domingo, 6 de novembro de 2011

A voz da consciência

A Folha de S. Paulo publica hoje uma ótima entrevista com o neurocientista português António R. Damásio, que tem carreira brilhante nos Estados Unidos - onde atualmente é professor de Neurociência na University of Southern California -, em que ele aborda, além da área em que é especialista, temas variados como consciência, religião, ciência, ateísmo, linguagem, entre outros assuntos, e todos de uma maneira sucinta e equilibrada. Vale a pena ler:

A voz da consciência

Damásio e a festa movediça dos pensamentos

RESUMO

O neurocientista António R. Damásio propõe um modelo para explicar a consciência humana, que se formaria em três níveis: o "protosself", o "self central", desenvolvidos na infância, e o "self autobiográfico", que segundo ele seria um "trabalho em andamento", fruto do acúmulo de nossas experiências e reflexões sobre o mundo.

CARLOS MESSIAS

O "SELF" PODE ser entendido como a consciência do eu e do mundo ao redor, a unidade central e reguladora do que somos, sentimos e vivemos. Em seu "Livro do Desassossego", Fernando Pessoa se refere à consciência como uma "orquestra oculta" e diz desconhecer quais "instrumentos tangem e rangem" nela: "Só me conheço como sinfonia".

Em seu quarto livro, "E o Cérebro Criou o Homem" [trad. Laura Teixeira Motta, Companhia das Letras, 439 págs., R$ 49], outro português, o neurocientista António R. Damásio, 67, aprofunda seu mergulho na sinfonia citada por Pessoa -ou, em suas palavras, na "festa movediça" de imagens, memórias e sentimentos que é a consciência humana. No livro, o autor prossegue sua ambiciosa investigação sobre o papel do corpo e de nossa origem animal nas representações mentais e propõe tese pioneira ao apontar o tronco cerebral, e não o córtex pré-frontal, como centro da consciência.

"Procuro articular a forma como os sentimentos são fundamentais na construção da consciência, tanto do que somos quanto do que está a nossa volta", disse o autor em entrevista à Folha, concedida por telefone, em seu gabinete na Universidade do Sul da Califórnia, onde coordena o Instituto de Cérebro e Criatividade.

Neodarwinista e ex-pupilo de Norman Geschwind, o pai da neurologia comportamental, Damásio reconhece que é preciso ter fé na ciência e acredita em tratamentos médicos e espirituais combinados.

Folha - Em que sentido "E o Cérebro Criou o Homem" complementa "O Erro de Descartes"?
António R. Damásio - Em vários sentidos. "O Erro de Descartes" teve muito a ver com o problema fundamental da emoção e a maneira como ela influencia as nossas decisões. Este livro também fala sobre isso, mas procuro articular a forma como os sentimentos são fundamentais na construção da consciência, tanto do que somos quanto do que está ao redor. Eu me aprofundo mais nas origens da mente, nos sentimentos básicos e na consciência.

Mas, se a consciência é fundamental para tomarmos conhecimento do mundo, estava Descartes (1596-1650) realmente tão equivocado?
Sim, pois são os sentimentos básicos que nos permitem ter consciência. Eles são os alicerces da nossa realidade refletida. Depois vêm a linguagem, o raciocínio complexo e toda a criatividade. "Penso, logo existo" dá uma impressão falsa de que só os seres que têm capacidade de pensar podem existir, mas, muito antes de haver pensamento, já existiam seres que sentem seus próprios corpos, sentem suas vidas e, portanto, existem. O correto seria "tenho sentimentos, logo existo".

A linguagem seria a unidade fundamental da consciência?
Existem muitos outros aspectos associados com a memória, com o raciocínio complexo e eventualmente com a linguagem e com o raciocínio baseado na linguagem. Um cão ou um chimpanzé são capazes de raciocinar até muito bem. No entanto, eles não têm linguagem como nós temos, o que nos permite explicar nossas ideias e nos comunicar uns com os outros.

Essa relação de continuidade estaria explícita na sua tese de que o tronco cerebral, estrutura mais primitiva do que a região cortical, seria o centro da consciência?
Exatamente. Um dos pontos fundamentais do livro é mostrar como entender a consciência como função cortical é pensar ao contrário. É como construir um edifício a partir do 20º andar, quando, na verdade, deve-se começar pelo alicerce. E o tronco cerebral é o alicerce da consciência e do sentir. Só depois vêm muitos andares, onde as funções tornam-se mais complexas. E, quando se chega ao córtex cerebral, as coisas tornam-se de fato muito complexas.

Se é tão óbvio, por que tanta demora em chegar a essa conclusão?
É interessante que essa constatação seja baseada em muitos dados que já existiam. O deslumbramento com o córtex cerebral é fruto de uma era das neurociências que está prestes a acabar. Isso poderia ter sido concluído há mais tempo, mas as pessoas ainda se deixam levar pelo fascínio pelo córtex cerebral, afinal, é a estrutura mais distintamente humana e induz a concluir que aquilo que é mais complexo é, portanto, humano. O que não significa que seja o sítio onde começa a humanidade.

Desse processo advêm as três instâncias do self que o sr. propõe?
Com certeza. Há um protosself, extremamente simples e primordial. Depois, há um self central, que é um pouco mais complexo e compartilhado com vários animais. Por fim, há o self autobiográfico, que é sobretudo humano.
É aquilo que todos nós compreendemos, pois nos dá uma história própria. Distingue aquilo vivemos, aquilo que pensamos e, portanto, nos dá noção de que somos seres únicos. Essa, sim, depende do córtex cerebral. Para chegar a esse estágio, todas as partes do cérebro trabalham colaborativamente.

Quando essas propriedades do self se manifestam no processo de desenvolvimento de uma criança?
O protosself e o self central desenvolvem-se rapidamente após o nascimento. Um bebê com um ano tem o protosself e o começo do self nuclear. O self autobiográfico só se desenvolve entre os 18 meses e os dois anos de idade. Há quem diga que demora mais que isso, porque muito poucas pessoas têm memórias de quando tinham essa idade.
O self autobiográfico é um trabalho em andamento. O self que eu tenho hoje é completamente diferente do que eu tinha aos 12 anos. Vai ganhando mais profundidade por causa do acúmulo de experiência em decorrência da nossa análise dessa vivência, pois constantemente analisamos e repensamos aquilo que nós somos.

O seu livro não emite conclusões fechadas, mas reconhece que a consciência é uma somatória de fatores. Ainda será possível mapear todas as funções cerebrais?
Sem dúvida nenhuma vamos avançar cada vez mais. Só é preciso ter alguma modéstia para reconhecer que jamais poderemos mapear o homem completamente. Não podemos nos esquecer de que, quando nos ocupamos do ser humano, estamos olhando para algo extremamente belo e complexo. Só se fôssemos muito presunçosos poderíamos pensar que vamos explicar tudo isso.
Ficamos contentes quando avançamos, mas sempre haverá algo a explicar. Acho bom que algo complexo como o ser humano não seja, nem será em cem anos, completamente explicável. Há de se esperar com paciência e modéstia.

