domingo, 20 de fevereiro de 2011

Religião põe Sidrolândia (MS) em pé de guerra

A inscrição AVE MARIA na bandeira da cidade provoca guerra de palavras e batalha judicial entre católicos e evangélicos, segundo noticia a Folha de S. Paulo do dia 15/02/11:

Bandeira de município causa discórdia em MS

RODRIGO VARGAS
DE CUIABÁ


A expressão "Ave Maria", presente na bandeira de Sidrolândia (a 70 km de Campo Grande) desde 1957, tornou-se recentemente alvo de uma polêmica entre católicos e evangélicos do município.

Para o pastor Adílson Machado de Souza, coordenador da IES (Igreja Evangélica de Sidrolândia), a presença da inscrição é "um desrespeito aos seguidores de outras religiões que não a católica".

Ele acionou a Defensoria Pública do município para exigir da prefeitura a retirada da frase e prometeu "ir até o Supremo, se for preciso".

"Não se trata de uma ação contra os católicos, e sim contra a prefeitura. O fato é que o Brasil é um Estado laico", disse o pastor, em entrevista à Folha.

Segundo Souza, o apoio à iniciativa está expresso em um abaixo-assinado, que já tem centenas de assinaturas de evangélicos.

"Recebemos também o apoio de vários ateus que vivem no município e que defendem a mudança", disse o religioso.

O fato de se tratar de uma inscrição antiga, para o pastor, "não é relevante". "Em eventos dentro da nossa igreja, hastear a bandeira do município é sempre um constrangimento. Aquela frase trata de uma devoção que não é a nossa."

"Quem se irrita com o nome de Maria é o diabo", reagiu, em nota, o Conselho Pastoral da Paróquia Nossa Senhora da Abadia.

O texto, no qual o pastor é chamado de "irmão em Cristo", defende que "proclamar o nome de Maria como na bandeira da cidade não se trata de idolatria."

A defensora pública que recebeu a manifestação dos evangélicos está em férias e não foi encontrada.


Meu comentário: De fato o laicismo (a separação entre Igreja e Estado) é uma conquista da Constituição de 1891 que deve ser preservada. Entretanto, bom senso é sempre um ótimo remédio para toda e qualquer situação que envolva desavenças. Os símbolos religiosos em espaços públicos fazem parte da fundação e da construção de uma nação, que se deram ao longo dos séculos e não podem ser ignorados. Se o laicismo for levado a ferro e fogo, teríamos que derrubar o Cristo Redentor do Corcovado, por exemplo. Se a bandeira de Sidrolândia foi instituída democraticamente em 1957, provavelmente só havia católicos na então nascente cidade, ou os que ali estavam ou chegaram depois não se importaram com isso.

Por outro lado, o pastor em questão deveria estar mais atento. "Ave Maria" não é só o título de uma reza católica, mas a tradução em latim do que o anjo lhe diz em Lucas 1:28 - "Salve agraciada, o Senhor é contigo". Não há nada errado, portanto, para um evangélico com a expressão "Ave Maria", já que ele não faz a reza que lhe corresponde na tradição católica. Como de costume o problema deixa, então, a seara teológica para se imiscuir na ideologia, na disputa de poder, na briga de torcidas na saída do estádio, já que muitas igrejas funcionam mais como torcidas organizadas do que exatamente comunidades sagradas, ajuntamentos de pessoas santas e separadas para Deus (ou que deveriam ser), solidárias e misericordiosas. Pelo jeito não é só a expressão "Ave Maria" que corre risco de extinção em Sidrolândia.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Um papa americano

Sátira do remix mais conhecido por "Panamericano", na performance de José Mota, no Especial Nochevieja 2010 da RTVE:


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Conheça o Japão em 7 minutos

Quer conhecer o Japão assim de passagem? Tem saudades daquele antigo programa da extinta TV Tupi, "Imagens do Japão"? Mergulhe, então, nas lindas imagens do vídeo abaixo, do filme Hayaku: A Time Lapse Journey Through Japan, captadas em time lapse (alta velocidade nem tão estática assim) com uma Canon 5DMKII, dirigido por Brad Kremer, e gravado em Tokyo, Matsuyama, Imabari, Nagano, Gifu e Ishizushisan. A trilha sonora é de Royksopp – Triumphant (veja também abaixo) e The Album Leaf – Window.

Dica do BLCKDMNDS.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Amigos ou inimigos?

Inimizade pode ser apenas uma questão de referencial no curta-metragem israelense "Strangers" (de Erez Tadmor e Guy Nattiv, 2003). Um judeu e um árabe se encontram casualmente num vagão qualquer de um metrô europeu e começam a se provocar silenciosamente mediante os símbolos que os identificam. A "guerra de sinais" vai bem até que chega um grupo de neonazistas e os intimida, e a ironia recíproca tem que enfrentar um inimigo real e muito mais ameaçador. O árabe e o judeu terão que decidir instantaneamente se são amigos ou inimigos, e por quanto tempo esse (des)acordo vigorará. Vale a pena ver, são 6 minutos imperdíveis:


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Hitler - a biografia por Ian Kershaw

“Hitler”, a monumental biografia escrita por Ian Kershaw (1.024 págs., Companhia das Letras, 2010), é um livro altamente recomendado para quem quer entender o século XX e – em especial – as profundezas da natureza humana. 

Confesso que o nazismo e Hitler são temas que despertam em mim um certo fascínio, menos pela morbidez propriamente dita que é atrelada a ambos e mais pelo interesse que tenho em - pelo menos - tentar entender a maldade humana em essência, e não há episódio histórico em que isto tenha acontecido com tamanha intensidade (e densas névoas) como no período em questão. 

 Entretanto, a sensação que fico é que a diferença entre o nazismo e os tristes episódios corriqueiros e individualizados de maldade cotidiana é apenas uma questão de escala. Sim... magnitude.

O ser humano é – felizmente - capaz de gestos de bondade e sacrifício extremos, mas – tristemente – também da pior crueldade elevada às mais macabras potências. 

Na Alemanha das primeiras décadas do século XX houve uma infeliz e colossal confluência de dramas e preconceitos individuais e coletivos que resultou numa bomba com imenso poder de destruição e prestes a explodir. 

Hitler teria sido, por assim dizer, o homem errado na hora errada e no lugar errado. Produto sórdido de uma conjunção letal de fatores e horrores.

Ian Kershaw deixa claro, logo de início, que julga impossível traçar um perfil psicológico detalhado e definitivo do líder nazista, ou dar razões claras para o amálgama perverso entre sua personalidade doentia e as aspirações nacionais do povo alemão. Neste diapasão, digamos, psicopatológico, a biografia escrita por Joachim Fest vai mais fundo.

