei, os embaixadores e dignos membros do “parlement” se instalaram para assistir à morte pela fogueira de seis “heréticos” envolvidos no caso dos cartazes do ano anterior.

domingo, 17 de outubro de 2010

Deus e a linguagem

Efrem, o Sírio (ou Siríaco), foi um dos pais da nascente Igreja cristã, tendo vivido de 306 a 373 d.C., ainda em meio à controvérsia com os arianos, dos quais era ferrenho opositor. Também conhecido por "Profeta dos Sírios" e "Cítara do Espírito Santo", Ephraem Graecus (seu nome em latim) era da tradição oriental (hoje ortodoxa), mas foi elevado à condição de Doutor da Igreja pelo papa Bento XV em 1920, o que explica, de certa maneira, o interesse recente de Bento XVI em citá-lo em seus discursos. Efrem dedicou-se à vida monástica em Nísibe e Edessa, e foi um dos primeiros poetas e compositores de música sacra da Igreja Cristã (para uma biografia mais detalhada, clique aqui). Seus hinos, escritos originalmente em siríaco (um dialeto aramaico tardio), foram traduzidos para o grego e o latim e, pouco tempo após sua morte, já eram cantados nas celebrações litúrgicas de grande parte das igrejas daquela época. Efrem via na linguagem das palavras e da música uma maneira admirável de Deus revelar-se ao mundo, a ponto de afirmar que "Deus revestiu-se de nossa linguagem, de modo a poder vestir-nos com Seu modo de vida". Cristo, o Verbo da Vida, o Logos, conceito que tantas polêmicas havia causado entre cristãos e arianos, transcendia, para Efrem, o campo das batalhas teológicas, e a linguagem era uma das maneiras como Deus podia se relacionar com as pessoas das mais diferentes origens e culturas. No "Comentário ao Diatessaron" 7:22, Efrem afirma que:

"Se as palavras tivessem somente uma única perspectiva, o primeiro intérprete a teria encontrado, e os outros ouvintes não teriam o trabalho duro nem o prazer da sua própria interpretação. Entretanto, todas as palavras do Senhor têm as suas imagens, e cada uma dessas imagens tem os seus muitos componentes, e cada um desses componentes tem a sua própria especificidade e forma. E cada pessoa ouve de acordo com a sua capacidade, e interpreta de acordo com aquilo que lhe está sendo dado."


Ainda que o interesse nas obras de Efrem tenha se acentuado a partir de meados do século XX, com a difícil seleção dos seus textos autênticos, e ele se refira mais a uma teologia simbólica, na melhor tradição siríaca de sua época, chama a atenção a sua preocupação em mostrar a linguagem como elo entre Deus e o homem. No nosso dia-a-dia, já tão conturbado, não damos muito valor às palavras, e tantas vezes as pronunciamos mecânica e automaticamente, e não as percebemos como veículos de uma série de informações sobre nossas convicções, nossas crenças e, principalmente, sobre nós mesmos. Palavras conduzem conceitos e preconceitos que nos denunciam, nos entregam, nos desnudam. Machucam também, talvez mais do que os gestos que as acompanham. Palavras engolidas podem ser sábias (Provérbios 10:19; 17:27), mas também podem sufocar (Salmo 32:3). Manter uma postura neutra parece ser fácil (às vezes), mas, se o próprio Deus se preocupou com palavras, e chamou-se a Si mesmo de Verbo, como não valorizaremos as palavras e as linguagens por meio das quais interagimos neste mundo? Abraham Heschel acrescenta:

“Algumas pessoas podem estar perguntando: Por que a luz de Deus foi dada na forma de linguagem? Como é concebível que o divino esteja contido em vasos tão frágeis como consoantes e vogais? Esta pergunta revela o pecado de nossa era: tratar de forma superficial o meio que transporta as ondas de luz do espírito. O que mais no mundo é capaz de unir homens através das distâncias do tempo e do espaço? De todas as coisas terrestres, as palavras nunca morrem. Há tão pouca matéria nelas, porém tanto significado... Deus tomou estas palavras hebraicas e soprou nelas o Seu poder, e elas se tornaram um vínculo vivo, carregado com o Espírito divino. A partir desse dia, as palavras são ligações entre o céu e a terra. Que outro meio poderia ser empregado para conduzir o divino? Figuras esmaltadas na lua? Estátuas esculpidas nas montanhas?”