Se isso ocorresse, o homem poderia passar a induzir, em si mesmo ou nos outros, estados de consciência?
Sou um otimista. É claro que é preciso ficar atento para não deixar que o conhecimento seja usado para finalidades vis. É interessante pensar que, quanto mais soubermos sobre isso, mais poderemos usufruir desses avanços a nosso favor. É preciso pensar como esse tipo de conhecimento traz mais benefícios do que malefícios.

O sr. é a favor do uso de psicofármacos?
Tudo o que puder ajudar alguém a deixar de sofrer é de grande serventia. A depressão, por exemplo, é causa de grande sofrimento. E não deve ser combatida só com medicamentos. É preciso, antes de mais nada, entender o que se passa e refletir sobre isso. Algumas causas estão relacionadas ao cérebro, outras ao ambiente e muitas vêm dos dois. Precisamos atacar as duas frentes.

O sr. é um dos principais representantes do neodarwinismo, como o biólogo Richard Dawkins ou o etólogo Desmond Morris. No entanto, não levanta a bandeira do ateísmo.
Tenho admiração por trabalhos de ambos. Mas não me identifico com a apresentação pública deles.
Não sinto necessidade nenhuma de declarar minha orientação religiosa. As pessoas não têm nada a ver com o que acredito. Sempre que alguém usa a ciência para tentar impor suas crenças, me parece algo excessivo e deslocado. Ainda sabemos tão pouco que não temos como fazer pronunciamentos sobre problemas tão profundos quanto crenças e as razões do universo. As pessoas podem ter opiniões, mas não devem dizer aos outros o que pensar.

Ciência e religião têm uma coisa em comum: a fé. Em qual o sr. acredita?
Ambas precisam de fé. Mas, para ser coerente com a minha resposta anterior, prefiro não me pronunciar quanto às minhas crenças religiosas.

Como médico, aceita que a religião seja usada no tratamento?
Desde que a pessoa tenha consciência do que está fazendo, não vejo problema nenhum em que ela concilie as duas coisas.

"'Penso, logo existo' dá impressão de que só seres capazes de pensar podem existir, mas, antes do pensamento, já existiam seres que sentem seus corpos e, portanto, existem"

"É preciso ter modéstia para reconhecer que jamais poderemos mapear o homem completamente. O ser humano é algo extremamente belo e complexo"

"Não sinto necessidade de declarar minha orientação religiosa. Ninguém tem nada a ver com o que acredito. Usar a ciência para tentar impor crenças me parece algo excessivo"



sábado, 5 de novembro de 2011

Serial killer escreve (e publica!) livro infantil nos EUA

A gente até tenta fingir que não lê, mas sempre aparece uma notícia pra lá de esdrúxula que revela o quanto o mundo é capaz de surpreender, e o cara ainda dá o título ao livro de "A Trindade dos Super-Garotos", segundo informa o UOL:

Serial killer engana editora com pseudônimo e lança livro infantil

Um serial killer condenado conseguiu enganar uma editora e publicou um livro infantil, que agora está causando polêmica por estar a venda no site da Amazon.

Charles Kembo foi condenado à prisão perpétua em junho de 2010 por homicídios cometidos entre 2002 e 2005. Suas vítimas eram todas adultas.

Cinco meses antes, ele havia fechado um contrato com a editora Publish America para lançar seu livro infantil, "The Trinity of Superkidds Book One: Quest for Water", cuja trama gira em torno de um mundo sem água, poluído e que será salvo por três jovens. O livro, de 372 páginas, pode ser adquirido por US$ 15.95.

Mas, ao escrever o livro e já prevendo problemas, Kembo usou o pseudônimo J.D. Bauer.

"Os pais vão ficar horrorizados ao descobrirem que o livro que eles compraram para o filho foi escrito por um serial killer", disse Andy Kahan, advogado criminal em Houston, ao "Huffington Post".

Kembo, sem revelar sua real identidade, chegou a dar uma entrevista sobre o livro, na qual afirmou que na primeira semana a obra vendera 14 mil exemplares e que ele havia recebido propostas para adaptar o livro para os cinemas.

Nem a editora nem a loja virtual responderam a denúncia. As informações são do "Huffinton Post".



Inquisição e liberdade de imprensa no Brasil Colônia

Uma série de artigos que vêm sendo publicados quinzenalmente pelo jornal Valor Econômico, sobre a história da imprensa no Brasil, despertou um debate interessante sobre os papéis da Corte portuguesa e da Inquisição (através do "Santo Ofício") na repressão à imprensa propriamente dita (a "tipografia") durante o período colonial. Em especial o artigo "Um atraso de três séculos", escrito por Matías M. Molina e publicado pelo Valor no último dia 28 de outubro, que foi ironicamente refutado pelo jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, em outro artigo intitulado "A Inquisição não existiu, é invenção dos leigos". Trata-se de material pra lá de polêmico para quem se interessa pela história da liberdade de expressão, de imprensa e de circulação de ideias no Brasil, e quer ter uma boa leitura de fim de semana. Como os dois artigos são muito extensos, reproduzimos abaixo apenas pequenos trechos deles, indicando os respectivos links para quem quiser lê-los na íntegra:




CENSURA DA COROA

Um atraso de três séculos


Por Matías M. Molina

Durante três séculos, a coroa portuguesa foi rigorosa e persistente em seu esforço para impedir que a palavra impressa perturbasse sua colônia da América. O primeiro livro em língua portuguesa publicado no Novo Mundo, o D.O.M Luzeiro Evangélico, não foi escrito no Brasil, mas em “S. Thomé cidade da Índia Oriental no ano de 1708”, pelo franciscano João Bauptista Morelli de Castelnovo, como se lê na capa. Também não foi estampado no Brasil; foi “impresso em México, cidade da Índia Ocidental no ano de 1710”.

O livro não poderia ter sido impresso no Brasil porque a corte de Lisboa proibira a instalação de prelos na colônia. Tinha medo das consequências. Controlava também a entrada de obras impressas, numa tentativa, nem sempre bem-sucedida, de manter o país à margem das novas ideias e das correntes culturais que circulavam na Europa. A metrópole também dificultava a divulgação de informações sobre o Brasil no exterior, para não excitar a voracidade das outras potências.

Depois que Johann Gensfleich zum Gutenberg fundiu letras e caracteres avulsos num molde metálico e imprimiu a Bíblia, em 1456, a imprensa se espalhou rapidamente pela Europa. Em 1466, foi impresso o primeiro livro na Basileia, em 1467 em Roma, em 1468 em Paris, onde enfrentou a resistência dos seis mil copistas da cidade, em 1469 em Veneza e em 1473 em Westminster, na atual cidade de Londres. A tipografia chegou à Espanha em 1472, quando o alemão Johan Parix de Heidelberg imprimiu em Segóvia o Sinodal de Aguilafuente, e em 1487 a Portugal, onde Samuel Gacon estampou o Pentateuco, em hebraico, na cidade de Faro. Em 1500, quando o Brasil foi descoberto, mais de 250 cidades da Europa tinham instalado prelos de impressão; nesse ano, Paris já contava com 181 tipografias.