Kershaw insiste que o que sobrou da personalidade de Hitler são pistas, nada mais do que isso. A não ser na remotíssima hipótese de algum pesquisador descobrir, no futuro, alguma revelação inédita e inusitada, o mundo não terá resposta conclusiva a respeito dessa reunião catastrófica de fatores pessoais e coletivos. 

Tudo indicava que Adolf Hitler passaria em medíocres nuvens por este mundo, com uma existência curta, insignificante e miserável. Nascido em Linz, na Áustria, com laços familiares frouxos e breves, talvez uma boa linha de investigação seja o seu desejo (tão humano, mas nele profundamente exacerbado) de pertencer a alguém ou a algum grupo em especial. 

A contradição é que não tinha, entretanto, traços afetivos que o ligassem a outros seres humanos. As únicas demonstrações de afeto testemunhadas por seus asseclas eram dirigidas aos seus cães da raça pastor alemão. 

Sua sexualidade também era objeto de curiosidade mórbida e os poucos que verbalizaram suas impressões, o chamavam de “esquisito”. Havia uma certa dose de misoginia na sua relação com as mulheres, já que ao mesmo tempo que nutria por elas um aparente desprezo, mostrava surpreendente interesse por mulheres de personalidade forte e – casadas! Sua relação com Eva Braun era também - no mínimo - estranha, já que Hitler era "casado" com a Alemanha. 

Eva foi sua amante por vários anos, mas foi cuidadosamente mantida longe dos holofotes públicos, de maneira que somente seu círculo íntimo sabia de sua existência até o último de seus dias, embora não ficasse claro que tipo de relação o casal tinha em privado. 

Entretanto, não havia sinais concretos de homossexualidade – ainda que reprimida - por parte do Führer, mesmo que tenha convivido e tolerado por muitos anos o comando homossexual assumido de Ernst Röhm e seus parceiros (de cama, inclusive) na SA (Sturmabteilung), o braço armado do partido nazista. Além disso, a homossexualidade não foi razão determinante na eliminação da liderança gay da SA na Noite das Longas Facas de 30 de junho de 1934, mas a disputa interna do poder no partido que havia recém assumido o governo alemão. 

Embora abominasse a homossexualidade de Röhm, enquanto este lhe foi útil Hitler fez vistas grossas e o tolerou. Os fins (a sobrevivência do partido e a manutenção da força e da coesão do grupo) justificavam os meios. 

Na série de entrevistas que concedeu posteriormente a Joachim Fest, compiladas em outro livro, Albert Speer disse que Hitler era tão ególatra que talvez seu perfil sexual mais adequado fosse o de um "masturbador compulsivo", ou "um onanista nato", [atualizamos] como traduz a edição brasileira de 2012 ("Conversas com Albert Speer", Ed. Nova Fronteira, pág. 35). 

A própria relação de Speer com Hitler foi vista como "estranha" por aqueles que compartilhavam do círculo íntimo do Führer, embora no que se refira ao supremo líder as palavras "amizade" e "intimidade" sejam impróprias. 

No livro de Joachim Fest se levanta a suspeita de que houvesse, sobretudo da parte de Hitler, um interesse platônico de cunho homoerótico por Speer, que era, afinal, o "galã" da alta cúpula nazista. 

Fest comenta a foto abaixo dizendo que, não fossem os personagens serem quem são (Speer e Hitler sentados pensativos e afastados num banco), qualquer pessoa diria que se tratava de uma evidente crise de um relacionamento romântico:


Speer e Hitler, uma relação delicada

Foi estranha, realmente, a atitude de Speer nos últimos dias do Terceiro Reich. 

No último aniversário de Hitler (20 de abril de 1945) ele esteve no bunker para parabenizar o Führer, quando os soviéticos estavam a poucos quilômetros dali. Desafiando todos os riscos, retornou dois dias depois para, segundo se justificaria mais tarde, não parecer covarde e e se despedir adequadamente do seu líder. 

Apesar do perigo a que se expôs e das poucas horas de conversa que o líder nazista lhe concedeu, o adeus foi frio e convencional. Havia algo, digamos, diferente no relacionamento entre os dois. 

Nada conclusivo ou levado às últimas consequências, entretanto. Hitler era, ao que tudo indica, incapaz de se relacionar ou de se sentir parte de um grupo ou um envolvimento amoroso de qualquer espécie, o que deixou sem solução este seu desejo mórbido de pertencer. 

Provavelmente, nenhuma imagem revele mais este sentimento (que representa - no fundo - o sonho do retorno a uma infância perdida e idealizada) do que a foto abaixo, em que observa a maquete da planejada reconstrução de sua cidade natal, Linz, feita às pressas pelo arquiteto Hermann Giesler em fevereiro de 1945, quando dois milhões e meio de soldados soviéticos já batiam às portas de Berlim. 


Hitler admira uma maquete enquanto a Berlim real desmorona

O arquiteto favorito Albert Speer tentava, então, garantir alguma sobrevida à indústria de armamentos, bem como (na surdina) convencer os oficiais e gauleiters (líderes provinciais) nazistas a não cumprirem a ordem que Hitler lhes dera para destruir toda a infraestrutura alemã, na sua "estratégia" final de terra arrasada, o famigerado "Decreto Nero" (Befehl betreffend Zerstörungsmaßnahmen im Reichsgebiet"). 

Enquanto pôde, Hitler passava horas admirando a maquete de sua cidade natal, não se importando para os milhares de soldados, jovens e idosos mal treinados, que defendiam as ruas destroçadas da capital alemã. 

Não se tratava só de escapismo, algo em que o Führer era viciado, por assim dizer, mas também um saudosismo extemporâneo que o fazia viver pateticamente a versão real (e covarde) do “rosebud” de Charles Foster Kane, o “Cidadão Kane”, filme de Orson Welles (1941).


No começo de sua história, nada indicava que Hitler teria o poder que alcançou. Era austríaco de nascimento, pobre e um candidato medíocre a artista (arquitetura e pintura eram suas paixões mal resolvidas). Lutou na Primeira Guerra Mundial pelo exército alemão, desempenhando funções de mensageiro nas trincheiras da França, tendo sido promovido a cabo no final do embate. 

Aliás, aí já poderia ter sido barrado seu progresso político, pois legalmente não podia ter se integrado às tropas alemãs por ser cidadão austríaco. Uma série de manipulações legais e omissões das autoridades (ir)responsáveis pavimentou o seu caminho político na Alemanha. 