(Abraham Heschel, “God in Search of Man”, citado por Eugene Peterson em “Corra com os Cavalos”, 2003, Ed. Textus e Ed. Ultimato, pág. 147)

A Jesus, agradavam-lhe particularmente as palavras. Jogava com elas, como se fossem um brinquedo ingênuo da infância, mas não se negava a torná-las ásperas e maduras quando era necessário. Via nelas, entretanto, vida... sempre! Mesmo quando se travestiam de morte. Responsabilidade gigantesca a nossa, portanto, de interagir através de palavras. Contudo, não deveriam pesar sobre nossos ombros, já que o que nos esmaga talvez seja o não ter o que dizer, não ter com quem conversar nem a quem recorrer. Palavras são livres, destinadas ao belo espaço das idéias infinitas que se comunicam (ou não) ao sabor dos ventos e das vontades humanas. E nesta infinitude temos a feliz oportunidade de nos comunicarmos com Deus. Mediante palavras...


sábado, 16 de outubro de 2010

Arcebispo belga diz que AIDS faz justiça

Notícia publicada no jornal O Estado de S. Paulo de hoje:


Arcebispo belga diz em livro que a aids ''é um tipo de justiça inerente''


O líder da Igreja Católica na Bélgica, um dos países mais afetados pelas recentes denúncias de abusos de menores por sacerdotes, causou escândalo ao afirmar que a aids seria "um tipo de justiça". O arcebispo primaz do país, Andre-Joseph Leonard (foto), ao mencionar em livro recém-lançado a declaração de João Paulo II de que era difícil julgar a vontade de Deus, quando indagado se a aids seria uma punição divina, afirmou: "Não vejo essa doença como punição. No máximo, uma espécie de justiça inerente." Ele ainda disse que "talvez o amor humano também inspire a vingança se não for bem conduzido". Em reação às declarações, um advogado diz ter se queixado a um órgão governamental que combate a discriminação no país. Segundo Jean Marie de Meester, as declarações "são uma incitação ao ódio".

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Profecia contra os pastores infiéis

Ezequiel 34:

1 Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
2 Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza, e dize aos pastores: Assim diz o Senhor Deus: Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar as ovelhas?
3 Comeis a gordura, e vos vestis da lã; matais o cevado; mas não apascentais as ovelhas.
4 A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer, e a perdida não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza.
5 Assim se espalharam, por não haver pastor; e tornaram-se pasto a todas as feras do campo, porquanto se espalharam.
6 As minhas ovelhas andaram desgarradas por todos os montes, e por todo alto outeiro; sim, as minhas ovelhas andaram espalhadas por toda a face da terra, sem haver quem as procurasse, ou as buscasse.
7 Portanto, ó pastores, ouvi a palavra do Senhor:
8 Vivo eu, diz o Senhor Deus, que porquanto as minhas ovelhas foram entregues à rapina, e as minhas ovelhas vieram a servir de pasto a todas as feras do campo, por falta de pastor, e os meus pastores não procuraram as minhas ovelhas, pois se apascentaram a si mesmos, e não apascentaram as minhas ovelhas;
9 portanto, ó pastores, ouvi a palavra do Senhor:
10 Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu estou contra os pastores; das suas mãos requererei as minhas ovelhas, e farei que eles deixem de apascentar as ovelhas, de sorte que não se apascentarão mais a si mesmos. Livrarei as minhas ovelhas da sua boca, para que não lhes sirvam mais de pasto.

domingo, 10 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 14

Parte 14 - Justiça, compaixão e paz

por Richard Foster

Numa passagem especialmente comovente, a Escritura reúne os três conceitos hebraicos que estudamos: justiça, compaixão e paz. O salmista aponta para o dia em que a “graça e a verdade” se encontrarão, em que “a justiça e a paz” se beijarão (Salmo 85:10).

Qual é a palavra que Deus usa para o mundo no qual vivemos? Será que Ele vê a justiça e a retidão aumentando entre nós? Será que está triste com nossa falta de compaixão? Há quem abrace de Deus como modo de vida?

Não estou propondo estas perguntas apenas para o mundo em geral. Questiono aqueles de nós que professamos a Cristo como sendo a nossa vida. Será que Deus pode se agradar das vastas e crescentes iniquidades entre nós? Ele não se entristece com nosso acúmulo arrogante, enquanto irmãos e irmãs cristãs em outras regiões definham e morrem? Não temos a obrigação de olhar além do nariz do nosso próprio interesse nacional para que a justiça possa rolar como águas e a retidão como um ribeiro perene? Não é uma obrigação que se nos impõe fazer justiça e amar a misericórdia e caminhar com humilde diante de Deus, se quisermos viver em sua maravilhosa paz?

Estas são perguntas difíceis, eu sei. Mas são perguntas que precisamos fazer se é para levarmos a sério a palavra de Deus para nós através da Antiga Aliança.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 46-47)

sábado, 9 de outubro de 2010

Subindo a rampa com os evangélicos

Que muitos líderes “evangélicos” estão mais preocupados com um projeto de poder temporal do que com a anunciação do evangelho, isto já é público e notório, lamentavelmente. Não é difícil constatar, também, que muitos deles não têm qualquer compromisso com a pureza da mensagem pregada, e a negociam conforme a sua conveniência momentânea, daí não terem qualquer constrangimento em atrelarem o bom nome do evangelho a qualquer candidato que lhe ofereça vantagens imediatas, nem sempre santas.