Anchieta e Vieira tiveram que ser impressos em Portugal

Mas foram necessários três séculos e meio, já no começo do 19, para que as artes gráficas pudessem ser exercidas, sob rigoroso controle do Estado, no Brasil, um dos últimos países do mundo a permitir a instalação de uma tipografia.

Como disse Alfredo de Carvalho: “Em todo o transcurso do período colonial, não houve no Brasil, talvez, manifestação alguma de progresso a que a metrópole deixasse de corresponder com medidas proibitivas, ou providências vexatórias, ditadas por uma política suspicaz que antevia na prosperidade da vasta possessão americana a certeza da sua independência.”

Para mostrar o atraso cultural na época colonial, Isabel Lustosa escreveu que o Brasil era um dos poucos países do mundo, excetuados os da África e da Ásia, que não produziam palavra impressa. Mas, na verdade, até as colônias portuguesas na África e na Ásia contavam com tipografias, já no século 16 e começo do 17, instaladas pelos padres jesuítas. A exceção foi o Brasil.

Os livros escritos no Brasil por autores como Gabriel Soares de Sousa e Antonil ou os padres José de Anchieta e Antonio Vieira tiveram que ser impressos em Portugal e receberam escassa divulgação. Numerosas obras da época da colônia esperaram vários séculos para ser estampadas, depois que foram encontradas nos arquivos portugueses por historiadores brasileiros.

continue lendo o artigo na íntegra no Observatório da Imprensa




HISTÓRIA TRUNCADA

A Inquisição não existiu, é invenção dos leigos

Por Alberto Dines

Incrível, aterrador: o 16º capítulo da serie histórica “Jornais em Pauta”, publicada quinzenalmente pelo Valor Econômico (ver "Um atraso de três séculos"), parece ter sido montado segundo os paradigmas do Dr. Joseph Goebbels, zelosamente imitados pela Academia de Ciências da ex-URSS e inspirados no patriarca do conservadorismo e do fascismo, Joseph de Maistre (1753-1821).

A surpreendente tese: quem impediu o estabelecimento de tipografias e jornais no Brasil antes de 1808 foi a Coroa, o Estado português. Não houve censura episcopal, não houve censura inquisitorial, não houve nenhum “Rol de Livros Proibidos”, não houve Inquisição. O sanguinário aparelho repressor chamado Santo Ofício estabelecido em 1536 e mantido até 1821 em Portugal e territórios ultramarinos é pura ficção. Os cardeais-inquisidores não existiram, os comissários não tinham poder para examinar os livros que chegavam nos navios, a monarquia absolutista portuguesa era a única responsável pelo que poderia ser ensinado e difundido.

A fabricação da mentira torna-se cada vez mais sofisticada não por causa das novas tecnologias per se, mas porque estas tornam as pessoas cada vez menos interessadas em absorver conhecimentos.

Vocação censória

O autor da proeza revisionista e negacionista publicada num dos mais sofisticados suplementos culturais da imprensa brasileira (“Eu&Fim de Semana”, 28/10) valeu-se de um engenhoso e perverso artifício retórico: como na América espanhola as tipografias foram instaladas a partir do século 16 (a primeira, no México, em 1583), o déficit de liberdade na América portuguesa só pode ser atribuído à Corte.

Grande parte do texto, cerca de dois terços, está maliciosamente montado em cima de citações de eminentes historiadores patrícios, genialmente manipuladas para reforçar a ideia de que a Coroa portuguesa é a única vilã do nosso atraso intelectual e jornalístico.

Difícil acreditar que na vasta bibliografia de Sérgio Buarque de Holanda e de Nelson Werneck Sodré não conste qualquer referência ao protagonismo do Santo Ofício (portanto, da igreja católica) no controle dos corações e mentes dos brasileiros e brazilienses. Pinçar na Sociologia da Imprensa Brasileira, de José Marques de Melo, a frase de que no Brasil colonial não havia tipografias “porque não eram necessárias” é, na melhor das hipóteses, um recurso capcioso.

Isabel Lustosa é, hoje, a mais diligente e esmerada historiadora da imprensa brasileira, coeditora dos 31 volumes com a reprodução integral do Correio Braziliense e valiosos estudos sobre Hipólito da Costa. Dela, os editores de Valor só encontraram um conceito digno de ser incluído no seu seriado quinzenal: “O Brasil era um dos poucos países do mundo, excetuados os da África e Ásia, que não produziam palavra impressa”.

Onde está dito que a culpa do atraso foi exclusivamente da Coroa? Onde exime ela o Santo Ofício de ser a matriz da nossa vocação censória? Este tipo de trambique argumentativo ficaria muito bem num boletim do Opus Dei, mas discrepa num veículo destinado à formação da elite empresarial brasileira.

“Despotismo esclarecido”

O autor (ou autores) ignora(m) que a Inquisição espanhola, diferentemente da portuguesa, era menos centralizada e menos burocratizada. O Santo Ofício lusitano manteve apenas um tribunal fora do território continental (em Goa, Índia); o espanhol permitiu a instalação de três filiais no Novo Mundo (México, Cartagena, Lima) e, graças à fiscalização descentralizada, podia se dar ao luxo de autorizar a instalação de tipografias para a impressão de obras evangelizadoras, criação de universidades e circulação de periódicos a partir do século 17.

As doutrinas que inspiravam as duas entidades inquisitoriais eram as mesmas, colaboravam ativamente entre si (como atesta o caso da loucura e morte do santista Bartolomeu de Gusmão, o Padre Voador), mas as mentalidades eram diferentes. A Espanha era uma potência europeia e o seu império global deveria contar com uma flexibilidade administrativa que o mirrado reino português só adotou quando a família real fugiu para o Brasil.

Quem encarcerou o padre Antonio Vieira não foi a Coroa portuguesa, mas a Inquisição portuguesa. Quem mandou prender e depois executar o comediógrafo – nascido no Rio de Janeiro – Antonio José da Silva, “O Judeu”, não foi D. João V (satirizado na ópera O Anfitrião, montada em 1736), mas o cardeal inquisidor D. Nuno da Cunha, por meio de uma ordem verbal (como está em seu processo). Quem decidiu que fosse executado num auto da fé não foi a justiça secular, mas os inquisidores que lhe ofereceram o direito de escolher entre o garrote e a fogueira.

