sábado, 26 de março de 2011

"O Livro de Mórmon" vira musical da Broadway

Os criadores do desenho animado (e debochado) South Park, Matt Stone e Trey Parker, escreveram (com a participação de Robert Lopez) e produziram o musical "The Book of Mormon" ("O Livro de Mórmon") que estreiou esta semana no circuito da Broadway em Nova York, segundo informa o blog Belief da CNN. A exemplo da animação criada pela dupla, criatividade é o que não falta no roteiro do musical. Além do fundador da Igreja mórmon, Joseph Smith Jr., estão lá representados Jesus Cristo, Satanás, um senhor da guerra da África, Darth Vader, mestre Yoda, Hitler, Gengis Khan e dois hobbits (haja imaginação!!!). A ideia básica deles é fazer uma sátira da religião fundada por um profeta norteamericano que encontra placas douradas misteriosas, e isto fica claro na propaganda da obra (vídeo abaixo), em que eles usam a palavra "moronic" para descrever o musical, aproveitando um jogo de palavras entre "moron" (o termo tipicamente americano para "idiota", "babaca") e Moroni, que além de ter sido o último escritor do Livro de Mórmon, teria se tornado o anjo que levou Joseph Smith Jr. a encontrar as placas douradas que o próprio Moroni havia enterrado séculos antes. Por isso, é comum ver uma estátua do anjo Moroni no topo das torres dos templos mórmons.



O roteiro do musical conta a história de dois jovens mórmons, Elder Price e Elder Cunningham (o prenome Elder identifica os missionários de tempo integral), que têm que cumprir seu trabalho evangelístico de dois anos, e em vez de irem para Orlando, na Flórida, terminam indo parar em Uganda. A vida na vila africana para a qual foram destinados não é nada fácil, diante das ameaças, mutilações e assassinatos praticados a mando do senhor da guerra local. Além da AIDS, da violência e da diarreia, eles têm que interagir com a verdadeira salada de referências criada pelos autores, que, em entrevista ao Late Show de David Letterman (vídeo abaixo), disseram que esperam que o musical "seja mais divertido que o Livro de Mórmon".




A Igreja mórmon não se pronunciou oficialmente, seguindo a sua tradição de não comentar sátiras midiáticas e evitar polêmicas, prática que já seguia por ocasião da série "Big Love" da HBO ou mesmo em relação a alguns episódios de South Park (vídeo abaixo). Segundo os criadores disseram a David Letterman na entrevista acima, houve até uma reação positiva de alguns mórmons que viram a pré-produção, e a imprensa de Salt Lake City, onde fica a sede mundial da igreja, qualificou a obra como "doce". A crítica do The New York Times, assinada por Ben Brantley, por sua vez, considera o musical "nojento e lindo" ao mesmo tempo (se é que isso é possível) e o chama de "blasfemo", embora veja virtudes, como as referências a outros musicais do nível de "Os Produtores" e "A Noviça Rebelde". Entretanto, se você quiser conferir por si mesmo, vai ter que aproveitar sua próxima viagem a Nova York.




A Broadway tem uma longa tradição em óperas-pop sobre temas bíblicos, das quais "Jesus Christ Superstar" e "Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat", ambas de Andrew Lloyd Weber, talvez sejam as mais famosas (veja as versões filmadas abaixo), embora "José e a Maravilhosa Capa Sonhadora em Technicolor" seja praticamente desconhecida no Brasil, o que é uma pena, pois tem músicas belíssimas como a mostrada no último vídeo, "Close Every Door" ("Fechem todas as portas", "as crianças de Israel nunca estão sozinhas"), na brilhante interpretação de Donny Osmond como José preso na masmorra. Mesmo se você não entender inglês, vai ser difícil não se emocionar no minuto 04:00. Difícil também é separar o que é profano nessas obras, mas fica a critério de cada um identificar o que é belo e o que é feio nessas manifestações tipicamente humanas. Tarefa, aliás, que temos que desempenhar nas circunstâncias mais corriqueiras da vida.









⓿⓿⓿⓿⓿⓿ Atualização de 27/03/11:


A Folha de S. Paulo de hoje publica uma crítica de Lucas Neves sobre "The Book of Mormon", com vários detalhes (alguns muito blasfemos, devo alertar) sobre o enredo <<spoiler>>. Não leia se você não quiser saber ou se ofender:

Musical reflete acidez de "South Park"

Dupla de criadores do desenho estreia na Broadway espetáculo sobre jovens mórmons que atuam em Uganda

Autor de "Avenida Q" completa trio que aborda temas tabus como Aids, estupro e mutilação feminina


LUCAS NEVES
ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK


A metralhadora giratória do desenho "South Park" acaba de ganhar atiradores de carne e osso. Não se engane: Kyle, Kenny e cia. continuam desfiando impropérios em suas encarnações 2D, achatadas.

O que saltou da TV é o espírito anárquico, sem papas na língua, dos diálogos e situações criados por Matt Stone e Trey Parker.

À frente de "The Book of Mormon" (o livro de Mórmon), que estreou nesta semana na Broadway com repercussão na mídia americana inferior apenas à do desafortunado "Spider-Man: Turn Off the Dark", renovam o arsenal de torpedos contra o politicamente correto.

Para contar a história de dois jovens missionários mórmons despachados para os confins de Uganda, enfileiram piadas sobre o depauperado país africano.

A livre circulação de milícias pelas ruas, o sono profundo do poder público e o atraso tecnológico daquelas bandas -uma das personagens manda mensagem para os amigos via máquina de escrever- são objeto de tiradas ácidas. Mas Stone e Parker vão bem mais longe.

