quarta-feira, 11 de junho de 2008

O evangelho de Lucas - parte 32

O capítulo 19 marca a entrada de Jesus em Jericó (v. 1), acompanhado por uma enorme multidão (v. 3) que se somava aos moradores da cidade que se ajuntaram para vê-lo. Entre eles estava Zaqueu, o "maioral dos publicanos", ou seja, o chefe dos cobradores de impostos da região, certamente alguém muito mal visto pelo povo, já que tinham fama de corruptos. Zaqueu não resistiu à curiosidade e subiu num sicômoro a fim de ver Jesus, mas certamente algo mais lhe ardia no coração quando, apesar de sua posição de respeito, não teve vergonha de subir numa árvore para ver Jesus (v. 4). Detalhista como era, Lucas conta que Zaqueu tinha baixa estatura física, à qual se agregavam as suspeitas sobre a sua estatura moral. Jesus parou debaixo da árvore, olhou para cima e chamou-o pelo nome, dizendo que convinha que ele ficasse na casa de Zaqueu naquele dia (v. 5). Este desceu mais do que depressa e o recebeu com alegria (v. 6). Muito provavelmente, apesar de toda a sua riqueza e posição social, algo o incomodava profundamente, talvez uma necessidade de sentir-se aceito pela sua comunidade, e um profundo desejo de sentir-se aceito por Deus. Zaqueu recebeu Jesus em sua casa, o que gerou muitos comentários maldosos, pelo fato do Mestre se hospedar com um homem tido por todos como pecador notório (v. 7). A visita de Jesus à casa de Zaqueu foi tão significativa para este, que ele decidiu doar metade dos seus bens aos pobres e, se houvesse defraudado alguém, restituiria quatro vezes mais (v. 8). O fato de ter se levantado mostra a sua disposição de agir rapidamente e resolver as coisas de modo a reconciliar-se com Deus. Zaqueu não ficou apenas na intenção, mas tomou uma atitude de conversão, que verdadeiramente mostrava o repúdio público ao seu estilo de vida anterior. Diante de tal demonstração de fé e arrependimento, Jesus diz que a salvação havia chegado àquela casa (v. 9), pois "o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (v. 10).

A seguir, Jesus lhes conta a parábola das dez minas, que guarda alguma semelhança com a parábola dos talentos relatada por Mateus (25:14-29). A diferença mais significativa é que aqui se trata de um valor fixo que o homem nobre confia aos dez servos. Todos eles receberam uma mina (v. 13), o equivalente a cem dracmas, ou seja, uma grande quantia para a época, e deveriam negociá-las e fazê-las render. A história envolve este homem nobre que parte para uma terra distante a fim de tomar posse de um reino, o que não deixa de corresponder a uma história real que os judeus conheciam. Por ocasião da morte de Herodes, seu filho Arquelau foi a Roma reivindicar o seu reino, mas os maiorais dos judeus também enviaram uma delegação para pedir que ele não assumisse o trono. Arquelau ainda reinou por 10 anos, mas sua crueldade e despotismo fizeram com que mais judeus se revoltassem e ele foi destronado e enviado ao exílio na Gália. Seu irmão Herodes Antipas assumiu uma fração do seu reino e alguns dias depois deste episódio em Jericó, participaria do julgamento de Jesus. A parábola das minas envolve, basicamente, 3 dos 10 servos a quem havia sido confiada a soma de dez minas. Quando o rei retorna e lhes pede que prestem contas (v. 15), o primeiro lhe entrega dez minas, ou seja, 10 vezes mais do que havia recebido (v. 16), no que é elogiado e recebe a promessa de recompensa do rei (v. 17). O mesmo acontece com o segundo, que fez render cinco minas (vv. 18-19). O terceiro embrulhou a mina num lenço, com medo do rei (vv. 20-21), e é repreendido (v. 23) e castigado (v. 24), sendo que a sua única mina é repassada ao que tinha dez (v. 25). Trata-se de uma parábola, portanto, sobre a necessidade de se trabalhar para o reino de Deus e de ajudar a multiplicá-lo. "Todo o que tem dar-se-lhe-á; mas ao que não tem, o que tem lhe será tirado" (v. 26).

Chega então o grande momento de entrar em Jerusalém. A missão terrena de Jesus estava muito próxima do fim. Não deve ter sido fácil para Jesus ter passado por Betânia pela última vez (v. 29), e ainda bem junto do Jardim das Oliveiras, cenário dos graves acontecimentos finais. Se havia um lugar em que Jesus se sentia bem, era em Betânia, na casa de Maria, Marta e Lázaro, e foi dali que ele despachou dois discípulos em busca de um jumentinho na aldeia vizinha (v. 30). Certamente, havia uma rede de discípulos que já havia traçado o plano para arranjar o animal, e muito provavelmente a expressão "Porque o Senhor precisa dele" era a senha para que o animal fosse entregue (vv. 31-34). Jesus montou no jumentinho e, cumprindo a profecia de Zacarias 9:9, entrou em Jerusalém, aclamado pela multidão que pouco tempo depois se voltaria contra ele (vv. 35-38). O contraste é marcante. Agora, a multidão faz um alvoroço tal que os fariseus se desesperam e pedem que Jesus os repreenda (v. 39), certamente temerosos de que os romanos tomassem aquele acontecimento como uma revolta popular. A resposta de Jesus, de que "se eles se calarem, as próprias pedras clamarão" (v. 40), mostra que aquele trajeto final era inevitável, e nada nem ninguém conseguiria deter o ritmo e o rumo dos passos do Mestre em direção ao Calvário. Jesus, então, chora sobre a cidade, lamentando por todas as chances que os judeus tinham perdido de exercer e cumprir a sua vocação e ministério como povo escolhido (v. 42). Jesus prediz a destruição de Jerusalém (v. 43), que ocorreria no ano 70, porque não haviam reconhecido a oportunidade da sua visitação (v. 44), bem ao contrário de Zaqueu, que havia recebido a visita de Jesus em sua casa, e com ela a salvação. Há uma rápida referência à purificação do templo dos vendilhões (v. 45), episódio que os quatro evangelistas relatam, mas Lucas é o mais lacônico deles. É no templo que Jesus passará mais alguns dias, pregando e ensinando (v. 47), enquanto os sacerdotes, os escribas e os maiorais do povo, preocupados com a repercussão da sua visita a Jerusalém, ao invés de recebê-lo, conspiravam para eliminá-lo (v. 48).

Escândalos

A respeito de escândalos na Igreja, eu acho importante verificar na Bíblia o contexto em que esta palavra aparece. Logo no começo do capítulo 17 de Lucas, Jesus diz: "É inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual eles vêm! Melhor fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse atirado no mar, do que fazer tropeçar a um destes pequeninos" (vv. 1-2 – Almeida Atualizada). A palavra traduzida literalmente por "escândalo" é σκάνδαλον - skandalon - que significava originalmente uma armadilha, ou uma pedra de tropeço, tanto que outras versões traduzem esta palavra por "fazer tropeçar". De fato, é uma tremenda responsabilidade seguir a Jesus, mas chama a atenção o fato de que Jesus diz que é inevitável que escândalos aconteçam. Afinal, a igreja é composta de seres humanos, e seres humanos são falhos por natureza. No contexto em que esta expressão é relatada por Mateus (18:6), os "pequeninos" são as crianças com as quais Jesus acabara de conversar e as abençoara (18:1-5). Assim, escandalizar pode tanto se referir literalmente a crianças, como nos tristes casos de pedofilia na Igreja, mas não só isto (como se já não fosse suficientemente grave), mas qualquer outra armadilha que desvie as crianças do caminho de Deus. Num sentido espiritual, "crianças" pode querer dizer os "filhos de Deus" em geral, aqueles que recebem o Seu reino como crianças, com singeleza de coração, novos na fé, os pequeninos que devem ser protegidos da esperteza dos mais velhos.

O próprio Jesus era a rocha de escândalo para os judeus, predita por Isaías (8:14), profecia confirmada por Paulo (Romanos 9:33) e Pedro (1 Pedro 2:6-8). Temos, portanto, quanto aos escândalos, uma via de mão dupla em relação a Jesus. Em Mateus 11:2-6, João manda seus discípulos consultarem Jesus, pois, muito provavelmente, os discípulos de João, mais preocupados com seus jejuns e penitências, estavam se comparando aos discípulos de Jesus, que raramente jejuavam e, pelo contrário, sempre participavam de festas e banquetes. Deve ser por isso que Jesus acrescenta algo que, à primeira vista, não tem nada a ver com o que estava sendo conversado: "E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar de mim" (Mateus 11:6).