Aqui, na colônia portuguesa, bispos e comissários do Santo Ofício mandavam e desmandavam, os governadores obedeciam: cuidavam de defender o território, proteger riquezas e cobrar impostos. O resto ficava por conta dos Familiares do Santo Ofício e, sobretudo, do sistema de delações oriundo dos confessionários.

O quadro modificou-se quando esse despotismo clerical foi substituído pelo “despotismo esclarecido” do Marquês de Pombal (1750). Tarde demais, o país estava atrasado 250 anos.

continue lendo a íntegra do artigo no Observatório da Imprensa



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Time argentino expulsa imagem de santa "pé-frio" do estádio

Se existe algo que iguala brasileiros e argentinos na paixão, isto certamente é o futebol, que nos une e - geralmente - nos separa. O mesmo acontece com toda a atmosfera de encanto e superstição, rezas, simpatias e mandingas, que cercam uma simples partida de futebol, como a notícia que chega da Argentina via BBC Brasil:

Considera 'pé-frio', estátua de santa desaparece de estádio na Argentina


Vladimir Hernández
BBC Mundo na Argentina

O desaparecimento da estátua de uma santa acusada de trazer azar a um time de futebol na Argentina vem causando polêmica no país.

A estátua da Virgem de Guadalupe, de dois metros de altura, ficava posicionada de frente ao campo do estádio do Colón de Santa Fé. Ela desapareceu em agosto, após uma sequência de oito derrotas em 13 jogos.

A última derrota antes do desaparecimento da estátua foi para o rival local Unión de Santa Fé, em partida válida para o atual campeonato.

Após o sumiço, o time empatou quatro partidas, venceu três e perdeu uma, e se encontra no quarto lugar da tabela, com condições matemáticas de brigar pelo título.

Feiticeiro

A estátua foi presenteada ao clube há dez anos pelo então técnico da equipe, o uruguaio Jorge Fossati.

Após a derrota no clássico, Gómez diz que "os jogadores procuraram um feiticeiro", cego, que teria perguntado após caminhar pelo estádio se no local "havia uma virgem".

Segundo o jornalista, o episódio seria a confirmação das suspeitas de alguns jogadores, de que a estátua trazia azar. Dias depois, ela sumiu.

O desaparecimento gerou protestos de religiosos, inclusive do arcebispo de Santa Fé e a polícia investiga uma denúncia de roubo.

Inicialmente os jogadores negaram envolvimento com o caso, mas depois o capitão Ariel Garcé contou outra versão.

Ele disse que a estátua precisava de reparos, foi levada a um restaurador, mas no caminho, ela sofreu um acidente que a danificou irremediavelmente.

O clube e os atletas afirmaram que vão encomendar uma nova estátua, parecida com a original, para acalmar os que se ofenderam com o desaparecimento.



Irlanda fecha embaixada no Vaticano

A chapa esquentou de vez, azedando as relações - tradicionalmente fortes - entre a República da Irlanda e o Vaticano, depois que aquele país decidiu fechar sua embaixada na Santa Sé, utilizando a desculpa oficial de reduzir custos com suas representações diplomáticas no exterior. No pacote, anunciado ontem, 03/11/11, está incluído o fechamento das embaixadas no Irã e no Timor Leste. O Vaticano foi pego de surpresa pela decisão, já que faz questão de cultivar o seu status um tanto quanto sui generis de pessoa jurídica de direito público internacional, o que lhe garante, por exemplo, um assento na ONU e direito de voz e de voto em várias organizações multinacionais. Além disso, a República da Irlanda é um dos países católicos mais tradicionais do mundo, em que a religião romana é um traço fundamental da identidade do povo irlandês, tendo sido inclusive pretexto para a guerra civil entre "católicos" e "protestantes" (anglicanos) na Irlanda do Norte, porção da ilha irlandesa que ainda pertence ao Reino Unido em razão da maioria de sua população ser de origem inglesa e, portanto, anglicana.

Ao que parece, entretanto, este não é o maior problema causado pelo fechamento da embaixada irlandesa no Vaticano. Já são públicos e notórios os escândalos de pedofilia que mancharam o nome da Igreja Católica na Irlanda, conforme já noticiamos aqui no blog (ver "Vaticano teria ordenado abafamento de escândalos de pedofilia na Irlanda", bem como a crise diplomática que se seguiu à suspeita de que Roma não só teria feito pouco ou nada para combater e reprimir os pedófilos no clero irlandês, como também teria se esforçado para abafar a repercussão do escândalo. Basta dizer que, em pronunciamento oficial no Parlamento do país, no último mês de julho, o primeiro-ministro irlandês Enda Kenny fez duras críticas às autoridades do Vaticano, prenunciando o rompimento que estava por vir e, agora, é fato consumado, embora as nuvens negras que pairam sobre Roma estejam fazendo todo mundo se mover para tentar apagar o incêndio e evitar desgaste maior, se é que ele ainda existe.



Prática da meditação melhora sistema imunológico

Artigo do Telegraph traduzido por Natasha Romanzoti e publicado no HypeScience:

Meditação melhora sistema imunológico

A meditação – uma prática essencial de tradições budistas e indianas – se tornou popular conforme a sociedade moderna busca encontrar formas de combater o estresse e melhorar a sua qualidade de vida.

Agora, uma nova pesquisa sugere que a meditação pode ter benefícios para nossa saúde e desempenho, incluindo função imunológica melhorada, redução da pressão sanguínea e função cognitiva melhorada.

O novo estudo, junto com muitos outros, tenta descobrir de onde vêm os benefícios da prática. O objetivo da pesquisa é desvendar a complexidade conceitual e mecanicista da ‘consciência’ da meditação.

O “estado de consciência” (da meditação), tem, segundo os pesquisadores, quatro componentes-chave que podem ser responsáveis por seus efeitos: regulamentação da atenção, consciência corporal, regulação emocional e senso próprio. Juntos, esses componentes nos ajudam a lidar com os efeitos do estresse.

Esses componentes estão intimamente ligados. Ou seja, uma melhoria na regulação de atenção, por exemplo, pode melhorar a nossa consciência de nosso estado fisiológico. Uma consciência corporal, por sua vez, nos ajuda a reconhecer as emoções que estamos experimentando.

Compreender as relações entre esses componentes e os mecanismos cerebrais subjacentes a eles pode permitir que os médicos sugiram intervenções de meditação adequadas a seus pacientes.

No entanto, a meditação não deve ser feita de qualquer jeito e não cura tudo. Para que ela seja eficaz, requer treinamento e prática. Além disso, pode ter diferentes efeitos mensuráveis sobre nossas experiências subjetivas, nosso comportamento e nossas funções cerebrais.

Os pesquisadores esperam que mais pesquisas sobre este tema permitam que um espectro muito mais amplo de indivíduos utilize a meditação como uma ferramenta versátil para facilitar a mudança, tanto na psicoterapia quanto na vida cotidiana.