Por outro lado, se tivesse sido aceito na escola de Belas Artes de Viena, o mundo teria sido poupado de suas atrocidades. Ainda antes da Primeira Guerra, viveu numa espécie de pensionato masculino de Viena, sustentando-se com suas pinturas sofríveis, que eram inclusive comercializadas por mercadores de arte judeus. 

Até então, não havia nenhum traço de antissemitismo no seu discurso, que ele exercitava nas reuniões comunais do Lar dos Homens de Viena. 

Tudo indica que tenha sido este relacionamento comercial com judeus que o fez querer se informar mais sobre eles, tendo caído em suas mãos farto material antissemita, mas este é um tema que ele só abordaria de forma sistemática e doutrinária (transformando-o em dogma) em Munique após a Primeira Guerra - Kershaw cita à p. 125 a referência explícita aos judeus em um único discurso de 1920 -, na formação do partido nazista e nas reuniões de cervejaria, numa das quais tentaria o golpe (“putsch”) de 9 de novembro de 1923. 

O fracasso do putsch e a prisão decorrente em Landsberg terminariam, por assim dizer, de “formatar” o seu pensamento radical. Nos seis meses em que ficou preso em Landsberg, dedicou-se à leitura de Darwin e Nietzche, e ali desenvolveu a sua versão tresloucada de “darwinismo social” que o acompanharia até o último dia no bunker, como bem mostra o filme “A Queda”, em que diz que se o povo alemão não fosse capaz de vencer a guerra, deveria ser extinto segundo a sua mórbida teoria de “seleção natural”. 

Ali em Landsberg, de certa forma, transformou-se na encarnação do Übermensch ("Super-Homem") de Nietzche, que faz o que quer sem compaixão e toma o máximo poder sem considerações ou limitações "menores" de cunho humanístico ou religioso.

Dali por diante, houve uma sucessão de infortúnios para a República de Weimar, a quem Hitler culpava pela rendição e decadência alemã pós-guerra. 

Fiel à sua política de tudo ou nada (que manteve até o final), bateu de frente com todos os demais partidos políticos alemães, que, por sua vez, perderam todas as muitas oportunidades que tiveram de barrar a radicalização nazista que chegou ao poder em 30 de janeiro de 1933, diga-se a seu favor (e por incrível que pareça), de forma legítima e democrática (dentro do que era possível ser "democrata" naqueles tempos). 

Hitler atribuía essa trajetória àquilo que ele chamava de “Providência”, embora não houvesse neste termo nenhuma referência religiosa de qualquer espécie, pois abominava tanto católicos como protestantes na Alemanha, vítimas constantes de suas catilinárias petit comité, mas não media esforços para manipulá-los, e estes se submetiam de bom grado, com raras (e facilmente extermináveis) exceções. 

O “deus” de Hitler era ele mesmo, e por “Providência” ele entendia a própria vontade, à qual misticamente reservava um “triunfo” final. 

Não por acaso, “O Triunfo da Vontade”, filme de Leni Riefenstahl (1935), filme autolaudatório nazista, reflete este tema recorrente dos discursos de Hitler, em que ele apelava para uma espécie de “destino manifesto” reservado para o Führer à frente da raça ariana, na forma daquilo que seria posteriormente conhecido por “pensamento positivo”, ou seja, bastava ele querer e pensar, que seus objetivos seriam magicamente alcançados, por mais maléficos ou impossíveis que parecessem a princípio. 

Lamentavelmente, qualquer semelhança com o discurso triunfalista atual, especialmente de cunho religioso, não é mera coincidência. 

Retórica, portanto, era a grande força de Hitler. Seus dotes teatrais não reconhecidos em Viena vinham agora à tona da pior forma possível. Alicerçou no antissemitismo o inimigo que despertou os instintos mais primitivos no povo alemão, encontrando enorme ressonância interna e externa, já que somente ele tinha coragem de dizer e transformar em política de Estado aquilo que boa parte da elite mundial pensava, mas temia admitir. 

Graças à astúcia e ao talento maligno de Goebbels (foto abaixo), por outro lado, soube - como ninguém antes dele – explorar os requintes sub-reptícios da propaganda. Goebbels se revelaria - também - um "profeta pela metade", já que em 1943 diria: "Ficaremos na história como os maiores estadistas de todos os tempos ou como seus maiores criminosos". A última opção venceu.
Goebbels, o "profeta" do mal


O que a biografia de Kershaw deixa claro é que havia, de fato, uma misteriosa “Providência” agindo na vida de Hitler e nos destinos do povo alemão. Não foi só a omissão e a estultícia dos políticos adversários que permitiram a ascensão de Hitler ao poder, numa autofagia imperceptivelmente programada da República de Weimar. 

As instituições alemãs foram se submetendo pouco a pouco aos delírios do Führer, sem que para isso ele precisasse fazer muita força. Basta dizer que o reles cabo do fim da Primeira Guerra Mundial (1918) viu cair no seu colo vinte anos depois, por incompetência e escândalos pessoais dos seus generais, o comando da Wehrmacht, o Exército alemão. 

Nas demais áreas, paradoxalmente, o seu estilo desastroso de liderança contribuiu em muito (instintiva e inadvertidamente) para que seu poder fosse reforçado. 

Hitler era um administrador medíocre, e por isso se cercava de várias esferas de poder que se sobrepunham e confundiam, mas estavam todas debaixo do guarda-chuvas de sua vontade suprema. 

Gente desocupada e desqualificada se agarrava ao partido para alcançar cargos aos quais jamais chegariam pelas vias regulares em tempos "normais". Seus "talentos" pessoais e laborais se circunscreviam à maldade e à perversão. 

Os muitos chefetes competiam não só pelo poder como pelos favores do Führer, e isto fazia com que todos tratassem de agradá-lo o máximo possível, desempenhando com afinco aquilo que ficou conhecido como “o trabalho de Hitler”. 

O líder nazista não precisava sujar as mãos na execução de suas ideias macabras, sobretudo quanto ao holocausto e à posterior "solução final" para os judeus. Havia uma legião de fanáticos aproveitadores sempre dispostos a auxiliá-lo e a se anteciparem às próprias vontades do líder-ídolo. 

Este, por sua vez, traçava as linhas gerais nos seus discursos de ódio, e sua corja de admiradores obsessivo-compulsivos tratava de levá-las a cabo (leia-se: "às últimas consequências"), interpretando nas entrelinhas o que correspondia à “vontade de Hitler”, o que provocou uma metástase em toda a sociedade alemã, já que indivíduos inexpressivos se sentiam autorizados a implementar medidas bizarras que entendiam como “sintonizadas” com os desejos mórbidos de seu líder supremo. 

Os objetivos do Estado alemão eram os objetivos de Hitler, o totalitarismo personificado que determinava a seu bel prazer os destinos de corações e mentes do país. 