Assim, eu acho que deve ser entendido por escândalo na igreja tudo aquilo que realmente faça uma criança ou um irmão mais fraco na fé tropeçar, mas sem melindres, pois tem muita gente que se escandaliza com qualquer coisa, apenas porque acha bonito se escandalizar. No fundo, têm alguma carência não preenchida que os obrigam a buscar ser sempre o centro das atenções, em detrimento do outro. Quando analisei Romanos 14, eu já escrevi algumas coisas sobre a convivência cristã (clique aqui para ler).

Enfim, "escândalo" não é sinônimo de "preconceito", embora tenha muita gente que adore confundir propositalmente as duas coisas.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Pequenos delírios ideológicos

No Forum Atos, estamos debatendo sobre essa circunstância atual, bem pós-moderna, de ateus defenderem uma ideologia de direita, contra todo o passado esquerdista do grupo. 

O Jeanioz rebateu dizendo que "os ateus nunca vão se unir sob uma mesma ideologia (seja de esquerda, de centro ou de direita). É um dos efeitos colaterais do pensamento-livre."

Respondi que não estou falando de união de ideologia, até porque "pensamento livre" não funciona só para ateu, mas para todo ser humano. 

Aliás, "pensamento livre" é mais um daqueles jargões que todo mundo fala e ninguém define, porque é indefinível por natureza. O dia em que o definirem, ele será escravizado.

O mundo das idéias e dos confrontos ideológicos, tais como os conhecemos hoje, é produto do século XIX, e, ao que parece, é um artigo em extinção. 

Ideologia é um conceito do século XIX, também, e esses conceitos de "direita" e "esquerda" também são frutos da Revolução Francesa, assim como o Terceiro Mundo, ou Terceiro Estado, abaixo da nobreza e do clero (os dois primeiros Estados pré-Revolução). 

Até então, e por muito tempo depois, a realeza sempre esteve ligada à Igreja, e o rompimento com a Igreja foi uma das conseqüências da Revolução Francesa. 

O ateísmo sempre existiu, mas ganhou força a partir de então, seja com o materialismo dialético de Marx-Engels, seja com as muitas tendências de esquerda que se formara. 

O próprio conceito (também vago) de humanismo sempre se identificou com as propostas de esquerda, proletárias, socialistas e anti-capitalistas. 

A Guerra Civil espanhola, da década de 1930, é um exemplo triste de como essas forças se confrontaram. De um lado, a direita religiosa capitaneada por Franco e a esquerda materialista espanhola, ajudada pelos voluntários esquerdistas do mundo todo. 

É claro que havia gatos pingados de todos os matizes envolvidos em ambos os lados, mas foi nesse contexto que surgiu a Opus Dei, de direita, contra os ateus comunistas. 

Este "alistamento compulsório" de religiosos na direita e de ateus na esquerda perdurou por quase todo o século XX, e hoje eu confesso que fico tremendamente surpreso ao ver como existem ateus defendendo posições que ficariam muito mais "adequadas" na boca da Opus Dei.

Eclesiastes - capítulo 5

Leitura anterior: Eclesiastes - capítulo 4

O capítulo 5 de Eclesiastes marca uma inflexão no discurso do Pregador, no sentido de que é o primeiro capítulo onde Deus tem, digamos, um papel preponderante na sua exposição. 

Até então, a tônica estava na rotina da vida e nos fluxos e refluxos - inúteis e intermináveis - da vaidade humana. 

Como eu havia comentado antes, no capítulo 2, o Pregador apresentou – brevemente - 3 pilares onde apoiava o seu discurso: a sabedoria, a eternidade e a providência divina, o que lhe dava ainda alguma instabilidade na articulação das suas idéias; mas, para obter maior sustentação, no capítulo 5 ele introduz o quarto pilar: o temor de Deus

Logo no primeiro versículo (que nas versões católicas corresponde ao v. 17, o último do cap. 4), a Casa de Deus surge como que do "nada" no seu discurso, como se tudo o que houvesse escrito até então fosse vã (vaidosa) filosofia. 

Uma paráfrase possível de "Guarda o teu pé quando entres na Casa de Deus" talvez fosse: "toma consciência da importância deste passo, quando começas a falar das coisas de Deus". 

Dentro do contexto de Eclesiastes, "pé" (רגל - regel ) aí pode ser entendido também como "passo", ou seja, por "chão", que pode tanto significar uma caminhada "debaixo do sol" como o Pregador vinha propondo, como uma tomada de consciência da existência "pé no chão", realista, concreta, de cada um de nós, que, num certo marco da caminhada, não encontra mais respostas às suas perguntas nem alívio para o seu cansaço e enfado. 

Há momentos, portanto, em que somente o imanente (o "ser", o "estar", o "ter") não basta, não nos satisfaz, e por isso precisamos do (e buscamos o) transcendente (o "deve ser", o "pode ser", o "deverá ser"), e esta busca somente se aperfeiçoa na Casa de Deus, diante do Todo-Poderoso. 

Neste encontro, inevitável para todo ser humano, para o seu bem ou seu mal, todo cuidado é pouco. 

Não podemos oferecer "sacrifício de tolos", na expressão do v. 1, sacrifícios esses "que fazem mal". 




O silêncio, a prudência, o compromisso e a reverência são qualidades indispensáveis para aproximar-se de Deus em contemplação (v. 2), como o salmista já dizia: "Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!" (Salmo 19:14). 

A tradução da Bíblia do Peregrino para o v. 2 (que nas Bíblias católicas corresponde ao v. 1) é muito interessante: "Quando apresentares um assunto a Deus, que teus lábios não se precipitem, nem o pensamento te arraste". 

Quantas vezes temos essa experiência, de que nos apresentamos diante de Deus em oração e pensamentos errantes nos arrastam para longe de Sua presença. 

A leitura desta "precipitação" no falar pode ter uma interpretação muito mais abrangente, não só espiritual, mas também terrena e bastante cotidiana: quantas vezes, numa discussão (acalorada ou não) somos tentados a ter a última palavra? A ter sempre razão?

Quando isto acontece, dependendo - obviamente - das circunstâncias, ¿não podemos deixar a última palavra para a outra pessoa?

Não seria isto um exercício de humildade e disciplina?

Afinal, o v. 3 diz que, ao falar demais, corre-se o risco de dizer "palavras néscias" (Almeida Revista e Atualizada) e daí "nasce a prosa vã do tolo" (NVI).

Este versículo acrescenta que trabalhar demais produz sonhos, talvez porque o cansaço provoca o inevitável sono correspondente (vital à saúde física), talvez porque os sonhos são a única maneira do inconsciente reorganizar, digamos, a saúde mental e emocional da pessoa. 

A estes três tipos de saúde se deve adicionar a saúde espiritual.

Por isso, o Pregador prossegue ensinando que o que Deus requer de nós é inteireza de coração, e, como o salmista diz, "sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus" (Salmo 51:17). Assim, tolo é aquele faz um voto e não o cumpre, melhor é não fazê-lo do que desagradar a Deus (vv. 4-6).

A seguir, o Pregador retorna ao tema da opressão dos pobres (no extenso e profundo v. 8 - como já havia se referido no início do cap. 4). 

Fala do roubo e da cadeia de corrupção que dominam este mundo em lugar do direito e da justiça. 

É interessante que o Pregador faça esta distinção entre Direito e Justiça, algo que até hoje não é muito claro para quem vive nas sociedades modernas, e nem para quem estuda a Filosofia do Direito. 

Primeiramente, Justiça é um valor filosófico inalcançável pela sabedoria humana. Todos os grandes filósofos, desde Aristóteles, trataram de investigar e elaborar uma fórmula final e definitiva do que significa a verdadeira Justiça, e, embora as suas muitas contribuições, até hoje este conceito permanece impenetrável. 

Nietzche, por exemplo, entendia que o ideal de Justiça tem seu fundamento na inveja humana (como o Pregador já inferira em 4:4). 

Assim, ninguém valoriza a Justiça por mera contemplação de qualidades sublimes do homem, mas porque não quer que ao outro seja permitido o que a ele não é. 

Logo, se o outro comete um crime, por exemplo, ele o denuncia porque tem inveja de que o outro possa fazer impunemente o que a ele é ilícito. 

Enfim, cada um de nós tem um ideal de Justiça, coletivo ou individual, e nem sempre ele é protegido pelo Direito, ou seja, pela Lei e pela sua aplicação pelos juízes. 

Mesmo a Lei nem sempre é considerada justa por todos, mas por uma maioria democraticamente qualificada, como no caso das restrições do aborto ou do consumo de drogas tidas como "leves", por exemplo. 

O Pregador já percebia essa distinção tipicamente humana, mas também divina, já que a Lei mosaica, ainda que expressasse o Direito divinamente revelado ao povo judeu, não podia conter, na sua finitude terrena, todo o esplendor eterno e infinito da Justiça de Deus.