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Diário gospel de Sinop



Este que vos escreve está passando alguns dias aqui em Sinop, no Nortão do Mato Grosso, a 500 km da capital Cuiabá, visitando amigos e parentes, e aproveitando para rever essa bela e progressista cidade que tem hoje cerca de 120 mil habitantes.

Apesar de "progressista" ser um termo que se encaixa melhor em discursos de políticos como Odorico Paraguaçu, Sinop não é nenhuma Sucupira. O adjetivo "progressista" lhe cai bem.

Estive aqui pela última vez há 4 anos, e neste pouco tempo houve um crescimento gigantesco, facilmente constatável quando se percebe que bairros novos surgiram do nada, antigos carreadores são hoje avenidas asfaltadas e iluminadas, assim como nasceram novas crianças e aquelas de alguns anos atrás já são adolescentes e jovens universitários.

Claro que o crescimento desordenado deixa cicatrizes visíveis, seja na falta de planejamento dos bairros populares, com esgoto a céu aberto, seja na exclusão dessa mesma população para regiões mais afastadas do centro da cidade.

Existe no ar, entretanto, um sentimento de que esta é uma cidade viável, de que há trabalho para todo mundo, e as pessoas em geral estão otimistas com relação ao seu futuro.

Sinop cresceu muito rápido.

O desbravamento das terras virgens começou em 1972, e o povoado foi crescendo até ser elevado à condição de município em 17 de dezembro de 1979.

O então general-ditador de plantão, João Figueiredo, gostava muito do local e, segundo dizem, sempre desembarcava de avião no aeroporto local, que hoje leva seu nome, numa dessas tolas e injustas homenagens que se prestam a militares sem voto que pisaram na democracia.

Claro que todo esse progresso se deu às custas do desmatamento desenfreado da floresta amazônica, que cobria o território onde hoje está a cidade e as muitas plantações de soja, a grande riqueza local.

A década de 70 era outra época, de grave crise econômica causada pela alta do preço do petróleo em 1973, e o governo militar vivia a paranoia da ameaça de ocupação da Amazônia pelos gringos, da construção da rodovia Transamazônica (que terminou engolida de volta pela floresta), do slogan "integrar para não entregar", e famílias inteiras - sobretudo do Sul do Brasil - foram incentivadas a "civilizar", sem qualquer planejamento ambiental, o enorme deserto populacional que era o Norte do Estado do Mato Grosso (que então fazia jus ao nome).

Havia milhares de bocas para sustentar e não se pode culpá-los gratuitamente, portanto, pela tragédia florestal que se seguiu.

Esquizofrenicamente, entretanto, a cidade hoje relembra suas árvores tombadas, dando o nome de cada espécie delas às suas belas ruas e avenidas, como se quisesse pedir perdão por tê-las dizimado.

Como era de se esperar, a presença evangélica em Sinop é significativa. Apesar do cartão postal da cidade ser a bela Catedral do Sagrado Coração de Jesus, facilmente se percebem muitos templos de igrejas evangélicas.



Pra não ficar atrás no gigantismo que caracteriza Sinop (e envergonha Itu), a Assembleia de Deus também inaugura nesta semana um novo templo seu que mais parece um ginásio de esportes (daqueles bem grandes):



Há vários outdoors evangélicos em Sinop, a maioria é da igreja de Valdemiro Santiago, que apresenta o seu "apóstolo", com a bispa-esposa, numa montagem tosca, em que o casal que manda na organização está à frente de uma mansão, ao lado do versículo "eu e a minha casa serviremos ao Senhor".

Parece-se mais com "eu e o meu castelo serviremos ao Senhor", o que deve atrair pessoas mais preocupadas com a prosperidade que eles pregam, dando a devida contribuição, obviamente.

Deve ser por isso que os criadores do painel, deliberadamente, trocaram a referência do versículo, originalmente em Josué 24:15, para Efésios 3:14-15. Como ler a Bíblia não é o forte deles, alguém deve ter copiado errado:



Agora, não basta querer ter um castelo igual ao do Valdemiro Santiago, ainda mais se tudo o que você tem é um terreno baldio, mesmo que o "apóstolo" patrocine o "domingo do Haja Luz".

É preciso ir chique à igreja dele. Nos trinques. Para que o irmão e a irmã não passem vergonha na frente dos outros irmãos, Sinop está bem servida.

Na avenida principal, os varões e as varoas poderão contar com uma loja só de moda evangélica. Aquilo que em outros lugares é apenas sonho, aqui em Sinop já é realidade:



Crente não passa sufoco em Sinop, a não ser pelo calor que faz nessa terra abençoada por Deus...



Os estranhos hábitos de higiene e alimentação de Steve Jobs

Não tem jeito. A gente tenta, mas não há como escapar de ter Steve Jobs como assunto. Depois de sua morte quase coincidente com o lançamento de sua biografia (assinada - talvez assassinada - por Walter Isaacson), a stevejobsmania está em alta, e não é só pela reconhecida contribuição que seus aparatos tecnológicos deram para a pós-modernidade, mas também por detalhes um tanto quanto exóticos a respeito de seus cuidados com a saúde, suas palavras finais no leito de morte, e sua "divinização" imediata. Conforme a biografia vai sendo lida (e ocupando o topo da lista dos livros mais vendidos em todo o mundo), as esquisitices do fundador da Apple vão sendo compiladas e novos detalhes vêm à tona todo santo dia. A curiosidade da vez são os seus estranhos hábitos alimentares e de higiene (ou falta dela). Registre-se a favor dele, entretanto, a extrema sinceridade, em tom de confissão aberta, com que ele próprio revelou seus segredos mais íntimos ao seu biógrafo. Receita garantida de best-seller.

Um dos estranhos detalhes que mais chamou a atenção foi o método bizarro ao qual Steve Jobs recorria para descarregar o stress, isto quando a Apple ainda engatinhava: colocar e enxaguar o pé no vaso sanitário. Ver o homem que se tornaria um dos mais ricos do mundo enfiando o pé na privada não deve ter sido uma visão das mais agradáveis. Outro hábito discutível está relacionado ao período em que se tornou adepto do veganismo, estilo de vida em que se evitam - como fontes de alimentação - todos os produtos derivados de animais, não só a carne, mas também leite e ovos, por exemplo. Não só alimentação, diga-se de passagem, mas em todas as áreas das necessidades humanas, como vestuário, cosméticos, medicamentos e entretenimento, só para citar algumas. Nessa época, Jobs imaginava que, por ter este tipo de nutrição, digamos, alternativo, ele estava livre dos desagradáveis cheiros do corpo (o popular "cecê"), e portanto não precisava de desodorantes nem se submeter à tirania dos banhos diários. Não era essa a opinião, entretanto, dos seus funcionários que eram obrigados a trabalhar próximos a ele.

