O capítulo 19 marca a entrada de Jesus em Jericó (v. 1), acompanhado por uma enorme multidão (v. 3) que se somava aos moradores da cidade que se ajuntaram para vê-lo. Entre eles estava Zaqueu, o "maioral dos publicanos", ou seja, o chefe dos cobradores de impostos da região, certamente alguém muito mal visto pelo povo, já que tinham fama de corruptos. Zaqueu não resistiu à curiosidade e subiu num sicômoro a fim de ver Jesus, mas certamente algo mais lhe ardia no coração quando, apesar de sua posição de respeito, não teve vergonha de subir numa árvore para ver Jesus (v. 4). Detalhista como era, Lucas conta que Zaqueu tinha baixa estatura física, à qual se agregavam as suspeitas sobre a sua estatura moral. Jesus parou debaixo da árvore, olhou para cima e chamou-o pelo nome, dizendo que convinha que ele ficasse na casa de Zaqueu naquele dia (v. 5). Este desceu mais do que depressa e o recebeu com alegria (v. 6). Muito provavelmente, apesar de toda a sua riqueza e posição social, algo o incomodava profundamente, talvez uma necessidade de sentir-se aceito pela sua comunidade, e um profundo desejo de sentir-se aceito por Deus. Zaqueu recebeu Jesus em sua casa, o que gerou muitos comentários maldosos, pelo fato do Mestre se hospedar com um homem tido por todos como pecador notório (v. 7). A visita de Jesus à casa de Zaqueu foi tão significativa para este, que ele decidiu doar metade dos seus bens aos pobres e, se houvesse defraudado alguém, restituiria quatro vezes mais (v. 8). O fato de ter se levantado mostra a sua disposição de agir rapidamente e resolver as coisas de modo a reconciliar-se com Deus. Zaqueu não ficou apenas na intenção, mas tomou uma atitude de conversão, que verdadeiramente mostrava o repúdio público ao seu estilo de vida anterior. Diante de tal demonstração de fé e arrependimento, Jesus diz que a salvação havia chegado àquela casa (v. 9), pois "o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (v. 10).A seguir, Jesus lhes conta a parábola das dez minas, que guarda alguma semelhança com a parábola dos talentos relatada por Mateus (25:14-29). A diferença mais significativa é que aqui se trata de um valor fixo que o homem nobre confia aos dez servos. Todos eles receberam uma mina (v. 13), o equivalente a cem dracmas, ou seja, uma grande quantia para a época, e deveriam negociá-las e fazê-las render. A história envolve este homem nobre que parte para uma terra distante a fim de tomar posse de um reino, o que não deixa de corresponder a uma história real que os judeus conheciam. Por ocasião da morte de Herodes, seu filho Arquelau foi a Roma reivindicar o seu reino, mas os maiorais dos judeus também enviaram uma delegação para pedir que ele não assumisse o trono. Arquelau ainda reinou por 10 anos, mas sua crueldade e despotismo fizeram com que mais judeus se revoltassem e ele foi destronado e enviado ao exílio na Gália. Seu irmão Herodes Antipas assumiu uma fração do seu reino e alguns dias depois deste episódio em Jericó, participaria do julgamento de Jesus. A parábola das minas envolve, basicamente, 3 dos 10 servos a quem havia sido confiada a soma de dez minas. Quando o rei retorna e lhes pede que prestem contas (v. 15), o primeiro lhe entrega dez minas, ou seja, 10 vezes mais do que havia recebido (v. 16), no que é elogiado e recebe a promessa de recompensa do rei (v. 17). O mesmo acontece com o segundo, que fez render cinco minas (vv. 18-19). O terceiro embrulhou a mina num lenço, com medo do rei (vv. 20-21), e é repreendido (v. 23) e castigado (v. 24), sendo que a sua única mina é repassada ao que tinha dez (v. 25). Trata-se de uma parábola, portanto, sobre a necessidade de se trabalhar para o reino de Deus e de ajudar a multiplicá-lo. "Todo o que tem dar-se-lhe-á; mas ao que não tem, o que tem lhe será tirado" (v. 26).
Chega então o grande momento de entrar em Jerusalém. A missão terrena de Jesus estava muito próxima do fim. Não deve ter sido fácil para Jesus ter passado por Betânia pela última vez (v. 29), e ainda bem junto do Jardim das Oliveiras, cenário dos graves acontecimentos finais. Se havia um lugar em que Jesus se sentia bem, era em Betânia, na casa de Maria, Marta e Lázaro, e foi dali que ele despachou dois discípulos em busca de um jumentinho na aldeia vizinha (v. 30). Certamente, havia uma rede de discípulos que já havia traçado o plano para arranjar o animal, e muito provavelmente a expressão "Porque o Senhor precisa dele" era a senha para que o animal fosse entregue (vv. 31-34). Jesus montou no jumentinho e, cumprindo a profecia de Zacarias 9:9, entrou em Jerusalém, aclamado pela multidão que pouco tempo depois se voltaria contra ele (vv. 35-38). O contraste é marcante. Agora, a multidão faz um alvoroço tal que os fariseus se desesperam e pedem que Jesus os repreenda (v. 39), certamente temerosos de que os romanos tomassem aquele acontecimento como uma revolta popular. A resposta de Jesus, de que "se eles se calarem, as próprias pedras clamarão" (v. 40), mostra que aquele trajeto final era inevitável, e nada nem ninguém conseguiria deter o ritmo e o rumo dos passos do Mestre em direção ao Calvário. Jesus, então, chora sobre a cidade, lamentando por todas as chances que os judeus tinham perdido de exercer e cumprir a sua vocação e ministério como povo escolhido (v. 42). Jesus prediz a destruição de Jerusalém (v. 43), que ocorreria no ano 70, porque não haviam reconhecido a oportunidade da sua visitação (v. 44), bem ao contrário de Zaqueu, que havia recebido a visita de Jesus em sua casa, e com ela a salvação. Há uma rápida referência à purificação do templo dos vendilhões (v. 45), episódio que os quatro evangelistas relatam, mas Lucas é o mais lacônico deles. É no templo que Jesus passará mais alguns dias, pregando e ensinando (v. 47), enquanto os sacerdotes, os escribas e os maiorais do povo, preocupados com a repercussão da sua visita a Jerusalém, ao invés de recebê-lo, conspiravam para eliminá-lo (v. 48).