É claro que há gente que age com boa fé na ânsia de apoiar um projeto político, embora se equivoque nas justificativas. Só agora se sabe, por exemplo, que o partido, da candidata Marina Silva, apoiada por enorme parcela dos evangélicos brasileiros no 1º turno das eleições presidenciais de 2010, o Partido Verde (PV), tem em seu programa (aprovado em 2005 – clique aqui para lê-lo), o apoio ao aborto, ao casamento gay e à liberação da maconha. É estranho, mas ninguém, nem este que vos escreve, teve conhecimento disso antes do 1º turno. A grande justificativa que boa parte dos evangélicos tinha para não votar na candidata do PT, Dilma Roussef, era ignorada quanto ao PV. Portanto, fica claro aos olhos mais atentos que não havia qualquer diferença “espiritualizada” para se apoiar A ou boicotar B, mas se tratava de um posicionamento ideológico travestido de “evangélico”. O mesmo vale para o candidato do PSDB, José Serra, agora alentado por grandes movimentos evangélicos, omitindo o fato de que ele não só apoiou o primeiro projeto de liberação do aborto, de nº 78, em 1993, proposto pela senadora Eva Blay, também do PSDB (ela era suplente de Fernando Henrique Cardoso, que assumira o ministério da Fazenda de Itamar Franco pouco antes), como também assinou decreto facilitando os procedimentos abortivos no SUS.

O que pouca gente parece perceber é que pelo termo “evangélico” no Brasil é conhecido um quinhão enorme da população que professa a fé cristã decorrente da Reforma Protestante, embora hoje sequer o nome “protestante” seja utilizado para identificá-lo, dada a enorme profusão de denominações pentecostais e neopentecostais, muito maiores em número do que os protestantes históricos. Entretanto, na hora de se alinharem politicamente, não há nenhuma distinção entre eles, seja do ponto de vista externo, seja também dos posicionamentos ideológicos que assumem interna corporis. Ao fazerem isso, colocam a igreja evangélica, genericamente considerada, numa posição extremamente desconfortável e arriscada. De um lado, o apoio dado a qualquer candidatura faz com que os evangélicos sejam vistos como fiadores de seu projeto político, reféns de uma determinada visão de mundo. Logo, se algo dá errado, os evangélicos também terminarão pagando pelo seu erro. Por outro lado, existe a possibilidade (sempre clara no Brasil) do apoio se converter em cargos no governo e verbas públicas, com todas as suas benesses, nem sempre legítimas. Poucas coisas talvez sejam mais contrárias ao evangelho do que o aparelhamento do Estado em prol de uma elite religiosa. Não por acaso, o próprio Jesus Cristo foi condenado por esta aliança espúria entre políticos e religiosos.

É bom e legítimo que todas as igrejas promovam o debate político civilizado entre seus seguidores. Entretanto, o apoio enfático a qualquer candidatura - mediante premissas espiritualizadas que escondem a semelhança com as outras - faz com que a igreja evangélica brasileira saia perdendo ao sacrificar a mensagem da cruz no altar dos jogos políticos de ocasião. Milhões de pessoas não mais a verão como a portadora do evangelho da graça redentora de Deus, mas como mais um partido político igual aos outros, com todas suas mazelas e corrupções. Não que a igreja seja perfeita, todos sabemos que ela está longe disso, mas podia pelo menos se dar ao respeito de não entrar em bola dividida com a canela desprotegida nem servir como inocente útil num cavalo de Tróia com destino desconhecido. Serviço devemos prestar a Deus e ao próximo, desinteressadamente, e não nos servirmos do Estado e da política. O grande problema em subir a rampa carregando nos ombros um candidato eleito é de lá não descer mais...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 13

Parte 13 - A teologia do suficiente

por Richard Foster

Econômica e socialmente, a visão de shalom é captada no que o Bispo John Taylor chama de “A Teologia do Suficiente”. A ganância do rico é temperada pela necessidade do pobre. Justiça, harmonia e equilíbrio prevalecem. “Ela significava um tipo dançante de inter-relacionamento, uma busca de algo mais livre do que a igualdade, mais generosa do que a equidade, o sempre-mutante equilíbrio de um sistema de vida”. Extravagância excessiva, ambição arrogante, ganância arrasadora – tudo isto é alheio à fraternidade completa e satisfeita de shalom. Sob o reinado do shalom de Deus, os pobres já não são oprimidos porque a cobiça já não domina.

Numa cena particularmente terna, Jeremias lamenta a fraude e ganância dos profetas e sacerdotes, dizendo: “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jeremias 6:14). Em suma, Jeremias havia movido uma ação por mau procedimento profissional contra os charlatões religiosos auto-produzidos. Estes haviam colocado um curativo simples sobre uma ferida social enorme e dito: “Shalom, shalom – tudo vai ficar bem”. Mas Jeremias trovejou, com efeito: “En shalom – não está tudo bem. A justiça é rejeitada, os pobres oprimidos, o órfão ignorado. Não há inteireza nem cura aqui!”.

Mas a paz terapêutica de Deus não será rejeitada para sempre. Isaías viu um dia no qual a reconciliação entre as pessoas será uma realidade, um dia quando a justiça e a retidão reinarão, um tempo em que a inteireza da paz de Deus reinará e o povo andará “na luz do Senhor” (Is 2:4-5).

