sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Aborto e vida Severina

Infelizmente, esta é uma história real sem final feliz, que retrata o sofrimento de uma mulher grávida, apoiada pelo marido, diante da constatação de que o feto que carrega no ventre é anencéfalo, ou seja, tem graves deficiências na formação cerebral (não só no encéfalo, como o nome sugere), que já lhe traçam de antemão o destino na vida extra-uterina: a morte. Rosivaldo e Severina, os pais da criança desenganada, são pessoas humildes do sertão de Pernambuco, e Severina, apoiada pelo marido, não queria levar a gestação até o fim, pelo que tratou de pleitear o aborto, quando se viu envolvida numa disputa judicial e religiosa que quer impedir pessoas nessas condições de praticar o triste fim, como se a decisão de abortar nessas condições não fosse por si só já penosa demais de se suportar. Aí o casal se perde nos meandros do descaso e da lentidão do Judiciário e da saúde pública do Brasil, de maneira que o aborto não é consumado, e a criança nasce e cumpre o seu lamentável destino: a morte. Talvez o momento mais emblematicamente triste do documentário abaixo, "Uma História Severina", ocorre quando a mãe vai a uma loja comprar UMA única roupinha para o bebê, e a vendedora, na esperança - talvez - de vender um enxoval inteiro, fica estupefata com a resposta que recebe, a de que a criança ia nascer para morrer. A roupa era para vesti-lo no caixãozinho branco dele. Fica a terrível dúvida ética, portanto: até que ponto é legítimo que o Estado, para atender as convicções religiosas de parcela importante de sua população, possa obrigar uma mulher a levar adiante uma gravidez condenada à fatalidade e à dor irreparável? Até que ponto é justo obrigar gente humilde a essa jornada de dor a fim de que outros durmam em paz nos seus lares confortáveis com a consciência tranquila do dever religioso cumprido? Registrando que a "dor" aqui referida é - também e talvez principalmente - literal, já que os anestesistas do SUS se negaram a aliviar a dor física de Severina, como se já não lhe bastasse a dor que - de qualquer maneira - levará na alma pelo resto da vida...





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