Com relação aos hábitos alimentares sazonais, além do já citado veganismo, suas práticas não eram menos radicais. Seus abusos dos jejuns levados ao extremo eram corriqueiros, quase atingindo o fatal ponto-de-não-retorno. Ainda dentro do estilo vegan, flertou por algum tempo com o frutarianismo, em que comia apenas frutas, sementes, nozes, castanhas e grãos em geral. Outras vezes, ficava semanas comendo apenas dois tipos de vegetais, combinação na qual seu par preferido eram maçãs e cenouras, o que deixava a sua pele com um tom esmaecido como um por-do-sol. Abolia, portanto, tudo quanto era proteína ou gordura, mesmo as de origem vegetal, o que certamente terminou contribuindo para sua baixa resistência ao câncer que o vitimou. Muitos detalhes ainda serão esmiuçados com o passar do tempo, mas pelo menos o drama pessoal de Steve Jobs também está servindo para que as pessoas conheçam estilos alternativos de vida, bem como as suas limitações.


Fonte: The Body Odd



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cristianismo e islamismo entre identidade e proselitismo



No seu livro "Como Nosso Mundo se Tornou Cristão" (tradução de Marcos Castro, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2010), o historiador (ateu) francês Paul Marie Veyne, numa nota de rodapé à pág. 226, dá uma visão interessante e um tanto quanto inusitada a respeito da expansão do islamismo em áreas antes - pelo menos nominalmente - cristãs, que contraria a versão tradicional de que o Islã forçou a conversão dos povos a que submetia a fio de espada pela jihad ("guerra santa"), e que as igrejas cristãs do Oriente Médio e da África eram majoritariamente influenciadas pelas heresias do nestorianismo e do monofisismo, o que as tornou, de certa forma, docemente receptíveis a uma doutrina monoteísta clássica como a defendida pelo Islã. Para Paul Veyne, o que diferencia a abordagem cristã da muçulmana quanto ao proselitismo é a identidade de grupo (uma espécie de sentimento de "nação") que dá ao último um certo senso de superioridade difícil de resistir. Uma lição que, aparentemente, continua muito atual. Confira o excerto:
Esta palavra proselitismo abarca várias atitudes bem diferentes. Uma religião cuja ambição é universal, como o cristianismo, pretendia converter todos os homens à sua verdade, para salvação deles. Em compensação, nos seus inícios, o islã conquistador quis que triunfasse por toda a parte a dominação da religião que é superior a todas, e não queria converter os povos dominados, conquistar as almas; o que importava ao islã era que a religião superior fizesse a lei, que os Crentes fossem os mestres. – Quanto à palavra identidade, também se refere a atitudes muito diversas. O islã é uma identidade cujos caracteres são muito particulares. Ser muçulmano é pertencer a uma comunidade de crentes pluriétnica e politicamente dividida e conflituosa; contudo, contra os Infiéis, os Crentes de qualquer nacionalidade, formam um grupo solidário cujos membros devem (ou deveriam) dar mão forte uns aos outros. De alguma forma, essa Comunidade religiosa que não é nacional também não é escolhida, subjetiva, como não são escolhidas as identidades nacionais, assim como ser francês, brasileiro ou belga. O que explica talvez uma dissimetria: enquanto velhas regiões cristãs converteram-se em massa ao islã (pareceria que o islã se impunha e impunha a todos seu profundo e impressionante sentimento de superioridade), as conversões de muçulmanos ao cristianismo foram raríssimas e quase impossíveis. Porque, se se provar, ao francês que eu sou, que outras nações são preferíveis à França, ainda que eu admitisse isso e deplorasse meu nascimento, minhas lamentações não mudariam em nada meu destino, que é ser francês. Renegar o cristianismo é uma traição, é renegar sua profissão de fé e preferir o erro à verdade, enquanto renegar o islã seria um absurdo, como pretender mudar de sexo, de natureza. Em uma palavra, as duas religiões não estão situadas da mesma maneira no fundo dos cérebros.




Advogado carioca diz receber mensagens de Maria

Matéria publicada na Folha de S. Paulo de hoje:

Linha direta com o céu


Fiéis acompanham, no Rio, terços rezados por Pedro Siqueira, 40, que diz receber mensagens de Nossa Senhora


CRISTINA GRILLO
DO RIO

Toda última terça-feira do mês, o advogado Pedro Siqueira, 40, tem um compromisso inadiável. Sai do trabalho na Procuradoria Regional da União, no centro do Rio, e ruma para a igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Gávea, zona sul carioca.

Lá, munido de um violão, ele comanda a oração do terço. E transmite, para uma crescente multidão de fiéis, mensagens que diz receber de Nossa Senhora, a quem vê e com quem conversa desde que se entende por gente. "Em minha memória mais distante, estou andando de velotrol [tipo de velocípede de plástico] com ela do lado. Devia ter dois anos", lembra.

CELEBRAÇÃO

A oração começa às 19h30, mas a partir de meio-dia fiéis começam a chegar. Às 17h, os 700 lugares, mais 120 cadeiras, estão lotados. A partir daí, só pelos telões no pátio e no salão. Quem o conhece há mais tempo e ajuda na celebração fica ao lado do altar.

Na semana passada, perto de 1.500 pessoas se reuniram para ouvi-lo. O público, majoritariamente feminino, é variado: de senhorinhas que pegam ônibus em bairros distantes da zona norte a jovens da zona sul, com roupas de grife e bolsas de milhares de reais. Pedro entra pela lateral da igreja protegido por mulheres que o acompanham desde que começou a rezar o terço, no apartamento da mãe, Dulce, no Leblon, há 18 anos. As pessoas querem tocá-lo, conversar em particular.

No altar, canta, reza e, 38 minutos depois, de olhos fechados, começa a transmitir mensagens que, naquele momento, segundo ele, Nossa Senhora está lhe passando.

RECADOS

"Dona Teresa [os nomes são fictícios], a senhora não tem nada, mas precisa de acompanhamento psicológico para tratar dessa mania de achar que está doente."

"Fernando e Rosa, o filho de vocês não teve uma recaída, ele nunca largou o vício. Enquanto não forem rigorosos, ele não vai se curar. Precisa de internação imediata."

São 19 mensagens, entremeadas por cantos, ave-marias e pais-nossos. Acaba às 20h53. Pedro só consegue sair quase uma hora depois. "Minha mulher vai me matar. Prometi que chegava cedo em casa hoje", diz ele, pai de um bebê de três meses. O advogado está longe do estereótipo de um pregador religioso. Lutador de jiu-jítsu, não tenta converter os céticos, nem ameaça os incrédulos. Fala sobre as visões como quem conversa sobre futebol.

"Às vezes eu fico cansado dessa confusão toda e reclamo com ela [Nossa Senhora], mas ela me diz para eu aguentar porque essa é minha missão. Vou discutir com ela?"

COMEÇO

Siqueira estudou no Colégio Santo Agostinho, um dos melhores do Rio, dirigido por frades. Formou-se em direito na PUC, universidade católica. Escondia o dom que diz ter.

"Quando era criança e contava para meus pais o que via, eles brigavam e me mandavam parar de bobagens. Aprendi que não devia falar daquilo. Via coisas ruins, tinha medo, mas segurava."

A mãe tinha um grupo de orações em casa, mas ele não participava. Aos 22 anos foi intimado a tocar violão lá. "Fui e comecei a revelar as mensagens que recebia. Minha mãe brigou. Disse que se queria que eu tocasse, tinha que me deixar contar o que via." A história se espalhou.

O apartamento da mãe ficou pequeno e o grupo se mudou para uma igreja. Foram anos até ser informado que não poderia ficar mais. Pedro é reticente quando perguntado se houve pressão da Arquidiocese para interromper as orações. "Nunca fui procurado por ninguém." Duas coisas o incomodam: pessoas que querem tocá-lo, como se ele fosse uma relíquia religiosa, e aqueles que fazem perguntas que considera egoístas ("vou conseguir um aumento de salário?").

Na maioria das vezes, diz que a mãe de Jesus surge como uma luz muito forte ou uma voz. "Quando aparece completa é de uma beleza indescritível", conta. Mas santos também aparecem e seu anjo da guarda, diz, está sempre ao lado. "Quando acordo e não o vejo, fico inquieto. Só sossego quando ele aparece."

Pedro passará a rezar o terço em São Paulo, no Santuário da Mãe dos Aflitos, em Santo Amaro, no próximo sábado, às 16h, convidado por dom Fernando Figueiredo.

Perguntado sobre quem vai financiar suas viagens, responde: "Eu, né? Reclamei com Nossa Senhora que ela me arrumou mais uma despesa e ela respondeu: 'São Paulo trabalhava para se sustentar e cumprir sua missão, então não reclame. Se vira'".



Arcebispo de Porto Alegre diz que Poder Judiciário é corrupto

O arcebispo de Porto Alegre (RS), D. Dadeus Grings, se meteu numa encrenca daquelas com o Poder Judiciário nacional, pois, ao criticar os Tribunais de São Paulo e de Brasília, teve a resposta num nocaute duro e direto do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que - tomando as dores de seus pares - o chamou de "um homem intolerante, agressivo, preconceituoso, vingativo e rancoroso, [que] mostra-se a antítese do cristão de que nos fala a Bíblia". Tudo começou em Mogi Guaçu, interior do Estado de São Paulo, onde D. Grings exercia à época as funções de bispo da diocese de São João da Boa Vista (que engloba Mogi Guaçu), e defendeu a iniciativa da Prefeitura em desapropriar um imóvel de uma família influente da cidade, o que, cá entre nós, já é um tanto quanto estranho, já que os cuidados de um bispo católico deveriam se concentrar nas necessidades espirituais de sua comunidade, o que inclui também - obviamente - as necessidades materiais e sociais da sociedade em que ela está inserida, mas daí a defender desapropriação de imóveis vai uma certa distância, a não ser que fosse o último pedaço de terra disponível no planeta, do que não se trata, é claro, o caso. Na confusão causada pelo processo judicial, D. Grings teria dito - numa carta particular endereçada à família - que os advogados deles não “deixavam a impressão de lisura”, o que, também cá entre nós, pode ser até uma maneira bonita de se expressar uma ofensa à honra de alguém, mas a belezura da calúnia não tira dela o condão de crime previsto no Código Penal brasileiro, nem exime o ofensor de indenizar o ofendido pelos danos morais causados por uma afirmação no mínimo leviana como essa. O fato da ofensa ser feita por escrito, mesmo que particularmente, não tira dela o poder de ferir a reputação de alguém. Poderia até corresponder à verdade, mas o bispo teria que ter comprovado a veracidade de sua acusação. Oportunidade para tanto teve, mas se não o fez, é porque não tinha prova de que a família proprietária do imóvel em questão (e os seus advogados) eram desonestos ou haviam cometido algum crime previsto em lei para conseguir seus objetivos.

A família então exerceu o seu legítimo direito de processar o então bispo de São João da Boa Vista pelos meios permitidos pela legislação brasileira, e o acusado teve a oportunidade de se submeter ao contraditório e se defender em todas as instâncias, com todos os recursos cabíveis, até que - depois de 16 anos vagando pelos meandros dos Juízos e Tribunais brasileiros - a decisão final transitou em julgado (no popular: tornou-se definitiva, não cabendo mais qualquer recurso) e tanto D. Grings como a Diocese de São João da Boa Vista foram condenados a pagar cerca de R$ 936 mil, atualizados até agosto de 2011 (a correção monetária continuará incidindo sobre o montante enquanto não for paga - na íntegra - a verba indenizatória). Agora, portanto, diante da irrecorribilidade da sentença, D. Grings, já arcebispo de Porto Alegre, veio a público acusar o Poder Judiciário em geral de corrupção, dizendo que "os juízes estão desligados da realidade. Os ministros da Igreja católica não recebem salários polpudos, como eles, nem amealham fortunas", imolando-se "espiritualmente" ao final da nota que distribuiu à imprensa: "Se me quiserem prender – conforme o Advogado querelante há 14 anos preconizava, - estou às ordens. Só assim o mundo saberá quanto nosso Judiciário é corrupto e arbitrário".

Não é surpresa, portanto, que a primeira reação à critica do arcebispo tenha vindo justamente do Judiciário gaúcho, que, em tese, não teria nada a ver com o imbroglio que envolve os Tribunais de São Paulo e da capital federal, mas se sentiu diretamente atingido pela acusação generalizada de corrupção feita pelo religioso católico e a rechaçou dizendo: "O Poder Judiciário manifesta sua indignação e repúdio às declarações do arcebispo de Porto Alegre, que mais uma vez optou pelo caminho da agressão e do escândalo frente a uma condenação judicial. Dom Dadeus, ao apresentar-se como um homem intolerante, agressivo, preconceituoso, vingativo e rancoroso, mostra-se a antítese do cristão de que nos fala a Bíblia. A Igreja Católica não merece ser colocada no centro de polêmicas equivocadas e movidas por simples recalques e frustrações pessoais. O arcebispo deveria deixar as questões legais para os corretos e competentes advogados da Cúria Metropolitana e, à sua vez, submeter-se com humildade às lições de convivência e urbanidade pregadas por sua própria religião".