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, p. 45-46)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A iniquidade está na língua

A língua é um pequeno fogo que incendeia um bosque enorme, já metaforizava o apóstolo Tiago, justificando que “a língua também é um fogo; sim, a língua, qual mundo de iniquidade, colocada entre os nossos membros, contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, sendo por sua vez inflamada pelo inferno. É um mal irrefreável; está cheia de peçonha mortal... com ela bendizemos ao Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procede bênção e maldição. Não convém, meus irmãos, que se faça assim” (Tiago 3:5-10).

A atual campanha eleitoral brasileira tem se revelado um prato cheio para o mau uso da língua pelo povo evangélico. Em vez de justificarem seu voto pelas virtudes e pelos projetos de seu candidato, muitos preferem inundar as caixas postais de seus irmãos e amigos com uma orquestração de boatos e ataques pessoais à candidata que escolheram como adversária, e para tanto, não economizam palavras nem acusações. Unem-se, por conveniência, a católicos e espíritas numa fraternidade que repetidamente negam nos púlpitos. Contra a possibilidade de que o aborto seja um dia liberado no Congresso Nacional (e não pelo Presidente, que sozinho não tem poder para tanto), são todos velhos irmãos de guerra, mas na hora de auxiliar os pobres e necessitados que – graças a Deus! – não foram abortados, os evangélicos sistematicamente boicotam católicos e espíritas sob a justificativa de que “aquela obra não é de Deus”. Basta lembrar o episódio dos jogadores evangélicos do Santos F. C. visitando um abrigo espírita.

Reputações são assassinadas e jogadas por terra, sem nenhum direito de defesa ou de uma profícua discussão. Falsos testemunhos são levantados sem nenhum respeito ao nono mandamento (Êxodo 20:16), esquecendo-se convenientemente que Deus odeia a testemunha falsa que levanta mentiras (Provérbios 6:16-19; 25:18), tanto que diz duas vezes que “a testemunha falsa não ficará impune; e o que profere mentiras não escapará” (Prov. 9:5,9). É estarrecedor o quanto as paixões políticas podem cegar irmãos que considerávamos sensatos e equilibrados. Não é à toa, lamentavelmente, que a igreja evangélica brasileira esteja na draga em que está. E não será uma campanha política que a levantará. Pelo contrário, apenas reforçará o sentimento de que o termo “evangélico” no Brasil tem um significado muito mais ideológico do que teológico, atrelado que está a um projeto de poder temporal, para vergonha nossa. Não me espantaria se, num desses rega-bofes e congressos evangélicos mergulhados na vaidade, aparecesse uma mão escrevendo na parede "Mene Mene Tequel Ufarsim" ("contou Deus o teu reino e o acabou" - Daniel cap. 5).

E já que estamos testemunhando este ecumenismo de araque, ouçamos o que o padre Brendan Flynn, do filme “Dúvida”, tem a dizer sobre as fofocas e a mão que aponta alguém num sonho:


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 12

Parte 12 - O mundo em paz e harmonia

por Richard Foster

A visão de inteireza e paz, que brilha como um farol para toda a Antiga Aliança, nos dá importantes percepções sobre a simplicidade cristã. Este tema é maravilhosamente reunido na palavra hebraica shalom, um conceito rico em significado que ressoa com inteireza, unidade, equilíbrio. Trazendo em si (mas muito mais amplo do que) o conceito de paz, ele significa uma comunidade harmoniosa, interessada, com Deus em seu centro como o principal sustentador e mais glorioso habitante. Essa visão grandiosa de shalom começa e termina nossa Bíblia. Na narrativa da criação, Deus trouxe ordem e harmonia a partir do caos; e no Apocalipse de João, temos a inteireza gloriosa de um novo céu e uma nova terra. A criança messiânica que nascerá é o Príncipe da Paz (Isaías 9:6). Justiça, retidão e paz deverão caracterizar seu reinado eterno (Isaías 9:7). No centro do sonho de shalom encontra-se a maravilhosa visão de todas as nações chegando ao monte do templo de Deus para aprenderem seus caminhos e andarem nas suas veredas; para converterem suas espadas em relhas de arados e suas lanças em podadeiras (Isaías 2:2-5; Miqueias 4:1-4). Shalom traz até a ideia de uma unidade harmoniosa na ordem natural; a vaca e o urso tornam-se amigos, o leão e a ovelha deitam-se juntos, e um pequenino os guiará (Isaías 11:1-9). Estamos em harmonia com Deus – fidelidade e lealdade prevalecem. Estamos em harmonia com o nosso próximo – justiça e misericórdia sobejam. Estamos em harmonia com a natureza – paz e unidade reinam.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, p. 45)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Automumificação em vida

Tire as crianças da sala! Vai saber o que se passava na cabeça de monges budistas que se automumificaram 200 anos atrás... se o desejo era preservar o corpo, pela mórbida foto ao lado você vai perceber que o método não deu certo [#megafail]. Depois de ler esse texto, você vai pensar duas vezes antes de chamar alguém de "múmia" (por mais que a pessoa mereça o apelido):


A Mumificação Viva de Monges Budistas


Giordano Cimadon

Cientes da exata data da própria morte, cerca de 24 monges budistas da região de Yamagata, no Japão, e que viveram no início do século XIX, prepararam lentamente seus corpos para que, ao final de um período de nove anos, ficassem completamente mumificados. O processo de sacrifício converteu estes monges em exemplos únicos de santidade.