Ainda neste compasso, Salomão, o rei, diz algo que continua tão moderno que poderia ser usado pelo MST atualmente: "o proveito da terra é para todos; até o rei se serve do campo" (v. 9). 

Aparentemente, é um versículo deslocado do contexto do v. 8, mas o Pregador associa o fim da opressão ao proveito da terra por todos, e não por casualidade, a posse e o usufruto da terra sempre esteve ligada às questões de direito e justiça. 

Rousseau já dizia que "o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil"[1]

Roland Barthes[2] entende que a Retórica surgiu em função da reivindicação de terras entre os gregos do século V a.C., quando, depois da derrubada dos dois tiranos invasores sicilianos, Géron e Hiéron, os exilados voltaram e havia uma confusão de terras depois dos muitos confiscos. 

As questões possessórias terminaram sendo decididas em grandes assembleias públicas, em que era preciso ser eloquente para convencer os jurados da justiça do seu quinhão de terras. 

Um dos mais renomados filósofos do Direito no Brasil, Tércio Sampaio Ferraz Junior, lembra que “a palavra diké, que nomeava a deusa grega da Justiça, derivava de um vocábulo significando limites às terras de um homem. Daí uma outra conotação da expressão, ligada ao próprio, à propriedade, ao que é de cada um[3]

Diké era representada pela estátua de uma mulher segurando a balança na mão esquerda e a espada na direita, mas com os olhos abertos. 

A colocação da venda nos seus olhos vem com a absorção da mitologia grega pelos romanos, que criam a deusa Iustitia, que até hoje vemos em fóruns e escritórios de advocacia. 




É interessante observar, portanto, que a formulação ocidental moderna de Justiça já se encontrava presente em Eclesiastes, seja o seu autor Salomão ou um judeu do século VI a. C.. 

Alguém poderia objetar que as culturas se influenciaram mutuamente, mas não houve tempo nem condições para tanto, já que a menor datação possível para Eclesiastes é anterior à consolidação da cultura grega, que se dá a partir do século V a. C. 

De qualquer forma, se nota um ideal de direito e de justiça muito semelhante em vários povos antigos, e que permanece até hoje.

Não por acaso, o Pregador encerra o capítulo 5 falando do amor ao dinheiro, "a raiz de todos os males" na visão de Paulo (1 Timóteo 6:10). 

Afinal, a propriedade de terras era o sinal mais visível de alguém. Enquanto o trabalhador pobre dorme um sono tranqüilo, o rico se preocupa com a sua fartura (v. 12), transformando as riquezas no seu próprio dano (v. 13), e, se morre, o rico as deixará de herança para quem nunca trabalhou para merecê-las (v. 14). 

Assim, o Pregador retoma um tema com o qual já finalizara o capítulo 2. Afinal, por que trabalhar tanto, se nus saímos do ventre da mãe e nus voltaremos ao ventre da terra, e não poderemos levar nada conosco (v. 15)? 

Trabalhamos para o vento, então... (v. 16). Passamos por muitas dificuldades e muitos aborrecimentos para ajuntar dinheiro (v. 17), mas verdadeiramente "boa e bela coisa é comer e beber e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu" (v. 18). 

"A vida é curta, aproveite-a!", grita o Pregador, e as coisas que batalhamos para conseguir ajuntar, na verdade, são dons de Deus (v. 19), e é Ele, e somente Ele que nos enche o coração de alegria (v. 20).


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[1] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a Origem da Desigualdade. Rio de Janeiro: Athena Editora. Trad. de Maria Lacerda de Moura, s/d, p. 124
[2] BARTHES, Roland. A Aventura Semiológica. São Paulo : Martins Fontes, 2001, trad. port. de Mario Laranjeira, p. 9
[3] FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ao Estudo Do Direito. Técnica, Decisão, Dominação. São Paulo: Atlas. 2003. 4ª ed., p. 52



Leitura seguinte: Eclesiastes - capítulo 6


segunda-feira, 9 de junho de 2008

River campeón


sábado, 7 de junho de 2008

A Amazônia é nossa

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Justiça no pensamento aristotélico - 1

1) INTRODUÇÃO:

O presente trabalho tem por objetivo investigar a maneira como a Justiça foi entendida pelos gregos em geral, e por Aristóteles em particular. Aristóteles (384-322 a.C.) viveu na Grécia do século IV a.C. 

Nasceu em Estagira, na Macedônia, daí também o conhecermos por “o estagirita”. 

Seu pai, falecido quando Aristóteles ainda era criança, chamava-se Nicômaco e ocupou o cargo de médico do rei da Macedônia. 

Muitos estudiosos da sua obra atribuem a essa origem familiar o interesse de Aristóteles por assuntos relativos às ciências naturais. 

Ainda jovem, Aristóteles entrou, com dezessete anos de idade, na Academia de Platão, onde permaneceu por vinte anos; sua doutrina filosófica a princípio segue os paradigmas estipulados por Platão, mas pouco a pouco o estagirita começa a proclamar sua independência intelectual, distanciando-o de seu mestre. 

Após a morte de Platão, Aristóteles deixa a Academia e, alguns anos mais tarde, é convidado por Filipe, rei da Macedônia, para ser preceptor do jovem Alexandre, herdeiro do trono. 

Com a ascensão de Alexandre ao poder, Aristóteles regressa a Atenas, após mais de dez anos de ausência. 

Funda, então, o Liceu, escola onde ensina até 322, quando – após a morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C. – o estagirita vê-se forçado a deixar Atenas por causa de uma explosão de sentimentos xenófobos, em que a sua condição de estrangeiro o faz retirar-se do cenário ateniense.

No Liceu, Aristóteles produziu uma obra monumental que se tornaria referência para as investigações vindouras sobre os mais diversos ramos do conhecimento. 

Aristóteles se dedicou ao estudo e à sistematização de grande parte do conhecimento então disponível, para os quais recolhia também contribuições valiosas de teorias filosóficas anteriores. 

O Liceu de Aristóteles, além do edifício em si que o constituía, ficou especialmente conhecido por seu jardim, o qual tinha uma alameda para caminhar; que os contemporâneos chamavam de peripatos (as arborizadas alamedas por onde se andava conversando e ensinando), motivo pelo qual a escola aristotélica foi chamada peripatética, seja como referência à alameda, seja como referência ao fato de que Aristóteles e os estudantes passeavam por ali discutindo animadamente filosofia.

Entretanto, antes de se estudar propriamente o legado de Aristóteles, é necessário investigar, ainda que perfunctoriamente, as origens do pensamento grego, já que o estagirita não surgiu numa espécie de geração espontânea do saber, mas foi receptor das grandes discussões filosóficas anteriores, que o tornaram num referencial na história do conhecimento, na qual o seu lugar de honra está – desde então e para sempre - preservado.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Nietzche x Eclesiastes

Eclesiastes
Tradução autorizada pelo autor Justin, do original que se encontra no blog Wine, Cheese and Theology


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Eu tenho escrito e pensado bastante sobre alguns temas nietzcheanos na arte e no livro de Eclesiastes.



Ambos dizem que nós deveríamos desfrutar a vida aqui e agora. Ambos apontam contradições e dilemas na vida.



Nietzche propõe uma experimentação intelectual na sua doutrina do Eterno Retorno.

E se - ele especula - o conjunto da história é cíclico, e você fosse destinado a viver a sua vida repetitiva e exatamente da mesma maneira? Ele diz o seguinte:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela? [1]

Trevor Hart explica a doutrina de Nietzche desta maneira:

A idéia do eterno retorno funciona como um tipo de iluminação daquilo que realmente significaria aceitar completamente a falta de sentido e propósito no mundo. Viver sem uma metanarrativa , liberado do sonho moderno e cristão de uma realidade diferente daquela que de fato aí está, deveria significar, por outro lado, ser capaz de afirmar a totalidade da vida tal qual ela é.

Nietzche não está atrás de uma saída, um escape, para aquilo que seria uma maldição na vida. Ele busca um tipo de aceitação, ou afirmação desta vida, por amor ao destino.

O livro de Eclesiastes abre com o Professor, Qohelet, anunciando que tudo é hebel. Esta palavra pode ser traduzida como "vaidade", "vapor", ou "inútil". O erudito Michael Fox a traduz como "absurdo". Fox trabalha sobre a definição de absurdo dada pelo filósofo existencialista Albert Camus. Para Camus, o Absurdo é a desconexão entre pretensão e realidade, entre aquilo que nós esperamos ser o caso, e o que ele realmente é. Para Camus, é um fato empírico que nós esperamos certas coisas do mundo. Nós temos um desejo, ou uma aspiração por justiça, para dar um aspecto pessoal ao universo, e para que as coisas façam sentido. Mas não é isso que nós constatamos. Em vez disso, nós encontramos um mundo cheio de injustiça, e o universo é profundamente indiferente à nossa presença.