Assuntos como Aids e mutilação sexual feminina circulam pelas conversas do povoado ugandense em tom de aterradora trivialidade.

Alguns portadores do vírus, inclusive, estão convictos de que podem se curar fazendo sexo com bebês. A ignorância conduz ao abjeto, ao grotesco, que desemboca no riso estupefato.

Os autores poderiam passar por ianques cruéis a tripudiar sobre a desgraça alheia. Esquivam-se da armadilha ao guardar parte considerável de sua pólvora para o "fogo amigo".

A trupe americana que tenta catequizar os africanos acha que o tal livro -escrito por Joseph Smith Jr. em 1830, a partir de placas de ouro apontadas por um anjo- guarda respostas para todas as aflições daquela terra.

SOBROU PARA DEUS


Essa ingenuidade é exposta (e devidamente ridicularizada) já de saída, quando o grupo que acolhe a dupla de Salt Lake City exibe um hino escapista cujo refrão ecoa um "vá se foder, Deus!".

É a expressão de quem sente que "lá tem Jesus que está de costas", parafraseando a canção de Chico Buarque sobre o subúrbio carioca.

Diante dos fatos, Price, o mais aplicado da dupla recém-chegada, observa, em tom desolado, que a animação "O Rei Leão" incorporou liberdades poéticas demais ao retrato do continente africano. Pede para sair.

O gordinho Cunningham, misto de Jack Black e personagem saído de comédia teen à "Superbad", divisa outra saída: interpretar de modo heterodoxo as palavras do livro sagrado para que ressoem com o rebanho local.

Pinça dali referências obtusas (e imaginárias) à Aids, às práticas sexuais com bebês e à amputação feminina. Dá à retórica mórmon algum sentido naquela latitude.

O projeto de "The Book of Mormon" existe desde 2003, quando Stone e Parker conheceram Robert Lopez, o criador do (também desbocado) musical "Avenida Q" -que já teve montagem brasileira, assinada por Charles Möeller e Claudio Botelho.

Acertada a parceria, o trio inicialmente cogitou produzir uma animação ou um filme com atores de carne e osso. Acabou se decidindo por uma montagem depois de um workshop.

No espírito boquirroto de "South Park", Lopez contou ao "New York Times" o que o atraiu no imaginário mórmon: "É uma bobajada enorme [a história da escritura do livro de Mórmon]. Mas as pessoas creem tanto nisso, e suas vidas são efetivamente melhoradas por essa fé".

Ceticismo com uma ponta de sentimento: é de um musical que se trata, afinal, e cabe saber declarar armistício.



⓿⓿⓿⓿⓿⓿ Atualização de 03/05/11:

O blog CNN Belief informa hoje que o musical "The Book of Mormon" foi indicado ao prêmio Tony (uma espécie de Oscar do teatro nos EUA) em 14 categorias, inclusive na de melhor musical, liderando as nomeações entre os espetáculos em cartaz na Broadway.

6 comentários:

  1. Gostaria de dizer que fui missionário Mórmon no RJ, GO, DF e MG de 1982 a 1984. Meu filho está atualmente servindo missão em Manaus. Recomendo a todos os jovens a fazerem o mesmo!
    Testifico que Jesus Cristo vive, ressussitou no terceiro dia. Ele dirige "A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias" através de seu profeta vivo Thomas Spencer Monson.
    Paulo P. Leão - Curitiba - PR

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  2. Obrigado pelo comentário, Paulo!

    Espero que você e sua família sejam muito felizes, não lhes desejo mal!

    Abraços!

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  3. Fui um missionário tb em FORTALEZA - CE 2009_2011!
    E eu sei que sempre vai haver sátiras e oposição sobre nossa religião! Não critico há quem faz isso, só gostaria de dizer para meus amigos da igreja, que não se revoltassem ou se abalar com tudo de oposto que virem na internet! Pois ja vii muitas pessoaas da igreja chigando em varios blogs, irmaos não façam isso, pois isso gera mais discordia e não é oque aprendemos, muita paz e saude ao dono do blog.

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  4. Meire Sueli Fernandes5 de fevereiro de 2012 22:50

    Infelizmente as pessoas ao invés de procurarem a conhecer a igreja, lero livro de mórmom, orar a respeito dele e obterem um testemunho, fazem isso mesmo. Fui missionária da Missão Brasil Belo Horizonte por 1 ano e 1/2 e como sou feliz por pertencer à verdadeira Igreja de Jesus Cristo, a qual tenho oprtunidade de aprender e viver segundo a vontade Dele, para um dia poder voltar a viver com Ele e isso não tem preço. Se muitos não acreditam, nossa vida não termina aqui, e quando passarem para o outro lado vão se surpreender muito com o plano de nosso Pai Celestial. Mas oro para que muitos aceitem o evangelho nessa vida e sejam felizes e tenham perspectiva da vida eterna. Amo esse evangelho. Sei que Cristo vive e é o cabeça de nossa Igreja e temos um profeta vivo que recebe revelações Dele,em nome de Jesus Cristo, Amém! Meire - Blumenau - SC.

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  5. Se são mesmo engraçado fazem um sobre Maomé e o Alcorão e se preparem para a explosão do teatro vai ser bem engraçado, ou mesmo quando um maluco fanatico entra em uma escola, cinema , teatro atirando pra tudo lado e morrendo pessoas quando avião batem em predios e tudo muito chocADO é bem engraçado enfim a vida é uma tragedia comica e todos morreremos um dia.
    Aí lembraremos dos Mormons e do trabalho que é feito nos templos, Quem ri por ultimo ri por mas tempo

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