Esta prática estranha à mentalidade ocidental teve sua origem com o sábio Kukai, fundador da escola Shingon. Após uma viagem para a China, Kukai retornou trazendo diversos ensinamentos tântricos secretos, que ao longo dos anos acabaram sendo perdidos na própria China. Uma parte destes ensinamentos consistia no processo de mumificação em vida, chamado Sokunshinbutsu.

A primeira parte desta mumificação durava três anos, quando os monges se submeteram a uma dieta especial, que consistia em uma alimentação composta exclusivamente de sementes e castanhas, além de uma rigorosa disciplina física, com o objetivo de eliminar por completo a gordura de seus corpos.

Em seguida, por outro período de três anos, os monges se alimentaram apenas da casca e da raíz de árvores. Isso fazia com que os fluidos corporais fossem rapidamente eliminados. Ao mesmo tempo, consumiam em pequenas doses diárias um chá venenoso feito a partir da seiva da árvore Urushi, usada normalmente como verniz em vasilhames de cerâmica.

Assim, seus corpos se tornavam venenosos demais para serem devorados por larvas e vermes. Desta maneira, o processo de decomposição de seus corpos era evitado. Por fim, os monges se trancavam em uma tumba feita de pedra, conectada ao mundo exterior apenas por uma estreita passagem de ar.

Dentro de sua tumba, o monge assumia definitivamente a postura de lotus, entrando em estágios muito profundos de meditação e permanecendo imóvel até a sua morte. Em suas mãos segurava unicamente um sino, o qual soava diariamente, fazendo saber às pessoas que acompanhavam sua mumificação se ainda estava vivo ou se já se encontrava morto.

Quando um dia a campainha parava de soar, o tubo de ar era retirado e a tumba era selada. A partir deste momento os demais monges do templo aguardavam por mais um longo período de três anos, para então abrir a tumba e verificar se o processo de mumificação tinha sido realizado com sucesso.

Os monges que conseguiam ser mumificados eram considerados verdadeiros Budas, e seus corpos eram posicionados em lugares especiais no interior do templo, de modo que pudessem ser contemplados pelos devotos. Já aqueles que não tinham sucesso na mumificação não eram considerados Budas, mas eram respeitados e venerados por seu esforço e sacrifício.

Fonte: Sociedade Gnóstica Internacional

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Justiça social no Velho Testamento - 11

Parte 11 - O cuidado com a criação

por Richard Foster

Essa qualidade de compaixão e preocupação se estendiam até os animais e à terra. Em geral nos esquecemos de que o princípio de descansar no sábado incluía as necessidades dos animais de carga: “Seis dias farás a tua obra, mas ao sétimo dia descansarás: para que descanse o teu boi e o teu jumento” (Êxodo 23:12). A própria terra precisava de um “ano de descanso solene” (Levítico 25:5). A cada sete anos não haveria nenhum plantio nem colheita, pois “a terra guardará um sábado ao Senhor” (Lv 25:2). Mesmo o solo das vinhas não devia ser sobrecarregado plantando-se outras lavouras entre as fileiras (Dt 22:9). Os bois que faziam a debulha não deviam ter as bocas atadas a fim de poderem comer enquanto trabalhavam (Dt 25:4). Filhotes de passarinhos podiam ser tomados, mas a mãe precisava ser deixada para cuidar dos outros ovos e produzir futuros filhotes (Dt 22:6-7).

O que toda essa instrução está querendo mostrar é que nosso domínio sobre a terra e as pequenas criaturas que rastejam sobre ela deve ser um domínio compassivo. Não devemos saquear a terra mas cuidar dela – bondosa, amorosa e ternamente.

Essas leis, regulamentos e julgamentos morais antigos temperam e suavizam a nossa agressividade. Como o maná misterioso do céu, há sempre o suficiente para as necessidades de cada um, mas nunca nenhuma sobra para ser guardada. Há um limite para o que é bom, e sempre que esse limite é transgredido, o que é bom se torna mau. Nossa tarefa é a de fazer as coisas entrarem na perspectiva que Deus ordenou para elas, e essas leis do Antigo Testamento nos dão pistas fascinantes de qual essa perspectiva deveria ser.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 44-45)

domingo, 3 de outubro de 2010

Jihad brasileira

O jornal O Estado de S. Paulo publica hoje um artigo muito oportuno, do professor José de Souza Martins, que apresenta uma excelente análise histórica da participação de católicos e brasileiros no processo político brasileiro, com os seus reflexos no atual momento eleitoral. É sempre interessante conhecer o ponto de vista de alguém que está fora dos arraiais (cada dia mais belicosos) das igrejas. Destaco o "fracasso religioso" da conclusão do artigo, que deixo em negrito porque concordo com ela em número, gênero e grau:

Eleitores ocultos da jihad brasileira

Eles votam corporativamente e sem liberdade, por motivos religiosos e não políticos

Um pastor manda de Nova Iorque aos crentes de sua numerosa e obediente igreja evangélica recomendação para que votem na candidata oficial. Um bispo católico publica declaração recomendando aos fiéis que não votem nela. Um pastor de importante igreja protestante lança apelo para que os adeptos de sua igreja votem na candidata não oficial. Um frade católico há muito declara que espera que a candidata oficial ganhe a eleição e a oposição nunca mais retorne ao poder. Se é para a oposição nunca mais voltar ao poder não se trata de eleição, e sim de nomeação. Estamos em face do eleitor oculto, o das religiões, que vota corporativamente e sem liberdade, por motivos religiosos e não por motivos políticos.

A questão política como questão religiosa, no Brasil, se propõe desde a Proclamação da República e da separação entre o Estado e a Igreja. Bispos e padres deixaram de ter status similar ao de funcionário público e a Igreja deixou de ter privilégios de repartição pública. O caráter missionário da atuação católica foi largamente beneficiado pela cessação da tutela, dando-lhe a oportunidade de, pela primeira vez em nosso País, fazê-la Igreja livre e profética.

A Igreja Católica, porém, aproveitou mal a possibilidade involuntariamente aberta pela República do ideário positivista dos militares que a proclamaram. Do mesmo modo, a democracia da pluralidade religiosa não consolidou essa premissa básica do Estado moderno entre nós, como se esperava e era necessário. Os protestantes e as outras denominações religiosas foram tímidos na consolidação da democracia nascente e na defesa do Estado não confessional.

Politicamente marginalizada durante toda a República Velha, que era de inspiração positivista e anticlerical, preparou-se a Igreja nesse período para a Restauração Católica, fundada num ideário de direita e em valores da tradição conservadora. Significativamente, e por isso mesmo, lograria o status de "religião da maioria do povo brasileiro" no governo Vargas. Um intercâmbio claramente informado pelo populismo que nascia. O protestantismo se difundiu devagar, à margem da política e do poder, pesando sobre ele o informal veto católico. Poucos notaram, até que um presbiteriano, Café Filho, sendo vice de Getúlio Vargas, assumira a Presidência da República com o suicídio do presidente em 1954. Era a via silenciosa da ascensão política dos protestantes.

O golpe militar de 1964 teve a decisiva participação católica com as Marchas da Família com Deus pela Liberdade. No entanto, um fato insólito se passou, revelador das grandes mudanças sociais que haviam ocorrido no País: diversos protestantes, especialmente presbiterianos, ascenderam em diferentes momentos do regime aos governos dos Estados, no Rio de Janeiro, em Pernambuco, no Pará, na Guanabara e mesmo em São Paulo, indiretamente, quando Laudo Natel, ligado ao Bradesco, de Amador Aguiar, presbiteriano, assumiu o governo com a cassação de Adhemar de Barros e nomeou um secretariado com notória presença protestante. A escolha do luterano Ernesto Geisel para a Presidência da República confirmou essa tendência do regime militar. A mudança de orientação da Igreja Católica em relação à ditadura, cuja instauração apoiara, e a hostilidade entre o Estado e a Igreja, nesse período, ganham clareza nesse cenário de fundo religioso.

É nesse quadro adverso e na consequente repressão que alcançou setores engajados da Igreja, até mesmo bispos, que sua atuação política evoluiu na direção do estímulo aos movimentos populares, a ação política orientada contra as incongruências do Estado, sobretudo o descompasso entre o legalmente possível e o politicamente realizado. Nesse legalismo antagônico ao Estado autoritário os setores mais ativos da Igreja não tiveram outra alternativa para afirmação dos seus valores conservadores, dado que o espaço político de direita, de sua atuação mais coerente, fora bloqueado pela tendência anticlerical dos militares e capturado pelos evangélicos. Sobrou-lhes constituírem sua militância no espaço residual de oposição à ditadura. O rapto ideológico do vocabulário de esquerda deu um revestimento moderno ao programa conservador e nem por isso menos transformador de que a Igreja no Brasil se tornou protagonista.