Da mesma maneira, em Eclesiastes, Qohelet explora as áreas da vida em que a pretensão se desliga da realidade. Nós pensamos que o conhecimento e a sabedoria deveriam levar à felicidade, mas, em vez disso, eles geralmente terminam em tristeza (1:16-18). O prazer deveria levar à felicidade, mas ele é passageiro e, em última instância, descartável (2:1-3, 2:10-11). O trabalho deveria levar à plena satisfação, mas, em vez disso, nós descobrimos que as suas recompensas são passageiras quando comparadas ao esforço que colocamos para ganhá-las (2:4-8, 18-19, 21). Não somente o nosso trabalho é passageiro e temporário, mas nós também somos; a morte é inescapável (2:16, 3:21). A justiça deveria ser recompensada e a maldade punida (8:12-13), ainda que freqüentemente parece que as coisas funcionam da maneira contrária (3:16-21, 4:1-3, 7:15, 10:7). Talvez a desconexão última resida no fato de que "[Deus] colocou a eternidade no coração do homem, ainda que ele não possa descobrir a obra que Deus fez do início até o final" (3:11). De alguma maneira, nós ansiamos ou esperamos "eternidade" dentro desta vida. Nós não conseguimos, como Camus diz, "reduzir o mundo a um princípio racional" ou explicar todos os meandros aleatórios da vida (as suas injustiças, dúvidas, opressões e sofrimentos). O mundo é simplesmente muito grande para nós organizarmos tudo e somos finitos por natureza (3:1-8, 8:6-7, 8:16-17, 9:11-12).

Entretanto, antes de se desesperar, Qohelet conclui que Deus, no meio de tantos absurdos, em tempos finites, concede alegrias temporárias. Esses prazeres passageiros existem para serem desfrutados como dons (2:24-25, 3:12-13, 22, 5:18-20, 8:15, 9:7-9). Desta maneira, podemos abraçar a nossa humanidade com a sua temporalidade, finitude e mesmo o sofrimento. E nós fazemos isso quando desfrutamos esses dons com gratidão e esperança.No fundo, nós encontramos uma fé fundamental nos escritos de Qohelet, apesar dos absurdos da vida. Nós somos capazes de desfrutar os prazeres temporais da vida precisamente porque nós sabemos que eles vêm de Deus. Além disso, ainda que seja verdade que, da nossa perspectiva, o mundo é absurdo, Qohelet advoga uma fé no Deus que tem uma visão muito mais abrangente (5:1-7, 12:13-14). Dons que se evaporam, prazeres fugitivos e belezas que se desvanecem são vista como apropriadas para o nosso "quinhão" na vida em virtude da distinção entre Criador e criatura.

Assim é quando Qohelet focaliza a natureza cíclica da vida (1:4-11, 12:7, 3:15). Ele ao mesmo tempo abraça um elemento prospectivo e esperançoso. Mesmo que seja verdade que, do nosso ponto de vista, a injustiça reina, o prazer seja uma ilusão, e os paradoxos abundem, nós temos a idéia de que Deus está sempre disposto a algo muito maior do que nós possamos conceber. "Então contemplei toda obra de Deus, e vi que o homem não pode compreender a obra que se faz debaixo do sol; pois por mais que o homem trabalhe para a descobrir, não a achará; embora o sábio queira conhecê-la, nem por isso a poderá compreender" (8:17). "Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer que a sua alma goze do bem do seu trabalho. Vi que também isso vem da mão de Deus" (2:24). De novo, Qohelet justapõe essas duas realidades, frisando os absurdos da vida e então nos aconselha a desfrutar o nosso quinhão na vida (não menos que seis vezes, pelas minhas contas, nos capítulos 2 a 9). Finalmente, ele finaliza o livro com a admoestação de temer a Deus e uma referência ao juízo final (12:13-14). Peter Leithart coloca as coisas da seguinte maneira:

Como acontece nos capítulos finais de Jó, Eclesiastes ensina que há mais coisas no céu e na terra do que aquilo que é sonhado na nossa filosofia ou teologia, que Deus se propõe a muito mais do que nós possamos conceber e que, limitados e finitos como somos, é tão-somente natural que o nosso entendimento do padrão a história é parcial e o nosso controle da vida é limitado... a alegria salomônica é um hedonismo que nasce da confiança de que o mundo está sempre debaixo do controle de Yahweh.... em vez de se impacientar com a nossa finitude e ansiedade por sermos deuses, Salomão aconselha que nós devemos nos regozijar no nossos limites e em toda a efêmera vida que nos foi dada.

Então, qual é a diferença fundamental entre Nietzche e Qohelet? Nesses dois pensadores nós encontramos imperativos idênticos com indicativos opostos. Para Nietzche, nós devemos desfrutar a vida (imperativo) porque ela é tudo que existe (indicativo). Para Qohelet, nós devemos desfrutar a vida (imperativo) precisamente porque aquilo que nós vemos não é tudo o que existe (indicativo).


[1] NIETZCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Nova Cultural, Círculo do Livro, 1996. Coleção "Os Pensadores", p. 193

O evangelho de Lucas - parte 31

Já no capítulo 18, Jesus começa ensinando a seus discípulos alguns valores importantes sobre a oração, como o próprio Lucas diz no primeiro versículo. Era sobre o dever de orar sempre, já que no final do capítulo anterior, Jesus fala de seu retorno. Era importante para seus discípulos vigiarem, como diz em outro local:

(Mt 24:42) Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor;

Por isto Jesus ensina o valor da oração sem cessar. Para isto, emprega o exemplo de um juiz que não temia a Deus e nem respeitava os homens. Tal homem jamais teria compromisso algum com quem quer que seja. Ele diz também que uma viúva, uma das pessoas mais desamparadas, pedia sempre para que sua causa fosse julgada. O fim da parábola é que mesmo o juiz não devendo nada para ninguém, ele resolveu ajudar a mulher, pois ele não queria mais ser incomodado por ela.

Imagine agora para Deus, sendo você um seguidor fiel d'Ele. Se um juiz que não temia ninguém ajudou uma viúva, por que ela o incomodava com tantas petições, Deus não nos ajudaria sendo nós seus seguidores, e Ele tendo prazer em ajudar-nos?

Outra parábola é proposta para aqueles que confiavam em si mesmos. Um fariseu e um publicano foram orar. O fariseu agradece por ser mais santo que o publicano, enquanto que o publicano pede perdão. Jesus então ensina que é o publicano que foi justificado em suas orações, pois ele se humilhou. Mais uma vez aqui vemos uma crítica quanto ao proceder principalmente de fariseus. A humildade tem que ser uma constante na vida do cristão. Não devemos nos enaltecer, ou nos vangloriar daquilo que fazemos. Devemos lembrar, como foi dito no capítulo anterior, que tudo que fazemos estamos fazendo em débito. Também é relatado que se traziam crianças para que Cristo as tocasse, mas eram repreendidos pelos discípulos. A intenção de se trazer crianças para Cristo é melhor explicada em Mateus:

(Mt 19:13) Então lhe trouxeram algumas crianças para que lhes impusesse as mãos, e orasse; mas os discípulos os repreenderam.

Jesus no entanto os repreende, dizendo que é delas o Reino dos Céus. Marcos complemente a passagem dizendo:

(Mc 10:15) Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como criança, de maneira nenhuma entrará nele.
(Mc 10:16) E, tomando-as nos seus braços, as abençoou, pondo as mãos sobre elas.


Para os discípulos, as crianças não tinham condições de interagir com Cristo, tanto que foram levadas até Ele, não foram sozinhas. Aqueles que crêem em Cristo querem que seus filhos sejam também abençoados por Ele. Cristo, contrariando suas espectativas, declara que aquelas crianças da fato são um exemplo para todo o cristão, é delas que o Reino dos Céus é, e como elas, todo o cristão deve ser. Aqui, temos uma aplicação daquilo que foi dito na parábola anterior, ou seja, ser humilde.

Em seguida, um homem, referido por Lucas como um dos principais, pergunta para Cristo como obter a vida eterna. A passagem é muito usada por arianos, pois o homem chama Jesus de bom mestre, e o Senhor lhe responde que bom é somente um, que é Deus. Estaria Jesus negando sua divindade?

Em primeiro lugar, devemos observar que nosso Senhor não negaria a si mesmo, quando em outros lugares Ele diz:

(Mt 12:35) O homem bom, do seu bom tesouro tira coisas boas, e o homem mau do mau tesouro tira coisas más.

(Jo 10:11) Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas.