Parece mesmo que Deus não concedeu ao arcebispo, sabe-se lá por quê, os dons da temperança e do domínio próprio, pois D. Dadeus Grings não tem papas na língua e nem prima pela discrição e sabedoria no seu falar, como quando da ocasião já noticiada aqui no blog, em que procurou defender os padres acusados de pedofilia dizendo que "a sociedade é pedófila", como se um erro global (fictício, no caso) justificasse o outro. Em março de 2009, D. Grings foi notícia no mundo inteiro por ter dado uma entrevista à revista Press & Advertising, na qual disse que houve muito mais vítimas fatais entre os católicos e ciganos na Segunda Guerra Mundial do que os judeus, “mas isso não aparece porque os judeus têm a propaganda do mundo”, como se boa parte dos católicos mortos durante a guerra não fosse de soldados nazistas que serviam aos ideais genocidas de Hitler. Talvez o falastrão prelado católico alimente demais não só o seu ego, mas sobretudo sua veia autoritária e se julgue acima do bem e do mal, achando que sua cátedra episcopal permite que ele dispare juízos definitivos e pronuncie qualquer bobagem sem que seja questionado por isso (no que não difere muito de alguns "pastores evangélicos", diga-se de passagem). Como já ensina o ditado popular, "em boca fechada não entra mosquito". Que Deus dê a D. Dadeus o dom do silêncio, com todas as virtudes que o seguem. De qualquer maneira, muitas águas turvas ainda vão rolar debaixo dessa ponte e encher o Guaíba de lágrimas e ranger de dentes, mas resta a esperança de que tanto o Poder Judiciário como a Igreja Católica saiam dessa crise mais humildes e mais sábios para lidar com as grandes questões da sociedade brasileira. Quem viver, verá!




terça-feira, 1 de novembro de 2011

Padre polonês abençoa tampas de bueiro



Problemas de segurança na sua cidade? Os amigos do alheio andam furtando tudo o que é de cobre, ferro, qualquer metal? Então os seus problemas, senhor prefeito (e moradores), acabaram. Basta pedir ao pároco local para que ele faça como um padre da cidade de Lodz, na Polônia, que enfrenta o mesmo problema de furto de tampas de bueiro, o que obviamente causa muitos problemas aos transeuntes desprevenidos. O risco de um acidente grave ou fatal não pode ser desconsiderado jamais. A padroeira de Lodz é Santa Faustina, não por acaso nascida na cidade polonesa em questão, isso em 1905, vindo a falecer em 1938, tendo sido canonizada por seu compatriota papa João Paulo II em 2000. Com o prestígio de uma santa local, a Prefeitura da cidade pediu aos padres que rezassem uma missa para benzer 4.000 novas tampas de bueiro, na esperança de que os poderes místicos de Santa Faustina apelem para o coração dos meliantes e os faça desistir da vida dedicada ao crime. Afinal, o número acima revela que 4.000 tampas de bueiro já foram furtadas e precisaram ser substituídas. Bem que os padres cariocas podiam fazer o favor cívico de benzer as tampas de bueiro do Rio de Janeiro, não é mesmo? O povo não pode mais andar sossegado pelas ruas de Copacabana com medo das tampas explodirem e tudo voar para os ares. Qual padre é corajoso o suficiente para benzer in loco uma por uma das traiçoeiras tampas de bueiro cariocas?

Fonte: Orange News



Como a religião beneficia homens e mulheres de maneira diferente

A matéria é do UOL Ciência e Saúde:

Espiritualidade traz benefícios diferentes para homens e mulheres doentes

A espiritualidade melhora a saúde tanto de homens quanto de mulheres que enfrentam algum tipo de doença crônica. Entretanto, cultivar o lado espiritual afeta os gêneros de maneira diferente, como mostra estudo publicado na revista Journal of Religion, Disability & Health.

Ter uma religião ou crença traz bons resultados para a saúde mental das mulheres, enquanto que, para os homens, a melhora também se reflete na saúde física.

Diversos estudos já haviam mostrado os efeitos positivos da espiritualidade para a saúde. Um deles, realizado pela Universidade de Wisconsin-Madison, descobriu que preces e orações são uma forma positiva de distração e uma maneira de as pessoas lidarem com situações difíceis, como doenças.

Esta nova descoberta reafirma a ideia de que uma crença espiritual pode ajudar a lidar com as consequências negativas de uma doença. É o que acredita Stephanie Reid-Arndt, pesquisadora da Universidade de Missouri.

A autora do estudo e sua equipe, para aprofundar as análises sobre a relação entre religião e saúde, analisaram o papel de cada gênero na hora de usar a espiritualidade ou religião para lidar com doenças e deficiências, como derrame, leucemia ou lesões cerebrais.

Os pesquisadores recrutaram 168 pessoas, com idades a partir de 18 anos, que estavam doentes. Destes, 61 tinham danos cerebrais, 32 eram vítimas de derrame, 25 apresentavam danos na medula e 25 tinham câncer. Os outros 25 que também foram analisados eram familiares que estavam fazendo exames de rotina com o médico.

Depois de analisarem o nível de espiritualidade dos participantes, os pesquisadores mediram o grau de saúde mental e física por meio de um questionário.

Para as mulheres, uma melhora na saúde mental foi associada a ritos espirituais diários, como praticar o perdão e usar suas crenças religiosas para resolver problemas. Acreditar e amar “alguém superior” também foi considerado positivo, segundo os pesquisadores.

Os homens, por sua vez, se beneficiam mais do suporte social que encontram em grupos religiosos, como congregações, intervenções espirituais e assistências a hospitais.



O uau final de Steve Jobs

Steve Jobs parece ter mesmo fundado uma nova religião, a julgar pela repercussão gerada pelo artigo de sua irmã Mona Simpson no The New York Times, em que revela que as últimas palavras de Jobs antes de expirar, olhando para sua família, foram: "OH WOW. OH WOW. OH WOW", algo que poderia ser traduzido para o português como "oh uau, oh uau, oh uau!". É até compreensível que isto venha a ser notícia, dada a importância do falecido fundador da Apple para a moderna sociedade tecnológica, mas daí a fazer ilações as mais esdrúxulas dizendo que ele teria tido uma visão do paraíso antes de bater as botas vai uma longa distância. Pois é exatamente isto o que está acontecendo nos Estados Unidos: uma série de especialistas estão tentando "desvendar" o "uau" final de Steve Jobs, que teria ainda dito uma outra frase final incompreensível, mas que, segundo informa o The Washington Post, já existe gente tentando decifrar o que ela significaria. Os mais lúcidos e calmos tentam argumentar de que este "uau" era dirigido à sua família, que o acompanhava no seu leito de morte, talvez admirando o que havia conseguido construir como pessoa, ou ainda dando-lhes uma força para prosseguirem nas suas vidas, mas a revelação de seus hábitos religiosos pela biografia recém-publicada, como a influência zen-budista na sua formação pessoal, além de ter dito que acreditava "fifty-fifty" (50-50, meio a meio) em Deus, tudo isso serviu de combustível para a indagação esdrúxula do que significaria este "uau" para a humanidade que permanece firme e forte no planeta. Talvez seja apenas uma constatação de como as pessoas realmente buscam a divindade, mas se contentam em cultuá-la nas celebridades e na tecnologia moderna, e parece que Steve Jobs é a encarnação perfeita da junção das duas coisas nesse desejo de eternidade na finitude.




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