sexta-feira, 15 de abril de 2011

O reality show do Realengo

Hoje foram divulgadas mais vídeos, fotos, cartas, manuscritos, etc., do atirador do massacre do Realengo, Wellington Menezes de Oliveira. Como a maioria das pessoas, acredito, eu também estou cansado de ver essa espetacularização midiática a respeito desta tragédia, e por isso mesmo não vou republicar aqui nenhuma dessas porcarias deixadas pelo maluco. Quem ainda se dispuser a vê-las, é fácil encontrá-las nos grandes portais brasileiros da internet. Acho que a notícia já foi dada, a tragédia infelizmente aconteceu, e já não há mais nada que fazer senão lamentar as vítimas mortas e esperar que o país se prepare melhor para que não sejamos obrigados a sofrer novas ocorrências da espécie.

A cobertura jornalística, entretanto, se tornou refém da loucura do atirador de Realengo, trazendo à tona o seu lado Sonia Abrão. Na sua mente perturbada, segundo os novos vídeos indicam, ele preparou tudo como se estivesse confinado numa espécie de reality show, o Big Brother Brasil de Sepetiba, local onde morou sozinho nos últimos meses. Uma espécie bizarra de pay-per-view macabro que, lamentavelmente, a mídia caiu na arapuca e está disponibilizando grátis à população. A cada dia que passa, novos vídeos, cartas e manuscritos vêm à luz do dia e a imprensa os celebra como se fôssemos todos espectadores de uma competição fúnebre de extremo mau gosto. Em seu livro "O Vida Filme" (Companhia das Letras, 1999), Neal Gabler já tratou do fenômeno tipicamente moderno da transformação da vida privada em espetáculo e entretenimento públicos. Wellington do Realengo não deve ter lido o livro de Gabler, mas transformou sua morte e os inocentes que levou consigo numa "diversão" mórbida que somos obrigados a engolir no exato momento em que ligamos a televisão ou vemos as primeiras páginas dos jornais e portais. Não dá nem tempo de virar a cara ou mudar de canal. Lá está Wellington Menezes em suas múltiplas facetas sempre disposto a nos assombrar com seus delírios patrocinados pela mídia brasileira.

O circo de horrores virou reality show. O problema é que não dá mais tempo pra mandar Wellington pro paredão. É que todos nós fomos eliminados...





Atualização de 18/04/11:

Coluna de Fernando de Barros e Silva (pág. A2) na Folha de S. Paulo de hoje:

O jornalista e o assassino

SÃO PAULO - Há notícias que são de interesse público e há notícias que são de interesse do público. Se a celebridade "x" está saindo com o ator "y", isso não tem nenhum interesse público. Mas, dependendo de quem sejam "x" e "y", é de enorme interesse do público, ou de um certo público (numeroso), pelo menos.

As decisões do BC para conter a inflação têm óbvio interesse público. Mas quase não despertam interesse, a não ser dos entendidos.

O jornalismo transita entre essas duas exigências, desafiado a atender as demandas de uma sociedade ao mesmo tempo massificada e segmentada, de um leitor que gravita cada vez mais apenas em torno de seus interesses particulares.

Um caso como a tragédia de Realengo reúne interesse público e interesse do público em grau máximo. Como combater a circulação de armas no país? Como aumentar a segurança nas escolas? Como enfrentar o problema do bullying? São questões de interesse público e de interesse difuso do público.

Aquém delas, porém, há o fato trágico. Como fazer sua cobertura? Até onde saciar a curiosidade (mórbida) das pessoas? Até onde devassar o sofrimento das famílias? Deve-se expor sem limites os vídeos "preparatórios" do assassino? Deve-se preservar as crianças disso tudo? Até que ponto? E como?

Não há respostas conclusivas a essas perguntas. Mas não fazê-las, sob pretexto de que seriam ingênuas numa época de informação instantânea, equivaleria a deixar o jornalismo e suas opções fora do debate público. É preciso refletir melhor sobre os nossos critérios.

Sobretudo quando o jornalismo se converte em "infotainment" e parece inclinado a se guiar quase exclusivamente pelos interesses "do público". A superexposição midiática, apelativa e, afinal, monótona do assassino serve bem de exemplo. Nunca um vídeo foi tão visto e comentado. É contra esse espetáculo que deveríamos nos opor. Mesmo, ou principalmente, que isso nos pareça uma batalha perdida.

4 comentários:

  1. E a mídia sepre se aproveitando de tudo ... aff mas que droga. Belo post

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  2. Oi maninho. Passei aqui para avisar que estou de blog novo. Por favor, me segue l´maninho




    http://podefucar.blogspot.com/

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  3. Em Folha de São Paulo (18/abr), de Fernando de Barros e Silva - O Jornalista e o Assassino.
    Trechos:
    "Como fazer sua cobertura? Até onde saciar a curiosidade (mórbida) das pessoas? Até onde devassar o sofrimento das famílias? Deve-se expor sem limites os vídeos "preparatórios" do assassino? Deve-se preservar as crianças disso tudo? Até que ponto? E como? . . .
    Sobretudo quando o jornalismo se converte em "infotainment" e parece inclinado a se guiar quase exclusivamente pelos interesses "do público". A superexposição midiática, apelativa e, afinal, monótona do assassino serve bem de exemplo. Nunca um vídeo foi tão visto e comentado. É contra esse espetáculo que deveríamos nos opor. Mesmo, ou principalmente, que isso nos pareça uma batalha perdida."
    Link p/assinantes: http://bit.ly/gsJP09

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  4. Obrigado pela dica, Sérgio!

    Incluí a coluna de Fernando Barros e Silva no texto acima para reforçar o manifesto anti-espetacularização midiática.

    Abraço!

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