sábado, 15 de outubro de 2011

Como o orkut e o facebook explicam o mundo

Quem acompanha as redes sociais percebe que ultimamente existe um movimento curioso de decepção com a, digamos, “ascensão” de uma multidão de pessoas do orkut para o facebook, como se tratasse de mundos diversos e houvesse uma gigantesca gradação de qualidade entre as duas redes. Lembro-me do frisson causado pelo surgimento do orkut ali por volta de 2005, e como as pessoas disputavam a tapa um mísero convite para acessá-lo e, uma vez logrado o objetivo, se sentiam parte de um mundo exclusivo de glamour virtual. O facebook também era um novato na época, e nos últimos anos, conseguiu ter mais sucesso no Brasil enquanto o orkut era vencido pelo cansaço, mas agora parece sofrer do mesmo mal à medida que mais pessoas, por assim dizer, “invadem” o clube privê que os já iniciados acreditavam ser só seu, fenômeno conhecido no meio pelo singelo nome de “orkutização do facebook”. A rigor, não existem diferenças muito significativas entre as duas redes, a não ser pelo volume de amigos e serviços que estão sendo canalizados ao facebook, e a tendência é que este último venha também a se desgastar até que a tribo dos (ex-)pioneiros encontre uma rede nova para aportar a sua fantasia vip.

No fundo, toda esta situação virtual guarda profunda semelhança com a nossa realidade. A recente ascensão social das classes C e D tem incomodado muita gente na classe média brasileira, que se sentia privilegiada no seu pequeno nicho, sem se preocupar com os milhões entregues à miséria, à pobreza e à falta de oportunidades, enquanto eles não invadiam o seu espaço. Dois episódios recentes em São Paulo são sintomáticos. Primeiro, a “higienização de Higienópolis”, em que moradores do bairro se manifestaram contrariamente à instalação de uma estação de metrô na área, alegando que isto traria “gente diferenciada” para as redondezas. Por sua vez, há alguns dias cerca de 1.200 moradores de Pinheiros fizeram um abaixo-assinado (encaminhado ao Ministério Público Estadual) para que um albergue de moradores de rua não fosse transferido para uma área mais nobre da conhecida Rua Cardeal Arcoverde. O tiro saiu pela culatra, entretanto, já que promotor Maurício Antonio Ribeiro Lopes, corajosamente, indeferiu o pedido afirmando textualmente que "e de provocar inveja a qualquer higienista social do Terceiro Reich a demonstração de tal insensibilidade. A ideia - ou que ocupa o que deveria ser o seu lugar - associando pobreza e criminalidade e violência não tem guarida teórica e ética... esse pedido é muito revoltante" (segundo declarou ao Estadão). Além disso, o representante do Ministério Público determinou a abertura de inquérito policial para averiguar a intolerância social dos seis síndicos que assinaram a petição.

É claro que há muitas variáveis (principalmente econômicas) envolvidas, mas o grande traço comum entre as situações acima é o mórbido desejo humano de exclusividade, que importa no privilégio de poucos e na exclusão de muitos das benesses que o uso e o gozo de certas circunstâncias sociais propiciam. Esta vocação humana para reter e isolar o que deveria ser dividido e compartilhado – e ainda se gabar disso - é típica de toda a futilidade e maldade que grassa no mundo. Esta (tristemente rotineira) tentativa de monopolizar a felicidade às custas da desgraça alheia explica desde os atritos virtuais tolos por causa de uma rede social até os genocídios praticados em nome de uma “raça superior”. Todo aquele que se crê portador de uma posição ou mensagem (a seu ver) “iluminada” quer afastar de todos os outros a possibilidade de também alcançá-la, nem que seja a socos, pontapés e tiros de bala. Isto quando não aproveita seu “exclusivismo” para manipular os outros. Como esta característica existe desde que o mundo é mundo, não há esperança de que venha a morrer tão cedo, mas pelo menos a gente pode despertar o adormecido senso de ridículo em muitos deles e ajudá-los a descobrir o que é ser solidário e – verdadeiramente – feliz.




Um comentário:

  1. Essa migração entre redes sociais demonstra o quanto a população mundial não passa de uma grande massa de manobra. É como um gado a seguir o barulho da boiada!

    Permaneçamos firmes!

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