Por outro lado, se Cristo não fosse bom, estaríamos dizendo que Ele como nós, era um pecador. Uma pessoa que não peca pode ser justamente chamada de pessoa boa, e por isto Deus é o único que pode ser chamado de bom: Ele não peca. Porém, se Cristo não é bom, então ele peca, então o que é dito sobre Ele em Hebreus é invalidado:

(Hb 4:15) Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer- se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado.

É por esta razão que se entende que Cristo aqui estava forçando aquele homem a refletir sobre sua declaração. Afinal, reconhecer Cristo como Filho de Deus, um título divino, estava intimamente relacionado com a salvação (Mt 16:17-19; Jo 5:18), a questão feita por aquele homem. Jesus era bom? Então ele deveria ser Deus.

Então Jesus indica ao homem os mandamentos. Talvez aqui alguns possam alegar alguma relação entre se observar certos mandamentos, e ser salvo. Mas devemos levar em conta que estes mesmos mandamentos indicavam Cristo, que é o cumpridor deles.

O homem alega então que já observava aqueles mandamentos, como se justificasse perante todos. Assim, Jesus complementa o que disse, pedindo para o homem dar todas as suas riquezas aos pobres, e seguí-lo. Assim, o jovem por ser muito rico desiste da conversa e se vai. Como Jesus disse, é muito difícil que um rico se salve. Não por que é rico, mas por que geralmente o rico ama as suas riquezas. E a surpresa dos discípulos sobre isto está no fato já comentado antes, que se acreditava que a riqueza era um sinal de aprovação divina. Por isto perguntaram, então quem poderia ser salvo? Muitos acham que a pobreza é um problema, mas Cristo aqui menciona que a riqueza é um problema ainda maior. Como diz Paulo adiante:

(1Ti 6:9) Mas os que querem tornar-se ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição.
(1Ti 6:10) Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.


Mas para Deus, tudo é possível. E é pela graça que somos salvos, pela graça, ricos também foram salvos, como Zaqueu, José de Arimatéia, Barnabas. Pedro em resposta, diz que eles deixaram tudo para seguir Cristo. Este os consola, dizendo que aqueles que deixaram suas coisas para seguí-lo, serão recompensados no reino vindouro. É como uma troca, onde recebemos algo muito melhor, e que muitas vezes não é tão evidente. Somente a fé pode demonstrar o quanto é melhor.

No versículo 31, Jesus propõe seguir para Jerusalém, onde sofrerá o martírio. Jesus explicou para eles o que iria lhe suceder, mas estas palavras para eles eram de difícil compreensão. Somente depois da crucificação de Jesus eles saberiam o que significa aquilo.

No caminho para Jerusalém, em Jericó, um cego se aproximou dele para ser curado. Como não sabia onde Jesus estava, começou a gritar por ele, onde foi repreendido. Aqui vemos um exemplo da obstinação que Jesus pregou no início do capítulo. O cego não desistiu de pedir para que Jesus o ajudasse, e desta forma foi atendido. Como era de se esperar de uma pessoa tão obstinada, ao ser curado, seguiu Cristo, glorificando a Deus pela sua cura. O que nos ensina também que depois de muito pedir por algo, devemos também agradecer pelo que nos foi concedido. Jesus disse àquele cego que sua fé o havia salvado. Que nossa fé nos salve de nossa cegueira, que nós sejamos tão obstinados como aquele cego em oração para sermos curados, e que possamos agradecer todos os dias pelas graças concedidas.

Lupè

Toda forma de frustração provoca mais ou menos um estado de tristeza (lupè, em grego). Ora, a vida cristã é “alegria e paz no Espírito Santo” (Romanos 14:17).

Se quisermos chegar a este estado de paz e de alegria ontológica e não somente psicológica, é pois necessário lutar contra a tristeza e, por via de conseqüência, trabalhar sobre a frustração e a “carência”.

Ser adulto, para os antigos, é “assumir a carência”, mas a ascese do desejo está mais na orientação do que na não-satisfação da carência.

Viver voluntariamente um certo número de frustrações na ordem material, mas sobretudo na ordem afetiva, vai cavar-nos mais profundamente até aquele infinito que só o Infinito pode preencher... “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e nosso coração não repousará senão em Ti” (Santo Agostinho).

A tristeza visita o monge quando sua memória lhe apresenta os bens ou os prazeres que ele abandonou voluntariamente como sendo de novo desejáveis... Ele sonha com uma casa, uma família, sonha principalmente ser reconhecido e ser amado...

O espaço da carência é o próprio espaço do deserto para o qual ele se retirou. Mas, como algumas vezes a carência é muito grande e o deserto muito árido, não estaria o monge correndo o risco de perder sua humanidade? Ele veio buscar a alegria e encontrou a cruz. Que remédio receitar para sua tristeza?

Em primeiro lugar, pedir-lhe que recupere o “espírito de pobreza”... Um rico é alguém para o qual tudo é devido, um pobre é alguém para o qual tudo é dom. Nada nos é devido! Poderíamos não existir... “o que tens, que não tenha recebido?” (1 Coríntios 4:7).

A amizade, a felicidade, a alegria não nos são devidas. O espírito de pobreza deveria não apenas tornar o monge capaz de assumir as frustrações que sofre (e, portanto, de tornar-se adulto), mas também de apreciar as mínimas coisas, na sua gratuidade: um raio de sol, um pedaço de pão, um pouco de água... Pouco a pouco, deveria aprender o contentamento – “deseja tudo o que tens e tens tudo o que desejas!” – mas este contentamento não é ainda a alegria. A alegria está em experimentar no fundo do ser que o Transpessoal, para o qual ele orientou seu desejo, permanece aqui e agora: Ele É, e esta alegria ninguém pode arrebatar-lhe.

Sabemos muito bem que não estamos aqui no plano sensível, afetivo ou racional, mas no plano ontológico. Para os antigos, só quando pudermos fixar pelo desejo nossa alegria neste fundo ontológico é que ela pode resplandecer de modo durável nos elementos espácio-temporais do indivíduo.

Então esta alegria não depende mais das coisas exteriores, do que nos acontece, da presença tranqüilizadora de um objeto ou de uma pessoa, ou de circunstâncias favoráveis. Não se trata mais de uma questão de saúde ou de humor, mas de fidelidade à Presença incriada que habita todo ser humano. É a alegria que permanece.

Estamos aqui exatamente no transpessoal. Esta alegria não é a jovialidade ou a vivacidade de um temperamento privilegiado, mas a tranqüilidade profunda daquele que encontra o outro não para satisfazer suas carências, mas pelo prazer de comunicar a vida que ao mesmo tempo os une e os transcende.

(“Escritos sobre o Hesicasmo – uma tradição contemplativa esquecida”, Jean-Yves Leloup, Ed. Vozes, 2003, pág. 65)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O evangelho de Lucas - parte 30

Desde Lucas 9:51, quando Jesus havia manifestado "a intrépida resolução de ir para Jerusalém", o evangelista vai apresentando uma série de ensinamentos e acontecimentos que sinalizam, por assim dizer, para uma "fé em trânsito", ou uma "trajetória de fé", da qual o capítulo 18 é um dos mais ricos em demonstrações de confiança, perseverança e dependência de Deus na "estrada para Jerusalém". Começa com a parábola do juiz iníquo (vv. 1-8), mais uma em que é explorada uma imagem negativa, como ocorre na do mordomo infiel. Entretanto, aqui a simbologia é mais clara: a insistência na oração e a perseverança diante da demora de Deus em atendê-la. É difícil existir um cristão que não tenha enfrentado, pelo menos uma vez na vida, a demora de Deus em responder uma oração. O salmista, várias vezes, pede a Deus que se apresse em socorrê-lo (Salmos 22:19; 38:22; 40:13; 70:5,7; 71:12) e a perseverança na oração é ensinada repetidamente por Jesus e encampada por Paulo (Romanos 12:12, Colossenses 4:2, 1 Tessalonicenses 5:17 – "orai sem cessar"). O juiz iníquo da parábola não temia a Deus nem respeitava a humanidade (v. 4), mas diante da insistência (e da persistência) da viúva que tanto o importunava (v. 5), julgou a sua causa. A lição de Jesus é clara: se um homem ímpio não resiste à determinação de uma viúva que, certamente, tinha uma causa justa, devemos esperar o mesmo de Deus ante o clamor de Seus filhos (vv. 7-8). Jesus ainda aproveita o momento para retornar ao tema da sua segunda vinda: "quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?". Será que, "por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará" (Mateus 24:12)?