Nem os católicos nem os evangélicos conseguiram formular uma concepção democrática de política, no sentido de resguardar as respectivas religiões contra o monolitismo ideológico a que tende a política partidária. Não conseguiram propor suas religiões, na política, como religiões universais e pluralistas, irredutíveis ao partidário. O que possa lhes parecer um êxito político-partidário, nestas eleições e em outras precedentes, é na verdade um fracasso religioso, sobretudo no fato de que tendo se proposto como instrumentos do aparelhamento religioso-ideológico do Estado, tornam-se inversamente aparelhos da política e do próprio Estado. No altar das ambições de poder de sua guerra santa, sacrificam a missão profética das igrejas e minimizam a grande função histórica e libertadora que poderiam e deveriam ter na miséria moral e política da sociedade contemporânea.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DA USP. É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE 'A APARIÇÃO DO DEMÔNIO NA FÁBRICA' (EDITORA 34)

Justiça social no Velho Testamento - 10

Parte 10 - A prática da compaixão

por Richard Foster

Salpicadas por toda a Antiga Aliança encontram-se o que chamo de suas leis de compaixão e preocupação. Talvez uma das mais fáceis de reconhecer seja a lei da respigadura (Levítico 19:9-20; 23:22; Deuteronômio 24:19-20). Na colheita, o lavrador devia deixar uma parte da produção ao longo das beiras e o cereal que caiu enquanto ele trabalhava, de forma que os pobres pudessem ajuntá-lo. “Quanto segardes a messe da vossa terra, não rebuscareis os cantos do vosso campo, nem colhereis as espigas caídas da vossa sega; para o pobre e o estrangeiro as deixareis: eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 23:22). Da mesma forma, as vinhas e os olivais não deveriam ser totalmente colhidos de modo que pudesse haver provisão para os necessitados. O livro de Rute dá um quadro vívido da ternura dessa lei. Noemi e sua nora, Rute, haviam voltado a Israel viúvas e sem terra e, portanto, indefesas, mas puderam colher as espigas deixadas no campo de Boaz (Rute 2:1 e seguintes).

No coração de Deus há uma preocupação compassiva pelos alquebrados e desesperados. Por meio da lei da respigadura, ele colocou na economia de Israel provisão para aqueles que, por qualquer motivo que fosse, tivessem ficado em posição desvantajosa. Parecia existir uma indiferença quase santa a respeito de se a pessoa merecia ou não ser pobre. O simples fato da carência da pessoa era motivo suficiente para prover para suas necessidades.

Considere a ternura nas antigas leis de dar e receber penhor. Se um vizinho tomasse emprestado seu carro de boi e deixasse a veste em penhor, você tinha de certificar-se de devolver o agasalho antes do por do sol, mesmo que ele não tivesse terminado de usar o carro. Por quê? Porque o ar noturno era frio e ele precisava da veste para se agasalhar. Se você se recusasse e seu vizinho clamasse a Deus na noite gelada, Deus advertia: “Eu o ouvirei, porque sou misericordioso” (Êxodo 22:26-27). Deuteronômio tornou essa lei especialmente obrigatória se o penhor tivesse sido dado por um pobre, visto que havia forte possibilidade de ele não ter outra veste com a qual se agasalhar (Dt 24:12). A veste da viúva não podia ser recebida como penhor – ela já era indefesa o suficiente na situação normal (Dt 24:17). A mó do moinho não podia ser recebida como penhor – era o meio de vida do homem. Era proibido invadir a casa do vizinho para tomar um penhor. A pessoa devia esperar do lado de fora da porta até que ele o trouxesse (Dt 24:10-11). A amabilidade e cortesia comum deviam permear todos os relacionamentos humanos, até as transações de negócios.

Note o enfoque sobre a concessão de empréstimos. Visto ser presumido que os devedores estariam entre os pobres e vulneráveis, era proibido cobrar juros sobre os empréstimos. Essa prática era vista como uma exploração pouco fraterna da infelicidade de outrem e apenas servia para aprofundar a dependência dessa pessoa (Dt 23:19).

O salário deveria ser pago ao pobre no dia em que o trabalho fosse feito, sem falta, porque o dinheiro seria necessário para comprar alimento (Dt 24:14-15). Se você estivesse faminto, podia comer da vinha ou campo de cereais do seu vizinho, mas não tinha permissão para guardar nada num cesto (Dt 23:24). E assim por diante. Ordens ternas. Instruções sábias e comoventes sobre relacionamentos interpessoais.

(FOSTER, Richard. Celebração da Simplicidade. Campinas: United Press, 1999, pp. 43-44)

sábado, 2 de outubro de 2010

Os limites estreitos da ética evangélica brasileira

por Antônio Carlos Costa

Ministro do evangelho e presidente do movimento Rio de Paz

LIMITES ESTREITOS DA 
ÉTICA EVANGÉLICA BRASILEIRA

Há certos temas que são recorrentes na maior parte dos púlpitos brasileiros. Percebe-se a igreja, por exemplo, bastante preocupada com a pedofilia, a lei da homofobia, o aborto, a pornografia, o divórcio. Por motivo de integridade intelectual, não se pode crer no Novo Testamento e menosprezar esses assuntos. A liberdade de expressão, os direitos da criança, a santidade da vida humana, a pureza sexual e a importância do matrimônio são valores inegociáveis do cristianismo. Teme-se que -se essas iniquidades não forem combatidas pela igreja-, Deus julgará o seu povo.