É claro que houve uma tímida oposição à barbárie instalada no país, mas os adversários eram sumariamente eliminados ou presos. O fanatismo era a regra que contaminou praticamente toda a população alemã. 

A “Providência” se revelou ainda nas muitas oportunidades que houve para assassinar Hitler, única alternativa que restava aos poucos militantes contrários. Em todas as tentativas (a maioria não chegou a ser descoberta), sempre houve algum empecilho ou imprevisto de última hora que impossibilitou a consumação do atentado. 

O último deles, a famosa Operação Valquíria, conseguiu explodir uma bomba na Toca do Lobo em 20 de julho de 1944, mas Hitler escapou com apenas alguns arranhões, o que serviu para reforçar nele este apreço desmedido à tal “Providência” (leia-se: a sua própria vontade) que o protegia e o destinava a um triunfo final glorioso. 

Ele se sentia o "iluminado" e as circunstâncias externas apenas confirmavam (e reforçavam) sua autoimagem macabra. Por isso, não havia o que tergiversar: para o Führer era tudo ou nada, preto ou branco, mesmo que milhões de alemães (e dezenas de milhões de outros povos) morressem inutilmente durante este percurso trágico. O destino de todos, ainda que imaginário e individualmente pensado, já estava traçado na cabeça de Hitler. 

Talvez outro tipo de "Providência" tenha se revelado, entretanto, quando o Führer abortou o programa nuclear antes do começo da guerra, e tenha interferido tanto nos projetos do avião a jato e das bombas voadoras (V1 e V2) que eles sofreram um brutal atraso que só os tornou viáveis no fim do conflito e - pior para os alemães - quando não havia nem combustível suficiente para fazê-los voar. Tarde demais para o Terceiro Reich.

Propaganda russa contra Hitler
Numa tradução livre, diz algo como
"Destrua impiedosa e cruelmente o inimigo"
sobre um "доровор" ("dorovor" - tratado) rasgado entre URSS e Alemanha


O seu triunfo final, felizmente para a humanidade, não chegou. Todas as vitórias eram saboreadas e “faturadas” por Hitler como comprovação de sua fiel “Providência”, até chegar a Stalingrado, quando sofreu a primeira (e talvez maior) derrota em fevereiro de 1943. 

Daí por diante, as forças soviéticas empurraram rapidamente os exércitos alemães de volta a Berlim, num dominó fatídico de generais que foram perdendo suas cabeças e seus cargos, e a quem Hitler imputava a culpa pelos erros estratégicos que eram só dele, o ex-cabo promovido (por si mesmo) a chefe do Estado Maior das Forças Armadas. 

Seus quartéis generais foram se deslocando de Wehrwolf (em Vinnytsia, na Ucrânia), para a Toca do Lobo (Wolfsschanze) em Rastenburg, na Prússia Oriental (atual Kętrzyn, na Polônia), terminando por se enfurnar nos subterrâneos da outrora esplendorosa Chancelaria de Berlim, com sua ostentação de granitos e mármores que para nada mais serviam senão testemunhar gelidamente o fim de seu criador. 

Até seu último momento no bunker, esperou por uma virada do destino que não veio. A “Providência” finalmente lhe mostrou a cara, e lhe negou o beijo de despedida, porque simplesmente ela só existia nos seus delírios e em sua megalomania, provocados em larga escala (também) pelos muitos remédios que tomava, inclusive um misterioso colírio à base de cocaína. 

Justo ele que era vegetariano e prezava (e pregava) tanto os hábitos saudáveis, revelou ser também um hipocondríaco contumaz. 

Seu ocaso no bunker de Berlim revela a miséria humana de que era emocionalmente constituído, e também o cercava com seus asseclas procurando, como baratas tontas, uma via de escape. 

Os últimos dias de Hitler foram o de um rato preso na própria ratoeira, sem esperança de salvação. 

Atitudes patéticas foram tomadas, como movimentar exércitos imaginários em mapas defasados, condenar à morte traidores de última hora e assinar decretos inúteis que não seriam lidos nem cumpridos por ninguém. 

A última foto registrada de Hitler fora do bunker mostra o seu desalento final:


O fim

É muito fácil e cômodo chamar Hitler de “psicopata” ou “monstro”, mas lamento dizer que todas as evidências apontam no sentido de que ele era tão humano como qualquer um de nós. Demasiado humano, talvez.

Tende a se tornar perene a questão sobre como se deu essa mescla tenebrosa de vontades de um líder carismático com o seu povo. 

É este o enigma aparentemente insolúvel: como foi que milhões de pessoas "normais" se deixaram enredar e engolir pela máquina de destruição nazista, o maior turbilhão de maldade que a humanidade experimentou. 

O discurso incendiário de um único homem não seria capaz de fornecer ignição suficiente para tamanha fogueira. 

Afinal, a Alemanha já era à época um país sofisticado, de altos níveis de educação e cultura, ainda que humilhado pela derrota na Primeira Guerra e os graves problemas econômicos e sociais (sobretudo a hiperinflação) daí advindos. 

A busca do bode expiatório nos judeus e comunistas, estranhamente associados por Hitler, teve ampla aceitação popular que pode não ter sucumbido com a acachapante derrota final. 

Nesse aspecto é sintomática a declaração de Hanna Reitsch (foto abaixo), heroína aviadora reconhecida no mundo todo e que só veio a falecer em 1979. 

Quatro dias antes do suicídio de Hitler, após um voo e aterrissagem altamente perigosos e improváveis junto ao Portão de Brandenburgo, ela esteve no Führerbunker juntamente com Robert Ritter von Greim (que assumiria o lugar de Hermann Göring na Luftwaffe naquele mesmo dia), e muito a contragosto deixou o bunker a mando de Hitler dois dias depois, já que lhe devotava verdadeira adoração. 

Em 1970, ela se justificaria numa entrevista ao jornalista americano Ron Laytner de maneira contundente: "E o que nós temos agora na Alemanha? Uma terra de banqueiros e fabricantes de carros. Até o nosso grande exército se tornou suave. Soldados usam barbas e questionam ordens. Eu não estou envergonhada em dizer que eu acreditava no Nacional-Socialismo. Eu ainda visto a Cruz de Ferro com diamantes que Hitler me deu. Mas hoje em toda a Alemanha você não consegue encontrar uma simples pessoa que votou e levou Adolf Hitler ao poder... muitos alemães se sentem culpados pela guerra. Mas eles não explicitam a real culpa que nós compartilhamos - a de que nós perdemos..."