Deve ser por isso que Jesus emenda outra parábola em seguida, a do fariseu e publicano (vv. 9-14). De novo, os fariseus eram personagens centrais (e negativos) de suas parábolas. Em comum com a parábola anterior, esta traz um homem, fariseu, que pelo menos aparentemente temia a Deus, mas agia como juiz e se julgava superior aos outros. Ele "orava de si para si mesmo" (v. 11), ou seja, Deus era apenas um dado externo na sua necessidade de obter aprovação de si mesmo e de quem o visse orando. Precisava se colocar de pé, como aqueles que "gostam de orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens" (Mateus 6:5), a quem Jesus havia criticado no Sermão da Montanha. Já haviam obtido a sua recompensa, CARNAL, que era a satisfação íntima (e vazia – "de si para si") do reconhecimento público de sua importância na sociedade local. Nada os conectava a Deus senão a aparência exterior de religiosidade e de observância dos deveres cerimoniais, como o jejum e o dízimo (v. 12). Por outro lado, havia um publicano na parábola (v. 10), alguém que, dada a sua condição de cobrador de impostos e colaborador dos invasores romanos, tinha péssima reputação junto à população. Mesmo estando de pé, ele estava "longe" do fariseu (v. 13), tanto em sentido físico como espiritual, pois "não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu", mas se reconhecia publicamente como pecador e clamava pela misericórdia do Senhor. A conclusão da parábola proposta por Jesus é uma das mais belas lições do cristianismo puro e simples: o publicano foi justificado, e o fariseu, não, "porque todo o que se exalta será humilhado. Mas o que se humilha será exaltado" (v. 14), lição que seus discípulos jamais se esqueceriam, pois relembrariam muitos anos depois: "Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte" (1 Pedro 5:6) e "Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará" (Tiago 4:10).

Neste interregno, as crianças eram trazidas para tocar a Jesus, o que incomodava os discípulos (v. 15). Jesus lhes disse que não impedissem as crianças de chegarem até ele, pois delas é o reino de Deus (v. 16), ao que acrescentou que "quem não receber o reino de Deus como uma criança, de maneira alguma entrará nele" (v. 17). De fato, muitas pessoas pensam que o cristianismo (e a salvação, em particular) é algo profundamente adulto, elaborado, fruto de complicadas elocubrações intelectuais, quando é algo extremamente simples, que mesmo uma criança pode entender. Outras pessoas, entretanto, nos acusam por considerar nossa crença em Cristo uma mera fantasia infantil, fruto de uma malformada percepção da realidade, um castelo de ilusões em que nos refugiamos e nos asilamos para fugirmos da complexidade do mundo adulto. Muitos cristãos, também, criam para si muitas fábulas e regras intrincadas, como se não acreditassem na singeleza da graça de Deus e, portanto, necessitassem de algumas regras adicionais ou substitutas de algo que é tão rico, belo e SIMPLES ao mesmo tempo. Como Paulo já advertia os coríntios, não podemos nos afastar da "simplicidade que há em Cristo Jesus" (2 Coríntios 11:3), e não há vergonha alguma em nos comportarmos como crianças para com Deus, como filhos queridos que sempre buscam o colo do Pai, porque sabem e se reconhecem como totalmente dependentes dEle, algo que o jovem rico, que Lucas relata em seguida (vv. 18-23) não entendia, pois, embora se preocupasse em herdar a vida eterna de alguma maneira (v. 18), não queria livrar-se das riquezas e seguir a Jesus (v. 22). É curioso que a palavra que ele usa para formular a sua pergunta – herdar (κληρονομέω - klēronomeō ) – já denuncia que a sua preocupação é muito mais material do que espiritual. No relato correspondente de Mateus 19:16, ele pergunta "que bem (αγαθός - agathos) devo fazer", ou seja, que "boa obra" ele deveria fazer para conseguir a salvação. Em ambas as perguntas, existe uma idéia subjacente, na sua abordagem inicial de Jesus, de que o jovem rico imaginava, de alguma maneira, que a salvação pudesse ser "comprada" com suas muitas riquezas. Logo, esta sua infeliz introdução, por assim dizer, "contamina" todo o restante da conversa que teve com Jesus, que lhe conhecia, como Deus, o coração, e sabia quais eram as suas reais intenções. É nesse contexto que devem ser entendidos os versículos em que ele chama Jesus de "Bom Mestre" (v. 18), e Jesus lhe responde: "Porque me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus" (v. 19). Jesus não precisava testá-lo, pois já sabia o que se passava naquele coração perturbado e enganado. Tampouco está preocupado em reivindicar para si a sua condição divina, pois o âmbito da conversa, que mal começara, já havia se deslocado do mundo espiritual para o território dos bens materiais. Por isso checa a motivação primeira do jovem, ou seja, se ele sabia realmente o que queria e a quem estava se dirigindo, como fica claro no evangelho de João:

João 6:64 Mas há alguns de vós que não crêem. Pois Jesus sabia, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar.
João 6:65 E continuou: Por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido.
João 6:66 Por causa disso muitos dos seus discípulos voltaram para trás e não andaram mais com ele.


Chamar Jesus de "Bom Mestre", naquela situação, em que já havia ficado clara a sua real intenção, era um mero fingimento, um falso agrado do jovem, com o objetivo de obter, quem sabe com algum sacrifício material, a salvação. No fundo, o jovem rico não cria em Jesus, mas, por via das dúvidas, ele devia estar pensando: "vai que eu estou errado". Ainda que custasse alguma coisa, era melhor se garantir de alguma forma. Quando Jesus o desafia a desapegar-se do seu amor pelas riquezas, ele fica "muito triste" (περίλυπος - perilupos), tristeza esta que é meramente humana, circunstancial, "porque a tristeza (λύπη - lupē) segundo Deus opera arrependimento para a salvação, o qual não traz pesar; mas a tristeza do mundo opera a morte" (2 Coríntios 7:10). Jesus lamenta o ocorrido (v. 24), mas não sai correndo atrás do jovem rico para refazer as suas condições, do tipo "não é bem assim, volta aqui", como muitos crentes fazem quando evangelizam, tentando contemporizar as condições, ou melhor, a condição FÉ que Deus nos requer para a obtenção da Sua graça, a salvação. A frase que o Mestre diz em seguida, "é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus" (v. 25), era uma hipérbole comumente usada nos provérbios dos povos daquela região. Os que presenciaram a cena não entenderam exatamente o que havia acontecido, pelo que se indagavam se alguém poderia ser salvo, dadas essas condições (v. 26), ao que Jesus respondeu reforçando a FÉ: "Os impossíveis dos homens são possíveis para Deus" (v. 27). Pedro, o mais sanguíneo dos apóstolos, e que sempre se apresentava primeiro que os outros, já tratou de mostrar que eles haviam deixado tudo para trás para seguir a Jesus (v. 28), ao que Jesus lhe confirma que receberiam, já no presente, muitas vezes mais do que haviam abandonado, e a eternidade no porvir (vv. 29-30).

Era hora, entretanto, de seguir o caminho e reafirmar a Sua missão, pelo que Jesus os chama de volta ao que efetivamente deviam fazer, ir a Jerusalém e ali padecer (vv. 31-33). Os discípulos não entendiam essas coisas (v. 34), algo que ficará claro para eles, como num insight, apenas após a ressurreição, que Lucas aproveitará no capítulo 24, mas desde já prepara a sua narrativa que desembocará no caminho de Emaús, quando se lhes abrem os olhos e ardem os corações. Já próximo de Jericó, havia um cego sentado à beira do caminho, pedindo esmolas (v. 35). Ele ouviu "o tropel da multidão que passava" (v. 36), o que indica que havia muita gente seguindo a Jesus, e certamente muitos já o esperavam nas cercanias de Jericó. Quando soube que era Jesus que passava(v. 37), ele não titubeou e saiu a clamar pelo Mestre (v. 38). Nem a censura dos transeuntes fê-lo calar-se. Pelo contrário, gritava cada vez mais (v. 39), importunando Jesus e a multidão como a viúva fizera com o juiz iníquo na parábola que inaugura o capítulo 18. Jesus pára e manda chamá-lo, perguntando-lhe o que queria, ao que ele respondeu que queria ter de volta a sua visão (v. 40). Diante de tanta insistência e fé, Jesus o curou (v. 41) e o ex-cego, agradecido, passou a segui-lo glorificando a Deus juntamente com todo o povo (v. 43).


domingo, 1 de junho de 2008

A bolsa velha

Hoje cedo, um domingão de manhã, alguém bateu palmas no portão. Fui atender e lá estava um homem com roupas de mendigo, visivelmente embriagado. Já me preparei para dizer não ao seu pedido de "um dinheirinho" que certamente (na minha visão) ele usaria na compra de mais bebida. Entretanto, para minha surpresa, ele me pediu tão-somente uma bolsa velha. Olhei bem e reparei que ele carregava seus poucos pertences numa sacola de plástico, daquelas de supermercado, já bastante deteriorada. Disse que ia procurar uma, e encontrei apenas uma pequena, que mal tinha sido usada. Saí com a bolsa e lhe entreguei no portão. Ele agradeceu e abriu um sorriso enorme. Não cabia em si de tanta felicidade. Foi embora sem nem pedir um tostão. Ao ver tanta alegria por um gesto tão simples, confesso que me emocionei. Mesmo quando imaginamos que somos imunes a preconceitos de toda ordem, aparece alguém no nosso portão para desafiar o nosso comodismo e lembrar-nos de como um pequeno gesto ou um grande sorriso pode alegrar o dia de cada um.

