domingo, 13 de novembro de 2011

Ratinho e Valdemiro Santiago brigam por causa de toalha

A tristemente famosa "toalhinha ungida" do Valdemiro Santiago - aquela que "cancela dívidas" - foi parar no programa do Ratinho da última sexta-feira, dia 11/11/11, que, entre outros "elogios", chamou de "estelionatário da fé" o "pastor" da Igreja Mundial do Poder de Deus que entrevista o sujeito que disse que passou a toalhinha na fechadura do banco e - uma semana depois - a dívida tinha ido pras cucuias sem que ele tivesse que desembolsar um mísero centavinho.

Aliás, não precisa ser muito inteligente pra entender que, se começarem a sumir as dívidas dos contratos devidamente contabilizados nos balanços dos bancos sem que ninguém pague nada de volta, a economia do Brasil vai pelo ralo e todo mundo perde tudo pra que "pastores" possam dizer, na TV, que fazem "mágicas contábeis".

Se bem que nem TV vai restar aberta depois que todo mundo passar a toalhinha na fechadura dos bancos do país. Será que é isso que o "deus" deles quer?

Por outro lado, até que não seria uma má ideia, já que a pastorzada não ia ter mais pra quem pedir dinheiro em troca de toalhinhas e meias ungidas, não é mesmo?

O fato é que, imediatamente após a pancada do Ratinho, Valdemiro Santiago tomou as dores, acusou o golpe, vestiu a carapuça e partiu para o ataque contra o apresentador do SBT.

Será que o quebra-pau entre os "animadores populares" vai fazer as ratazanas abandonarem o navio?

Pelo jeito, a chapa vai continuar quente entre os dois.

O Titanic navega rápido em direção ao iceberg. Confira nos vídeos abaixo:





Atualização de 15/11/11:

No programa da segunda-feira, 14/11/11, o Ratinho, muito sem graça, visivelmente constrangido, não voltou atrás em suas declarações, mas tratou de encerrar a polêmica mandando um abraço para o Valdemiro dizendo que ele é "gente boa". No popular, "afinou"... confira no vídeo abaixo:






sábado, 12 de novembro de 2011

Nem da Rocinha não vai pro inferno porque lê a Bíblia

A entrevista do traficante Nem à jornalista Ruth de Aquino, da revista Época, às vésperas de sua prisão e da ocupação do seu "território" - a favela da Rocinha - por forças da Polícia, do Exército e da Marinha, é uma daquelas matérias épicas da imprensa brasileira, que merecem ser elogiadas e comentadas pela visão que ela permite que as pessoas - de fora dessa realidade - tenham da, digamos, "cultura" que impera nesses pequenos reinos do poder à margem do Estado brasileiro. São alguns pontos tão contraditórios que só a esquizofrenia, individual e coletiva, poderia - talvez - fornecer alguma resposta plausível a essa confusão de valores tão gritante. Tá tudo dominado, só não se sabe por quem. Segundo relata a jornalista, quando encontrou o traficante, ele conversava com um pastor sobre um rapaz viciado de 22 anos: “Pegou ele, pastor? Não pode desistir. A igreja não pode desistir nunca de recuperar alguém. Caraca, ele estava limpo, sem droga, tinha encontrado um emprego... me fala depois”, disse Nem. Abaixo, alguns trechos da entrevista:




Drogas “Não uso droga, só bebo com os amigos. Acho que em menos de 20 anos a maconha vai ser liberada no Brasil. Nos Estados Unidos, está quase. Já pensou quanto as empresas iam lucrar? Iam engolir o tráfico. Não negocio crack e proíbo trazer crack para a Rocinha. Porque isso destrói as pessoas, as famílias e a comunidade inteira. Conheço gente que usa cocaína há 30 anos e que funciona. Mas com o crack as pessoas assaltam e roubam tudo na frente.”

Tráfico “Sei que dizem que entrei no tráfico por causa da minha filha. Ela tinha 10 meses e uma doença raríssima, precisava colocar cateter, um troço caro, e o Lulu (ex-chefe) me emprestou o dinheiro. Mas prefiro dizer que entrei no tráfico porque entrei. E não compensa.”

Ídolo “Meu ídolo é o Lula. Adoro o Lula. Ele foi quem combateu o crime com mais sucesso. Por causa do PAC da Rocinha. Cinquenta dos meus homens saíram do tráfico para trabalhar nas obras. Sabe quantos voltaram para o crime? Nenhum. Porque viram que tinham trabalho e futuro na construção civil.”

Religião “Não vou para o inferno. Leio a Bíblia sempre, pergunto a meus filhos todo dia se foram à escola, tento impedir garotos de entrar no crime, dou dinheiro para comida, aluguel, escola, para sumir daqui. Faço cultos na minha casa, chamo pastores. Mas não tenho ligação com nenhuma igreja. Minha ligação é com Deus. Aprendi a rezar criancinha, com meu pai. Mas só de uns sete anos para cá comecei a entender melhor os crentes. Acho que Deus tem algum plano para mim. Ele vai abrir alguma porta.”




Este último trecho, em que Nem fala sobre religião, mostra como o "inchaço" da igreja evangélica no Brasil está produzindo distorções terríveis na maneira como as pessoas, digamos, "captam" a mensagem que lhes é pregada. "Pastores" convivem e se envolvem com traficantes - sobre os quais pesam crimes os mais terríveis - como se fosse algo absolutamente normal e corriqueiro. Afinal, imagina-se, os fins justificam os meios. Só que a gente não sabe mais quais são os fins nem os meios desse "evangelho" pela metade. Não se prega mais arrependimento, mudança de vida, mas uma série de práticas esotéricas que podem, de alguma forma, garantir uma certa "salvação" ilusória a quem as pratica ou, pelo menos, repete os mantras que lhe são ensinados. Nada muito diferente do que reza a versão popular brasileira do catolicismo. O sincretismo religioso impera no país. Não é surpresa, portanto, que o líder do tráfico na favela da Rocinha, recentemente preso numa batida policial, tenha essa concepção dos "crentes" e do "evangelho" que ele ouve na sua própria casa, já que chama alguns "pastores" para fazerem "cultos" por lá. Algo deve estar muito errado se é este o "evangelho" que está sendo pregado no Brasil.

A excelente reportagem de Ruth de Aquino pode ser lida na íntegra no site da Época.



A cantora gospel besuntada

Outro dia um pastor de Arapongas (PR) tomou um banho de 12 litros de azeite invocando um tal de "Nilo", e a gente o julgou mal, achando que só ele estava viajando na maionese no azeite cóspel. Ledo engano, irmãos, nós até já tínhamos nos esquecido desse triste episódio, mas ele está na companhia da popstar gospel Fernanda Brum que, segundo recorda o Rev. Rodrigo G. da Silva, do blog Pensamento Quase Livre, já havia feito a mesma "lavagem" em Londres, em 2008. Aliás, eu sempre estranho porque esses "servos" do Senhor nunca vão ministrar em lugares pobres, que não faltam no mundo. Eles nunca vão pras regiões miseráveis da África, por exemplo. Estão sempre em Londres, Paris e Boca Raton, na Flórida. E sempre sobre tempo pra dar uma esticadinha e comprar uma bota de píton na Prada de Nova York, não é mesmo?. Eita bênção, sô! Na ocasião britânica em questão, Fernanda Brum diz que vai fazer uma "dinâmica" de "improviso" para mostrar uma tal de "unção de Arão". Talvez ela pratique uma religião em que o deus dela goste de "dinâmicas de grupo" e "improvisos". O cenário é sempre o mesmo, aquele violãozinho de fundo, aquela voz doce e embargada, tudo preparando um clima emocional que aceita qualquer coisa, inclusive a tal "nova unção" que os atuais pregadores judaizantes utilizam (uma nova) todo santo dia para se mostrarem "iluminados", portadores de uma informação exclusiva de Deus, que parece ter anulado o Novo Testamento, varrendo a única e verdadeira unção que todo cristão recebe quando se converte a Cristo (1ª João 2:20-27), mas como parece que ninguém mais lê a Bíblia, esse povo deita e rola nas suas pirotecnias e trollagens cóspel, num espetáculo grotesco em que o sentimentalismo pagão jorra aos borbotões. Fernanda Brum ainda utiliza todo o jargão evangélico atual, com profecias genéricas de colete, repetição exaustiva da palavra "sobrenatural", invocação de adoradores, etc., mas isso não significa que o ritual exótico que ela esteja fazendo seja cristão. Pode ser até algo parecido com o cristianismo, mas não tem nada a ver com a essência do evangelho. Claro que há gente ingênua e sincera tomando parte nesses rituais pagãos travestidos de um arremedo de "cristianismo" judaizante. Aliás, eles têm todo o direito de praticar a religião que quiserem do jeito que lhes convier, desde que não queiram nos obrigar a aceitar que essa excrescência é - de fato - cristianismo. Fica, portanto, a nossa oração para que se convertam - de verdade - ao evangelho puro e simples da cruz de Cristo e do Seu sangue vertido no Calvário.







sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Não era de todo mau ser adolescente nos anos 70



Essa sessão nostálgica de fim de sexta-feira é dedicada aos poucos internautas que eram adolescentes nos anos 70. Eles certamente se lembrarão de "Staying Alive", do Bee Gees, tema do filme "Os Embalos de Sábado à Noite" (1977) e do LP (Another Brick in) "The Wall", do Pink Floyd (1979), que rendeu o filme de mesmo nome em 1982. Esses atuais jovens senhores devem ter gravadas na memória as imagens de ambos os filmes até hoje. Pois não é que fizeram um mashup de ambas as músicas só pra gente se lembrar de que já fomos jovens um dia? Parece que foi ontem. E ficou muito legal... confira:





Agora fu... Malafaia!

Leio e ouço no blog Genizah a entrevista que o Silas Malafaia deu à revista Época, em que diz, pelo que se pode depreender do áudio sofrível, que ele vai "arrebentar" e "funicar" Toni Reis, líder do movimento gay conhecido como Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), organização que entrou com uma representação no Ministério Público contra Malafaia por suas declarações homofóbicas.

Se o Malafaia sempre diz que "ama" os homossexuais e diz que vai "arrebentá-los", imagine se ele os odiasse, não é mesmo? Tapinha de amor não dói, Silas?

Este blog já não tem mais paciência com os delírios megalomaníacos do conhecido "pastor", que só pensa em se promover às custas da beligerância preconceituosa contra os gays e todos aqueles (inclusive cristãos) que lhe criticam, o que deve lhe trazer algum tipo de prazer mórbido ou outro benefício qualquer, senão não se lançaria de corpo e alma nessa cruzada imaginária do "eu sozinho contra todos".

Também não nos preocupamos muito em dar todos os detalhes sobre esse imbroglio, fiéis que procuramos ser, na nossa fraqueza, ao que Paulo ensina em Efésios 5:11-12, "não vos associeis às obras infrutuosas das trevas, antes, porém, condenai-as; porque as coisas feitas por eles em oculto, até o dizê-las é vergonhoso".

Não é esta, ao que parece, a atitude escolhida por Malafaia. Para ele, não basta condenar as obras dos outros, é preciso "grudar" nelas e pronunciar as palavras mais chulas que as caracterizam, como é o caso da escolha do neologismo "funicar", inexistente na língua portuguesa.

De fato, ele não disse "fornicar", mas é preciso concordar com a revista Época, já que o contexto de sua verborragia desastrada (mais uma!) permite que seja inferida a palavra "fornicar", ou então, um outro verbo chulo muito usado popularmente que tem 5 letras e também começa com a sílaba "fu" (ou "fo", segundo o mau gosto do freguês).

No áudio da entrevista, Malafaia ainda se gaba por ter contratado uma das melhores bancas de advogados do Rio de Janeiro para a batalha jurídica, como se, diante do mal, o cristão tivesse que se defender por meios humanos (quanto mais poderosos, melhor) e não se entregar totalmente aos desígnios divinos, o que deixou tantos mártires na conflituosa História da Igreja.

"Não confieis em príncipes, nem em filho de homem, em quem não há auxílio" (Salmo 146:3).

"Quando, pois, vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não estejais solícitos de como ou do que haveis de responder, nem do que haveis de dizer. Porque o Espírito Santo vos ensinará na mesma hora o que deveis dizer" (Lucas 12:11-12).

Fica claro, portanto, que não se trata de defesa dos princípios cristãos, mas um jogo de prestígio e poder (ideológico, portanto) que se traduz em presença constante na mídia à base de polêmicas forjadas por interesses - geralmente - econômicos.

Já passou da hora de dizer que Malafaia e seus amigos não representam o cristianismo, ainda que muitos "evangélicos" o sigam e participem de seus programas na TV, como é o caso de Jorge Linhares, pastor da Igreja Batista Getsêmani, que, durante a Marcha para Jesus de Belo Horizonte, parou tudo para amaldiçoar um pequeno grupo de cristãos humildes que estava ali para chamar a multidão de volta aos valores do evangelho puro e simples.

Se os poderosos se incomodaram pela mensagem de tãos poucos, é porque alguém tinha, no mínimo, um tremendo sentimento de culpa. "Da mesma boca procede bênção e maldição. Não convém, meus irmãos, que se faça assim" (Tiago 3:10). Ato falho, será, Malafaia?

Que bom seria se você seguisse o conselho do Mestre: "O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, do seu mau tesouro tira o mal; pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca" (Lucas 6:45).

Não, esse povo não nos representa, queremos distância do seu discurso vil, chulo e amaldiçoador.

Do jeito que a carruagem do Malafaia vai, a gente pode esperar qualquer coisa. Fica, portanto, a nossa sugestão para uma futura tentativa de se fazer uma versão cóspel de "Um Tapinha Não Dói":





Matança de pajés na Amazônia peruana teria motivação religiosa

Balsapuerto, um distrito da província do Alto Amazonas, na Região de Loreto no Peru, se transformou numa estação de caça aos pajés das tribos locais, já que 14 deles foram assassinados nos últimos 12 meses, sem que ninguém tenha sido condenado pelas mortes, embora não faltem testemunhas que indicam quem está por trás dos crimes, segundo informa o investigador Róger Rumrrill para a revista eletrônica Contacto Latino. O maior suspeito seria o próprio prefeito de Balsapuerto, Alfonso Torres, tido como autor intelectual dos assassinatos, que teriam sido executados por seu irmão Augusto, também apelidado de "Mata-Bruxos" ("Matabrujos"). A RPP Noticias os acusa de terem motivações religiosas para cometer os crimes, já que fariam parte de uma organização missionária evangélica que atua na região e que precisaria limpá-la da "feitiçaria" que existe por ali. O fato é que o clima de impunidade é um incentivo para que a hostilidade e as ameaças contra os pajés continuem crescendo e se radicalizando, e - além da nebulosa questão religiosa - o que não lhes faltam são inimigos, que reúnem um arco de grupo sociais que ninguém imaginaria ver juntos numa situação como essa. Movimentos sem-terra se unem a donos de terras, à população ribeirinha e aos poucos habitantes da cidade, geralmente comerciantes, para combater o xamanismo aborígene, utilizando para tanto de expedientes criminosos. Interesses econômicos se aliam a superstições da gente comum, que imputam a morte de pessoas às práticas xamânicas, autoridades políticas que não querem ver o seu poder contestado ou dividido, farmácias que não vendem seus produtos industriais por causa dos remédios naturais prescritos pelos pajés, missionários inescrupulosos que os veem como ameaça à sua pregação proselitista, todas essas coisas se acumulam e jogam contra os líderes religiosos dos povos Chayawitas, Shayabit, Jebero, Balsapuertino, Shiwila, Shawis, entre outros. Os curandeiros assassinados são em sua maioria da etnia Shawi. Não é de hoje que o conhecimento das poções e plantas da selva andino-amazônica é cobiçado pelas indústrias farmacêuticas, sendo que muitas delas são acusadas de biopirataria, ao aproveitar a sabedoria medicinal ancestral, transmitida ao longo de gerações das tribos indígenas, copiá-las e patenteá-las em seus países de origem sem qualquer retribuição ao povo de onde "roubaram" a informação. No caso da chacina dos pajés peruanos, uma região pobre, onde habita uma gente sofrida e supersticiosa, de um povo que já sofreu os horrores da Inquisição colonial e o extermínio que lhes foi infligido pelos europeus, mais um genocídio latinoamericano está em curso, e muito provavelmente, para nossa tristeza geral, ninguém os socorrerá. Ignorância, apesar da rima óbvia, não combina com tolerância. Abaixo, dois vídeos que tratam do tema:







quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O evangelho de Lucas - parte 38

Até agosto de 2008, publicamos aqui no blog uma série de estudos sobre o evangelho de Lucas, e por uma série de razões que não vêm ao caso agora delinear, paramos no capítulo 22, e deixamos os dois últimos capítulos, 23 e 24, para depois. Só que este "depois" se prolongou demais no tempo e, alertados e gentilmente intimados pelo irmão Robson, do blog Doutores de Almas, voltamos a compartilhar as nossas impressões sobre o final do evangelho de Lucas, que, para que a leitura não fique muito extensa, dividiremos em quantas partes forem necessárias para tratar essa riqueza de detalhes com a profundidade que lhe for pertinente.

CAPÍTULO 23:1-26

O capítulo 23 do evangelho de Lucas começa com as intrigas políticas da Jerusalém da época. Hoje é difícil imaginar isso, mas a Judeia era um território ocupado que tinha pouca importância ao Império Romano. Era visto muito mais como um fardo a ser suportado no complicado jogo geopolítico e militar do primeiro século. Para os fariseus, entretanto, Jerusalém era todo o seu mundo, o seu microcosmos, sobretudo diante da impossibilidade de voltarem ao esplendor dos reis do passado, em especial Davi e Salomão. Havia um rei do povo judeu, Herodes, um fantoche tolerado pelo Império, que servia de joguete aos interesses superiores, além de um governador designado pelo imperador, Pilatos, que tinha a palavra final sobre o povo judeu, a não ser que se tratasse de um cidadão romano, como no caso de Paulo, que apelou a esta condição (que ele detinha) para se defender das muitas perseguições e – afinal - ser julgado em Roma (Atos 16:37; 22:25; 25:11 e 26:32).

O temor do Sinédrio era, portanto, que Jesus colocasse em risco o seu pequeno mundinho de vãs honrarias e lautos banquetes, e eles sabiam que não conseguiriam que Pilatos o condenasse à morte com base apenas naquilo que entendiam como blasfêmia contra sua religião. Por isso reúnem um número grande de fariseus (v. 1) para ir à presença do governador romano, com o objetivo claro de impressioná-lo quantitativamente. Afinal, ali estava a nata da elite religiosa e social do território ocupado. Ainda que o v. 1 se refira a “toda a multidão” (ARC) ou “toda a assembleia” (ARA), é muito provável que dela não participasse José de Arimateia, ou ainda – improvável, mas não descartável - que ele tivesse ido à presença de Pilatos na esperança de contra-argumentar a favor de Jesus, tanto que posteriormente (vv. 50 a 52) vai pessoalmente à presença do governador para pedir o corpo de Jesus. Como, no plano do Sinédrio, eles sabiam que era quase impossível que Jesus fosse condenado à morte por blasfêmia - uma tecnicalidade religiosa que eles próprios sabiam que Jesus não havia cometido -, formularam a acusação a Jesus com base em 3 crimes que ele teria cometido (v. 2), o que era uma gritante mentira, já que o Mestre havia tomado atitude contrária àquela de que era acusado:

1) “perverter a nação contra César” – Jesus não buscou a confrontação direta com o poder político (Mateus 12:19)
2) “proibir dar o tributo a César” – Jesus ensinou a “dar a César o que é de César” (Lucas 20:25)
3) “dizendo-se o Cristo, e o rei” no lugar de César – Jesus não negou que havia nascido para ser o rei dos judeus, mas deixou claro que seu reino não era deste mundo (João 18:36) e que ainda não havia chegado a hora de implantá-lo na Terra (João 6:15; Lucas 19:11-27; Atos 1:6,7)

A única acusação que Pilatos dá algum tipo de importância era se, de fato, Jesus dissera ser o rei dos judeus (v. 3), mas diante da resposta enviesada do Mestre (“Tu o dizes”), trata-se de desvencilhar rapidamente do problema, dizendo que não via nenhuma culpa naquele homem (v.4), atitude que não serviu para acalmar os ânimos dos fariseus presentes, que seguiram acusando-o de insuflar uma rebelião do povo desde a Galileia e por toda a Judeia (v. 5). A palavra Galileia soou como música aos ouvidos do acomodado Pilatos, que, certificando-se de que Jesus era, de fato, galileu (v. 6), vê nesta condição uma chance de ouro de não entrar em encrenca alheia e se livrar do problema, já que Herodes Antipas, o responsável por aquela região, se encontrava em Jerusalém naquele exato dia para as festividades da Páscoa (v. 7), e a lei romana preceituava que o criminoso fosse julgado no local onde havia cometido a suposta infração. É interessante observar como a narrativa de Lucas passa a ter um ritmo frenético, com tudo acontecendo muito rapidamente, e no versículo seguinte (v. 8), Jesus já está na presença de Herodes, que se alegra muito ao vê-lo, provavelmente movido pela curiosidade sobre aquela pessoa de quem certamente havia ouvido falar, já que a fama do Mestre se espalhara por todo o seu território. Herodes, aparentemente, queria checar se Jesus era realmente uma ameaça ao seu poder político, pelo que O interrogou com muitas perguntas, não obtendo resposta alguma (v. 9), mesmo diante da incitação explícita dos seus acusadores (v. 10). Aliás, Herodes foi a única pessoa a quem Jesus se recusou a dizer qualquer palavra, o que deve ter incomodado muito o rei, que não só o desprezou como escarneceu dele, vestindo-o com uma “roupa resplandecente” (v. 11), provavelmente uma roupa velha sua que estava destinada a ser descartada. O silêncio de Deus é uma arma poderosíssima e deve tê-lo desconcertado por completo. Foi com esta vestimenta que Herodes devolveu Jesus a Pilatos, e naquele dia ambos reataram não exatamente a “amizade”, mas uma relação minimamente amistosa que superou os problemas pessoais que haviam tido a princípio (v. 12). O processo contra Jesus serviu de quebra-gelo entre os dois governantes políticos da Judeia, um pelo Império invasor, e outro representando a nação judaica, tudo isso motivado pelo poder religioso, o Sinédrio.

Os eventos daquele dia continuaram se atropelando e não restou a Pilatos outra alternativa senão reunir os sacerdotes e o povo (v. 13) que, àquela altura, certamente havia sido acrescido de muitas pessoas que passavam por Jerusalém e, por mera curiosidade talvez, queriam saber aonde ia terminar aquele processo. Mal sabiam eles que, naquele canto perdido do Império Romano, testemunhariam o maior acontecimento da história da humanidade. Pilatos já antecipa o seu veredito (v. 14), dizendo que não havia encontrado nenhuma culpa em Jesus (o que é um testemunho jurídico de sua impecabilidade). Como reforço à sua opinião, cita ainda o próprio Herodes, que também não havia encontrado nada contra o acusado (v. 15), pelo que decide castigá-lo (o que é estranho, já que não o havia considerado culpado de nada, talvez só para agradar a multidão com gotas de sangue do Cordeiro) e soltá-lo (v. 16), aproveitando-se ainda do costume de soltar um preso na Páscoa (v. 17) para agradar os judeus. Claramente, Pilatos estava se cercando de todas as garantias (para si mesmo) de que não condenaria um inocente, mas foi pego de surpresa pela reação da plateia que, muito provavelmente já preparada de antemão, pediu-lhe que soltasse Barrabás (v. 18). Seu plano foi por água abaixo. O relato de Mateus é mais completo a respeito deste episódio (Mateus 27:16-26). Tudo indica que seja de Marcos, o primeiro evangelho a ser escrito, que vem a Lucas (23:19) a informação de que Barrabás estava preso porque havia participado de um motim (algum tipo de rebelião civil), no qual cometeu um homicídio (Marcos 15:7). João é mais econômico ao descrever Barrabás, dizendo que ele era um “salteador” (João 18:40), mas é provável que ele já fosse uma pessoa conhecida por sua militância política no pequeno contingente populacional de Jerusalém, daí não se poder descartar a possibilidade de que muitos dos que agora clamavam por ele de fato o conheciam e viram naquele imbróglio uma oportunidade de salvá-lo em detrimento de um inocente que se apresentava como profeta e não havia feito mal a ninguém. Pilatos se mantém reticente quanto à escolha do povo, e ainda tenta argumentar reiteradamente (vv. 20-23) visando salvar alguém que – a seus olhos – era inocente, mas diante do tumulto e – provavelmente – da ameaça de rebelião num momento em que a cidade estava cheia de peregrinos, se inclina pelo caminho mais fácil e rápido e “decidiu atender-lhes o pedido” (v. 24) levando-o, visivelmente a contragosto, a soltar Barrabás e entregar Jesus ao sacrifício (v. 25). As traduções protestantes perdem um detalhe interessante do v. 24 ao traduzi-lo como "DECIDIR atender-lhes o pedido". Na verdade, existe aqui um termo jurídico grego, ἐπικρίνω (epikrinō), utilizado somente uma vez em todo o Novo Testamento, e que significa a sentença definitiva do processo (ou da "farsa judicial") que condenou Jesus à morte. As traduções católicas são mais felizes nesse particular, ao frisarem esse verbo: a Bíblia do Peregrino diz que "Pilatos DECRETOU que se fizesse o que pediam" e a Bíblia de Jerusalém conta que "Pilatos SENTENCIOU que se atendesse ao pedido deles". Termina ali o grotesco espetáculo de Pilatos na sentença condenatória de Jesus, mas ele voltaria mais tarde ao liberar o corpo de Cristo para que José de Arimateia o sepultasse (v. 52).

Começa então o cortejo da crucificação de Jesus, e Lucas segue narrando tudo de forma muito rápida e concisa, pelo que já coloca a cruz nas costas de Simão, o cireneu, no versículo seguinte (26). Jesus havia sido tão surrado e os acontecimentos haviam sido tão extenuantes que não mais lhe restavam forças físicas para prosseguir. Isto devia ser óbvio para os seus executores e revela, por outro lado, a sua mais completa humanidade. Tudo indica que este homem de nome Simão era proveniente de Cirene, cidade próspera de origem grega que ficava no Norte da África, e que hoje está em ruínas no território da Líbia. A exemplo de tantos outros peregrinos de lugares tão distantes, ele provavelmente estava em Jerusalém para as festividades da Páscoa judaica. Devia ser também um homem de compleição física forte, já que foi forçado a carregar a cruz para Jesus, o que talvez revele também que os soldados reconheceram nele –pela vestimenta ou pela cor da pele, por exemplo - um estrangeiro, com quem se sentiam mais à vontade para submeter a essa tarefa obrigatória. Simão terminou participando “por acaso” do maior drama da humanidade. A tradição cristã supõe que, posteriormente, ele tenha se tornado cristão, a partir da inferência do texto de Marcos 15:21, em que o outro evangelista o identifica como “pai de Alexandre e de Rufo”. Não há nenhuma certeza de que esse Alexandre seja o mesmo de Atos 19:33 ou Rufo seja aquele a quem Paulo manda uma saudação especial no final de Romanos (16:13). Existe também uma suspeita remotíssima de que o “Simeão de sobrenome Níger” (“Simeão, o Negro”) a que se refere Lucas em Atos 13:1 seja o mesmo Simão Cireneu, mas se ambos fossem a mesma pessoa o fato teria sido obviamente registrado pelo detalhista Lucas que escreveu tanto o evangelho como o livro de Atos.



Cientistas chineses criam arroz que produz sangue humano

Essa é uma daquelas notícias que lembra mais o tragicômico episódio do "boimate" da Veja (clique aqui para relembrá-lo), mas como a notícia foi originalmente publicada no dia 6 de novembro (e não 1º de abril) pelo respeitado jornal britânico The Telegraph, há que merecer algum crédito. Mesmo assim, entretanto, é melhor continuar com os dois pés atrás até que, algum dia, a gente veja - com os próprios olhos - arroz realmente produzindo sangue humano (se não o sangue propriamente dito, pelo menos algum de seus componentes). É interessante também aproveitar o assunto e fazer uma analogia, digamos, transcultural bíblica, sobre a dificuldade que alguns missionários cristãos tiveram ao longo da história ao celebrar a eucaristia (ou a ceia do Senhor) em povos e tribos que não tinham a referência comum do pão e vinho, e eu já li (ou ouvi) em algum lugar muito tempo atrás que o arroz (que também é um alimento universal) foi utilizado para introduzir os novos cristãos longínquos e isolados à simbologia que a cerimônia ensinada por Jesus requer quanto ao corpo e ao sangue vertido na cruz. A notícia repercutiu no Brasil pelo Gizmodo:

Cientistas não-loucos dizem que vão transformar arroz em sangue

Parece um ato de bruxaria, mas na verdade é medicina de ponta. Pesquisadores da Universidade Wuhan, na China, dizem que eles conseguem criar arroz geneticamente modificado que gera sangue. Sangue humano. No arroz.

O truque está em colocar genes humanos dentro do DNA do arroz, como informa o Telegraph. Isto faz o arroz gerar seroalbumina humana, um componente valioso do sangue humano usado em transfusões.

Mas por que arroz? Porque não é necessário se preocupar com HIV ou outros agentes patogênicos do sangue. Porque não exige uma campanha de doação de sangue – em vez disso, poderíamos cultivar este elemento do sangue em grandes plantações. “Plantar sangue” parece algo bizarro, mas poderia mudar a medicina, criando uma fonte quase infinita de sangue que poderia salvar vidas.

O arroz de sangue já foi criado e testado, e o estudo foi publicado num respeitado periódico científico. A pergunta agora é: quem será o primeiro chef a servir o arroz de sangue?



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Criação: dos pré-socráticos à arte moderna

O filósofo grego Parmênides (530 a.C. - 460 a.C.) foi citado outro dia aqui no blog, quando um certo pastor do Paraná se besuntou todo com 12 litros de azeite, pronunciando a expressão "ex nilo", talvez invocando (sem saber) a frase ex nihilo nihil fit ("do nada nada se fez"), que a história da filosofia atribui a Parmênides, e que é a síntese da ideia não só grega, como hebraica, cristã e islâmica, de que é imperativa a existência de um Criador do universo, no caso Deus. Parmênides era contemporâneo de outro grande filósofo de nome Heráclito (540 a.C. - 470 a.C.) e os dois travaram várias discussões acadêmicas que foram decisivas não só no pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles, que vieram depois (daí o "pré-socráticos") como também na formação de todo o sistema de pensamento e raciocínio lógico que até hoje utilizamos nas nossas discussões mais corriqueiras. Há controvérsias sobre quem teria dado o primeiro "tiro" neste debate, mas a tendência moderna é acreditar que Heráclito teria começado a polêmica ao afirmar que "todas as coisas fluem", ou seja, todas as coisas estão sempre fluindo em todos os lugares, no sentido de que elas estão "vindo a ser". Nada é estático: tudo o que é está sempre mudando. A ênfase no verbo ser ("é") é proposital, pois esta é a questão central da filosofia e da vida de todos nós, também conhecida pelo nome técnico de "ontologia": o SER (abordado neste blog num texto de Paul Tillich sobre fé e razão). Apenas para salientar a importância dessa palavra que é tanto verbo como substantivo, se você se lembrar de suas leituras da Bíblia, constatará que Deus disse a Moisés em Êxodo 3:14 que o Seu nome é "EU SOU" e "EU SOU O QUE SOU", e que Jesus respondeu aos fariseus que "antes que Abraão existisse, EU SOU" (João 8:58) . É de Heráclito, também, o conceito original de "logos", que seria a razão universal pela qual todas as coisas estão em constante movimento, "se tornando", "vindo a ser", que não corresponde exatamente à Pessoa - pré-existente e eterna da divindade que se encarna, se torna humano - à qual João chamará também de "Logos" no início do seu evangelho, embora não se possa negar, ainda que em pequena medida, a influência do conceito grego de "logos" no seu discurso.

Parmênides teria rebatido essa ideia de "vir a ser" com outra frase famosa, "Tudo o que é, é", enfatizando a importância de que tudo que existe no mundo, existe de modo absoluto, e que, portanto, "nada pode vir do nada", já que é necessário um SER eterno e pré-existente que tenha criado o Universo e tudo o que nele há, e que lhe dê unidade e sentido. Para ele, se alguma coisa está mudando, na verdade, ela não é. Tudo isto tem a ver, em última instância, com a ideia de que, se no princípio não havia nada, então não deveria existir nada agora, já que ex nihilo nihil fit. Logo, as coisas que existem não devem ser tidas e cridas como reais, porque tudo é ilusão, já que tudo o que existe é um SER Uno, Não-Gerado, Indivisível e Eterno e dele, de certa forma, todos fazemos parte. Heráclito, por sua vez, criou uma hierarquia das coisas que existem, nas quais o elemento primordial seria o Fogo, mas sempre se centrando na ideia de que "tudo flui como um rio". Este SER que seria, na verdade, um VIR-A-SER, já que "o tempo é uma criança que brinca, movendo as pedras do jogo para lá e para cá; governo de criança" (Fragmento 52 de Heráclito).

É claro que este espaço aqui é muito pequeno para a profundidade do pensamento dos dois filósofos e da influência que eles tiveram na humanidade, mas existe um artista novaiorquino, Dev Harlan, que - talvez inadvertidamente - terminou homenageando essa frase do fragmento 52 de Heráclito mediante uma obra de arte, intitulada "Parmenides I", que de certa forma sintetiza as ideias de ambos, unindo criação, mudança, cores, unidade e ilusão para - através de um brinquedo que ele imagina agradar a divindade (o "menino-SER") - oferecer uma outra possibilidade de existência, um outro SER. Veja o vídeo abaixo para conferir se ele conseguiu cumprir seu objetivo:


Dev Harlan - "Parmenides I", 2011 from Dev Harlan on Vimeo.




Será que até animais têm instinto moral?

O mundinho ateu deve estar em pânico. Em fevereiro deste ano, repercutimos aqui no blog pesquisas que investigavam se os animais têm livre-arbítrio. Em outubro, a Universidade do Estado de Washington, nos EUA, compartilhava sua análise de que os bebês humanos podem ter instinto moral. Agora vem à tona um estudo da Universidade de Colorado, em que pesquisadores se surpreenderam ao constatar que, aparentemente, existem indícios de que animais também têm instinto moral, o que vai deixar os militantes ateus mais enfurecidos ainda quando descobrirem que dentre os seres vivos do planeta, só eles e - por enquanto - os vegetais negam que o instinto moral exista. Seriam aliens os nossos queridos ateus?

A matéria é do Life's Little Mysteries, traduzida e adaptada por Stephanie D'Ornelas para o HypeScience:

Estudo indica que animais sabem diferenciar certo do errado

Se você tem um cachorro de estimação, pode já tê-lo flagrado fazendo algo errado. A autêntica cara de culpado que ele faz, no entanto, é que pode te surpreender. Um recente vídeo mostra um cãozinho fazendo uma comovente expressão de culpado quando o dono descobre que ele revirou o lixo da cozinha. Será que ele sabia que tinha feito besteira?

Casos como esse são um prato cheio para o estudo da Etologia, a ciência que investiga o comportamento dos animais. A Etologia, como explicam pesquisadores da Universidade do Colorado (EUA), sempre foi muito cética em considerar que os animais pudessem ter senso de moralidade, ou seja, diferenciar boa ações de más ações.

Mas uma série de estudos, ao longo dos últimos anos, tem dado evidências do contrário.

Os canídeos (família animal que abrange, além de cachorros, lobos coiotes e outras espécies), nesse caso, são um ótimo objeto de pesquisa. Lobos e coiotes, por exemplo, apresentam um estrito código de conduta na sua vida em alcateias. Dentro do círculo social desses animais, já se observaram atos de altruísmo, tolerância, perdão, reciprocidade e justiça em estudos anteriores.

No caso específico dos cães, isso se verifica em canis de treinamento. É possível fazer dois cachorros brincarem um com o outro seguindo um complexo código de conduta. Em jogos como esses, eles latem com intenções amigáveis, rolam pelo chão se revezando no papel de quem domina (para que um dê ao outro a chance de “vencer” a luta), fazem movimentos cuidadosos para não machucar e parecem “se desculpar” quando exageram um pouco.

Entre lobos e coiotes, quebrar esses códigos de comportamento é um problema sério, que todo o resto do grupamento é capaz de perceber e dar sinais de reprovação. A consequência pode ser a exclusão do grupo, o que é terrível para o indivíduo. Tudo isso é indicativo de um amplo senso de moral entre os canídeos.

O senso de justiça por parte dos cães foi comprovado por um estudo da Universidade de Viena (Áustria). Eles faziam uma pequena brincadeira de “apertar as mãos” dos cachorros, que participavam felizes sem saber se ganhariam uma recompensa. Em seguida, repetiram o experimento em outros cães, e deram a estes um biscoito depois da brincadeira. Os cães do primeiro grupo deram claros sinais de estresse, tais como latir e grunhir.

Esse senso de moral, embora seja aparentemente uma realidade, é de difícil comprovação. Analisar o cérebro de animais nunca foi uma tarefa fácil, e a missão é dificultada em casos abstratos como esse, que não são completamente compreendidos sequer em seres humanos.

Uma pista foi fornecida após um experimento do Instituto de Tecnologia do Massachussets (MIT), realizado em pessoas. Eles acoplaram um aparato magnético a uma região do cérebro chamada de junção temporo-parietal.

A ação do ímã nessa área cerebral, aparentemente, desarranjava por alguns momentos a habilidade das pessoas de fazer julgamentos morais. Quando perguntados sobre determinadas ações que eles antes julgaram imorais, os participantes as consideravam mais aceitáveis depois do experimento.

Os pesquisadores acreditam que esse mecanismo seja semelhante em animais. Embora não haja a mesma complexidade, é provável que uma única área no cérebro seja responsável por esse senso de moralidade para eles. Mas ainda é preciso, conforme admitem os cientistas, realizar estudos mais minuciosos nesse campo.



Abaixo alguns vídeos sensacionais reunidos pelo Life's Little Mysteries, que questionam a existência de senso moral em animais:

1) hipopótomo resgata impala da boca do crocodilo e tenta ressuscitá-lo:



2) cachorro pego no flagra após espalhar lixo pela casa:



3) Pinguim que rouba pedras do ninho do vizinho:


4) Esquilo que protege o corpo do amigo atropelado dos corvos:


5) Após o tsunami no Japão, cachorro pede socorro à equipe de filmagem e se recusa a deixar o amigo ferido pra trás:


6) Mamãe elefanta que salva o bebê elefante de se afogar:





terça-feira, 8 de novembro de 2011

Pat Robertson diz que terremoto nos EUA é sinal do fim do mundo

Pat Robertson continua firme na sua vocação de figurinha carimbada aqui do blog. O homem nem deixa a gente se recuperar de uma declaração bombástica (como aquela em que aconselhou um homem a se divorciar de sua mulher que sofre de Alzheimer) e já vem outra. A bem da verdade, também não se pode culpá-lo pela recente sucessão de tragédias naturais no planeta, nas quais o veterano pastor parece nadar de braçada. O terremoto da vez é o que atingiu o Estado norteamericano de Oklahoma no último sábado, 05/11/11, e atingiu 5,6 graus na escala Richter sem deixar vítimas nem danos materiais de grande monta (felizmente). Com a sua mania de ter opinião formada sobre tudo, o querido pregador americano disse, no seu programa de perguntas e respostas do Club 700, que o sismo foi mais um sinal do fim dos tempos, isso enquanto dava uma aula rapidíssima sobre magma, crosta terrestre e placas tectônicas ambulantes (vídeo abaixo), não se esquecendo de alertar de que esta é uma das razões pelas quais devemos estar em dia com Deus, porque a Terra que a gente pensava que era sólida, não é mais tão sólida assim, deixando implícito que o fim do mundo não tardará. Curiosamente, Robertson não culpou nenhum americano pelo terremoto dessa vez, atitude que não teve quando da ocasião do terremoto no Haiti, em que - sem nem contar até 10 - vaticinou que a tragédia haitiana era consequência do pacto do povo do país com o diabo para conseguir a independência no início do século XIX. Como diria o baixinho Romário, Pat Robertson calado é um poeta, mas enquanto ele falar será o arroz de festa do blog. Tá ou não tá em todas o hómi?






A faxina étnica cristã no mundo árabe

Um artigo muito interessante de Gustavo Chacra, no seu blog no Estadão, sobre como - pouco a pouco - os cristãos estão sendo varridos do mundo árabe:

A limpeza étnica dos cristãos no mundo árabe

no twitter @gugachacra

Uma amiga minha de origem síria cristã me disse nesta sexta aqui em Nova York que seu pai, morador da Califórnia, idolatra Assad e tem um poster dele na sala. Quando ela liga para seus primos cristãos em Aleppo, todos respondem que a situação está normal, sem protestos, e o líder sírio segue firme no poder. Eles não querem genuinamente o fim do regime, apesar da morte de 3 mil pessoas, segundo a ONU.

Alguns, é claro, porque temem ter o mesmo fim dos cristãos iraquianos. Os caldeus, que por séculos habitaram as margens do rio Eufrates, passaram a ser alvo de limpeza étnica depois de os Estados Unidos terem invadido o país para derrubar Saddam Hussein.

Não estou dizendo que os americanos realizaram a limpeza étnica. Certamente isso não aconteceu e provavelmente muito poucos cristãos iraquianos foram mortos pelos soldados dos EUA. Mais importante, nenhum deles foi morreu nas mãos das tropas enviadas por George W. Bush por serem cristãos.

Mas a ofensiva americana abriu as portas para um ambiente em que minorias, como as cristãs, passaram a ser perseguidas. Eles foram alvos tanto de grupos xiitas como sunitas que chegaram a explodir igrejas.

Na Síria, e insisto neste ponto, os cristãos, que totalizam 2 milhões de pessoas e 10% da população, acreditam que a história deles não será diferente da dos iraquianos se acabar o regime. E, pelo visto, também dos cristãos do Egito pós-Mubarak, com os massacres e igrejas queimadas.

A Primavera deve trazer a democracia para a Tunísia e, no longo prazo, para outros países. Porém sempre tenham em mente os efeitos colaterais. O Iraque hoje é infinitamente mais democrático, no sentido de haver eleições, do que na época de Saddam. Mas cristãos não têm mais liberdade de ir à igreja e de andar livremente sem correr o risco de ser mortos. Centenas de milhares fugiram. Para onde? Para a Síria. E depois, quem os receberá? O Líbano? Pode ser. E depois? Depois não teremos mais cristãos no mundo árabe assim como não temos mais judeus.



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Asteroide tirará casquinha da Terra amanhã

"Tirar casquinha" é só uma maneira de dizer, pois se algum asteroide tirasse casquinha da Terra de verdade, não iria sobrar ninguém pra contar a história e o número de vítimas do impacto. O fato é que - a exemplo do que já aconteceu em junho deste ano - amanhã, terça-feira, 08/11/11, o asteroide 2005 YU55 vai passar pela órbita da Terra a uma altitude inferior à da Lua em relação à superfície do planeta (veja abaixo o gráfico animado da NASA). Por muita sorte mesmo, o asteroide não vai brincar de bumba-meu-boi nem dar um chega-pra-lá no nosso único satélite, o que também traria consequências catastróficas. Fique tranquilo, ainda não é o fim do mundo: o YU55 não vai colidir com a Terra ou com a Lua nos próximos 100 anos. Deixe essa preocupação para os seus bisnetos. A notícia é do Estadão:



Asteroide vai passar perto da Terra nesta terça-feira; Nasa monitora

Agência espacial afirma que não há risco de colisão do 2005 YU55 com o planeta

WASHINGTON - A Nasa monitora de perto o asteroide 2005 YU55 que se aproxima da Terra e, nesta terça-feira, 8, deve passar a uma distância inferior à da Lua. Segundo a agência espacial americana, não há risco de colisão com o planeta.

O asteroide tem 400 metros de diâmetro, equivalente ao comprimento de um porta-aviões, e foi descoberto em 2005 por Robert McMillan. Segundo cálculos da Nasa, o 2005 YU55 deve passar a uma distância mínima de 324 mil quilômetros, menos que a distância da Lua, que fica a cerca de 384 mil quilômetros da Terra.

O radar planetário do Observatório de Arecibo eliminou, em abril de 2010, o risco de uma colisão dos asteroide 2005 YU55 com a Terra pelos próximos 100 anos, o que levou à retirada do astro da relação de objetos perigosos da Nasa. O asteroide foi observado por Arecibo, em Porto Rico, enquanto estava a 2,4 milhões de quilômetros da Terra, ou seis vezes a distância que nos separa da Lua, informa Michael Nolan, diretor do observatório.

As antenas do centro de vigilância do espaço profundo da Nasa situado em Goldstone, na Califórnia, vigiarão a partir desta sexta-feira, 4, a trajetória do asteroide, que, segundo os especialistas, está bem definida. O potente radar do observatório de Arecibo se unirá à equipe de vigilância no próximo dia 8, quando se estima que o asteroide chegue ao ponto mais próximo da Terra.

Os cientistas já advertiram que a influência gravitacional do asteroide não terá nenhum efeito detectável na Terra, como marés ou movimentos nas placas tectônicas. Embora este asteroide costume realizar uma trajetória que o faz se aproximar periodicamente da Terra, bem como de Vênus e Marte, o encontro deste ano será o mais próximo dos últimos 200 anos.



Só a leitura salva

Um manifesto diferente para promover o essencial (e esquecido) hábito de ler livros no Brasil:





domingo, 6 de novembro de 2011

Mequinho, xadrez, doença e religião

Reportagem sobre como e onde anda Mequinho, o grande enxadrista dos anos 70 que, em virtude de uma doença rara, passou a se dedicar quase integralmente à religião (católica, no caso), em matéria (com vídeo indicado abaixo) publicada pela Folha de S. Paulo de hoje:

ONDE ESTÁ MEQUINHO?


Terceiro melhor do mundo em 1978, enxadrista tem vida pacata no interior e reza para voltar ao topo


CAROLINA ARAÚJO
ENVIADA ESPECIAL A TAUBATÉ

A rotina de Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, 59, enxadrista que chegou a ser o terceiro melhor do mundo nos anos 70, está longe da agitação da época em que desfilava em carro aberto no Rio e era convidado para o programa do Chacrinha.

Hoje, o que move o jogador todos os dias são duas refeições, seis remédios homeopáticos, uma missa e horas de oração e estudo de xadrez.

Mas, entre os tempos de herói nacional e a vida tranquila atual, o desejo de voltar a estar no topo do ranking mundial liga as duas épocas. "Se eu chegasse de novo a ser um dos melhores, o país inteiro teria de me apoiar."

Mequinho vive hoje em Taubaté (140 km de São Paulo), em um apartamento de dois quartos e poucos móveis comprado no início do ano. Mora com Tiago Pereira Rodrigues, 23, 203º lugar no ranking nacional, a quem apresenta como seu treinador e assessor nos treinos.

Sai pouco. Seu compromisso diário principal é ir à missa -frequenta três paróquias diferentes-, hábito que segue mesmo quando disputa algum campeonato fora da cidade. Neste ano, jogou poucos. Lembra-se de um torneio em Campinas, um na Espanha e outro em Santo André.

Mequinho se recusa a viajar para vários países, como a Rússia, um dos principais polos do xadrez mundial e de onde vieram alguns de seus maiores rivais nos anos 70.

"Há muitos lugares a que não quero ir. Quero jogar em países em que me sinta bem pela situação política e religiosa, em que os cristãos não sejam perseguidos, onde haja liberdade e democracia."

Na semana que vem, estará em Mogi das Cruzes, nos Jogos Abertos do Interior de São Paulo -defende São Bernardo do Campo. Não revela quanto ganha para isso. Os melhores jogadores brasileiros costumam receber cerca de R$ 2.000 mensais.

Aumenta sua renda com palestras e simultâneas, eventos em que enfrenta vários rivais ao mesmo tempo.

Além do apartamento onde vive, tem um carro. Dinheiro, afirma, não é um problema. "Gasto pouco. Minha casa é simples, e não me interesso por móveis ou roupas luxuosos. Aprendi que é mais fácil ir para o céu de uma cabana do que de um palácio."

DOENÇA

Mequinho descobriu a religião na época em que se afastou do esporte que o consagrou. O motivo foi a miastenia grave, doença que afeta os músculos e que foi detectada no auge da carreira.

Em 1978, o gaúcho era o terceiro colocado do ranking da Fide (Federação Internacional de Xadrez), atrás dos russos Anatoli Karpov e Viktor Korchnoi (que, posteriormente, naturalizou-se suíço).

Mas a miastenia o fez abandonar os tabuleiros. No pico da doença, quando não tinha forças para mastigar ou escovar os dentes, Mequinho entrou para o movimento católico Renovação Carismática.

Nos anos seguintes, formou-se em teologia e filosofia, tentou ser padre ("Mas vi que não era esse o caminho"). E afirma que um milagre o levou à cura da doença.

Hoje, diz estar "quase bom". Reclama de cansaço, especialmente quando joga xadrez -voltou definitivamente ao esporte em 2000.

Se está disputando um torneio, acrescenta mais um remédio homeopático a seu arsenal diário. Já a alimentação é sempre a mesma: duas vezes por dia, só alimentos naturais e sem tempero.

Mequinho diz que só vai se curar totalmente "quando Jesus quiser". Mesmo assim, afirma estar "muito vivo". "Vou fazer 60 anos agora [em janeiro]. Muita gente não me dá essa idade e diz que eu tenho dez, 15 anos a menos."

As orações, segundo o enxadrista, não curaram apenas a miastenia. Enumera outros episódios que ocorreram após "rezar muito": a redução do grau da miopia, o conserto da sua geladeira ou a cura de uma fratura no dedo.

"Há jogos em que estou para perder, e Jesus e Nossa Senhora me salvam. Claro, nem sempre escapo, senão já seria o campeão do mundo."

O temor da derrota influencia até sua relação com os fãs. Não aceita dar autógrafos em planilhas de xadrez, onde são anotados os lances das partidas. "Tenho medo de que alguém bote lá que eu perdi."

Com a cura total da doença, espera voltar a estar entre os melhores do mundo. "Se eu disser que Jesus me curou e for o último em um torneio, não vão acreditar em mim."

Mas o topo do ranking mundial está distante. Mequinho é o 253º da lista, com 2.590 pontos, e o quarto colocado entre os brasileiros. Nos últimos dois anos, afirma ter subido 48 pontos no ranking. Faltam hoje 236 pontos para igualar o número um, o norueguês Magnus Carlsen, 20.

O brasileiro, porém, não usa a matemática e a lógica, mas a religião, para explicar como alcançará a façanha. Com relatos de aparições de Nossa Senhora em Medjugorje, na Bósnia, passagens bíblicas e a proximidade do "final dos tempos", diz como será a nova ascensão no xadrez.

POLÍTICA

Do tempo em que era o terceiro melhor do planeta, feito nunca repetido no país, restaram lembranças do regime militar, que transformou Mequinho em herói nacional.

O enxadrista elogia o ex-presidente Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), líder dos anos de chumbo da ditadura.

"O presidente Médici me ajudou muito. Era um homem inteligente, gostava de esporte. Em 1970, pedi a ele um cargo para deixar a faculdade em Porto Alegre, só jogar xadrez e tentar ser campeão do mundo. Ele disse: 'Sim, vou resolver o seu problema'."

Mequinho foi nomeado no Ministério da Educação e se mudou em 1971 para o Rio.

No ano seguinte, tornou-se o primeiro grande mestre do país, em 1972, aos 19 anos, feito que o levou a desfilar pela cidade em carro de bombeiros com a bateria da Mangueira e a torcida do Flamengo.

Ainda ganhou dois importantes torneios da época, os Interzonais de Petrópolis (1973) e Manila (1976). Suas partidas saíam nos jornais. Mas Mequinho, testemunha da influência que a Guerra Fria tinha sobre a elite do xadrez, também reclama das pressões daquela época. "Os melhores do mundo sofrem uma perseguição muito grande. Veja o quanto o [Bobby] Fischer sofreu", diz, citando o americano, morto em 2008, que encerrou a hegemonia soviética ao ser campeão mundial em 1972.

Após virar símbolo dos EUA na Guerra Fria, Fischer abandonou o xadrez em 1975. Como Mequinho, tentou voltar décadas depois. Sem o mesmo sucesso de antes.

Veja vídeo com trechos da entrevista de Mequinho
folha.com/no1001991



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