Hanna Reitsch cumprimenta Hitler


A meu ver, o conjunto da biografia de Ian Kershaw corresponde àquilo que outra Hannah - Hannah Arendt (1906-1975) -, a grande filósofa judia de origem alemã, com o seu refinado senso de humor (que beira o sarcasmo), consegue chegar ao âmago da questão da colaboração massiva da população alemã com os nazistas, no seu livro escrito em 1963, "Eichmann em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal" (Companhia das Letras, 1999). 

Primeiramente, na constatação que Adolf Eichmann faz (contrariado) sobre Hitler na entrevista que havia concedido secretamente (em 1955) na Argentina, ao - colaborador nazista e também fugitivo - jornalista holandês Willem S. Sassen (pp. 142-143): "Muito típica disso foi sua última palavra sobre o assunto Hitler - a quem ele e seu camarada Sassen haviam combinado 'deixar de fora' em sua entrevista; Hitler, disse ele, 'pode ter estado errado do começo ao fim, mas uma coisa está acima de qualquer dúvida: esse homem conseguiu abrir seu caminho de cabo lanceiro do Exército alemão até Führer de um povo de quase 80 milhões [...] Bastava o seu sucesso para me provar que eu devia me subordinar a esse homem'. Sua consciência ficou efetivamente tranquila quando ele viu o zelo e o empenho com que a 'boa sociedade' de todas as partes reagia ao que ele fazia. Ele não precisava 'cerrar os ouvidos para a voz da consciência', como diz o preceito, não porque ele não tivesse nenhuma consciência, mas porque sua consciência falava com 'voz respeitável', com a voz da sociedade respeitável a sua volta". 

O relato de Hannah Arendt sobre Eichmann tem o surpreendente condão de revelar (e resumir) toda uma sociedade mediante a análise de um único indivíduo, como se percebe claramente às págs. 64-65 do seu livro referido acima:


Hannah Arendt
No entanto, o caso de Eichmann é diferente do criminoso comum, que só pode se proteger com eficácia da realidade do mundo não criminoso dentro dos estreitos limites de sua gangue. Bastava a Eichmann relembrar o seu passado para se sentir seguro de não estar mentindo e de não estar se enganando, pois ele e o mundo em que viveu marcharam um dia em perfeita harmonia. E a sociedade alemã de 80 milhões de pessoas se protegeu contra a realidade e os fatos exatamente da mesma maneira, com os mesmos auto-engano, mentira e estupidez que agora se viam impregnados na mentalidade de Eichmann. Essas mentiras mudavam de ano para ano, e frequentemente se contradiziam; além disso, não eram necessariamente as mesmas para todos os diversos níveis da hierarquia do Partido e para as pessoas em geral. Mas a prática do auto-engano tinha se tornado tão comum, quase um pré-requisito moral para a sobrevivência, que mesmo agora, dezoito anos depois do colapso do regime nazista, quando a maior parte do conteúdo específico de suas mentiras já foi esquecido, ainda é difícil às vezes não acreditar que a hipocrisia passou a ser parte integrante do caráter nacional alemão. Durante a guerra, a mentira que mais funcionou com a totalidade do povo alemão foi o slogan "a batalha pelo destino do povo alemão" [der Schicksalskampf des deutschen Volkes], cunhado por Hitler ou por Goebbels, e que tornou mais fácil o auto-engano sob três aspectos: sugeria, em primeiro lugar, que a guerra não era guerra; em segundo, que fora iniciada pelo destino e não pela Alemanha; e, em terceiro, que era questão de vida ou morte para os alemães, que tinham que aniquilar seus inimigos ou ser aniquilados.




A conclusão de Hannah Arendt é para mim, portanto, brilhante. Hitler e Goebbels conseguiram convencer os nazistas e - pior - o povo alemão de que ninguém era culpado por nada, mas a tal "Providência" os havia colocado naquela situação sem volta, o beco sem saída do destino triunfal ariano e antissemita, que o Führer chamava de busca do "espaço vital" (Lebensraum) pangermânico. 

Era este o Éden que prometia aos alemães: a colonização de toda a Europa, sem compaixão, escrúpulos ou culpa, e com todos os benefícios espúrios (e despojos) advindos da eliminação "pura" e simples de todas as populações concorrentes. Era esta a visão hitlerista do darwinismo. 

Por isso fica difícil "romantizar" a questão da participação coletiva dos alemães nessa empreitada fatídica, como se tivessem sido todos enganados por um único estelionatário carismático. 

Tanto os jovens soldados que morreram nos campos de batalha, como o povo que padecia e sucumbia aos constantes bombardeios aliados na segunda metade da guerra, realmente acreditavam nas ideias fascistas de seu Führer, e mesmo nos estertores do regime, ainda esperavam que a "sorte" (ou "Providência") que tanto auxiliara Hitler na sua ascensão ao poder e no início do conflito, reapareceria como que num passe de mágica, dando-lhes tempo para reagrupar as forças e eles continuariam lutando pelos mesmos objetivos racistas e totalitários que por pouco não os havia dizimado. 

Se havia descontentamento contra Hitler no final da guerra, era muito mais pelo custo humano que ela causava e pela evidente (e vergonhosa, para o espírito belicista alemão) impossibilidade de vitória, do que propriamente por discordância das ideias nefastas do Führer. 

Na metáfora que consigo captar de toda essa tragédia, a imagem funciona como se Hitler fosse o maquinista de um trem macabro que fez algumas paradas no início do trajeto, recolheu toda a população alemã e empreendeu alta velocidade com destino a Lebensraum

Conforme o comboio avançava (e perdia os freios), milhões de judeus e de outros excluídos foram sendo descartados nos precipícios que margeavam a ferrovia, enquanto outros tantos milhões de jovens soldados alemães, soviéticos e de outras nacionalidades eram impiedosamente atropelados pela enorme locomotiva nazista, a que Hitler batizara pelo eufemismo de "Providência". 

Já que estavam todos embarcados mesmo, não havia o que fazer, senão esperar o desfecho. Só que o maquinista - covardemente - se suicidou ao saltar da locomotiva no último momento, e por sorte - ou por outro tipo benfazejo de "Providência" - a composição conseguiu parar antes da aniquilação completa e ainda sobrou uma enorme população para reconstruir a Alemanha. 

Sintomático, contudo, que a população da Alemanha reunificada seja hoje praticamente a mesma que os 80 milhões à época do nazismo, como Hannah Arendt bem cita no texto acima.



Talvez a única contribuição do horror nazista à humanidade seja o fato de que tenhamos nos convencido de que o ser humano é capaz de perpetrar as mais inimagináveis atrocidades e as gerações posteriores de líderes mundiais tenham se tornado cientes de que uma nova guerra mundial também seria a última, e por isso evitassem a todo custo acender o derradeiro estopim. 

O mundo não se tornou mais seguro, entretanto, pois vivemos até hoje as consequências nefastas do conflito encerrado em 1945. 

Basta citar um exemplo: a fundação do Estado de Israel, que representou - de certo modo - o cumprimento da “profecia” de Hitler de que os judeus seriam “varridos da Europa”, continua influenciando os destinos do planeta. 

A recente crise no Egito reflete a insegurança causada pelos conflitos na Palestina e remete à besta religiosa que está sempre pronta a despertar. 

Por outro lado (e paradoxalmente), se o fator Hitler não tivesse existido as tensões então latentes poderiam ter se esgarçado bem mais tarde e de forma muito mais letal, dando destino terminal ao planeta. 

As máquinas e armas utilizadas na Segunda Guerra rapidamente se transformaram em peças de museu. Houvesse o conflito estourado uma década mais tarde, talvez não estivéssemos mais aqui contando a história. 

Enfim, o mundo continua tão perigoso e contraditório quanto era no nem tão longínquo ano de 1939. O caldeirão de ódio, fanatismo, preconceito e intolerância continua cozinhando em fogo brando, mas sempre pronto para estourar ao menor descuido. 

A diferença, para nossa acalentada esperança, é que hoje talvez haja muito mais gente atenta para identificar seus sinais e disposta a combatê-los. 

O nazismo não pode ser apenas uma pálida lembrança que a humanidade quer varrer para debaixo do tapete. 

Melhor seria, sem dúvida, nem ter que se preocupar com isso, mas a biografia de Ian Kershaw deve ser lida e recomendada como um alerta de que a História costuma não perder a chance de se repetir.




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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Rabino é acusado de pedofilia em Israel

Pedofilia é um mal que não se limita a uma determinada religião, embora repita o padrão de que o abusador geralmente está em posição de autoridade que facilita a sua atitude de manipular (emocional e fisicamente) o menor de idade que está em alguma posição de submissão. Notícia de hoje dos sites israelenses Haaretz e The Jerusalem Post informam que o rabino Mordechai ("Moti") Elon foi indiciado pelo Ministério Público daquele país sob a acusação de ter molestado 2 adolescentes em 2003 e 2005. A primeira vítima que o acusou é um jovem rapaz que, em depoimentos entre 2005 e 2006, disse ter sido abusado pelo rabino quando ainda era menor, e que o religioso teria cometido "atos indecentes" contra ele, aproveitando-se de sua posição de rabino e professor, e ameaçando-o de perseguição caso não se submetesse aos seus caprichos (mórbidos) sexuais. A investigação que se seguiu encontrou fortes evidências de que os fatos realmente aconteceram, e a denúncia foi reforçada por outra pessoa (ao que tudo indica, também do sexo masculino e que havia sido aluno do acusado) que veio a público e se apresentou também como vítima do rabino Moti Elon. A comunidade judia ortodoxa de Israel a princípio tentou tratar o caso internamente, mas alegando que o rabino não havia obedecido as restrições que lhe foram impostas, sobretudo quanto ao trato com alunos do sexo masculino, também denunciou o caso publicamente. Agora o processo criminal foi aberto e o religioso será julgado segundo as leis locais. Moti Elon é muito famoso em Israel, principalmente por ter apresentado um programa religioso na televisão por muitos anos, e ser filho de Menachen Elon - antigo ministro da Suprema Corte do país -, e irmão do político Binyamin "Benny" Elon, atualmente ministro do Turismo de Israel. O advogado de Moti Elon, Yair Golan, diz que não houve qualquer crime e que o rabino seguirá lutando para que a verdade venha à luz.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Católicos americanos já podem se confessar via iPhone

Notícia do Radar Tecnológico do Estadão:

Igreja Católica nos EUA aprova aplicativo para confissões

Um aplicativo de iPhone destinado a ajudar os católicos a se confessarem (e encorajá-los ao retorno da fé) foi sancionado pela Igreja Católica americana. É o que informa a Reuters.

O app Confession: A Roman Catholic foi criado pela empresa Little iApps e já está disponível no iTunes por US$ 1,99.

Segundo seus inventores, o software não substitui o ritual da confissão e, sim, um padre ainda é necessário para perdoar os pecados. Mas afirmam categoricamente que o uso do app foi “oficialmente autorizado pelo bispo Kevin Rhoades, da Diocese de Fort Wayne, em Indiana”.

O conteúdo do Confession: A Roman Catholic foi desenvolvido com a ajuda dos bispos Thomas Weinandy, da Conferência de Bispos Católicos Americanos (USCCB), e Dan Scheidt, da Igreja Católica Rainha da Paz, de Indiana.

Basicamente, são quatro passos: a configuração do usuário; um exame de consciência (onde o usuário relembra os dez mandamentos e responde um teste); a confissão em si e o que os padres dizem sobre isso.




O site Olhar Digital publicou os esclarecimentos do Vaticano a respeito do aplicativo em questâo:

Igreja Católica declara que aplicativo para iPhone não substitui confissão

Porta-voz do Vaticano destaca que o programa deve ser apenas um estímulo para os católicos

O vaticano veio a público nesta quarta-feira (9/2) esclarecer que o aplicativo para iPhone que permite confessar pecados pelo smartphone não substitui uma confessão tradicional, realizada na presença de um padre.

De acordo com notícia divulgada pela Reuters, o Vaticano veio a público informar que a Igreja Católica enxerga o aplicativo, chamado de Confession: A Roman Catholic, como uma forma de estimular as pessoas a realizar confissões e frequentar a igreja.

"Não se pode falar de forma alguma de se confessar pelo iPhone", ressaltou o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, acrescentando que a presença de um padre não pode ser substituída por um aplicativo.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

A "brincadeira" do Malafaia



Acordei cedo hoje, liguei a TV e lá estava Malafaia fazendo o que mais gosta (aparentemente): pedindo dinheiro, desta vez sem Morris Cerullo ou Mike Murdoch a justificar qualquer "semeadura", mas com mais uma surrada versão dos "100 x mais". 

Alegando que mais de 50% dos seus "parceiros ministeriais" (seja lá o que isto signifique) não haviam enviado suas "ofertas" em janeiro, e que sua associação estava operando no vermelho, Silas Malafaia implorava para que seus telespectadores continuassem sustentando o seu programa. 

Nada muito diferente do que ele costumeiramente faz, até que, assim, do nada, soltou a seguinte pergunta-pérola: "merrrmão, você sabe quanto custa sustentar ESTA BRINCADEIRA TODA?". 

Fiquei pasmo pois, pelo contexto do seu apelo, "esta brincadeira toda" se refere àquilo que ele chama de "ministério".

Teria sido um ato falho de Malafaia? 

Dificlmente, pois dinheiro não é problema para a produção dele, e cada palavra dos seus apelos financeiros é cuidadosamente estudada e empregada. 

Além disso, Malafaia tem formação acadêmica de psicólogo, e sabe que Freud já dizia que por trás dos atos falhos, muitas vezes se esconde o real desejo e o verdadeiro propósito do inconsciente de quem os comete. 

Em outras palavras, os atos falhos os entrega, os denuncia. 

Se não é ato falho, então a falha é pior do que parece. 

A única alternativa restante é que Malafaia conscientemente chama o seu ministério de "brincadeira". 

Agora, ainda que queira se defender dizendo que é apenas uma força de expressão mal colocada, um pregador que se avoca a importância que ele atribui a si mesmo deveria estar ciente da advertência de Jesus em Mateus 12:36 - "que de toda palavra fútil que os homens disserem, hão de dar conta no dia do juízo". 

De qualquer maneira, diante de uma atitude tão fútil como profana, fica a dúvida no ar: teria Malafaia - inadvertidamente - admitido que tudo isso que ele chama de "ministério" não passa - no fundo - de uma brincadeira para o seu deleite (dele)?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Reino Unido deixa de ajudar países pobres para pagar visita do papa

A favor do papa, diga-se que ele não tem nada a ver com isso. O que espanta é que o governo britânico tenha tirado dinheiro que seria destinado a ajuda humanitária a países pobres para financiar parte dos gastos que o país teve com a recepção ao papa Bento XVI na visita oficial que ele fez ao Reino Unido em setembro de 2010. A notícia é do Instituto Humanitas da Unisinos:

A viagem do Papa ao Reino Unido foi financiada com fundos de ajuda a países pobres

O Reino Unido utilizou 1,85 milhão de libras (cerca de 2,2 milhões de euros) destinados à ajuda ao desenvolvimento para pagar parte da visita do Papa Bento XVI de setembro passado, segundo uma auditoria oficial.

A reportagem está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 03-02-2011. A tradução é do Cepat.

Concretamente, foi uma comissão parlamentar que detectou este financiamento “um tanto surpreendente” ao revisar as contas do Ministério do Desenvolvimento Internacional.

Um porta-voz do próprio ministério, citado pelo Independent, reconheceu essa contribuição, alegando que dessa maneira reconhecia “o papel da Igreja católica como uma das maiores fontes de serviços sanitários e educativos nos países em desenvolvimento”.

A soma representa quase uma quinta parte dos aproximadamente 10 milhões de libras pagos pelo contribuinte com a histórica visita de Estado de quatro dias do Pontífice. A Igreja católica contribuiu com outro tanto, segundo estimativas da imprensa local.

Os argumentos do Governo são os mesmos que já usou em setembro para justificar um gasto muito impopular entre a população britânica, onde apenas 10% é católica.

“Muita pessoas estarão tão surpresas como nós ao descobrir que o dinheiro britânico destinado à ajuda foi empregado para financiar a visita do Papa do ano passado”, disse agora o deputado Malcom Bruce, que preside a comissão de ajuda internacional.

O Governo “deve explicar exatamente em que se gastou esta quantidade e como se encaixa com nossos compromissos de ajuda internacional”, acrescentou o parlamentar do Partido Liberal Democrata, aliado dos conservadores no poder.

A peça orçamentária destinada à ajuda ao desenvolvimento foi uma das poucas que escapou do drástico plano de recortes anunciado em outubro passado pelo novo Executivo de David Cameron.

Cristãos e muçulmanos unidos nos protestos egípcios


Os protestos pelo fim da ditadura Mubarak no Egito se iniciaram no dia 25 de janeiro e vêm aumentando tanto em tamanho como repercussão a cada dia que passa. 

Vários tweets de pessoas presentes à manifestação já vinham reparando num detalhe que tem passado desapercebido, e obviamente necessita de confirmação: a de que os cristãos egípcios estão protegendo seus compatriotas muçulmanos quando estes têm que parar tudo para fazer as suas cinco rezas diárias, sobretudo na sexta-feira, o dia sagrado para o Islã. 

Já no dia 28 de janeiro, Sarah Raslan comentava no seu Twitter que "cristãos egípcios vão proteger os muçulmanos das forças de segurança enquanto eles oram amanhã. Unidos contra o governo":



O fato chamou a atenção pois, além da aliança inusitada, no começo do ano 23 cristãos coptas foram mortos num atentado a bomba a uma igreja cristã em Alexandria. 

Naquela ocasião, indignados com a matança injustificada de inocentes, os muçulmanos egípcios já tinham se colocado ao redor das igrejas cristãs oferecendo seus corpos como escudos humanos para proteger seus compatriotas coptas e seus templos da barbárie religiosa radical. 

Os cristãos coptas representam cerca de 10% da população do Egito, embora muitas vezes não sejam sequer recenseados, apesar de estarem presentes no país desde muitos séculos antes dos muçulmanos. 

Alexandria, por exemplo, foi uma das 5 sedes patriarcais da Igreja Cristã primitiva, ao lado de Roma, Antioquia, Jerusalém e Constantinopla, e foi lá que Ário teve sua heresia inicialmente condenada por Atanásio, resultando numa disputa somente resolvida no Concílio de Niceia no ano 325.

Ontem eu vi no Yfrog uma foto que se referia a esta união entre duas religiões rivais no Egito, e hoje vejo no site britânico Daily Mail (via Pavablog) que, aparentemente, há um fundo de verdade nesta solidariedade entre cristãos e muçulmanos egípcios, conforme se pode verificar pelas fotos abaixo. 

A se confirmar isso, estão dando um grande exemplo ao mundo não só de respeito e tolerância entre religiões, mas também da luta de um povo por seus objetivos comuns de liberdade e democracia. Que valha para todos e para todas as épocas, então!


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O desafio dos cristãos chineses: evangelizar os muçulmanos

Como o atual cenário econômico mundial reflete, é melhor não duvidar da capacidade empreendedora do povo chinês. Quando a China se move, o mundo treme. Ao iniciar sua Grande Marcha em 16 de outubro de 1934, com a frase que se tornou célebre - "Toda grande caminhada começa com o primeiro passo" - poucos acreditavam que 368 dias e 10.000 km depois Mao Tse Tung poria os pés na Grande Muralha, controlando vastos territórios e ganhando enorme força apesar da invasão japonesa e da Segunda Guerra Mundial que já estava às portas, até que em 1949 é fundada a República Popular da China, que tinha à época apenas 1 milhão de cristãos. Apesar da tentativa de banir a religião (ou controlá-la), existem hoje 100 milhões de cristãos na China, e segundo informa o jornal norteamericano The Washington Post em sua edição de hoje, 03/02/11, parece que eles estão se propondo à maior iniciativa missionária (evangelizadora, portanto) da história do cristianismo: evangelizar 2 bilhões de pessoas (na maioria, muçulmanos) que vivem nos países que compõe a Rota da Seda, antigo caminho dos mercadores medievais entre a Europa, o Oriente Médio e a China, passando por Irã, Afeganistão, Paquistão e Índia, entre outras antigas repúblicas soviéticas islâmicas.

Segundo relata The Washington Post, nos últimos 20 anos cristãos chineses foram se instalando em toda essa região, geralmente trabalhando com comércio ou na indústria, se reunindo secretamente em igrejas dentro de um projeto chamado "Back to Jerusalem" ("De Volta a Jerusalém"), que tem como mote "o chamado de Deus à Igreja Chinesa para completar a Grande Comissão" (veja o vídeo abaixo). A maior parte de todo este trabalho já se deu de forma, digamos, "subterrânea", em que milhares (talvez milhões) de chineses foram alocados nesses países sem despertar suspeita das autoridades locais, que fecham seus territórios para missionários cristãos ocidentais, mas não imaginavam que a "ameaça" cristã pudesse vir da China, cujo governo tem enorme facilidade de fazer emigrar seus cidadãos em função dos múltiplos e diversificados investimentos que tem na Ásia. Em 2003, no livro "Jesus in Beijing: How Christianity Is Transforming China And Changing the Global Balance of Power" ("Jesus em Pequim: Como o Cristianismo Está Transformando a China e Mudando o Equilíbrio Global de Poder"), o chefe de redação da revista Time na China, David Aikman, já chamava a atenção para o fato de que centenas de milhares de chineses estavam aprendendo árabe nas universidades para trabalhar sobretudo na indústria do petróleo do Oriente Médio e dos países da Rota da Seda, nas mais variadas funções.

Portanto, este é um trabalho que devemos acompanhar com atenção nas próximas décadas, sobretudo com o aumento do poderio econômico, político e militar da China. A provável surpresa é que, enquanto pensavam que seus maiores inimigos eram os Estados Unidos e Israel, os radicais islâmicos não imaginavam que o "perigo" estava mesmo mais pros lados do Oriente. Sorte deles que os evangélicos brasileiros, quando não estão preocupados com o próprio umbigo, só pensam em ser missionários na Flórida.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

3 anos de blog

Este blog nasceu há exatos 3 anos. Começa hoje, portanto, sua quarta temporada. A ideia de criar um blog já vinha amadurecendo por alguns anos, até que no dia 2 de fevereiro de 2008 O Contorno da Sombra fez sua estreia na blogosfera. Tímido a princípio, explorando o terreno, investigando as possibilidades, buscando seu nicho, acostumando-se ao novo mundo. Desde o princípio, procuramos promover e fornecer conteúdo de qualidade dentro das nossas reconhecidas limitações. Aos poucos fomos encontrando o caminho que nos parece mais claro hoje, que é o de abordar temas de alguma forma ligados à religião (não exclusivamente cristã) e à convivência pacífica numa sociedade democrática e tolerante. Tolerância não significa exatamente abster-se de criticar ou eximir-se de discordar, mas expor as nossas opiniões (e a de outros) de maneira respeitosa, abrindo espaço a quem porventura pense diferente e dando-lhe a oportunidade de contrapor seu ponto de vista. Como já existem muitos blogs que tratam dos mesmos temas, procuramos oferecer sempre novas abordagens e posições vistas por outros ângulos que a maioria não havia cogitado. Nem por isso, entretanto, fugimos dos temas mais comentados se pudermos, de alguma forma, acrescentar algo relevante ao enfrentamento da questão.

Não é fácil manter um blog, atividade que demanda muito tempo e intensa dedicação. Dedicação esta que talvez seja a maior prova de que gostamos do que fazemos. A recompensa vem tanto pelo prazer de ver boas ideias circularem livremente como quando vemos que um determinado texto foi importante para alguém ou teve significativa repercussão. Foram 881 textos publicados até hoje. Uma média de 11.000 a 12.000 visualizações de páginas todo mês, bem mais do que esperávamos a princípio. Nesses felizes 3 anos, muita coisa mudou no mundo, em nossas vidas e na blogosfera em geral. Fizemos bons amigos, conhecemos gente muito digna, descobrimos blogs e sites interessantes, e o principal: aprendemos muito. Tudo isso nos anima a prosseguir, querendo Deus, por um bom tempo ainda. Agradecendo a todos os que nos dão o prazer de seu apoio e visita, vamos, então, festejar. Obrigado!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Wikileaks revela suspeita dos EUA sobre evangélicos brasileiros

Pois é, aquela altíssima concentração de missionários, cantores gospel e pastores brasileiros num lugar carente do evangelho como Boca Raton (na Flórida) certamente ia chamar muito a atenção e levantar suspeitas das autoridades norteamericanas, né? Além disso, parece que tem muita gente que vai ser "missionário" nos EUA, mas - sabe-se lá por quê - se esquece de voltar (talvez por não ter evangelizado ninguém, suspeito), segundo matéria publicada n'O Globo de hoje e reproduzida parcialmente abaixo:


EUA suspeitavam de fraudes nos pedidos de visto para religiosos no Brasil, revela WikiLeaks

Carolina Brígido

BRASÍLIA - Correspondência enviada pela diplomacia americana no Brasil aos Estados Unidos revela que a embaixada dos EUA suspeitava de fraudes nos pedidos de visto para religiosos. Em telegrama divulgado pelo site WikiLeaks, o ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil Clifford Sobel afirma que 15% dos vistos do tipo R1, concedidos a religiosos, são fraudados. Ou seja, a pessoa permanece ilegalmente no país, com outro emprego.

Das fraudes, 80% são feitas por pessoas de Goiás. Segundo Sobel, foram concedidos 100 vistos desse tipo entre 2003 e 2005.

O telegrama dá especial atenção aos religiosos da Igreja Universal do Reino de Deus. "Todos os missionários da igreja indicaram no pedido de visto que ficariam nos Estados Unidos por apenas um ano". Em 2006, ninguém havia deixado o país. Sobel informa que os missionários falam inglês muito mal, mas sabem de cor todos os procedimentos de obtenção de vistos e de permanência. Também é dado destaque para religiosos da Assembléia de Deus. Nenhuma das 16 pessoas que obtiveram vistos no período voltou para o Brasil.

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