domingo, 27 de novembro de 2011

Vinho: a bebida da civilização

Tudo bem que se trata de uma resenha escrita no estilo pretensioso e sabe-tudo da Veja, que - em 2005 - dizia que a cerveja era a bebida da civilização e o vinho, a da elite, mas não deixa de ser um texto interessante, na matéria publicada na edição nº 2239, de 19/10/11:

A bebida da civilização

O vinho foi a bebida dos banquetes filosóficos gregos, das saturnais romanas, da Eucaristia cristã. Pode-se dizer que é uma bebida tão antiga quanto a civilização – a videira já era cultivada pelo menos desde 6000 a.C. Roger Scruton vai além: vinho, diz ele, é civilização. “A distinção entre países civilizados e incivilizados é a distinção entre os lugares onde o bebem e onde não o bebem”, afirma o filósofo inglês no livro ‘Bebo, logo existo.’ A provocação destina-se, sobretudo, aos países muçulmanos que dão força de lei à interdição do Corão ao álcool, mas Scruton também critica o puritanismo que nos anos 1920 implantou a Lei Seca nos Estados Unidos. Impressiona a virtuosidade com que o ensaísta aborda um tema cuja discussão costuma se limitar ao universo especializado (e pedante) dos enólogos. Considerações sobre o vinho servem como ponto de partida para ataques às regulamentações econômicas centralizadoras da União Européia, à obsessão contemporânea por saúde e boa forma, ao proselitismo ateu do biólogo Richard Dawkins e do jornalista Christopher Hitchens, ao jargão impenetrável de grande parte da filosofia moderna, da fenomenologia de Husserl ao desconstrucionismo de Derrida. A despeito de tantos e tão generalizados ataques, este não é um livro ranzinza: sua mensagem fundamental diz respeito à generosidade do vinho, ao convite ao diálogo e ao perdão que haveria no fundo de uma taça.

Expoente da melhor cepa conservadora britânica, Scruton faz do vinho um bastião de resistência da cultura ocidental em um mundo assolado por bárbaros. Contra os multiculturalistas que tornaram as universidades inglesas (inclusive Cambridge, onde ele começou sua carreira acadêmica) e os burocratas do estado mastodôntico que infelicitam a França, o vinho ofereceria um ideal europeu mais autêntico e ancestral. Não é apenas um produto agrícola ou industrial, mas a manifestação da alma de um lugar, de suas tradições, de seus deuses pagãos e de suas devoções cristãs. A França é, nessa perspectiva, a pátria insubstituível do vinho – e, dentro da França, a região da Borgonha impõe-se como aquela que melhor conserva o ideal do ‘ terroir’, a propriedade que produz seu vinho único e lhe dá nome. Scruton já viveu na França, mas nunca esteve na Borgonha: não quer ver a região que tanto ama tomada por turistas endinheirados, mas ignorantes da história profunda de suas vinhas.

Apresentado pelo autor como o “guia de um filósofo para o vinho”, o livro é talvez mais fascinante nas páginas autobiográficas. Scruton revisa sua formação intelectual em paralelo à descoberta dos prazeres do vinho. E vende bem a idéia de que, na sua vida, o pensamento sempre esteve de algum modo ligado à adega. Há considerações mais demoradas sobre as qualidades e limitações de diferentes vinícolas européias, o que vale como um guia de iniciação à enofilia (Scruton não é modesto, mas tampouco é esnobe: preocupa-se em indicar os vinhos de preços relativamente acessíveis). As páginas em que ele exercita a filosofia em sentido mais estrito exigirão um leitor mais devotado: há uma longa e sutil discussão sobre o tipo de experiência que o vinho oferece a quem o bebe. Não é, diz Scruton, exatamente a fruição estética que temos diante de um poema, um quadro, uma sinfonia. Mas o vinho está longe de oferecer um entorpecimento vulgar: o inebriamento não seria mero efeito do álcool, mas estaria associado a todas as sensações que a bebida provoca sobre o olfato e o paladar no momento em que a tomamos. Há uma dimensão ritual no consumo do vinho, que remete ao culto grego do deus Dionísio (para os romanos, Baco) e, claro à Eucaristia cristã.

Em alguns momentos, Scruton parece dar uma importância desproporcional à bebida. Depois de páginas de argumentação filosófica cerrada, ele afirma que a desesperança presente na obra do filósofo alemão Arthur Schppenhauer talvez se deva ao fato de ele haver consumido mais cerveja do que vinho – e o leitor fica sem saber se deve levar essa afirmação a sério ou debitá-la na conta da ironia do livro. Essa irreverência mesmo em face dos clássicos é um dos prazeres da leitura de Scruton, um autor que não deve apenas ser lido, mas degustado”.



Um comentário:

  1. A BEBIDA DA CIVILIZAÇÃO FOI A CERVEJA, PELO MENOS NA IDADE MÉDIA, MAS ESTE ROGER SCRUTON DEVE SER UM "ALCOOLATRA" E DEFENDE ESTAS BABOSEIRAS, É TAL QUAL NOSSOS POLITICOS QUE PARA ALEGRIA GERAL DA NAÇÃO IRA PERMITIR BEBIDAS SENDO VENDIDAS NOS ESTADIOS DA COPA, UM RETROCESSO, QUANDO DEVEIA PROIBIR ESTES "CACHACEIROS" DE IREM VER OSJOGOS

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