O evangelho de Lucas - parte 29

Depois da parábola do rico e Lázaro, que finaliza Lucas 16, o capítulo 17 começa com uma dura advertência de Jesus a respeito dos escândalos ou tropeços daqueles que afirmam segui-lo. A palavra traduzida literalmente por "escândalo" é σκάνδαλον - skandalon - que significava originalmente uma armadilha, ou uma pedra de tropeço. De fato, é uma tremenda responsabilidade seguir a Jesus, mas chama a atenção o fato de que Jesus diz que é inevitável que escândalos aconteçam. Afinal, a igreja é composta de seres humanos, e seres humanos são falhos por natureza (para uma ampliação deste tema, leia outro artigo deste blog clicando aqui).

A seguir (vv. 3-4), Jesus fala da importância do perdão, mesmo diante de alguém que peque 7 vezes num mesmo dia, e se apresente diante de nós dizendo que está arrependido e por isso peça o nosso perdão. Obviamente, Jesus está fazendo uso de uma hipérbole, uma figura de linguagem em que o manifesto exagero ajuda a fortalecer a importância da idéia que se quer expressar. Este não era um recurso comum aos pregadores daquele tempo e, talvez por isso mesmo, os discípulos pediram-lhe que lhes aumentara a fé (v. 5), ao que Jesus comparou a fé com um grão de mostarda (v. 6), a menor das sementes, que, entretanto, se tornava numa árvore. O fato de Jesus usar como exemplo a amoreira mostra que ele estava nas regiões baixas da Galiléia, onde havia muitas amoreiras. Aí ele aproveita para reforçar a sua condição de Senhor e a nossa de servos. Não nos compete ir à frente de Jesus, mas servi-lo antes de qualquer coisa (vv. 7-8), e não devemos esperar agradecimento por isso (v. 9), pois não estamos fazendo nada mais do que a nossa obrigação de discípulos. Somos, pois, "servos inúteis", na tradução da expressão δουλοι αχρειος - doulos achreios – e por "inútil" deve-se entender alguém que não tem mérito algum para estar onde está, o que é o caso do cristão diante da graça de Deus.

É interessante verificar que Jesus falou de gratidão no v. 9, ou seja, Deus não precisa agradecer-nos por segui-lo, e a cura dos dez leprosos quando passava pelo meio de Samaria e da Galiléia (vv. 11-19) mostra o outro lado da gratidão, a nossa para com Deus. Quando Jesus entra em uma aldeia, dez leprosos vão ao seu encontro (v. 12), gritando e clamando de longe pela misericórdia do Mestre (v. 13), já que a Lei lhes impedia de estar próximos de pessoas sadias (Levítico 13:46). Curiosamente, Jesus não faz nada a princípio, mas lhes recomenda que se apresentassem aos sacerdotes (v. 14). Deve ter sido frustrante para os leprosos o fato de não obterem a cura imediatamente, fosse por uma palavra ou por um gesto de Jesus, mas a Sua ordem exigia deles fé. E eles mostraram fé, ao dirigir-se ao templo para se apresentarem aos sacerdotes. Esta era uma maneira, também, de Jesus dar testemunho público de suas obras aos sacerdotes judeus. No trajeto, foram curados. Isto lembra a experiência de Naamã, o general sírio a quem Eliseu ordenara que se banhasse 7 vezes no Jordão (2 Reis 5:1-19). Estas passagens trazem profundos ensinamentos, entre os quais a consciência de que a fé não é um momento, um instante, mas uma trajetória. E foi assim que os leprosos foram curados. Certamente, demorou algum tempo e se lhes exigiu muito do físico, o fato de se apresentarem aos sacerdotes, mas apenas um dos leprosos retornou (v. 15), e era justamente o samaritano (v. 16). Ora, samaritanos e judeus se odiavam, como já estudamos na parábola do bom samaritano, mas esta passagem (que, reforce-se, não é uma parábola) revela que entre os 10 leprosos havia 9 judeus e 1 samaritano unidos na sua desgraça, comungando da mesma doença e do mesmo desespero por cura. Isto nos mostra como o preconceito não tem razão de existir quando as pessoas estão no seu estado mais animal, mais puro, por assim dizer, ainda que sua situação seja vista como a mais repugnante impureza. Os 10 já estavam segregados da sociedade, e não havia razão para que se discriminassem entre si. Por isso clamaram juntos pela salvação de Jesus. Afinal, é o preconceito que é doentio. Entretanto, somente um deles, o samaritano, retornou para agradecer, e o fez de maneira simples e humilde, prostrou-se com o rosto em terra e agradeceu, ao que Jesus ironizou, perguntando pelos outro nove (v. 17). Só deu glória a Deus aquele que era estrangeiro (v. 18), mas este sim obteve o favor completo de Jesus, pois voltou para casa literalmente são e salvo (v. 19). Essa história nos mostra que, infelizmente, a ingratidão faz parte da depravação humana, e que é lamentavelmente normal que as pessoas não mostrem gratidão a quem lhes fez algum bem. Isso não deve nos surpreender nem nos desanimar, quando nos deparamos com os ingratos da vida, afinal o próprio Jesus passou por isso e a vida prosseguiu.

O final do capítulo 17 é reservado para os acontecimentos finais. Primeiramente, os discípulos perguntam ao Mestre sobre o Reino de Deus, ao que Ele lhes respondeu dizendo que o Reino de Deus não viria em visível aparência (v. 20) naqueles dias, pois estava dentro deles (v. 21) e dentro de nós. Charles Chaplin foi um dos maiores gênios do século XX, e, até onde se sabe, era ateu. Entretanto, no seu maravilhoso filme "O Grande Ditador" (1940), ele coloca na boca do ditador Hynkel (a triste paródia de Hitler), o último discurso, em que estas palavras de Jesus são lembradas:

O último discurso

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

Chaplin pagou um preço caro pela ousadia de pregar a igualdade no último discurso do Grande Ditador. Foi acusado de comunista pelos americanos e perseguido na "caça às bruxas" promovida pelo senador McCarthy, o que levou-o a se auto-exilar na Europa, de onde só retornou aos EUA em 1971 para receber um Oscar honorário.

Retornando aos versículos finais de Lucas 17, Jesus ensina aos discípulos que chegaria o dia em que muitos desejariam ver um dos dias do Filho do Homem, mas não o veriam (v. 22). Isto pode tanto ser entendido em retrospectiva, ou seja, chegaria o dia em que os discípulos relembrariam os dias da presença física de Jesus na Terra, como também para nós hoje em dia, que temos a oportunidade de estar com Cristo todos os dias, particularmente ou em adoração coletiva, mas chegará o dia em que isto não mais acontecerá. Devemos estar alertas porque ninguém vai dizer "Ei-lo aqui" ou "Ei-lo" ali", pois o dia do Filho do Homem virá como um relâmpago que rasga o céu de uma extremidade à outra (v. 24), de surpresa, como nos dias de Noé (v.26), em que o povo comia, bebia e festejava até o dia em que Noé entrou na arca e veio o dilúvio (v. 27). O mesmo aconteceu nos dias de Ló (v. 29), e não devemos ter a atitude de sua mulher (v. 32), que olhou para trás, dando valor aos bens e prazeres terrenos em detrimento da glória que nos está reservada nos céus. Por fim, ele usa uma alegoria de difícil interpretação, dizendo que "onde estiver o corpo, aí se ajuntarão também os abutres" (v. 37). Há várias interpretações, inclusive com águias no lugar de abutres, representando o império romano, tendo como corpo o cadáver crucificado de Cristo, mas a que melhor se encaixa no contexto, a meu ver, é a de que o corpo é um cadáver que representa o fim de Israel, o reino de Deus na Terra, e ali se reuniriam as águias comandadas por Cristo para o final dos tempos. Esta imagem também pode ser entendida como uma percepção, por parte do crente, dos sinais da vinda de Jesus. Numa imagem deveras negativa, assim como os abutres localizam o corpo putrefato, os crentes devem saber localizar e interpretar os sinais da parusia, a segunda vinda de Cristo.

Grandes livros - 5


Li "Cem Anos de Solidão" ("Cien Años de Soledad"), de Gabriel García Márquez, em 1983. 

Sim, este é um livro que marca profundamente quem o lê, a ponto de se lembrar quando e como o leu. 

Eu costumo dizer que um bom livro se conhece pelo seu primeiro parágrafo ou pela primeira frase. 