Temos motivos, de fato, para nos preocupar. Porém, muito mais amplos do que o que inquieta a maior parte da igreja. Por que? Porque essas não são as únicas transgressões que a Bíblia denuncia e condena. Há iniquidades, tão graves quanto as supramencionadas -que passam despercebidas por aqueles cujos nomes constam no rol de membros das igrejas brasileiras-, e presentes de modo histórico, disseminado e crônico no Brasil.

Não se menciona nos nossos púlpitos a desigualdade social, o homicídio, as péssimas condições de moradia do pobre, a superlotação dos presídios, os salários baixos, a fome, a condição precária dos nossos hospitais, a falta de acesso a educação de qualidade. Como pensar que seremos julgados por Deus pela prática daqueles pecados e não destes? O fato de uns estarem em vias de ser institucionalizados e outros não, não faz diferença, pois jamais houve o caso de um povo ser justificado diante de Deus pela beleza da sua legislação. A lei sem obras é morta.

Tem que ser igualmente enfatizado que -o juízo de Deus começa pela sua casa. O que falar dos que dizem representar os interesses da igreja nas assembléias legislativas estaduais e Congresso Nacional, eleitos com o voto do crente, em campanhas realizadas no horário do culto a Deus? Alguns são reputados como os mais reacionários, vaidosos, alienados, corruptos que se tem notícia. Como deixar de fazer menção das igrejas que lavam dinheiro? Como não mencionar os pastores que deixam suas congregações se transformarem em currais eleitorais de canalhas, em troca de concessão de rádio, aparelhagem de som, legalização de propriedade e tijolo para construir templo?

Não podemos deixar de deplorar as grandes mobilizações -marchas ufanistas-, capazes de levar milhares para as ruas, para nada, absolutamente nada. Pessoas são assassinadas aos milhares nas cidades brasileiras, dinheiro público escoa pelo bueiro da corrupção, metade da população habita em bairros sem rede de esgoto, e a igreja se reúne em número incontável, nas principais cidades do Brasil, sem anunciar que está indo para as ruas a fim de combater essas provocações à santidade de Deus. Qual o motivo de uma passeata pelos direitos e garantias fundamentais do povo brasileiro jamais ter sido realizada pela igreja? A preocupação com a vida, no seu sentido mais amplo, não está presente nos corações dos seus membros, uma vez que estes encontram-se completamente alheios à obscenidade da violação dos direitos humanos, muitas vezes perpetrada pelo próprio Estado.

Deixaremos de denunciar as nossas instituições de ensino teológico, muitas das quais, ensinam o exato oposto proclamado pelas Escrituras Sagradas, sem ter quem faça oposição? De igual modo, muitos dos nossos pastores terão que, antes de denunciar os pecados dos de fora, aprender a se desfazer das jóias de ouro que ostentam, dos ternos caríssimos que exibem, dos carros luxuosos que dirigem e padrão de vida endossado por uma teologia que, só serve para justificar a riqueza dos profetas de causa própria, enquanto uma massa de crentes é mantida no padrão social mais baixo do país. Igualmente, convém proclamar, que envergonham os céus, campanhas para levantamento de ofertas que fazem tropeçar todo e qualquer brasileiro que tem cérebro, uma vez que apelam para a ignorância e crendice, num contexto de total falta de transparência da administração financeira das contas de suas instituições.

As afrontas a Deus em nossa nação e na igreja são mais amplas e sérias do que pensamos. Temos provocado a Deus. Por isso, o desrespeito da população brasileira pela igreja, o desprezo pela função do pastor, a falta de interesse dos meios de comunicação pelo que essa igreja pensa. Perdemos a credibilidade. Setores inteiros da nossa sociedade não conseguem se imaginar presentes em cultos barulhentos, onde não se fala coisa com coisa e dirigidos por homens de vida dúbia.

As maiores ofensas a Deus que ocorrem na nossa nação, só serão combatidas pela igreja, quando esta deixar de agir de modo espasmódico, ingênuo, estreito, superficial. Esses batalhas não se vencem sem evangelização que prega arrependimento para com Deus e fé em Jesus Cristo, oração, protesto nas ruas, busca de informação, pressão sobre as três esferas de poder da república, entre outras ações mais, tão ausentes da praxis das igrejas do nosso país. Somos protestantes. Atrás de nós, há uma legião de homens e mulheres que, por crerem no que creram, protestaram.

Enquanto nossa mensagem for determinada por uma pregação estranha às reais demandas morais e espirituais do Brasil, carente de relevância, pobre de pertinência histórica, falta de discernimento dos tempos e privada de fidelidade às Escrituras, continuaremos a deixar de pregar sobre aquilo que tão extensamente encontramos nos textos proféticos da Bíblia, e que seria proclamado com clareza, paixão e ousadia por qualquer profeta do passado que estivesse em nosso lugar -homens que costumavam ser valentes não apenas dentro do templo-, mas nos locais onde a verdade referente às demandas do direito e da justiça tinham que fluir como um grande e caudaloso rio.

Dica do blog Pensar e Orar

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails