sábado, 12 de novembro de 2011

Nem da Rocinha não vai pro inferno porque lê a Bíblia

A entrevista do traficante Nem à jornalista Ruth de Aquino, da revista Época, às vésperas de sua prisão e da ocupação do seu "território" - a favela da Rocinha - por forças da Polícia, do Exército e da Marinha, é uma daquelas matérias épicas da imprensa brasileira, que merecem ser elogiadas e comentadas pela visão que ela permite que as pessoas - de fora dessa realidade - tenham da, digamos, "cultura" que impera nesses pequenos reinos do poder à margem do Estado brasileiro. São alguns pontos tão contraditórios que só a esquizofrenia, individual e coletiva, poderia - talvez - fornecer alguma resposta plausível a essa confusão de valores tão gritante. Tá tudo dominado, só não se sabe por quem. Segundo relata a jornalista, quando encontrou o traficante, ele conversava com um pastor sobre um rapaz viciado de 22 anos: “Pegou ele, pastor? Não pode desistir. A igreja não pode desistir nunca de recuperar alguém. Caraca, ele estava limpo, sem droga, tinha encontrado um emprego... me fala depois”, disse Nem. Abaixo, alguns trechos da entrevista:




Drogas “Não uso droga, só bebo com os amigos. Acho que em menos de 20 anos a maconha vai ser liberada no Brasil. Nos Estados Unidos, está quase. Já pensou quanto as empresas iam lucrar? Iam engolir o tráfico. Não negocio crack e proíbo trazer crack para a Rocinha. Porque isso destrói as pessoas, as famílias e a comunidade inteira. Conheço gente que usa cocaína há 30 anos e que funciona. Mas com o crack as pessoas assaltam e roubam tudo na frente.”

Tráfico “Sei que dizem que entrei no tráfico por causa da minha filha. Ela tinha 10 meses e uma doença raríssima, precisava colocar cateter, um troço caro, e o Lulu (ex-chefe) me emprestou o dinheiro. Mas prefiro dizer que entrei no tráfico porque entrei. E não compensa.”

Ídolo “Meu ídolo é o Lula. Adoro o Lula. Ele foi quem combateu o crime com mais sucesso. Por causa do PAC da Rocinha. Cinquenta dos meus homens saíram do tráfico para trabalhar nas obras. Sabe quantos voltaram para o crime? Nenhum. Porque viram que tinham trabalho e futuro na construção civil.”

Religião “Não vou para o inferno. Leio a Bíblia sempre, pergunto a meus filhos todo dia se foram à escola, tento impedir garotos de entrar no crime, dou dinheiro para comida, aluguel, escola, para sumir daqui. Faço cultos na minha casa, chamo pastores. Mas não tenho ligação com nenhuma igreja. Minha ligação é com Deus. Aprendi a rezar criancinha, com meu pai. Mas só de uns sete anos para cá comecei a entender melhor os crentes. Acho que Deus tem algum plano para mim. Ele vai abrir alguma porta.”




Este último trecho, em que Nem fala sobre religião, mostra como o "inchaço" da igreja evangélica no Brasil está produzindo distorções terríveis na maneira como as pessoas, digamos, "captam" a mensagem que lhes é pregada. "Pastores" convivem e se envolvem com traficantes - sobre os quais pesam crimes os mais terríveis - como se fosse algo absolutamente normal e corriqueiro. Afinal, imagina-se, os fins justificam os meios. Só que a gente não sabe mais quais são os fins nem os meios desse "evangelho" pela metade. Não se prega mais arrependimento, mudança de vida, mas uma série de práticas esotéricas que podem, de alguma forma, garantir uma certa "salvação" ilusória a quem as pratica ou, pelo menos, repete os mantras que lhe são ensinados. Nada muito diferente do que reza a versão popular brasileira do catolicismo. O sincretismo religioso impera no país. Não é surpresa, portanto, que o líder do tráfico na favela da Rocinha, recentemente preso numa batida policial, tenha essa concepção dos "crentes" e do "evangelho" que ele ouve na sua própria casa, já que chama alguns "pastores" para fazerem "cultos" por lá. Algo deve estar muito errado se é este o "evangelho" que está sendo pregado no Brasil.

A excelente reportagem de Ruth de Aquino pode ser lida na íntegra no site da Época.



5 comentários:

  1. Deus veio para os enfermos e o nem era um,como jesus fez os pastores tambem tem que faser levar o evangelio onde quer que seja....................saiba das cisas antes de falar bestiras.

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  2. ô Anônimo!

    Verdade... JESUS veio para os enfermos, e quando Ele chegava o povo se convertia como Zaqueu, que disse que restituiria 4 vezes mais o que ele havia roubado, além de NUNCA mais fazer o que fazia. Jesus não ficava "alisando" ninguém enquanto esse alguém roubava ou matava....

    Então, antes de VOCÊ falar besteira, LEIA A BÍBLIA e principalmente CONVERTA-SE!

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  3. Como você não deve ler a Bíblia, Anônimo, a história de Zaqueu não foi o Régis Danese que inventou, não, viu... tá lá escrito em Lucas 19

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  4. Olá Hélio, respeito sua opinião, mas sei bem como funciona o Evangelho, seja Pastor ou membro de qualquer denominação evangélica alguém conhecedora da palavra, quando convidada para fazer um culto na casa de alguém não se nega este tipo de pedido.Creio que deve ter sido orientado o rapaz em questão, sobre a necessidade de se consertar mas não se obriga ninguém a isso. A palavra de Deus nos orienta a dar de graça o que recebemos de graça. Acredito que o senhor deve ser uma pessoa esclarecida e deve ter conhecimento que muitos cristãos morrem por amor ao nome de Jesus então não faça mal juízo daquilo que você desconhece generalizando o Cristianismo pregado. Que o Senhor Jesus abençoe sua vida.

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  5. Caro Anônimo,

    Obrigado pelo seu comentário.

    Entendo perfeitamente o que você disse, mas não é disso que se trata a matéria, se é que eu a li bem. Quando Nem se refere a um rapaz viciado de 22 anos, parece que o pastor com quem ele conversa é alguém do convívio diário dele já há algum tempo, tanto que já havia pedido ao pastor para "cuidar" do rapaz. Não se tratava, portanto, de um convite para ir pregar num culto isolado.

    Conheço muito bem (e valorizo) o trabalho dos irmãos que correm todo tipo de risco para evangelizar pessoas e lugares os mais difíceis do mundo. Muitos dão a vida pelo evangelho. Por isso mesmo, eu tenho sérias reservas em relação àqueles que não só convivem (o que é absolutamente natural e necessário diante das circunstâncias de vizinhança, parentesco, etc.) mas também consentem naquilo que se faz.

    Infelizmente, muitos crentes hoje só ouvem os mantras e chavões que os pastores falam, e não leem mais a Bíblia. Se a lessem, lá aprenderiam:

    "Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova"
    (Romanos 14:22)

    Que Deus o abençoe também!

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