quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Teria sido Caim um vampiro?

A pergunta soa absurda (e de fato é), mas é curioso ver como certas referências são bem mais antigas do que se pode imaginar.

Vampiros são personagens lendários que ficaram mais, digamos, "famosos" a partir do século XIX, sobretudo com a publicação do romance "Drácula", de Bram Stoker em 1897, que deu forma e conteúdo a praticamente tudo o que se pensou e escreveu a partir de então, inclusive os adolescentes problemáticos da série cinematográfica "Crepúsculo" ("Twilight").

Embora haja quem diga que as raízes do mito retrocedem até os espíritos e demônios típicos da cultura mesopotâmica milênios atrás, os vampiros ficaram mais conhecidos nas culturas eslavas, fazendo parte do folclore de povos como os da Rússia, Sérvia e Romênia.

A etimologia da palavra portuguesa "vampiro" mostra essa influência, conforme mostra a Wikipedia:
O termo entrou na língua portuguesa no século XVIII por via do francês vampire, que o tomou do alemão Vampir, que por sua vez o tomou emprestado no início do século XVIII do sérvio вампир/vampir, quando Arnold Paole, um suposto vampiro, foi descrito na Sérvia na época em que esse território estava incorporado no Império Austríaco. O Houaiss dá ainda como possível origem o húngaro, além do sérvio, apresentando como formas históricas vampire (c.1784), vampiro (1815) e vampyro (1857). Uma das primeiras ocorrências do termo registadas na língua portuguesa surge num texto português datado de 1784, em que é usada a forma vampire, indicando a sua proveniência direta do francês. Em 1815 registra-se já a forma atual, vampiro.
Por outro lado, o relato bíblico do primeiro assassinato, de Abel por seu irmão Caim, também está cheio de simbologia, dos sacrifícios ofertados a Deus e do sangue derramado na terra e que clama ao Senhor (Gênesis 4:10), como já tivemos oportunidade de comentar mais detalhadamente em dois artigos do blog, aos quais remetemos o leitor:



Aparentemente, vampiros não têm nada a ver com Abel e Caim, pois - com exceção do sangue derramado - não há nenhuma ligação entre ambos que justifique essa associação, cá entre nós, inusitada.

É muito curioso, portanto, quando se descobre uma gravura medieval, provavelmente do século XV, em que Caim é retratado como um vampiro. Confira:



Na ilustração, Deus (representado por Jesus) aceita o sacrifício de duas ovelhas por Abel, ao mesmo tempo em que rejeita o fruto da terra colhido e ofertado por Caim.

Repare ainda que ambos têm o corte de cabelo e estão vestidos com hábitos típicos de monges da Idade Média.

A dor da rejeição, o ódio e - talvez e principalmente - a inveja, faz com que Caim mate o irmão Abel, de uma maneira completamente desconhecida até hoje, pelo menos nas representações iconográficas do episódio: Caim morde o pescoço de Abel e lhe extrai o sangue como se fosse um legítimo precursor do Conde Drácula.

No ato seguinte, Deus, com um ar de piedade e misericórdia, bane Caim da terra e da condição em que ele estava até então, tornando-o errante pelo mundo.

Quem notou essa ilustração bizarra foi Fred Sanders no blog the Scriptorium. Até onde apuramos, não foi possível confirmar a autenticidade da datação atribuída à gravura, tampouco sua origem, o que não nos impede, é claro, de especular sobre ela.

Dados os conflitos entre as ordens monásticas católicas na Idade Média, especialmente entre franciscanos e dominicanos, não é de se duvidar de que se trate de uma espécie de "mensagem subliminar", uma crítica sutil e mordaz em que uns religiosos atacam os outros. Não dá a impressão de que Caim é retratado como um franciscano estilizado? [dúvida cruel]

Seja lá qual tenha sido a intenção da gravura, além de primeiro assassino, o autor atribuiu a Caim o desonroso título de primeiro vampiro da História

Fica a dica, portanto, para que os leitores do blog - que se interessam pelo sempre presente tema do vampirismo - se aventurem a investigar a informação que lhes acabamos de repassar.

Mereceria Caim uma estaca no coração?



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