"Cem Anos de Solidão" é um desses casos, pois assim começa: "Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo". 

A seguir, já apresenta Macondo, essa vila mítica que povoa o imaginário de todo latino-americano, especialmente aqueles dos sertões e das florestas da América abaixo do Rio Grande. 

Entretanto, "Cem Anos de Solidão" é uma obra universal, para todas as épocas e todas as gentes, e é um dos pontos altos da obra de García Márquez, já que, a meu ver, "Crônica de Uma Morte Anunciada", "Nos Tempos do Cólera" e "Do Amor e Outros Demônios" estão no mesmo nível de obra-prima de "Gabo". 

"Cem Anos" marca o Prêmio Nobel de Literatura de 1982, muito justamente conferido ao escritor colombiano, expoente do realismo mágico latino-americano, e que soube, como poucos escritores do continente, narrar as histórias e as fábulas da gente comum do povo, na sua luta diária por domar um território selvagem, e nas tragédias políticas que marcam a sua história, inclusive com repercussões até hoje na Colômbia, esse país maravilhoso e hospitaleiro que já tive a oportunidade de visitar duas vezes. 

Tomando como fio condutor a história da família Buendía desde a fundação de Macondo, o livro conta as fantasias que cercam o povo e o povoado, ao longo de 100 anos de delírios e silêncios, com personagens que, certamente, muita gente vai identificar com os personagens folclóricos que habitam as cidades e o inconsciente coletivo do brasileiro, do argentino, do colombiano, enfim, de todos nós. 

É sempre bom ler "Cem Anos de Solidão", pelo menos para saber porque tanto o Brasil como a América Latina, no fundo, constituem uma grande Macondo.

sábado, 31 de maio de 2008

Eclesiastes - capítulo 4

Leitura anterior: Eclesiastes - capítulo 3

O capítulo 4 de Eclesiastes começa com um libelo contra a injustiça e toda forma de opressão, e com uma conclusão pessimista bem ao estilo do Pregador, que considera mais feliz quem já morreu (v. 2) e mais feliz ainda quem ainda não nasceu, e portanto não viu o que se faz "debaixo do sol" (v. 3). 

Estes versículos devem ser lidos ainda na esteira do término do capítulo 3, em que, nos últimos versículos, o Pregador dá a "receita" da vida feliz, que é "alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa" (3:22). 

Por isso, o Pregador volta a falar do trabalho no v. 4, e diz que todo o progresso e todas as obras das mãos do homem e de sua inteligência provêm de um sentimento básico humano, que é a inveja. 

Esta é uma maneira bem simples de revelar algo que hoje, quase 3.000 anos depois do Pregador ter escrito Eclesiastes, é um dado comprovado pela História recente, ou seja, a competição entre pessoas, povos e nações é a força motriz do progresso e desenvolvimento econômico, como muitos já escreveram, desde "A Riqueza das Nações", de Adam Smith (1776), até "A Vantagem Competitiva das Nações", de Michael Porter (1989), que são duas obras referenciais nessa questão. 

Além disso, mais estritamente no campo da filosofia, o Pregador já percebia, mais de 25 séculos antes de Nietzche, o poder da inveja nas relações humanas, algo que o filósofo austríaco somente escreveria em 1887, na sua "Genealogia da Moral". 

De fato, Nietzche e Salomão têm uma visão profundamente existencialista do mundo e a grande diferença entre ambos é que o primeiro tem limites muito bem estabelecidos, o aqui e agora, enquanto o último sempre mantém a eternidade em perspectiva (e um Controle Maior além do nosso vão "comando das circunstâncias").

Por isso Salomão insiste tanto em que "também isto é vaidade e correr atrás do vento". Nos versículos seguintes (5 e 6), ele contrasta dois ditados da "sabedoria" popular do seu tempo, que estão melhor traduzidos na versão da Bíblia do Peregrino:

5 É que "o néscio cruza os braços e vai-se consumindo".
6 Sim; mas "é melhor um punhado com tranqüilidade, do que dois com esforço".

Assim, até hoje temos a visão de que é tolo, preguiçoso, vagabundo, quem não trabalha duro e prefere cruzar os braços, daí o provérbio antigo dizer que ele não consome o que produz, mas se consome a si mesmo ("come a própria carne" na Almeida Revista e Atualizada). 

Obviamente, o Pregador não está falando de canibalismo, como as outras versões portuguesas podem dar a entender ao leitor mais afoito, mas Salomão está justamente contrastando com o ditado seguinte (do v. 6), em que reforça o valor da tranqüilidade, do trabalho sem esforço exagerado (e inútil), algo que também recentemente vem sendo redescoberto pelos filósofos, como Domenico de Masi e seu "Ócio Criativo". 

Dentro desse espírito, o Pregador critica o homem solitário, sem família, que, no entanto, não pára de trabalhar, mesmo não tendo a quem deixar o fruto do seu suor (v. 8). 

Ele não gosta da solidão na vida e no trabalho, pois diz que "melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho" (v. 9). 

Obviamente, nem sempre é possível que dois empregados tenham um melhor salário do que quando somente um é contratado, mas o que o Pregador valoriza não é a recompensa material pelo trabalho, mas o fato de ter alguém com quem compartilhar, não só o trabalho em si, mas também o seu fruto. 

Se alguém cair e estiver só, não haverá quem o levante (v. 10), e se estiverem trabalhando ao relento, como era comum na Palestina daquela época, onde as atividades pastoris predominavam, não poderiam dormir lado a lado na noite fria do deserto (v. 11), aproveitando o calor dos seus corpos. 

Da mesma maneira, se fossem dois, eles podiam se defender melhor dos inimigos, fossem eles outros homens ou animais. 

Aqui o Pregador faz uma comparação com o "cordão de três dobras" (v. 12), e muitos estudiosos vêem aqui uma referência não só ao fato de que, quando há dois unidos em Espírito, ali está um terceiro, Deus, como também um símbolo da Trindade, lembrando também que Jesus disse que "onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" (Mateus 18:20).

O capítulo 4 finaliza com uma espécie de autocrítica do Pregador, provavelmente já idoso, mas que se compara a um "rei velho e insensato que já não se deixa admoestar", dizendo que um "jovem pobre e sábio... que saia do cárcere para reinar ou nasça pobre no reino" é melhor do que ele (vv. 13-14). 

Mesmo que todo o povo siga o jovem que ficará no lugar do rei, mas ele também envelheceria e o ciclo se repetiria na mesma monotonia do começo do livro (1:4-11). 

É interessante observar que, após a morte de Salomão, o seu reino seria dividido em Sul (Judá), governado por seu filho Roboão; e Norte (Israel), governado por Jeroboão (1 Reis 11 e 12), e a gota d'água que faltava para esse divisão foi exatamente o fato de Roboão, herdeiro por direito ao trono de todo Israel, ter-se recusado a seguir o conselho dos anciãos, preferindo ouvir os seus amigos de infância. 

O próprio Salomão, digamos, envelhecera mal, impondo muitos tributos e obrigações a todo o povo, e já não se deixava admoestar, mas o mesmo fez seu filho, Roboão, o que levou o seu reino a se dividir, e as 10 tribos que formaram o reino do Norte posteriormente foram apagadas do mapa e da bênção de Deus.

A tradição rabínica tem uma interpretação, relatada por John Gill, que me parece interessante para este contraste entre o rei ancião e o jovem pobre e sábio:


Os judeus, na sua Midrash, Jarchi e outros, interpretam isto, alegoricamente, como a imaginação do bem e do mal nos homens, o princípio da graça, e a corrupção da natureza; um é o novo homem, o outro é o velho homem; o novo homem é melhor que o velho Adão: o Targum aplica isto a Abraão e Ninrode; aquele é o jovem pobre e sábio, que temeu a Deus, e o adorou desde cedo; o último é o rei velho e tolo, que era um idólatra, e se recusava a ser advertido por sua idolatria.

Daí, penso eu, podemos fazer uma analogia com os ensinos de Paulo sobre a nova criatura (2 Coríntios 5:17, Gálatas 6:15) e o homem velho (Romanos 6:6, Efésios 4:22, Colossenses 3:9), o que remete também à pergunta de Nicodemos a Jesus: "Como pode um homem nascer, sendo velho?" (João 3:4). 

Este, digamos, despojamento da velha criatura, e sua substituição pelo novo homem, envolve o risco, também, de chegarmos a um ponto em que pensamos que já sabemos tudo, que não precisamos mais ser ensinados nem admoestados.

Talvez por isso mesmo, na carta à igreja de Éfeso, Jesus lhes tenha dito que haviam deixado o primeiro amor (Apocalipse 2:1-7).



Leitura seguinte: Eclesiastes - capítulo 5


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