segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Facada nas costas do Islã

O Azerbaijão é uma das 15 repúblicas resultantes do esfacelamento da antiga União Soviética em 1991. Rico em petróleo e gás, dominado pela família Aliyev (à qual pertencem o atual presidente Ilham e o anterior, seu pai Heydar), o país - que tecnicamente não é monarquia apesar dos Aliyev - tem pouco mais de 9 milhões de habitantes, 95% dos quais são muçulmanos, a maioria deles xiitas (85%) e os restantes são sunitas. A pouco expressiva presença cristã no país é majoritariamente composta por ortodoxos russos, georgianos e armênios, sendo que estes últimos estão concentrados na região separatista de Nagorno-Karabakh. Com a sua porção leste banhada pelo Mar Cáspio, o Azerbaijão tem países limítrofes por terra que talvez não sejam os melhores vizinhos do mundo: a Rússia, a Geórgia, a Armênia e o Irã. Uma vizinhança da pesada como essa é garantia de fortes emoções e perigos. No último dia 19 de novembro, um homem voltava a pé para sua casa na capital do país, Baku, quando foi esfaqueado nas costas. Três vezes. Depois, ainda lhe deram mais três facadas no abdômen. Seria um dos muitos e infelizes assassinatos que ocorrem no mundo diariamente, não fosse esse homem Rafiq Tagi, um jornalista e crítico literário que tinha 64 anos de idade. Apesar de esvair-se em sangue, Rafiq ainda conseguiu chegar à sua casa e chamou por socorro. Resistiu alguns dias no hospital, e veio a óbito no último dia 23. Teve tempo de dizer que notou que o seu assassino estava muito nervoso e não disse nenhuma palavra enquanto perpetrava o atentado. Enquanto convalescia num quarto de hospital de Baku, Tagi parecia se recuperar bem dos ferimentos quando subitamente teve uma piora que resultou na sua morte, algo que Emin Milli, também escritor e liberal azerbaijano, disse estranhar muito. Milli, por sinal, é um dos grandes críticos do regime quase ditatorial que impera no país, com a família Aliyev. Em 2009, juntamente com outros colegas, formou o grupo que ficou conhecido como "os blogueiros do jumento", já que tinham descoberto que o governo havia importado um jumento alemão de 42.000 euros. A suposta "entrevista coletiva" que o jumento teria dado ao chegar ao Azerbaijão (tocando violino) rendeu um vídeo engraçado (veja abaixo) e uma surra pesada em Milli e seu amigo Adnan Hajizade.

O ministro do Interior e o Procurador Geral do Azerbaijão se incumbiram das investigações, admitindo que - muito provavelmente - a motivação para o crime está ligada às atividades e aos artigos recentes do jornalista. Uma nuvem de silêncio, entretanto, paira sobre o fato, e pouca gente acredita que alguém será algum dia julgado e condenado pela morte de Tagi. Em novembro de 2006, ao escrever um artigo intitulado "A Europa e Nós" - e apesar de ser nominalmente muçulmano -, Tagi disse que os valores humanistas e universais da Europa trariam muito mais proveito ao Azerbaijão do que os preceitos islâmicos. O controverso artigo lhe rendeu uma condenação a 3 anos de prisão, até receber perdão presidencial em dezembro de 2007, além de um "fatwa" (uma espécie de condenação religiosa muçulmana) expedido por um clérigo iraniano, o aiatolá Fazel Lankarani, que o sentenciou à morte. No artigo em questão, Tagi havia comparado Jesus e Maomé, alegando que a influência cristã na Europa havia desembocado no respeito aos direitos humanos e à democracia, enquanto os ensinamentos do Alcorão haviam levado os países orientais a um despotismo religioso e às muitas ditaduras que o acompanharam. Logo, se os azerbaijanos queriam ser um povo livre, deveriam dar menos valor aos preceitos islâmicos e abraçar o secularismo ocidental. Apesar das ameaças iranianas, Tagi não se acovardou e continuou escrevendo contra o fanatismo e o atraso. Em um de seus últimos artigos, criticava exatamente a teocracia que dirige e determina o destino de milhões de iranianos. Ao que parece, esta opinião forte e corajosa lhe custou a vida em terras onde não demorará muito para proibirem até o pensamento. A exemplo do que aconteceu com os celulares no Paquistão, ou os próprios muçulmanos combatem o fanatismo em casa, ou a barbárie se abaterá sobre o mundo na próxima esquina. Que ninguém espere, entretanto, que os governos ocidentais derramem uma lágrima ou um protesto sequer pela morte de Tagi. Em país onde jorra petróleo, consciências, escrúpulos e sangue são derramados sem nenhum pudor. Os burros somos todos nós...



Fontes: Reporters Without Borders e The Guardian



Um comentário:

  1. Uma bela crônica, parabéns por magistrais entrelinhas, estamos lá veja se gosta.

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